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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ronaldo Lemos

folha de são paulo

iPhone 'popular' aponta para o futuro da tecnologia


 
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A ficha caiu. O futuro do consumo de tecnologia está na "base da pirâmide" social. Os 5 bilhões de habitantes desconectados do planeta tornaram-se peça importante para empresas de tecnologia.
O Facebook anunciou na semana passada que vai entrar pesado (em parceria com empresas de celular) na expansão da internet para países pobres. O plano traz uma série de questões. Mas o anúncio aponta claramente para onde a empresa está olhando.
A Mozilla também acaba de lançar o Firefox Phone, para população de menor renda. Feito com tecnologia 100% aberta, custa US$ 80. A primeira remessa esgotou-se em uma semana na Inglaterra (o aparelho vai ser lançado também no Brasil, na Colômbia e na Venezuela).
Até a Apple vai soltar um celular popular. A próxima versão do iPhone será dividida em duas. O iPhone 5S será vendido nos EUA como produto topo de linha. Já o iPhone 5C, mais simples, vai para o resto mundo a preço menor. É a primeira vez que a Apple adota uma estratégia de segmentação de preço tão agressiva.
A Samsung também entrou na jogada. Na Índia, a empresa está fabricando celulares no modelo antigo, parecido com os primeiros fones da Nokia. São de baixíssimo custo (menos de US$ 20), mas com funcionalidades um pouco melhores (veja aqui: bit.ly/samindia). Resultado: sucesso absoluto.
O Brasil poderia ter entrado para liderar no desenvolvimento de tecnologia para a base da pirâmide social. A concorrência nesse nicho era pequena e desorganizada. A janela ficou aberta por um bom tempo. Agora começou a se fechar.
*
READER
JÁ ERA Beber ou usar o celular enquanto dirige
JÁ É Usar um aplicativo para chamar um táxi depois de beber
JÁ VEM Pedir bebida no bar, sem fila, com aplicativos como o BarEye.com e o FlowTab.com
ronaldo lemos
Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa do "Tec".

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ronaldo Lemos

folha de são paulo

Novos gadgets apontam o futuro das 'mídias ninjas'

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Na semana passada, a Mídia Ninja deu o que falar ao participar do "Roda Viva".
Para aqueles que já acompanham o trabalho dos seus integrantes, como Bruno Torturra e Pablo Capilé, o programa da TV Cultura não trouxe muitas novidades. Mas serviu para expor suas ideias e práticas para além da cobertura das manifestações.
Poucas perguntas foram voltadas para a linguagem que a Mídia Ninja domina: imagens em primeira pessoa geradas por celular. Esse tipo de registro veio para ficar e vai evoluir junto com a tecnologia. Um exemplo é o jornalista Tim Pool, da revista "Vice", que está usando o Google Glass para a cobertura protestos. Já fez isso no Egito e Istambul.
A vantagem do Glass é que ele tem vários aplicativos úteis em momentos de tensão. Além de mapas, permite fazer tradução em tempo real (Tim usou o recurso para conseguir uma máscara de gás em momento de aperto). Outro ponto positivo é que os óculos inteligentes do Google permitem transmitir os confrontos com a polícia deixando as mãos desocupadas, o que faz diferença.
Um fato curioso: o único lugar em que a cobertura com Glass não deu certo foi o Brasil. Ele tentou, mas a conexão por celular era tão ruim que não foi possível fazer a cobertura ao vivo por aqui.
Tim fez também experimentos com um drone-quadricóptero (que ele chamou de "Ocucóptero"), para cobrir os movimentos "Occupy". O aparelho custa hoje cerca de US$ 600, preço que tende a cair. Esses "brinquedos" vão acabar gerando novas mídias, ninjas ou não. E tensionar as fronteiras do jornalismo e da privacidade.
ronaldo lemos
Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ronaldo Lemos

folha de são paulo

Facebook tem mensagens escondidas em 'pasta secreta'


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Milhões de usuários conectam-se ao Facebook várias vezes ao dia para ver se há novidades no seu painel de notificações.
Os pequenos números vermelhos são tão sedutores a ponto de serem imitados por outros sites para chamar a atenção do usuário.
Só que existe um tipo de mensagem que você recebe pelo Facebook e nenhum numerozinho vermelho acende.
São mensagens que ficam acumuladas em uma pasta "secreta", que pouquíssimos usuários já descobriram. Basta fazer o teste. Clique no tradicional ícone de mensagens. No topo aparecerá em negrito sua "caixa de entrada".
Ao lado dela haverá em cinza bem claro, quase imperceptível, um texto escrito "Outras". Ao clicar, lá vem a surpresa. Dependendo do usuário, pode haver dezenas de mensagens nunca lidas, entre as quais muitas inúteis, mas outras não (no meu caso, havia pelo menos cem mensagens).
Como apontado pelo jornalista David Pogue, do "New York Times", a pasta misteriosa tem explicação.
Ela faz parte do programa "US$ 1 por mensagem" que está sendo implementado pelo Facebook.
Funciona assim: se você quiser escrever para alguém que não faz parte dos seus amigos, há duas opções: pagar US$ 1 e a mensagem ir para a caixa de entrada usual da pessoa.
Ou decidir não pagar e a mensagem ir direto para a pasta "Outras", que pouquíssima gente lê.
Se por um lado isso evita "spam", por outro mostra o poder do design: é fácil conduzir a atenção dos usuários para um lugar e ocultar outro. Mesmo que você acesse o site várias vezes, todos os dias.
READER
JÁ ERA Tablets pensados só para jovens e adultos
JÁ É Tablets para crianças, como o XO, vendido nos EUA
JÁ VEM Tablets para idosos, como o Clariscompanion.com, que vira um porta-retrato digital quando desligado
ronaldo lemos
Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Brincando de Prism: como monitorar seus e-mails - Ronaldo Lemos

