terça-feira, 23 de julho de 2013

Presidente procura brecha na agenda para a 'Dilma Bolada'

folha de são paulo
FOCO
DE BRASÍLIA"Sou linda, sou diva, sou presidenta'". É com esse bordão que "Dilma Bolada" se apresenta a seus quase 449 mil seguidores do Facebook e 135 mil no Twitter.
Espera-se que seja assim, desse mesmo jeito, que o autor do mais famoso personagem fictício da internet se apresente à verdadeira Dilma. Não a bolada, claro --a Rousseff.
Autor do perfil, Jeferson Monteiro, 23, ainda não foi procurado pelo cerimonial do Planalto, mas assessores palacianos buscam uma brecha na agenda presidencial para um encontro da mandatária com sua versão virtual.
SÁTIRAS
O "Dilma Bolada" flagrou a atenção das altas rodas do poder federal ao conseguir aproximar caricatura e personagem real, normalmente fazendo sátiras sobre os acontecimentos do dia.
Muito coincide por percepção, mas Jeferson Monteiro conta que, vez por outra, até troca figurinhas com autoridades da capital.
"Dilma Bolada" agora faz planos. Para o encontro, quer perguntar à verdadeira Dilma sobre o "boladinho", o cão labrador do Palácio da Alvorada, assim apelidado por ele nos posts.
Mas há planos também para "expandir" o personagem. "Vai ter um Dilma Store', com camisetas e canecas dizendo assim: Se sua pomba não gira, não tente parar a minha', e não me dê bom dia, me dê resultados'".
Segundo Monteiro, existem pessoas que realmente acham que o perfil é de verdade; outras dão sugestões ao governo federal, falam sério e acham que a presidente vai ler. Até estrangeiros postam na página bolada.
"Vou tentar trazer ela para a rede. Será que eu consigo?" (NATUZA NERY E ANDRÉIA SADI)

    Primeiro dia do papa no Brasil termina em manifestações, quatro feridos e nove detidos

    folha de são paulo
    DE SÃO PAULO

    Papa no BrasilAo menos quatro pessoas --três civis e um militar-- ficaram feridas e nove foram detidas durante os protestos desta segunda-feira (22), dia dachegada do papa Francisco no Brasil. Após a recepção do pontífice,manifestantes entram em confronto com a polícia nas imediações do Palácio Guanabara, sede do governo fluminense.
    Um dos feridos é um policial militar que sofreu graves queimaduras no tórax ao ser atingido por coquetel molotov.
    Além do agente, o manifestante Leonardo Caruso foi ferido na perna por um disparo. O estudante de medicina que o atendeu, Felipe Camisão, 24, diz que foi empregada uma bala de verdade no lugar de uma de borracha. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro negou que a munição tenha sido de arma de fogo. O jovem está sendo atendido no hospital Souza Aguiar, no centro do Rio.
    Uma mulher que sofreu luxação na mão --após ser atingida por um cassetete-- também foi encaminhada ao mesmo local.
    Dois fotógrafos --Marcelo Carnaval, de "O Globo", e Yasuyoshi Chiba, da AFP-- saíram feridos. Chiba disse ter sido atingido por um PM, que teria desferido golpes de cassetete em sua cabeça. Ele foi levado para a Casa de Saúde Pinheiro Machado, fez uma tomografia e levou três pontos. Já Carnaval foi atingido por uma pedrada e levou cinco pontos na cabeça.

