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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Barbara Gancia

Fonte: Folha de São Paulo

Sobrou para o Ulysses

Cansei de dizer que não era para tratar como clássico de futebol. Mas, para os 50 gatos pingados que foram choramingar na frente do palácio da Dilma em Brasília na quarta, é bom lembrar que o julgamento do mensalão não acabou em pizza.
Dos 39 réus, dez já foram apenados e outros 12 terão suas penas revistas. Se há o que lamentar, a esta altura, não é a atuação do Supremo ou a suposta impunidade que está reservada a quem dispõe de meios de pagar pelo advogado que saiba cavar as garantias constitucionais estabelecidas pela lei. Afinal, essas garantias, como bem lembrou o ministro Barroso, valem para petistas, peessedebistas, torcedores do Íbis, inocentes, culpados, para seu filho, seu pai, sua sogra ou qualquer outro brasileiro que sente no banco dos réus.
Quem ora está frustrado foi quem embarcou ingenuamente na nau das falsas expectativas. Será que algum processo desse porte, com penas tão altas, poderia ter terminado sem direito a recurso? Sejamos realistas.
Você, que nestes últimos dois dias andou xingando o ministro Celso de Mello como se ele fosse juiz de futebol, será que você se dá conta de que o acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, em 2005, está sendo julgado pela quarta vez?
Será que você esqueceu de que nossa desigualdade recordista mundial, que coloca o réu que é atendido pela Defensoria Pública em um patamar e aquele que tem meios para contratar bons advogados em outro, é a mesma que é sentida pelo estudante rico que poderá pagar seu caminho do jardim da infância até a faculdade nas melhores instituições de ensino e aquele que será excluído do sistema educacional por falta de investimento do poder público? Ou a mesmíssima diferença que há entre o doente que se vê obrigado a passar pela máquina de horrores do SUS e quem pode se tratar nos hospitais Sírio-Libanês ou Einstein? Cadê a novidade?
Por que os indignados com o resultado sobre os embargos infringentes não espumam bílis ao constatar que Celso Russomanno, Paulo Maluf, Jader Barbalho, José Sarney, Roseana Sarney, Renan Calheiros, Luiz Estevão e outros tantos circulam livremente pelos mesmíssimos motivos que os réus do mensalão? Em algum momento todos eles foram julgados, condenados e obtiveram recursos para serem julgados em outra instância, não?
É evidente que culpados por crimes de corrupção devem ser severamente punidos. Mas o problema neste caso foi a uma vulgar tendência a usar dois pesos e duas medidas por serem os acusados pessoas que causam pavor em certas classes.
Assim, perdemos de novo a oportunidade de discutir o que importa. Que seria, quem sabe, encontrar uma maneira de impor limites recursais para impedir que processos durem "ad eternum". Ou encontrar uma forma de fortalecer a ação das Defensorias Públicas ou ainda os privilégios dos legisladores que legislam em causa própria.
Mas mais do que isso, que nós tivéssemos de uma vez por todas a coragem de tirar a cabeça das nuvens e admitir que nossa gloriosa Carta Magna é nota cinco.
A Constituição de 1988, que todos louvam como se fosse um documento sagrado, foi redigida na ressaca de um regime autoritário e carrega os cacoetes e resquícios de anos de práticas não democráticas. Some-se a isso Códigos Civil e Penal da época do avião a lenha e podemos entender porque daqui a pouco a Nova Guiné será um país bem mais moderno que o nosso.
Se alguém não tiver coragem de propor a correção dos graves desvios contidos na Carta, a coisa não engrena.
Se até o papa Francisco está colocando na roda temas cabeludos como o celibato, não vejo por que não podemos começar a sonhar.
Barbara Gancia
Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista do caderno "Cotidiano" e da revista "sãopaulo".

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Marcos Augusto Gonçalves

folha de são paulo
"Lá fora"
É assim que os brasileiros muitas vezes se referem ao restante do mundo - e é para lá que eu vou
"Isso vai ficar pronto para a Copa?", pergunta o homem a meu lado, no assento da janela do avião. Estico o pescoço e consigo ver o paliteiro de concreto que um dia deverá se transformar no novo terminal do aeroporto de Guarulhos. "É o que dizem", respondo. Ele faz uma cara de não sei não e aproveita para dizer que mora há mais de 20 nos Estados Unidos.
"Xi, vou ter um cara querendo falar comigo durante a viagem inteira" -temi.
E ele tem vinte anos de história em Nova York para contar.
Vinte anos é bastante tempo. A migração é um impulso ancestral da espécie, que persiste, apesar dos limites materiais e simbólicos desse modelo de assentamento planetário que ainda conhecemos, o Estado-nação. Digo "ainda" sem muita convicção quanto ao futuro. É claro que assistimos à formação de um esperanto cultural globalizado e presenciamos experiências de diluição de fronteiras, como a União Europeia. Não creio que os contornos nacionais, contudo, se apagarão.
Bem, na dúvida é melhor não consultar meu colega de vôo. Ele pode ter uma teoria sobre isso. E eu não estou para conversa, apesar das evidências de que sofrerei para dormir nessa cadeira pouco reclinável do busão voador. Na verdade meu companheiro de viagem também não quer papo. Já ajustou o fone aos ouvidos e ligou a tevezinha. Melhor.
Fico fascinado com essas pessoas que vivem uma vida fora de seus países, não porque não possam voltar, mas porque não querem, já são parte de outras geografias. Certa vez Gerald Thomas comentou comigo que achava divertida a forma como os brasileiros frequentemente se referem ao restante do mundo: "lá fora". "Oi, como é viver lá fora?" "Tem arroz e feijão?".
É verdade também que algumas pessoas nascem no país errado. Ninguém escolhe nacionalidade. Conheço americanos que se encontraram no Brasil e brasileiros que se pudessem seriam alemães.
Não é o meu caso, embora goste da ideia de ser estrangeiro. Pude viver um período na Itália, do qual sempre lembro com satisfação. Morar em São Paulo já tem sido, para mim, uma longa vida como "estrangeiro", eu que me mudei para cá com 27 anos, vindo do Rio de Janeiro. Tinha vergonha de falar "farol" e achava fascinante decifrar os códigos locais, muitos realmente diferentes dos cariocas. Tornei-me um paulista, me dizem. Mas não é inteiramente verdade. Paulistas não torcem pelo Flamengo e não cozinham num "fugão". E nem carioca da gema, devo dizer, eu sou, porque nasci em Aquidauana, Mato Grosso do Sul.
São Paulo é uma cidade de estrangeiros. O famoso clichê da terra de muitos povos corresponde a uma realidade histórica. Aqui em outros tempos falou-se mais línguas estrangeiras do que o português. Com seu jeitão provinciano, São Paulo é uma metrópole cosmopolita, conectada com o mundo, que está sempre diante do outro. "São Paulo é como o mundo inteiro" -diz a canção. Anos atrás, Jorge da Cunha Lima, então secretário de Cultura da cidade, falou numa entrevista à "Ilustrada" que vivíamos numa Nova York de taipa. Achei uma boa definição.
Digo tudo isso para me despedir desse espaço e do leitor que por ventura me acompanhe. Saio para um mês de férias e novos projetos, a partir de outubro. Levarei saudades, mas vou passar um ano "lá fora".
Mandarei notícias.

