sábado, 8 de dezembro de 2012

Haitianos esgotam cota de vistos ao Brasil - Renato Machado


Concessão de documento de permanência pelo governo para 2.400 famílias completa um ano; 1.500 estão na fila
Diplomacia brasileira teme que falta de documento estimule a imigração ilegal via fronteira amazônica
RENATO MACHADOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA de São Paulo,
EM PORTO PRÍNCIPE
Os vistos oferecidos pelo governo brasileiro têm sido insuficientes para a demanda de haitianos que querem se mudar para o Brasil.
Antes mesmo de a medida completar um ano, o consulado brasileiro em Porto Príncipe, capital do Haiti, parou de receber novos pedidos de vistos permanentes porque esgotou toda a cota prevista para até o fim de 2013.
Após uma onda de imigração ilegal de haitianos no Acre no fim de 2011, o Itamaraty anunciou a concessão de vistos para até 2.400 famílias haitianas que quisessem viver no Brasil. Seriam distribuídos em cotas mensais de cem neste ano e em 2013.
Um dos principais objetivos era coibir uma situação em que grandes levas de haitianos viviam em condições precárias, sobretudo na região norte brasileira.
Até o fim de novembro, o consulado brasileiro já havia emitido vistos para 1.100 famílias haitianas.
No entanto, a cota praticamente já se esgotou até o fim de 2013. Já foram realizadas entrevistas com os candidatos para a concessão de outros 1.200 documentos.
Apenas cem vistos estão sendo reservados pelo consulado brasileiro para possíveis casos de emergência -como tratamentos de saúde.
"Eu explico para quem vem ao consulado que o programa já terminou. Não há mais emigração para o Brasil dentro da resolução 97 [do Conselho Nacional de Imigração] a partir de 2014", disse o diplomata Vitor Hugo Irigaray, responsável pelo setor consular da embaixada brasileira no Haiti.
Mesmo com o fim dos vistos, houve cenas de aglomeração em frente ao prédio da embaixada e do consulado brasileiros para tentar conseguir o benefício.
Por isso o posto diplomático começou a receber grupos dessas pessoas e fazer uma espécie de lista de espera, que já tem 1.500 nomes de pessoas interessadas, caso a política de vistos seja ampliada -o que já é mais do que suficiente para preencher a cota de um ano.
ILEGALIDADE
Uma das preocupações da diplomacia brasileira com o fim dos vistos disponíveis é que ganhe força novamente a migração ilegal para o Brasil, com o auxílio de "coiotes" (atravessadores) e por pontos mais vulneráveis da fronteira amazônica.
"Uma coisa é certa: a grande maioria das pessoas que vêm aqui [sem conseguir o visto] são migrantes em potencial para o Brasil e irão de maneira ilegal. Essa é uma grande preocupação. Pelos comentários, nós vemos que eles estão dispostos a tudo", completa Irigaray.
Haitianos contam que "coiotes" cobram entre US$ 3.000 e US$ 4.000 para levá-los até o Brasil. Apesar do alto valor e dos riscos, muitos afirmam que esse será o caminho caso não consigam os vistos.
O Haiti, país mais pobre das Américas, foi vítima de um terremoto que matou mais de 200 mil pessoas em janeiro de 2010.
"Aqui não tem emprego e por isso eu preciso ir para o Brasil. Quero ir de maneira legal, mas, se eu não conseguir o visto, vou tentar de outras formas", disse Chilel Danger, 25.
O estudante Patrick Jean Philippe, 22, pede que o governo brasileiro disponibilize mais vistos.
"Tenho amigos que estão em Brasileia (no Acre) e que me dizem que é bom lá", disse Philippe.

