sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ruy Castro

folha de são paulo

A cidade é deles

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RIO DE JANEIRO - Outro dia, pelo calçadão do Arpoador, vinham dois "black blocs" no rigor dos trinques: coturno, calças, mochila, camiseta e jaqueta pretos, e moletom com touca idem enrolado à cabeça, deixando apenas os olhos de fora --uma espécie de burca militar, como já se disse aqui. Imagino que trouxessem consigo os adereços de mão próprios da categoria: álcool, vinagre, pedras, molotovs e máscaras contra gases --todo cuidado é pouco quando se tem a lei pela frente.
Mas não havia lei à vista, nem roupa mais imprópria para um "footing" àquela hora --três da tarde, com um sol de veranico sob o qual a dupla suava e parecia apenas exótica, não ameaçadora. Bem faz o Batman, que só sai à noite para trabalhar --sabe que, à luz do dia, sua roupa de morcego tem algo de ridícula. Por sinal, a fantasia dos "black blocs" é a mais próxima que eles acharam para substituir a de Batman --que, tudo indica, usavam até há pouco.
Nossas cidades não têm opções para se trocar de roupa em público. Donde os dois devem ter saído de casa já paramentados e cruzado no prédio com seus vizinhos e porteiros --que os conhecem desde crianças e sabem muito bem quem são. Bem provável que morassem na Vieira Souto (com os pais, naturalmente) e estivessem a caminho do acampamento armado pelos meninos do "Ocupa Delfim", no Leblon.
O fato de saírem fantasiados às ruas e com a maior naturalidade sugere que estamos nos habituando aos "black blocs". E por que não? A cidade é deles. A noite cai e a função começa. Do Leblon, seguem para o largo do Machado, onde quebram o que encontram pela frente. Destroem metade de Laranjeiras e, de lá, vão para o Castelo, a Cinelândia ou a Lapa, onde o rastro da depredação continua.
Hoje, já não passam de 200. Mas são suficientes para subjugar os demais 5.999.800 com que convivem.
ruy castro
Ruy Castro, escritor e jornalista, já trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas, quartas, sextas e sábados na Página A2 da versão impressa.

José Simão

folha de são paulo
Congresso! Nem aí pro Gigante!
E o Danadão é o deputado que todos sonhamos: já tá preso! Superprático: um deputado que já tá preso!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! O Congresso deu uma banana pro Gigante! E o Donadon? O deputado Danadão! "Câmara livra de cassação deputado condenado e preso." Qual a novidade?
E o Danadão é o deputado que todos sonhamos: já tá preso! Superprático: um deputado que já tá preso! O primeiro deputado presidiário!
E o tuiteiro Marcelo Amaral: "Um absurdo isso, o deputado vai ser uma péssima influência na prisão". Rarará!
Enfim, o Congresso deu uma banana pro Gigante! Vergonha, viu? E atenção! "Bolívia pede pra Dilma devolver o Pinto". Sugestão para a Dilma: Troca um pinto por três corintianos. Rarará!
Devolve o pinto pro ovo, e não pro Evo! E um Patriota que é patriota mesmo não vai buscar um pinto lá fora! Rarará!
E o apagão no Nordeste? Diz que foi uma queimada no Piauí. Tão querendo dar uma queimada no Piauí. Pelo tamanho do estrago, foi uma queimada de rosca, isso sim! Queimada de rosca provoca apagão no Nordeste! Rarará!
Eu acho que o Nordeste botou todos os celulares pra carregar ao mesmo tempo! E sabe o que a Dilma perguntou pro Lobão? "Por que esse apagão tão grande?" E o chargista Lute: "Alguém aí conhece um eletricista cubano?". Isso! Chama um eletricista cubano! Rarará.
E a Dilma deve ter dado uma queimada de rabo no Mantega: "Maaantega! Liga essa porra dessa luz! Você não trocou a porra da lâmpada!" Rarará!
E as três causas dos apagões: raio, balão e queimada! E gato! Gambiarra! E a Carla Perez: "Vou ligar a TV pra ver como tá o apagão". Rarará!
E adorei essa chamada: "Veja fotos do apagão". E uma amiga baiana foi alugar um gerador no A Geradora e não conseguiu porque eles estavam sem energia. Como diz uma amiga: "No Brasil não basta ser gostosa, tem que ter gerador próprio". Rarará!
E não é apagão, é trapagão. Trapalhada com apagão!
É mole? É mole, mas sobe!
E o Palmeiras? Manchete do Sensacionalista: "Furacão passa em Curitiba e mata um monte de porcos". Rarará! Tadinhos!
E o Pato comeu a zebra! Maus-tratos aos animais! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

