terça-feira, 14 de maio de 2013

Novo Coronavírus é transmitido entre humanos-Paloma Oliveto‏

Contágio por NCoV, responsável por infecção respiratória severa, foi registrado em hospital francês. Especialistas dizem que riscos de o micro-organismo causar grave epidemia são pequenos 


Paloma Oliveto

Estado de Minas: 14/05/2013 


Descoberto no ano passado, um novo tipo de coronavírus — família de vírus de RNA que provocam desde gripe comum a infecção respiratória severa – pode ser transmissível entre humanos. Um alerta divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou que, em um hospital da cidade francesa de Valenciennes, um homem que dividia o quarto com o primeiro paciente infectado do país contraiu o chamado NCoV. Ambos estão internados em uma área de isolamento. Na Arábia Saudita, onde houve o maior número de casos e de óbitos até agora, o ministro da Saúde, Abdullah Rabia, informou, no domingo, que o coronavírus infectou 15 pessoas e matou nove apenas neste mês. De acordo com a agência France-Presse, moradores do Norte do país estão em pânico e, ao menor sinal de febre, correm para os serviços de emergência.

O balanço oficial do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, que atua com a OMS no controle estatístico e nas pesquisas sobre o vírus, apontava ontem, em todo mundo, 34 casos confirmados e 20 mortes. Os dados, contudo, não estão bem esclarecidos. O informe do CDC mostra números diferentes dos divulgados no domingo pela Organização Mundial da Saúde, que citava 18 mortes. Ao mesmo tempo, o detalhamento dos surtos, iniciados em fevereiro de 2012 na Jordânia e seguidos por ocorrências na Arábia Saudita, no Catar, na Inglaterra, nos Emirados Árabes Unidos e, agora, na França, indica 30 infecções que resultaram em 16 mortes.
Apesar do descompasso estatístico, uma coisa é certa: o fato de o vírus passar de pessoa a pessoa eleva os riscos de contaminação – assim como a gripe, ele pode ser transmitido, por exemplo, por uma tosse ou um espirro. Em fevereiro, três pessoas da mesma família foram infectadas na Inglaterra, sendo que uma delas tinha viajado recentemente para o Oriente Médio. Isso levantou a suspeita da transmissão entre humanos que, com os casos franceses, foi confirmada. Se sair da Ásia e da Europa e atingir o continente americano, o NCoV será considerado uma pandemia.

Sem alarme O infectologista Stefan Cunha Ujvari, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, esclarece, porém, que ainda não há motivo para alarme, principalmente no Brasil, onde não há sequer casos suspeitos. Autor do livro Pandemias – a humanidade em risco (Editora Contexto), Ujvari explica que esse termo não se refere ao número de infectados, mas à abrangência geográfica. “Não quer dizer que vai haver uma alta letalidade. Temos de ficar em alerta porque o vírus está circulando e não é de hoje. Ainda não se sabe muito sobre esse novo coronavírus, mas ele não parece ter uma grande capacidade infectante”, afirma.

O médico que identificou o NCoV, o virologista egípcio Mohamed Zaki, disse em entrevista à agência Reuters que o vírus está sofrendo mutações genéticas e, por isso, infectando humanos mais facilmente. Mas também ressaltou que não acredita em uma epidemia grave, pois o micro-organismo foi descoberto e sequenciado rapidamente, ainda no ano passado. “Agora, temos ferramentas para diagnosticá-lo”, disse. Segundo Stefan Cunha Ujvari, ao contrário da gripe, que começa a ser transmitida antes que o indivíduo apresente os primeiros sintomas, os coronavírus só passam para outras pessoas por volta da segunda semana, o que dá tempo para diagnosticar e tratar os pacientes.
O especialista lembra que a própria pandemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, sigla em inglês), pneumonia asiática provocada por um coronavírus semelhante ao NCoV e que emergiu em 2003, não atingiu níveis alarmantes: acometeu 8 mil pessoas em 30 países. O problema foi a gravidade dos sintomas, que mataram quase 10% dos pacientes contaminados. De forma parecida, o NCoV se manifesta agressivamente, causando febre alta, tosse e pneumonia severa.

