Após ação de teor racista e nazista na
Faculdade de Direito, UFMG forma comissão de investigação, mas admite
que prática é difícil de coibir e ocorre em muitas unidades. Alunos
relatam que houve outros casos este ano
Clarisse Souza e Patricia Giudice
Estado de Minas: 20/03/2013
O
regulamento geral da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) proíbe
o trote, a direção da instituição prometeu tolerância zero no ano
passado, mas a realidade na universidade é bem diferente. Além dos
veteranos da Faculdade de Direito, que na semana passada submeteram
calouros a trote com conotações racistas e referências ao nazismo, a
prática de constranger novatos continua em muitas unidades. Alunos da
UFMG relataram que pelo menos mais três cursos já promoveram trotes este
ano e que outros planejam fazê-lo. E a própria direção da universidade
reconheceu ontem que o ocorrido na Faculdade de Direito não é caso
isolado e que é difícil controlar os estudantes.
“Todas as
unidades têm trotes, marcados pelas redes sociais, e muitos acontecem
até fora do câmpus. Eles fogem ao nosso controle”, admitiu a
vice-reitora da UFMG, Rocksane de Carvalho Norton. “Há um limite muito
tênue entre o constrangimento e a aceitação do ato voluntário de um
jovem, mas entendemos que qualquer um implica opressão”, acrescentou.
Ontem, a Faculdade de Direito montou uma comissão para investigar os
alunos que participaram do trote na instituição. Todas as informações
sobre os estudantes serão consideradas e a apuração vai extrapolar
aqueles que aparecem nas fotos, ou seja, todos que participaram do
planejamento do trote serão investigados e poderão ser punidos. “O trote
certamente envolveu um número grande de pessoas”, disse Rocksane. Nas
fotos, divulgadas por meio de rede social, uma jovem aparece pintada de
preto e carrega placa onde se lê “Caloura Chica da Silva” e um grupo de
estudantes faz saudação semelhante a dos nazistas ao lado de um calouro
amarrado a uma pilastra – um dos alunos pintou um bigode parecido ao do
ditador Adolf Hitler.
Segundo a vice-reitora, possivelmente os
jovens que estão nas fotos já foram identificados. Todos podem ser
penalizados com suspensão ou mesmo o desligamento do curso. “O que nos
assustou neste caso do direito foi ter acontecido nas dependências da
faculdade, com tom agressivo, fascista e machista.”
Trotes constantes
Além da própria direção da UFMG, estudantes ouvidos pelo Estado de
Minas relatam que os trotes continuam. Só este ano, segundo alunos, pelo
menos três turmas da Escola de Engenharia já desrespeitaram a regra que
proíbe trote dentro da universidade. Estudantes de outros dois cursos
afirmaram que trotes estavam programados para os próximos dias. Na turma
do 1° período do curso de engenharia de produção, alunos já foram
pintados, fantasiados e tiveram de levar o material escolar em sacos de
lixo. A caloura Bárbara Luísa Silva Mendes, de 18 anos, presenciou os
trotes. Ela conta que uma de suas maiores preocupações antes de entrar
na universidade era a possibilidade de ser vítima de atitudes violentas.
“Sempre tive medo, porque via o que era feito em outros cursos. Sou
muito sensível, choro fácil, e tinha receio de que fizessem alguma coisa
que eu não gostasse”.
Trotes também ocorreram no curso de
engenharia de minas. Estudantes do 1° período tiveram os sapatos
escondidos e houve batismo com cachaça, segundo a aluna Bruna Oliveira
Froes Canesso, de 19 anos. “Não fizeram nada comigo, porque eu disse que
não gosto das brincadeiras e eles respeitaram. Como o curso é composto
por uma maioria masculina, eles pegam pesado com os homens”, conta.
Também há informações de que os calouros da engenharia civil teriam sido
alvo de trote. Na turma do 1° período de engenharia ambiental, os
alunos já estão cientes da prática. “Ainda não teve trote, mas pelo que
vejo não vão pegar pesado”, acredita o calouro João Vitor Campos.
Estudantes da comunicação social também relataram que um trote estava
planejado para os próximos dias.
Campanha O
presidente do Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia Renan Damazio
reconhece que não ha controle sobre os trotes. Ele diz que o diretório
realiza uma campanha no início de cada semestre com os alunos veteranos
numa tentativa de inibir a realização de brincadeiras de mau gosto
contra os calouros, mas que a organização é feita de forma independente
pelos estudantes do 2° período. “Não temos muito controle sobre isso,
assim como a escola também não tem. Esse é um problema que está em toda a
universidade”, observa.