    Haitianos são alvo fácil de aproveitadores
    Alguns chegam a pagar até US$ 1.000 para despachantes que prometem o visto, mas só preenchem uma ficha
    Mulher foi presa por tráfico internacional de pessoas ao pedir visto temporário para grupo ir a evento religioso
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA,
    EM PORTO PRÍNCIPE
    A política de concessão de vistos para haitianos teve como efeito colateral o surgimento de um mercado paralelo, com pessoas que oferecem "facilidades" para a obtenção do benefício.
    Em um caso mais grave entre os registrados, uma mulher chegou a ser detida na saída do consulado brasileiro, sob a acusação de tráfico internacional de pessoas.
    Como grande parte da população é analfabeta e apenas uma minoria fala francês -os demais entendem apenas o creole, idioma local-, alguns haitianos passaram a se aproveitar dessa falta de instrução para atuar como agenciadores dos candidatos.
    Estes chegam a cobrar até US$ 1.000 e prometem o visto às pessoas, quando na verdade apenas preenchem as guias e fazem o agendamento da entrevista -atuam, na prática, como um despachante. O consulado cobra pelo visto uma taxa de US$ 200.
    O posto diplomático brasileiro também suspeitou de indivíduos que solicitavam o documento em nome de dezenas de pessoas que iriam ao Brasil participar de eventos, sobretudo religiosos.
    Para isso, um visto permanente não é necessário, bastando um de turismo. Todos os pedidos desse tipo foram negados.
    Em um dos casos, uma mulher que se identificou como Madame Aurelus solicitou um encontro com os diplomatas brasileiros, alegando representar uma instituição haitiana que enviaria moradores locais a um evento religioso em Brasília.
    Ela apresentou uma lista com 40 nomes de pessoas que deveriam viajar.
    "Depois conversamos com alguns desses haitianos na lista dela, que nos informaram que ela fazia propaganda em rádios do interior informando que conseguia os vistos", disse o chefe do setor consular da embaixada brasileira, Vitor Hugo Irigaray.
    "Ela cobrava das pessoas, mas dizia que a organização pagaria depois por toda a viagem", completou.
    A embaixada brasileira alertou as autoridades haitianas, que identificaram indícios de tráfico internacional de pessoas. A acusada foi presa dias depois, logo após sair do consulado brasileiro.
    FALSIFICAÇÃO
    Outra prática comum era falsificar documentos e até o carimbo do consulado brasileiro na tentativa de furar a fila do agendamento -quando ainda havia vistos disponíveis.
    Candidatos também relataram à Folha que pessoas que ficam em frente ao prédio do consulado dizem conhecer funcionários haitianos que trabalham no posto e que facilitam a obtenção do visto. Cobram também US$ 1.000 pelo serviço.
    Irigaray afirma que já houve apuração dessas denúncias, mas que não se identificou nenhuma irregularidade.
    O diplomata reforça que apenas servidores do Itamaraty controlam as atividades de agendamento de entrevistas e a confecção e distribuição dos vistos para o Brasil.

      Governo estuda ampliar emissão de autorizações
      COLABORAÇÃO PARA A FOLHA,
      EM PORTO PRÍNCIPE
      A informação de que a cota de vistos para haitianos já está esgotada chegou em novembro ao CNIg (Conselho Nacional de Imigração), e uma decisão sobre a ampliação ou não dessa política pelo governo brasileiro pode sair já no próximo encontro, previsto para 12 de dezembro.
      Folha apurou que o CNIg vai adotar uma de três possíveis decisões sobre o futuro da imigração haitiana ao Brasil.
      A primeira delas é simplesmente não renovar a resolução que estabeleceu a concessão de vistos e encerrar a política no início de 2014.
      As outras duas opções, no entanto, preveem a manutenção da política de vistos para haitianos, até mesmo aumentando a quantidade de benefícios.
      O CNIg pode editar uma nova resolução no padrão da atual, concedendo vistos para 1.200 famílias por ano; ou pode manter a mesma política e aumentar o teto de vistos a serem concedidos.
      O CNIg é um conselho composto por representantes de nove ministérios e também por entidades da sociedade civil, ligadas aos trabalhadores, aos empregadores e à comunidade científica e tecnológica.
      Em setembro, durante audiência pública na Câmara dos Deputados, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afastou a possibilidade de ampliar a quantidade de vistos concedidos a imigrantes haitianos.
      Naquela época, a cota de vistos ainda não havia sido esgotada.

        Mercado do riso - Mariana Peixoto‏

        Comédias nacionais disparam no ranking de cinema no país e aumentam apostas no gênero. Apesar dos altos números conquistados, produtores negam que elas sejam as únicas eleitas do público 

        Mariana Peixoto
        Estado de Minas: 08/12/2012 
        Produtora experiente, Mariza Leão se diz apavorada. “Estão me ‘ameaçando’ com 700 cópias, vou tentar ficar nas 600”, afirma ela, referindo-se ao número de salas em que o filme De pernas pro ar 2 deve estrear, em todo o Brasil, em 28 deste mês. O tom é bem-humorado, mas ela tem noção da responsabilidade que um lançamento desse porte representa. “Por outro lado, o mercado vem trabalhando com lançamentos grandes, então, não vejo razão para não acreditar que o filme possa sair com esse número.” Cancha para tal ela tem. O filme anterior (2010), sobre uma executiva que, ao ficar desempregada, torna-se sócia de um sex shop falido e o transforma num sucesso, fez 3,6 milhões de espectadores. E antes de o número dois estrear, o três já está garantido.