folha de são paulo

Brincando de Prism: como monitorar seus e-mails


 
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Quer saber como funciona o Prism, o programa dos EUA para vigiar internautas? É fácil, basta aplicar o método de análise em você mesmo. Para isso, é só ir ao site do projeto Immersion (imersão) no link bit.ly/immersn.
Quem usa Gmail faz o login autorizando o site a analisar todos as mensagens que você enviou e recebeu na vida. O resultado assusta. Vem na forma de um gráfico com todas suas relações sociais vistas por meio dos e-mails. Mostra as pessoas com quem mais temos contato e as "turmas" com quem falamos: trabalho, família, amigos etc.
O gráfico indica também quem conhece quem nos seus diferentes círculos sociais (e mostra quem foi apresentado primeiro!). Tudo isso sem entrar no conteúdo das mensagens. O Immersion (assim como o Prism) analisa apenas "metadados", ou seja, o "envelope" das mensagens, que mostra de onde elas vieram e para onde foram.
Quem acha que analisar só metadados é tranquilo e não afeta a privacidade vai se surpreender. O mero endereçamento revela muito: círculos sociais, grau de proximidade e mais. Isso feito em escala planetária preocupa (por isso implico com a Anatel quanto ao banco de dados que a agência tem com os metadados das ligações telefônicas de todos os brasileiros).
Importante: o Immersion foi feito pelo MIT Media Lab, respeitado laboratório de mídia dos EUA (do qual, vale dizer, sou pesquisador). Por isso, o usuário pode simplesmente pedir para apagar todos os seus dados quando sair. Oxalá essa mesma opção estivesse disponível em todos os serviços da internet.
READER
JÁ ERA Ser monitorado e não ter defesa contra isso
JÁ É Bloquear monitoramento com plug-ins do Firefox como o Ghostery.com
JÁ VEM Bloquear monitoramento no celular com versões do Android como o CyanogenMod
ronaldo lemos
Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ronaldo Lemos - Detone um game e ganhe como prêmio um emprego

folha de são paulo



Nos anos 1980, fez um certo sucesso o filme "O Último Guerreiro das Estrelas". Nele, um garoto comum era chamado a se juntar a um time de guerreiros estelares ao zerar um videogame (que era na verdade uma ferramenta para selecionar os pilotos mais habilidosos do universo).
Corte para 2013. A empresa Knack está lançando o aplicativo "Balloon Brigade" (brigada dos balões). Trata-se de um game para celular disponível para iPhones.
É um jogo no estilo do "Angry Birds", mas com muito mais tensão, obrigando o jogador a tomar decisões rapidamente.
O que poderia parecer mais um inocente joguinho é na verdade uma poderosa ferramenta de análise das habilidades e da personalidade do jogador. Você é uma pessoa propensa a assumir riscos? É mais conservador? O game mede isso e muito mais.
Analisa uma infinidade de fatores, que leva em consideração a forma como a pessoa realiza cada ação (o jogo foi feito com auxílio de neurocientistas e psicólogos).
Ao final, o jogador pode mandar a sua avaliação (chamadas de "knacks") para empresas ou mesmo postá-la on-line. Empresas como a Shell já começaram a usar o jogo na busca por talentos.
"Balloon Brigade" é só o primeiro lançamento da Knack. Seu plano é ambicioso e passa por usar a tão falada "gamificação" para revolucionar a forma de se lidar com recursos humanos.
Ao mesmo tempo em que faz sentido, traz também preocupações. É mais um território da vida que passa a ser controlado por algoritmos. Quem diria que um filme de férias dos anos 1980 acertaria um tiro tão longo?
*
READER
JÁ ERA Livros e artigos escritos só por humanos
JÁ É Livros e artigos escritos por algoritmos ou com a ajuda deles
JÁ VEM Selo "orgânico" para textos: "este artigo foi escrito sem a ajuda de nenhum algoritmo"
ronaldo lemos
Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

É hora de todo mundo passar a utilizar bem o 'Big Data'

folha de são paulo
INTERNETS
RONALDO LEMOS
@lemos_ronaldo
O termo "Big Data" está no ar. Ele se refere ao uso de ferramentas analíticas para processar (e visualizar) uma grande quantidade de informações.
Apesar de estar virando carne de vaca, a expressão ainda vai aparecer muito em conversas antenadas, especialmente entre quem lida com mídia, tecnologia e design.
Estão pipocando empresas e iniciativas acadêmicas especializadas em processar dados das redes sociais. Por exemplo, mapeando termos mais usados na rede, como eles mudam ao longo do tempo e quem influencia quem.
Só que as ferramentas de análise que se democratizaram vão virando "commodity". Programas gratuitos como o SumAll, ou sites como o ManyEyes (criado pela brasileira Fernanda Viégas) ajudam não só na análise como na visualização de dados.
Empresas como a Amazon e o próprio Google incorporam cada vez mais ferramentas de big data nos seus serviços.
Com isso, qualquer cidadão pode virar um analista de dados. A questão é como ter acesso a bons conjuntos de dados a serem processados.
É fundamental que a lei de acesso à informação seja aplicada para dados do governo, assegurando que eles estejam disponíveis a todos e minimamente organizados.
É um jeito de atender de forma inteligente à demanda por participação pública em voga. Quanto mais olhos digitais observando o governo (e não vice-versa!), melhor.