    domingo, 1 de setembro de 2013

    Antonio Prata

    folha de são paulo
    Gênesis, revisto e ampliado
    Visto que se aproximava o sétimo dia, Deus disse: 'Que a meia fure, que a privada entupa, que a internet caia...'
    Então o Senhor Deus disse a Adão: porquanto deste ouvidos à tua mulher, e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses: maldita é a terra por tua causa; com o suor do rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porque tu és pó e ao pó tornarás.
    E, vendo o Senhor Deus que Adão fazia-se de desentendido, disse: espera, que tem mais; não só custará o pão o suor de teu rosto, como aumentará a circunferência de tua barriga, e a circunferência de tua barriga desagradará à Eva, e Eva te dará chuchu, e quiabo, e linhaça, e couve, e outras ervas que dão semente e leguminosas que dão asco, e delas usarás como alimento, em teus dias de tribulação.
    E disse também o Senhor: porquanto comeste da árvore, porei em teu encalço insetos peçonhentos, e serão pernilongos nas cidades, e nas praias borrachudos serão; e ordenarei que te piquem bem na pelinha entre os dedos dos pés, e que zunam em teus ouvidos, e nas noites sem fim recordar-te-ás de teu criador.
    Não satisfeito com os castigos, continuou o Senhor Deus: que destas ventas por onde soprei a vida escorra muco, e que seja frio e pegajoso como as escamas da serpente, e caudaloso como as águas do Jordão, e que brote numa sessão de cinema, ou na Sala São Paulo, e que tenhas à mão somente uma folha de Kleenex, e que com ela te enxugues e te assoes, até que se esfacele a última fibra de celulose, marcando teu rosto com inumeráveis pontinhos brancos, como marcarei a face pecadora de Caim.
    E assim vagarás pela terra, disse o Senhor Deus, pois grande é teu pecado. E disse mais: cansado de perambular pela terra, inventarás o automóvel, mas o automóvel só fará multiplicar o teu cansaço; e gastarás metade de teus dias na Rebouças, e roubarão teu estepe, e te esquecerás do rodízio, e os pontos de tua carteira excederão o máximo permitido pelo Detran, que será 21, e andarás de táxi, e ouvirás elogios ao massacre do Carandiru, e diatribes contra médicos estrangeiros, e sentirás na carne a miséria de tua descendência.
    Em vão, buscarás refrigério em viagens, mas quando no aeroporto estiveres, e chegares ao portão 4, alto-falantes te mandarão para o 78C; e quando o 78C alcançares, serás mandado de volta ao portão 4, e faminto pagarás R$ 16 num pão de queijo e numa Coca, e a Coca será de máquina, e o pão de queijo estará frio.
    Então, visto que se aproximava a viração do sétimo dia, Deus se apressou, e disse: que o sal umedeça, que o bolo seque, que a meia fure, que a privada entupa, que o dinheiro escasseie, que o cupim abunde, que a unha encrave, que a internet caia, que o time perca, que a criança chore, que o churrasco do teu cunhado seja melhor que o teu, e que todos assim concordem, inclusive Eva, e que, largado num canto da varanda, com tua Kaiser quente na mão, te lembres que eu sou El Shaddai, e que estou acima de todas as coisas, inclusive de tua careca, que não temerá a finasterida, não aceitará o minoxidil nem reagirá às preces que, em vão, me enviarás.
    E, dizendo isso tudo, o Senhor Deus lançou Adão para fora do jardim do Éden, e lançou Eva para fora do jardim do Éden, varão e fêmea, os lançou.

      sexta-feira, 30 de agosto de 2013

      Problema é como financiar os gastos com o envelhecimento

      folha de são paulo
      ANÁLISE
      MARCELO SOARESDE SÃO PAULOChegará mais rápido do que se imaginava o dia em que o Brasil terá mais habitantes que dependem da Previdência do que os que contribuem com ela.
      Segundo a projeção do IBGE, em algum ponto de 2051 o Brasil terá mais idosos com mais de 60 anos do que jovens no auge de sua idade produtiva, entre os 20 e os 44 anos. Três a cada dez brasileiros estarão numa das faixas, outros três estarão na outra. Antes disso, a partir de 2042, a população do país passaria a cair.
      Na mesma projeção feita em 2000, há meros 13 anos, chegaríamos a 2050 com um terço de brasileiros na faixa dos 20 aos 44 anos e pouco mais de um quinto com mais de 60 anos. O ponto da virada ainda demoraria um pouco mais e o momento em que a população passaria a reduzir não estava à vista.
      Para que se tenha uma ideia, o "2050" de 2000 agora deve chegar 15 anos antes, quando os universitários atuais serão quarentões.
      O principal fator da mudança, segundo o IBGE, é a queda na média de filhos por mulher --a taxa de fecundidade. Desde 2000, além de aumentar as chances de viver por mais tempo, os brasileiros passaram a ter menos filhos e mais tarde.
      Isso contribui com o envelhecimento da população: menos jovens chegam para repor os que envelhecem. O problema é como financiar os gastos que o envelhecimento da população implica.
      Há dois anos, o economista Paulo Taffner calculava, no livro "Brasil 2022", que o Brasil teria de crescer 4% ao ano entre 2010 e 2030 para poder acumular a expansão dos gastos que a nova demografia traz.
      O ritmo do PIB segue errático: crescemos 7,5% em 2010, 2,7% em 2011 e 0,9% em 2012.
      Nos 13 anos entre as duas projeções do IBGE, pouco mudaram os problemas previdenciários.
      Enquanto a Espanha, em crise profunda, suou para alterar a idade mínima da aposentadoria (desde 2011, 67 anos), por aqui ainda se veem, sem espato, muitos aposentados sem idade para ser avós. Ontem pela manhã, um homem de 48 anos perguntava num programa de TV se podia se aposentar recebendo pelo teto.
      A demografia correu mais rápido que a lei. E projeções, como é de sua natureza, mudam com os fatos. Nada impede que a virada chegue antes de 2051.

      sexta-feira, 23 de agosto de 2013

      Pasquale Cipro Neto

      folha de são paulo

      'Cuca o explicou sobre reserva por...'

      Ouvir o texto

      Entre os estudiosos da língua há quem defenda a tese de que a norma culta de hoje está no que publicam os principais jornais do país e os meios de comunicação em geral. Essa corrente, no entanto, não usa em seus trabalhos o que se lê nos principais jornais do país, ou seja, o que ela diz ser a norma culta de hoje.
      Muitas questões dos mais importantes vestibulares se baseiam justamente em textos jornalísticos, ou melhor, nos problemas de certos textos jornalísticos. Sempre se pede que se faça alguma "correção" nos excertos destacados, seja no que diz respeito à mensagem em si, seja no que diz respeito a aspectos gramaticais.
      Posto isso, vamos a um belo exemplo do que não se deve imitar quando se quer trafegar pelo padrão culto da língua. De onde vou tirar o exemplo? De um título jornalístico, que ninguém é de ferro! Lá vai: "Júnior César diz que Cuca o explicou sobre reserva por mensagem". O desconhecimento de itens gramaticais básicos, a falta de leitura dos clássicos e a confusão com a regência de verbos que pertencem ao mesmo campo semântico estão entre os fatores que produzem a inadequação linguística presente no título citado.
      A que variedade de língua pertence a sintaxe desse título? À culta? À popular? A nenhuma delas. O xis do problema está no uso indevido do pronome oblíquo "o". Quando se diz que alguém "o explica", diz-se que alguém explica algo, que pode ser um fenômeno, um texto etc.: "O professor explicou o problema" = "O professor o explicou"; "O poeta explicou o verso" = "O poeta o explicou"; "O astrônomo explicou o fenômeno" = "O astrônomo o explicou".
      Como se sabe -ou como deveria saber-se-, no padrão formal da língua o pronome oblíquo "o" funciona como complemento verbal direto (aquele que não é regido por preposição), seja para substituir coisas ou animais, seja para substituir seres humanos. Vamos lá: "Não conheço você" = "Não o conheço"; "Encontrei o cão" = "Encontrei-o"; "Não admiro esse compositor" = "Não o admiro"; "Não li esse livro" = "Não o li".
      Na frase em questão, certamente não se quis dizer que Cuca "explicou Júnior César sobre a reserva", já que ninguém explica alguém sobre o que quer que seja. O que se quis dizer é que Cuca explicou A Júnior César sobre a reserva. Se alguém explicasse alguém sobre algo, seria possível dizer "Cuca o explicou sobre tal coisa".
      O caro leitor já sabe como ficaria o título citado se fosse redigido na norma culta? Bastaria trocar o pronome "o" pelo pronome "lhe": "Júnior César diz que Cuca lhe explicou sobre a reserva por mensagem". Sim, se Cuca explicou A Júnior César, ou seja, se Cuca explicou A alguém, Cuca lhe explicou. No padrão culto da língua, é o pronome "lhe" que funciona como complemento verbal indireto (aquele que é regido por preposição) da terceira pessoa. Vamos lá: "O livro pertence a você" = "O livro lhe pertence" ou "O livro pertence-lhe"; "Digam ao diretor que este livro pertence a ele" = "Digam-lhe/a ele que este livro lhe pertence" (ou "que este livro pertence a ele").
      O desconhecimento dessa particularidade da sintaxe culta tem produzido outras bobagens semelhantes, como "O médico não o permite ingerir gordura" (na língua culta, "O médico não lhe permite ingerir gordura") ou "O juiz não o concedeu o benefício" (no lugar de "O juiz não lhe concedeu o benefício").
      E é bom não confundir alhos com bugalhos! Frases como "O juiz não o convenceu a depor" ou "O pai não o autorizou a viajar" são do registro culto, já que, nesse caso, "autorizar" e "convencer" não regem preposição (alguém convence alguém; alguém autoriza alguém). É isso.
      pasquale cipro neto
      Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa" e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de "Cotidiano".