“As questões da exposição que resulta na infecção humana, o modo de transmissão, a fonte do vírus e a extensão infecciosa na comunidade precisam ser respondidas urgentemente”, disse a OMS, em um informe técnico divulgado no mês passado. De acordo com a organização, até agora, as estatísticas sugerem que a transmissão ocorre mais no ambiente hospitalar e que homens de meia idade (média de 58 anos) estão mais suscetíveis. "Além dessas questões epidemiológicas básicas, mais trabalho é necessário para determinar as estratégias corretas de tratamento dos pacientes infectados e para avaliar o potencial de intervenções farmacêuticas", alertou o documento.

Vetor é mistério



Assim como na Sars, há evidências de que morcegos sejam os hospedeiros do NCoV, mas ainda não se sabe qual o vetor que atinge seres humanos diretamente. Os mamíferos alados carregam o vírus que, para eles, é inofensivo e, provavelmente, o transmitem para algum animal. Esse último passa o agente patógeno para as pessoas de alguma forma, geralmente pelo contato com as secreções corporais. Apesar de os cientistas já terem sequenciado o genoma do NCoV, eles ainda não conseguiram identificar a espécie que faz o papel de reservatório do vírus. Sem isso, pouca coisa pode ser feita em termos de prevenção.

O infectologista Stefan Cunha Ujvari esclarece que cada nação adota as medidas de vigilância sanitária que achar mais adequadas, de acordo com os alertas da OMS. Com a descrição dos casos, os governos podem recomendar, por exemplo, que não se viaje para a Península Arábica, coisa que nenhum país achou necessário fazer até agora. No Brasil, o Ministério da Saúde ainda não se manifestou sobre o NCoV. Procurada pelo Estado de Minas, a assessoria do órgão não retornou até o fechamento desta edição. Ujvari acredita que, por enquanto, nenhuma estratégia precisa ser considerada no Brasil devido ao número restrito de casos mundiais.

Em uma entrevista coletiva realizada em Riad, na Arábia Saudita, porém, o diretor-geral adjunto da OMS para a Segurança Sanitária e o Meio Ambiente, Keiji Fukuda, alertou que o novo coronavírus “é um grande desafio para todos os países”. A organização divulgou uma nota de imprensa na qual afirma que “a principal preocupação global é sobre o potencial de disseminação do novo vírus”.

Na Arábia Saudita, principalmente na região de Al-Ahsa, onde a maioria dos casos ocorreu, a preocupação da população é grande. Na mesma entrevista da qual participou Fukuda, o ministro saudita da Saúde, Abdullah Rabia, disse que outros três casos estão sendo investigados. Todos os pacientes que procuraram os hospitais locais foram colocados em isolamento. “Senti os sintomas de uma gripe, acompanhados de febre”, afirmou à France-Presse um jovem que pediu para não ser identificado. “Fui ao hospital, mas esses sintomas desapareceram um dia depois, e apesar disso, sigo em quarentena com outros doentes, o que me dá medo”, revelou.

ALFORRIA » Terceirização da escravidão-Mateus Parreiras, Luiz Ribeiro e Grasielle Castro‏

Empreiteiras e aliciadores desvinculam alojamentos dos canteiros de obras para confundir a fiscalização. Nos centros urbanos o trabalho degradante fica com prestadores de serviço 


Mateus Parreiras, Luiz Ribeiro e Grasielle Castro


Estado de Minas: 14/05/2013 


A imagem de uma pessoa subjugada, numa plantação ou carvoaria isolada num dos rincões do estado é o que geralmente vem à mente quando se fala em trabalho análogo à escravidão. Contudo, a atividade perversa, que submete milhares de brasileiros a condições degradantes, não se restringe ao meio rural. Só neste ano, das 283 pessoas libertadas de alojamentos precários e trabalhos forçados, 122 (43%) estavam em centros urbanos como Belo Horizonte e Grande BH (66), São Paulo (38), Goiânia (12) e Rio de Janeiro (6). Enquanto o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) investiga denúncias em canteiros de obras e empresas de serviços pesados, a reportagem do Estado de Minas mostra um novo esquema criado por empregadores e agenciadores da mão de obra oriunda do interior e de outros estados para ludibriar a fiscalização. Em vez de manter alojamentos próprios, os agenciadores agora terceirizam essa parte.

O Bairro Buritis, na Região Oeste de BH, é um dos mais aquecidos mercados imobiliários da capital mineira, o que fez dele um dos pontos com mais canteiros de obra em atividade. Entre as centenas de frentes de trabalho, há operários vindos de vários lugares do país. O que muitos deles têm em comum é o intermédio de um agenciador que conseguiu serviço para eles, de apelido “Gato Seco”. O nome dele e o apelido constam em pelo menos seis canteiros de obras fiscalizados nos últimos dois anos pelos agentes do MTE.

