segunda-feira, 22 de julho de 2013

Dilma proporá ao papa ação articulada contra a pobreza - Valdo Cruz e F.Maisonnave

folha de são paulo
O PAPA NO BRASIL
Presidente recebe hoje o pontífice no Rio com agenda de cooperação social
Porta-voz do Vaticano diz que Francisco não tomará posição política durante visita para a Jornada da Juventude
VALDO CRUZDE BRASÍLIAFABIANO MAISONNAVEENVIADO ESPECIAL A ROMAA presidente Dilma Rousseff vai propor hoje ao papa Francisco apoio a projetos internacionais de combate à pobreza e à exclusão social, como iniciativas voltadas para o continente africano.
O tema fará parte da conversa reservada da petista com o pontífice, na qual Dilma dirá que o governo brasileiro e o Vaticano podem unificar ações internacionais nessas duas áreas, citando as medidas que o Brasil já desenvolve em relação à África.
Dilma vai receber o papa às 16h, na base aérea do aeroporto do Galeão, no Rio. Depois, participará da cerimônia oficial de chegada do pontífice, às 17h, no Palácio Guanabara. Em seguida, às 18h, terá o encontro privado.
Na saudação formal, Dilma vai destacar a "coincidência" que acredita haver entre a opção do papa pelos pobres e a "prioridade histórica" de seu governo e do de Lula com programas para combater a pobreza no Brasil.
A presidente não deve tocar em temas religiosos nas conversas com o papa. Quando seu antecessor, Bento 16, visitou o país, em 2007, havia na agenda diplomática a assinatura de acordo com a Santa Sé, o que foi consolidado no ano seguinte por Lula em viagem ao Vaticano.
Na campanha presidencial de 2010, as relações do PT com a Igreja Católica foram abaladas quando Dilma foi alvo de bispos que pregavam boicote à petista por seu posicionamento em relação ao aborto, que seria "dúbia", segundo ala mais conservadora da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
Para assessores, Dilma está "impressionada positivamente" com o estilo simples e conectado do novo papa com as questões sociais e faz a avaliação de que ele terá papel importante para estimular um debate mundial sobre o combate à pobreza.
As recentes manifestações de rua também podem fazer parte da conversa, caso o papa toque no assunto, quando Dilma deve destacar os programas na área da saúde e da educação que está lançando.
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse à Folha que o pontífice "não tomará posição política" durante sua passagem pelo Brasil. "O papa fala sempre que a boa nova do Evangelho é para todos. Não toma partido, fala à consciência de cada um na construção da sociedade. São fortes mensagens de responsabilidade, com acentos sobre a solidariedade e o respeito aos direitos individuais."
Para Lombardi, as 17 falas do papa no país não terão "fio condutor único". "Naturalmente há temas do pontificado de Francisco: o missionarismo, o anúncio da boa nova cristã com grande abertura, a solidariedade aos pobres e às pessoas com dificuldade."
SEGURANÇA
Fora da troca de ideias e propostas de ações unificadas na área social, o que mais preocupa o governo brasileiro é a segurança do papa durante sua estada no Brasil.
Diante da recusa do pontífice de usar carros blindados, o Palácio do Planalto decidiu montar um esquema especial de segurança para "minimizar e diminuir a margem de risco de incidentes".

