sábado, 1 de dezembro de 2012

DIREITOS HUMANOS » Histórias para não esquecer - Sandra Kiefer‏

Caravana da Anistia recolhe em BH depoimentos de violações de direitos durante o regime militar. Desde a criação, no governo FHC, a comissão já recebeu 72 mil requerimentos 

Sandra Kiefer
Estado de Minas: 01/12/2012 
Cada um dos 25 processos de militantes mineiros analisados na Caravana da Anistia, que veio ontem a Belo Horizonte, tem história suficiente para um livro. Quando os representantes da Comissão da Anistia pediram desculpas, em nome do Estado brasileiro, pelas violações de direito cometidas contra os anistiados políticos, transtornos causados a suas famílias, tempo passado no exílio e na clandestinidade, torturas sofridas na pele, perda de emprego e identidade, sofrimento e dor, foi possível perceber a sensação de alívio no rosto da plateia.
A comissão, que se reuniu na Faculdade de Direito da UFMG, já concedeu anistia política e reparação econômica em 50 mil dos 75 mil processos julgado no país e ontem apreciou mais 25 casos. Um deles é o requerimento de Arnaldo Cardoso Rocha, ex-militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e que lutou ao lado de Marighella. Quem compareceu representando o filho, dado como morto aos 25 anos, foi a mãe, Anette Cardoso Rocha, de 91 anos. O pai, João de Deus Rocha, comunista histórico em Minas, está debilitado depois de sofrer uma queda aos 94 anos. Os dois, que moram na mesma casa onde nasceu o filho, no Bairro Sion, não pediam reparação econômica. Queriam apenas ouvir um pedido de desculpas formal, em nome do filho, o que foi feito ontem, em clima de muita emoção.
Condenado pela ditadura militar a duas prisões perpétuas mais 64 anos de cadeia, o advogado mineiro José Roberto Rezende foi representado in memoriam pela ex-mulher, a professora de direito da Universidade de Brasília (UNB), Beatriz Vargas Gonçalves de Rezende, de 51 anos. “Não me interessa qual vai ser o valor da reparação concedida pela Comissão da Anistia. Sua finalidade é atenuar as perdas morais e materiais, no sentido de assumir politicamente a culpa pelos erros do passado. Só se faz isso pagando uma espécie de custo ditadura”, afirmou ela, que veio a BH na companhia dos filhos José Roberto, 21 anos, estudante de geografia, e de João Carlos, de 18, que está terminando o ensino médio .
Bia Vargas perdeu o marido de enfarto em 2000, quanto ele tinha 58 anos. Os filhos do casal tinham 9 anos e 6 anos, além de Ronald, filho do primeiro casamento. Militante da Colina, VPR e Var-Palmares, o advogado enfrentou oito anos e seis meses de prisão, onde foi torturado. Somente ao deixar a cadeia, conseguiu concluir o curso de direito na UFMG e se tornou militante do movimento dos sem-casa. “Ele se tonou ícone em Belo Horizonte e a OAB tornou-se parceira da Caravana da Anistia por causa da independência que José Roberto demonstrava como advogado. Ele seria nomeado primeiro ouvidor de polícia de Minas, uma função esquecida no tempo, que exercia o controle externo da atividade policial”, comentou Nilmário Miranda, membro da Comissão da Anistia.
Demitido por greve Já Maria Helena de Lacerda Godinho, a Lena, de 68 anos, pediu a palavra para falar em nome do marido, Renato Godinho Navarro, 69 anos, ex-militante da Ação Política (AP) e ex-reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) por dois mandatos. Na noite de 24 para 25 de outubro, Godinho sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e uma trombose. Aos poucos, foi recuperando as funções, saiu andando do Sarah Kubitschek, se tornou pintor e já participou de exposições de arte. “Ele hoje já fala palavras e formula frases. Eu me comunico bem com ele. Estamos juntos há 42 anos. Eu me casei com Renato no religioso, na clandestinidade, e depois que saímos da prisão, também no civil. Tornaria a me casar outras vezes, desde que fosse com ele”, conta ela, que conheceu o marido nos movimentos cristãos.
Com três filhos, Lena e Renato assumiram como filho mais velho a criança gerada na prisão pela irmã dela e por um colega. “Após sair da cadeia, nós nos desligamos da militância político-partidária, pois queríamos ter filhos. Fomos ser professores”, conta. Em 1979, depois de ser convidado a dar aulas na PUC de Coronel Fabriciano, Renato foi demitido pela faculdade por participar de uma greve, mesmo sendo delegado sindical. “Ele está pedindo agora a recomposição do salário dele na PUC como se estivesse trabalhando até hoje”, informou ela. Na década de 1990, depois de passar em primeiro lugar no concurso público para dar aulas na Ufop, Renato apresentou a tese de doutorado. Apesar de termos nos desligado da militância, nunca desistimos, que defendia não existir ainda democracia plena no Brasil.”

