quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Ex-membros da Legião Urbana perdem nova batalha contra filho de Renato Russo

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Novo round na disputa de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, que integraram a Legião Urbana com Renato Russo (1960-1996), e o herdeiro do líder da banda, Giuliano Manfredini: a Justiça negou há alguns dias a segunda tentativa dos dois de usar a marca com o nome do grupo. O mérito da questão ainda será analisado pelo Tribunal de Justiça do Rio.
PRETÉRITO PERFEITO
E o dinheiro arrecadado com as músicas de Russo será doado, em parte, para um instituto contra o alcoolismo batizado com o nome do cantor, criado por Manfredini. Que alfineta: "É lamentável ver a obra do meu pai ligada ao álcool". Marcelo Bonfá lançou uma cachaça com o nome "Perfeição", igual ao de uma canção que fez em parceria com Russo.
SUBJUNTIVO
"A palavra 'perfeição' não pertence a ninguém. É um substantivo da língua portuguesa", diz Bonfá. "O problema não está no produto, mas nas pessoas. Eu não sou alcoólatra. Até amor em excesso faz mal". Para o baterista, que diz defender moderação ao beber, alcoolismo é questão "pessoal".
SEM CHORO
Dilma Rousseff há tempos se queixava do chanceler Antonio Patriota. A oportunidade de demiti-lo por causa da crise com a Bolívia não foi lamentada por ela.
JOGO DURO
As relações do Brasil com a Bolívia atravessam fase tão turbulenta que, na negociação para a libertar os corintianos, um dos mediadores foi o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Ele falou com Evo Morales sobre o caso.
JOGO DURO 2
Um dos argumentos usados por outros interlocutores do presidente da Bolívia também acionados foi o de que os milhares de bolivianos que vivem no Brasil poderiam sofrer algum tipo de hostilidade, já que o Corinthians é o time mais popular do país.
REGISTRO MUSICAL
As apresentadoras Mariana Weickert e Astrid Fontenelle assistiram à pré-estreia do documentário "Na Trilha da Canção", projeto dos irmãos Sarah Oliveira e Esmir Filho, para o GNT. Também estiveram no MIS, na segunda-feira (26), as atrizes Mariana Ximenes e Gabriela Duarte e os cantores Otto, Marina Lima e Wanderléa.

Mariana Ximenes e Otto vão à pré-estreia

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Ze Carlos Barretta/Folhapress
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As apresentadoras Mariana Weickert e Astrid Fontenelle assitiram à pré-estreia de "Na Trilha da Canção", documentário de Sarah Oliveira e seu irmão, o cineasta Esmir Filho, no MIS, na segunda (26)
CAMINHO LIVRE
Propostas para dispensar do rodízio de carros advogados, cirurgiões-dentistas, policiais militares e civis e guardas civis metropolitanos serão analisadas hoje pelos vereadores de SP. Os projetos tentam acrescentar as categorias à lista de liberadas. Hoje, medida administrativa já isenta deficientes e médicos.
ALVO
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foi furtado de novo. Ele teve o GPS surrupiado no domingo, quando deixou seu carro estacionado na rua Jaceguai, entre 18h e 23h30, para assistir à peça "Cacilda!!!", no Teatro Oficina. Quando voltou, encontrou o vidro do passageiro quebrado. "Por sorte não viram o celular", que também estava no veículo.
QUASE CENTENÁRIO
O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, recebeu autoridades e esportistas no jantar de comemoração dos 99 anos do clube, na segunda (26), no Spaço Quatá. Entre eles, o presidente da CBF, José Maria Marin, o governador de SP, Geraldo Alckmin, e Marco Polo Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol.

Palmeiras comemora 99 anos com jantar

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Ze Carlos Barretta/Folhapress
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Paulo Nobre, presidente do Palmeiras, recebeu so convidados para um jantar em comemoração dos 99 anos do clube, no Spaço Quatá, na segunda (26)
TRAVESSEIRO
Um espetáculo de teatro com 12 horas de duração. É o tempo que vai durar "Vigília", montagem com ingressos gratuitos que estreia em setembro, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. O espectador tanto poderá assistir a toda a peça de uma vez quanto ver algum tempo, sair, descansar e voltar para seguir o restante do enredo. O texto, de Cássio Pires, fala sobre a noite de um insone, com quem a plateia vivenciará a experiência.
CANETA E BISTURI
O cirurgião plástico Ivo Pitanguy já colocou o ponto final na sua biografia. Prevista para ser lançada pela editora Casa da Palavra, a obra foi escrita por ele mesmo, com a ajuda da escritora Lilian Fontes.
EM TRÊS ATOS
Zé Carlos Barretta/Folhapress
A pesquisadora Sonia Guarita do Amaral esteve no lançamento do livro "1889", do jornalista e escritor Laurentino Gomes, na segunda (26), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. A obra é o terceiro volume de uma trilogia que conta a história do Brasil. "1808" e "1822" são, respectivamente, o primeiro e o segundo volumes.

