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domingo, 21 de julho de 2013

Ênfase na pobreza reanima ala progressista dos católicos

folha de são paulo
O PAPA NO BRASIL
Visita de Francisco alimenta expectativa com ação social mais forte da igreja
Opção pelos pobres vira tema dominante em discursos do papa, que visitará áreas carentes do Rio nesta semana
DIÓGENES CAMPANHADE SÃO PAULO
A visita do papa Francisco ao Brasil poderá contribuir para renovar o fôlego das alas mais progressistas da Igreja Católica no país, que viram sua influência diminuir com o avanço dos grupos católicos carismáticos e dos evangélicos nos últimos tempos.
Desde que foi escolhido como papa em março e adotou seu nome como homenagem a são Francisco de Assis, o argentino Jorge Mario Bergoglio tem dado ênfase à pobreza e à desigualdade social em seus discursos e suas ações.
O pontífice disse que buscaria uma "igreja pobre e para os pobres", lavou os pés de menores infratores na semana da Páscoa e criticou o uso de carros de luxo por padres.
Sua programação na próxima semana inclui visitas a um hospital e uma favela do Rio de Janeiro e um encontro com jovens detentos. O papa chega ao Brasil nesta segunda para participar da Jornada Mundial da Juventude.
Para muitos religiosos, gestos como os que Francisco tem feito podem ajudar a fortalecer correntes que questionam a desigualdade e defendem o uso da igreja como uma espécie de alavanca para promover transformações sociais.
"Francisco quer reforçar que a igreja vá às ruas e esteja próxima dos mais simples", diz o padre e teólogo João Batista Libanio, jesuíta como Francisco. "Os setores mais críticos, com padres com trabalho pastoral junto às camadas populares, vão se sentir mais prestigiados."
Primo de Frei Betto, Libanio é adepto da Teologia da Libertação, corrente bastante difundida no Brasil na ditadura militar e que defende um catolicismo próximo aos pobres e alinhado a movimentos sociais de esquerda.
Combatida pelos dois últimos papas, João Paulo 2º e Bento 16, essa teologia perdeu espaço ao mesmo tempo em que movimentos mais voltados à espiritualidade e considerados mais conservadores, como a Renovação Carismática, cresceram na igreja.
Com o apelo do papa Francisco para que os católicos se voltem para os pobres, há a expectativa de que algumas bandeiras da Teologia da Libertação sejam recuperadas, mas não mais com o viés ideológico das décadas passadas, ao qual, inclusive, o papa se opõe com clareza.
Em abril, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) deu um sinal nessa direção ao propor o fortalecimento das comunidades eclesiais de base (CEBs), grupos que no passado cresceram muito influenciados pela Teologia da Libertação.
Para a CNBB, as comunidades de base poderiam ajudar a igreja a recuperar o espaço perdido para os evangélicos na periferia das grandes cidades nos últimos anos.
Invocando Bento 16, o cardeal dom Raymundo Damasceno, arcebispo de Aparecida (SP), afirma que a ênfase do papa Francisco nos pobres deve ser entendida mais como uma orientação espiritual do que como um posicionamento de natureza política.
"Ele é motivado, inspirado pelo evangelho nas atitudes", diz. "Não é nenhuma motivação política, ideológica."
O conceito é compartilhado por dom Angélico Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC) e militante da Teologia da Libertação. "A opção evangélica pelos pobres é de Jesus. Não há nada de novo nos gestos do papa."
Nada disso significa que a igreja pretende relegar a segundo plano os carismáticos, atualmente os principais responsáveis por atrair os jovens para a igreja e trazer de volta os católicos não praticantes.
Em 2007, quando Bento 16 visitou o Brasil, o mais famoso dos padres cantores, Marcelo Rossi, foi impedido de se apresentar para o papa. No próximo domingo, ele e o padre Fábio de Melo estarão ao lado de Francisco no palco armado em Guaratiba (RJ).
"O papa vai dar espaço para todos, na simplicidade, na humildade e no espírito alegre", afirma dom Fernando Figueiredo, bispo da diocese de Santo Amaro, na capital, e superior do padre Marcelo.