Saiba mais
Comissão da Anistia
Criada em 2001, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, a Comissão da Anistia tem por finalidade apreciar os pedidos de reconhecimento do direito à anistia e reparação econômica dos 475 brasileiros mortos e desaparecidos durante o regime militar, além dos 72 mil requerimentos feitos até agora exigindo o reconhecimento de algum tipo de lesão grave ao direito por perseguição política. As indenizações podem ser de prestação mensal continuada, caso haja comprovação de que o vínculo de trabalho foi interrompido em função da militância política, ou de uma vez, com limite máximo de R$ 100 mil. Cada ano de perseguição política comprovada dá direito a 30 salários correspondentes à função exercida na época, calculada em valores atuais.  Para uma pessoa ser anistiada, é necessário apresentar requerimento à Comissão da Anistia, com apresentação anterior de processo.  

Protesto 
Estado de Minas: 01/12/2012 
Um homem acorrentado e com uma mordaça interrompeu a sessão da Comissão da Anistia. O protesto foi organizado pelos Serpentes Negras, grupo de ex-policiais militares negros, expulsos da corporação por reivindicarem promoções e simpatizarem com os movimentos de esquerda, contrários ao governo militar que comandou o Brasil depois do golpe de 1964. De acordo com um dos integrantes, João Martins Gualberto, o movimento começou com o nome de Semente Negra, no início da década de 1970, inspirado nos Panteras Negras, dos Estados Unidos. Chegou a contar com 300 militares, mas foi dizimado pela repressão na década de 1980. Gualberto acredita que os processos do grupo não são analisados por haver uma má vontade da Comissão de Anistia. “A comissão promove anistia dos bacanas e dos notáveis de fato. A Comissão de Anistia do governo federal parece mariposa. Vive sempre em busca do brilho, das luzes da ribalta. Desconhece o valor e a dignidade da luz da justiça”, afirma o manifesto distribuído na sessão de ontem. De acordo com João Martins Gualberto, 21 processos estão em análise e nove militares teriam sido assassinados. “A comissão trabalha para a burguesia e anistiando ladrão de banco”, acusou. “A comissão deve ser de Estado, não de governo”, argumenta.

NOSSA HISTÓRIA » A matriarca do sertão - Tiago de Holanda‏


Historiadoras revelam a verdadeira face de Maria da Cruz, que se tornou uma lenda no Norte de Minas ao comandar sedição contra impostos. Presa pela coroa PORTUGUESA, se livrou de degredo na África 

Tiago de Holanda
Estado de Minas: 01/12/2012 
No sertão brasileiro do século 18, as leis eram escritas com pistolas, bacamartes e espingardas. Mandavam os grandes proprietários de terra, que mantinham bandos armados e pareciam ignorar o fato de serem vassalos do rei de Portugal. Ladrões e criminosos de toda sorte cometiam delitos sem qualquer punição. Nesse ambiente viril, no rude Norte de Minas, ergueu-se Maria da Cruz. Dona de patrimônio invejável, ela foi a única mulher entre os líderes de uma rebelião que atacava o governo e rejeitava a cobrança de um imposto. Um novo livro revela detalhes sobre a personagem, cuja misteriosa biografia continua a intrigar os historiadores.

Maria da Cruz Porto Carreiro sobreviveu ao tempo como uma figura ambígua. Por um lado, alguns memorialistas a descrevem como uma pessoa cruel, que recebeu a alcunha de Maria da Cruz da Perversidade. Maltratava seus escravos e, para não remunerar serviçais, chegava a matá-los e mandar que fossem jogados no rio. Por outro lado, a imagem que se tornou mais conhecida foi aquela traçada por Diogo de Vasconcellos. Na obra História média das Minas Gerais, publicada em 1918, a mulher aparece como inteligente e muito generosa. “Era ela quem sustentava os enfermos e os inválidos” e quem educava os pequenos, “pagando os mestres de leitura, de música e de ofícios”, narra Vasconcellos.

