domingo, 21 de julho de 2013

Ênfase na pobreza reanima ala progressista dos católicos

folha de são paulo
O PAPA NO BRASIL
Visita de Francisco alimenta expectativa com ação social mais forte da igreja
Opção pelos pobres vira tema dominante em discursos do papa, que visitará áreas carentes do Rio nesta semana
DIÓGENES CAMPANHADE SÃO PAULO
A visita do papa Francisco ao Brasil poderá contribuir para renovar o fôlego das alas mais progressistas da Igreja Católica no país, que viram sua influência diminuir com o avanço dos grupos católicos carismáticos e dos evangélicos nos últimos tempos.
Desde que foi escolhido como papa em março e adotou seu nome como homenagem a são Francisco de Assis, o argentino Jorge Mario Bergoglio tem dado ênfase à pobreza e à desigualdade social em seus discursos e suas ações.
O pontífice disse que buscaria uma "igreja pobre e para os pobres", lavou os pés de menores infratores na semana da Páscoa e criticou o uso de carros de luxo por padres.
Sua programação na próxima semana inclui visitas a um hospital e uma favela do Rio de Janeiro e um encontro com jovens detentos. O papa chega ao Brasil nesta segunda para participar da Jornada Mundial da Juventude.
Para muitos religiosos, gestos como os que Francisco tem feito podem ajudar a fortalecer correntes que questionam a desigualdade e defendem o uso da igreja como uma espécie de alavanca para promover transformações sociais.
"Francisco quer reforçar que a igreja vá às ruas e esteja próxima dos mais simples", diz o padre e teólogo João Batista Libanio, jesuíta como Francisco. "Os setores mais críticos, com padres com trabalho pastoral junto às camadas populares, vão se sentir mais prestigiados."
Primo de Frei Betto, Libanio é adepto da Teologia da Libertação, corrente bastante difundida no Brasil na ditadura militar e que defende um catolicismo próximo aos pobres e alinhado a movimentos sociais de esquerda.
Combatida pelos dois últimos papas, João Paulo 2º e Bento 16, essa teologia perdeu espaço ao mesmo tempo em que movimentos mais voltados à espiritualidade e considerados mais conservadores, como a Renovação Carismática, cresceram na igreja.
Com o apelo do papa Francisco para que os católicos se voltem para os pobres, há a expectativa de que algumas bandeiras da Teologia da Libertação sejam recuperadas, mas não mais com o viés ideológico das décadas passadas, ao qual, inclusive, o papa se opõe com clareza.
Em abril, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) deu um sinal nessa direção ao propor o fortalecimento das comunidades eclesiais de base (CEBs), grupos que no passado cresceram muito influenciados pela Teologia da Libertação.
Para a CNBB, as comunidades de base poderiam ajudar a igreja a recuperar o espaço perdido para os evangélicos na periferia das grandes cidades nos últimos anos.
Invocando Bento 16, o cardeal dom Raymundo Damasceno, arcebispo de Aparecida (SP), afirma que a ênfase do papa Francisco nos pobres deve ser entendida mais como uma orientação espiritual do que como um posicionamento de natureza política.
"Ele é motivado, inspirado pelo evangelho nas atitudes", diz. "Não é nenhuma motivação política, ideológica."
O conceito é compartilhado por dom Angélico Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC) e militante da Teologia da Libertação. "A opção evangélica pelos pobres é de Jesus. Não há nada de novo nos gestos do papa."
Nada disso significa que a igreja pretende relegar a segundo plano os carismáticos, atualmente os principais responsáveis por atrair os jovens para a igreja e trazer de volta os católicos não praticantes.
Em 2007, quando Bento 16 visitou o Brasil, o mais famoso dos padres cantores, Marcelo Rossi, foi impedido de se apresentar para o papa. No próximo domingo, ele e o padre Fábio de Melo estarão ao lado de Francisco no palco armado em Guaratiba (RJ).
"O papa vai dar espaço para todos, na simplicidade, na humildade e no espírito alegre", afirma dom Fernando Figueiredo, bispo da diocese de Santo Amaro, na capital, e superior do padre Marcelo.