      Barbara Gancia

      folha de são paulo
      O Corinthians é o novo São Paulo
      Mano é mano e mauricinho é mauricinho. E o xis da questão não tem nada a ver com dar ou não dar selinho
      A foto que inaugura o meu Instagram foi tirada no dia 8 de abril de 2011 e postada, segundo informa o aplicativo, há 106 semanas. Ela mostra uma área em início de processo de terraplanagem e, à primeira vista, não oferece qualquer atrativo.
      Na imagem constam dois caminhões ao centro, uma escavadeira no canto esquerdo e alguns blocos de concreto esparramados pelo chão. Faltam sujeito e contraste. Mas foi o que deu para fazer de dentro de um táxi em movimento na volta de uma reportagem.
      Quem se der ao trabalho de olhar melhor, como fizeram os 23 beatos que deram "like" no meu post de segunda classe, mas hoje cheio de significado, irá verificar que lá longe, em segundo plano, é possível ler uma frase escrita no muro que cerca a obra retratada: "A Copa do Mundo de 2014 começa aqui".
      Eu tinha ido entrevistar os operários que começavam a construir o Itaquerão na época em que ninguém da zona sul ainda conseguia comprar a ideia de que o chute inicial da Copa de 2014 seria dado ali na ZL paulistana.
      Pelas filas de interessados buscando uma ocupação na obra que prometia consagrar um bairro tão distante do centro, habitado em sua maioria por migrantes nordestinos, já dava para perceber que haveria notícia de balde saindo dali. E, de fato, do meu clique em diante, muita saliva rolou.
      Houve o episódio do duto da Petrobras debaixo do terreno que ameaçou paralisar o esforço por completo; a gritaria por conta dos custos que iam ultrapassando as projeções e sobrando para os cofres públicos; a alegações por parte dos dirigentes que eles haviam conseguido descontos formidáveis de fornecedores tão fanáticos pela Fiel que acabou sendo possível comprar, digamos, mármore, em vez de porcelanato.
      Teve de tudo, enfim, até chegarmos ao estágio atual, que coincide com este Brasil "emergido", o país que subiu nos índices do IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) e que o pessedebista Luiz Carlos Mendonça de Barros, veja só, define como "um país que passa de uma posição vergonhosa no campo do desenvolvimento social para a companhia de sociedades mais justas e ricas".
      O Corinthians é essa renovação na carne. A Fiel dos renegados e humildes, que na época do meu clique não passava de uma Palestina do futebol, sem Libertadores, sem título mundial, sem passaporte e sem teto para chamar de seu, hoje tem tudo isso e mais um palácio de mármore e granito, praticamente um Caesars Palace da bola, um Coliseu estalando de novo. E com leão que dá selinho na boca, está sempre com a macaca (o nome dela é Cuta) e desafia a lógica. Quem mais, além de Emerson Sheik, mora em Tamboré e trabalha em Guarulhos?
      O colega Vitor Guedes, corintiano, correspondente da BandNews FM em Itaquera (!) e colunista do jornal "Agora", brinca: "Em casa, fico no banheiro lendo jornal uns dez minutos, mas no estádio do Corinthians, pelo que eu pude ver, ficaria uma hora tranquilamente".
      Pois é. Uma coisa é duvidar da Copa do Mundo em Itaquera. Mas quem ousaria imaginar que, de lá para cá, o Timão ganharia a Libertadores e o Mundial e que o Tite se desse ao esnobismo de não admitir a utilização, em coletiva de imprensa, do termo "vergonha" para definir a derrota contra o Luverdense? Emergente é uma coisa. Outra, é novo-rico. Deixar de ser maloqueiro para virar mauricinho disfarçado de mano fabricado no shopping Anália Franco... Vamos com calma!
      Não sei se isso acontece com você, meu ilustre leitor, mas certas vezes eu preciso olhar duas vezes para verificar se o sujeito na rua vestindo a camisa do Corinthians não é um cordeirinho são-paulino em pele de gavião.

      quarta-feira, 21 de agosto de 2013

      A maior das religiões - Francisco Daudt

      folha de são paulo

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      Ter uma religião é acreditar profundamente em verdades indiscutíveis e pautar seu comportamento e seu pensamento por essas verdades. As religiões formais enunciam essas verdades, esses dogmas, de maneira clara, têm livros onde as listam, como a Bíblia e o Corão.
      A maior de todas as religiões, no entanto, não fala abertamente de seus dogmas. Mesmo assim, seus devotos acreditam neles de maneira muito mais profunda e inquestionável do que o maior dos cristãos crê nos seus.
      Essa religião se chama "senso comum". É fascinante como a catequese do senso comum é realizada, como é eficiente e como passa despercebida. Seus catequistas são todos os que repetem sem cessar suas "verdades", ou seja, somos todos nós. É a religião mais boca a boca, a menos percebida e a mais poderosa de todas.
      Somos treinados nela desde a mais tenra infância. Nossa ingenuidade infantil aceita seus dogmas grosseiros e, quando eles caducam, são substituídos por outros mais aceitáveis, mas sempre precedidos de um "todo mundo sabe disso" tão forte, que não precisa ser dito.
      Ninguém precisa explicar o notável "mãe é mãe" (não importa o que ela faça, tem que ser amada), nem o que é "namorar" (qualquer adolescente está com as regras na ponta da língua para cobrar ou culpar o outro).
      Ela se baseia num programa primitivo da espécie, chamado "pensamento mágico": tudo que acontece tem uma razão e um culpado. O pai de uma amiga corria a casa gritando "Quem queimou esta lâmpada?", e isso fazia sentido para os filhos. Seus devotos creem que falar certas palavras dá azar (desculpe, má sorte) porque atrai. Como resultado, o sentimento de culpa é geral e cultivado. Sendo o sentimento de culpa o mais forte instrumento de dominação que existe, e como no senso comum tudo já está respondido, não há questionamentos -portanto, não há necessidade de pensar.
      É a religião perfeita para os 97% da população compostos de simplórios que já não pensam mesmo, cumprem ordens (como no nazismo), fazem o que o senso comum manda (eu me casei cedo, pela primeira vez, para cumprir a linha de montagem "formado e com emprego tem que entrar para o rol dos homens sérios").
      Ou ainda para aqueles que transgridem por baixo do pano, sentindo mais culpa e reforçando assim o senso comum através do seu companheiro, o senso comum clandestino ("burro amarrado também pasta", he he he...).
      Apesar de os filósofos acharem que são um pacote só, considero o bom-senso diferente do senso comum.
      Para mim, o bom-senso é o programa de lógica intuitiva com que nascemos. Nasci com o meu muito forte, de tal maneira que, quando os jesuítas me apresentaram pela primeira vez à lógica formal (a apologética de são Tomás de Aquino), fiquei tão maravilhado que me tornei católico de novo (fui católico do senso comum infantil, tão tosco que, aos 14 anos, no ano de são Tomás, eu já era agnóstico).
      Voltei a ser agnóstico (quem não tem meios de afirmar Deus) pelo bom senso, a mesma razão que me levou a abandonar a psicanálise estrita e investir no aprendizado da natureza humana.
      francisco daudt
      Francisco Daudt, psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?", entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas, na versão impressa do caderno "Cotidiano".

