terça-feira, 25 de junho de 2013

Ato tinha até maconheiros, diz defesa de atropelador

folha de são paulo
Jovem morreu no acidente; advogado afirmou que empresário temeu ser linchado
DE RIBEIRÃO PRETOO advogado Ricardo Augusto Nascimento Pegolo dos Santos, que defende o empresário que atropelou e matou um estudante durante protesto em Ribeirão Preto, disse que seu cliente teve medo de ser linchado pelos manifestantes.
Segundo ele, havia um grupo de pessoas fumando maconha e provocando confusão com outros motoristas durante o ato, o que deixou o empresário Alexsandro Ishisato de Azevedo, 37, nervoso. Em entrevista anterior, Azevedo disse que havia "bandidos" entre os manifestantes.
O empresário, que está foragido, atropelou quatro pessoas durante o protesto na quinta --entre elas Marcos Delefrate, 18, que morreu no local, na avenida João Fiúsa.
Santos disse que o empresário vai se apresentar após a Justiça se posicionar sobre os dois pedidos feitos por ele. Um deles é para a decretação de segredo de Justiça do caso. O segundo pedido não foi revelado.
Segundo o advogado, havia uma aglomeração atrás do carro e, por isso, seu cliente decidiu não dar marcha a ré e ir embora. Mas vídeos divulgados na internet mostram que ele chegou a dar ré, mas acelerou e foi em frente, atingido as pessoas.
Questionado sobre o fato de o empresário ter passado sobre os manifestantes, Santos disse que foi uma fatalidade. "A junção de diversos fatores, como dentista queimado, vandalismo e carro de reportagem incendiado [em protestos], criou aquela situação e houve a fatalidade."

    Eutanásia - Francisco Daudt

    folha de são paulo
    Eutanásia
    Ponha-se na pele dela, vendo o manto do cárcere da demência se aproximando
    A leitora me escreve para contar que sua mãe, antes de completar 70 anos, teve aparente morte súbita enquanto dormia. Ela havia sido uma ótima mãe e cuidado bem, além dos filhos, de todos os velhinhos da família.
    Intrigada, a leitora acabou descobrindo que sua mãe havia se suicidado de maneira incrivelmente disfarçada. Seus sentimentos estão confusos, não sabe o que pensar, mas tem muita dor pela perda.
    Eis o que lhe disse: Minha primeira reação é de admiração e encantamento pela generosidade dupla e imensa de sua mãe.
    Ela que sabia bem o que é cuidar de inválidos, pode ter tido tempo de assistir o filme "Amour" (no Brasil, "Amor"), podia entender a dor que é conviver com um ser amado que apenas parece vivo, mas para nossa agonia extrema, não está mais lá, a demência o levou e deixou a casca irritante e trabalhosa para os entes outrora mais queridos pensarem "por que não morre logo?", e se culparem profundamente por ter tido esse pensamento mais que justo.
    Há um momento da demência em que a percebemos tomando conta, mas que ainda não nos incapacitou. Hoje em dia as pessoas falam de Alzheimer, já chamaram de arteriosclerose, mas esses diagnósticos são incertos, por isso uso o genérico "demência", que significa perda progressiva e irreversível das capacidades cognitivas e motoras em direção à vida vegetativa que pode se estender por anos.
    Quanto mais quando um complô de médicos gananciosos e familiares culpados inventam expedientes múltiplos que impedem a pessoa de morrer em paz.
    Cães têm este direito, nós, infelizmente, não.
    Se foi este o caso de sua mãe, se ela percebeu, ainda que tão moça, a demência se avizinhando e usou de sua não pouca inteligência para engendrar uma EUTANÁSIA (do grego, "a boa morte") discreta enquanto podia, não posso senão admirá-la. Imagino que não foi por altruísmo apenas, mas por egoísmo também. Não queria ter a dor de perder-se de si mesma.
    Vocês ainda poderiam desfrutar da companhia dela, em momentos cada vez mais curtos, por algum tempo (ninguém sabe quanto)? Por certo.
    Mas, ponha-se na pele dela, vendo o manto do cárcere da demência se aproximando e pensando, "daqui a pouco não poderei fazer mais nada para escapar da prisão".
    Ouvi certa vez: "a vida é uma doença incurável, sexualmente transmitida, com prognostico fatal em 100% dos casos".
    Quê dizer da velhice que, apesar de haver quem a chame de "melhor idade", é mesmo um fardo. A Maude ("Harold and Maude", filme de 1971 que aqui tem o nome de "Ensina-me a viver",) resolveu parar aos oitenta anos, achou que estava de bom tamanho. É uma decisão dolorosa e questionável.
    Mas a eutanásia que sua mãe praticou era do direito dela.
    Portanto, é seu direito divergir dela, ou mesmo de se sentir abandonada, faz parte do luto.
    Mas aprecie o lado dela para guardar seu exemplo de grandeza, e ter compaixão por ela que, mesmo em benefício próprio, se poupou da decadência segundo seus critérios que, suspeito, eram muito bons e lúcidos.