    segunda-feira, 1 de julho de 2013

    A insatisfação na internet é real e não deve ser ignorada

    folha de são paulo
    INTERNETS
    RONALDO LEMOS - @lemos_ronaldo
    Lição para governantes brasileiros: não ignorem a internet. As manifestações demonstram que por trás de cada "xingar muito no Twitter" existe alguém com insatisfações reais. Quando ignoradas por muito tempo, basta um estopim para as pessoas se organizarem.
    As demandas das ruas já eram visíveis na rede, ainda que dispersas. As manifestações marcam o momento em que a internet não pode mais ser tratada como "perfumaria". A rede tornou-se parte inelutável da nova opinião pública expandida.
    Foi o que aconteceu. A rede tomou as ruas. As manifestações da semana do dia 17 pareciam a timeline do Facebook materializada. Uma hora vinha o grupo da diversidade sexual, depois o da reforma política, o da corrupção e assim por diante. Todos com agendas próprias, muitas contraditórias.
    Por conta disso, muita gente voltou para a rede dizendo que vai "bloquear quem falar sobre o assunto X ou Y". Nada mais errado. É nesse momento de tensão social que é necessário ouvir opiniões divergentes. O Facebook, por natureza, já nos oferece nossa própria imagem.
    Bloquear quem pensa diferente significa rompimento e radicalização. O todo misturado divide-se em grupos homogêneos, que se fecham para o diálogo.
    É algo que começa a ocorrer nas próprias ruas. As passeatas "timeline" estão ficando para trás e vários protestos agora são feitos por grupos específicos. A divisão nas ruas é profecia de divisões na rede (a "balcanização" on-line é um fenômeno que já acontece globalmente).
    O fato é que há insatisfação geral com os "termos de uso" do sistema político. A mesma tecnologia que colocou milhares nas ruas pode aperfeiçoar a participação pública. A sociedade já se comunica em rede. Só os governos não escutam.
    READER
    JÁ ERA Ignorar reclamações que acontecem na internet
    JÁ É Empresas como a Microsoft mudando o Windows e o Xbox One por causa de reclamações on-line
    JÁ VEM Países mudando leis e até a Constituição por causa de reclamações on-line

      segunda-feira, 24 de junho de 2013

      A primavera é contagiosa, os sintomas já estão aqui

      folha de são paulo
      INTERNETS
      RONALDO LEMOS - @lemos_ronaldo
      Você sabia? Que a Tunísia, berço da Primavera Árabe, juntou-se a uma coalizão de 20 países em defesa de uma internet livre e aberta?
      Que há dois anos o país era uma ditadura, onde a rede era censurada, e que hoje é uma jovem democracia onde qualquer pessoa fala o que quiser on-line?
      Como dizem por lá, "falta emprego e educação, mas ao menos eu posso dizer quem é o culpado".
      Você sabia? Que cinco países da América Latina deixaram o Brasil para trás e aprovaram leis defendendo a neutralidade da rede? São eles Chile, Colômbia, Equador, México e Peru.
      Que o Marco Civil da Internet, projeto de lei que protege a privacidade de usuários, a liberdade de expressão e a neutralidade da rede vai completar em agosto dois anos no Congresso sem aprovação?
      E que, enquanto é ignorado no Brasil, virou inspiração para vários outros países (até a Jordânia!) para a criação de novas leis protegendo a liberdade na rede?
      Você certamente sabe que os jovens estão na rua e que os partidos e as forças políticas tradicionais não entendem direito a razão, mas querem em vão tirar uma casquinha de um movimento que é justamente o reverso da falta de representatividade da política tradicional.
      A primavera é contagiosa. A energia que primeiro manifestou-se em Túnis mudou o país e a região. O processo de avanços e retrocessos continua e não é fácil.
      Estamos agora vivendo a adrenalina de que tudo pode acontecer.
      -
      JÁ ERA Achar normal a passagem de ônibus subir para R$ 3,20
      JÁ É Perceber que a situação do transporte público sintetiza vários dos problemas do país
      JÁ VEM A internet consolidando-se como o principal fórum para debater a questão

