segunda-feira, 15 de julho de 2013

Entrevista da 2ª Max Schrems

folha de são paulo
O Facebook não respeita as leis de privacidade europeias
Fundador do grupo 'Europa contra o Facebook' diz que a única alternativa ao usuário é cobrar leis mais fortes
BERNARDO MELLO FRANCODE LONDRESEm 2011, um austríaco com então 23 anos resolveu desafiar o Facebook. Max Schrems, estudante de direito em Viena, evocou as leis europeias de proteção da privacidade para pedir cópia de todas as informações que a rede social guardava sobre ele.
A resposta veio num dossiê de 1.222 páginas. Além do que o próprio Schrems compartilhava com os amigos, o site armazenava uma pilha de dados à sua revelia, como uma lista dos locais de onde ele acessou o site e os comentários que havia apagado.
A experiência levou Schrems a fundar o grupo Europa Contra o Facebook (Europe vs Facebook, em inglês), que cobra respeito às regras de privacidade dos usuários.
A entidade já teve algumas vitórias, como obrigar o Facebook a desativar uma ferramenta que identificava automaticamente o rosto das pessoas em fotos de terceiros.
Os alertas de Schrems ganharam importância depois que o jornal britânico "Guardian" acusou a rede social de repassar dados para o sistema de espionagem americano Prism, o que a empresa nega. Leia os principais trechos de entrevista concedida à Folha no sábado.
Folha -Por que você decidiu declarar guerra ao Facebook?
Max Schrems - Apresentei a primeira queixa depois de descobrir que o Facebook guardava dados que eu já havia apagado da minha conta. Eles desrespeitam de várias maneiras as leis da União Europeia sobre privacidade. Para fugir dos impostos, o Facebook mantém a sua sede comercial na Irlanda. Isso faz com que, fora da América do Norte, o site tenha que se enquadrar às leis europeias.
Sua organização indicou vários pontos em que a rede social descumpre essas leis. O que precisa mudar?
Já apresentamos 22 queixas sobre temas diferentes. Cada uma delas requer mudanças específicas. Nós não fizemos isso só por reclamar, mas também para mostrar que é possível manter uma rede social que respeite a privacidade das pessoas.
Você pediu cópia de suas informações armazenadas pelo Facebook e recebeu um dossiê de mais de 1.000 páginas. Que tipo de dados eles guardam?
Descobri que eles também armazenavam informações que já haviam sido deletadas ou que foram produzidas e arquivadas sem o meu conhecimento.
Esta é a questão mais controversa. O Facebook espiona usuários e não usuários da rede e tem mais informações do que as pessoas publicam em seus perfis.
Eles também recolhem dados sobre você a partir dos seus amigos e conseguem descobrir coisas através de sistemas estatísticos, que são usados em larga escala.
É possível saber o que o Facebook está fazendo com os dados pessoais de seus usuários?
Não. A maior ameaça à privacidade é que nós não temos nenhum controle sobre o que eles fazem com esses dados em seus servidores dos Estados Unidos.
As empresas têm criado suas próprias políticas de privacidade na internet, mas normalmente elas são tão vagas que permitem que se faça qualquer coisa com as suas informações pessoais.
É sabido que o Facebook mantém um histórico das atividades e dos gostos de cada usuário e processa esses dados para escolher os anúncios que aparecem em sua tela. O que mais eles conseguem fazer?
Isso também não está claro. Um exemplo: eles usam informações do nosso histórico para só nos mostrar o que gostamos de ver. Isso significa que opiniões diferentes das nossas são filtradas para que a gente não se irrite com o conteúdo que aparece quando abrimos o Facebook.
É uma espécie de "censura de bem-estar" na rede. O Facebook coopera quando recebe pedidos ligados a investigações policiais em diversos países, o que é legítimo. Mas agora sabemos que todos os dados estão sendo usados por órgãos de espionagem do governo americano.