domingo, 14 de julho de 2013

Com poucos anos de advocacia, herdeiras de ministros do Supremo fazem campanha por cargos no Judiciário

folha de são paulo
Filhas da corte
LEANDRO COLONDIÓGENES CAMPANHADE SÃO PAULO
Para o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), a advogada Marianna Fux, 32, é "respeitada" e "brilhante".
Na avaliação de Ophir Cavalcante, ex-presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), o currículo da colega Leticia Mello, 37, "impressiona".
A mesma opinião tem o experiente advogado José Roberto Batocchio: "É uma advogada com intensa militância, integra um grande escritório, com ampla atuação no Rio".
Meses atrás, o mais novo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso, exaltou as qualidades de Leticia numa carta enviada a desembargadores do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, com jurisdição no Rio e no Espírito Santo. Em troca, ela prestigiou a posse dele no STF.
As duas advogadas são filhas de ministros do Supremo. Com poucos anos de advocacia, estão em campanha para virar desembargadoras, juízas da segunda instância.
Filha do ministro Luiz Fux, Marianna lidera as apostas para substituir o desembargador Adilson Macabu, que se aposenta no Tribunal de Justiça do Rio nesta semana.
Se for bem sucedida, ela terá um salário de R$ 25,3 mil e regalias como carro oficial e gabinete com assessores.
Filha do ministro Marco Aurélio Mello, Letícia pode conseguir coisa parecida. Ela foi a mais votada numa lista submetida à presidente Dilma Rousseff para o preenchimento de uma vaga no TRF do Rio.
Leticia é mais experiente do que Marianna. Formou-se em 1997 e trabalha num escritório de prestígio. É considerada no meio jurídico uma advogada promissora, mas que dificilmente chegaria tão cedo a uma lista tríplice se o pai não estivesse no STF.
Em entrevista à Folha, Marco Aurélio saiu em defesa da filha: "Se ser novo apresenta algum defeito, o tempo corrige". Ele procurou desembargadores para tratar da indicação da filha, mas nega ter pedido qualquer coisa. "Jamais pedi voto, só telefonei depois que ela os visitou para agradecer a atenção a ela".
No TJ do Rio, há registro de apenas cinco processos em que Leticia atuou. No TRF, onde ela quer ser desembargadora, não há menção. Leticia formou-se no Centro Universitário de Brasília e não tem cursos de pós-graduação.
"Há muitos que têm diversos canudos debaixo do braço e deixam a desejar", diz Marco Aurélio. "É pecado [a indicação]? É justo que nossos filhos tenham que optar por uma vida de monge?"
Leticia e Marianna disputam vagas do chamado quinto constitucional, reservadas a juízes indicados pela OAB.
O ministro Fux foi desembargador do TJ do Rio no início da carreira e conhece quem pode ajudar sua filha. A votação no tribunal deverá ser aberta. Um integrante do TJ diz que isso pode criar constrangimento, se algum ex-colega de Fux quiser se opor à escolha da sua filha.
Marianna formou-se há dez anos pela Universidade Cândido Mendes, no Rio, e seu currículo exibe uma pós-graduação em Teoria das Obrigações e Prática Contratual pela Fundação Getúlio Vargas.
A FGV informou à Folha que não se trata de pós-graduação, mas de um curso de extensão universitária de quatro meses. Marianna atuou em apenas seis processos no TJ do Rio: um sobre extravio de bagagem, os demais sobre espólio e dano moral.
Em abril deste ano, o advogado Sérgio Bermudes, que é amigo de Fux e emprega Marianna, organizou uma festa para comemorar o aniversário do ministro. Os desembargadores do TJ foram convidados, mas Fux cancelou o evento após sofrer críticas.
O presidente da OAB do Rio, Felipe Santa Cruz, diz que ainda não foi aberta a lista para a qual Marianna poderá ser indicada. "Não posso me manifestar sobre algo que não existe ainda", afirmou, sem negar a movimentação a favor da advogada.
Leticia Mello tem dois adversários mais experientes na lista submetida a Dilma: os advogados Luiz Henrique Alochio, 43, e Rosane Thomé, 52.
Eles preferem evitar a polêmica. "Espero que seja escolhido o mais bem avaliado do ponto de vista da meritocracia", diz Alochio. "Não tenho grandes expectativas. A nomeação é tão sem critério, aleatória", afirma Rosane, que tem 30 anos de advocacia.
Procurada, Leticia disse que não se manifestaria sobre o assunto. Marianna e seu pai não responderam aos pedidos de entrevista da Folha.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Marina atrai insatisfeitos e isolados, do PSOL ao PSDB