À primeira vista, Gato Seco parece um operário comum: macacão de peão, capacete de plástico amarelo, óculos escuros e um celular por meio do qual fala sem parar. Andando de uma obra para a outra, o homem de não mais de 40 anos concordou em contar como se dá hoje em dia o emprego de mão de obra em condições análogas às de escravidão, com a condição de não ter o nome revelado. “Antes, a gente tomava muita multa da fiscalização, principalmente por causa dos alojamentos. Para seguir o que o MTE quer, teríamos de fazer um hotel para os rapazes (trabalhadores)”, considera. “Então, o que a gente faz é usar uma outra empresa. A gente fala que é uma empreiteira. Os trabalhadores dormem nos alojamentos deles, bem longe daqui. Comem por lá, tomam banho, bebem a cachaça e fazem tudo quanto há por lá”, conta o agenciador.

Ele admite que essa é a realidade atual. “Agora mesmo, nessa obra aqui, tenho 20 rapazes que trouxe de Bocaiuva (Norte de Minas). A empreiteira traz aqui, eles trabalham o dia inteiro e depois são levados de volta.” No caso de a fiscalização aparecer, o esquema funciona para ludibriar as multas. “A empreiteira tem tempo de mudar as coisas deles para outro alojamento, juntar as carteiras de trabalho e o que mais precisar. Está é faltando gente para trabalhar, porque serviço tem demais. E, se não for assim, a gente não consegue mais peão”, resume o agenciador.

Resgate Pelo Buritis não é difícil encontrar obras que mantêm operários trazidos de outros lugares para condições subumanas de trabalho. Em série de fiscalizações nos canteiros da JGR Engenharia e Serviços, entre 24 de agosto e 20 de setembro, agentes do MTE resgataram 88 pessoas em condições análogas à escravidão. Foram 47 autos de infrações lavrados em cinco canteiros, num total de R$ 198 mil em multas.

De acordo com o processo gerado pela fiscalização, eram 42 baianos, 21 sergipanos, 24 norte-mineiros e um alagoano que trabalhavam sem condições adequadas de proteção, sem registros de pontos e das carteiras de trabalho. Entre eles foram encontrados seis menores de idade “em local insalubre e perigoso”.

O alojamento da turma ficava nos subsolos ou porões, o que é proibido. Camas, lençóis, armários e vasos sanitários estavam em desacordo com as regras trabalhistas, sem higiene e limpeza nas cozinhas e alojamentos. Faltava também água potável, filtrada e fresca. As instalações elétricas estavam descobertas. No piso dos canteiros de obras havia várias pontas de vergalhões de aço desprotegidas e também aberturas nos pisos para transporte vertical de material sem guarda-corpos.

“Onde há um pobre coitado procurando serviço, tem sempre um gato por perto interessado em aliciá-lo para a exploração e o trabalho degradante”, afirma o frade Xavier Plassat, coordenador da campanha nacional de combate ao trabalho escravo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Ele associa o problema à baixa escolaridade e más condições de renda nas regiões pobres do país, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha. “O trabalho escravo é um fenômeno extremo de violação da dignidade e da liberdade. E isso traz prejuízos para a economia do país. As violações de regras de mercado abrem a oportunidade de retaliações de outros mercados por causa da competitividade desleal e de infrações de direitos humanos”, alerta Plassat.

De acordo com o coordenador do grupo de combate ao trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, Marcelo Gonçalves Campos, o manutenção de pessoas em condições análogas à escravidão ainda é um traço cultural no Brasil que precisa ser combatido com vigor. “Percebemos que há uma cultura do empregador de suprimir os direitos pelo lucro. A partir de 2003, a legislação trabalhista se aprimorou e hoje contamos com todos os instrumentos de governo, sejam polícias ou Ministério Público, para fiscalizar e coibir as práticas análogas à escravidão", afirma. “As denúncias dos trabalhadores, parentes e testemunhas, ainda são nossa melhor forma de informação”, disse


Ferida difícil de cicatrizar

Brasília – Passados 125 anos da aprovação da Lei Áurea, os embates gerados na tramitação da proposta mobilizam o Poder Legislativo até hoje. Uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que fortalece os instrumentos de combate à exploração do trabalhador, apresentada há 18 anos pelo deputado federal Paulo Rocha (PT-PA), tramita no Congresso sem avançar. Considerada uma segunda abolição, a PEC propõe o confisco da terra onde for flagrada a prática de condições de trabalho análogas à escravidão, com as áreas sendo destinadas à reforma agrária ou ao uso urbano. E esse ponto que trava a discusão.

