quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ruy Castro

folha de são paulo
Amigo de reis
RIO DE JANEIRO - Em 1967, quase um foca numa "Manchete" cuja equipe de reportagem tinha Roberto Muggiati, Muniz Sodré, Lêdo Ivo, Ricardo Gontijo e outros, eu já sabia que não havia ali ninguém como Carlos Marques. Era o repórter por excelência, especialista em ir lá, não importava onde, e trazer a informação, não importava como. Justino Martins, diretor da revista, o adorava.
Logo depois, ao dividir um quarto com Carlos no Solar da Fossa, descobri que ele se daria bem em qualquer função que exigisse desembaraço, ideias e sedução. A prova era a quantidade de mulheres que se atiravam a ele, um jovem (23 anos) bugre pernambucano, e de homens importantes que se encantavam e lhe confiavam tudo.
A vida nos separou em 1969 ou 70, e só retomei contato com Carlos em 2012, ao ler seu livro de memórias, "Lá Sou Amigo do Rei", recém-lançado. Ali descobri que, desde há muito fora do Brasil, ele andara às voltas com o papa João Paulo 2º, Pelé, Salvador Dalí, Catherine Deneuve, Isabelita Perón, Yasser Arafat, François Mitterrand, Mikhail Gorbatchov, Paulo Freire. Não como jornalista, mas como parceiro em projetos envolvendo a ONU, a Unesco e órgãos afins. As fotos não mentiam --em todas, lá estava ele, irresistível, dando instruções àquelas figuras.
Outro dia, contei aqui que um exemplar da extinta nota de R$ 1 me caíra às mãos e fizera pensar no que ela representa hoje. Carlos, morando agora em Brasília, leu-a e me escreveu contando que, nos últimos 20 anos, sempre que vinha ao Brasil e comprava alguma coisa na rua, pedia o troco em notas de R$ 1 --que ia jogando em malas e gavetas. Minha crônica o alertou para a sua coleção. Foi lá olhar e descobriu que tem duas gavetas abarrotadas de notas de R$ 1.
É típico Carlos Marques. Aliás, o "lá" do título de seu livro significa qualquer lugar em que ele esteja.

    A janela e a rua - Igor Gielow

    folha de são paulo
    BRASÍLIA - Absorvida a primeira onda de choque do abalo sísmico que mudou a paisagem do poder, ganha corpo no Planalto a percepção de que é preciso entrar em agosto com medidas de impacto --e que fujam de bruxarias como o malfadado plebiscito da reforma política.
    A janela é curta, de duas semanas. A atual está tomada até domingo pela presença midiática do papa Francisco. Já a seguinte ainda não terá a volta do Congresso, onde o clima é de guerra campal e as faturas não param de ficar mais caras.
    Segundo esse raciocínio, é agora a hora de mexidas, mas não uma ampla reforma ministerial, que só deve ocorrer mais à frente e poderá embutir alguma redução do desenho da Esplanada como vacina eleitoral.
    Para esses governistas, é preciso tratar já de dois pontos nevrálgicos para a batalha da reeleição: economia e articulação política.
    Guido Mantega inexiste como fiador de credibilidade. Dilma gosta de insistir em erros, e a inflação do meio do ano mantém o balão de oxigênio ligado sob os escombros na Fazenda.
    Mas a economia está parada como um todo, como apontou ao "Estado de S. Paulo" Alexandre Tombini, presidente do BC. Entrevista que, por desancar a política fiscal na véspera do corte orçamentário de mentirinha anunciado por Mantega, foi vista como um manifesto.
    Se é isso, não se sabe, mas Tombini tem hoje qualidades para ocupar a cadeira de Mantega, em caso de troca: a confiança da chefe e, supõe-se, o dom de acalmar os mercados.
    Na articulação, vital para evitar que o governo passe o resto do ano sob fogo, o xadrez é mais difícil. Os nomes mais cotados para substituir Ideli Salvatti são Ricardo Berzoini e Aldo Rebelo, ambos com resistências de todos os interessados.
    Para os defensores do uso da janela, o tempo corre. No governo, a expectativa é a de que a segunda onda dos protestos de rua venha no 7 de Setembro. E que seja ainda maior.
    igor.gielow@uol.com.br

      Claudia Collucci

      folha de são paulo
      Saúde sexagenária
      SÃO PAULO - Em meio a um fogo cruzado com os médicos, o Ministério da Saúde comemora amanhã 60 anos. Um dos marcos na sua história foi a criação do SUS, há 25 anos, que tornou o Brasil o único país com mais de 100 milhões de habitantes a ter um sistema gratuito e universal de saúde.
      Inspirado no modelo inglês, o SUS sempre sofreu com o subfinanciamento. Enquanto a Inglaterra coloca 10% do PIB no sistema de saúde, o Brasil destina 3,5%.
      Há unanimidade entre especialistas de saúde de que a União precisa investir mais na área (10% do PIB). Hoje, os Estados devem colocar 12% do Orçamento em saúde, e os municípios, 15%. Já a União permanece com a regra antiga, de aplicar de acordo com a variação nominal do PIB.
      Mas o problema não é só esse. O pouco dinheiro que se tem é mal aplicado. As propostas de melhorias no modelo de gestão não decolam.
      Uma das razões é a dificuldade de encontrar uma saída que contemple um gerenciamento com agilidade, lisura e eficiência sem tocar nos princípios vitais do SUS, como universalidade, gratuidade, equidade, controle e participação social.
      Na assistência, os desafios são enormes. O país luta contra doenças tropicais como malária e dengue ao mesmo tempo em que lida com o crescente aumento de males crônicos, como diabetes e hipertensão. Isso tudo aliado a uma pressão pela incorporação de novas tecnologias.
      É uma pena que, diante de tantas demandas urgentes na saúde, não haja sinal de trégua nessa briga em torno do programa Mais Médicos, e a população continue pagando o pato.
      Ontem, médicos protestaram em várias regiões do país contra as recentes medidas do governo federal.
      Em Curitiba (PR), o lavrador Sebastião dos Santos, 71, com o pé machucado e má circulação na perna, tinha consulta marcada no HC, mas teve de voltar para casa sem assistência. Chorando de dor.
      Parabéns, Ministério da Saúde, nesta data pouco festiva.