folha de são paulo

Políticos relegados em suas siglas buscam alternativa na Rede Sustentabilidade
Nova legenda da ex-ministra, que ainda tenta se viabilizar, recebe 'sonháticos' de diversos outros partidos
DIÓGENES CAMPANHADE SÃO PAULOA ex-senadora Marina Silva reuniu em torno do projeto da Rede Sustentabilidade, partido que tenta viabilizar para se candidatar à Presidência em 2014, uma teia que vai de Heloísa Helena, a fundadora do PSOL a um aliado histórico do ex-governador José Serra (PSDB-SP).
Além do discurso de que estão juntos para construir coletivamente a "nova política", os principais apoiadores de Marina são movidos por causas individuais realistas.
Muitos deles já não gozam em seus partidos do prestígio de outrora ou travam batalhas perdidas contra líderes de suas siglas. O deputado Domingos Dutra, por exemplo, protesta em vão contra a aliança do PT com a família Sarney no Maranhão e, por isso, quer deixar a legenda.
Hoje vereadora em Maceió (AL), a ex-senadora Heloísa Helena, que em 2005 saiu do PT para criar o PSOL, entregou a presidência do partido há três anos, após se desentender com a direção nacional. Ela queria que sua legenda apoiasse Marina, então no PV, à Presidência em 2010, mas foi derrotada.
Integrante, como Dutra e Heloísa, da Executiva provisória da Rede, o deputado federal Walter Feldman chegou a anunciar sua saída do PSDB em 2011. Na ocasião, acusou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, por uma crise interna que levou seis vereadores da capital paulista a deixarem o partido.
Feldman, no entanto, voltou atrás e ficou no PSDB. No ano passado, foi um dos coordenadores da campanha de Serra à Prefeitura de São Paulo. Intermediou o apoio do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, ao tucano. As críticas do religioso a políticas contra a homofobia trouxeram danos à candidatura, e Feldman acabou responsabilizado internamente.
Ele admite que a Rede não atrai "apenas os ideológicos, os doutrinários", mas também quem está perdendo espaço em seus partidos. Mas diz que não se encaixa em nenhum dos grupos. "Sou um sonhático radical. Estou em busca de uma nova utopia."
PRAGMATISMO
Quando deixou o PV, em 2011, após disputa de seu grupo com a direção do partido, Marina disse que não era hora de agir com pragmatismo: "É hora de ser sonhático e de agir pelos nossos sonhos".
Alguns dos "sonháticos", no entanto, continuaram no PV para evitar perder o mandato, como o deputado Alfredo Sirkis (RJ). "Fui contra a saída dela. Teríamos continuado a luta interna dentro do partido e hoje estaríamos em situação melhor", afirma.
Ele defende inclusive que, na eventual candidatura de Marina em 2014, a Rede se alie à sua antiga legenda.
Vitória do pragmatismo? "Sonhaticamente não se faz uma campanha presidencial bem-sucedida", responde Sirkis.

