terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Vício a um clique

Com o uso cada vez mais disseminado da internet, mídias sociais podem interferir ou prejudicar o comportamento sexual das pessoas. Desenvolvimento de doenças e mudança na relação médico-paciente são questionados


Lilian Monteiro
Estado de Minas: 21/01/2014



A vivência da sexualidade na era virtual levanta inúmeras questões sobre até que ponto a internet e as mídias sociais interferem na saúde sexual das pessoas e provoca indagações sobre a ética e valores na era digital, tema desta última reportagem do Estado de Minas da série sobre transtornos da sexualidade. Ao atravessar fronteiras, pôr fim a barreiras culturais e garantir o anonimato, tanta exposição (permitida ou roubada) põe em xeque a possibilidade de aumento das perversões sexuais, desenvolvimento de doenças e até a interferência dessas redes sociais na relação médico-paciente.

Para o professor-adjunto do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Amaury Castilino, doutor em neuropsiquiatria e ciências do comportamento, o mundo virtual facilita determinadas formas de comunicação que podem concretizar algumas relações afetivas reais. Além disso, algumas pessoas tímidas e outras mais recatadas encontram na internet oportunidades de exposição de desejos que são partilhados por outros. Mas a dúvida é: esse aumento de exposição pessoal pode aumentar as perversões sexuais?. "Pensamentos ou desejos sexuais menos comuns podem ser compartilhados na internet, tornando-os aparentemente usuais para o indivíduo que eventualmente acreditava que estava sozinho naquela fantasia. Esse aspecto pode favorecer a expressão comportamental do desejo por meio de um afrouxamento dos freios morais."

A psiquiatra e psicanalista mineira Marília Brandão Lemos Morais enfatiza que a internet é um meio de comunicação social valioso e um veículo por meio do qual as pessoas podem se apegar afetiva e socialmente, já que as redes sociais promovem o diálogo on-line e off-line. Ao propiciar acesso a conteúdos diversos, vão estar à disposição sites de pornografia, de encontros amorosos e sexuais e de sexo virtual, que, se antes se limitavam ao texto, agora agregam imagens, vídeos, a possibilidade de usar a webcam em tempo real e o contato virtual. "As pessoas compulsivas sexuais usam a internet como veículo da sua compulsão. Muitos têm vida real com seus parceiros, mas não controlam o poder aditivo e viciante de apenas um clique ao seu alcance. No mundo virtual, elas encontram seus grupos e pares com as mesmas preferências, vivências, fantasias. E sabem que serão aceitas, não rejeitadas."

Marília reforça que a internet promove dependência por três fatores. Primeiro, pela acessibilidade, 24 horas, sete dias por semana e, ainda, com a facilidade de aparelhos móveis, podendo estar em qualquer lugar. Segundo, pelo anonimato. A pessoa se sente protegida. E terceiro, por ser um empreendimento de baixo custo, todos têm acesso. "O problema é que quem faz parte do grupo de risco vai estimular o transtorno ao vivenciar na internet a busca de suas fantasias. É uma tendência de ser repetitivo." A médica lembra que há características de personalidade que podem predispor a esse comportamento. São pessoas em fase de fragilidade, solitárias, tímidas e que usam a internet como escape, forma de enfrentamento e desvio dos problemas da vida real. "Num primeiro momento, podem achar interessante. Mas ao se tornar viciante, vai gerar prazer fácil, imediato e estimular um circuito de recompensa e gratificação que, por ser repetitivo, causará problema na vida pessoal. O refúgio na internet é uma forma de alienação afetiva, social e do trabalho que só causa sofrimento", pontua.

A psiquiatra conta que de 5% a 10% dos usuários da população mundial podem se tornar dependentes e não só de sexo, mas de jogos (pôquer e RPG) e da própria navegação. "Há pessoas que acessam por curiosidade. E os compulsivos são capturados pela rede. A internet passa a ser um problema grave. As obsessivas não conseguem desviar o pensamento e, no caso de doentes e criminosos, como os pedófilos, a usam para atrair suas possíveis vítimas."