         Dessa maneira, De pernas pro ar, estrelado por Ingrid Guimarães, Eriberto Leão, Bruno Garcia e Maria Paula, vai se tornar efetivamente uma franquia, modelo já referendado no mercado norte-americano. Os filmes dirigidos por Roberto Santucci são exemplo bem-acabado de como a comédia está em alta na produção brasileira. Ainda faltam algumas semanas para o fim do ano, porém, independentemente do resultado das próximas bilheterias, não há como bater Até que a sorte nos separe, também dirigido por Santucci, como o filme nacional de maior público de 2012: 10 semanas depois de ter estreado, já vendeu 3,35 milhões de ingressos. É, inclusive, até agora, a única produção brasileira a figurar entre as 10 mais vistas no país este ano (está em nono lugar do ranking da Filme B, empresa de análise e pesquisa de mercado cinematográfico). E já garantiu sua continuação.

        O segundo brasileiro mais visto, pelo menos até agora, também é do time: E aí...comeu?, de Felipe Joffily, fez 2,6 milhões de espectadores. Já Os penetras, primeira incursão do cineasta Andrucha Waddington no gênero, acabou de entrar em sua segunda semana em cartaz. Com o resultado da primeira – 329 mil pessoas –, ganhou o título de melhor abertura do ano para o cinema nacional. Num ano em que apostas de outros gêneros não vingaram – somente a cinebiografia Gonzaga: De pai pra filho, de Breno Silveira, entrou na casa dos seis dígitos, com 1,4 milhão de espectadores – os dados só vêm ratificar 2012 como o ano das comédias.

        Fatos reais Mas os responsáveis por alguns desses filmes afirmam que a questão não é tão simples. “O Brasil não pode ser um país que elege um gênero de filme. Nosso cinema é maior do que isso. As comédias, historicamente, estão entre as preferidas, desde a Atlântida e as produções de Mazzaropi, até os filmes dos anos 1980. Mas também fazem sucesso aqueles filmes que partem de personagem e fatos reais (Cazuza, O homem da capa preta, Carandiru, Tropa de elite)”, afirma Mariza Leão, que traz no currículo produções totalmente diversas, como Guerra de Canudos e Meu nome não é Johnny.

        Débora Ivanov, da Gullane, que produziu Até que a sorte nos separe, tem raciocínio semelhante. “Se você pegar as maiores bilheterias dos últimos 10 anos, vai ver dramas como Olga, Carandiru, Dois filhos de Francisco.” Mas admite que a tendência pelas comédias existe. A história sobre um pobretão que ganha na loteria e, muitos anos mais tarde, perde todo o dinheiro, é o maior sucesso de público da Gullane. E é ainda sua primeira comédia. “Há algum tempo a gente vem selecionando um grupo de projetos para conquistar esse mercado”, continua Débora. 

        Além da sequência de Até que a sorte... – que será reprisado com mesmo elenco e equipe técnica e deve ser lançado em 2014 –, a Gullane começa, em breve, a filmar Histórias de amor (título provisório), sobre a relação de um jovem executivo de São Paulo que se apaixona por uma carioca. “É uma história bastante divertida com o mesmo perfil de Até que a sorte...: aberta a todos os públicos e com elenco televisivo.”

        Neochanchada Já Augusto Casé, produtor de E aí... comeu?, chama a atenção para as diferenças entre as comédias. Nos últimos três anos, ele produziu três longas – Muita calma nessa hora (2010), Cilada.com (2011), além do já citado – que, somados, tiveram um público de 7,3 milhões. “Acredito mais numa história bem contada do que em gênero. Quando fiz Muita calma..., por exemplo, estava pensando mais numa comédia de costumes para os jovens, algo até mais próximo de Menino do Rio (marco do gênero nos anos 1980). Para mim, E aí...comeu? é uma comédia romântica, que não tem a ver com Se eu fosse você, que é o que estão chamando neochanchada.”

        Daqui a um ano, Casé lança a continuação de Muita calma nessa hora. Também no mesmo período, faz seu primeiro teste para um outro nicho de mercado: a produção infantil. “A ideia é tentar preencher um pouco da lacuna deixada por Renato Aragão e Xuxa.” Totalmente inocentes, outra comédia deste ano, foi também produção voltada para público específico. Nesse caso, o jovem. Ainda que não figure entre as maiores de 2012, teve resultado muito além do esperado. 