        Editoriais FolhaSP

        folha de são paulo
        Ordenação cabralina
        Governador fluminense, no intuito de punir atos de violência, confere poderes autoritários e inconstitucionais a comissão
        Foi um susto. O comboio de Francisco se encaminhou pela pista errada da avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, e o veículo do papa, de vidros abertos, terminou cercado por uma multidão. Ao longo de 500 metros e 12 minutos, fiéis chegaram perto o suficiente para tocar o pontífice.
        Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, admitiu que a situação despertou apreensão na comitiva. De acordo com ele, porém, Francisco "estava sorridente, tranquilo", e o resultado, do ponto de vista da igreja, foi considerado positivo.
        Sem que tenha provocado consequências mais graves, o episódio, ainda assim criticável, não representa mais que uma falha na organização do evento.
        É de outra ordem o equívoco de Sérgio Cabral (PMDB), governador do Rio, ao editar decreto com a finalidade de coibir a violência e a depredação do patrimônio público e privado durante manifestações. Trata-se, neste caso, de inaceitável retrocesso autoritário.
        Publicada no Diário Oficial do Estado na segunda-feira, a norma cria a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (Ceiv). Seu objetivo é elogiável: dar maior eficiência às apurações, punir envolvidos nesse tipo de crime e prevenir novas ocorrências.
        São tão abusivos os poderes da comissão, no entanto, que especialistas até duvidaram de sua veracidade. "É um delírio. Eu recebi [a notícia] achando que era uma piada de internet. Quem edita um decreto desse está brincando com o Estado democrático", afirmou o advogado Técio Lins e Silva.
        Dois dispositivos chamam a atenção. Pelo artigo 2º do decreto, a Ceiv pode "praticar quaisquer atos necessários à instrução de procedimentos criminais", entre outras ações para combater delitos no âmbito das manifestações.
        O artigo 3º determina que todas as solicitações da comissão encaminhadas a órgãos do Estado tenham "prioridade absoluta" e obriga operadoras de telefonia e provedores de internet a atender, num prazo de 24 horas, os pedidos de informação feitos pela Ceiv.
        Como se o Brasil não fosse um Estado de Direito, o governador do Rio pretende eliminar o sigilo das comunicações --uma das garantias fundamentais da Constituição-- e institucionalizar o abuso de poder, com a fórmula "quaisquer atos necessários". Quaisquer?
        Não no Brasil de hoje. Talvez Sérgio Cabral ignore este fato, mas, a exemplo de outros criminosos, vândalos devem, sim, ser identificados e punidos, mas sempre dentro das balizas constitucionais.
        Já passou o tempo em que imperava o regime de exceção, e o país não tem saudades dele.
        Da arte de enxugar gelo
        O título acima poderia resumir uma lista com as diversas medidas adotadas em São Paulo nos últimos anos, sem que seu efeito tenha sido outro que não retardar a contínua piora do trânsito da cidade.
        Viadutos, ampliação de vias, faixas de ônibus, rodízio, mais trens e novas linhas de metrô --reconheça-se que não foram poucas as iniciativas de prefeitos e governadores. Os resultados, no entanto, são insuficientes.
        Primeiro, porque os investimentos permanecem aquém do necessário; segundo, porque parte dessas medidas mostrou-se equivocada; terceiro, porque a própria política econômica vem estimulando o aumento da frota.
        Agora, o prefeito Fernando Haddad (PT), em início de mandato e pressionado pelas manifestações que colocaram o tema na berlinda, procura mostrar serviço. A prefeitura criou cerca de 80 km de faixas de ônibus e pretende implantar mais 140 km até dezembro.
        Essas pistas, ainda que menos eficazes do que corredores com espaço para ultrapassagem e plataformas de embarque, vão contribuir para aumentar a velocidade dos ônibus e dificultar a circulação de carros --o que, aliás, já ocorre com o simples aumento da frota.
        Estudos mostram que em 2012 a velocidade média caiu 12% em relação ao ano anterior nas grandes avenidas da cidade.
        Uma das maneiras de minimizar o problema seria levar o rodízio de veículos para além do centro expandido. A prefeitura cogita incluir no esquema algumas grandes vias, hoje excluídas.
        A proposta, como já alertaram especialistas, poderá aumentar a procura por ruas paralelas às impedidas, o que criaria engarrafamentos nos bairros. Será prudente, de fato, um período de teste para avaliar melhor as consequências do aumento da restrição, como estuda a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).
        De todo modo, o provável alívio tenderá a ser transitório. Para atingir um patamar mais eficiente, que desestimule o uso do carro na capital, estima-se que seria preciso dobrar a rede de metrô e construir mais 150 km de modernos corredores de ônibus.
        Tal expansão esbarra na carência de recursos (só a duplicação do metrô custaria cerca de R$ 35 bilhões) e num fator disfuncional, que é a divisão de responsabilidades entre Estado (metrô e trens) e município (ônibus). Para enfrentar esse problema é necessário um esforço de planejamento que envolva toda a região metropolitana.
        Até lá, ao que parece, as autoridades continuarão a enxugar gelo.