Mark Zuckerberg disse ter ficado indignado com as notícias ligando a rede social ao sistema Prism. Você acredita que a inteligência do governo americano tenha acesso direto aos servidores do site?
Eu apostaria meu dinheiro nisso, e acho que seria uma aposta segura. Os EUA já admitiram a existência do Prism. A única alegação deles é que os alvos não são cidadãos americanos. Para mim, que não sou americano, não é uma resposta satisfatória.
Até aqui, não surgiram indícios fortes para desmentir a informação de que o Facebook participa desse esquema de vigilância maciça.
Além disso, sob as leis americanas, você é obrigado a mentir sobre a sua colaboração com esse tipo de esquema. Não vejo motivos para acreditar que a versão deles seja verdadeira.
Que recomendações daria aos usuários brasileiros do Facebook preocupados com sua privacidade?
Acho que agora todos já sabem que é bom pensar duas vezes antes de publicar algo na internet. Individualmente, não há muito o que fazer. Temos que cobrar a criação e o fortalecimento de leis que protejam a privacidade para que essas novas tecnologias voltem a merecer confiança.
Uma ministra na Venezuela sugeriu que a população abandone o Facebook para não trabalhar de graça para a CIA. O que acha desse tipo de recomendação?
O problema prático é que não há alternativas reais. Se você sair individualmente do Facebook, possivelmente vai tentar levar seus amigos para outra rede social.
A única solução real seriam redes sociais abertas, em que você pudesse interagir com pessoas que estão em outras redes. Da mesma maneira que pode mandar um email de um provedor para outro ou ligar para um telefone de outra operadora.
Você ainda usa o Facebook?
Sim. Acho que deixar os serviços que nos espionam não é a solução. Na verdade, você mal consegue usar a internet sem fornecer dados ao Google, à Apple, à Microsoft, à Amazon ou ao Facebook. Temos que fazer com que as empresas respeitem a nossa privacidade, e não passar a nos autocensurar.
Está satisfeito com os resultados da sua campanha? Qual é seu objetivo final?
Já conseguimos que o Facebook desativasse o sistema de reconhecimento facial fora da América do Norte. Eles também tiveram que deletar dados antigos, formular uma nova política de privacidade e montar uma equipe de 15 pessoas só para lidar com as nossas queixas.
    OUTRO LADO
    Rede social diz não colaborar com espionagem
    DE SÃO PAULOPor meio de nota, o Facebook se pronunciou sobre alguns dos pontos levantados pelo ativista Max Schrems.
    A respeito de ter uma sede fiscal na Irlanda para fugir do pagamento de impostos, a empresa diz que tem um escritório em Dublin que emprega 400 pessoas.
    Segundo a rede social, a cidade é a melhor localidade para contratar funcionários que falam várias línguas e com capacidade para gerir uma operação de alta tecnologia que atenda a Europa.
    "O Facebook contribuiu com 400 milhões de euros para a economia de Dublin, gerando 4.500 empregos diretos e indiretos", informou.
    A nota diz ainda que o Facebook "está de acordo com todas as regulações corporativas relevantes, incluindo as relativas à tributação e ao envio de informação fiscal".
    A rede social manteve sua posição sobre o caso de espionagem das agências americanas, alegando não disponibilizar a qualquer organização governamental o acesso a seus servidores.
    "Quando são solicitados dados ou informações sobre indivíduos específicos, examinamos cuidadosamente qualquer pedido e fornecemos informações apenas na medida exigida pela lei."
      RAIO-X
      NOME
      Max Schrems
      IDADE
      25
      NASCIMENTO
      Salzburg (Áustria)
      FORMAÇÃO
      Direito pela Universidade de Viena, concluído em 2012. Está cursando doutorado
      TRAJETÓRIA
      É fundador da entidade Europe versus Facebook, criada em 2011, que tenta forçar o site a respeitar as leis europeias de proteção da privacidade