      Vinicius Torres Freire

      folha de são paulo
      Dilma tenta dirigir o trânsito
      Presidente adota ideia tanto esperta como arriscada de sugerir mudança constitucional do país
      DILMA ROUSSEFF apareceu ontem com algumas desconversas e uma ideia de risco, mas a princípio esperta, para baixar o fogo da chapa que pode fritar o resto do seu governo.
      A principal sugestão da presidente parece ser um plebiscito que decidiria a convocação de uma Assembleia Constituinte com a tarefa específica de votar uma reforma política. "Parece ser", pois a ideia toda é constitucionalmente confusa.
      A presidente talvez estivesse propondo uma lei de iniciativa popular, mais modesta, até porque é duvidoso se: 1) Pode ser convocado um plebiscito para revogar a Constituição, total ou parcialmente; 2) Se uma Assembleia Constituinte, caso possível, pode ser limitada por poderes externos a ela.
      Pelo menos dois ministros do Supremo ouvidos por esta coluna acham a ideia constitucionalmente inaceitável (um terceiro nem quis discutir o assunto, chamando a coisa toda de "populismo constitucional").
      Essa discussão parece tecnicismo. Mas trata-se de um problema de política bem imediata, pois:
      1) Essa foi a principal ideia que o governo teve para, por um lado, dar um sentido ao protesto por ora informe. Se a ideia render um conflito intrapolíticos ou um rolo constitucional, não progride;
      2) A proposta transfere parte do problema (a fúria das ruas contra "políticos") para o Congresso e até para a oposição. A presidente tenta de certo modo se unir a parte dos manifestantes no grito pela "sanitização" do sistema político (novas estruturas e lei de "crimes hediondos" para a corruptos). Os parlamentares, oposição inclusa, que agora se virem.
      A esperteza da ideia está, ressalte-se, no fato de Dilma Rousseff tentar dar sentido ao protesto. Ou tentar organizar e talvez até liderar, em parte, as "manifestações difusas", como diz o novo clichê: toda massa ou reunião enorme de cidadãos é difusa até que se lhe dê um sentido, organização ou decisão por voto.
      Os riscos podem ser vários.
      O primeiro deles é a reação dos parlamentares, que não vão aceitar sem mais a batata quente que Dilma lhes jogou no colo.
      Reformas, em si mesmo ou popularmente satisfatórias, obrigariam o Congresso a fazer o que não fez até agora ou ir na direção contrária de suas atitudes habituais (reforço de corporativismos e poderes de partidos que já fazem parte da ordem).
      Os parlamentares podem simplesmente recusar a ideia, matando-a no berço, ou podem tentar vingar-se de Dilma, devolvendo a batata quente.
      O segundo risco é de a ideia morrer devido a inviabilidades, constitucionais, por exemplo, ou práticas (sua realização demoraria demais, quando há clamor, razoável ou não, por atitudes imediatas).
      Enfim, a ideia de inventar uma Assembleia Constituinte composta de "políticos transitórios" (gente que não se candidataria nos próximos anos) pode tanto morrer na praia (os parlamentares dificultosamente se sujeitariam a uma assembleia "amadora") ou pode acirrar o conflito. Os parlamentares poderiam ficar mais irados, subindo o tom da vingança. Ou o povo das ruas poderia aderir decididamente à ideia, querendo atropelar a "casta política" e talvez até o Supremo, com o que o caldo entornaria para mares raramente navegados.