        Longa de diretor estreante, Rodrigo Bittencourt, Totalmente inocentes faz sátira em cima de grandes sucessos de bilheteria filmados em comunidades – Cidade de Deus e Tropa de elite, principalmente. “É um filme ‘fora da curva’, não é comédia tradicional como as que estão sendo lançadas. Traz história cheia de nuances, mais autoral. Produzimos o filme num tamanho específico e, dentro da proposta dele, foi muito bem-sucedido”, diz a produtora Iafa Britz. Foi ainda o primeiro longa brasileiro com lançamento unicamente em formato digital. E, na opinião dela, sucessos e fracassos são muito relativos. “Se minha expectativa era de 300 mil e o filme fez 500 mil (como foi o caso de Totalmente inocentes), foi ótimo. Agora, se ele fez 1 milhão e a projeção era de três, é uma frustração grande. Não corroboro com a informação de que só comédia funciona. Tudo depende do filme, do momento em que é lançado e de um outro tanto de variáveis”, finaliza. Agora, o que não dá para negar é que neste ano as comédias pegaram. E muito.


        Começo de milênio

        Duas continuações são as maiores bilheterias do cinema nacional neste início de milênio. Tropa de elite 2 (2010), que teve público de 11 milhões de pessoas, ocupa o primeiro lugar. Em segundo, com pouco mais da metade de ingressos vendidos (6,1 milhões), vem a comédia Se eu fosse você 2 (2009). Entre os 10 primeiros dessa lista estão ainda três comédias: Se eu fosse você (2006, 6º lugar); De pernas pro ar (2011, 7º lugar); e Lisbela e o prisioneiro, que tem uma veia mais voltada para a comédia romântica (2003, 10º lugar).
        • Termômetro


        Em alta

        Filme                                                                Ingressos vendidos


        Até que a sorte nos separe* (em cartaz em BH)    3,3 milhões
        E aí...comeu?*                                                   2,6 milhões
        Gonzaga: de pai pra filho                                    1,4 milhão
        As aventuras de Agamenon, o repórter*                836 mil

        Em baixa

        À beira do caminho                                              138 mil
        Billi Pig*                                                             243 mil
        Xingu                                                                 370 mil
        Paraísos artificiais                                                386 mil

        * Comédias que estrearam em 2012

        Uma embaixada em sua tela - Alexandre Vidal Porto


        ALEXANDRE VIDAL PORTO
        Uma embaixada em sua tela
        Embora as possibilidades sejam amplas, é modesto o uso da internet como instrumento de diplomacia
        CERCA DE 35% da população mundial usa a internet. É parcela minoritária, mas nada desprezível: 2,5 bilhões de pessoas. Em 2006, eram menos da metade do que são hoje. Em 2016, serão o dobro.
        Um computador conectado à internet pode servir como loja, banco ou ponto de encontro. Sem sair de casa, podem-se ler as notícias, emitir uma certidão negativa de um cartório ou conversar com os amigos.
        Você manda beijos por e-mail para uma pessoa do outro lado do mundo, e ela se considera beijada.
        Essa possibilidade de executar ações concretas por meios virtuais modificou de forma irreversível os padrões de comportamento em todas as áreas da atividade humana. A diplomacia não foi exceção.
        A adequação a esse novo ambiente é um grande desafio para as chancelarias mundiais. Ainda não se conhecem todas as implicações que a utilização de meios virtuais terá sobre o exercício da atividade diplomática, mas já é clara, na comunidade internacional, a consciência de que a popularização das novas tecnologias exigirá que os ministérios de Relações Exteriores redefinam seus métodos de trabalho.
        Alguns ministérios já começaram a desenvolver ações de diplomacia virtual. O Departamento de Estado norte-americano, por exemplo, tem comunicação direta, pela internet, com mais de 15 milhões de pessoas. Embaixadas de países como Índia, Israel e Brasil têm contas oficiais no Twitter e no Facebook. Hoje, seria inconcebível, para uma chancelaria, não ter uma página eletrônica.
        Embora as possibilidades sejam amplas, a utilização da internet como instrumento de diplomacia tem sido explorada com cautela.
        Persiste, entre formuladores de política externa, certo ceticismo talvez decorrente de dificuldades em identificar a totalidade das funções que suas páginas eletrônicas poderiam cumprir. Já é comum governos empregarem comunicação direta como ferramenta para a difusão de informações políticas, econômicas e culturais. Mas pode-se fazer mais.
        Um bom exemplo seria que países com limitações orçamentárias para manter rede mais ampla de embaixadas no exterior garantissem sua presença internacional por meio de embaixadas virtuais. Tal solução, de baixo custo, largo alcance e fácil acesso, permitiria o desempenho de funções diplomáticas básicas, como prestação de informações comerciais, promoção cultural e obtenção de serviços consulares.
        Uma embaixada virtual nunca terá o peso político de um embaixador residente, mas para países sem recursos serviria como alternativa.
        Porém a contribuição mais importante do ambiente virtual é torná-lo mais democrático. A internet favorece a aproximação entre os formuladores da política externa e o povo. Facilita o acesso da imprensa à informação. Permite a participação popular múltipla e livre como insumo do planejamento diplomático.
        Serve como instrumento de transparência e promoção de valores democráticos. Enfim, dá mais legitimidade às ações de política externa. E isso é muito bom.