      terça-feira, 20 de agosto de 2013

      Rosely Sayão

      folha de são paulo
      Tutela on-line
      Para conquistar a autonomia é preciso passar pela heteronomia, ou seja, ser governado por um outro
      A internet já não é mais novidade. Os pais já têm muita informação sobre como os mais novos podem aproveitar bem o uso da rede e sobre como podem se colocar em risco dos mais variados tipos. Mesmo assim, as dúvidas continuam. Ou melhor, permanecem.
      Semanalmente sou consultada por pais que querem saber com que idade devem deixar o filho usar mídias sociais e/ou usar a internet sozinho, por quanto tempo eles podem ficar na internet e sobre como controlar o uso da rede para evitar que eles tenham acesso a conteúdos impróprios para a idade.
      Será que são dúvidas mesmo o que os pais têm? Desconfio que não. Afinal, basta usar a própria rede para encontrar centenas de sites que orientam os pais a esse respeito. Além disso, já usamos a internet o tempo suficiente para termos acumulado uma boa experiência nesse assunto.
      Mas, se não se trata de falta de informação, o que é que confunde os pais a ponto de deixá-los inseguros para fazer uma escolha, tomar uma decisão a esse respeito?
      Os pais não querem ser vistos pelos filhos e por seus pares como caretas. No século 21, agir como um careta soa ofensivo, humilhante, ultrapassado. E como a internet é vista como um instrumento extremamente atual, regrar seu uso para os filhos parece ganhar o sentido de antigo. Careta.
      Acontece que é prerrogativa do adulto que tem filho ser careta. Você pode ser antenado com todos os recursos tecnológicos, pode ter uma visão de mundo muito atual, pode entender o mundo como um jovem. Mesmo assim, será considerado careta por seu filho pelo simples fato de ser mãe ou pai. Conheço adolescentes que consideram seus pais caretas justamente por se comportarem como jovens.
      Por isso, melhor usar a caretice intrínseca a seu papel, caro leitor, para transmitir a seus filhos os valores que você preza. Além disso, sempre é bom relembrar que, para conquistar a autonomia, que é a capacidade de governar a própria vida, é preciso passar, necessariamente, pela heteronomia, ou seja, ser governado por um outro. Melhor que esse outro seja a mãe e/ou o pai, não é verdade?
      Os pais temem também que os filhos fiquem à margem de seu grupo e que sejam diferentes porque não frequentam os mesmos sites que os colegas, não jogam os mesmos jogos que eles, não vejam o vídeo do momento etc.
      Esse temor só faz sentido quando entendemos que para fazer parte de um grupo é preciso se comportar como os demais. Não! Para participar de um grupo é preciso saber integrar-se a ele e para se integrar a qualquer grupo é fundamental o autoconhecimento.
      Se você autoriza que seu filho faça qualquer coisa só porque a maioria dos colegas faz, você não o ajuda a se conhecer. Sem se conhecer, ele não aprende a se respeitar, e reconhecer as próprias diferenças é absolutamente necessário para manter a identidade e, portanto, a dignidade no relacionamento consigo mesmo e com o outro.
      Em resumo: não há regras que levem o seu filho a fazer um bom e positivo uso da internet. Então, restam o uso do bom-senso, a aplicação dos valores familiares e o respeito à fase da vida de seu filho.
      Crianças e adolescentes precisam da tutela dos pais na vida de um modo geral. O uso da internet é apenas uma pequena parte da vida que demanda essa mesma tutela.

        segunda-feira, 19 de agosto de 2013

        Marcos Augusto Gonçalves

        folha de são paulo
        Arco do Passado
        Haddad cancela obra viária "do futuro" prometida durante campanha; cadê meu nariz de palhaço?
        Começa o filme com o mocinho anunciando que sofremos a ameaça de um "grande colapso em futuro próximo". É que nos últimos anos, a Prefeitura de São Paulo tem sido incapaz de resolver os problemas do presente e de pensar soluções para o futuro. Por isso temos "sérios atrasos na saúde, nos transportes, na educação e na habitação".
        O mocinho vai falando e os efeitos especiais eletrônicos vão tomando a tela. "É preciso um prefeito que rompa esse imobilismo", diz ele. E como no cinema de ação de roliúde tudo explode no segundo plano, enquanto o herói do futuro caminha incólume em direção à plateia.
        Como um personagem de "Matrix", ele faz um gesto com o braço e eis que uma maquete virtual de São Paulo se ilumina em três dimensões diante de nossos olhos. Toda a encenação é pensada para que se chegue ao ápice: a apresentação do sensacional --tchan, tchan, tachan tchan!-- Arco do Futuro!
        Mais um gesto de mágico e aparece um mapa eletrônico mostrando que a linha do futuro começa na avenida Cupecê, passa pelas marginais Pinheiros e Tietê, toca Osasco e Guarulhos e vai pela avenida Jacu-Pêssego, até a divisa com Mauá... Para essa linha, explica o mocinho, "vamos atrair empresas, estimular construções e melhorar o sistema viário através de novas vias e aproveitamento das avenidas já existentes".
        E o mapinha animado (com direito a prédios que brotam sem parar pela região) vai anunciando as "grandes obras", a começar pelas duas vias de apoio, ao norte e ao sul da Marginal Tietê.
        Pena que oito meses depois de tomar posse o prefeito do futuro tenha anunciado que não vai dar para cumprir a promessa. As duas vias de apoio não vão sair do filminho --uma das peças da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Era só uma versão mais transada do Kassabinho ou do Fura-Fila do Pitta, o poste do aliado Paulo Maluf. Tanto faz. O que importa é ganhar a eleição.
        Cadê meu nariz de palhaço?
        O prefeito nem mesmo se deu ao trabalho de anunciar pessoalmente a volta ao passado. Foi a secretária municipal de Planejamento quem descascou o abacaxi, em meio à divulgação do Plano de Metas. "As obras são muito caras", explicou Leda Paulani.
        Ah é? E ninguém sabia? O candidato não tinha reunido a equipe de técnicos da Legião dos Super-Heróis para estudar o projeto? Eles não sabem fazer contas?
        E na esteira deste primeiro estelionato eleitoral, vêm as justificativas tortuosas. A culpa seria do recuo no aumento das tarifas, que sacrificou outras áreas. Bem, então porque recuou? A cidade está na pendura faz tempo. Haddad não sabia?
        Mais chinfrim ainda é a versão de que o cancelamento das obras viárias do ex-Arco do Futuro é para privilegiar o investimento no transporte público, em detrimento do automóvel. Quer dizer que essas vias de apoio canceladas não teriam transporte coletivo? No projeto original eram avenidas só para automóveis? Desculpe, mas isso parece conversa mole para M' Boi Mirim dormir.
        Sempre se soube, aliás, que o Arco era um lance de marketing eleitoral, uma vez que o Plano Diretor já indicava aquela área como prioridade para aproximar trabalho e habitação. Haddad ainda tem tempo pela frente. Tomara que o use melhor, porque até aqui está se mostrando um prefeito do arco da velha.

        domingo, 18 de agosto de 2013

        Feira de Frankfute - Antonio Prata

        folha de são paulo
        ANTONIO PRATA
        Feira de Frankfute
        Semana passada, recebi uma das notícias mais felizes na história de minhas fatigadas canelas
        Sei que em nome da vaidade ou, ainda, de sua irmã mais jeitosa, a humildade, eu não deveria dizer esse tipo de coisa, mas lá vai: muitas vezes me imagino participando da Flip. Não é o auditório lotado que vejo em meus devaneios narcisistas, tampouco a fila de autógrafos ou o flash dos fotógrafos: a imagem que me vem à mente, sempre, é a do futebol.
        Talvez o leitor não saiba, mas em toda Festa Literária de Paraty há uma pelada disputada pelos escritores --ou, ao menos, por aqueles cuja saúde permita bater uma bola sem bater as botas. Em minha quimera lítero-esportiva, saio driblando críticos, ultrapassando romancistas, desarmando contistas e, de calcanhar, de bicicleta ou trivela, estufo a rede. Finda a partida, recebo os cumprimentos de Roberto Schwarz, José Miguel Wisnik pede para trocar comigo a camisa, dou entrevista à revista "Serrote", dedicando a vitória à minha esposa, à Deus e --quem sabe?-- à professora Lucilene, do primário, pois sem ela...
        Não é o meu talento ludopédico, claro, que me insufla tais delírios, mas bem o contrário: é do oco em que deveria residir minha habilidade que sopra a brisa da ilusão. Nas aulas de educação física, na escola, eu era aquele infeliz escolhido por último. Ainda trago na memória as cicatrizes causadas pelo olhar aflito do garoto a escalar o time, tendo de optar entre mim e a menina de cabresto nos dentes --por quem, ao fim, ele se decidia.
        O sofrimento com o analfabetismo de minhas pernas durou até 2004, quando fui à primeira Flip e, assistindo à douta cancha, descobri que o desempenho futebolístico dos escritores era inversamente proporcional às suas virtudes literárias. Percebi, ali, que havia esperança: entre os grandes das letras, pelo menos, eu poderia ser um craque da bola. Desde então, a cada ano, sempre que se aproxima a escalação para uma nova festa literária, cozinho algumas insônias na chama da expectativa, mas, para minha frustração, nunca encontro meu nome na lista.
        Pois, semana passada, Charles Miller debateu-se em seu túmulo e eu recebi uma das notícias mais felizes na história de minhas fatigadas canelas. Fui selecionado pelo Instituto Goethe para integrar o time de escritores brasileiros que irá à Feira de Frankfurt, em outubro, enfrentar os alemães da Seleção Nacional de Autores, a "Autorennationalmannschaft" --ou Autonama, para os íntimos.
        Nesta ensolarada (espero) manhã de domingo, enquanto você toma descansadamente seu café, eu e mais 15 escritores brasileiros suamos a camisa, no primeiro treino coletivo do escrete da escrita. Sabemos o tamanho da responsabilidade: somos, simultaneamente, a pátria de chuteiras e de teclados, temos menos de dois meses e, tomando a mim mesmo como medida, imagino que o caminho será tortuoso. Há, contudo, dois dados animadores: do outro lado do campo também haverá escritores e nosso técnico é ninguém menos do que Pepe, o "canhão da Vila".
        A ver se, nestas oito semanas, sob a batuta de um dos maiores pontas-esquerdas da história, deixo de ser canhestro e sigo apenas canhoto, mostrando que, com fé em Deus e obedecendo a orientação do professor, é possível, apesar de ser "gauche" na vida, fazer bonito pela sinistra nos gramados do velho mundo.
        Que vença o pior!