Faculdade dividida
Tiago de Holanda
Nas
dependências da Faculdade de Direito da UFMG, é fácil encontrar pessoas
conversando sobre o trote feito na sexta-feira. O assunto provoca muitas
divergências na comunidade acadêmica, como se verificou na tarde de
ontem, na assembleia convocada pelo Centro Acadêmico Afonso Pena (Caap)
para discutir o tema. Cerca de 300 estudantes de diferentes cursos
lotaram um pátio no terceiro andar do prédio. A maioria dos que falaram
ao microfone repudia o que ocorreu, mas alguns consideram que tudo não
passou de brincadeira de mau gosto.
Quase todas as críticas
mencionaram apenas uma das duas fotos divulgadas ontem: aquela em que
uma caloura, com o corpo tingido de preto, tem uma corrente atando suas
mãos, puxada por um veterano, e uma placa em que se lê “caloura Chica da
Silva”, em referência à escrava mais célebre de Minas. “Pode parecer
uma brincadeira, mas não é. Racismo mata, estigmatiza”, disse Ana
Guedes, de 20 anos, estudante do quinto período de direito. Aluna do
curso de psicologia, Andressa de Araújo Moreira, de 25, sugeriu que os
veteranos envolvidos no incidente se retratassem. “Não foi apenas um
trote, mas sim um crime”, defendeu.
O único professor a discursar
foi Rodrigo Edenilson de Jesus, da Faculdade de Educação. “As fotos me
chocaram. Trata-se de discriminação e racismo”, afirmou. Nenhum dos
discursos foi aplaudido com unanimidade. Para mostrar que discordava,
parte da plateia não se manifestava. Estudante de direito, Fernando
Morais, de 22, defendeu os colegas que realizaram o trote e chegou a ser
vaiado. “Não acho razoável tratá-los como criminosos. Você pode ficar
ofendido, foi uma brincadeira de mau gosto. Mas não houve dolo”, alegou.
Depois da assembleia, grupos de estudantes continuaram a discutir em
frente ao prédio da faculdade. Um deles foi criticado aos berros por
colegas, ao falar, em entrevista a jornalistas, que um dos sinais de que
a faculdade não é racista é o fato de ser “um macaco” o símbolo da
Associação Atlética Acadêmica da instituição.
Medo
Amigo de veteranos que participaram do trote, Victor contou que eles
estão amedrontados com a notoriedade que o caso ganhou. “Eles queriam
falar aqui, mas sabem que seriam vaiados”, relatou. Uma estudante do
segundo período do curso, que não quis se manifestar, disse que viu os
trotes e conhece os envolvidos. “Tá todo mundo com medo de falar”,
confirmou. “As fotos são nojentas, mas foram divulgadas fora do
contexto.”
Presidente do Caap, Felipe Galo disse que os veteranos
envolvidos decidiram não se manifestar, por enquanto. Na assembleia,
ficou decidida a criação de um grupo de trabalho para promover
seminários sobre preconceito e um ato público em repúdio a trotes. O
Caap divulgou nota em que “repudia veementemente a atitude ocorrida, bem
como o assédio virtual que tem recaído sobre os protagonistas das
fotos”. Segundo a nota, o incidente foi uma “afronta a garantias
constitucionais, como a dignidade da pessoa humana”. O centro ainda
reconheceu “que sua omissão foi um erro”, ao permitir o trote
Grupos denunciam sexismo e preconceito
Alessandra Mello e Álvaro Fraga
Um dia
depois das denúncias de trote ofensivo praticado por alunos da Faculdade
de Direito da UFMG na sexta-feira, quando calouros foram vítimas de
atos racistas e de apologia ao nazismo, novas acusações de práticas
preconceituosas atribuídas a alunos da mais tradicional faculdade de
direito de Minas Gerais foram publicadas nas redes sociais. No Facebook,
entidades de defesa da diversidade sexual, de combate ao racismo e da
defesa dos direitos das mulheres afirmaram que ações preconceituosas são
frequentes na instituição de ensino. Também foi divulgado que um dos
estudantes fotografados ao fazer a tradicional saudação nazista com o
braço direito estendido, ao lado de um calouro amarrado a uma pilastra, é
fundador de uma organização de ultradireita. Tudo isso em meio ao clima
pesado vivido na faculdade, onde os estudantes fizeram uma assembleia
ontem para discutir o que fazer para impedir novas manifestações de
racismo, intolerância e preconceito.