    Mônica Bergamo

    folha de são paulo

    Fundação Oscar Niemeyer organiza mostra com projetos inéditos do arqutieto

    A Fundação Oscar Niemeyer organiza exposição que vai reunir obras clássicas e projetos inéditos do arquiteto, morto em dezembro de 2012. Todo o acervo do criador de Brasília, com cerca de 10 mil documentos, está sendo digitalizado pelo Itaú Cultural, que receberá a mostra em junho do ano que vem, em SP. A exibição será levada também ao Paço Imperial, no Rio, em setembro.
    NIEMEYER
    Entre os 50 projetos inéditos estão dois parques desenhados para São Paulo, no governo Quércia. "Um continha uma clareira no meio de um bosque e o outro, vários serviços de uso popular", explica o curador Lauro Cavalcanti. "Estamos determinando a localização exata. Teriam sido projetados para a periferia e a marginal Tietê."
    NIEMEYER 2
    O Itaú Cultural fará seminário sobre o arquiteto no auditório Ibirapuera neste ano.
    RITMO
    Jacques Dequeker
    Ben Harper foi o cantor escolhido pela top Isabeli Fontana para posar com ela em editorial com o tema rock; o ensaio, feito nos EUA, sai na próxima "Vogue".
    CADASTRO ENXUTO
    A Serasa Experian demitiu anteontem 200 dos 2.800 funcionários.
    *
    Em nota, a empesa de consulta ao crédito justifica os cortes em seus quadros pela "busca de racionalização de processos e introdução de novas tecnologias".
    PEDRA
    São pequenas as chances de a AMB (Associação Médica Brasileira) derrubar o programa Mais Médicos, do governo federal, no STF (Supremo Tribunal Federal). O caso está nas mãos do ministro Marco Aurélio Mello.
    MURALHA
    Uma onda de assaltos aos alunos do Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, em São Paulo, levou a escola a enviar carta circular aos pais para comunicar o reforço na segurança. Depois de uma solicitação, a PM "providenciou uma ronda escolar ostensiva" e já prendeu dois ladrões. Funcionários do colégio passaram a percorrer as ruas em torno da unidade. De moto ou a pé.
    MURALHA 2
    Os estudantes foram orientados a só andar em grupo ou na companhia de adultos e a não usar fone de ouvido ou celular. Os objetos preferidos dos assaltantes são telefones e iPods.
    CONEXÃO AMAZÔNICA
    José Victor e Tatianna Oliva ofereceram, na quarta-feira (28), jantar em homenagem ao empresário José Maria Muller, do grupo Tucuman, e a Virgílio Viana, conselheiro da Empresa Brasileira de Conservação de Florestas. O governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), o presidente da Unilever, Fernando Fernandez, e a jornalista Ana Paula Padrão estavam entre os convidados.

    José Victor Oliva oferece jantar em sua casa

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    Zanone Fraissat/Folhapress
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    O empresário José Victor e sua mulher, Tatianna Oliva, ofereceram jantar para homenagear o empresário José Maria Muller, do grupo Tucuman, e Virgílio Viana, conselheiro da Empresa Brasileira de Conservação de Florestas, na quarta (28), em São Paulo
    FLOR DE LARANJEIRA
    Adam Clayton, baixista do U2, vai se casar com a brasileira Mariana Teixeira, em meados de setembro. Ela é filha do empresário Renato Albuquerque, um dos donos da Alphapar, que loteou Alphaville. A cerimônia íntima será realizada em uma vila no sul da França.
    *
    O pedido de casamento foi feito durante o Carnaval, quando Adam esteve no Brasil e chegou a circular em um camarote da Sapucaí.
    DIVA POP
    Donna Hrinak, presidente da Boeing no Brasil e ex-embaixadora dos Estados Unidos no país, respondia a perguntas da plateia em palestra anteontem, em São Paulo, quando foi questionada se uma liderança feminina tem de ter a marca de Margaret Thatcher ou de Lady Di. "Lady Gaga. Pela ousadia", disse, sob aplausos e risos.
    DIVA POP 2
    E completou: "Você não planeja sua carreira com base em um único modelo, mas estuda um pouco da Thatcher, um pouco da Lady Di, um pouco da Dilma, que chegou à Presidência da sexta economia do mundo. É parte da aprendizagem da vida observar e alinhar os modelos a seus valores". A cena ocorreu na Amcham (Câmara Americana de Comércio).
    CURTO-CIRCUITO
    A exposição fotográfica "Bom Retiro e Luz: um Roteiro" fica em cartaz até 15 de dezembro, no Sesc Bom Retiro. De terça a domingo.
    Fernando de Arruda Botelho recebe homenagem póstuma nesta sexta-feira (30). O empresário será patrono de escola do Sesi em São Carlos.
    O Classic Horse Show, concurso de equitação, começa nesta sexta-feira (30), às 9h, na Sociedade Hípica Paulista, no Brooklin. Grátis.
    Com ELIANE TRINDADE, JOELMIR TAVARES e ANA KREPP
    Mônica Bergamo
    Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