VIDA MODERNA A médica mineira chama a atenção para o sofrimento dos dependentes. "Eles precisam buscar ajuda porque sozinhos não vão se desvencilhar. Têm de tratar a dependência, ficar um tempo longe, como ocorre no caso da droga ou do álcool. A internet é instrumento da vida moderna, impossível viver sem (usada no trabalho, para acessar banco, fazer compras etc.) e, por isso, é fundamental procurar um tratamento tanto medicamentoso quanto psicoterápico." Marília lembra ainda que pessoas compulsivas e dependentes podem aprender a conviver com o uso da internet de forma saudável, com equilíbrio e contenção.

Segundo ela, a dependência é recente e nem conta na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) ou no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSMs). "Vários autores escrevem livros, há trabalhos, mas é tudo novo ainda. O doente na internet entra em estado alterado de consciência. A sensação de tempo e hora muda, assim como a de espaço, de quebras de fronteiras, de conversar com alguém na China como se estivesse ao seu lado. Vivem num estado de imersão prazeroso e tudo é novidade, surpresa, sem começo ou fim. Ele pensa que tem controle, mas na realidade o perde. É bom destacar que o ser humano é social, precisa estar agregado, que a fantasia é necessária, mas não pode descontrolar."

Palavra de especialista
Carmita Abdo
psiquiatra, psicoterapeuta, terapeuta sexual, doutora e livre-docente pela USP
Temos dificuldades

"Para evitar o transtorno sexual é importante ter saúde física e emocional. Acham que é pouca coisa? Não é. É preciso ter levado sempre uma vida saudável e para alcançá-la, recomendo: não seja sedentário, pratique exercícios, mantenha o peso, dieta balanceada, não beba em excesso, não use drogas, procure se estressar o menos. Tente aproveitar, passear, trabalhar, mas garantir as horas de sono necessárias. Com tudo isso você evita adoecer ou pelo menos protelar a propensão ao adoecimento, como diabetes, hipertensão, colesterol e triglicérides altos e outras doenças que acarretam prejuízos à sexualidade.  O sexo pode ser melhorado com medicação, mas a causa de um problema sexual deve ser reconhecida e combatida. Só o medicamento para agir nos sintomas é paliativo. O brasileiro gosta muito de sexo, é reconhecido no mundo inteiro como bem resolvido. No entanto, a dificuldade de ereção, ejaculação precoce, falta de desejo das mulheres e a dificuldade do orgasmo delas mostram que temos muita dificuldade. Talvez nossa liberdade com o corpo, a forma tranquila com que falamos do assunto seja diferente de outros povos, mas não o nosso desempenho."

Tratamento pode correr risco

O professor-adjunto do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Amaury Castilino comenta  que o uso da internet trouxe um outro tema relevante para os debates no meio médico e na academia: a interferência das redes sociais na relação médico-paciente. Ele explica que é cada vez mais fácil o paciente ter acesso a informações pessoais de médicos e familiares. Dessa forma, informações sobre relacionamentos, filiações religiosas ou partidárias, escolhas de estilo de vida, imagens não profissionais, entre outras, são facilmente obtidas na rede, com meras consultas a sites de relacionamento.

"Algumas delas podem prejudicar a relação profissional e atrapalhar o curso do tratamento. Muitas vezes, os pacientes nem sequer comentam a respeito dessas informações, e o impacto negativo delas pode nunca ser discutido. Ao mesmo tempo em que não se pode exigir que o psiquiatra não participe das redes sociais, esses profissionais precisarão observar alguns aspectos das expectativas sociais a respeito da sua profissão. Além disso, sabe-se que a fala do paciente é modulada de acordo com o que ele sabe sobre o médico e, na psiquiatria, é de fundamental importância que o paciente se sinta à vontade para relatar suas vivências, sem receio de julgamentos pessoais", avalia Castilino.