Uma das denúncias de
preconceito contra as mulheres foi feita pelo Grupo Universitário em
Defesa da Diversidade Sexual (Gudds), um coletivo que reúne militantes
dos direitos humanos de diversas faculdades. O Gudds acusa a charanga da
Faculdade de Direito de entoar músicas sexistas e de palavreado
impublicável em todos os eventos, atacando alunas de outras faculdades
de direito de Belo Horizonte. “Vestibular que abre as pernas, Nova Lima é
a casa dela, é casa , é casa, é casa da cadela” , essa é uma das
estrofes de uma das músicas executadas pela charanga.
Batizada
de “Casa da Cadela”, a música é uma referência pejorativa e
preconceituosa às alunas do curso da Faculdade de Direito Milton Campos,
localizada em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte. O
preconceito contra as mulheres é recorrente nas letras da charanga. Uma
delas, de conteúdo impublicável, por causa das palavras de baixo calão,
ataca mulheres negras e gordas e menospreza estudantes das faculdades de
direito pagas, exaltando uma suposta superioridade dos alunos da UFMG.
A
reportagem tentou contato com integrantes da charanga, mas nenhum deles
quis falar. Um integrante do Centro Acadêmico Afonso Pena (CAAP), que
representa os alunos do direito da UFMG, e que não quis se identificar,
confirmou a execução de músicas consideradas preconceituosas e disse que
todos na faculdade conhecem as letras da charanga.
Ano passado,
essa e outras letras da banda foram alvo de nota de repúdio do Centro
Acadêmico da Psicologia, que denunciou o teor preconceituoso e até
agressivo das músicas. “Essa sua burrice não vai da pra exorcizar, paga,
PUC, PUC, paga””, diz uma música, enquanto outra ataca moralmente as
mulheres: “cadela da Milton campos, late, late, late que eu to
passando”. Integrante do Gudds, Thiago Coacci, mestrando em ciência
política da UFMG, disse que trotes preconceituosos, racistas e
homofóbicos são frequentes e que a reitoria já foi alertada pelo grupo.
“O que a gente quer não é uma punição pontual. O problema é mais grave,
queremos que a UFMG adote uma política ampla de combate ao
preconceito”, defende Thiago.
Intolerância “Eu
sou um cara estranho com uma arma, eu gosto de atirar em pessoas e
matar é divertido”. Esta frase, escrita em inglês, foi postada no
Twitter por estudante que participou do trote na Faculdade de Direito da
UFMG, apontado como fundador de um grupo de ultradireita. Também foram
divulgadas outros posts do universitário, que revelam um perfil com
tendências totalitárias e de intolerância contra minorias. Integrante do
CAAP confirmou que o aluno é conhecido por suas posições radicais.
Em
uma das denúncias publicadas no Facebook, o universitário aparece em
uma rede social como integrante do Movimento Pátria Nossa, definido por
ele como “um movimento nacionalista para brasileiros que amam o Brasil e
defendem a tradição, a família, a pátria e os bons costumes”. O grupo é
ligado à organização italiana de extrema direita Tuttadestra. Até
anteontem, o estudante e o Pátria Nossa tinham páginas no Facebook,
removidas depois que as denúncias de prática de racismo e de referências
ao nazismo no trote de sexta-feira foram publicadas.
Em outro
post, o jovem volta a falar sobre mortes. "A espécie humana é indigna de
vida. Se eu pudesse, escolheria cinco pessoas e deixaria o resto morrer
de fome". Há ainda textos contra homossexuais, feministas e
manifestações como a Marcha das Vadias. Imigrantes também não escaparam
de comentários.
quarta-feira, 20 de março de 2013
TRÁFICO ANIMAL » Quase 100 elefantes mortos por caçadores no Chade
Estado de MInas: 20/03/2013
Libreville – Ao menos
89 elefantes foram massacrados por caçadores na semana passada em uma
única noite perto da cidade de Ganba, ao Sul do Chade, afirmou a
organização não governamental World Wildlife Found (WWF) ontem, em um
comunicado. Entre os paquidermes mortos estavam 33 mães em período de
aleitamento e 15 filhotes, indicou a organização de defesa no meio
ambiente.