Painel - Vera Magalhães

folha de são paulo
Operação Francisco
Relatório da Polícia Federal que chegou ao governo aponta que o Rio terá manifestações durante todos os dias da visita do papa Francisco. Os protestos que, segundo a PF, terão maior adesão serão os de amanhã, quinta-feira e domingo. Não foram previstos atos na ida do papa a Aparecida. Policiais federais de todo o país foram deslocados para o Rio para reforçar o esquema de segurança. No Distrito Federal, a PF ficará sem 50% do efetivo. Investigações foram sustadas no período.
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No escuro Dilma Rousseff saiu da reunião com os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça), Celso Amorim (Defesa) e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), no sábado, com uma certeza: nem a igreja brasileira sabe o que Francisco dirá ou como será seu contato com os fiéis durante a estada no Brasil.
Peregrino Ex-seminarista e interlocutor com a Igreja Católica desde o primeiro mandato de Lula, Gilberto Carvalho vai passar a semana toda no Rio. Será o elo entre o Planalto e a Jornada Mundial da Juventude.
Gênese Aliados de Sérgio Cabral (PMDB) relatam que apuração do governo do Rio identificou policiais e milicianos ligadas ao deputado e ex-governador Anthony Garotinho (PR) por trás dos atos de vandalismo na cidade.
Caixa aberta A Justiça autorizou o PSDB a ter acesso a todo o inquérito que apura a origem do boato sobre o fim do Bolsa Família em vários Estados. A diretoria jurídica da Caixa Econômica Federal também obteve a íntegra.
No pé 1 O presidente do PSDB, Aécio Neves, ironiza o fato de o Palácio do Planalto ter divulgado telefonema do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, para Dilma, para explicar a suposta espionagem de cidadãos brasileiros por agências norte-americanas.
No pé 2 "Num governo do PSDB, a chamada seria direcionada para o gabinete do vice-presidente. A liturgia do cargo manda que, para pedir desculpas à presidente, telefone o presidente'', diz o virtual presidenciável tucano.
Slogan Eduardo Campos (PSB) colocou como capa de sua página no Facebook a frase É possível fazer mais; é possível fazer diferente''.
Inimigo íntimo De um integrante do governo federal, minutos antes de entrar no cinema para uma sessão de "Meu Malvado Favorito 2", ontem: "Esse filme é sobre o Eduardo Cunha?''.
Cavalo de pau Cândido Vaccarezza (PT-SP) era o mais cotado para relatar a medida provisória do programa Mais Médicos na Câmara. Mas, depois das últimas polêmicas entre ele e o Planalto, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) interveio e emplacou o deputado Rogério Carvalho (PT-SE) na função.
Parceiros Padilha e Carvalho são amigos desde os tempos do movimento estudantil. Carvalho sucedeu Padilha na Denem (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina).
Exército verde José Serra almoçou na semana passada com dirigentes do PV. De novo disse que não tem "pressa'' para anunciar seu destino político, e fez várias críticas ao governo Dilma, entre elas ao Mais Médicos.
Tapetão 1 A Mensagem ao Partido deverá recorrer contra deliberação da reunião de sábado do Diretório Nacional do PT que alterou pontos do estatuto da sigla.
Tapetão 2 O DN anulou a exigência de que o filiado, para votar na eleição interna, tenha de participar de uma atividade do PT. A Mensagem diz que só o Encontro Nacional poderia mudar a regra.
com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
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TIROTEIO
"O papa deverá condenar a marginalização dos pobres, a corrupção e a hipocrisia dos políticos. As orelhas de muitos vão arder."
DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), da ala mais à esquerda da Igreja Católica, prevendo que Francisco deverá dar tom político às prédicas no Rio.
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CONTRAPONTO
É um milagre!
José Maria Alkmin era deputado federal no governo de Getúlio Vargas, quando era muito difícil se comprar bebida importada no Brasil. Em viagem a Roma, o mineiro embarcou com uma caixa de uísque escocês. Na chegada ao Brasil, foi questionado na alfândega:
--Deputado, o que o sr. traz nesta caixa?
--Estive em Roma e trouxe água benta pelo papa.
O oficial pediu que Alkmin abrisse a caixa.
--Mas deputado, é uísque... --disse, sem graça.
--Pois já começou a operar milagres! --emendou o parlamentar, sem o menor constrangimento.