A PEC já entrou e saiu da pauta do Congresso diversas vezes. Em 2004, a medida ganhou força, depois da grande comoção popular gerada pelo assassinato de três auditores fiscais e de um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que faziam uma fiscalização no Noroeste de Minas Gerais. Os produtores rurais Antério e Norberto Mânica, acusados de serem os mandantes do crime – que ficou conhecido como Chacina de Unaí, em referência ao município onde os servidores foram assassinados –, ainda não foram julgados.

No ano passado, a proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados, mas voltou ao Senado Federal por causa de uma modificação no texto. No período que antecedeu à aprovação da emenda, a bancada ruralista, contrária à proposta, tentou esvaziar o debate, ao defender que a lei definisse exatamente os casos que pudessem ser caracterizados como trabalho escravo.

Com aval No mês passado, o relator da PEC na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), deu parecer favorável ao texto da Câmara, sem alterações. Na justificativa, o senador argumenta que, ao permitir o confisco do imóvel no qual for flagrado o trabalho análogo à escravidão, o país dará um sinal inequívoco de que está empenhado em acabar definitivamente com essa chaga, que fere não só as leis trabalhistas, mas, acima de tudo, a dignidade das pessoas. Se aprovada na CCJ, a proposta seguirá ao plenário para ser votada em dois turnos.

Atualmente, o trabalho escravo – em linhas gerais, descrito como privação de liberdade para se desligar do patrão – é considerado grave violação dos direitos humanos, crime previsto no Artigo 149 do Código Penal. Enquanto a discussão se arrasta no Congresso, o país continua flagrando trabalhadores sendo explorados em condições análogas à escravidão. Na quinta-feira, oito pessoas foram libertadas de um sítio em Castelo dos Sonhos, no município de Altamira, Sudoeste do Pará. De acordo com a denúncia feita ao Ibama, o dono da fazenda, armado, fazia ameaça aos trabalhadores e os obrigava a fazer compras na própria fazenda, caracterizando a escravidão por dívida, já que os trabalhadores nunca conseguiam quitar as contas. Um litro de leite, por exemplo, era vendido por R$ 17.  

PLANOS PRIVADOS » Saúde à beira do colapso-Carolina Lenoir e Bárbara Nascimento‏

Crescimento menor na base de usuários e explosão nos atendimentos desenham um cenário preocupante. Segundo demógrafo da UFMG, rede suplementar entrará em ruína na próxima década 


Carolina Lenoir e Bárbara Nascimento


Estado de Minas: 14/05/2013 

Ainda que em 2012 o número de beneficiários de planos de saúde no Brasil tenha crescido 2,1% em relação ao ano anterior, chegando ao total de 47,9 milhões de conveniados, a evolução do setor foi a menor registrada desde 2009. Os dados são do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), com base em informações da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Por outro lado, o índice que mede o grau de utilização do plano, chamado de sinistralidade, foi de 85%, o maior dos últimos 12 anos. O número reforça a preocupação com o impacto do aumento da demanda de serviços de saúde, especialmente em face ao envelhecimento da população brasileira, na sustentabilidade dos planos nos próximos anos. Uma tese da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) prevê um colapso da saúde suplementar já na próxima década caso medidas de reestruturação para o setor não sejam adotadas.

Segundo o IESS, em 2011, o aumento do número de beneficiários ante 2010 foi de 3,6% e, no ano anterior, de 6,9%. Para a entidade, o menor crescimento deve-se à redução do rendimento médio dos profissionais autônomos e à desaceleração da geração de empregos formais no último trimestre do ano passado. O crescimento foi maior na contratação de planos coletivos, que registrou aumento de 3,1% em 2012 em relação a 2011, enquanto o total de planos individuais avançou 1,6%.

Em relação à sinistralidade, dos R$ 92,7 bilhões arrecadados pelas operadoras em 2012, R$ 92 bi foram usados para pagar custos, sendo R$ 78,8 bilhões referentes às despesas assistenciais e R$ 13,2 bilhões às administrativas. De acordo com o IESS, houve aumento do preço médio de procedimentos médicos. O preço médio das internações, segundo o instituto, subiu 10,8%, chegando a R$ 5,07 mil, ao passo que o valor médio dos exames complementares foi de R$ 29,33, depois de um aumento de 55,8%.