Mônica Bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

José Simão

folha de são paulo
Ueba! Pinto derruba Patriota!
Acho que essa rede da Marina é do Paraguai. Rede paraguaia. Ela vai vender rede na 25 de Março
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Por que tudo no Brasil tudo tem que ser engraçado? Por que o senador boliviano tinha que se chamar Pinto? Pinto Molina. Ops, Pinto Molinha!
"Fuga de senador boliviano derruba ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota." Ou seja, um pinto derrubou um patriota.
Esse pinto fez um estrago! E aí perguntaram pro Pinto: "Como foi a fuga?" Resposta: "Mole! Mole!". Rarará.
E um leitor quer saber se o Pinto fugindo da Bolívia passou por Cochabamba! Pinto passa por Cochabamba e Cuiabá!
E agora, com todo respeito: o que a Dilma vai fazer com esse Pinto? Ela vai gritar: "Maaaaantega, bota esse Pinto pra lá". Devolve o Pinto pro Evo! Rarará!
Então, estamos assim: 400 médicos cubanos e um pinto boliviano!
E a Marina? Com aquele partido não partido, a Rede? Marinárvore declara: "A Rede é o anseio da sociedade". Errado.
A rede é o meu anseio quando entro em férias. A rede é o anseio de todo estressado. A rede é o ESTEIO da sociedade. E é mesmo!
E as assinaturas do partido fraudadas? Acho que essa rede da Marina é do Paraguai. Rede paraguaia. Ela vai vender rede na 25 de Março. "Rede do Paraguai! Rede do Paraguai!"
E a manchete do Piauí Herald: "Partido da Marina importará 3.000 correligionários cubanos". Trinta iguanas, 12 rãs, sete morcegos, centenas de pássaros-mosca e comunistas em extinção!
A Marina tem que chamar os gremlins pro partido dela. Só assim ela alcança as assinaturas necessárias.
Ela pega um gremlin, joga um copo d'água, ele se multiplica e formam um partido. O Partido dos Gremlins! Rarará.
É mole? É mole, mas sobe!
Os Predestinados! É que o prefeito interino de Marituba, no Pará, se chama Francisco BESTEIRO.
E um vereador de Meridiano, interior de São Paulo: Claudio Tranqueira! Rarará.
Podiam formar uma nova dupla sertaneja: Besteiro e Tranqueira. Rarará!
Informação de última hora: o Pinto é pastor!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