    Claudio Luiz Lottenberg e Danilo Cymrot Tendências/Debates

    folha de são paulo
    cLAUDIO LUIZ LOTTENBERG
    TENDÊNCIAS/DEBATES
    Momento de oportunidade
    A superespecialização é legítima, mas uma alternativa mais adequada seria a vivência em campo como médico generalista
    O papel do médico tem mudado. Além de atender, a ele cabe orientar o paciente em seu estilo de vida, coordenar a assistência de outros profissionais, monitorar o uso de medicamentos e, sobretudo, ser o elo de confiança entre o ser humano e as diferentes vertentes tecnológicas.
    Um profissional no exercício técnico de suas funções necessita mais do que a sua boa e sólida formação. Necessita de apoio de outros profissionais, de tecnologia e de condições que lhe permitam exercer o ato profissional com plena satisfação. A distância dos grandes centros, pela iniquidade de recursos, é prejudicial e só pode ser aprimorada por movimentos incentivados.
    A atual dinâmica da formação educativa médica pressupõe um caminho que leva à superespecialização. Isso é legítimo no contexto da ambição pessoal, mas uma alternativa mais adequada à realidade brasileira seria um currículo que exigisse como pré-requisito médico uma vivência em campo como médico generalista.
    Essa alternativa, compartilhada por médicos com ampla visão dos problemas de saúde no Brasil, tem consonância com a proposta de estender os cursos de medicina de seis para oito anos e incluir um período de atendimento em unidades de serviço público.
    A proposta de mudança feita pelo governo federal é positiva. O equívoco está em tentar criar a sensação de que medidas como essa ou a importação de médicos vá resolver os problemas. Os dados de exigibilidade de médicos per capita, por exemplo, não traduzem uma consistência pautada por bases sólidas.
    Os perfis epidemiológicos, a coexistência de profissionais paramédicos ou não, as instalações, a existência ou não de recursos de maior ou menor complexidade, os processos ambulatoriais não permitem que essa aritmética seja levada a sério sempre.
    Entre alunos médicos que se graduam e aqueles que param de trabalhar, o incremento anual é de 6.000 profissionais. Será que é suficiente para dar conta dos desafios onde houve uma explosão demográfica? As pessoas estão vivendo mais, aumentando a sobrecarga e a demanda por serviços de saúde.
    As propostas do governo representam uma oportunidade para a classe médica levar adiante uma discussão na dimensão de que o país precisa e com a participação de todos os atores sociais envolvidos. Mais do que os impactos da importação de médicos e do novo modelo proposto para formação dos profissionais, devemos discutir questões estruturantes, pensando, principalmente, no longo prazo, e não apenas em medidas imediatistas.
    Há várias vertentes a serem consideradas e uma delas é a educação. Se faltam médicos, também faltam estruturas, em quantidade e qualidade, para a sua formação. Faltam investimentos para criação de infra estrutura para medicina preventiva e assistencial que tornem os municípios atrativos para prestação de serviços de maneira segura.
    Na última avaliação do Conceito Preliminar de Curso (CPC), do Ministério da Educação, em 2011, nenhum dos cursos de medicina obteve a nota máxima (cinco). Ao mesmo tempo, o número de candidatos quase dobrou em dois anos, de 390 mil em 2009 para 690 mil em 2011.
    Isso aconteceu devido às facilidades criadas pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e à possibilidade de ingresso por meio da prova do Enem. Sem a criação de novas vagas e com a procura maior do que a oferta, falta estímulo para a melhoria da qualidade.
    A sociedade espera soluções concretas e o principal papel que a classe médica pode ter nesse processo é alertar o governo para o risco de medidas que podem ser paliativas para alguns sintomas, mas não resolvem os verdadeiros problemas do paciente. O processo do consenso, longe da unanimidade, deve ser construído com a participação da sociedade. Toma tempo, mas certamente é o único modo que converge para a forma estruturante.
    DANILO CYMROT
    TENDÊNCIAS/DEBATES
    Fala proibida, morte ostensiva
    Prossegue a política de naturalizar a associação da violência com o funk, como se um estilo musical fosse causa de morte
    O tiro que matou MC Daleste foi o tiro que silenciou a voz incômoda que denunciava a dura realidade vivida por milhares de jovens nas periferias das grandes cidades brasileiras. Paradoxalmente, foi o tiro que deu visibilidade máxima a um jovem que, como outros, estava em busca de reconhecimento social.
    Nada mais emblemático que o tiro tenha sido dado quando MC Daleste estava em cima do palco e que a gravação da cena tenha sido vista por milhões de pessoas que só conheceram o grande ídolo da periferia após a sua morte.
    Para grande parte da sociedade, jovens da periferia só obtêm visibilidade quando associados a episódios violentos, realçando-se mais sua condição de autores do que a de vítimas. A demanda por visibilidade é ainda mais trágica diante do pedido do MC para que sua foto baleado fosse colocada no Instagram.
    Em uma sociedade que tem a ascensão social e o consumo como principais metas culturais, o funk proibidão, acusado de fazer apologia ao crime, e o funk ostentação, que faz apologia ao consumo, são mais complementares do que antagônicos. Ambos expressam a recusa de uma posição subalterna por pobres assalariados.
    O primeiro, por meio da associação com o tráfico. O segundo, pela associação simbólica com bens de consumo de luxo. No entanto, o funk ostentação é mal visto em uma sociedade na qual o consumo de marcas distingue cidadãos. Classes altas não gostam de ver seus espaços exclusivos invadidos e marcas luxuosas não querem ser associadas a "funkeiros favelados".
    Embora fosse um dos principais representantes do funk ostentação e ganhasse com seus shows dinheiro suficiente para viver em um bairro nobre, MC Daleste, que não teve banheiro em casa até os 13 anos, não deixou sua comunidade. Cantava para ela e dela vinha seu sustento.
    Ainda que cantasse, no clipe póstumo "São Paulo", uma vida em mansões e vestisse correntes de ouro, morreu ostensivamente em frente a um conjunto habitacional popular, engrossando uma cifra ostensiva. Sua morte foi espetacular, mas assustadoramente comum.
    Em junho de 2012, escrevi neste espaço um artigo sobre a criminalização do funk e o extermínio de MCs. Até então, cinco ídolos do funk da Baixada Santista haviam sido assassinados. Prossegue a política de naturalizar a associação da violência com o funk, como se um estilo musical fosse causa de morte.
    Para setores conservadores, a crítica de jovens da periferia à atuação da polícia, se não legitima os assassinatos, pelo menos legitima a negação de seu direito à segurança.
    O primeiro tiro, que atingiu MC Daleste de raspão, foi certeiro em explicitar a banalização da violência em certos territórios da cidade, nos quais as balas não são de borracha. O MC permaneceu cantando. Houve no público quem acreditasse se tratar de um tiro disparado para o alto ou de um efeito musical característico de proibidões, a trilha sonora de um filme em que ficção e realidade se misturam. Dessa vez, não se tratava nem de um jogo de computador nem de uma glamourosa minissérie televisiva.
    Como qualquer artista, MC Daleste era alvo das projeções de milhares de jovens que sonham com ostentação, mas acabou sendo mais um alvo dos projéteis que traçam a realidade cantada em proibidões.