        sábado, 17 de agosto de 2013

        'Bolsa anticrack' atende primeiros viciados - Sabine Righetti

        folha de são paulo
        11 dependentes químicos foram selecionados para tratamento em instituição filantrópica de Campinas, interior de SP
        Estado anunciou meta de 300 parcerias, mas só 34 entidades já toparam receber internos por R$ 1.350
        SABINE RIGHETTIENVIADA ESPECIAL A CAMPINAS (SP)A "bolsa anticrack" do Estado para atender viciados começou a sair do papel há duas semanas e meia.
        Os primeiros 11 dependentes químicos selecionados para receber um crédito mensal de R$ 1.350 para tratamento estão sendo atendidos em uma instituição filantrópica de Campinas (a 93 km de SP).
        Sorocaba e Ribeirão Preto devem ser as próximas.
        O Estado, no entanto, ainda patina para conseguir as parcerias com entidades interessadas no programa --batizado de "Recomeço".
        Da meta de 300 anunciada no primeiro semestre, só 34 já toparam receber residentes pelo valor estipulado e deram início ao credenciamento na Secretaria de Justiça.
        A bolsa que ficou conhecida como "anticrack" foi anunciada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) em maio, com a justificativa de tentar evitar que viciados que passaram por desintoxicação em hospitais e clínicas públicas tenham recaídas.
        Cada beneficiado terá R$ 1.350 mensais, repassados pelo governo às comunidades terapêuticas (entidades que acolhem dependentes químicos), por até seis meses.
        A iniciativa é motivo de divergência entre especialistas.
        As 11 pessoas que já estão em tratamento--nove dependentes de crack e dois de entorpecentes como cocaína-- estão acolhidas na instituição Padre Haroldo.
        Encaminhadas pela Prefeitura de Campinas ao Estado, elas dividem quartos e passam por atividades físicas e acompanhamento psicológico, com tarefas que vão das 5h30 às 22h. No local, há 120 dependentes, dos quais 11 estão incluídos na "bolsa anticrack" do Estado. Os demais pagam R$ 2.400 por mês.
        Na rotina da entidade, além do tratamento, os residentes participam da limpeza e do preparo da comida.
        Apesar de ter sido criada por um padre, a instituição não se define como religiosa.
        Por enquanto, não houve desistência. Mas, segundo Cesar Rosolen Jorge, gestor técnico da Padre Haroldo, cerca de 50% dos residentes costumam desistir do tratamento logo no primeiro mês.
        Os primeiros dependentes estão participando de uma fase para testar principalmente a tecnologia biométrica (de identificação das digitais) para controle do tratamento.
        É como um cartão de ponto: todos os dias, o residente coloca a digital em uma máquina que fica na instituição. Depois disso, o governo faz o pagamento da sua diária.
        Para receber a "bolsa" não é preciso ter baixa renda.
        "Mas quem tem dinheiro acaba pagando", diz Gleuda Apolinário, coordenadora do projeto na Secretaria de Desenvolvimento Social.
        Para dar início ao tratamento é preciso estar com a saúde estável. Essa parte é monitorada pela Secretaria Estadual de Saúde, que, via SUS, atesta tanto a dependência quanto o estado clínico.
        O Estado atribui a adesão de só 34 entidades até agora à quantidade de documentos para credenciamento. Mas mantém a meta de 300.
          Internação de dependentes é controversa
          DE SÃO PAULOO acolhimento de dependentes químicos em comunidades terapêuticas divide opiniões de especialistas em todo o mundo.
          De um lado, há quem seja contra o tratamento fora de casa. Isso porque o dependente químico não estaria "doente" a ponto de precisar de uma internação e precisaria manter laços familiares
          Outros, além de preferir a internação, defendem que ela seja compulsória (que aconteça mesmo contra a vontade do paciente).
          "O primeiro grande engano [do Recomeço] é que já se determina de antemão uma estratégia terapêutica fundamentada na internação", diz Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes).
          De acordo com o professor, que trabalha com dependentes há 24 anos, não existe fundamentação científica para privilegiar o tratamento via internação em detrimento de um tratamento ambulatorial.
          "A eficácia tende a ser maior quando o dependente é atendido ambulatorialmente por uma equipe multidisciplinar", afirma.
          No Recomeço, o acolhimento é voluntário. Se a triagem na prefeitura constatar necessidade de acolhimento, o residente deve escrever uma carta concordando com os termos.
          "E ele pode sair a qualquer momento", explica Cesar Rosolen Jorge, da instituição Padre Haroldo.
          No dia em que a reportagem visitou o espaço, uma senhora de 80 anos pedia a internação compulsória do filho de 40, viciado em crack. "Se eu chegar em casa agora, ele vai me matar", disse.
            ANÁLISE
            Com drogas nas ruas, sociedade pede respostas do poder público
            APARECIDA ROSÂNGELA SILVEIRAESPECIAL PARA A FOLHAHá na atualidade uma intensa mobilização da sociedade em relação ao tratamento de usuários de drogas.
            Esse debate tem sido provocado pelo mal-estar que o consumo abusivo de drogas promove na vida nas cidades, onde as pessoas passam a conviver rotineiramente com vidas degradadas, especialmente na "era do crack". Tal situação tem levado à exigência de respostas do Estado.
            A questão gira em torno da recuperação, da reabilitação ou do tratamento do dependente químico, pautada pelo ideal de superação do uso de drogas na sociedade e pela busca de uma vida saudável sem o uso de entorpecentes.
            É sabido que o uso de drogas ultrapassa culturas e acompanha o ser humano ao longo da sua história.
            Mas não podemos recuar diante da necessidade de tratamento para alguns casos.
            Experiências internacionais apontam duas tendências: um modelo de tratamento que busca remodelar o comportamento dos usuários pela via da abstinência, do isolamento e da tutela e outra abordagem que busca saídas possíveis construídas por cada sujeito em liberdade.
            Há um tensionamento entre as demandas da sociedade, os direitos de cidadania e os sujeitos.
            Políticas públicas precisam ser construídas para dar respostas à sociedade. No entanto, nenhum tratamento é possível sem levar em consideração cada sujeito em sua singularidade, sua história e seus laços sociais.

              Walter Ceneviva

              folha de são paulo
              Partidos e direito: a confusão
              Costumes mudam com a velocidade do trem bala, enquanto o direito continua como os velhos trens
              Quando se recomeça a pensar em partido político e nas novas iniciativas do momento atual, com os conflitos diários, individuais e coletivos, cresce a curiosidade do profissional do direito quanto aos desencontros políticos.
              Exemplo: um partido tem dificuldades em se registrar. Por quê? Para você registrar um partido político e qualquer outra forma de sociedade civil, o ritual do início é o mesmo.
              Uma distinção constitucional é importante. A Carta Magna diz que os partidos políticos adquirem a personalidade eleitoral depois de registrados no Tribunal Superior Eleitoral (Constituição, art. 17, parágrafo 2º), sob cuidados indicados no Código respectivo.
              Tanto o partido como, por exemplo, uma sociedade esportiva obedecem a chamada Lei dos Registros Públicos --de meu permanente interesse profissional.
              Essa norma regula, entre outros, os registros de associações civis, organizações religiosas, fundações e, neste caso, os partidos políticos.
              Cabe a pergunta do leitor: se a coisa é assim tão formal, com dois tipos de registros especiais, como se explicam tantos "partidinhos" que parecem destinados a composições espúrias, chegando ao que se tem chamado de aluguel de legendas. Embora muito criticada, nem por isso foi abandonada.
              O principal veículo da desmoralização do partido político vem de seu principal instrumento de operação: a liberdade de opção entre políticas, ideais marcados e permanentes, mais diversos, sob a garantia do sistema democrático. Esse se assentou na terra brasileira e vive hoje em inovada realidade histórica. Após a independência, mantida na República, a liberdade democrática foi restrita. Essa é a primeira vez em que se assinala, durante tantos anos seguidos, a persistência do poder democrático e republicano, eleito pelo povo. Menos de 30 anos de democracia, nos pouco mais 190 anos de vida independente.
              Agitação política atual, manifestações populares, reclamações coletivas, hoje predominantes --e necessárias quando afastados os maus elementos infiltrados, que facilitam o retornar à ditadura-- é um preço a ser pago.
              A história do direito, a confirmação do caminho da livre manifestação, mostram que os fatos sociopolíticos não são um conjunto de linhas retas, no mesmo rumo: a preservação democrática é essencial.
              O motor da velocidade na atual transformação nasceu da eletrônica. O direito e a sociedade não se adaptaram, senão lentamente. Costumes e comportamentos se transformaram, no século 20, com a velocidade do trem bala, enquanto o direito, apesar dos esforços de adaptação, continua como os velhos trens de subúrbio. O descompasso das velocidades gera a confusão.
              O leitor reclamará da lentidão que sacrifica as gerações destes decênios. Terá razão. Para quem estuda a história dos direitos, a lentidão é o único fenômeno permanente em episódios sucessivos. Parece com barreiras que resistem muito à água acumulada. No excesso, quando se rompem, é de uma vez. A história também é assim.
              Estas notas nem parecem jornalísticas, das que vivem no dia a dia da vida, mas são as que se pode depreender do curso do tempo. A confusão do direito na sociedade se resolve na história. É dever de todos contribuir para ativar a democracia. Com dignidade.