Não é nenhuma dessas duas personagens a que surge no recém-lançado livro D. Maria da Cruz e a sedição de 1736 (Autêntica Editora), escrito pelas historiadoras Angela Vianna Botelho e Carla Anastasia. Com base em exaustiva pesquisa em arquivos no Brasil e em Portugal, onde encontraram documentos inéditos, como o codicilo de Maria, as autoras conseguiram responder a algumas das inúmeras interrogações que cercam a protagonista. Também chegaram mais perto de descobrir qual o papel exercido por ela na sanguinolenta revolta desencadeada naquele ano, uma das mais importantes ocorridas em Minas durante o período colonial e talvez a mais violenta de todas. A obra defende a tese de que, embora inicialmente manobrado pelos senhores rurais, o levante acabou virando um vale-tudo de objetivos imprecisos.

PODEROSA A nebulosa Maria da Cruz fazia parte do grupo dos ricos e poderosos. Em data desconhecida, ela nasceu às margens do Rio São Francisco, na Vila do Penedo, atual cidade de Penedo, na então comarca de Alagoas, pertencente ao bispado de Pernambuco. Assim como a maior parte das mulheres do seu tempo, Maria nunca aprendeu a ler ou escrever, segundo declarou em seu testamento, publicado na íntegra pela primeira vez. A descoberta das historiadoras contradiz a versão de Vasconcellos, segundo o qual ela era culta e havia sido educada por irmãs carmelitas. “Não achamos nenhum documento que sustente essa descrição, que ele pode ter colhido de algum relato oral”, diz Angela.

Católica, a mulher se casou na igreja com o paulistano Salvador Cardoso de Oliveira, também de família abastada. Os caminhos entre Bahia e Minas aos poucos eram ocupados por roças, fazendas de gado e arraiais. No final do século 17, em uma partilha de terra para sertanistas, Salvador demarcou o quinhão que lhe havia cabido, às margens do São Francisco, no Sítio das Pedras, que atualmente se localiza no município de Pedra de Maria da Cruz, no Norte de Minas, a 600 quilômetros de Belo Horizonte. O casal, que morava nesse sítio, deixou prole numerosa: quatro varões e duas moças, Maria e Catarina. Dois filhos, Matias e Pedro, também viraram grandes proprietários de terras. Outros dois seguiram carreira eclesiástica, ordenados clérigos seculares na Bahia.

Antes dos acontecimentos de 1736, a trajetória de Maria da Cruz aparece nas entrelinhas de documentos oficiais ligados, quase sempre, aos homens de sua família ou à própria sedição. Depois de Salvador morrer, em 1734, a viúva, seguindo as leis do reino, passou a gerir todo o patrimônio do falecido. Sabe-se que no sítio construiu-se “opulenta fazenda”, que tinha engenhos e pastos, e abrigava viajantes. Nas Pedras, o casal ergueu a Capela de Nossa Senhora da Conceição, com altares devotados a Santo Cristo e a Santa Rita. Nas vizinhanças do lugar, não havia “criminosos que se punisse” e viajantes eram constantemente assaltados e mortos com crueldade, segundo documento oficial de autor desconhecido.

De acordo com o mesmo relatório, a família de Maria da Cruz tinha prática nada cristãs. A matriarca comprava por preços baixos, para lucrar com a revenda, “a maior parte dos ouros” que eram furtados “dos direito reais”. Antes de rezar uma missa, um dos filhos clérigos teria açoitado “com as suas próprias mãos” a mulher de um escravo doméstico. Outro filho, “por usar de uma mulher casada”, foi perseguido pelo marido traído, que acabou morrendo, “dizem que de veneno” dado pela própria mulher. O documento narra ainda que escravos pertencentes a Pedro teriam assassinado um comboeiro, que, para enterrá-lo, foi preciso “ajuntarem-se os pedaços de seu corpo”.