Para o supervisor comercial Ramon Abjaud da Costa, de 27 anos, o aumento dos gastos com o uso do plano de saúde tem a ver com falhas do próprio setor de saúde suplementar. “Minha mulher tem cálculo renal há alguns anos e frequentemente precisa ir a hospitais conveniados por conta das fortes dores. Não se resolve o caso dela em definitivo, o que faz com que sejam necessárias mais consultas, mais exames, mais medicamentos. Somos novos e não temos problemas graves de saúde, mas isso só nos faz temer como vai ser no futuro, quando a demanda vai ser maior”, reclama.

ENVELHECIMENTO Os dados do IESS fazem parte de um cenário em que o país ainda vive a era do bônus demográfico, onde a população ocupada, que gera riqueza, é maior que a dependente, mantendo equilibrado o sistema econômico-financeiro. Isso deve mudar em breve e um dos setores que serão mais afetados é o da saúde suplementar, que pode se tornar inviável economicamente já na próxima década. A questão é levantada pelo pesquisador Fernando Kelles, doutor em demografia pela UFMG, na tese Mudanças demográficas no Brasil e sustentabilidade dos planos de saúde.

Kelles se baseou no percentual de cobertura dos planos sobre a população brasileira em 2010 – de 25%, cerca de 50 milhões de pessoas, segundo dados da ANS – e, mantendo esse percentual, fez um projeção populacional até 2050. Os resultados do estudo apontam que os planos de saúde, em sua média, deverão atingir o equilíbrio entre despesas e receita em 2020, em consequência do envelhecimento da população brasileira e do aumento do número de aposentados, que, em geral, são a maioria da população conveniada dos planos individuais. Já os beneficiários dos planos coletivos, de acordo com Kelles, é formada basicamente por pessoas em idade ativa.

Segundo o demógrafo, o envelhecimento da população acarretará um aumento sem precedentes na demanda por serviços de saúde, sobretudo as taxas de internação, que representam cerca de 50% das despesas assistenciais das operadoras. Kelles alerta, porém, que a situação dos planos individuais já é preocupante. “Eles já são deficitários, sendo sustentados pelas demais carteiras de clientes dos planos de saúde. As despesas assistenciais e administrativas já superam a receita dessa modalidade. Por enquanto, eles são subsidiados pelos planos coletivos, que contam com conveniados que demandam menos serviços de saúde. Porém, com o envelhecimento da população, essa possibilidade de subsídio vai terminar”, explica o pesquisador.


Debate
envolve
fundo de
reserva


Encontrar soluções para evitar um colapso na saúde suplementar é um desafio que, para o pesquisador Fernando Kelles, exige um debate que deve envolver tanto a esfera privada quanto a pública, já que a realidade do envelhecimento populacional também irá afetar o Sistema Único de Saúde (SUS). “Como política para se tentar reduzir – ou pelo menos estabilizar – as taxas de utilização de serviços de saúde com a idade, é importante investir na prevenção de fatores de risco para a saúde e no estímulo aos hábitos saudáveis de vida”, aponta o demógrafo.

José Cechin, diretor executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), representante institucional das seguradoras, reconhece que as empresas estão preocupadas com o provável aumento dos gastos com saúde, especialmente com a maior prevalência de doenças crônicas e consequentes tratamentos longos e dispendiosos na população idosa. Ele lembra que há uma limitação na cobrança dos planos de saúde para idosos, já que a o valor dos planos da última faixa etária não pode ser superior a seis vezes ao cobrado dos conveniados que estão na primeira.

Uma possível alternativa, segundo Cechin, seria uma política de Previdência, como a proposta do VGBL Saúde, que ainda está em processo de aprovação pelo Ministério da Fazenda. “Funcionaria como uma poupança durante os anos em que a pessoa é assalariada para que o valor seja sacado quando ela envelhecer e, com isso, ajudar a cobrir despesas de saúde depois da aposentadoria”, explica.