        Ronaldo Lemos - Detone um game e ganhe como prêmio um emprego

        folha de são paulo



        Nos anos 1980, fez um certo sucesso o filme "O Último Guerreiro das Estrelas". Nele, um garoto comum era chamado a se juntar a um time de guerreiros estelares ao zerar um videogame (que era na verdade uma ferramenta para selecionar os pilotos mais habilidosos do universo).
        Corte para 2013. A empresa Knack está lançando o aplicativo "Balloon Brigade" (brigada dos balões). Trata-se de um game para celular disponível para iPhones.
        É um jogo no estilo do "Angry Birds", mas com muito mais tensão, obrigando o jogador a tomar decisões rapidamente.
        O que poderia parecer mais um inocente joguinho é na verdade uma poderosa ferramenta de análise das habilidades e da personalidade do jogador. Você é uma pessoa propensa a assumir riscos? É mais conservador? O game mede isso e muito mais.
        Analisa uma infinidade de fatores, que leva em consideração a forma como a pessoa realiza cada ação (o jogo foi feito com auxílio de neurocientistas e psicólogos).
        Ao final, o jogador pode mandar a sua avaliação (chamadas de "knacks") para empresas ou mesmo postá-la on-line. Empresas como a Shell já começaram a usar o jogo na busca por talentos.
        "Balloon Brigade" é só o primeiro lançamento da Knack. Seu plano é ambicioso e passa por usar a tão falada "gamificação" para revolucionar a forma de se lidar com recursos humanos.
        Ao mesmo tempo em que faz sentido, traz também preocupações. É mais um território da vida que passa a ser controlado por algoritmos. Quem diria que um filme de férias dos anos 1980 acertaria um tiro tão longo?
        *
        READER
        JÁ ERA Livros e artigos escritos só por humanos
        JÁ É Livros e artigos escritos por algoritmos ou com a ajuda deles
        JÁ VEM Selo "orgânico" para textos: "este artigo foi escrito sem a ajuda de nenhum algoritmo"
        ronaldo lemos
        Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

        Monica Bergamo

        folha de são paulo

        Lei de defesa dos usuários de serviços públicos será votada nesta semana


        Depois de mais de uma década mofando em alguma gaveta do Congresso, será votado nesta semana o projeto que cria a lei de defesa dos usuários de serviços públicos. Será uma espécie de Código de Defesa do Consumidor específico para órgãos estatais e concessionários.
        RESPONSÁVEL
        O projeto define uma série de obrigações --e mais: prevê que os prestadores de serviços "responderão pelos danos que seus agentes causarem ao usuário". Até o STF (Supremo Tribunal Federal) já tinha dado prazo para que os parlamentares criassem a lei, prevista em emenda constitucional de 1998.
        ESPECIAL
        A aposentadoria especial para garçons também deve ser aprovada. O tempo obrigatório de contribuição ao INSS cai de 35 anos (homens) e 30 anos (mulheres) para 25 anos. Já a PEC das domésticas fica para agosto.
        BRINDE
        E o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), vai se casar em setembro. Há dois anos, ele ficou noivo da blogueira potiguar Laurita Arruda Câmara.
        *
        Na festa de aniversário dela, colocou uma aliança Cartier dentro de uma taça de champanhe para fazer surpresa na hora do brinde.
        BRINDE 2
        Outro parlamentar do Rio Grande do Norte que está com casamento marcado é Felipe Maia (DEM-RN), filho do senador José Agripino Maia, presidente do DEM. Ele mandou fechar o resort Txai, na Bahia, para a festa. Seus convidados ficarão nos 40 bangalôs e suítes do lugar, onde já se hospedaram, por exemplo, o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy e sua mulher, Carla Bruni.
        BRINDE 3
        Cada noite num bangalô do Txai sai por R$ 2.120, mais 15% de taxa de serviço. No apartamento mais simples, a diária é de R$ 1.140.
        DUPLA JORNADA
        Zanone Fraissat/Folhapress
        Coautora de "Joia Rara", próxima novela das 6 da Globo, Thelma Guedes refaz a parceria de sucesso com Duca Rachid. Depois de "Cordel Encantando", a dupla mergulha agora no universo do budismo.
        *
        "A história começa com uma avalanche no topo do Everest", conta Thelma. Na companhia dos diretores Ricardo Waddington e Amora Mautner, as autoras passaram três semanas no Tibet.
        *
        O novo folhetim estreia em setembro e terá Bruno Gagliasso e Bianca Bin como protagonistas.
        *
        Thelma também trabalha no momento em um roteiro de um longa. Assina, em parceria com o marido, o escritor Eromar Bomfim, a adaptação para o cinema de "O Olho da Rua", primeiro romance dele.
        CINEBIOGRAFIA
        Anna Muylaert e L.G. Bayão escreveram juntos o roteiro do filme "Irmã Dulce". Segundo a produtora Iafa Britz, 70% dos R$ 9 milhões orçados para o longa já foram captados e as filmagens ocorrem em novembro e dezembro. O filme, com direção de César Rodrigues ("Uma Professora Muito Maluquinha") deve estrear no segundo semestre de 2014.
        A ARTE IMITA A ARTE
        Os atores Marisa Orth, Tuna Dwek, Ilana Kaplan, Alessandra Maestrini e Cláudio Curi foram ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) para assistir à estreia da peça "Eu Não Dava Praquilo", de Cassio Scapin, baseada em Myrian Muniz.