        Nizan Guanaes

        folha de são paulo
        Padrão brasileiro
        Sou a favor da Copa do Mundo no Brasil; e sou mais a favor ainda de um debate profundo e fecundo sobre ela
        O Brasil é o país da Copa. Jogos de Copa do Mundo aqui são tratados como o 4 de Julho nos Estados Unidos. Reunimos a família e os amigos, fazemos churrasco, empunhamos a bandeira nacional.
        O país, por tudo isso, exultou quando no longínquo 2007 a Fifa escolheu o Brasil para sediar a Copa de 2014.
        Seis anos depois, o povo está nas ruas exigindo um freio de arrumação no país e questionando, entre tantas coisas, os gastos com a Copa.
        Eu sou a favor da Copa do Mundo no Brasil. E sou mais a favor ainda de um debate profundo e fecundo sobre ela. Porque não adianta ter razão, é preciso saber explicar.
        Esta é a era da comunicação, que é também a era da informação, do debate, da participação, da mobilização. É por isso que o povo está nas ruas. Precisamos ver nisso uma oportunidade de avançar.
        Na China, durante a Olimpíada de Pequim, dissidentes tentaram protestar aproveitando a presença da imprensa internacional e acabaram reprimidos duramente na frente dos jornalistas.
        No Brasil, é diferente. Cultivamos nas últimas décadas uma democracia funcional, que permite e protege o direito de se manifestar. É uma democracia jovem, imperfeita, mas forte, que busca nas ruas energia nova e depuração.
        Vamos discutir a Copa do Mundo, para fazê-la da melhor forma possível. Vamos discutir o padrão Fifa para termos também educação e hospitais padrão Fifa, como pedem os protestos.
        Quem esteve nas novas arenas erguidas para a Copa constatou o salto incrível em relação aos estádios antigos. O país do futebol agora tem palcos dignos para sua arte. Na Copa do Mundo, serão palcos globais. E nós seremos os principais atores, fora e dentro do campo.
        Copas e Olimpíadas são portais para a globalização, atalhos para a consciência global. Apesar de nossos problemas, e sem querer minimizá-los, somos um gigante que vive em paz com os vizinhos e pratica a democracia e a economia de mercado como nenhum outro grande emergente.
        Precisamos mostrar ao mundo o que é o Brasil: nossa energia, nossa inteligência, nossa criatividade. E, agora, nossos revolucionários.
        A democracia e o capitalismo amadurecem juntos e tendem a convergir para um país mais justo e mais dinâmico. O país se transformou com a estabilidade econômica e a emergência de dezenas de milhões de brasileiros ao mercado consumidor. A grande ola de protestos percorrendo o Brasil é fruto dessas transformações e pode transformar o país de novo.
        Como publicitário, fico fascinado de ver os slogans que os manifestantes orgulhosamente apresentam nos cartazes, produto do marketing cidadão, de um grande "brain storm" popular.
        Minha favorita: "Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil". Lembra muito outro slogan do também criativo e seminal movimento estudantil de 1968: "As barricadas fecham ruas, mas abrem caminhos".
        Amanhã, em Belo Horizonte, Brasil e Uruguai se enfrentam numa copa no Brasil 63 anos depois da derrota mítica da seleção brasileira naquela final do Mundial de 1950, no Maracanã. Espera-se uma grande manifestação, que será tão grande quanto for pacífica.
        Daremos uma grande lição ao mundo e a nós mesmos se jogarmos um bolão dentro e fora do estádio. Vamos encher o campo de gols e as ruas de ideias. "Fair play" é fundamental nos dois palcos: o da bola e o da cidadania.
        A Copa de 2014 não é o evento inocente e paroquial de 1950. É um evento global que traz uma pauta objetiva e tem o poder de organizar uma nação, com dia, data e hora para as coisas acontecerem. Ela coloca o país na vitrine e na vidraça do mundo.
        O futebol foi nosso primeiro desejo de potência global realizado. Ele projetou o Brasil alegre, inovador, vencedor. Nasci em 1958, ano do primeiro Mundial, e cresci marcado por nossas grandes conquistas em campos pelo mundo.
        Isso formou minha ambição, nossa ambição, de um dia estarmos à altura do nosso futebol. Não o padrão Fifa, o padrão brasileiro. É isso que buscamos no campo, é isso que buscamos nas ruas.