        ADEUS, PIRATARIA - Biscoito com selo de origem - Pedro Rocha Franco‏

        Tradicional iguaria produzida desde o século 19 em São Tiago, no Campo das Vertentes, entra no seleto grupo de 6 produtos mineiros que conquistaram título de procedência 

        Pedro Rocha Franco
        Estado de Minas: 08/12/2012 
        Receita criada em meados do século 19 pelas sinhás nos casarões coloniais do Campo das Vertentes, os deliciosos biscoitos artesanais produzidos em São Tiago receberam um título que permitirá aos herdeiros da tradição combater a pirataria dos quitutes. Reconhecendo a reputação dos produtores, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) concedeu-lhes o título de indicação de procedência. Com isso, os biscoitos são-tiaguenses entram no seleto rol de outros seis produtos mineiros que têm o selo de origem – como a cachaça de Salinas; os queijos da Canastra e do Serro; os cafés do cerrado e da Serra da Mantiqueira e as peças de estanho de São João del-Rei.

        Contam os produtores mais jovens que, antes mesmo de ser fundado o arraial de São Tiago, as escravas eram responsáveis pela fabricação dos biscoitos. Seja de polvilho, amanteigado, de trigo ou recheado, elas usavam os fornos de barro para dar um requinte especial. Aí, era só iniciar a contagem dos dias até a chegada dos tropeiros. Em bando, eles vinham montados em bois e cavalos carregando mantimentos variados preparados para semanas de viagem entre o miolo central do país e as terras próximas à capital federal – à época ainda no Rio de Janeiro. “Era um produto fácil de ser levado. Não era perecível”, afirma o produtor Alexandre Nunes Machado, que, apesar de ter nascido em João Monlevade, se casou com uma são-tiaguense e, com isso, há 13 anos passou a produzir os biscoitinhos da marca Mineirisse.

        Os tropeiros, no entanto, não eram os únicos consumidores. Os quitutes se tornaram febre na região. Bastava visitar a casa de um morador para que a oferta fosse feita: “Aceita um biscoito com café?” A recusa era vista quase como uma ofensa. Mas não era só nas casas que a dupla estava presente. Fosse em casamento, aniversário ou velório, sempre havia biscoito acompanhado de café. “O Alexandre conta que, quando veio para cá, teve que aprender a nunca comer demais em uma só casa, porque em cada visita seguinte teria que aceitar o biscoito”, afirma a secretária-executiva da Associação São-Tiaguense de Produtores de Biscoito (Assabiscoito), Adriângela Magalhães.

        De olho na possibilidade de ampliar esse mercado, nos anos 1980, mais de um século depois das datas encontradas nas receitas manuscritas, os descendentes das inventoras das receitas decidiram aumentar a produção. Fabriquetas foram criadas e remessas enviadas para Belo Horizonte, Divinópolis e outras regiões do estado. Hoje são entre 45 e 50 produtores, sendo 22 deles integrantes da associação. De tão falado que o biscoito foi, outros municípios fabricantes passaram a dizer que seu produto tem origem em São Tiago. 

        ADEUS, PIRATARIA
         Diante disso, o selo que será criado como forma de reconhecer a procedência do biscoito será capaz de diferenciar o original dos falsários. “É uma forma de proteger os biscoitos da pirataria e garantir ao consumidor que ele tem em mãos um produto de qualidade”, afirma Adriângela. Uma comissão será criada para definir as normas de produção. Por enquanto, é sabido que para obter o selo é preciso que a maior parte da produção seja artesanal e atenda as normas de vigilância sanitária, além de ser obrigatório que as instalações da unidade produtora estejam situadas nos limites de São Tiago.