Para o psiquiatra, as redes sociais são um fenômeno da comunicação moderna. Tornaram-se uma nova forma de vida social, com uma amplitude de possibilidades de contato maior e mais rápida do que tudo que tínhamos anteriormente. "Dessa forma, acaba sendo uma ferramenta importante para a divulgação de informações médicas relevantes para a sociedade. Sobretudo nas formas de grupos para discussões profissionais, as redes sociais tendem a ser aliadas do médico e do paciente na promoção da saúde." Por outro lado, ele lembra que junto com a exposição há também muita mentira, invenção e criação. "Na prática psiquiátrica, muitas vezes podemos enxergar discrepâncias entre os relatos de angústia, depressão e sofrimentos diversos no consultório com a aparente satisfação com a vida mostrada na rede social. O que se coloca no consultório, em geral, é mais livre de críticas e de censura; nas redes sociais coloca-se o que tende a ser aprovado e reforçado por ‘curtições’."

CONFIANÇA Com a exposição virtual, uma questão é saber se o médico pode usar as informações das mídias sociais par fazer diagnóstico?. "Embora esse assunto ainda não tenha sido amplamente discutido nos conselhos de medicina, há uma nítida tendência dos psiquiatras a uma restrição da atuação médica ao que se consegue obter de informação a partir da anamnese no consultório. A busca de dados sobre o paciente a partir da internet pode comprometer a relação de confiança do paciente no seu médico e levar à interrupção do tratamento. Considera-se que uma confrontação do paciente com informações obtidas por busca ativa nas redes sociais pode causar constrangimento inadequado para o tipo de relação que se deseja construir." 

O despertar da caçadora de cometas‏

O despertar da caçadora de cometas 

Sonda enviada ao espaço em 2004 com o objetivo de estudar um cometa volta a funcionar depois de passar dois anos e meio desligada para poupar energia. Encontro com a rocha gelada deve ocorrer em novembro 
 
Estado de Minas: 21/01/2014


Ilustração mostra o robô Philae na superfície do asteroide: estudo da rocha espacial trará informações sobre formação do Sistema Solar (CNES-ESA/AFP)
Ilustração mostra o robô Philae na superfície do asteroide: estudo da rocha espacial trará informações sobre formação do Sistema Solar


Brasília – Rosetta partiu da Terra há quase 10 anos, em março de 2004, para uma viagem solitária. Passou por Marte, avistou de perto dois asteroides e, depois de viajar por sete anos e percorrer mais de 800 milhões de quilômetros, aproximando-se de Júpiter, teve direito a um merecido descanso. Dormiu por dois anos e meio, até que despertou ontem, para cumprir a fase final e mais importante de sua missão: conhecer de perto um cometa e, assim, ajudar os cientistas a desvendar a origem do Sistema Solar e da vida no Planeta Azul.

A viajante espacial é uma sonda enviada pela Agência Espacial Europeia (ESA) rumo ao cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. O encontro está marcado para novembro, quando, depois de se aproximar da rocha gelada, Rosetta liberará um pequeno aparelho de 100 quilos, o Philae, que pousará sobre o 67P. Munido de 10 instrumentos científicos, Philae fornecerá informações preciosas e detalhadas sobre o objeto cósmico. Isso, obviamente, se tudo continuar ocorrendo como programado.

Imprevistos em missões espaciais são comuns. Do lançamento até o destino, pequenas falhas podem colocar tudo a perder. Por isso, o dia foi tenso no Centro Europeu de Operações Espaciais, em Darmstadt, na Alemanha. Depois de ter quase todos os equipamentos desligados em junho de 2011 – uma medida importante para poupar energia e garantir o fim da missão –, a sonda estava programada para despertar ontem, às 8h no horário de Brasília.

Todo o procedimento, incluindo o de desdobrar seus painéis solares de 14 metros de comprimento, precisava ser executado pela própria máquina, que manteve em funcionamento durante a hibernação apenas algumas partes, como o sistema de energia e relógio do computador principal, que fez o papel de despertador. Não havia nada que os cientistas pudessem fazer da Terra, a não ser torcer para que tudo saísse como previsto. Para aumentar a aflição, a sonda precisava de sete horas para colocar todos os componentes novamente em operação. Só então os responsáveis pela missão de 1,3 bilhão de euros saberiam que tudo estava bem.