    Protestos durante visita do papa

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    Uanderson Fernandes/AFP
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    Fotógrafo de agência internacional é ferido na cabeça durante confronte entre manifestantes e a polícia na visita do papa
    Dentre os detidos, há um menor de idade. Dois detidos, ligados ao grupo de mídia alternativa Ninja, que cobre os protestos pelas redes sociais, já foram liberados e outros sete devem ser soltos em breve: apenas uma pessoa permanecerá na delegacia, presa por porte de explosivo. Ao menos cinco detidos foram encaminhados à 9ª Delegacia de Polícia, no Catete: um por desacato, três por posse de coquetéis molotov e um por atirar pedras em policiais.
    O conflito começou por volta das 19h45, logo após o papa Francisco deixar o local, onde realizou seu primeiro discurso. A presidente Dilma Rousseff, o governador do Estado, Sérgio Cabral (PMDB), e do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) --três das autoridades que deram boas-vindas ao papa Francisco-- ainda estavam dentro do Guanabara.
    Às 20h30, a polícia já havia dispersado os manifestantes e aproximadamente cem policiais permaneceram no local para realizar a segurança de quem estava na sede do governo. Em seguida, um grupo teria começado a lançar latinhas nos policiais, que, para dispersar cerca de 500 manifestantes, reagiu com bombas de efeito moral.
    SEM CONFRONTO
    Antes do tumulto, por volta das 19h, cerca de 20 integrantes do grupo "black blocs" colocaram fogo em um boneco que representava o governador do Estado, Sérgio Cabral (PMDB). Os "black blocs" adotam a tática de usar roupas pretas e cobrir o rosto para dificultar sua identificação. A polícia investiga os manifestantes e, também, pede que as pessoas não andem mascaradas.
    Um grupo de mulheres também protestou no Largo Machado durante a tarde em favor do direito das mulheres. Cerca de oito garotas usavam cartazes e três casais de mulheres se beijaram para pedir um "Estado mais laico". "Somos a favor do Estado laico. Nós somos livres e, portanto, fizemos essa intervenção", disse a atriz Thaísa Machado.

    Papa defende mais espaço para os jovens na sociedade
    Francisco é recebido com festa nas ruas do Rio; polícia reprime protestos
    DO RIOEm sua primeira viagem internacional desde que assumiu a liderança da Igreja Católica, há quatro meses, o papa Francisco foi recebido ontem com festa nas ruas do Rio e defendeu a abertura de espaços maiores para a participação dos jovens na sociedade.
    "Nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço", afirmou em discurso feito em português no Palácio da Guanabara, dirigindo-se à presidente Dilma Rousseff e a outras autoridades que o receberam.
    Um erro no planejamento da segurança permitiu que uma multidão cercasse o carro que conduziu o papa do Aeroporto Internacional do Galeão ao centro do Rio. Francisco abriu a janela para acenar aos fiéis, beijou bebês e recebeu bilhetes e presentes.
    No início da noite, depois que o papa despediu-se das autoridades e deixou o Palácio Guanabara para recolher-se à residência oficial da Arquidiocese do Rio, a Polícia Militar entrou em confronto com manifestantes que se reuniram para protestar na frente do palácio contra o governador Sérgio Cabral (PMDB).
      FRANCISCANAS
      Basta uma vez
      Ao ser apresentado ao papa por Dilma, Joaquim Barbosa não a cumprimentou, o que fez surgirem comentários em redes sociais sobre uma possível descortesia. Wellington Silva, assessor de Barbosa, disse que o presidente do Supremo e várias outras autoridades ficaram com a presidente em uma sala, antes da chegada do sumo pontífice. Segundo o assessor, como os dois já tinham se cumprimentado e conversado, provavelmente Barbosa achou que não era o caso de novas saudações.
      Souvenir
      O papa Francisco vai levar de lembrança de sua viagem ao Brasil a escultura "Frade", do artista paranaense João Turin. A obra, que retrata um frade lendo um livro, é o presente que a presidente Dilma Rousseff preparou para o sumo pontífice. Produzida na década de 40, a escultura tem 44 centímetros de altura e pesa 22,5 quilos. Gleisi Hoffmann comemorou, no seu Twitter, a escolha de uma obra feita por artista do Paraná --Curitiba é o reduto político da ministra.
      Kit Padre Cícero
      O líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), presenteou o papa com um "kit Padim Ciço": caixa com uma escultura de Padre Cícero, um terço utilizado por ele, um poema e uma carta pedindo a "reabilitação", pelo Vaticano, do padre. O pedido é para que a Igreja Católica reavalie o título que ele recebeu da Santa Sé de clérigo insubordinado, chegando a ser acusado de ser um herege.
      Não tinham ideia
      O carro que levou o papa do aeroporto do Galeão à Catedral Metropolitana, no centro do Rio, foi cedido pela Fiat. A montadora ofereceu quatro modelos à comitiva (duas minivans Idea e dois hatches Bravo), sem custos, mas não imaginava que um deles seria usado no deslocamento do sumo pontífice.