              LIVROS JURÍDICOS
              O CONTEÚDO ESSENCIAL DOS DIREITOS SOCIAIS
              AUTOR Marcos Sampaio
              EDITORA Saraiva (0/xx/11/3613-3344)
              QUANTO R$ 72 (280 págs.)
              Dissertação pela UFBA analisa limites à restrição dos direitos fundamentais prestacionais. São três capítulos de composição encadeada, até atingir o conteúdo essencial dos direitos sociais, com incursões pelo direito estrangeiro. Culmina na composição de sua essencialidade, no constitucionalismo brasileiro.
              EVICÇÃO E PROCESSO
              AUTORA Clarisse Frechiani Lara Leite
              EDITORA Saraiva (0/xx/11/3613-3344),
              QUANTO R$ 70 (314 págs.)
              Tese de doutorado (Fadusp) tem justa composição das duas partes do título, cujo plano de trabalho tem elogio vigoroso de Cândido Rangel Dinamarco. A preocupação científica da autora se uniu à importância prática do tema. Especificou, no percurso, o direito material e processual, antes de consolidar suas sólidas conclusões.
              DIREITO SUCESSÓRIO DOS CONVIVENTES NA UNIÃO ESTÁVEL
              AUTOR Tarlei Lemos Pereira
              EDITORA Letras Jurídicas (0/xx/11/3107-6501)
              QUANTO R$109 (526 págs.)
              Dissertação de mestrado (FADISP) vai do direito constitucional à legislação estrangeira. Discute a função social da família. Sustenta a interpretação jurídica, oferece farto repositório da avaliação jurisprudencial e do percurso da lei civil. Tem apêndice legislativo das páginas 477 a 524.
              TEORIA DO ESTADO
              AUTORA Nina Ranieri
              EDITORA Manole (0/xx/11/4196-6000)
              QUANTO R$ 49 (416 págs.)
              O estado de direito surge, desde a formação, com a síntese integral do tema. Trata-se de obra na qual se mesclaram preocupações pedagógicas da autora. O perfil da análise científica dos princípios essenciais do Estado e de sua visão atual, tem severas disposições teóricas e filosóficas. Ao fim há notas sobre os grandes mestres do tema.
              RESUMOS GRÁFICOS DE LEIS PENAIS ESPECIAIS
              AUTORES Carlos Vinha e Felipe Vieites Novaes
              EDITORA Impetus (0/xx/21/2621-7007)
              QUANTO R$ 69 (295 págs.)
              A obra (série coordenada por Rogério Grecco) tem resumos gráficos de onze leis, preocupada com garantir a facilidade da compreensão.
              PRÁTICA DE RECURSOS NO PROCESSO CIVIL
              AUTOR Gediel Claudino de Araujo Júnior
              EDITORA Atlas (0/xx/11/3357-9144)
              QUANTO R$ 73 (504 págs.)
              São seis partes: o processo e relação com o cliente, peças processuais, súmulas do STJ e do STF, recursos e anotação ao Código de Processo.

                sexta-feira, 16 de agosto de 2013

                Barbara Gancia

                folha de são paulo
                Passividade, nunca mais!
                Só vale aplaudir aquela que é consentida por adultos, no bom sentido, é claro, entre quatro paredes
                A esta altura, não deve existir mais nenhum paulistano disposto a engolir a versão de que as cinco pessoas da mesma família mortas na casa da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, tenham sido assassinadas pelo filho imberbe do casal de PMs.
                Descrédito é mercadoria abundante, inclusive entre as tropas --e não é por menos. Existe decisão mais infeliz do que aquela que diz que policial não pode mais socorrer acidentados ou vítimas de violência? Ora, se um oficial armado há de ser encarado como ameaça pela população, com que ânimo ele vai sair de casa para trabalhar?
                Moral das tropas em baixa e briga entre as duas forças não é exatamente a melhor maneira de se enfrentar uma guerra velada por pontos de tráfico de drogas. E qualquer morador da periferia sabe que viatura policial não ousa entrar em favela. Como cereja do bolo, agora temos mais essa da cara de pau da adulteração da cena do crime na Vila Brasilândia, com o delegado do caso posto na geladeira, e mais PMs passando pela casa em que as mortes ocorreram do que marines desembarcando na costa da Normandia no Dia D. E ninguém nem aí para dar satisfação.
                Sei. Quais eram mesmo as maiores preocupações do paulistano levantadas naquela pesquisa mais recente? Pois é, na ordem: violência, transporte e saúde, né não? E olha que só quem tem câncer e é obrigado a esperar meses para ser atendido é que pode dizer como é que a violência e o transporte foram capazes de suplantar a saúde em matéria de maus serviços prestados à população.
                As mudanças precisam ser estruturais e ligeiras, não dá para deixar o caldo esfriar. Seria necessário queimar uma mata atlântica inteira para reacender a chama das manifestações deflagradas em junho.
                No dia em que os manifestantes foram à porta do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para protestar contra a internação naquela ilustre instituição de quem simboliza, melhor do que ninguém, a perpetuação de vícios que precisam ser erradicados da prática política tapuia, eu postei no Facebook uma frase que incomodou muita gente.
                Disse: "A estratégia de nunca mais dar paz aos corruptos passa adiante do meu e do seu interesse pessoais. Manifestantes na frente do Sírio-Libanês me representam". Teve amigo meu de cabelo em pé: "Pô, Barbara, até na guerra zona de hospital é respeitada!"
                Nesta semana, o colega Marcelo Coelho, que, por sinal, anda em fase inspiradíssima, escrevendo melhor do que nunca, trilhou a mesma estrada e criticou os dois sujeitos que estavam no avião com o Feliciano e resolveram importunar o deputado com provocações bobocas que depois postaram em vídeo no YouTube.
                É claro que o limite do assédio continua sendo a lei. Violência, quebra-quebra, ameaça à integridade física, nada disso vale.
                Mas revolta não é vandalismo. É preciso que essa distinção fique bem clara para que a gente saia da passividade e parta para o contra-ataque definitivo e sistemático. Fazer oposição à insensibilidade dos que praticam o verdadeiro vandalismo, aquele que castiga a população que deveria estar sendo beneficiada, doravante é bafo no cangote 24 horas.
                Na porta do restaurante, na festa, no heliporto e no shopping. É preciso conscientizar de que é a presença do corrupto, e não a do manifestante, a que causa o constrangimento no hospital. Vamos mais é aplaudir e incentivar esta nova cultura política que está nascendo na esteira das manifestações.

