domingo, 14 de julho de 2013

Clovis Rossi

folha de são paulo
Revolucionários ou burgueses?
Olhares estrangeiros sobre protestos no Brasil e no mundo chegam a conclusões contrapostas
Dois acadêmicos estrangeiros, de posições contrapostas, chegam a conclusões igualmente contrapostas --mas, curiosamente, ambas verossímeis-- a propósito dos protestos no Brasil (e no mundo). O que não significa que sejam verdadeiras, já que paira um imenso ponto de interrogação sobre as manifestações.
Refiro-me a artigos do esloveno Slavoj Zizek, popstar da filosofia, para a "London Review of Books", e do cientista político Francis Fukuyama, famoso por ter decretado "o fim da história" com o triunfo definitivo do capitalismo e da democracia liberal, este para o "Wall Street Journal".
Para Zizek, os protestos são anticapitalistas. "São todos reações a facetas diferentes da globalização capitalista. A tendência geral do capitalismo global de hoje é no sentido de um expansão ainda maior do império do mercado, combinada com o progressivo fechamento do espaço público, a redução dos serviços (saúde, educação, cultura) e uma gestão sempre mais autoritária do poder político", escreve.
Não é difícil, de fato, ler os protestos no Brasil com essa lente. Pediram melhores serviços públicos, entre eles os de saúde e educação, e uma reforma política que desse aos mortais comuns um papel de maior protagonismo ante um poder político fechado em si mesmo.
Resta saber se são protestos contra o capitalismo como sistema, como crê o esloveno, ou contra abusos que podem ser remediados sem jogar o sistema em si no lixo.
De todo modo, é igualmente aceitável a conclusão de Zizek de que as manifestações são uma "tomada de consciência de que a forma atual da democracia representativa não é suficiente para combater os excessos do capitalismo e, portanto, a democracia deve ser reinventada".
Não deixaria de ser uma revolução.
Fukuyama não vê revolução, mas "fermentos":
"O elemento em comum nas recentes desordens na Turquia e no Brasil, como também na Primavera Árabe de 2011 e nos contínuos protestos na China, é a ascensão de uma nova classe média global. Onde quer que se tenha afirmado, essa classe média provocou fermentos políticos, mas quase nunca tem sido capaz de determinar por si só mudanças duradouras".
O cientista político duvida que seja diferente agora.
Ao contrário de Zizek, Fukuyama não vê anticapitalismo, mas o seu oposto no perfil dos manifestantes:
"Grande número de estudos conduzidos em vários países, entre os quais algumas pesquisas do Centro Pew e dados da Pesquisa Mundial sobre Valores da Universidade de Michigan, demonstram que pessoas com nível de instrução mais alto atribuem maior valor à democracia, à liberdade individual e à tolerância com estilos de vida diferentes."
Ou, posto de outra forma, os manifestantes seriam "burgueses que reclamam não só segurança para a própria família, mas também liberdade de escolha e mais oportunidades".
No fundo, é aquela velha história de que tudo depende da cor das lentes com as quais se olha algum fenômeno.

    Procurador critica demora para julgar mensalão mineiro

    jUDICIÁRIO
    Procurador critica demora para julgar mensalão mineiro
    DE BELO HORIZONTE - O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse anteontem que o julgamento do mensalão mineiro (o valerioduto tucano) está demorando para entrar na pauta do Supremo Tribunal Federal. Gurgel disse crer que esse julgamento poderá ocorrer no início de 2014, após o fim do julgamento do mensalão.
    "Já se passou muito tempo e é fundamental que esse julgamento ocorra com a maior brevidade possível", disse Gurgel.
    O mensalão mineiro é considerado o embrião do esquema usado pelo PT. Ele ocorreu em 1998, na tentativa de reeleição de Eduardo Azeredo (PSDB) ao governo de Minas Gerais.