Levante agita o Vale do São Francisco

A principal motivação da sedição de 1736 foi uma medida impopular da Coroa portuguesa. Até então, os mineradores pagavam o quinto – imposto que consistia na quinta parte do ouro encontrado. Por não ser área mineradora, o sertão sempre havia sido isento do quinto. Os sertanejos recolhiam apenas os dízimos (10% sobre a produção da terra) e as contagens, pagas nas passagens, as alfândegas da época. O governo decidiu mudar esse sistema de tributação. O sertanejos também passariam a recolher uma certa quantidade de ouro. A taxação “incidia de forma mais contundente sobre os pobres do que sobre os ricos, já que os escravos pagavam a mesma quantia”, independentemente dos resultados da extração do ouro, explicam as historiadoras.

O primeiro motim eclodiu em março de 1736, no Arraial de Capela das Almas. O segundo movimento iniciou-se em princípios de maio no sítio de Montes Claros, junto ao Rio Verde. Em julho, os amotinados entraram no Arraial de São Romão em um total de cerca de 900 homens, uns a pé, outros a cavalo, com “mais de 500 arcos e flechas”, isso é, mais de 500 índios cativos prontos para a briga. O vale-tudo começou em uma segunda fase do conflito, segundo as historiadoras. Houve muitas disputas armadas e atos de vandalismo. Mulheres foram estupradas, fazendas incendiadas e seus proprietários assassinados. “O movimento tem duas faces: a dos potentados, que depois saem do movimento e fica o povo, formado por mestiços, mamelucos, escravos, vaqueiros, pescadores, gente sem profissão. Eles simplesmente resolvem instalar um governo do povo”, explica Carla.

Os tumultos foram controlados ainda em 1736. Maria da Cruz foi presa, primeiro na cadeia de Vila Rica, depois, como as autoridades temessem que fugisse, por ser influente e poderosa, foi transferida para uma carceragem no Rio de Janeiro. O que se conseguiu provar foi que a mulher teria dado a ordem para “quando havia de ir o primeiro levante”, ou seja, para o início da revolta. Condenada a pagar 100 mil réis e a seis anos de desterro na África, ela teve sua pena comutada em 1739. De volta à casa das Pedras, provavelmente assumiu a gerência de seus bens e da fazenda. Morreu em 23 de junho de 1760. Se seus dois filhos padres atenderam suas determinações, seu corpo amortalhado foi sepultado na mesma lápide de seu marido.

Um réquiem tardio foi criado por Diogo de Vasconcellos: “Na história de Minas, há mulheres que se imortalizaram, fosse pela sua beleza ou por seus talentos, fosse também por martírio sacrossanto. Mas diga-nos agora se alguma foi, mais do que esta, digna de memória em nossos fastos. O tranquilo esquecimento, a causa melhor da morte, apagou seu nome conservado apenas no velho e obscuro arraial, à beira do grande rio”.

Foi essa mulher pintada pelo historiador – cuja “têmpera varonil não lhe tirava a natural doçura, e as maneiras de seu trato, realçadas pela posição, atraíam-lhe o afeto dos parentes e o respeito de todos” – que atraiu a historiadora Angela.Na pesquisa, foram consultados os acervos da Torre do Tombo e do Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal, e de diversas instituições brasileiras, como o Arquivo Público Mineiro. As historiadoras não encontraram a heroína descrita por Vasconcellos, que chegou a dizer que Maria era “alta, compleição robusta, cabelo branqueando, olhos negros”. “Não achei uma única linha comprovando essas características. Mesmo assim, ela continua me fascinando. Era forte, lutava pelos interesses dela e de sua família”, diz. Angela. Ela espera que, um dia, a personalidade de Maria da Cruz seja desvendada.

Linha do tempo

– 1735: A coroa portuguesa cria novo imposto para os sertanejos, o que causa descontentamento popular

– 1736: Eclode a sedição, com conflitos armados, assassinatos, estupros e atos de vandalismo, como o incêndio de fazendas

– 1736: Maria da Cruz é presa e condenada a desterro na África, por ter dado a ordem para o início da revolta

– 1739: Maria dita seu testamento, onde afirma que não sabia ler nem escrever, contradizendo versão de historiador 

– 1756: Ela dita seu codicilo, em que reitera o testamento. O documento, inédito, foi descoberto pelas autoras do livro recém-lançado