    sexta-feira, 3 de maio de 2013

    Lula quer PT aliado a Russomanno e a Kassab na disputa ao governo de SP

    folha de são paulo

    Petista também diz que Mercadante, que anunciou desistência, ainda pode ser o nome da sigla para 2014
    'PT nunca esteve tão próximo de ganhar o Estado de São Paulo como agora', afirma o ex-presidente
    DIÓGENES CAMPANHADE SÃO PAULOO ex-presidente Lula disse ontem que o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ainda pode ser o candidato do PT ao governo de São Paulo e defendeu aliança da sigla com o PMDB, o PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab e o PRB de Celso Russomanno.
    "Eu não acho que seja definitiva a retirada do nome do Mercadante", afirmou. "O que eu estou convencido é de que o PT nunca esteve tão próximo de ganhar o Estado de São Paulo como agora."
    Favorito da cúpula petista para a disputa da sucessão de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2014, Mercadante já anunciou que quer ficar no ministério.
    Ontem, a assessoria do ministro disse que ele mantém a desistência expressa na carta enviada ao diretório estadual do PT na sexta. Mercadante disputou e perdeu o governo em 2006 e 2010.
    Após se vacinar contra a gripe em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) em São Bernardo, Lula disse que ainda é cedo para discutir a eleição.
    O petista foi o responsável pela escolha de Fernando Haddad para disputar a Prefeitura de São Paulo em 2012, o que levou a sigla a recuperar a capital após duas derrotas.
    Agora, sua prioridade é tirar o PSDB do Palácio dos Bandeirantes após 20 anos.
    Para isso, quer repetir no Estado aliança federal com o PMDB e atrair os partidos de Kassab e Russomanno.
    "O PT precisa trabalhar a possibilidade de fazer alianças com todas as forças políticas. O PMDB é extremamente importante. Temos o PSD do Kassab, precisamos conversar com o PRB, pelo qual o Russomanno disputou a prefeitura", disse.
    Aliado do ex-governador José Serra (PSDB), Kassab tem dado demonstrações de que deve fechar com o PT em 2014. Ontem, disse que o raciocínio de Lula "tem legitimidade", mas que, no momento, trabalha pela candidatura própria.
    Russomanno, que ficou em terceiro na corrida à prefeitura (21% dos votos válidos), é disputado pelo PT e por Alckmin. O PRB vota com os tucanos na Assembleia, mas não tem cargo no primeiro escalão. No plano federal, está com o PT e tem um ministro.
    Questionado sobre outros potenciais candidatos do PT, os ministros Alexandre Padilha (Saúde) e José Eduardo Cardozo (Justiça) e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, Lula elogiou nominalmente apenas o último. Padilha, no entanto, é quem mais conta com sua simpatia.