    Quem dá mais? - Painel Vera Magalhães

    folha de são paulo
    O recuo de 1,4% na economia em maio elevou a pressão sobre a Fazenda e o Tesouro pelo sucesso das concessões de 7.000 km de rodovias, que serão lançadas em agosto. Para o Planalto, o eventual fracasso do programa por desinteresse das empresas abalaria o crescimento do resto do ano. Na semana passada, duas das maiores investidoras em potencial fizeram chegar a Dilma Rousseff que só entrarão no leilão mediante taxa de retorno mínima de 8,5%. Hoje, ela é de menos de 8%.
    Timing Setores do Planalto esperavam queda de 1% na atividade econômica em maio em relação a abril. Auxiliares da presidente calculam que o índice afeta o governo no momento em que a inflação havia dado uma leve trégua, nos últimos dois meses.
    Refresco De um deputado do PT, contando os dias para que o Congresso encerre seu esforço concentrado e dê uma trégua ao inferno astral do governo: "A melhor notícia que Dilma pode receber do Congresso agora se chama recesso parlamentar".
    Caldeirão O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), marcou para 7 de agosto a votação do Orçamento impositivo para a execução de emendas individuais de deputados e senadores, projeto que é rechaçado pelo Palácio do Planalto.
    Palpite infeliz Dentro do PT, também caiu mal a declaração de Aloizio Mercadante (Educação) de que a população "vai cobrar caro" do Congresso se não houver reforma política. Dirigentes dizem que o ministro provocou "tensionamento desnecessário'' com a base aliada.
    Vitamina Entusiastas da candidatura de Alexandre Padilha (Saúde) ao governo de São Paulo defendem que o governo faça esforço nacional de comunicação, com campanha publicitária, para explicar à população o programa Mais Médicos, cuja recepção negativa surpreendeu PT e governo.
    Profissional Na fase final de coleta e conferência de assinaturas em apoio à criação da Rede, o comando do novo partido de Marina Silva contratou uma empresa para checar dados das listas, como número do título de eleitor e nome dos signatários.
    Volume Esses dados são fatores que podem levar os cartórios eleitorais a anular nomes das listas. Por isso, os sonháticos querem ter uma margem maior de assinaturas para compensar as que forem desconsideradas.
    Às claras Roberto Freire (PPS) já fala abertamente sobre a possível filiação de José Serra a seu partido para disputar a eleição presidencial. Na semana passada, disse em Brasília ao deputado Guilherme Campos (PSD) que o ex-governador paulista "deve" se candidatar.
    Velado Serra ainda não falou sobre o assunto com Geraldo Alckmin (PSDB), mas o governador confidenciou a um aliado que tem poucas dúvidas de que o plano do colega se concretize.
    Fase 2 Depois de anunciar cortes de despesas e enxugamento da máquina administrativa, Alckmin tem feito cobranças duras a seus secretários para que apresentem resultados dos investimentos do governo.
    Chamada oral O tucano convocou para esta semana três reuniões com o secretariado para monitorar o andamento de projetos considerados vitrines da gestão.
    Marca Será lançado até o início de agosto o edital de licitação da PPP que vai construir 20 mil unidades habitacionais no Centro de São Paulo, projeto lançado por Alckmin e Fernando Haddad (PT). As obras de R$ 4,6 bilhões devem começar em outubro.
    TIROTEIO
    O descaso de Dilma com a Educação é tal que Mercadante é ministro de meio expediente. A pasta precisa de alguém em tempo integral.
    DO SENADOR AÉCIO NEVES (MG), pré-candidato do PSDB à Presidência da República, sobre o acúmulo de funções do titular do MEC no governo federal.
    CONTRAPONTO
    Tabela periódica
    No início da sessão do Senado de quinta-feira, o senador Eduardo Suplicy foi chamado para usar a tribuna para um discurso. Antes de se dirigir ao microfone, o petista, esbaforido, recorreu aos colegas Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) e Ana Amélia (PP-RS):
    -Como é mesmo o nome do ministro da Agricultura?
    Diante da dúvida vinda de um senador do mesmo partido de Dilma Rousseff, Ana Amélia brincou:
    -Não se aflija, senador! São 39 ministros. Não é sua culpa não saber o nome de alguns...
    Em tempo: o titular da pasta é Antonio Andrade.