        segunda-feira, 17 de junho de 2013

        Sua vida digital não é só sua

        folha de são paulo
        Programa americano que vigia a internet reacendeu debates sobre privacidade na rede. Afinal, devemos nos preocupar?
        BRUNO FÁVEROCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAEm um episódio com cara de filme de espionagem, Edward Snowden, funcionário da Agência Nacional de Segurança dos EUA, vazou documentos secretos que revelaram um extenso sistema de vigilância da internet, chamado Prism, mantido desde 2007 pelo governo americano.
        A descoberta de que o Estado pode ter acesso a e-mails, conversas e dados pessoais de usuários reacendeu a discussão sobre privacidade na rede. Afinal, devemos nos preocupar em ser vigiados?
        Patrícia Peck, advogada especialista em direito digital, explica que uma empresa só cede informações de usuários sob ordem judicial específica ou com um pedido de autoridade, mas faz um alerta.
        "Na maioria dos serviços gratuitos, os termos de uso dizem que as informações postadas também passam a ser de propriedade de quem presta o serviço". Na prática, isso significa que as empresas são tão donas do que é postado, dos e-mails ou do que é escrito no chat do Facebook quanto os usuários.
        O Prism mostra o quão complexa a questão pode se tornar. O projeto foi criado com base em uma lei dos EUA. Como boa parte das empresas da internet são de lá, o governo americano tem acesso a dados de usuários do mundo todo.
        "A internet tem uma sensação de desterritorialização', mas os serviços são prestados por empresas situadas nos EUA e, grande parte das vezes, seus termos de compromisso submetem usuários do resto do mundo às leis americanas", explica Carlos Affonso de Souza, professor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV.
        Para Peck, o problema é que o Brasil ainda não tem uma legislação específica para regulamentar a internet. "Se houvesse uma lei protegendo usuários, as empresas de tecnologia que quisessem oferecer seus serviços aqui teriam que se adequar", afirma.
        Souza diz que iniciativas de vigilância como o Prism devem, sim, ser motivo de preocupação, mas que a discussão sobre privacidade na internet deve ir além, abordando também o papel das companhias e o uso cotidiano das redes sociais.
        "Muita gente diz o que eu faço na internet não tem importância, é trivial', mas dados em grande volume podem dar informações sensíveis", diz, citando como exemplo o caso da empresa americana Target, que criou um algoritmo supostamente capaz de descobrir quais clientes suas estavam grávidas a partir de seus hábitos de consumo.
        "Não é uma fala alarmista do tipo vamos sair todos das redes sociais', mas as pessoas devem fazer um filtro do que vai para a internet", afirma.
        Atualmente, há pelo menos dois projetos de lei sobre o assunto no Brasil. O Marco Civil, espécie de "Constituição da Internet", aguarda aprovação na Câmara. Enquanto isso, o Ministério da Justiça elabora um texto para a lei de proteção de dados pessoais.
          Temor sobre privacidade abala setor de tecnologia
          Insegurança sobre como grandes empresas ajudaram o governo pesa
          "Você tem privacidade zero. Pare de se incomodar com isso", disse executivo da Sun Microsystems em 1999
          DAVID STREITFELDDO NEW YORK TIMESO mundo da tecnologia no Vale do Silício, região dos EUA notória por concentrar empresas do setor e que não está acostumada a duvidar do futuro da internet, vive dias de desgosto.
          Manter Washington afastada sempre foi um esforço. Regulamentação governamental sufocaria a inovação, os empreendedores repetiam.
          Assim, a primeira coisa intrigante para alguns observadores é o fato de que companhias importantes --entre as quais Microsoft, Google, Yahoo, Apple e Facebook--sejam acusadas de facilitar o acesso a seus dados.
          As empresas negam ter colaborado diretamente com o Prism (leia mais abaixo), mas não parecem ansiosas por falar sobre como colaboraram indiretamente, e sobre que limite teria sido imposto.
          "O sucesso de qualquer companhia se baseia não apenas no valor dos produtos que oferece, mas também no nível de confiança que seja capaz de estabelecer", afirma Adriano Farano, cofundador da Watchup, produtora de um aplicativo que personaliza vídeos jornalísticos. "O que está em jogo é a credibilidade de um ecossistema".
          E trata-se de um que depende de dados pessoais.
          Novas tecnologias como o Google Glass avançam por territórios que até recentemente eram inatingíveis. De grandes empresas a novas companhias, o setor de tecnologia fervilha com planos para recolher os dados mais íntimos de seus usuários e usá-los para vender coisas.
          "Estamos pressionando o governo a nos proteger, mas também colocamos mais e mais informações sobre nós mesmos em lugares que permitem que outras pessoas as vejam", diz Christopher Clifton, cientista da computação da Universidade Purdue que pesquisou sobre métodos de coleta de dados que preservam a privacidade. "O fato de que parte desse todo será estudado pode perturbar, mas não surpreende", declara.
          O presidente Barack Obama, tentando atenuar os protestos, diz que os alvos do programa são cidadãos estrangeiros, e que vale a pena ceder um pouco de privacidade em troca de segurança.
          PROBLEMA ANTIGO
          Mas o monitoramento de dados é um problema que estava por surgir há tempos.
          As grandes fabricantes de computadores sempre venderam sistemas ao governo e empresas iniciantes de toda espécie sobrevivem com informações pessoais. Por outro lado, as companhias sempre tentaram evitar regras governamentais que restringissem sua visão --e seus lucros.
          Em 1999, Scott McNealy, presidente-executivo da Sun Microsystems, resumiu a atitude do Vale do Silício quanto aos dados pessoais com uma declaração que define o "boom" da internet: "Você tem privacidade zero. Pare de se incomodar com isso."
          McNealy não retira o comentário, ou não todo ele, mas diz que hoje se preocupa mais do que no passado sobre possíveis abusos.
          Ele, porém, argumenta que os fabricantes de computadores têm alguma responsabilidade pela criação do estado de vigilância. "É como culpar os fabricantes de armas pela violência ou uma montadora pelos motoristas embriagados". O problema real, ele diz, é "o avanço no alcance do governo. Acho ótimo que eles estejam tentando identificar o próximo terrorista. Mas já imagino se isso significa que vão me bisbilhotar."
          Aaron Levie, fundador do Box.com, sistema de compartilhamento de arquivos, brincou no Twitter que o Prism apenas reuniu em um mesmo local todos os dados do Gmail, Google, Facebook e Skype. "A NSA chegou antes que cerca de 30 startups com essa ideia", escreveu.
            ANÁLISE
            Rede está virando uma ferramenta de vigilância
            RONALDO LEMOSCOLUNISTA DA FOLHAO escândalo do acesso a dados de usuários por parte do governo do EUA reforça uma constatação cada vez mais evidente: a internet (e outras redes) estão se convertendo em sistemas massivos de vigilância.
            Os EUA enfrentam agora uma situação paradoxal. A ex-secretária de Estado Hillary Clinton rodou o mundo disseminando a ideia de uma paz americana para a rede. Ela enfatizou seu papel para a democracia, citando as revoluções árabes. Enquanto o discurso acontecia, nos bastidores, os EUA punham em prática seu sistema secreto de vigilância, de fazer inveja às posturas da China. Fica a impressão que os EUA foram libertários no discurso e liberticidas na prática.
            Para que a internet não se transforme em máquina universal de vigilância, o único antídoto é a lei. Somente ela pode impor limites ao uso desenfreado. Nem a política, fatores econômicos ou a própria tecnologia são capazes de prevenir o crescimento do "panopticon" digital.
            Por essa razão, as constituições democráticas estão sendo postas à prova. O que significam a proteção à privacidade, as liberdades civis e o devido processo legal quando aplicados à internet? A justificativa de Obama foi que, nos EUA, todo o sistema foi aprovado antes pelo Congresso e que mudanças deveriam receber o mesmo aval.
            Já no Brasil permanece um grande vácuo legislativo. O Marco Civil da Internet, projeto que visa a proteger os direitos dos usuários com relação ao tema, permanece parado na Câmara.
            Enquanto isso, o vazio é preenchido pela Anatel. Em agosto de 2012, a agência outorgou-se poderes para acessar diretamente os registros das chamadas telefônicas de todos os usuários no país. Em maio de 2013, por meio de resolução, obrigou os grandes provedores de internet a guardarem todos os registros de conexão dos usuários por um ano. A justificativa é, respectivamente, fiscalizar a qualidade dos serviços e coibir crimes.
            Mas pode a Anatel regulamentar questões tão complexas por meio de resolução? Não seria esta uma competência privativa da lei? São questões que, tais como muitos aspectos do escândalo nos EUA, permanecem sem resposta em nosso país.