“Os caçadores, cerca de 50 homens a cavalo, falavam em árabe”, segundo líderes locais citados pelo comunicado, que afirmaram que o Exército do Chade foi enviado para "parar os criminosos".
"É um dos piores incidentes de caça na região desde o massacre de mais de 300 elefantes no Parque Nacional camaronês de Buba N’Djida em fevereiro de 2012”, ressaltou o WWF. “De acordo com as evidências, foi o mesmo grupo de caçadores sudanês que matou os elefantes em Camarões, obrigando o país a mobilizar forças especiais para proteger os animais”, comentou Bas Huijbregts, chefe da campanha da WWF contra o comércio ilegal de espécies selvagens na África Central.
“Esste incidente no Chade coloca em evidência a necessidade de uma abordagem regional para lutar contra a caça”, acrescentou. Em muitas zonas estratégicas da África Central, os caçadores se aproveitam da porosidade das fronteiras para circular de um país para o outro. Na África, uma parte do dinheiro do tráfico de animais serve para financiar vários grupos armados, afirma a WWF.
“Contudo, apenas o fim da demanda por marfim em países como a Tailândia e a China asseguraria a sobrevivência dos elefantes na África Central”, considerou Huijbregts. O preço do quilo do marfim ultrapassou US$ 2 mil no mercado negro asiático por causa da demanda em constante aumento, segundo várias ONGs.
De acordo com um relatório da WWF de dezembro, a caça, com um lucro estimado em US$ 19 bilhões por ano, se tronou o quarto maior mercado ilegal do mundo, atrás das drogas, dinheiro falsificado e tráfico humano. O marfim é usado principalmente para a confecção de adornos religiosos e também em joias. Segundo a ONG Entidade Nacional de Proteção Animal (Enpa), da Itália, em 2011, os caçadores mataram 25 mil elefantes apenas na África subsaariana por um lucro de 5 mil euros a presa (algo em torno de R$ 15 mil). Dali, o marfim é transportado até as Filipinas, onde é transformado em cruzes católicas, estátuas, ou é encaminhado para a Tailândia ou para a China para ser transformado em símbolos budistas ou taoistas. Cento e setenta e seis países já proibiram o comércio de marfim.
Ondas do mar analisadas
O Brasil acaba de ganhar uma ferramenta de modelagem matemática que analisa o movimento das ondas do mar.
O Sistema de Previsão e Monitoramento Costeiro foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), das universidades federais do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e da Universidade Nacional Autônoma do México para simular diversas características das ondas que chegam à costa brasileira. A plataforma produz informações sobre a altura significativa e potencial, período e direção de ondas que atingem 61 pontos do litoral do país,s eu grande diferencial. “Calibramos o modelo com base na climatologia das ondas dos últimos 30 anos, de 1979 a 2010”, diz o coordenador do projeto Valdir Innocentini, do Inpe.
“Os caçadores, cerca de 50 homens a cavalo, falavam em árabe”, segundo líderes locais citados pelo comunicado, que afirmaram que o Exército do Chade foi enviado para "parar os criminosos".
"É um dos piores incidentes de caça na região desde o massacre de mais de 300 elefantes no Parque Nacional camaronês de Buba N’Djida em fevereiro de 2012”, ressaltou o WWF. “De acordo com as evidências, foi o mesmo grupo de caçadores sudanês que matou os elefantes em Camarões, obrigando o país a mobilizar forças especiais para proteger os animais”, comentou Bas Huijbregts, chefe da campanha da WWF contra o comércio ilegal de espécies selvagens na África Central.
“Esste incidente no Chade coloca em evidência a necessidade de uma abordagem regional para lutar contra a caça”, acrescentou. Em muitas zonas estratégicas da África Central, os caçadores se aproveitam da porosidade das fronteiras para circular de um país para o outro. Na África, uma parte do dinheiro do tráfico de animais serve para financiar vários grupos armados, afirma a WWF.
“Contudo, apenas o fim da demanda por marfim em países como a Tailândia e a China asseguraria a sobrevivência dos elefantes na África Central”, considerou Huijbregts. O preço do quilo do marfim ultrapassou US$ 2 mil no mercado negro asiático por causa da demanda em constante aumento, segundo várias ONGs.