    Por que a transparência incomoda tanto? - Paula Lavigne no Tendências/Debates

    folha de são paulo
    PAULA LAVIGNE
    Por que a transparência incomoda tanto?
    Apesar do direito dos artistas de entenderem a razão (e a destinação) da alta taxa cobrada pelo Ecad, muitas perguntas ficam sem resposta
    Aos 13 anos, eu já fazia teatro e ouvia falar de SBAT (Sociedade Brasileira de Autores) e Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) cobrando uma percentagem da bilheteria. Aos 16 anos, fui emancipada para poder abrir, com Caetano, a editora e produtora Uns Produções, para que ele, enfim, pudesse ser, de verdade, dono do seu repertório e administrar o que é dele.
    Sou mãe de dois de seus filhos e assumi, há muitos anos, a responsabilidade de cuidar desse patrimônio, que, sob todos os aspectos, é precioso. Não sou autora, mas respiro direito autoral como rotina, porque devo manter Caetano informado de assuntos de seu interesse, também nessa área.
    Aliás, nenhum artista deveria se manter alheio a um sistema que, afinal de contas, é bancado por eles, do início ao fim. São eles que criam e são eles que pagam a conta. Nas minhas atividades como produtora, inclusive de cinema, sempre aparecem problemas com a cobrança de direitos autorais, que ninguém explica direito, porque ninguém sabe bem como funciona a gestão coletiva no Brasil.
    Talvez por isso, muitos dos autores e artistas que trabalham comigo prefiram ser sócios de entidades estrangeiras. Eles entendem melhor o que elas explicam, mesmo não sendo em português. Há um sentimento generalizado de que as coisas aqui precisam melhorar, de que existem muitas injustiças a serem corrigidas e isso é o que está unindo a classe: a necessidade de informação.
    Eles querem saber o que é feito com a percentagem de 24,5% que fica para o Ecad e as sociedades, uma das taxas mais altas que os autores pagam no mundo. Como se chega a esse número, em quê essa verba é gasta e de que forma? Alguém conhece a folha de pagamento dessas entidades? Quanto ganham os altos funcionários do Ecad, pagos pelos criadores? Os autores não têm a menor ideia.
    Por que o sistema brasileiro não segue o exemplo das sociedades europeias, que cobram o custo efetivo de cada atividade e não ultrapassam a média de 15 a 16%? Por que o Ecad sempre prefere brigar no Judiciário? Seria por causa dos honorários de sucumbência que recebem seus advogados? Muitas perguntas ficam sem respostas.
    Os autores e seus representantes também se queixam de que, se não fosse a imprensa, não chegariam a saber de alguns acontecimentos no mínimo suspeitos. O caso Milton Coitinho, envolvendo um motorista de ônibus de Bagé que teve seus documentos falsificados e utilizados para cadastrar trilhas sonoras de filmes brasileiros, só foi conhecido porque vazou para a imprensa.
    Como chega a ocorrer uma fraude grosseira como essa? Por que os autores só ficam sabendo de fatos assim pelos jornais? Muitos nem sabem que as duas sociedades que mandam no Ecad são comandadas por editoras e gravadoras multinacionais. Em uma delas, duas pertencem à Sony; em outra, duas pertencem à Universal. Outras, ainda, são editoras de autores que, por alguma razão, preferem ser eleitos como representantes de suas editoras e não como autores.
    Em quase 30 anos de atuação nesse segmento, jamais fui convidada a participar de eleições ou de decisões que afetam os autores, administrando um dos maiores catálogos do Brasil. Em nenhum país do mundo isso aconteceria, só aqui.
    A CPI do Senado, em seu relatório final, relatou questões muito preocupantes, que todos ignoravam. Diante disso, como se esperava que a classe reagisse? A resposta é simples: da forma que a imprensa registrou.
