sexta-feira, 16 de maio de 2014

DADOS DA OMS » Cresce expectativa de vida global

Estado de Minas: 16/05/2014 



Crianças brincam na Libéria, onde a expectativa passou de 42 para 62 anos  (Thierry Gouegnon/Reuters %u2013 3/2/13)
Crianças brincam na Libéria, onde a expectativa passou de 42 para 62 anos

Em todo o mundo, as pessoas estão vivendo mais. Uma menina nascida em 2012 deverá alcançar os 73 anos, e um menino chegar aos 68, de acordo com estatísticas publicadas ontem pela Organização Mundial de Saúde (OMS). São seis anos a mais de expectativa de vida em comparação a uma criança que nasceu em 1990. O relatório anual indica, ainda, que os países mais pobres foram os que fizeram maior progresso, com um aumento médio na expectativa de vida geral de nove anos nesse período. Seis nações registraram crescimento de 20 anos: Libéria (42 anos, de 1990, para 62, em 2012), seguida por Etiópia (45 para 64), Maldivas (58 para 77), Camboja (54 para 72), Timor Leste (50 para 66) e Ruanda (48 para 65). No Brasil, o incremento foi de oito anos, passando de 66, em 1990, para 74, em 2012.

“Uma importante razão para a expectativa global ter melhorado tanto é que menos crianças estão morrendo antes de completar 5 anos”, disse Margaret Chan, diretora-geral da OMS. “Mas ainda há um grande divisor entre os ricos e os pobres: as pessoas de países de alta renda continuam a ter muito mais chances de viver do que as de países pobres”, ressaltou. Um menino que nasceu em 2012 em uma nação rica deve viver 16 anos a mais que um garoto nascido em um país menos desenvolvido economicamente. Para garotas, a diferença é ainda maior: 19 anos.

Independentemente do lugar do planeta, as mulheres vivem mais que os homens. No Japão, as mulheres têm a maior expectativa de vida do mundo: 87 anos. São seguidas por Espanha, Suíça e Singapura, onde elas vivem 84 anos. Islândia, Suíça e Austrália são os países onde os homens vivem mais: em média, 80 anos. “Em nações de alta renda, muito do ganho na expectativa de vida se deve ao sucesso do enfrentamento de doenças crônicas. Menos homens e mulheres estão morrendo antes dos 60 de doenças cardiovasculares. Nações mais ricas estão melhorando o monitoramento da pressão alta, por exemplo”, disse Ties Boerma, diretor de estatísticas de saúde da OMS. O declínio do uso de tabaco também está ajudando as pessoas a viverem mais em vários países.

A fúria obscurantista de Guarujá - Cláudia Regina Miranda de Freitas

Cláudia Regina Miranda de Freitas Advogada, mestre em ciências penais pela UFMG, professora de direito penal da Faculdade Arnaldo Janssen

Estado de Minas: 16/05/2014



Tristes episódios vivenciamos com a onda de justiçamentos, que não têm sido raros, infelizmente. Esses criminosos que se autointitulam “justiceiros” impõem cruelmente o castigo a pessoas pelo simples fato de se acharem no direito de punir um suposto infrator. Ignoram que há instâncias formais de punição e que a elas devem recorrer, como ocorre em qualquer país civilizado. O último acontecimento dessa natureza divulgado pela imprensa, ocorrido no Guarujá, é de extrema gravidade, uma vez que tudo se deu devido à semelhança física da vítima, Fabiane, uma dona de casa de 33 anos, com um retrato falado de uma suposta sequestradora de crianças para participação em rituais de magia negra. Noticiou a imprensa que dezenas de pessoas enfurecidas investiram de forma covarde contra a vítima, amararam-na e na sequência a arrastaram até que sucumbisse ao estado de inconsciência após um espancamento coletivo. Pessoas assustadas com a violência chamaram a polícia tarde demais para evitar a morte da mulher.