        Marisa Orth e Alessandra Maestrini vão a peça

         Ver em tamanho maior »
        Zé Carlos Barretta/Folhapress
        AnteriorPróxima
        Marisa Orth e Tuna Dwek na estreia da peça "Eu Não Dava Praquilo", com o ator Cassio Scapin, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil)
        VOZ DAS RUAS
        Carta que será enviada à CNV (Comissão Nacional da Verdade) nesta semana critica as "divergências internas" e a "morosidade" dos trabalhos. O documento é assinado por vítimas da ditadura e por entidades como a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos e o Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça.
        VOZ DAS RUAS 2
        Os autores pedem o retorno de Cláudio Fonteles, que deixou a comissão no mês passado, e a substituição de Gilson Dipp, afastado desde setembro por motivos de saúde. Querem ainda "a garantia de que todos os integrantes estejam voltados prioritária e realmente" para a CNV.
        VOZ DAS RUAS 3
        Rosa Cardoso, coordenadora da comissão, informa que "a CNV está sensível aos reclamos da sociedade civil". E que a carta será encaminhada a Dilma Rousseff. Afirma também concordar com outro pedido dos autores: a realização de mais audiências públicas para ouvir agentes da repressão e vítimas.
        CINEMA 'CALIENTE'
        A abertura da 8ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, no Memorial da América Latina, reuniu o diretor de teatro e cinema Mauro Baptista Vedia, a cantora cubana Cucu Diamantes, o cineasta e homenageado da noite, Guido Araújo, e o crítico de cinema Celso Sabadin.

        Cucu Diamantes comparece a abertura de festival

         Ver em tamanho maior »
        Leticia Moreira/ Folhapress
        AnteriorPróxima
        A cantora cubana Cucu Diamantes assistiu, na quinta (11), ao filme que conta a sua relação com os Estados Unidos e o país onde nasceu
        CURTO-CIRCUITO
        Os jornalistas Fernando Morais e Lira Neto falam sobre biografias, nesta segunda-feira (15), às 19h30, na Fnac Pinheiros.
        A pré-estreia para convidados da comédia nacional "O Concurso" é nesta segunda-feira (15) no Cinemark do shopping Eldorado, às 21h30. 14 anos.
        O Bailinho da Bastille, promovido pelo Consulado da França, começa às 18h desta segunda-feira (15), no Sesc Pompeia. Só para convidados.
        Mônica Bergamo
        Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