    Michel Laub

    folha de são paulo
    Selinho nas trevas
    Soa quase frívolo Bergoglio falar de como uma criança sofreria sem referência masculina ou feminina
    Uma coincidência separou em poucos meses, no Brasil, a visita do papa e o lançamento de "Longe da Árvore", de Andrew Solomon, que sai em setembro pela Companhia das Letras.
    O livro fala de indivíduos e famílias de indivíduos com autismo, esquizofrenia, deficiência múltipla, síndrome de Down, além de prodígios, transgêneros, surdos, anões, criminosos, crianças geradas por estupro.
    Trata-se de um ensaio/reportagem de impacto comparável a "O Demônio do Meio-Dia" (Objetiva), a obra-prima de Solomon sobre depressão. Num ponto, ao menos, ambos convergem: o autor tenta entender sua condição pessoal --como deprimido grave, no primeiro caso, e como gay e pai, no segundo-- investigando o conceito de identidade. Ou de algo que com ela se mistura em termos históricos, políticos e científicos: a doença.
    Talvez seja injusto comparar as mais de mil páginas de "Longe da Árvore", seu rigor obsessivo na busca por depoimentos e bases teóricas e empíricas, com o mais sucinto e digestivo "Sobre o Céu e a Terra" (Paralela), reunião de conversas entre o então arcebispo de Buenos Aires Jorge Bergoglio e o rabino Abraham Skorka.
    De qualquer modo, vamos lá. Nas palavras de Solomon, seu livro fala de lares onde "tudo parece ter dado errado". Desse possível pior cenário, sem cair no relativismo ingênuo ou no apelo das histórias de superação, o autor descreve a luta para entender e aceitar as "identidades horizontais" --casos de crianças radicalmente diversas dos pais.
    Já "Sobre o Céu e a Terra" trata com mais severidade diferenças menos acentuadas, como a de filhos adotados/criados por pessoas do mesmo sexo. Depois de ler os relatos dolorosos de Solomon, soa quase frívolo Bergoglio falar de como uma criança sofreria por não ter --numa casa onde foi querida desde o início-- uma referência masculina ou feminina. A pergunta que surge, e ainda na lógica do pior cenário, é óbvia: sofreria mais do que se fosse criada num orfanato, ou por pais violentos/omissos?
    A resposta do futuro papa não sai do campo dos princípios, como é próprio da igreja. A existência de um problema não justificaria o endosso à perpetuação de outro. Como a solução de nenhum deles está no horizonte próximo, vem à cabeça a réplica também óbvia: se agarrar a um ideal abstrato não é uma forma de lavar as mãos diante de uma situação urgente e concreta?
    À primeira vista, "Sobre o Céu e a Terra" não discrimina a orientação sexual de ninguém. A frase célebre do papa no Brasil --"quem sou eu para julgar?"-- é reproduzida com outras palavras no livro. Mas aí leio um trecho em que Skorka discorre sobre a incompletude do amor "praticado por iguais", que desperdiçaria a riqueza de "descobrir o outro".
    É um argumento complicado, porque atribui valor menor a uma conduta que decorre de um modo de ser, com ele podendo se fundir. Uma identidade, portanto, que nada têm de imoral ou moral. Também é um argumento simplório: então dois indivíduos se conhecem por inteiro, e não sobra riqueza na relação daí nascida, apenas porque ambos são XX ou XY?
    O espanto diminui quando lembro que estamos tratando de religião. Nela, por mais que se evoquem ciência e cultura, como fazem o papa e o rabino com inteligência, há um momento em que se esbarra no dogma. Em que se naturaliza como verdade ancestral revelada o que, como todo fenômeno humano, tem muito de discutível construção social.
    Num Estado laico, cada um faz o que quer dentro dos limites da lei civil. É direito da religião apontar o caminho que acha correto. Cabe apenas registrar que não só essa lei, mas a forma como as pessoas vivem no cotidiano, com menos ou mais tolerância e violência, pode ser efeito do que parece apenas debate doutrinário.
    Bergoglio e Skorka dizem que cada um é livre para exercer sua natureza no "recato e intimidade", mas que equiparar o casamento gay ao heterossexual, em todas as esferas legais e simbólicas, seria um "retrocesso antropológico". Como essa matriz de pensamento, determinada por líderes espirituais e políticos que assim se apresentam, é interpretada por quem discute no bar o selinho que o jogador Sheik deu num amigo?
    "Longe da Árvore" é uma defesa generosa da diversidade humana, que aponta para a luz possível até em meio à devastação. "Sob o Céu e a Terra" tenta fazer o mesmo em alguns trechos, mas em outros flerta --ou vai além disso-- com as trevas.