Atitudes como essa demonstram que parte da sociedade brasileira retrocedeu ao obscurantismo experimentado no período da Idade Média, em que predominava a pena capital sem que fosse dada à vítima a oportunidade de se defender. O que é pior: parte da população aplaude a atuação de justiceiros ao argumento de que se o Estado não responde à demanda por justiça, que seja feita pelas próprias mãos. Nessa lógica, supostos autores de furtos são amarrados a postes, pichadores têm seus corpos pichados, bruxas por semelhança são arrastadas até a morte por uma multidão. É no mínimo assustador e nos força a reflexão. Nesse quadro, é essencial diagnosticar que, numa sociedade amedrontada e insegura, os meios de comunicação de massa respaldam políticas de tolerância zero e prestam um desserviço enorme à sociedade, fomentando condutas de autotutela.

Desde que ocorreu a separação entre a religião e o Estado, delegamos ao poder público o poder punitivo, de modo que toda e qualquer sanção só se legitima pela via jurisdicional. Assistimos impassíveis a uma inversão de valores em que virtudes como a prudência e a tolerância tornaram-se obsoletas, num contexto de truculência e incentivo a reações hostis. Sobre a tolerância, o filósofo André Comte-Sponville observa que o seu exercício significa renúncia a uma parte de sua cólera, de modo que só é virtuoso aquele que supera seu próprio interesse, seu próprio sofrimento em prol de outrem. Tolerância não é sinônimo de passividade, ao contrário, tudo o que ameaça efetivamente a liberdade e a paz é intolerável. Sejamos intolerantes com relação à crueldade e à ignorância daqueles que condenaram à morte a dona de casa.

Especificamente no caso do Guarujá, constatou-se que a reação de ódio que culminou com um desfecho trágico partiu de moradores da periferia da referida cidade, do mesmo bairro em que residia a vítima. Em sua maioria, são pessoas desassistidas pelo Estado em suas necessidades primárias, como educação de qualidade e segurança pública. O efeito deletério de gerações deixadas ao desamparo pelo poder público é o aumento da vulnerabilidade de determinados grupos de pessoas, manifestada em atitudes irracionais e que atentam contra a dignidade humana. Não seria exagero afirmar que o resgate da dívida social deve mirar as gerações que virão, já que é irreparável o dano já produzido e que permanecerá repercutindo socialmente.

Em tempos de tamanha hostilidade, evocar o respeito aos direitos humanos torna-se imprescindível, embora o senso comum se refira a ele com desprezo, desconhecendo a dimensão extraordinária que esse ramo do direito possui como um direito de todos os seres humanos, identificado, sobretudo, com a plenitude do direito à vida, não só sob o aspecto físico, mas também moral. Humanizar é preciso.

Horror - Eduardo Almeida Reis

A televisão nos mostrou inúmeras brasileiras de blusa e calça comprida com glúteos exagerados, transbordantes de untos, desproporcionais


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 16/05/2014






Um médico tem formação superior à média/alta dos brasileiros. Se bem-sucedido, morando em belíssima casa na cidade de Três Saltos (RS), pode ser considerado homem rico. Sua atual mulher é belíssima enfermeira, profissão que implica desvelo, dedicação, carinho no tratamento de pessoas. Edelvânia Wirganovicz, de 40 anos, amiga da bela enfermeira, é profissional de assistência social, atividade que visa a proporcionar assistência a membros carentes de uma comunidade, seja material, de saúde, jurídico, educacional etc., isto é, serviço público ou privado de previdência e assistência, destinado a proporcionar melhoria de condições de vida a seus beneficiários. Edelvânia tem um irmão.

Além do médico, da enfermeira, da assistente social e do irmão, havia o filho do primeiro casamento do cirurgião, um menino de 11 anos, carinhoso e carente, estimado pelos coleguinhas e pelos professores do colégio em que estudava, morando com o pai e a madrasta na ótima casa.

O menino desaparece, amiguinhos, professores e alguns parentes se preocupam, 10 dias depois seu corpo é encontrado ensacado em plástico num buraco escavado em mata próxima de um riacho, a 80 quilômetros de Três Passos. São acusados e presos o pai médico, a madrasta enfermeira, a amiga do casal e seu irmão.