        Luiz Felipe Pondé

        folha de são paulo

        O rosto da adúltera de Jesus


        Então, Jesus foi abordado por um grupo de pessoas muito preocupadas com a retidão da lei. Traziam consigo uma mulher em prantos que havia sido pega em adultério. Jogada ao chão, ela tremia de medo. O povo pedia para que Jesus fizesse valer a lei: morte da adúltera por apedrejamento.
        Isso foi há 2.000 anos, mas ainda hoje, no mesmo Oriente Médio, tem gente que apedreja mulheres e acha (agora, no Egito) que violentá-las nas praças seja um "direito da soberania popular revolucionária", enquanto se matam, nas mesmas praças, pelo modo ocidental de vida ou por outra forma de lei (o fundamentalismo islamita).
        E assim caminha a humanidade, em ciclos, para lugar nenhum, mas com festas e crenças diferentes no meio, e demagogos a cantar...
        Mas voltemos a Jesus. Fatos como esses me fazem achar que Jesus era um cabra macho. Enfrentar o povo quando este se julga movido pelo correto modo de viver é algo que exige, como dizem los hermanos, "cojones". Jesus disse que quem tivesse livre de pecado que atirasse a primeira pedra. Todos foram embora.
        Esta é uma das passagens típicas do mundo bíblico na qual fica claro o tema da hipocrisia como motivação profunda daqueles que se acham arautos do bem, moral ou político.
        Mas Jesus era um filósofo hebreu e estes filósofos eram diferentes dos filósofos gregos. O mundo bíblico é diferente da filosofia grega. Naquele, o "regime da verdade" (ou modo de busca da verdade) é interno e moral, na filosofia grega é externo e político.
        O problema de saber se o que eu digo é verdade ou não, quando falo ou argumento, inexiste na Bíblia, porque o personagem principal do diálogo é Deus, e Ele sempre sabe de tudo, não há como mentir para Ele como há como mentir para outro homem ou para assembleia "soberana", como na filosofia ou democracia gregas. Segundo o crítico George Steiner, o Deus de Israel irrita porque está em toda parte e sabe de tudo.
        Sabe-se que o advento da democracia grega levou muita gente a pensar sobre a diferença entre pura retórica, que visa o mero convencimento dos outros numa assembleia (eu acho que a democracia é 90% isso mesmo), e a verdade em si do que se fala.
        O problema que nasce daí é a relatividade da verdade, dependendo do ponto de vista de quem fala e de quem ouve. Na Bíblia, o problema é se minto para mim mesmo ou não. Na esfera pública, é o tema da hipocrisia, na privada, o da verdade interior. A Bíblia criou o sujeito e as bases da psicologia profunda.
        Na Bíblia, como o poder é sempre de Deus e ele é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo, o problema é como eu enfrento a mim mesmo. A preocupação com a lei é sempre acompanhada da atenção para com a falsidade de quem diz ser justo.
        Por isso foram os hebreus que deram os primeiros passos para a descoberta do espaço interior onde vejo a distância entre mim e a verdade sobre mim mesmo, em vez de me preocupar com a verdade política, sofro com a mentira moral.
        O crítico Erich Auerbach, no seu "A Cicatriz de Ulisses", parte da coletânea "Mímesis", reconhece este traço do texto hebraico: a relação de atenção e agonia entre Deus e seus eleitos molda o herói bíblico, dando a ele um rosto marcado por uma tensão moral.
        Ainda na Bíblia hebraica, o rei David, o preferido de Deus, em seus belos "Salmos", O encanta justamente porque expõe seu coração sem qualquer tentativa de mentir para si mesmo.
        Santo Agostinho com suas "Confissões" faz eco a David. A literatura monástica e mística medievais cultivou este espaço até seu ressurgimento no século 19 no pietismo alemão de gente como J.G. Hamann, o "mago do norte", ancestral direto do romantismo. Do romantismo e seu epicentro na verdade interior do sujeito, chegamos à psicologia profunda e à psicanálise.
        A filosofia hebraica funda regimes de verdade que leva o sujeito a olhar para si mesmo ao invés de olhar para os outros. Em vez de cultivar uma filosofia política, ela cultiva uma filosofia moral da vida interior na qual não é barulho da assembleia que importa, mas o silêncio no qual os demônios desvelam nossa própria face.
        Luiz Felipe Pondé
        Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".