A boa notícia chegou por volta das 16h20, para alívio geral. O centro de comando recebeu o sinal de Rosetta, e os técnicos vibraram e aplaudiram. Na conta mantida pela ESA no Twitter e alimentada como se a própria sonda estivesse se comunicando com os internautas (@ESA-Rosetta), logo surgiu a mensagem: “Olá, mundo!” “Agora, cabe a nós dirigi-la até o cometa”, confirmou, ao jornal britânico The Guardian, Andrea Accomazzo, gerente de Operações de Veículos Espaciais da ESA.

Vida Tanto esforço é justificado porque os cientistas estão convencidos de que conhecer melhor os cometas pode levar a uma melhor compreensão de como se formou o Universo e o Sistema Solar. Desde que o Sol e os corpos que o orbitam surgiram, há 4,6 bilhões de anos, essas rochas cobertas de gelo pouco mudaram. Estudá-las, portanto, é uma espécie de arqueologia espacial.

“Abrir essas cápsulas do tempo e observar o gás, a poeira e, particularmente, o gelo de que são feitos fornece grandes pistas sobre a origem do nosso Sistema Solar e, potencialmente, até sobre a vida”, explicou à agência France-Presse o astrofísico Mark McCaughrean. “Essa cápsula do tempo está fechada há 4,6 bilhões de anos. Chegou o momento de abrir a arca do tesouro”, acrescentou. Quando menciona o surgimento da vida, McCaughrean se refere a uma hipótese de que a queda de cometas na Terra foi fundamental para a criação das condições que possibilitaram o aparecimento de organismos no planeta.

Há também um motivo para que o 67P tenha sido o cometa escolhido: o objeto passou bilhões de anos no espaço profundo até que uma passagem perto de Júpiter mudou radicalmente sua órbita em 1959. Dito de outra forma, ele quase não sofreu erosão dos raios solares e seu testemunho sobre o Universo promete ser particularmente compreensível.

Manobras Atualmente, a sonda está próxima a Júpiter. Para chegar lá, circundou três vezes a Terra e uma vez Marte, usando o empuxo gravitacional dos planetas como um estilingue para ganhar velocidade. “Tivemos que circundar o Sol cinco vezes em diferentes órbitas para ganhar velocidade”, explicou Paolo Ferri, diretor da missão solar e planetária da ESA.

Agora que acordou, Rosetta realizará, progressivamente, manobras de frenagem e aceleração a fim de seguir o rastro do cometa 67P. Em agosto, a nave será colocada em uma órbita a apenas 25 quilômetros sobre o cometa, usando 11 câmeras, radar, micro-ondas, infravermelho e outros sensores para esquadrinhar sua superfície.

Finalmente, em novembro, a missão deverá atingir seu ponto de maior tensão. O robô-laboratório Philae, do tamanho de uma geladeira, se desprenderá da sonda que o leva e pousará na superfície acidentada do cometa para realizar experimentos. “Queremos saber tudo sobre o cometa, seu campo magnético, sua composição, sua gravidade, sua temperatura, tudo!”, disse Amalia Ercoli-Finzi, encarregada de um dos muitos experimentos que integram o programa.

Hieróglifos

O nome da sonda é uma citação à Pedra de Roseta, um pedaço de basalto vulcânico descoberto por soldados franceses no Egito em 1799. A peça, hoje no British Museum, em Londres, traz inscrições, incluindo hieróglifos e textos em grego. Ao comparar as duas línguas, historiadores puderam começar a desvendar o significado dos símbolos utilizados pelos antigos egípcios. 