A mídia só respirou aliviada quando surgiu o “motivo” do crime: herança expressiva. Pela óptica do moderno jornalismo, o “motivo” atenua a barbaridade. Descobriu-se que o menino de 11 anos teria o direito de herdar a metade dos bens do pai. Quatro anos atrás, a mãe do menino suicidou-se ou foi suicidada no consultório do marido, poucos dias antes de assinar o divórcio que lhe daria a metade dos bens do casal. Metade que passou a pertencer ao menino, então com 7 anos.

Toda a história é tão horrorosa e tão espantosa a preocupação midiática com o “motivo” do crime, que só atenuando este suelto com um trecho do livro A Lanterna na popa, de Roberto Campos. De novembro de 1947 a março de 1948, o jovem diplomata Roberto morou mal em Havana, numa rua sem calçamento, levando mulher e dois filhos. Em suas memórias, conta que a leitura dos jornais cubanos lhe proporcionava raras gargalhadas. Houvera um crime hediondo. Um rapaz matara sua mãe a machadadas. A manchete dizia: “mató su madre, sin motivo justificado”.

Um outro, para roubar cinco pesos de uma velhinha, que remexia um caldeirão de sabão fervente, atirou-a na grande panela. A manchete dizia: “que barbaro consommé de viejita!” No mundo que aí está, herança expressiva deve ser “motivo” mais que justificado. Cinco pesos valem para temperar um consomê, caldo geralmente ralo de carne ou de galinha enriquecido com legumes, que se serve quente ou frio em porcelana apropriada.

Rotundidades – Traseiro, bumbum, popô – o sesso é muito estimável com a só condição de ser compatível com o resto do corpo. Sesso, minha gente, ortoépia (ê), do latim sessus,us “ação de sentar-se, assento, cadeira”. Num país grande e bobo, o sesso reforçado com 1.100ml de silicone em cada metade pode transformar sua portadora, Valesca Popozuda, em grande pensadora moderna, como vimos numa questão proposta a 400 alunos de filosofia.

Nas recentes manifestações, mais do que justas, de funcionários do IBGE, a televisão nos mostrou inúmeras brasileiras de blusa e calça comprida com glúteos exagerados, transbordantes de untos, desproporcionais – funcionárias que deveriam ser obrigadas, por lei, a usar vestidos, mesmo correndo o risco de ter as respectivas genitálias fotografadas por funcionário da Infraero no Aeroporto de Belém. Funcionário graduado, diga-se de passagem, chefe do setor de Tecnologia da Informação.

Cena filmada por terceiros: o alto funcionário da Infraero, com o seu tablet, filmando as partes pudendas de senhoras e senhoritas no aeroporto em que presta serviços à nação. Notícia que deve ter sido abafada, porque desapareceu da mídia televisada. E isso no último dia de março, pertinho da Copa das Copas.

O mundo é uma bola – 16 de maio de 1532: Thomas More renuncia ao cargo de Lord Chancellor da Inglaterra. São Sir Thomas Morus (1478-1535), homem público, diplomata, escritor, advogado e jurista ocupou vários cargos públicos, em especial o de Lord Chachellor, de 1529 a 1532, do rei Henrique VIII. É geralmente considerado um dos grandes humanistas do Renascimento. Foi canonizado em 1935.

Cá entre nós, que ninguém nos ouça: São Sir é título assaz original. Ele se dizia “de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras”. Casou-se com Jane Colt, enviuvou e se casou com lady Alice Middleton, mesmo sobrenome de Catherine Elizabeth Middleton, a linda Kate, duquesa de Cambridge, casada com o filho da princesa Diana e daquele bestalhão que conversa com as plantas e trocou Diana por uma idosa casada e desengonçada. São Sir More era bem-humorado, caseiro, ótimo pai e amigo dos seus amigos, entre os quais dois, dos mais destacados pensadores daquele tempo, Erasmo de Rotterdam e Luís Vives, humanista judeu nascido em Valência.

Deu aos filhos, homens e mulheres, educação excepcional, fazendo com que estudassem latim, grego, lógica, astronomia, medicina, matemática e teologia. Erasmo falou da família More: “Verdadeiramente, é uma felicidade conviver com eles”. Hoje é o Dia do Gari.