              Reforma do direito autoral só acontece fora da lei

              folha de são paulo
              INTERNETS
              RONALDO LEMOS - @lemos_ronaldo
              Vários países (incluindo o Brasil) estão tentando adaptar suas leis de direito autoral para a internet.
              A maioria dessas tentativas está parada.
              Enquanto isso, a caravana anda. A reforma do direito autoral está acontecendo fora da lei, com novos modelos de licenciamento.
              É só pensar nos e-books. Pela lei, o dono de um livro físico pode emprestar, dar de presente ou vender o livro para um sebo. Esses direitos não se aplicam aos e-books. Eles não são "livros", mas um software regulado por licenciamento.
              Em boa parte deles não há direito de revenda, empréstimo ou doação. Alguns chegam até a proibir a leitura em voz alta. Tentativas de se criar "sebos" virtuais (como o ReDigi.com), onde e-books poderiam ser revendidos, estão sendo atacadas (e vencidas) judicialmente.
              Ao mesmo tempo, o YouTube e outros sites mudam o funcionamento do direito autoral. Quando um vídeo é colocado ilegalmente no YouTube, seu dono tem duas opções: pedir sua retirada ou pedir o reconhecimento de autoria, aceitando que o vídeo continue on-line e se beneficiando da receita publicitária gerada por ele.
              Isso transforma a pirataria do vídeo em oportunidade de negócios. Quanto mais o vídeo for "pirateado" (e mais anúncios mostrados nele), mais dinheiro o autor do vídeo ganha.
              Foi o que aconteceu com o hit "Gangnam Style". Com suas milhões de versões e regravações (ilegais pelo direito autoral), faturou alto.
              Com isso, o direito autoral na prática está sendo modificado privadamente, por meio de novos modelos de licenciamento. Se a nova lei finalmente vingar, é possível que já chegue velha.
              READER
              JÁ ERA Privacidade
              JÁ É O escândalo da violação da privacidade nos EUA
              JÁ VEM O Brasil continuando a não ter uma lei para proteger a privacidade na rede

                segunda-feira, 27 de maio de 2013

                Surge um novo gênero de game, o "jogo-ensaio"

                folha de são paulo
                INTERNETS
                RONALDO LEMOS - @lemos_ronaldo
                Surge um novo gênero de game, o "jogo-ensaio"
                Bateu preguiça de ler sobre questões como geopolítica, economia informal e outros temas "sérios"? Que tal então um jogo sobre esses assuntos?
                Está se consolidando um gênero de games que pode ser chamado de "jogo-ensaio". São jogos bacanas, com boa jogabilidade, só que tratando em detalhes de temas complexos. E com o brilho de um bom ensaio de jornalismo literário da revista "New Yorker".
                Um precursor é o jogo "Unmanned", que fala dos drones, aviões militares não-tripulados que estão na ponta de várias discussões geopolíticas (você pode jogar aqui:bit.ly/vZNqJQ).
                O game mostra a dimensão humana (e trágica) dos ataques com drones. O jogador entra na pele de um operador de drones e segue seus dilemas no dia a dia (a vida de civis em áreas politicamente instáveis depende de fatores como se ele tomou café ou está impaciente).
                Outro jogo-ensaio é o "Papers, Please" (bit.ly/11huz3z), em que o jogador atua como um oficial de imigração decidindo quem entra ou não no país. Não é fácil lidar como o drama de ter de recusar a entrada de refugiados ou autorizar pessoas claramente suspeitas, mas com papeis em ordem.
                Por fim, um jogo bom para a realidade brasileira: "Cart Life" (bit.ly/kbR3Wr) é um simulador de camelô. É também um detalhado ensaio sobre a economia informal, o drama do desemprego e as dificuldades de sobreviver no comércio de rua. Poucos textos foram capazes de apresentar a questão com tantos detalhes, de forma intrigante e divertida.
                Nas entrelinhas dos jogos-ensaio está também uma boa discussão sobre o futuro das narrativas, da literatura e do próprio jornalismo.
                -
                READER
                Já ERA Andar com uma garrafinha de uísque no bolso
                Já É Séries de TV como "Mad Men" revivendo o hábito de carregar bebida no bolso
                JÁ VEM iFlask, garrafinha de uísque na forma de iPhone, para carregar no bolso (bit.ly/15ekMkY)