      Vladimir Safatle

      folha de são paulo
      Servidão voluntária
      "Eu não tenho nada para esconder. Por isso, pouco me importa que os EUA vejam meus e-mails, desde que isso nos permita vivermos em um mundo mais seguro."
      Eu encontrei tal afirmação em um "post" no qual seu autor comentava uma notícia sobre o caso Edward Snowden. A primeira coisa que me veio à mente foi a lembrança de ter ouvido essa frase antes, mas em um contexto relativamente diferente.
      Décadas atrás, um conhecido que estudava na antiga Alemanha Oriental, dissera: "Pouco me importa saber que a Stasi [polícia secreta da antiga Alemanha Oriental] me espione. Esse é o preço para defender o socialismo".
      Ele só esquecera de perguntar quanto valia um socialismo construído por meio da completa destruição da noção de espaço privado. Regime no qual os cidadãos alimentam a confiança infantil de que estão sendo escutados por alguém que perceberá quão bons e ordeiros eles são e que, por isso, merecem a proteção que os reis dedicavam aos bons súditos.
      De fato, eu me perguntava se não havia algo de "amor ao agressor" e de necessidade neurótica de amparo nessa estranha tendência psicológica à servidão voluntária.
      Hoje, quase 25 anos depois [da queda do Muro de Berlim], impressiona perceber quão parecidos são, em sua cegueira ideológica, essas duas pessoas que julgam defender mundos diferentes. É engraçado perceber como, no fundo, eles querem a mesma coisa: sacrificar, de uma vez por todas, a liberdade no altar de seus medos e obsessões.
      Mesmo o filósofo Thomas Hobbes costumava dizer, à sua maneira: a soleira da minha porta é o limite do poder do Estado. O que pode significar que o Estado não entra, não legisla e nada diz sobre o que faço em meu espaço privado. Alguns dirão: "Salvo em situações excepcionais". O que explica por que governar, hoje, significa, em larga medida, perpetuar as ditas situações excepcionais a fim de o Estado poder legislar fora da lei.
      Em um mundo onde até mesmo um louco assassinando alguém a machadinha transformou-se em um atentado terrorista, não é difícil imaginar como viveremos em um Estado de exceção permanente. O que me intriga é por que ainda chamar de "democracia" a uma situação assim.
      Nesse sentido, devemos exigir do governo brasileiro, depois de descobrir que a privacidade de seus cidadãos foi violada sistematicamente por uma empresa que prestou serviços ao próprio governo brasileiro no período FHC, que forneça asilo a Snowden. Seu gesto foi eminentemente político. Talvez o gesto político por excelência em um momento como o nosso. Que pessoas como ele possam continuar a fazer gestos como o seu.

        Carlos Heitor Cony

        folha de são paulo
        Lembrando João de Deus
        RIO DE JANEIRO - O primeiro papa a visitar o Brasil foi João Paulo 2º, em 1980. Por indicação de dom Eugenio Sales, então arcebispo do Rio de Janeiro, fui incluído, como jornalista, na comitiva oficial do papa, fazendo todo o percurso que começou e terminou em Ro- ma, após longa visita a várias ca-pitais brasileiras.
        Já no avião da Alitalia à disposição do pontífice, recebi de dom Romeo Panciroli, secretário de Imprensa do Vaticano, a cópia do primeiro discurso que o papa faria no Brasil. Antes, evidentemente, ele cumpriria o cerimonial diplomático, sendo recebido em Brasília pelo presidente da época, João Figueiredo, que lhe deu as boas-vindas protocolares reservadas aos chefes de Estado. Após os encontros oficiais, ele iniciou sua visita pastoral, indo ao encontro dos presos na penitenciária da Papuda.
        O Brasil engatinhava lentamente na senda da abertura política, a mídia internacional noticiava com frequência a repressão militar, com atos de tortura, assassinatos e prisões lotadas de contestadores do regime. Parcela importante da sociedade civil criticava o encontro do papa com o último general da ditadura. Justamente por isso, João Paulo 2º fez seu primeiro pronunciamento como pastor numa penitenciária da própria capital do Brasil.
        Ainda a bordo do avião da Alitalia, li em versão bilíngue o discurso, que publiquei na revista em que trabalhava, e depois, no livro-álbum "Nos passos de João de Deus", lançamento das Edições Bloch, com as fotos que Arturo Mari, fotógrafo oficial do papa, me cedeu com parcial exclusividade.
        Emocionou-me um trecho que agora transcrevo: "A visita que ora vos faço, embora breve, significa muito para mim. É a visita de um pastor no gesto de procurar com mais desvelo a sua ovelha e ficar alegre por encontrá-la".