Ruminanças – “Se não tivéssemos orgulho, não nos queixaríamos do orgulho dos outros” (La Rochefoucauld, 1613-1670).

CARLOS HERCULANO LOPES » Sonho de um taxista

Estado de Minas: 16/05/2014 





O taxista e o passageiro rodavam num fim de tarde pelas ruas de Belo Horizonte, em direção ao Jardim América, quando passaram em frente a uma casa lotérica, que estava cheia, com a fila tomando um pedaço do passeio. Fazia um calor abafado, mas sem nenhum sinal de chuva. “Todo mundo à procura do sonho, não é amigo?”, disse o motorista, voltando-se para o homem a seu lado, tão absorto em pensamentos que demorou para dar a resposta. “É isso, todas as pessoas têm seus sonhos, não é mesmo?”.

E, antes que o motorista quisesse saber os seus, ele se adiantou com a pergunta. Ao que o outro, como se estivesse esperando, disse, mostrando ser uma pessoa de conversa fácil, acostumado ao convívio diário com estranhos: “Desde rapaz tive dois sonhos...”. E fez uma pausa, como se para causar suspense ou alimentar a curiosidade do ouvinte, que aproveitou para afrouxar o nó da gravata. “E quais são?”.

Mas no instante em que o taxista, cujo nome era Boschi, como mostrava a plaqueta de identificação, ia começar a revelá-los, foram parados por uma blitz. Vários soldados, alguns com metralhadoras nas mãos, tinham bloqueado parte da Avenida Getúlio Vargas, tornando o trânsito ainda mais lento. Documentos mostrados, tudo em dia com o carro, foi hora de prosseguirem viagem, não sem antes o motorista elogiar o trabalho da PM. “Tem de ser assim mesmo, a cidade está muito violenta”, disse.

“E os seus sonhos, amigo, quais são?”, adiantou-se novamente o passageiro, já deveras curioso, ao que o condutor, depois de abrir um largo sorriso, disse, não sem antes querer saber seu nome: “O primeiro, vou te contar, Carlos, e você pode até achar que é bobagem: é fazer um cruzeiro com minha mulher e meus netos, num desses navios chiques, transatlânticos mesmo, com direito a shows de Roberto Carlos e tudo mais”.

“E por que você não se dá esse presente? Pelo que ouvi dizer, não fica assim tão caro”, arriscou o passageiro, encorajando-o. “É, mas antes teria de acabar de quitar minha casa e conseguir ter uma placa, pois pago diária nesse carro, e ela não é barata”, contou o Boschi, como se já tivesse tido essa conversa com outros. Pelo menos foi a impressão que o homem teve, para em seguida indagar: “E o outro sonho, qual é?”. “Ah, esse é meio esquisito, mas se você quer mesmo saber, vou te contar.” Nisso o táxi foi fechado pelo carro de uma mulher, que estava falando ao celular. “É assim o dia todo, estou acostumado”, adiantou-se o motorista. “Meu outro sonho é conhecer a Itália.... Mas não a Itália toda, só um pedacinho de Milão, do qual meu pai não cansava de falar.” “Ele era de lá?”, perguntou o Carlos. “Sim, ele era, e veio para cá logo depois da guerra, sem ter onde cair morto.”

“Mas que pedacinho de Milão é esse do qual seu pai tanto falava?”, indagou o passageiro, já todo ouvidos. “Você pode até achar que sou doido. O velho tinha lutado na guerra, ele era um partisan e estava em Milão no dia em que penduraram o corpo de Mussolini e da amante, Clara Petacci, na Piazzale Loreto. É esse lugar que tenho vontade de conhecer, de tanto que meu pai falava disso e da cena que viu...”

“O que você está esperando que não vai até lá com sua mulher? Pegam um navio no Rio e pronto, olha o sonho realizado.” “Ah, meu amigo, mas para fazer isso só se eu ganhasse na mega, que por sinal, está acumulada”, emendou o Boschi.

Foi então que, por uma dessas coincidências, estavam passando em frente a uma outra casa lotérica, cuja fila, como a primeira, já não era tão grande. Nos minutos seguintes, aqueles dois homens, como velhos amigos, aproveitaram para fazer um joguinho.