      Validade - Aécio Neves

      folha de são paulo
      Durou menos de 24 horas a validade das declarações da presidente da República na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, assegurando que a inflação não é motivo de preocupação e que as contas públicas estão sob controle.
      O cenário descrito na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada no dia seguinte, é outro --a inflação continua elevada e resistente, exigindo máxima atenção.
      A ata também contradiz a presidente em relação às contas públicas. Enquanto a primeira mandatária garante que a "política fiscal é robusta", o Copom vê o "balanço do setor público em posição expansionista", com crescente elevação dos gastos públicos, o que acaba elevando a pressão inflacionária.
      O documento cumpre ainda a missão de mostrar algumas verdades importantes.
      A presidente verá que se engana atribuindo as críticas ao seu governo ao pessimismo generalizado da oposição, dos empresários e da imprensa. A preocupação de inúmeros setores decorre, na verdade, de reiterados erros da política econômica. Nos últimos dois anos, a inflação do setor de serviços manteve-se acima de 7,5% ao ano. A inflação dos alimentos, aquela que atinge e penaliza as famílias mais carentes, chegou, em junho deste ano, a quase 13% --muito acima da inflação média.
      Se a prévia de julho felizmente veio menor, a explicação está na sazonalidade dos preços dos alimentos e no congelamento das tarifas de transporte, resultante dos movimentos de protesto em junho, e não na política econômica.
      No que tange às contas públicas, o investimento federal, nos dois primeiros anos do governo ficou estacionado como percentual do PIB. De janeiro a maio deste ano, o gasto público do governo federal cresceu R$ 40 bilhões, uma expansão de 13%, o mesmo ritmo de crescimento dos primeiros cinco meses de 2012. No mesmo período, o crescimento do investimento público, de acordo com dados oficiais divulgados pelo Tesouro Nacional, foi de só R$ 604 milhões.
      Vale dizer: apesar do crescimento exponencial do gasto federal, o investimento ficou praticamente estagnado. A expansão concentrou-se nas despesas de custeio, que pressionam a inflação, apontan- do uma menor economia fiscal no futuro.
      O principal mal causado ao país por essa sucessão de equívocos está sinalizada no parágrafo 21 da ata do Copom com todas as letras: o documento aponta como fator de restrição à retomada do crescimento a desconfiança das famílias e das empresas no governo e em sua política econômica.
      Sem confiança, as famílias não consomem, os empresários não investem e a economia não anda. Sem o diagnóstico correto, a terapia pode acabar agravando a doença.