De acordo com um relatório da WWF de dezembro, a caça, com um lucro estimado em US$ 19 bilhões por ano, se tronou o quarto maior mercado ilegal do mundo, atrás das drogas, dinheiro falsificado e tráfico humano. O marfim é usado principalmente para a confecção de adornos religiosos e também em joias. Segundo a ONG Entidade Nacional de Proteção Animal (Enpa), da Itália, em 2011, os caçadores mataram 25 mil elefantes apenas na África subsaariana por um lucro de 5 mil euros a presa (algo em torno de R$ 15 mil). Dali, o marfim é transportado até as Filipinas, onde é transformado em cruzes católicas, estátuas, ou é encaminhado para a Tailândia ou para a China para ser transformado em símbolos budistas ou taoistas. Cento e setenta e seis países já proibiram o comércio de marfim.
Ondas do mar analisadas
O Brasil acaba de ganhar uma ferramenta de modelagem matemática que analisa o movimento das ondas do mar.
O Sistema de Previsão e Monitoramento Costeiro foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), das universidades federais do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e da Universidade Nacional Autônoma do México para simular diversas características das ondas que chegam à costa brasileira. A plataforma produz informações sobre a altura significativa e potencial, período e direção de ondas que atingem 61 pontos do litoral do país,s eu grande diferencial. “Calibramos o modelo com base na climatologia das ondas dos últimos 30 anos, de 1979 a 2010”, diz o coordenador do projeto Valdir Innocentini, do Inpe.
CIÊNCIA » Chimpanzés conseguem trabalhar em equipe
CIÊNCIA »
Chimpanzés conseguem trabalhar em equipe
Primatas ajudam parceiro a realizar uma tarefa quando o desempenho do outro é essencial para alcançar um objetivo. Resultado indica que capacidade de produzir em grupo é característica evolutiva
Estado de Minas: 20/03/2013
Olhe para as grandes obras da humanidade — das pirâmides do Egito ao robô Curiosity, que explora Marte neste momento — e você verá o resultado de uma das características mais importantes do homem: a capacidade de trabalhar em equipe. Enquanto especialistas de recursos humanos quebram a cabeça para desenvolver novas formas de produzir em grupo, propondo modernos sistemas de colaboração, um time de especialistas da Escola de Administração da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, decidiram olhar para o passado e descobrir quando surgiu esse potencial de unir esforços e coordenar ações para chegar a determinado objetivo. Concluíram que ele foi herdado dos ancestrais do Homo sapiens, sendo, portanto, resultado do processo evolutivo.
A tese do grupo de especialistas é amparada em uma pesquisa com chimpanzés, os grandes primatas mais parecidos com o homem. Em uma série de testes, os pesquisadores observaram que os animais não só coordenam ações uns com os outros como entendem a necessidade de ajudar um parceiro a desempenhar bem seu papel para alcançar uma meta comum. Os resultados estão publicados na revista Biology Letters desta semana.
No experimento, dois chimpanzés precisavam trabalhar juntos se quisessem comer as uvas que estavam dentro de uma caixa de plástico. A tarefa não era muito simples. Cada animal era posicionado de um lado do recipiente. O que estava atrás da caixa precisava usar um ancinho para empurrar as frutas até que elas caíssem sobre uma plataforma. Então, cabia ao animal da frente passar uma vara por um buraco e inclinar a plataforma, fazendo as uvas caírem no chão para poderem ser devoradas. Sozinho, um animal não teria acesso a todo o ambiente, logo não poderia alcançar às guloseimas.
Para complicar ainda mais a missão, as duas ferramentas eram dadas a um dos animais, que precisava perceber que tinha de passar um dos objetos para o parceiro ajudá-lo. De 12 chimpanzés testados, 10 perceberam a necessidade de dar ao companheiro uma das ferramentas para que ele o ajudasse a concluir a tarefa. E em 73% das tentativas, os animais acertaram qual a ferramenta mais adequada para o colega desempenhar sua função de empurrar as uvas sobre a plataforma.
“Esse estudo fornece a primeira evidência de que um dos nosso primos mais próximos consegue prestar atenção às ações do parceiro em uma tarefa colaborativa, e mostra que eles sabem que o colega não só precisar estar ali como também deve realizar um papel específico para que ambos sejam bem-sucedidos. A pesquisa deixa claro que esses animais podem trabalhar juntos de uma maneira estratégica, pensando não apenas que é necessário agir em conjunto, mas também que cada um deve fazer sua parte para obterem sucesso”, diz , em um comunicado, Alicia Melis, coautora do artigo e professora assistente de ciência comportamental na Universidade de Warwick.