– 1760: Morre e é sepultada, provavelmente, na mesma lápide do marido

A pátria em bigodes - Xico Sá


Símbolo de macheza latina desapareceu dos gramados, mas volta à seleção com Felipão e seu fiel Murtosa
Amigo torcedor, amigo secador, com Felipão e o seu fiel escudeiro Murtosa, voltamos a ser a pátria em bigodes. Pelo menos nesse critério macho-jurubeba, como tratamos o homem à moda antiga livre de modismos e sintomas metrossexuais, retomamos à velha escola.
Já o futebol, bem, aí é outra história. Bigode por bigode, o de Vicente del Bosque, técnico da Espanha, é bem mais discreto e infinitamente mais quixotesco.
E voltamos a ser uma pátria em bigodes em um momento em que esse símbolo da macheza latina desapareceu dos gramados. Não se vê mais um "mustache" como o de Rivellino, talvez o mais farto e famoso dos bigodudos que alcançaram a condição de gênios brasileiros.
Sim, o de Toninho Cerezo, outro fino da bola, também impunha moral e respeito. Outro craque ao mesmo estilo foi o Júnior, do Flamengo e da canarinha.
Sem a mesma arte e delicadeza com a redonda, Chicão, do São Paulo, marcou época como um bravo portador do enfeite capilar que metia medo nos adversários. Todo xerife que se prezava carecia, além da bravura indômita, de um bigodão como arma letal na hora do duelo.
Para continuar na cabeça da área, o Vampeta pré-"G Magazine", o picaresco e bom jogador do Corinthians, também adotou a tendência dos volantes de antigamente. Foi um dos últimos cavaleiros a encampar estes usos e costumes.
Ah, teve o Fred, artilheiro do Fluminense. Ele mesmo, porém, disse que era apenas uma onda para comemorar o título do tricolor. Caiu bem o traçado no melhor gênero "O amigo da Onça", o personagem sacana do desenhista Péricles.
Lá fora, tivemos grandes bigodudos que sabiam tratar a pelota. É só lembrar de Gullit, da seleção da Holanda, e Breitner, da Alemanha. Este último, aliás, disse esta semana ao jornal "O Globo", em passagem pelo Rio, que o Brasil estava 20 anos atrasado em matéria de estilo de jogar futebol. Pode ter exagerado um pouco no tempo. Razão, porém, não falta na sentença. Mas aí só o Tostão, qual um genial Freud ludopédico, pode explicar nas suas crônicas.
E por falar em futebol macho-jurubeba, hoje temos a decisão da Série C. Icasa, time de origem operária de Juazeiro do Norte, faz a peleja com o bravo Oeste, de Itápolis. Vai ser no fio do bigode. Futebol na linha "onde os fracos não têm vez".
ESTANTE DO FUTEBOL
O Grêmio se despede do seu velho estádio, mas fica na praça um belo livro sobre a saga tricolor na sua casa: "Jogos monumentais -Memórias do Estádio Olímpico" (Ed. Arquipélago), do jornalista Marcelo Ferla.
Um luxo à parte na obra, lançada recentemente em Porto Alegre, são as ilustrações de Hélio Devinar, artista que desenhava os gols da rodada para publicações gaúchas nas décadas de 1950 e 60. Clássico.

    CIÊNCIA » Levedura amazônica pode reativar o Pró-Álcool‏

    Alunos das federais de Minas e de Roraima reutilizam a xilose, responsável por parte do açúcar presente no bagaço da cana, e que era descartada por falta de agentes capazes de fermentá-la 

    Estado de Minas: 01/12/2012 

     Quase quatro décadas depois de o governo federal lançar o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), à época responsável por revolucionar o mercado de combustíveis brasileiro, novo estudo que possibilita aumento considerável da produtividade da cana-de-açúcar e de outros substratos vegetais promete ressuscitar o programa de biocombustíveis. Alunos de pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com estudantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR), conseguiram isolar leveduras presentes na floresta amazônica capazes de fermentar o açúcar presente na xilose, até então descartada devido ao desconhecimento de micro-organismos com tal potencial. 
    Os trabalhos, coordenados pelo professor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG Carlos Augusto Rosa, tiveram início em 2009. Ao todo, serão investidos até 2014 pouco mais de R$ 500 mil, com recursos originários da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). De lá para cá, os estudantes coletaram leveduras presentes em madeiras decompostas encontradas em áreas de reserva administradas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Mucajaí (RR) para testá-las em laboratório. Cinco espécimes foram catalogados pela primeira vez no mundo (quatro delas do gênero Spathaspora: S. brasilienses, S. roraimanenses, S. suhii e S. xylofermentans. A outra é do gênero Candida amazonenses. Uma sexta espécie só tinha sido identificada por uma vez nos Estados Unidos, a Spathaspora passalidarun. Em agosto, elas foram apresentadas na publicação científica internacional Plos One.