                  segunda-feira, 13 de maio de 2013

                  'Design é novo MBA', afirma diretor do MIT Media Lab

                  folha de são paulo

                  INTERNETS
                  RONALDO LEMOS
                  @lemos_ronaldo
                  'Design é novo MBA', afirma diretor do MIT Media Lab
                  Essa foi a mensagem de Joi Ito, quando esteve no Brasil, na semana passada. O mesmo papel que os MBAs tiveram na estruturação da gestão de empresas, o design terá em diversos campos sociais.
                  A razão é que o mundo mudou. Organizações hierárquicas competem com redes fluidas de cooperação, mais eficientes, onde a agilidade é elemento central.
                  O design torna-se o programa ideal para ensinar habilidades necessárias nesse contexto. Não apenas desenhar produtos, mas repensar a cidade, os hábitos, as organizações, a política ou a academia.
                  Joi Ito dirige uma das instituições acadêmicas mais prestigiosas do planeta, mas não completou a graduação. Preferiu investir tempo explorando: foi DJ e apresentador de TV, até se consolidar como investidor de empresas como Twitter e Kickstarter.
                  Hoje, está no conselho de empresas como "The New York Times", Sony e Mozilla.
                  Ele está de olho no Brasil. Acha que o país precisa apostar em inovação. Diz que, tão importante quanto ter foco, é ter uma boa visão periférica. E que os brasileiros têm naturalmente essa habilidade.
                  Ele acha que organizações, incluindo empresas e a academia, precisam ser "antidisciplinares". Em dois sentidos. Rompendo as barreiras entre os conhecimentos ao criar espaços onde antropólogos falam com advogados, cientistas da computação etc. E no sentido tradicional da palavra, de questionar autoridade.
                  Nas suas palavras, "ninguém ganha um prêmio Nobel fazendo o que outras pessoas dizem para você fazer".
                  READER
                  JÁ ERA Esperar 30 dias para receber uma compra pela rede
                  JÁ É Compras on-line entregues em até dois dias
                  JÁ VEM Produtos comprados na rede chegando no mesmo dia (ao menos nos EUA)

                    segunda-feira, 6 de maio de 2013

                    Ronaldo Lemos

                    folha de são paulo

                    Facebook está ameaçado por gangorra das redes sociais


                    Em janeiro de 2007, um consultor chamado John Barrett escreveu um artigo dizendo que o MySpace (então a rede social do momento) era imbatível, um "monopólio natural" com futuro brilhante.
                    O artigo repercutiu no "Guardian", um dos jornais mais respeitados do mundo. Hoje, o site, que chegou em 2006 a ser maior que o Google em número de acessos, é irrelevante.
                    A furada do consultor mostra que na internet nada é tão seguro quanto parece. Gigantes aparecem e desaparecem em alta velocidade.
                    O mesmo jornal publicou na semana passada um artigo sobre o Facebook apontando na direção contrária. A rede social que hoje parece imbatível estaria perdendo fôlego.
                    Só em março, o Face perdeu 6 milhões de usuários nos EUA e 2 milhões na Inglaterra. Canadá, França, Espanha e Japão são outros países que tiveram redução de usuários.
                    No Brasil, o crescimento segue firme. Em março, o Face alcançou 70 milhões de usuários aqui, alta de 6%. Apesar do potencial dos mercados emergentes, há outros fatores preocupando o Facebook. Um deles é a competição das redes sociais baseadas no celular, como o WhatsApp.
                    Muitos jovens já veem o Facebook com jeitão de velho e pesado. Preferem se conectar aos amigos por esse tipo de aplicativo mais leve.
                    Curiosamente, o próprio WhatsApp já enfrenta um competidor de peso: a empresa chinesa WeChat, que, a partir do mercado asiático, quer conquistar mundo (o WeChat merece um artigo só sobre ele).
                    Cada vez mais, tudo que é sólido se desmancha na internet.
                    *
                    JÁ ERA Teclado
                    JÁ É Telas sensíveis ao toque
                    JÁ VEM Controlar o tablet por ondas cerebrais (engt.co/179zEhu)
                    ronaldo lemos
                    Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como "Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música" (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

                    segunda-feira, 22 de abril de 2013

                    Autopublicar é só o começo: a série "Wool" vai virar filme

                    folha de são paulo

                    INTERNETS
                    RONALDO LEMOS ronaldolemos09@gmail.com
                    Você talvez ainda não tenha ouvido falar da série de livros de ficção científica chamada "Wool". Mas é provável que vá ouvir muito em breve. Até porque os direitos para o cinema foram adquiridos por Hollywood e Ridley Scott quer produzir o filme.
                    Só um detalhe: "Wool" foi escrito por um autor amador chamado Hugh Howey.
                    Ele escreveu o livro enquanto trabalhava como funcionário de uma livraria. Howey autopublicou os textos pela Amazon (por meio do site "Kindle Direct", aberto a qualquer pessoa).
                    Em menos de seis meses, 14 mil cópias foram vendidas. Pouco depois, ele faturava cerca de R$ 26 mil por mês com as vendas.
                    Foi quando começou o assédio de editoras tradicionais para contratá-lo. Howey não aceitou as ofertas. As vendas continuavam a crescer, gerando R$ 240 mil por mês.
                    Até que a editora Simon & Schuster propôs um acordo irrecusável. Ele recebeu um adiantamento de cerca de meio milhão de dólares (cerca de R$ 1 milhão) pelo direito de publicar o livro em papel. Mas conseguiu uma grande concessão: manteve o direito de continuar a vender ele mesmo o livro digital.
                    "Wool" se passa em um mundo pós-apocalíptico onde a humanidade vive em silos sob a terra. Tudo é tão escasso que para uma pessoal nascer outra tem de morrer.
                    Quem ficou curioso não precisa esperar muito. Uma editora brasileira adquiriu (por uma pequena fortuna) os direitos de publicação para o país.
                    Até pouco, autopublicação de livros era coisa de malucos. Hoje esses "malucos" são ponta de lança da indústria editorial.
                    JÁ ERA
                    Entregar jornal só em papel
                    JÁ É
                    Entregar o jornal digitalmente, no computador ou tablet
                    JÁ VEM
                    Entregar o jornal por meio de drones (bit.ly/11W4Hyb)