Painel Vera Magalhães

folha de são paulo
Currículo na mesa
Enquanto Dilma Rousseff não bate o martelo sobre a reforma ministerial, que incluiria trocas nas Relações Institucionais e na Fazenda, um ex-ministro do governo Lula tem defendido junto ao ex-presidente o nome de Otaviano Canuto para a cadeira de Guido Mantega. Economista com carreira na Unicamp, ele trabalhou com Antonio Palocci na pasta, em 2003. Hoje, é consultor do Banco Mundial e visto como um nome apara "recuperar a credibilidade" do governo no mercado.
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Dupla jornada Setores do PMDB defendem que, em vez de endossar o substituto de Ideli na coordenação política, o vice-presidente, Michel Temer, assuma diretamente as Relações Institucionais, para devolver o prestígio da pasta junto à base.
Roubada Aliados de Temer, no entanto, afirmam que, diferentemente da Defesa, que José Alencar acumulou quando era vice de Lula, com sucesso, a pasta de Ideli só traz desgastes ao titular.
Tropa de Elite Reclamando de "descaso" de José Eduardo Cardozo (Justiça) com as reivindicações da categoria, a Federação Nacional dos Policiais Federais vai realizar manifestação na terça-feira, no Rio, durante a visita do papa Francisco.
Mapa O Palácio do Planalto ainda insistia em mudar o local do encontro de Dilma e do governador Sérgio Cabral com o papa. O Palácio Guanabara é considerado muito vulnerável.
Vapt-vupt Setores do governo sugeriram que a audiência oficial com o papa acontecesse na própria base aérea do Galeão, logo após o desembarque de Francisco.
Sai da rua Se em 2005 houve corrida de políticos brasileiros para ir aos funerais de João Paulo 2º, parlamentares e governantes adotam postura discreta na vinda de Francisco. "Não há clima para ser papagaio de pirata'', admite um senador.
Livre Embora publicamente mantenha o discurso de apoio a Dilma, Gilberto Kassab já diz a interlocutores que, se a eleição fosse hoje, o PSD ficaria independente na disputa presidencial. Seria a melhor forma de eleger uma grande bancada de deputados --sua prioridade.
Próximos... Apesar de correr o risco de perder o apoio do PPS, Eduardo Campos (PSB) tem dito que apoia a filiação de José Serra ao partido de Roberto Freire para concorrer ao Palácio do Planalto em 2014.
... capítulos Para o pernambucano, a candidatura do ex-governador paulista dificultaria a entrada de Aécio Neves (PSDB) em São Paulo e daria à eleição ares de reprise da disputa entre Dilma, Serra e Marina Silva, o que favoreceria novos nomes.
Nova direção O PSDB vai aproveitar uma lista de e-mails de cabos eleitorais de Serra na campanha presidencial de 2010 para montar banco de apoio para a candidatura de Aécio na internet.
Copyright O nome Rede 45, usado em 2010, terá de ser mudado graças ao futuro partido de Marina Silva.
Negócios... Parentes de expoentes do PSDB paulista estão debandando do partido. No dia 25, o PTB nomeará como presidente do núcleo sindical Antonio Ramalho Júnior, filho do presidente de grupo similar tucano.
... à parte O genro do prefeito tucano de Praia Grande será candidato pelo PMDB em 2014. O irmão do prefeito de Cotia, do PSDB, deve disputar um cargo pelo PSC. A irmã do prefeito de Americana, também tucano, se aproximou do PC do B. E o irmão do prefeito de Taubaté, do PSDB, embarcou no PTB.
com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
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TIROTEIO
"Se o PMDB está defendendo a redução de ministérios, a primeira coisa a fazer deveria ser devolver as pastas que ocupa."
DO LÍDER DO PMDB NO SENADO, EUNÍCIO OLIVEIRA (CE), que discorda da reforma proposta pelo presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN).
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CONTRAPONTO
Cancelando a assinatura
Uma semana depois de ser eleito papa, em 13 de março deste ano, Jorge Bergoglio telefonou de Roma para seu jornaleiro Daniel, na calle Bolivar, em Buenos Aires.
--Alô, Daniel, aqui fala o padre Jorge.
--Pare com isso, Mariano, deixe de ser cretino! --reagiu o jornaleiro, julgando ser trote de um amigo.
--Estou falando sério, é Jorge Bergoglio. Ligo para agradecer seu serviço todos esses anos e para pedir que não me envie mais o La Nación'. Lembranças à família!
O relato foi feito por Daniel ao jornalista Andrea Tornielli e consta do livro Francisco'', sobre o papa.