Pedrinhas é coisa nossa‏ - Ronaldo de Castro Garcia

Pedrinhas é coisa nossa 
 
Ronaldo de Castro Garcia - Advogado, sócio do escritório Ronaldo Garcia e Advogados Associados, especialista em ciências criminais

Estado de Minas: 21/01/2014

Em qualquer roda de conversas temos o exemplo claro do brasileiro típico: sempre que podemos, mostramos nossa vocação natural de juízes sobre quaisquer assuntos. Temos opinião formada sobre tudo e todos e é com essa qualidade inata que vamos aos poucos construindo nossa sociedade e todas as instituições que a sustentam. Rotineiro ouvir que bandido bom é bandido morto, que polícia tem mais é que bater em vagabundo e que os direitos humanos só servem para ajudar os bandidos. Pois bem, com essa nossa visão extraordinária de mundo estamos construindo algo que ninguém poderá nos roubar, trilhamos um caminho com destino certo ao lugar que sempre almejamos e poderemos finalmente comemorar uma vitória, seremos a verdadeira materialização do absoluto fracasso humano. Todas as recentes notícias corroboram com a ideia que estamos quase conseguindo esse sucesso triste. Formamos um povo que é ferrenho crítico de si mesmo, que ao se comparar a qualquer outro se vê em desvantagem em qualquer aspecto. Temos governantes que trabalham arduamente para si mesmos, enquanto a engenharia legislativa nacional não para de produzir leis absurdas. Temos um judiciário moroso, sobrecarregado, que em vez de realizar bem o seu trabalho, tenta de forma equivocada usurpar a função mal realizada pelo Legislativo, mas tudo isso ainda não é suficiente.

Vivemos em um país de dimensões continentais com uma diversidade de povos dentro de um mesmo povo, até índios temos, apesar de lutarmos arduamente para acabar com eles. Nós nos odiamos enquanto povo e não nos importamos com o que acontece do outro lado do muro de nossas casas, a dor do vizinho não nos dói e seus gritos de socorro não mais nos incomodam. Mantemos nossos televisores ligados nos programas policialescos e clamamos por leis penais mais severas, queremos diminuir a maioridade penal, queremos mais prisões, mesmo que o dinheiro empregado seja em detrimento de menos escolas. As notícias que chegam dos homicídios bárbaros que ocorreram no presídio em Pedrinhas, no Maranhão, não vão mudar a trajetória que estamos a percorrer. Os presídios em todo o país, em sua maior parte, continuarão sendo depósitos desumanos de pessoas, a população carcerária e sua tendência absurda ao crescimento formam uma enorme sujeira e precisamos sumir com esse problema. Não há que se falar em ressocialização, não é para isso que criamos as nossas prisões, elas foram criadas apenas para prender aqueles que julgamos não pertencer ao mundo dos livres, ainda que grande parte não tenha tido oficialmente julgamento algum.

Com a divulgação dos vídeos dos presos decapitados vários articulistas se empenharam em creditar a atrocidade à “Monarquia Maranhense”, como se o desserviço que prestamos não tivesse participação no evento. Não podemos permitir tal engano, já que, diariamente, com nosso jeitinho brasileiro, burlamos as regras do jogo. Com nosso voto elegemos os piores, com nosso clamor e estupidez as leis vão se recrudescendo; com a nossa preguiça a mentira, o retrocesso e a patifaria ganham corpo. Assim, não permitiremos que nos furtem todo o crédito, afinal não foi nada fácil construir essa realidade. Pedrinhas é coisa nossa!

Reforma e alianças na pauta

Dilma se reúne com Lula no Alvorada para discutir as mudanças ministeriais e o cenário das eleições. Perto de ser anunciado titular da Casa Civil, Mercadante participa do encontro


Paulo de Tarso Lyra
e Daniela Garcia
Estado de Minas: 21/01/2014


Brasília – Durante cinco horas de reunião no Palácio da Alvorada, o provável núcleo central da campanha de Dilma Rousseff à reeleição – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Franklin Martins, o chefe de gabinete de Dilma, Giles de Azevedo, e o ministro da Educação e futuro titular da Casa Civil, Aloizio Mercadante – discutiu a conjuntura política, incluindo as mudanças na Esplanada, os cuidados para que a Copa do Mundo não se transforme em um pesadelo para o Planalto e as ações voltadas para a educação em um eventual segundo mandato. A única ausência foi a do marqueteiro João Santana, não convidado estrategicamente para evitar questionamentos da oposição sobre uma reunião de campanha em pleno dia útil de trabalho e no horário de expediente da presidente. 