      segunda-feira, 29 de abril de 2013

      Entrevista da 2ª padre Marcelo Rossi

      folha de são paulo


      Para padre Marcelo Rossi, o perigo é esquecer a oração e cair na política


      DIÓGENES CAMPANHA
      DE SÃO PAULO

      Sacerdote católico mais famoso do país, o padre Marcelo Rossi, 45, vai de encontro à indicação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de que o incentivo às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) pode ajudar a igreja a recuperar o espaço perdido para os evangélicos.
      Para padre Marcelo, as CEBs --que tiveram seu auge nos anos 1980 combinando princípios cristãos a uma visão social de esquerda-- apresentam o risco de estimular a "tentação à política".
      "O PT surgiu da CEB. Então, que não se politize", diz o padre, que defende que a igreja construa grandes espaços como seu Santuário Mãe de Deus, aberto, ainda incompleto, em novembro passado.
      Ele pretende concluir a obra, com capacidade para 100 mil fiéis, com as vendas de"Kairós" (ed. Globo), seu segundo livro, que será lançado amanhã em São Paulo.
      Folha - Qual sua expectativa em relação ao papa Francisco?
      Padre Marcelo Rossi - É uma expectativa muito grande, a começar pelo rompimento dos protocolos. Espero muito da renovação da igreja, da opção pelos pobres. Espero em julho estar com ele na Jornada Mundial da Juventude e entregar o "Kairós". Meu amigo padre Fábio de Melo, padre Reginaldo Manzotti e eu estaremos lá, cantando para o papa.
      Em 2007, o senhor foi impedido de cantar para o papa Bento 16 no Brasil e acusou a Arquidiocese de São Paulo de boicotá-lo. Temeu que o arcebispo dom Odilo Scherer virasse papa?
      Não, pelo contrário. Dom Odilo pôde me conhecer de perto. Percebeu que eu não era um artista. Hoje tenho uma admiração e um carinho enorme por ele. Não vou dizer que [o responsável pelo boicote] foi o dom Odilo. Foi o comitê organizador. É muito fácil culpar. Às vezes, a pessoa nem está sabendo.
      Ainda em 2007 ele disse que seu trabalho era "insuficiente" e que "o padre não é um showman". O que mudou?
      Ele entendeu que eu não faço show. Celebro missa. Toda missa que faço, mesmo na TV, quem está à frente é o meu bispo [dom Fernando Figueiredo, bispo de Santo Amaro]. Estou lá animando. Minha função é animar as pessoas.
      O último Censo apontou um aumento do número de evangélicos e a diminuição do número de católicos. Como recuperar o terreno?
      O número de católicos é enorme e o de padres, em relação aos fiéis, mínimo. Para formar um sacerdote são no mínimo sete anos. Um pastor se faz em três meses. A formação é mínima. E precisa ter acolhida. A pessoa vai à igreja, ela está fechada. Os [templos] evangélicos estão sempre abertos. E o uso da mídia. Você liga a TV, sempre tem coisa evangélica, pessoas que invadem horários e horários. É até exagerado.
      Na assembleia da CNBB, neste mês, a igreja indicou que quer incentivar as Comunidades Eclesiais de Base para recuperar espaço em áreas pobres. Deve ser esse o caminho?
      Aí eu questiono. Acho as CEBs importantes, mas hoje o nosso povo precisa de grandes espaços. Vejo nas missas do Santuário. Uma vela ilumina? E dez? E 20 mil? O Palmeiras estava sem 13 titulares, mas a torcida foi e eles se classificaram na Libertadores. Faz diferença. Os evangélicos estão erguendo grandes locais, porque reúne as pessoas. Se ficar fechado na CEB, esquecer a oração, ficar só na política... Se olhar todos os que estão no governo, a maioria surgiu da CEB.
      A CEB está na origem do PT.
      O PT surgiu da CEB. Então, que não politize. O perigo é esse: cair na política.
      O senhor é criticado por atrair o público, mas adotar um discurso conservador e distante dos problemas sociais.
      Temos trabalhos com recuperação de drogados, arrecadação de alimentos. Nas CEBs, acaba se tornando mais política do que social. É mais perigoso a pessoa ter a tentação à política na CEB.
      Acha que a igreja serviu de trampolim para integrantes do governo ou do PT?
      Não poderia julgar. A Igreja Católica é apartidária, pelo menos deve ser. Os evangélicos, às vezes, determinam em quem votar. Estamos voltando à Idade Média, o período mais terrível e negro da igreja.
      Mas na campanha do ano passado houve episódios polêmicos envolvendo a Igreja Católica, como a declaração de dom Odilo contra a campanha de Celso Russomanno.
      E dom Fernando depois se manifestou [disse que Russomanno era católico]. Russomanno saiu de encontro de casais. Fiz o casamento dele, batizei os filhos. Ele é católico. É fácil hoje você destruir uma pessoa. Veja o [deputado Gabriel] Chalita [acusado de receber favores de empresas quando era secretário estadual da Educação].
      Como avalia as denúncias contra ele, que é seu amigo?
      Fico perplexo. Estou esperando ele se manifestar. Nossa função é ficar quietinho, porque é um amigo que me ajudou muito. Quero ver o que vai ser provado. Se algo está errado, você vai falar [denunciar] depois de dez anos? É para destruir a pessoa.
      Conversou com Chalita?
      Até agora não, acredita? Estou esperando um posicionamento mais claro. Ainda dizia, quando ele falou que iria entrar na política: "Não faça isso". Eu o aconselhei várias vezes. Conselho é bom, né, mas você só pode dar.
      Espera um posicionamento público ou que ele fale pessoalmente com o senhor?
      Pessoalmente eu não prefiro. Tenho certeza de que ele vai falar que está tudo OK. Mas quero ver um posicionamento provando isso.
      Acredita na inocência dele?
      Parto do princípio da confiança. Mas não sou cego. Se eu vejo alguma coisa que está errada... Por isso estou esperando que ele se coloque.
      Qual sua opinião a respeito do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara?
      Ele tentou até me provocar [disse, em uma entrevista, que "padre Marcelo pede dinheiro e nunca se falou nada"]. Eu nunca pedi dinheiro. Pelo contrário. O jogo deles é criar guerrilha. A melhor coisa é ficar quieto. A Justiça do mundo pode tardar, mas chega. E credibilidade não se compra. Em 2010, a Folha fez uma pesquisa sobre em quem o brasileiro mais confiava, com 27 personalidades. Estava o Edir Macedo, que ficou lá em 20º [foi o 26º]. Fiquei em terceiro lugar. Eram Lula, William Bonner e eu.
      Ele deveria renunciar?
      Ele nem deveria estar lá, na minha opinião. A partir do momento em que se diz um pastor, não dá para ser ao mesmo tempo um líder político. Acho importante ter uma bancada católica, como existe a evangélica. Mas não acho correto padre, bispo, pastor se candidatarem, porque aí estou transformando um púlpito num palanque.
      Qual sua opinião sobre o casamento gay?
      A palavra de Deus é clara: Deus criou o homem e a mulher. A igreja acolhe o pecador, mas não o pecado. Não vai poder legitimar o casamento entre homossexuais. Mas acolhe com carinho.
      E sobre a adoção por casais homossexuais?
      [Ele é contra] Por causa da formação. O que vai ficar na cabeça [da criança]? Você quebra o sentido do que é família, que é o homem e a mulher, o pai e a mãe. São princípios bíblicos. Não sou eu que vou contrariar a palavra de Deus. Seja evangélico ou católico, a partir do momento em que você é cristão, não dá.