    As análises comprovaram ser possível fermentar o açúcar de cinco carbonos presente na hemicelulose – a xilose. Responsável por quase um terço do açúcar presente no bagaço da cana, o produto é descartado por causa da falta de agentes processadores capazes de fermentá-lo. Com isso, seria possível aproveitar esse percentual, aumentando assim a produtividade sem aumentar a área plantada. Atualmente, as leveduras industriais só são capazes de quebrar a sacarose (presente no caldo da cana), fazendo com que se rejeite parte significativa do açúcar. Outro ponto positivo é que as leveduras conseguem efetuar a fermentação da xilose de qualquer biomassa vegetal (palha de arroz e de soja, casca de café e coco, entre outros) e não só da cana.

    E mais: o estudo conseguiu concluir o processo de fermentação em 24 horas em alguns dos experimentos, mas o ideal para a indústria é atingir pelo menos a metade desse tempo para se ter um custo/benefício satisfatório. Do contrário, os valores gastos com energia e mão de obra tornam o processo inviável. Tanto é assim que outros estudos no exterior se mostraram inviáveis por demorar até 72 horas para fermentar. No caso do caldo da cana-de-açúcar, em média, demora oito horas. A busca por esses resultados é motivo de estudos nos quatro cantos do planeta, mas, com o isolamento do espécime, a UFMG larga na frente. “É uma corrida no mundo inteiro para saber quem obterá resultados primeiro. É preciso ‘domesticar’ as leveduras para se chegar ao processo industrial”, afirma Rosa. 
    O processo para transformação das leveduras encontradas na natureza em agentes industriais ainda deve demorar no mínimo quatro anos. O coordenador do projeto lembra que existe grande diferença entre os processos feitos em bancadas de laboratórios com amostras de dois litros e os testes necessários para uso em nível industrial, onde são processados de uma vez 10 mil litros ou mais. 

    Setor sucroalcooleiro participará dos estudos

    O estudo coordenado pela UFMG faz parte do projeto Pró-etanol 2G, ou segunda geração, que prevê o uso de resíduos da indústria agrícola para produção de etanol. Indústrias do setor sucroalcooleiro se preparam para participar dos estudos em busca de resultados. Devido à combinação de custos baixos e produtividade alta, o modelo é visto pelo empresariado como o equivalente ao pré-sal para a cadeia dos combustíveis renováveis. Tanto é que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já disponibilizou linha de crédito para financiar até R$ 3 bilhões em projetos voltados para desenvolver o novo etanol. 

    Apesar de parte da indústria já prever o início das vendas do produto em 2014, dois pontos são considerados primordiais para acelerar o processo: reduzir o custo das enzimas empregadas no processo de produção e conseguir fermentar os açúcares de cinco carbonos (principalmente a xilose). O primeiro desafio praticamente já foi superado por entidades fluminenses e paulistas, quebrando assim a exclusividade de um grupo mundial. Quanto ao segundo, a UFMG e a UFRR são as mais avançadas para superar as barreiras. 

    RECUPERAÇÃO Nos moldes atuais, a cada tonelada de cana moída são gerados de 85 a 90 litros de etanol, mas, a partir do etanol da segunda geração seria possível produzir até três vezes mais. A explicação é que o caldo da cana detém um terço da energia, enquanto o restante está dividido entre a palha e o bagaço. O secretário-executivo interino do Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool de Minas Gerais (Siamig), Mário Campos, vê o modelo como uma das alternativas para recuperação do setor. No entanto, afirma que ainda há muitos desafios para se chegar a um processo viável e em escala adequada. “O projeto possibilita um boom da produção e a possibilidade de atender um mercado crescente”, afirma, ressaltando que além do tempo para desenvolvimento de tecnologia é necessário somar-se a isso o período para implantação na indústria.