                quinta-feira, 15 de agosto de 2013

                Plano de educação de Haddad aumenta rigor sobre alunos - Ricardo Gallo

                folha de são paulo
                Prefeito pretende elevar número de séries em que estudante pode ser reprovado
                Projeto para 2014 prevê também lição de casa obrigatória e boletim bimestral divulgado para pais na internet
                DE SÃO PAULOO prefeito Fernando Haddad (PT) anunciará hoje um plano de reestruturação na educação municipal que prevê aumentar, a partir do ano que vem, as exigências para os alunos do ensino fundamental em São Paulo.
                Entre as medidas está a possibilidade de reprovação em cinco das nove séries, como antecipou a Folha em julho. Hoje, o estudante só pode ser retido em duas séries.
                A proposta, que ficará em consulta pública de hoje a 15 de setembro, fixa ainda obrigatoriedade de provas bimestrais e de lição de casa aos alunos, algo para o qual não há regra atualmente.
                As notas irão de zero a dez, em vez dos atuais conceitos (plenamente satisfatório, satisfatório e não satisfatório).
                Para o secretário de Educação, Cesar Callegari, "não se trata de mais rigidez aos alunos, mas de mais organização". Segundo ele, as escolas saberão com mais rapidez as dificuldades dos alunos e poderão atacar o problema.
                Sem ter tido acesso à proposta, o presidente do Sinesp (sindicato dos diretores da rede municipal), João Alberto Rodrigues de Souza, faz ressalvas às notas de zero a dez em lugar de conceitos e à reprovação em cinco séries.
                "É preciso ter cuidado com a forma como os professores receberão esses instrumentos nas mãos. Há histórico de professores que usam nota como forma de repressão, como se fosse uma arma para controlar o aluno", diz.
                BOLETIM
                O plano estabelece boletim bimestral para acompanhamento do desempenho de alunos, que os pais poderão consultar pela internet.
                No aspecto disciplinar, também há alterações. Hoje cabe a cada escola definir quais sanções serão aplicadas em caso de indisciplina.
                Pela proposta, haverá uma espécie de código de conduta, com regras para advertência ou suspensão.
                PREMISSA
                A proposta de alteração nas reprovações se baseou em uma premissa: pelo modelo atual, em que o aluno do primeiro ciclo só pode ser retido ao final do quinto ano, ele pode ficar muito tempo na escola sem aprender.
                Dados da Prova Brasil de 2011 mostram que 38% dos alunos do 5º ano na cidade de São Paulo não estavam plenamente alfabetizados.
                A meta é assegurar que todas as crianças saiam do terceiro ciclo alfabetizadas.
                Souza, do sindicato dos diretores, acha boa a preocupação com alunos que não estão aprendendo e diz que as escolas ganharão autonomia.
                A reprovação, segundo Haddad, só ocorrerá em último caso, de modo "residual". Isso porque, disse ele, haverá mais chances de recuperação durante o ano letivo.
                Uma delas é a recuperação nas férias. Outra é a dependência --em que o aluno "carrega" no ano seguinte disciplinas nas quais não foi aprovado na série anterior.
                Comum no ensino superior, a dependência valerá para os alunos do sétimo e do oitavo anos. Não está definido ainda qual o máximo de disciplinas a ser permitido.
                OFERTA
                O plano municipal também contempla ampliar a rede.
                Está prevista, por exemplo, a construção de 367 unidades educacionais, das quais 20 CEUs (centros de educação unificados).
                Para os CEUs, a gestão Haddad erguerá unidades ao lado de clubes-escola, para aproveitar a estrutura. O secretário da Educação disse que o modelo pedagógico no novo e no antigo CEU será idêntico.
                  ANÁLISE - EDUCAÇÃO
                  Proposta do prefeito agrada docente que quer mais poderes
                  Educadores apontam que alunos perderam a disciplina porque sabem que a reprovação é quase impossível
                  OS AGRADOS CONTEMPLARÃO CATEGORIA QUE FEZ UMA GREVE DE 23 DIAS EM MAIO PASSADO, CINCO MESES APÓS FERNANDO HADDAD ASSUMIR A PREFEITURA DE SÃO PAULO
                  FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULO
                  Parte das propostas apresentadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) vai ao encontro do que reivindicam os professores das escolas públicas: mais poderes dentro das salas de aula.
                  Um forte discurso entre educadores é que os alunos perderam a disciplina porque sabem que a reprovação é quase impossível após a adoção da progressão continuada, em 1992, na gestão Luiza Erundina (então no PT).
                  A proposta de Haddad atende aos professores ao aumentar a possibilidade de retenção das atuais duas para cinco séries do fundamental.
                  O prefeito diz que seu plano visa avaliar melhor e dar mais apoio pedagógico ao aluno, o que evitará que ele não saiba o conteúdo (e, consequentemente, reprove).
                  De qualquer forma, a ferramenta da retenção estará à disposição dos professores, para desespero de educadores que veem a reprovação como uma das principais causas da evasão escolar.
                  Ainda no capítulo disciplinar, o plano abre possibilidade para que se institucionalize na rede a advertência e a suspensão de alunos, outra reivindicação de docentes. A adoção de sanções hoje depende de cada escola.
                  Os agrados contemplarão categoria que fez uma greve de 23 dias em maio passado --cinco meses após Haddad assumir a Prefeitura de São Paulo--, reivindicando aumento salarial.
                  Reajuste esse que não deverá fugir muito do que já foi acertado durante o governo Gilberto Kassab (PSD), considerando a situação financeira que Haddad diz estar enfrentando no município.
                  Nesse panorama de aperto orçamentário, com medidas de custo quase zero, Haddad agrada boa parcela de seus professores --que tanto podem se engajar no plano de melhorar o ensino como dar ao petista considerável base para futuras eleições.
                  Resta saber qual será o impacto das medidas sobre os estudantes, principais interessados na melhoria do sistema educacional

                  Pasquale Cipro Neto

                  folha de são paulo
                  'Mulher (...) reavê direito de dirigir'
                  'Haver' já teve o sentido de 'ter', como no provérbio 'Não hajas compaixão de quem tem cama e dorme no chão'
                  Estava na capa de um site de notícias na última segunda-feira: "Mulher que matou jovem reavê direito de dirigir". Certamente a maior parte dos leitores captou a essência da mensagem, mas há um "probleminha" na redação do título jornalístico. O caro leitor já sabe qual é?
                  Vamos lá. A forma "reavê" é flexão de qual dos nossos verbos? A julgar pelo que dizem as gramáticas e os dicionários, de nenhum; a julgar pelo "sexto sentido", esse "reavê" é do verbo "reaver", mais precisamente da terceira pessoa do singular do presente do indicativo.
                  A formação de "reaver" é óbvia ("re-" + "haver"). Esse "re-" é um conhecido prefixo latino, que, no caso, indica a ideia de "repetição". Assim como "refazer" significa "fazer de novo" e "recalcular" significa "calcular de novo", "reaver" nada mais é do que "haver de novo". O que foi mesmo que acabei de escrever a respeito do significado de "reaver"? Repito: "reaver" nada mais é do que "haver de novo". Acho que cabe um autoquestionamento: será mesmo pertinente a expressão "nada mais é do que..."?
                  Explico: quando se mencionam verbos como "refazer", "recalcular", "reconquistar", "rediscutir" etc., o falante imediatamente identifica neles a ideia de repetição, mas, quando se menciona o verbo "reaver", o falante identifica o significado ("recuperar a posse") e a ideia de repetição, mas não estabelece de imediato a relação desse verbo com "haver", o que talvez explique o emprego de "reavê", tentativa de "regularização" do verbo "reaver".
                  O verbo "haver" já teve entre nós o sentido de "possuir", vivo até hoje no francês, no italiano e no inglês. Sim, eu sei que o inglês não é uma língua neolatina, mas muitos de seus vocábulos (mais da metade) são latinos.
                  Como se traduz a célebre frase "I have a dream", de Martin Luther King? Lá vai: "Eu tenho um sonho". Esse "have" de "I have" é do verbo inglês "to have", que, além de ser usado como auxiliar, em tempos compostos, tem, quando verbo pleno, o significado de "possuir", "ter".
                  Se tomarmos o italiano, notaremos algo semelhante. No "Canto I" do "Inferno", de Dante Alighieri, encontra-se esta passagem, escrita no italiano da época: "...e dopo l pasto ha più fame che pria". Tradução (livre): "...e depois da refeição tem mais fome do que antes". O nosso "tem" é a tradução do "ha" que Dante empregou. Esse "ha" (sem acento em italiano) é do verbo "avere", que, como ocorre com o inglês "to have", é usado na formação de tempos compostos e, quando verbo pleno, significa "ter", "possuir".
                  O sujeito desse "tem" ("ha", em italiano) do "Canto I" do "Inferno" é uma loba, um dos três animais selvagens que Dante encontra durante a subida de uma colina. Na Idade Média, a loba simbolizava a avidez, a cupidez e a avareza.
                  Como já afirmei, "haver" já teve o sentido de "ter", "possuir", conforme se vê neste provérbio, citado por Celso Luft: "Não hajas compaixão de quem tem cama e dorme no chão" ("não hajas" = "não tenhas").
                  E o verbo "reaver"? Bem, já sabemos o significado e a origem; falta falar da conjugação. No padrão formal da língua, "reaver" é defectivo, ou seja, não tem conjugação completa. O verbo "reaver" só é conjugado nas formas em que o verbo "haver" apresenta a letra "v". Como o presente do indicativo de "haver" é "eu hei, tu hás, ele há, nós havemos, vós haveis, eles hão", o de "reaver" se resume às flexões "nós reavemos" e "vós reaveis". As outras quatro flexões (relativas a eu, tu, ele e eles) não existem.
                  Moral da história: no padrão culto, motorista nenhum "reavê" o direito de dirigir. Que fazer? Emprega-se uma forma de outro verbo ("recupera" etc.). É isso.