      terça-feira, 16 de abril de 2013

      Comissão da Verdade pode ser prorrogada

      folha de são paulo

      Integrante do grupo diz que é possível estender trabalhos por seis meses além do prazo de dois anos fixado em lei
      Pedido de prorrogação será feito em reunião do colegiado com a presidente Dilma, ainda sem data marcada
      DE SÃO PAULOOs trabalhos da Comissão Nacional da Verdade poderão ser prorrogados por seis meses após a data prevista para o seu encerramento. A afirmação foi feita ontem, em São Paulo, por uma das integrantes do grupo, Rosa Cardoso.
      A comissão tomou posse em maio de 2012, com prazo de dois anos para apurar as violações aos direitos humanos ocorridos durante a ditadura militar (1964-1985).
      O pedido de prorrogação deve ser feito em uma reunião que a comissão fará com a presidente Dilma Rousseff para discutir o balanço de seu primeiro ano de atuação, ainda sem data definida.
      "É possível que a gente tenha aí mais seis meses de trabalho", disse Cardoso, após a instalação de um grupo de trabalho que vai apurar a perseguição a sindicalistas na ditadura. Segundo ela, as comissões estaduais da verdade reivindicam maior prazo para apresentar o resultado de suas investigações, que depois precisariam ser analisadas pelo colegiado nacional.
      A Folha publicou no último domingo que integrantes da própria comissão duvidam que o grupo consiga detalhar todas as violações cometidas durante o regime se tiver que encerrar os trabalhos em maio de 2014.
      Embora a maioria do colegiado defenda que a comissão só apresente suas conclusões no relatório final, Rosa Cardoso afirmou que uma divulgação parcial de resultados será feita no mês que vem. A expectativa é atualizar o número de mortos e desaparecidos na ditadura.
      A comissão pretende ouvir ex-agentes da repressão no segundo semestre. O grupo tem poder para convocar testemunhas e obrigá-las a depor, mas adotou a prática de convidar as pessoas e só transformar convites em convocações quando houver recusa.

        Integrante do grupo sugere cautela em relatório final
        Citar envolvidos requer cuidado, diz advogado
        JOÃO CARLOS MAGALHÃESMATHEUS LEITÃODE BRASÍLIAIntegrante da Comissão Nacional da Verdade, José Paulo Cavalcanti diz que o grupo deve ter "enorme cautela" ao citar no relatório final a ser entregue em maio do ano que vem os envolvidos em mortes, desaparecimentos e torturas ocorridas na ditadura militar (1964-1985).
        "Há questões sobre as quais a gente vai ter que sentar para conversar com calma, como a identificação das pessoas. Quando houver nome para além de qualquer suspeita, tudo bem. Agora, nome por funções, é preciso ter cuidado", disse à Folha.
        Ele deu como exemplos peritos que produziram laudos falsos para dar aparência de morte em conflito ou suicídio a execuções feitas pelo regime. Segundo ele, ao menos parte desses laudos descreve evidências implausíveis.
        "Era como se eles estivessem dizendo para o futuro: Olha, esse sujeito não morreu disso aqui não'. É tudo muito mais complexo."
        A identificação dos responsáveis pelas violações é, para alguns especialistas, a maior contribuição que o colegiado nomeado pela presidente Dilma pode dar à narrativa do período, uma vez que boa parte das circunstâncias dos crimes --hoje anistiados-- já é conhecida.
        Cavalcanti é criticado por colegas por ser ausente do grupo. O advogado do Recife nega e diz sacrificar-se para participar dos trabalhos.
        "Eu acordo na segunda-feira, às 4h da manhã, para pegar um voo [para Brasília] às 5h30. Não recebo nada, estou ali por espírito público. Na volta há um voo às 15h02 da terça-feira e um às 23h10. O das 23h10 chega ao Recife perto das 2h. Só para você ver a cota de sacrifício."
        Além da distância de Brasília, afirmou, outra questão é conciliar sua vida profissional com a comissão.