Segundo a especialista, houve uma grande diferença individual em relação a quão rapidamente o animal que recebeu as ferramentas transferiu uma delas para o outro primata. No entanto, assim que essa transferência ocorria uma vez, em testes seguintes ela ocorria em 97% das vezes. “Embora chimpanzés, geralmente, sejam muito competitivos quando buscam ter acesso a alimentos e prefiram trabalhar sozinhos e monopolizar a comida, o experimento mostra que eles estão dispostos e são capazes de apoiar um parceiro quando o sucesso próprio depende do outro.”
Ancestral comum Na opinião de Melis, o fato de os animais expressarem a capacidade colaborativa é um forte indício de que ela se trata de uma característica evolutiva. “Essas são habilidades encontradas tanto nos chimpanzés quanto nos homens, logo essas capacidades podiam estar presentes no ancestral comum das duas espécies, antes de os homens desenvolverem a própria e complexa forma de colaboração”, prossegue Melis.
Ela ressalta que o tipo de ação exigida dos primatas durante o experimento é bem mais complexa que trabalhos em grupo observados em outros animais. “Muitas espécies cooperam para alcançar objetivos de benefício mútuo, como defender um território ou caçar uma presa. Contudo, o nível de coordenação intencional permeando essas ações é geralmente obscuro. O sucesso da empreitada poderia estar relacionado a ações independentes visando a mesma meta”, argumenta a cientista.
Ética
Os animais que participaram do experimento vivem no Santuário de Chimpanzés Sweetwaters, no Quênia, que fornece refúgio a animais órfãos apreendidos enquanto eram comercializados ilegalmente. Segundo os autores, a pesquisa foi aprovada por comitês de ética do santuário e por autoridades quenianas. Em nenhum momento os animais foram impedidos de se alimentar ou de beber água, e eles podiam deixar de participar da tarefa a qualquer momento.
Primatas ajudam parceiro a realizar uma tarefa quando o desempenho do outro é essencial para alcançar um objetivo. Resultado indica que capacidade de produzir em grupo é característica evolutiva
Estado de Minas: 20/03/2013
Olhe para as grandes obras da humanidade — das pirâmides do Egito ao robô Curiosity, que explora Marte neste momento — e você verá o resultado de uma das características mais importantes do homem: a capacidade de trabalhar em equipe. Enquanto especialistas de recursos humanos quebram a cabeça para desenvolver novas formas de produzir em grupo, propondo modernos sistemas de colaboração, um time de especialistas da Escola de Administração da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, decidiram olhar para o passado e descobrir quando surgiu esse potencial de unir esforços e coordenar ações para chegar a determinado objetivo. Concluíram que ele foi herdado dos ancestrais do Homo sapiens, sendo, portanto, resultado do processo evolutivo.
A tese do grupo de especialistas é amparada em uma pesquisa com chimpanzés, os grandes primatas mais parecidos com o homem. Em uma série de testes, os pesquisadores observaram que os animais não só coordenam ações uns com os outros como entendem a necessidade de ajudar um parceiro a desempenhar bem seu papel para alcançar uma meta comum. Os resultados estão publicados na revista Biology Letters desta semana.
No experimento, dois chimpanzés precisavam trabalhar juntos se quisessem comer as uvas que estavam dentro de uma caixa de plástico. A tarefa não era muito simples. Cada animal era posicionado de um lado do recipiente. O que estava atrás da caixa precisava usar um ancinho para empurrar as frutas até que elas caíssem sobre uma plataforma. Então, cabia ao animal da frente passar uma vara por um buraco e inclinar a plataforma, fazendo as uvas caírem no chão para poderem ser devoradas. Sozinho, um animal não teria acesso a todo o ambiente, logo não poderia alcançar às guloseimas.
Para complicar ainda mais a missão, as duas ferramentas eram dadas a um dos animais, que precisava perceber que tinha de passar um dos objetos para o parceiro ajudá-lo. De 12 chimpanzés testados, 10 perceberam a necessidade de dar ao companheiro uma das ferramentas para que ele o ajudasse a concluir a tarefa. E em 73% das tentativas, os animais acertaram qual a ferramenta mais adequada para o colega desempenhar sua função de empurrar as uvas sobre a plataforma.