    Marcelo Coelho

    folha de são paulo
    O eterno masculino
    Quadrinhos clássicos do Fantasma, personagem criado em 1936, voltam às bancas de jornal
    É sempre estranho que os heróis de histórias em quadrinhos tenham de usar algum tipo de uniforme. Qual a razão daquelas roupas inteiriças, daquelas capas bandeirosas e sungões tamanho GG?
    Corrijo o pensamento, ao imaginar a alternativa absurda. Ninguém de paletó, gravata e chapéu poderia sobrevoar os céus de Metrópolis sem ridículo. Um Super-Homem de azul esvoaçante pode ser absurdo, mas seria ainda mais absurdo em roupagens civis.
    Joaquim Barbosa talvez fosse menos implacável se o despojassem da toga de morcego. Verdade que outros ministros do STF, capazes de mostrar larga indulgência frente aos réus do mensalão, usam também a capa protocolar.
    Só que, sentados, deixam que predomine o paletó comum, a camisa neutra, a gravata banalíssima. Os males da coluna forçam Barbosa a manter-se de pé. Pior que isso. Apoiado no espaldar da poltrona giratória, o presidente do STF parece uma águia no alto do penhasco, pronto para a arremetida fatal.
    Não me estendo na comparação. Concluo que a roupa ajuda e volto ao tema dos uniformes dos super-heróis.
    Nenhum mais absurdo, pensando bem, que o do meu preferido na infância. Tratava-se do Fantasma, "o espírito que anda". Em plena selva do interior da Índia, ou talvez na África Equatorial, ele não tirava nunca a malha roxa, que lhe cobria a cabeça inclusive.
    Por cima, o maiô de listras pretas em diagonal, do qual pendia o prosaico acessório de uma pistola automática, no coldre antigo. O mais estranho era a máscara, sumária como a parte de cima de um biquíni, mas que por alguma razão velava seus olhos atrás de uma borracha branca.
    Naquela indumentária grudenta, meio de mergulhador, meio de Fanta Uva, o Fantasma sentava-se sozinho no Trono da Caveira, afagando seu lobo Capeto, e dava audiência a seus súditos --uma tribo de pigmeus, dotada de rei próprio, a quem distinguia um chapéu cônico de galhos secos, à guisa de coroa.
    Com tudo isso, o Fantasma me parecia mais interessante do que Mandrake, Tarzã, Super-Homem e mesmo o Batman. Seria, provavelmente, mais "sexy" que todos esses rivais.
    Tinha, também, aparência mais maligna. Cercava-se de caveiras; longe do ambiente urbano, na escuridão da jângal, cultivava a própria lenda.
    Ao mesmo tempo, não tinha nenhum poder sobrenatural. Apenas a credulidade dos nativos --sempre ela-- cuidava de aumentar suas façanhas. Era tido por imortal. Mas não; representava apenas o último descendente de uma dinastia que há 400 anos, com o mesmo uniforme, jurara combater os malfeitores daquelas bandas.
    Teria voado até as nuvens para derrotar um gigante de dez andares. Não, não. A própria narrativa dos quadrinhos ironizava a licença poética dos selvagens. No máximo, esmurrara um gângster grandalhão.
    Claro que, destituído de superpoderes, o Fantasma se tornava ainda mais formidável aos olhos de um menino. Representava o luxo de uma completa autonomia; era realista em seu delírio; não tinha nada com que contar, exceto a imaginação dos pigmeus que o seguissem.
    Sai nas bancas, pela editora Pixel, um livro com as primeiras histórias do Fantasma. Com história de Lee Falk e desenhos de Ray Moore, a saga dos "Piratas do Céu" foi publicada pela primeira vez em fins de 1936.
    Embora a publicação da Pixel se apresente como o primeiro volume de uma série, já pegamos a aventura pela metade. Nessas 126 páginas, em quadrinhos bem pequenos, o herói está às voltas com uma quadrilha composta exclusivamente de belíssimas aviadoras.
    Eu tinha a impressão --mas pode ser devido a versões posteriores-- que os desenhos do Fantasma fossem menos primitivos. Os movimentos do herói são rígidos, os enquadramentos se prendem ao convencional, as expressões faciais caem no tosco e no amadorístico.
    Eram só isso aqueles quadrinhos? Não. A aventura tem boas reviravoltas, e todas devido a um só fator: a inconstância do sexo feminino. Várias vilãs --sempre lindas-- se apaixonam sucessivamente pelo herói. Ele as manipula como quer, mesmo que na maior parte do tempo algemado e atrás das grades.
    As aviadoras se dividem, brigam, reconciliam-se, traem-se umas às outras. Não apenas um colonizador levando paz às tribos primitivas, o Fantasma também triunfa, intacto, sobre tantas sedutoras. É o eterno masculino. Talvez por isso mesmo não dispense o collant roxo e o maiô listradinho.

    terça-feira, 27 de agosto de 2013

    “Mais Médicos”: uma vereda para os nossos grandes sertões

    Fonte
    Reinaldo Guimarães*

    O programa “Mais Médicos” está focado na necessidade de colocar médicos onde não há médicos e onde médicos não querem ir. O “Mais Médicos” não está interessado em atender as expectativas da corporação e, principalmente, de seus representantes sindicais.

    O “Mais Médicos” não está fazendo competição com o mercado de trabalho dos médicos brasileiros. Antes de importar médicos, houve uma chamada para médicos brasileiros que, lamentavelmente, não prosperou. Em parte, devido a uma feroz campanha contra o programa liderada pelos líderes corporativos sindicais e de vários Conselhos Regionais de Medicina. 