    Alice mora aqui - Denise Fraga

    folha de são paulo

    Alice mora aqui


    Fiquei ali, vendo o esquilo cochilar. De repente, acordei. O que eu estava fazendo? Por que eu estava vendo um vídeo no qual um esquilo cochilava no ombro de um rapaz?
    Me assustei. Tive uma espécie de branco, não conseguia me lembrar de como tinha chegado ali.
    Fechei a tela correndo. Outra se abriu. Fechava uma e dava em outra. E outra. E mais outra.
    Eu tinha aberto umas cinco telas sem perceber. Fui reconhecendo o caminho percorrido, mas agora não tinha mais tempo.
    Sentei ali pra passar um e-mail, mas minha descuidada curiosidade foi fisgada por um quadradinho do mosaico que nos arremessa no caleidoscópio ciclônico do País das Maravilhas.
    Ilustração Zé Vicente
    Acho que tenho certa resistência à internet justamente por reconhecer que possuo um ingrediente fatal para a plena adição a ela: sou curiosa.
    Entro para assistir a um vídeo qualquer e já me ouriço toda por aqueles outros tantos quadradinhos estrelados que aparecem ao lado me dizendo: "Se quis ver este, não pode perder estes".
    O incrível é que todos os outros vídeos, de alguma forma, têm a ver com o meu interesse.
    Nessas horas, tenho vontade de olhar bem no centro da tela e perguntar: "Quem está aí?! Quem é você?! Não quero que saibam meu perfil para me oferecerem coisas que eu possa querer!".
    Confesso que preferiria que não me oferecessem tantas coisas. Ainda acredito que não precisamos de tanto pra viver, e a internet me atordoa com sua multiplicação frenética.
    É claro que sei quem mora lá dentro. É o Sr. Mercado, nosso grande irmão, que obviamente não nos oferece tudo isso à toa. Vem nos treinando.
    Ultimamente, insatisfeito com suas sutilezas virtuais, resolveu pegar pesado. Teve ontem o descaramento de me interromper um clipezinho de três minutos com um comercial. Que é isso, big brother? Assim não tem graça.
    Acho que sei porque cliquei pra ver um esquilo cochilando. Buscava um oásis, um refresco qualquer para toda essa histeria.
    Arquivo Pessoal
    Denise Fraga é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo). Escreve a cada duas semanas na versão impressa do caderno "Equilíbrio".

    A agonia da pesquisa clínica no Brasil - João Massud Filho

    JOÃO MASSUD FILHO
    TENDÊNCIAS/DEBATES
    Milhares de pacientes são prejudicados pela falta de pesquisas clínicas com novos medicamentos, que muitas vezes são a última esperança
    Em 1996, o Conselho Nacional de Saúde deu um passo à frente ao fixar diretrizes para a condução ética das pesquisas com seres humanos. No entanto, desde então, a comunidade científica tem manifestado sua preocupação com a burocracia e o viés ideológico e científico que pautam a agenda da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.
    Em diversas ocasiões, buscou-se o diálogo franco. Sistematicamente, ouvia-se o mesmo discurso preparado tal qual serviço de atendimento ao consumidor sem que nada se resolvesse.
    Após 15 anos de lutas, parecia haver uma luz no final do túnel com a publicação da consulta pública feita pelo Ministério da Saúde sobre o tema. A receptividade foi incomum. Foram quase 2.000 sugestões, que, em sua essência, buscavam simplificar o processo de aprovação das pesquisas clínicas sem, contudo, infringir conceitos éticos.
    No entanto, o Conselho Nacional de Saúde descartou a maioria das sugestões e apresentou nova resolução, que acaba de ser publicada. No fundo, é mais do mesmo. Não muda o essencial.
    Com essa atitude, houve nítido enfrentamento ao processo democrático que a consulta pública trouxera e um desrespeito a todos aqueles que se manifestaram.
    A presidenta Dilma Rousseff defende ardentemente o Ciência sem Fronteiras e a inovação. Mas a atitude do Conselho Nacional de Saúde praticamente inviabiliza o desenvolvimento da pesquisa acadêmica e especialmente aquela voltada a novos medicamentos.
    A indústria farmacêutica mundial investe mais de US$ 80 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, anualmente. O Brasil é a sexta economia e um dos dez maiores mercados farmacêuticos do mundo. Assim, justo seria imaginar que pudéssemos receber uma percentagem significativa daquele investimento e não míseros números inferiores a 1%.
    A razão do disparate é a falta de uma agenda comum de interesses entre governo, indústria, pesquisadores e academia, a exemplo do que a Coreia do Sul fez brilhantemente. A área econômica do governo reclama do deficit na balança comercial referente a farmoquímicos. Se fôssemos pensar só pelo lado econômico, poderíamos zerar o deficit com a vinda de 10% do investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos.
    A indústria nacional se ressente da burocracia que dificulta o processo de inovação e pesquisa de novos fármacos. Do ponto de vista humano, há de se lembrar que milhares de pacientes são prejudicados pela falta de pesquisas clínicas com novos medicamentos, que muitas vezes são sua última esperança.
    Lamentavelmente, os mais pobres são as principais vítimas. Os demais podem buscar ajuda em outros países, como aconteceu com o ex-vice-presidente José Alencar, que se deslocou a Houston para participar de um estudo experimental para o tratamento do câncer. Aqui no Brasil, provavelmente um cidadão comum morreria antes das aprovações ética e regulatória, sem a menor chance de recorrer.
    A insensibilidade do Conselho Nacional de Saúde faz com que as manifestações de dezenas de sociedades médicas e de pesquisa se tornem um grito no deserto sem eco. A dicotomia entre os programas federais de inovação e o posicionamento do Conselho Nacional de Saúde faz lembrar o presidente De Gaulle quando, diz a lenda, questionava se o Brasil não era um país sério.