                  quarta-feira, 14 de agosto de 2013

                  Jairo Marques

                  folha de são paulo
                  "Sei que isso não pode, mas..."
                  Querer tirar vantagem de tudo consciente de que é 'ilegal, imoral ou engorda' é de chorar pelado no asfalto
                  Meu povo, as colunas voltaram! Agora, às quartas, que é dia de feira e, por isso, vou continuar distribuindo pepinos, abacaxis e dando tomatadas em defesa de um pouco mais de cidadania e da discussão de valores do danado do "serumano" em toda sua diversidade.
                  E é nesse espírito que digo: caso você seja usuário contumaz da frase que dá título a essa "falação", bote fé, está colocando uma cabeça de leitoa e causando transtornos na vida de muita gente.
                  O "eu sei que isso não pode, mas" é a involução do jeitinho brasileiro, turbinado com mais acesso à educação, à informação, ao conhecimento e ao poder de compra.
                  Querer tirar vantagem de tudo, trapacear na surdina, agir sempre com os seus interesses à frente do bem comum é péssimo socialmente, mas fazer isso consciente de que é "ilegal, imoral ou engorda" é de chorar pelado no asfalto quente.
                  Uma grande amiga, uma dessas pessoas cegas que saem puxando cachorro pelas ruas, é alvo constante desses sabidos pouco camaradas.
                  O brasileiro chega perto dela e de seu "maraviwonderful" parceiro cão-guia --normalmente, ela nem é cumprimentada--, começa a brincar com o bicho, desconcentra-o totalmente do rigoroso e importante trabalho de orientação e, depois, dispara: "Sei que não pode agradar o cachorro, mas não resisti, ele é tão fofo".
                  Quando alguém tem o requinte de anunciar que tem noção plena de que está fazendo lambança com direitos ou regras básicas de convívio, está querendo indicar que não é um "burraldo" do mal.
                  Falar que "sabe que é errado" é uma tentativa de, mesmo em uma encruzilhada, desrespeitar a macumba e chutá-la para longe, querendo sair ileso e íntegro de uma situação em que é o responsável pelo desconforto.
                  Eu também sou alvo contínuo do jeitinho versão 2.0. Como sou cadeirante e preciso --é sério, não é luxo, eu preciso-- usar vagas reservadas em estacionamentos, pois, caso eu pare nos lugares convencionais, não vou conseguir sair de minha Kombi, estou sempre dialogando em tom de poucos amigos com quem se faz de transparente.
                  Não raro, nessas situações, o "eu sei que não posso" sofre uma metamorfose à base de mais sacanagem ainda para se transformar em "eu achei que poderia".
                  Funciona assim: em vez de fazer o carão da humildade, em vez de assumir uma falha, que pode acontecer com qualquer um, ou mesmo pedir desculpas, o sujeito resolve criar uma lógica de conveniência.
                  "Como estou com a unha encravada, pensei que tinha direito", "Ué, não vi ninguém na vaga e pensei que, quando estivesse vazia, qualquer um pudesse ocupar", "Sempre achei que essa tinta azul no chão e esse símbolo de um cadeirante eram propaganda de hospital".
                  Quando, de forma consciente, se anda pelo acostamento com pose de poderoso por deixar os "manés" no congestionamento", quando se pega "sem querer" a fila destinada aos velhos para ficar menos tempo no banco, mais perto o coletivo fica daquilo por que tanto esperneia: da corrupção, da desigualdade, da falta de educação e da intolerância.
                  Ótimo ter uma sociedade que sabe mais, que pode mais, que conhece mais. Mas bacana mesmo é que ela comece a reconhecer que nenhuma regalia pessoal irá trazer mais benefício do que o bem de todos.

                  segunda-feira, 12 de agosto de 2013

                  Mulher que matou Vitor Gurman recupera direito de dirigir

                  folha de são paulo
                  Justiça autoriza também Gabriela Guerrero a ir a bares e danceterias; crime foi em 2011
                  DE SÃO PAULO
                  A nutricionista Gabriella Guerrero Pereira recuperou na Justiça o direito de voltar a dirigir e a frequentar bares e casas noturnas.
                  Em 2011, ela atropelou e matou o administrador Vitor Gurman, 24, na Vila Madalena, na zona oeste.
                  Em maio, a Justiça havia determinado que Gabriella não poderia dirigir nem ir a bares e casas noturnas e que teria que comparecer ao fórum para informar sobre as suas atividades.
                  A decisão havia sido tomada após o programa "CQC", da TV Bandeirantes, exibir vídeo em que a nutricionista aparecia dirigindo com a habilitação vencida.
                  As três medidas cautelares impostas a Gabriella já haviam sido suspensas em junho em caráter liminar e foram definitivamente cassadas na última terça-feira.
                  Segundo o advogado de Gabriella, José Luis de Oliveira Lima, a nutricionista ganhou na Justiça o direito de voltar a dirigir, mas ainda precisa recuperar a sua carteira de habilitação na esfera administrativa.

                  Marcos Augusto Gonçalves

                  folha de são paulo
                  Chega de Twitter
                  Como André Barcinski, abandonei o miniblog, onde pontificam chato-boys da militância política
                  No fim de semana, numa mesa do Sagarana, o empório mineiro da Vila Romana, soube que meu colega André Barcinski havia deixado o Twitter. Desde maio. Eu era um de seus seguidores. É um cara inteligente, esperto e bem informado. Normal, portanto, que eu tenha demorado alguns meses a mais do que ele para tomar a mesma decisão. Adeus, Twitter!
                  Eu também descobri coisas legais e pessoas divertidas naquele mundo virtual de 140 caracteres para cá e 140 para lá. Comecei acreditando que seria uma boa ferramenta para me ajudar profissionalmente. Era como se eu estivesse entrando num bar cheio de gente da área de comunicação, políticos, militantes, escritores, e pudesse me relacionar com alguns deles. Além do mais, estava preparando um livro sobre a Semana de 22 e imaginei que seria útil estar presente ali. E foi mesmo.
                  Só que... A quantidade de gente idiota com quem tive que passar a conviver excedeu minhas expectativas e os limites de minha paciência --que não é tão pequena assim. Paulo Francis costumava dizer que nasce um otário a cada minuto. Eu diria que entra um otário no Twitter a cada minuto. Fui um deles.
                  Não tenho dúvida de que a estupidez, o ressentimento e a mesquinhez, para usar três palavras citadas pelo Barcinski em sua despedida, estão por toda parte, na rua, na chuva, na fazenda. Acontece que no Twitter pessoas com essas características entram numas de interagir com você. Provocam, agridem, dão indiretas e, quase sempre, fazem comentários de uma burrice astronômica. E você, quer dizer, eu, que sou ariano e gosto de um pugilatinho, acabo mordendo o anzol.
                  Barcinski conta que um dia se viu no teclado trocando 20 ou 30 frases sobre um assunto estúpido com uma pessoa mais estúpida do que ele. Quando percebeu, tinha desperdiçado mais de uma hora de sua vida. "Diabo, eu poderia estar lendo, jogando botão ou fazendo cooper, mas estava ali, discutindo a rebimboca da parafuseta com uma pessoa que eu nem sei se é de verdade."
                  É uma experiência comum, pela qual muitos já passaram. Eu também. E cansei. O Twitter é o paraíso dos egonautas. O formato 140 caracteres incentiva intervenções agressivas. Já que o gênio que está ali para convencer a humanidade não tem muito espaço para argumento, o lance é tentar uma frase de efeito, de preferência que reduza o oponente a cocô do cavalo do bandido.
                  Dá uma enorme preguiça ver gente esgrimindo, ingênua ou desonestamente, argumentos que já considerava fajutos há 30 anos. Refiro-me sobretudo aos maiores chato-boys da rede social, os soldadinhos de chumbo da militância política. Gente que torce para partido político como adolescente torce para time de futebol. "Cala a boca, gambá!". "Chupa, porco!". É esse o nível da coisa. Tipo religioso. O baixo clero do alinhamento automático, da cabecinha maniqueísta, que fica ali repetindo um catecismo doutrinário boboca, como coroinha da ideologia. Ainda não apaguei minha conta, mas não vou mais lá. E estou sentindo um grande alívio. Não faz a menor falta. Ao contrário, é uma ausência que preenche uma lacuna.
                  Pretendo, contudo, permanecer no Facebook, onde tenho amigos e não seguidores, com a vantagem de ser um espaço mais despolitizado, sentimental, brega e, portanto, humano.