    Após a frustração da chamada de médicos brasileiros, o programa abriu uma chamada internacional que, apesar de ter atraído médicos de vários países, não logrou ainda atingir as metas estabelecidas pelo Ministério da Saúde. Foi então que, com a interveniência da Organização Panamericana da Saúde, foi assinado o convênio com Cuba. 

    Se a campanha contra o programa já era feroz, a partir daí os sindicalistas médicos entraram numa escalada de insanidades que atingiu o seu ápice com as declarações do presidente do CRM de Minas Gerais. Disse ele que, caso tenha notícia de algum médico em exercício com diploma obtido no exterior e sem revalidação, acionará o Ministério Público do Trabalho e a Polícia Federal para impedi-lo. Fora de si (imagino eu), disse que orientará os médicos mineiros a não cooperarem com os “sem Revalida” cubanos, caso haja algum pedido de ajuda técnica por parte desses. No meu ponto de vista, caso essa afirmativa de seu presidente seja confirmada, o CRM de Minas está sob suspeição para julgar quaisquer transgressões éticas vindouras, posto que o seu presidente está a instruir os médicos mineiros a discriminar colegas, infringindo o Código de Ética Médica. Este,em seu capítulo I (princípios fundamentais), reza que “A Medicina  é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza” (grifo meu).

    Os representantes corporativos esbravejam: sem o Revalida, não dá! Digo eu: se a banca examinadora não quiser, o Dr. Pitanguyou ou Dr. Jatene não serão aprovados num exame para revalidação de diploma. Não é a toa que apenas 10% dos que tentaram revalidar seus diplomas obtidos no exterior, desde a instituição do teste, conseguiram a revalidação. Com o estado de espírito que a maioria dos meus colegas têm apresentado com relação ao “Mais Médicos”, seria uma carnificina.

    No dia 23 de agosto, um artigo na Folha de São Paulo dizia que médicos são produzidos em série em Cuba, para exportação. O tom era discretamente derrisório. É verdade, médicos são produzidos em série e esta é,há décadas, a principal ferramenta para a projeção internacional de Cuba. Qual o problema? Há quem exporte soldados e armas e guerras, há quem exporte cocaína e por aí vai. Cuba exporta médicos. Nesse caso, trata-se do que, em diplomacia, se chama soft power. Tão legítimo quanto, por exemplo, a exportação de programas de ajuda realizada há décadas pela agência estatal de cooperação norte-americana USAID. 

    Cuba produz médicos “em série”, também porque, graças ao bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e, mais tarde, com o colapso soviéticonecessita, para subsistir, de divisas. O exercício do soft power médico contribui também para que entrem divisas em Cuba. Pessoalmente, não me sinto confortável em apoiar que a remuneração de um profissional seja, em parte, apropriada pelo Estado. Mas o meu desconforto diminui quando me dou conta de quase 40% dos meus rendimentos são religiosamente apropriados pelo Estado brasileiro na forma de impostos variados. Parte desses, na fonte, como é o caso dos médicos cubanos que um colunista hidrófobo da revista Veja denominou de “escravos do Partido Comunista cubano”. 

    Outro comentário lido sobre os médicos cubanos, “produzidos em série”, é que eles não prestam. Sua formação é precária e eivada de ideologia. Não é o que a opinião internacional informada sustenta ; ; (tomei como tal, o American Journal of Public Health, o Lancet e uma carta publicada em Science).A conclusão do artigo de Cooper et. al. sobre a prevenção e controle das doenças cardiovasculares em Cuba vale a pena ser transcrita: “Where as the social and political structure of societies can under go rapid and dramatic change, such cultural norms as food, music, and religion are sometimes more resilient. The goal of socialist revolutions in poor undeveloped countries has been first and foremost to catch up with the industrial economies of the world. In public health, this has meant almost exclusively the elimination of infectious diseases and the assurance of low death rates in childhood. Cuba stands as the prime example of the unequaled success of the socialist project in achieving that goal. Within that tradition, however, the need to aggressively intervene against engrained cultural patterns, particularly those related to consumption, was something of a foreign idea. A fundamental rethinking of this strategy will be required to take full advantage of the new knowledge in prevention science that could now make an important contribution to the future health of the Cuban people. The improvements in quality and duration of life in Cuba over the last 50 years have been astounding and set the standard for poor countries around the world. These achievements—for example, eliminating polio in 1962, two decades ahead of the United States—are evidence of the remarkable goals Cuba is capable of achieving. Similar leadership in CVD prevention could make enormously valuable contributions to the worldwide campaign to control what has already become the most severe epidemic ever faced by humanity. The Cuban experience thus demonstrates that control of CVD in non industrialized countries is by no means impossible, and it highlights the critical importance of population-based prevention strategies”.