                      segunda-feira, 15 de abril de 2013

                      Pague para ver os filmes nos sites dos cineastas

                      folha de são paulo

                      INTERNETS - RONALDO LEMOS
                      Quer assistir a três filmes ótimos? Então esqueça os cinemas e fique de olho na internet. Cada vez mais, cineastas antes "independentes" só na forma de produzir os filmes estão se tornando independentes também na hora de distribuí-los. E usando a rede para isso.
                      É o caso no novíssimo (e aguardado) filme "Upstream Color", do diretor, ator, roteirista e produtor Shane Carruth. Ele ganhou notoriedade por ter produzido uma gema cinematográfica, o filme "Primer" (2004).
                      Feito com míseros US$ 7.000 (cerca de R$ 14 mil), o longa trata de engenheiros que por acaso inventam um jeito de voltar no tempo. Só que Carruth faz isso de forma original, densa e realista.
                      O diretor também vai distribuir "Upstream Color" no próprio site. Quem quiser ver, vai comprar o filme diretamente dele (vale a pena, o filme é tão bom quanto "Primer").
                      A mesma estratégia foi adotada por Hal Hartley, cineasta "cult" dos anos 1990 que dirigiu filmes como "Amateur" e "As Confissões de Henry Fool". Seu simpático novo filme, "Meanwhile", só pode ser visto se comprado diretamente pela internet em DVD (bit.ly/lQT3F8).
                      Outro que aderiu ao modelo é Larry Clark, diretor de filmes sobre adolescentes como "Kids", que lançou a atriz Chloe Sevigny nos anos 1990. Para ver seu novíssimo "Marfa Girl", só na rede.
                      Basta pagar US$ 5,99 (cerca de R$ 12) pelo streaming e apertar play diretamente no seu site (bit.ly/R2jcpM).
                      As receitas assim podem ser menores, mas vão diretamente para a produção. Para cineastas que possuem um número estável de fãs, pode ser bom negócio.
                      -
                      READER
                      JÁ ERA Independência cinematográfica só na produção
                      JÁ É Distribuir o filme no próprio site
                      JÁ VEM Netflix, Amazon e iTunes disputando a nova geração de cineastas "indie"

                        segunda-feira, 11 de março de 2013

                        Entenda melhor o misterioso caso dos posts do Facebook

                        folha de são paulo

                        INTERNETS
                        Ronaldo lemos
                        @lemos_ronaldo

                        Com um empurrão do "New York Times", a semana passada foi cheia de polêmicas envolvendo o Facebook.
                        O debate girou em torno de uma questão importante: quantos dos seus amigos de fato têm acesso ao que você posta na rede social?
                        Essa é uma pergunta difícil de responder. Um estudo recente afirma que cada post é visualizado por apenas 30% dos seus amigos cadastrados (nyti.ms/WNUjqP).
                        Só que a situação fica ainda mais complicada. O Face introduziu recentemente a possibilidade do usuário patrocinar seus próprios posts.
                        Funciona assim: você paga cerca de R$ 13 e em troca o site amplia o alcance da sua publicação específica. Só que há muita gente reclamando.
                        Ao que parece, o Facebook está diminuindo o alcance dos posts para então cobrar para que eles sejam mostrados para quem já deveria ter acesso a eles.
                        O colunista Nick Bilton, do "New York Times", afirma que alcançava até 550 "likes" em suas publicações quando tinha 25 mil assinantes.
                        Mesmo depois de ter chegado a 400 mil, ele mal ultrapassava 30 "likes" por post. Ao pagar os R$ 13, ele viu o número subir novamente para 130, mas nunca voltar ao patamar original.
                        Isso mostra um desdobramento interessante nos modelos de negócio da rede. O Facebook está apostando que as pessoas querem pagar para serem ouvidas.
                        Faz sentido. O que não falta é gente falando e produzindo informação. A escassez é justamente de ouvidos e olhos para prestar atenção em tudo.
                        O Facebook está usando a carência universal por atenção para ganhar dinheiro. Na sua visão, viramos todos publicitários de nós mesmos.

                          segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

                          Chile aprova lei para abrir empresa em um único dia

                          folha de são paulo

                          INTERNETS
                          Ronaldo Lemos
                          @lemos_ronaldo
                          Quanto tempo é necessário para abrir uma empresa no Brasil? 119 dias. Se você acha muito, espere para ver quanto tempo leva para fechar uma empresa!
                          O custo de abertura também é salgado. Em média, R$ 2.038. Isso é uma ducha fria para qualquer empreendedor, especialmente aqueles interessados em internet.
                          Já nosso vizinho, o Chile, acaba de dar um olé no Brasil. Os hermanos aprovaram uma nova lei em que a abertura de empresas passa a ser feita em um único dia. Tudo pela internet, sem papelada.
                          E, para completar, a custo zero. O Chile percebeu que a melhor forma de promover o desenvolvimento é apostar na dobradinha empreendedorismo e inovação.
                          Outro exemplo de medida adotada por lá é o programa "Start-up Chile". Concede até R$ 80 mil para pessoas de qualquer lugar que queiram desenvolver uma boa ideia empresarial no país.
                          Até a obtenção de vistos é facilitada, tudo para atrair talentos globais. Os resultados são eloquentes: 600 start-ups criadas, originadas em 50 países diferentes.
                          Há alguns dias visitei a incubadora de empresas 21212 (o nome mistura o prefixo do Rio com o de Nova York), no Rio de Janeiro.
                          Fiquei surpreso com garotos e garotas, muito jovens, todos mandando ver em suas pequenas empresas de tecnologia.
                          Conversando com o fundador do projeto, Benjamin White, concordamos que os jovens brasileiros têm a ambição de empreender na internet.
                          O problema é que ficam desapontados assim que percebem o tamanho da encrenca da burocracia do país. Nesse quesito, o Chile está ganhando de goleada do Brasil.
                          READER
                          JÁ ERA "Guitar Hero" e "Rock Band" marcando época
                          JÁ É "Guitar Hero" descontinuado pela Activison
                          JÁ VEM "Rock Band" descontinuado pela Harmonix