    Autores e seus representantes resolveram se mobilizar, unir diferentes tribos e gerações, somar forças e atuar em favor de todos. Afinal, o que me impede de defender o patrimônio autoral arduamente construído por Caetano? É o meu ofício, eu ganho para isso. Procure saber!
      JORGE HAGE
      Financiamento, democracia e corrupção
      A crise de representatividade talvez tenha uma de suas raízes nas distorções do sistema político, em que avulta a do financiamento empresarial
      O tema da reforma política volta ao topo da agenda nacional e traz consigo a necessidade de discussão de um dos seus aspectos mais relevantes. Sempre acreditei que o financiamento empresarial de campanhas fere, antes de tudo, um princípio constitucional, o da igualdade (art. 5º), e afronta uma premissa universal dos sistemas democráticos: "um homem, um voto".
      Isso porque, se as campanhas dependem cada vez mais de dinheiro, ao se permitir que pessoas jurídicas façam pesadas doações aos candidatos, está-se legitimando o desequilíbrio na disputa por votos e, assim, distorcendo a vontade popular.
      Isso já seria o bastante para condenar o modelo. Mas é pior: chancela-se, aí, a influência do poder econômico nas decisões do poder público. Afastam-se, também, os candidatos que não aceitam a dependência do poder econômico, tendo em vista a certeza de que a "fatura" será cobrada depois. Não se há de imaginar que o idealismo ou a amizade desinteressada (salvo alguma rara exceção) seja o móvel dessas doações.
      A experiência em um órgão de controle veio apenas reforçar-me a intuição: as consequências deletérias do óbvio conflito entre interesses públicos e privados, que advêm da dependência entre o capital e o mandato, entre os recursos para a eleição e o cargo depois ocupado.
      Isso mostra como é falso o argumento do "alto custo para os cofres públicos", usado pelos que se opõem ao financiamento público. Basta pensar em quanto esses mesmos cofres perdem pela corrupção. É certo que as doações de campanhas não são a causa única da corrupção, mas uma das principais.
      Tomem-se algumas de suas formas mais comuns: direcionamento de licitações, com elevação dos preços pela ausência de competição, orçamentos com sobrepreço, superfaturamento, medições fraudadas, tudo a propiciar a geração das "gorduras" que, muito provavelmente, vão compensar as doações da campanha anterior ou garantir a próxima. Aliás, expressões como "sobras de campanha" ou "dívidas de campanha", usadas para explicar situações duvidosas, aí estão para confirmá-lo.
      Tudo isso sem falar em distorções outras --distintas da corrupção--, como a influência ilegítima nas decisões e nos votos dos eleitos.
      Outro argumento dos que defendem o dinheiro das empresas nas eleições, de que o financiamento público reforçaria a maioria do governo, peca pelo equívoco de pressupor que o critério de repartição dos recursos seja necessariamente o tamanho das bancadas.
      Do mesmo modo, a suposição de que não haveria como controlar a origem do dinheiro carece de demonstração. Por acaso a Justiça Eleitoral e o Ministério Público têm sido lenientes? Não parece ser a realidade. E, ainda que ninguém imagine um controle infalível, isso não justifica a defesa do custeio empresarial das eleições, do mesmo modo que não se há de defender a legalidade do suborno, da propina ou do contrabando, apenas por não ser possível coibi-los totalmente.
      A crise de representatividade, hoje tão discutida, talvez tenha uma de suas raízes nas distorções do sistema político, em que avulta --sem que seja a única --a do financiamento empresarial, associado à duração e aos custos da propaganda.
      Não se supõe que, afastado o poder econômico do processo eleitoral, estarão resolvidos todos os problemas. Mas o fato é que o sistema atual é de tal modo indefensável que parece já passada a hora de buscar outras soluções.