Além de Giles de Azevedo, o único integrante do primeiro escalão a participar do encontro foi Mercadante, convidado, durante o fim de semana, para assumir a Casa Civil no lugar de Gleisi Hoffmann. Ela pretende concorrer ao governo do Paraná. Mercadante, inclusive, já despachou parte do dia de ontem no Planalto, preparando a transição de pastas, que será consumada tão logo Gleisi retorne das férias, na quinta-feira. 

A mudança abre espaço para que o atual secretário-executivo do Ministério da Educação, Henrique Paim, assuma o cargo de titular. Paim conta com a simpatia da presidente Dilma e do próprio Mercadante, que pretende indicar o sucessor. Ele também quer manter Marco Antonio Raupp no Ministério de Ciência e Tecnologia, pasta que está sendo cobiçada pelo PSD de Gilberto Kassab.
O porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, não quis confirmar o convite feito pela presidente a Mercadante. “As mudanças serão anunciadas depois do retorno da viagem da presidenta à Suíça e a Cuba (no fim do mês)”, declarou. Mas Dilma deve conversar ainda hoje com o provável futuro ministro da Saúde, Arthur Chioro. Ele deve assumir a vaga do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo. 

Dilma também se reuniu ontem, no fim da tarde, com o ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB), que deixará a pasta para concorrer ao governo do Rio de Janeiro. Crivella lidera, até o momento, as pesquisas de intenção de voto e já confirmou que dará palanque a Dilma.
No Rio, Dilma e Lula lutam para conter a briga entre o PT e o PMDB. Pré-candidato petista ao governo estadual, o senador Lindbergh Farias confirmou que a legenda desembarcará da administração fluminense em 28 de fevereiro. Ato contínuo, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), confirmou que renunciará ao mandato para concorrer ao Senado. O gesto reforçará a campanha do atual vice-governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que disputará o Executivo local.

COPA Antes das eleições, entretanto, o grande evento esportivo do ano no país, a Copa do Mundo, tem tirado o sono de Dilma e dos ministros mais próximos, incluindo os que deixarão a pasta na reforma ministerial que se desenha. Na semana passada, o Estado de Minas mostrou que a presidente pretende fazer, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), um mutirão para evitar rebeliões nos presídios situados nas 12 cidades sede dos jogos. Ela não quer que se repitam as cenas de selvageria que ocorreram no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão.
Dilma também está preocupada com o nível de enfrentamento que o torneio provocará na sociedade. No início do ano, circulou nas redes sociais a hashtag #naovaitercopa, em alusão às manifestações que devem ocorrer no país. O PT reagiu e mandou o recado em sua página em uma grande rede social: #vaitercopa. O governo reconhece que, em junho, as manifestações de rua devem voltar, com mais intensidade. Como as obras de infraestrutura e mobilidade urbana estão atrasadas e os aeroportos tendem a não ficar prontos a tempo de receber os turistas, a tendência é que o nível de insatisfação aumente. 

Uma das principais bandeiras da primeira campanha, Dilma deve dar mais atenção ao setor em um eventual segundo mandato. A presidente se apoia nos royalties do pré-sal para dar um salto na educação, prometido por ela quatro anos atrás, mas que ainda não efetivamente concretizado. Dilma tem o programa Ciência Sem Fronteiras para apresentar, mas a grande marca do primeiro mandato deverá ser o Mais Médicos, no campo da Saúde.

DE VOLTA AO COMEÇO

Curado de um câncer na laringe há sete meses, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está novamente de barba – embora mais rala e branca –, uma de suas marcas registradas desde que iniciou sua carreira política no fim dos anos 1970. Ele havia tirado a barba no fim de 2011, em função da quimioterapia. Para se antecipar à queda de fios causada pelo tratamento, Lula deixou que ex-primeira-dama Marisa Letícia raspasse sua barba e seu cabelo. A foto foi tirada durante a reunião do ex-presidente com a presidente Dilma, ontem à tarde, no Palácio do Planalto.