                            segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

                            Entenda como se lança uma tendência na música hoje - Ronaldo Lemos

                            folha de são paulo

                            INTERNETS
                            Entenda como se lança uma tendência na música hoje
                            Quem acompanha a reinvenção da indústria musical deveria prestar atenção nos projetos do produtor Diplo.
                            Responsável por sucessos planetários como "Paper Planes", da M.I.A., ele é um dos principais estrategistas sobre como lançar tendências sonoras em tempos de internet.
                            Por exemplo, seu selo Mad Decent está bombando um estilo musical chamado trap, que mistura vocais de rap com variações de house em até 170 batidas por minuto.
                            Surgido em 2004 sem alarde, o trap vive uma nova onda, lançando DJs como Gucci Mane e Swisha House.
                            Como isso aconteceu? Diplo vem testando, por tentativa e erro, a forma de catapultar cenas.
                            Ao identificar uma "tendência", seu selo logo solta um "mixtape" na rede, compilação não oficial de músicas (quase um "pirata" antes dos próprios piratas).
                            Em seguida, vídeos inundam o YouTube mostrando a empolgação das festas e seu público.
                            Por fim, uma peça inovadora: um documentário é produzido pelo próprio selo, explicando os detalhes para "formadores de opinião", como blogueiros e jornalistas.
                            No trap, o documentário chama-se "Certified Trap" (veja aqui: bit.ly/PJY5Yd). A cena logo ganha verbete na Wikipédia (ela é uma das principais formas de divulgação para novos artistas).
                            Essa mesma fórmula "mixtape-YouTube-documentário" está em várias outras cenas. O techno venezuelano chamado Tuki lançou o filme "Quién Quiere Tuki?" (bit.ly/UBr8Qu). Até o funk ostentação de São Paulo soltou documentário homônimo (aqui: bit.ly/QCVINt, já com 600 mil visualizações).
                            Parece ficção. O documentário é profecia que se autorrealiza: documenta a cena antes mesmo de ela acontecer.
                            READER
                            JÁ ERA
                            O campo "assunto", que não existe em mensagens trocadas por redes sociais
                            JÁ É
                            O campo "assunto" resistindo nos e-mails
                            JÁ VEM
                            Chamadas de telefone com "assunto", pelo aplicativo SayWhat.mobi

                              segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

                              Meme ganha força como instrumento dos políticos

                              folha de são paulo

                              INTERNETS
                              RONALDO LEMOS - ronaldolemos09@gmail.com
                              IMPRESSIONA COMO o meme virou uma forma central de comunicação "de massa" hoje: fotos, filmes e textos remixados, boa parte deles sarcásticos, que são reproduzidos pela internet viralmente, por imitação.
                              Ganharam até função política. É só pensar nos memes surgidos no julgamento do mensalão, como o ministro Joaquim Barbosa com capa de Batman, ou como outros fatos políticos são sintetizados em memes.
                              A função política é ilustrada pelo modo como Barack Obama baseou neles parte de sua estratégia na reeleição. O jantar anual para os correspondentes de imprensa na Casa Branca já se consagrou como festival de memes.
                              Obama criou até página no Tumblr, hoje uma das principais "memelândias".
                              Como toda forma de comunicação que ganha relevância, memes estão dando dinheiro. O empresário sul-coreano Bem Huh, radicado nos EUA, construiu um pequeno império. A "Cheezburger
                              Network" inclui sites populares globalmente, como o Know your Meme (conheça seu meme) ou o FAIL Blog.
                              Empresários brasileiros também tentam a sorte. Há uma onda de sites de memes pipocando. A lista é longa: Mememania, Memesdaent, Mundomemes e por aí vai.
                              Esses pequenos artefatos culturais lembram que a produção colaborativa e descentralizada na rede continua forte. São veículos perfeitos para se espalharem e serem consumidos em segundos. E é claro, serem substituídos por qualquer outra coisa no momento seguinte.
                              -
                              READER
                              JÁ ERA Música de protesto
                              JÁ É Meme de protesto
                              JÁ VEM Muitos memes de diversão ou protesto circulando nas ruas até o fim do Carnaval

                                segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

                                Empresas de internet têm lei para todos, inclusive você

                                folha de são paulo

                                INTERNETS

                                Quais as entidades no mundo capazes de criar normas autoaplicáveis para vários milhões de pessoas? Alguém pode falar China, Índia e os nove outros países com mais de 100 milhões de habitantes.
                                Só que existem outros exemplos pouco pensados por essa perspectiva: empresas como Apple, Microsoft, sites como Facebook, Google, Twitter, ou serviços como Instagram e similares. Estamos assistindo hoje aos primeiros passos da era dos sites "legisladores".
                                Por meio dos "termos de uso" dos seus produtos (aquele documento que a maioria das pessoas não lê), essas empresas criam direitos e deveres, decidem o que pode circular ou não, gerando efeitos imediatos na vida dos seus usuários.
                                Não é um poder trivial. As decisões impactam temas como privacidade ou liberdade de expressão. Produzem efeitos econômicos e modificam o ambiente de negócios e a concorrência.
                                Isso é um desafio para as instituições tradicionais, que estão ainda aprendendo a conviver com esses novos centros de poder.
                                E reconfigura a esfera de autonomia de cada pessoa: o que posso fazer na rede depende dos limites estabelecidos por essas regras.
                                O Instagram há pouco tempo gerou revolta quando mudou seus termos de uso dando à empresa o direito de vender as fotos nele postadas. Muita gente parou de usar o serviço por causa disso. Mas essa é a exceção.
                                Mudanças nas regras até podem gerar comoção inicial, mas logo as pessoas voltam a usar o serviço sem maiores questionamentos. Esse novo poder "legislativo" traz novos desafios. Para governos e para os mercados. Para você e para mim.
                                READER
                                JÁ ERA Papel de parede dentro de casa
                                JÁ É Papel de parede na tela dos computadores, tablets e celulares
                                JÁ VEM Papel de parede do lado de fora das casas (como na coleção WallandDeco: http://bit.ly/WPSc0J)