A ideia de guardar dinheiro para eventualidades de saúde no futuro já havia passado pela cabeça da agente administrativa Alminda da Conceição Rezende Rosa, de 38 anos. A vontade aumentou ao ver a mãe internada por mais de 40 dias e com dificuldade para encontrar vagas em hospitais, mesmo sendo conveniada – ela acabou falecendo. “Além disso, tenho um filho de um ano e já enfrento pronto atendimentos lotados quando preciso levá-lo. Penso em como vai ser daqui para a frente e acho importante pensar em forma de assegurar també a minha própria saúde, pelo bem dele.” (CL)


Anvisa de olho no remédio falso

Além das dores de cabeça com os planos de saúde e falhas no sistema público os brasileiros têm que ficar atentos também com os medicamentos comprados. Remédios populares, como emagrecedores, suplementos alimentares e os reguladores de disfunção erétil e até produtos “tarja preta”, de alto custo, são falsificados e entram aos milhões no país. O ponto final são as farmácias irregulares, feiras e barracas de ambulantes. Ao todo, em 2012, 2,7 milhões de unidades (caixas e frascos) de medicamentos foram apreendidos, frente aos pouco mais de 1,6 milhão recolhido pela Receita Federal em 2011. Uma boa parte dos itens falsos, no entanto, continua circulando e colocando em risco a saúde do consumidor, o que forçou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a tomar providências.

Para mitigar o problema, a reguladora resolveu tirar da gaveta o projeto de regulamentar a rastreabilidade dos remédios, idealizado em 2005. Há a intenção, inclusive, de lançar um aplicativo de celular para que os brasileiros possam identificar se o item adquirido tem registro na agência e é verdadeiro. A consulta públicou terminou no última 9, mas a lei ainda não tem data para sair. Até hoje, apenas uma reunião foi firmada entre a Anvisa e a cadeia farmacêutica (indústria, atacado e varejo).

Segundo a Receita, estima-se que os produtos apreendidos em 2012 correspondem a cerca de R$ 7 milhões. Além de remédios falsos, entram na lista itens sem registro e produtos contrabandeados.  

Quem envelhece melhor? - Mirian Goldenberg

folha de são paulo

Quem envelhece melhor?


Na minha pesquisa sobre corpo, envelhecimento e felicidade, 38% das mulheres e 25% dos homens entrevistados disseram ter medo de envelhecer.
Ambos os sexos temem as mesmas coisas em relação ao envelhecimento: doenças, limitações físicas, dependência, necessidade de dar trabalho aos outros, perda de memória, solidão, abandono, desrespeito, falta de dinheiro e morte.
Só os homens, no entanto, mencionaram o medo de ficar sem emprego na velhice, de ter arrependimentos, de frustrações, ficar inútil, chato ou deprimido.
Quando perguntei: "Quem envelhece melhor: o homem ou a mulher?", os pesquisados de todas as faixas etárias afirmaram que os homens envelhecem melhor do que as mulheres.
Um único grupo afirmou que as mulheres envelhecem melhor do que os homens. Esse grupo específico acredita que os homens ficam mais dependentes de outras pessoas do que as mulheres na velhice, têm mais problemas de saúde, morrem mais cedo, bebem mais, comem mal, são sedentários, ficam deprimidos depois da aposentadoria, têm menos amigos, não sabem aproveitar o tempo livre etc.
Que grupo seria esse, afinal, que se diferencia de todos os demais?
Curiosamente, apenas as mulheres de mais de 60 anos acreditam que os homens envelhecem pior.
Justamente aquelas que já envelheceram negam a crença que sempre alimentaram: a de que o envelhecimento masculino é melhor do que o feminino. A experiência concreta da velhice prova que elas estavam completamente enganadas.
Uma fonoaudióloga de 65 anos declarou: "Sempre acreditei que os homens envelheciam muito melhor, que suas rugas e seus cabelos brancos eram um charme. Quando envelheci de verdade percebi que isso é uma grande mentira".
Essa entrevistada considera que está "muito melhor" do que o seu marido em todos os sentidos: mais bonita, mais feliz e com mais saúde.
"Além de careca e barrigudo, ele passa o dia inteiro vendo televisão."
Mais velhas, elas constatam que, na prática, as mulheres estão mais bonitas, mais cuidadas e mais saudáveis do que os homens. Além disso, elas afirmam que estão mais felizes, mais independentes e que estão aproveitando muito mais as vantagens da maturidade do que os homens.
Por que, então, as mulheres mais jovens têm tanto medo de envelhecer e continuam reforçando a crença de que os homens envelhecem melhor?
Mirian Goldenberg
Mirian Goldenberg é antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de "Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade" (Ed. Record). Escreve às terças, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Equilíbrio".