“Esse estudo fornece a primeira evidência de que um dos nosso primos mais próximos consegue prestar atenção às ações do parceiro em uma tarefa colaborativa, e mostra que eles sabem que o colega não só precisar estar ali como também deve realizar um papel específico para que ambos sejam bem-sucedidos. A pesquisa deixa claro que esses animais podem trabalhar juntos de uma maneira estratégica, pensando não apenas que é necessário agir em conjunto, mas também que cada um deve fazer sua parte para obterem sucesso”, diz , em um comunicado, Alicia Melis, coautora do artigo e professora assistente de ciência comportamental na Universidade de Warwick.
Segundo a especialista, houve uma grande diferença individual em relação a quão rapidamente o animal que recebeu as ferramentas transferiu uma delas para o outro primata. No entanto, assim que essa transferência ocorria uma vez, em testes seguintes ela ocorria em 97% das vezes. “Embora chimpanzés, geralmente, sejam muito competitivos quando buscam ter acesso a alimentos e prefiram trabalhar sozinhos e monopolizar a comida, o experimento mostra que eles estão dispostos e são capazes de apoiar um parceiro quando o sucesso próprio depende do outro.”
Ancestral comum Na opinião de Melis, o fato de os animais expressarem a capacidade colaborativa é um forte indício de que ela se trata de uma característica evolutiva. “Essas são habilidades encontradas tanto nos chimpanzés quanto nos homens, logo essas capacidades podiam estar presentes no ancestral comum das duas espécies, antes de os homens desenvolverem a própria e complexa forma de colaboração”, prossegue Melis.
Ela ressalta que o tipo de ação exigida dos primatas durante o experimento é bem mais complexa que trabalhos em grupo observados em outros animais. “Muitas espécies cooperam para alcançar objetivos de benefício mútuo, como defender um território ou caçar uma presa. Contudo, o nível de coordenação intencional permeando essas ações é geralmente obscuro. O sucesso da empreitada poderia estar relacionado a ações independentes visando a mesma meta”, argumenta a cientista.
Ética
Os animais que participaram do experimento vivem no Santuário de Chimpanzés Sweetwaters, no Quênia, que fornece refúgio a animais órfãos apreendidos enquanto eram comercializados ilegalmente. Segundo os autores, a pesquisa foi aprovada por comitês de ética do santuário e por autoridades quenianas. Em nenhum momento os animais foram impedidos de se alimentar ou de beber água, e eles podiam deixar de participar da tarefa a qualquer momento.
Elio Gaspari
folha de são paulo
Certa vez perguntaram a João 23 quantas pessoas trabalhavam na Cúria, e ele disse: "A metade". São 3.000 pessoas, respondendo a uma dezena de cardeais e a centenas de monsenhores. Apesar da pompa e da fama, a receita da Cúria Romana (cerca de R$ 700 milhões) é menor que a da Prefeitura de Nova Iguaçu (R$ 1,1 bilhão). Ela tem um braço financeiro no Banco do Vaticano, cujo ativo (R$ 16 bilhões) o coloca como um tamborete diante do Itaú (R$ 1 trilhão). Sua força está no poder que irradia.
Os papas mantêm imperial distância em relação a esses negócios, delegando-os a colaboradores próximos. Ao tempo de João Paulo 2º, o monsenhor poderoso na Cúria era seu secretário, Stanislaw Dziwisz, atual arcebispo de Cracóvia. Com Bento 16, veio o monsenhor Georg Gänswein, apelidado de "George Clooney do Vaticano". Em torno do papa circulam questões espirituais e iniciativas diplomáticas, mas frequentemente ele se vê atropelado por roubalheiras e intrigas municipais numa corte onde o poder dos cardeais vem de conexões típicas da política italiana, a do "bunga-bunga" Berlusconi.
Pela essência espiritual da Igreja Católica e pelo caráter absolutista de sua monarquia, tudo o que acontece no mundo acaba naquilo que se costuma considerar a "crise da Igreja". Se o arcebispo de Boston ou o de alguma diocese brasileira protegia pedófilos, o malfeito vai para a conta dessa crise.
Se o contínuo do prefeito de Nova Iguaçu furtar papéis de sua mesa, isso talvez não chegue a ser notícia nem sequer nos jornais do Rio de Janeiro. Quando o mordomo de Bento 16 varejou sua mesa, o que apareceu de mais estarrecedor foram as queixas do monsenhor Carlo Maria Viganó, secretário-geral da administração da Santa Sé. Por trás da campanha contra o padre estava o dedo do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone. Pela qualidade e pelo montante envolvido, a irregularidade era um amendoim se comparada ao escândalo dos Legionários de Cristo do padre Marcial Maciel, quindim da plutocracia mexicana e de cardeais sobre os quais aspergia doações, um pedófilo promíscuo, que deixou seis filhos. Sua punição por Bento 16 foi severa, mas poderia também ter sido exemplar se tivesse exposto o exemplo, expondo suas relações em Roma. Bolas como essa estão quicando para o papa Francisco chutar.
Os cardeais italianos que vivem na política da Santa Sé são constrangedoramente municipais. Angelo Sodano, o poderoso secretário de Estado de João Paulo 2º, levou um ano para desocupar o gabinete quando Bento 16 substituiu-o por Bertone, que, por sua vez não fazia seu serviço. Os chefes da segurança do pontífice movem-se com um desembaraço sem similar nas democracias europeias.
As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. Para limpar Roma, basta jogar detergente.
A faxina do papa Francisco
A tarefa do "fratello" parece grande, mas é simples, basta que use seus poderes de monarca absoluto
O PAPA Francisco assumiu três reinados. Um, espiritual, alcança 1,2 bilhão de pessoas. Outro relaciona-se com a estrutura mundial da Igreja, com cerca de 3.000 bispos e um milhão de padres e religiosas. Finalmente, vem o Vaticano, com a Cúria Romana.Certa vez perguntaram a João 23 quantas pessoas trabalhavam na Cúria, e ele disse: "A metade". São 3.000 pessoas, respondendo a uma dezena de cardeais e a centenas de monsenhores. Apesar da pompa e da fama, a receita da Cúria Romana (cerca de R$ 700 milhões) é menor que a da Prefeitura de Nova Iguaçu (R$ 1,1 bilhão). Ela tem um braço financeiro no Banco do Vaticano, cujo ativo (R$ 16 bilhões) o coloca como um tamborete diante do Itaú (R$ 1 trilhão). Sua força está no poder que irradia.
Os papas mantêm imperial distância em relação a esses negócios, delegando-os a colaboradores próximos. Ao tempo de João Paulo 2º, o monsenhor poderoso na Cúria era seu secretário, Stanislaw Dziwisz, atual arcebispo de Cracóvia. Com Bento 16, veio o monsenhor Georg Gänswein, apelidado de "George Clooney do Vaticano". Em torno do papa circulam questões espirituais e iniciativas diplomáticas, mas frequentemente ele se vê atropelado por roubalheiras e intrigas municipais numa corte onde o poder dos cardeais vem de conexões típicas da política italiana, a do "bunga-bunga" Berlusconi.
Pela essência espiritual da Igreja Católica e pelo caráter absolutista de sua monarquia, tudo o que acontece no mundo acaba naquilo que se costuma considerar a "crise da Igreja". Se o arcebispo de Boston ou o de alguma diocese brasileira protegia pedófilos, o malfeito vai para a conta dessa crise.
Se o contínuo do prefeito de Nova Iguaçu furtar papéis de sua mesa, isso talvez não chegue a ser notícia nem sequer nos jornais do Rio de Janeiro. Quando o mordomo de Bento 16 varejou sua mesa, o que apareceu de mais estarrecedor foram as queixas do monsenhor Carlo Maria Viganó, secretário-geral da administração da Santa Sé. Por trás da campanha contra o padre estava o dedo do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone. Pela qualidade e pelo montante envolvido, a irregularidade era um amendoim se comparada ao escândalo dos Legionários de Cristo do padre Marcial Maciel, quindim da plutocracia mexicana e de cardeais sobre os quais aspergia doações, um pedófilo promíscuo, que deixou seis filhos. Sua punição por Bento 16 foi severa, mas poderia também ter sido exemplar se tivesse exposto o exemplo, expondo suas relações em Roma. Bolas como essa estão quicando para o papa Francisco chutar.
Os cardeais italianos que vivem na política da Santa Sé são constrangedoramente municipais. Angelo Sodano, o poderoso secretário de Estado de João Paulo 2º, levou um ano para desocupar o gabinete quando Bento 16 substituiu-o por Bertone, que, por sua vez não fazia seu serviço. Os chefes da segurança do pontífice movem-se com um desembaraço sem similar nas democracias europeias.
As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. Para limpar Roma, basta jogar detergente.
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