    Acredito que os médicos cubanos talvez não sejam peritos em “procedimentos” de última geração - nem os realmente úteis, nem os inúteis ou francamente prejudiciais. Entretanto, desconfio que a maior parte dos médicos brasileiros também não seja, embora atualmente talvez almejem sê-lo. Mas os médicos cubanos não estão entre nós como “procedimentólogos”, mas como profissionais no campo da atenção primária (promoção, prevenção e cuidados básicos de saúde). E, nesse terreno, creio que eles têm muito a nos ensinar. Aliás, de acordo com o presidente Barack Obama, têm a ensinar também aos médicos norte-americanos -“U.S. President Barack Obama hasacknowledgedthatthe United Statescouldlearn from Cuba's medical foreign aidprogram” .

    A fonte de uma das maiores frustrações (e de aprendizado) dos especialistas brasileiros no terreno da educação e do trabalho em saúde foi a evidência de que reformas curriculares não mudam o mercado de trabalho e que o caminho de ajustar a formação médica às necessidades de saúde é o inverso. É a mudança do mercado que será capaz de ajustar os currículos. Se tomarmos a atual conformação do mercado médico brasileiro, com a deterioração paulatina e consentida do SUS e a expansão selvagem do sistema suplementar, concluiremos que a formação médica entre nós decididamente não vai ao encontro das necessidades de saúde, muito pelo contrário. Não foi por outra razão que os médicos brasileiros não atenderam ao chamado do “Mais Médicos”. A campanha dos líderes corporativos contra o programa, nesse sentido, interpreta corretamente os desejos da maioria dos nossos médicos, em particular os mais jovens. 

    Esta é a razão da convocação dos médicos estrangeiros e, em particular, dos cubanos que, pelas razões que expressei no início desse texto, parecem estar dispostos a enfrentar os desafios médico-sanitários do Brasil profundo. Pode vir a ser um bom exemplo ao mercado.

    Em 1997, uma equipe liderada por Maria Helena Machado concluiu e publicou uma pesquisa sobre os médicos brasileiros. O panorama que nela se vislumbra permanece atual, a despeito de terem se passado 16 anos. A rigor, as tintas com que Machado e sua equipe descrevem a categoria médica brasileira de então devem ser hoje bastante mais carregadas. Uma cópia do livro pode ser encontrada em http://static.scielo.org/scielobooks/bm9qp/pdf/machado-9788575412695.pdf. A leitura desse clássico me parece indispensável para compreender os dilemas dos médicos e seus representantes corporativos frente ao “Mais Médicos”.

    Julie Feinsilver é uma socióloga atualmente na American University. Esteve no Brasil como consultora da presidência da Fiocruz em 1996. Nos últimos 20 anos vem estudando a diplomacia médica cubana. Em 2010, publicou um artigo na revista CubanStudies  que fornece uma visão abrangente sobre a ação de Cuba nesse terreno durante os primeiros 50 anos da revolução cubana. O centro de sua argumentação se localiza no balanço entre a solidariedade e o pragmatismo como vetores da atuação internacional de Cuba no campo da saúde. Creio ser uma leitura essencial para compreender esse tema e uma cópia de seu trabalho pode ser encontrada em: http://www.academia.edu/1139326/Fifty_Years_of_Cubas_Medical_Diplomacy_From_Idealism_to_Pragmatism .

    * - Médico Sanitarista

    Notas

    (1) Manuel Franco, Richard Cooper, Pedro Orduñez - Making Sure Public Health Policies Work. SCIENCE, Vol 311 www.sciencemag.org.  24 February 2006, p. 1098 (letters).
    (2)R. S. Cooper, P. Orduñez, M. D. I. Ferrer, J. L. B. Munoz, A., Espinosa-Brito - Cardiovascular Disease and Associated Risk Factors in Cuba: Prospects for Prevention and Control
     http://ajph.aphapublications.org/doi/abs/10.2105/AJPH.2004.051417, Am. J. Public Health 96, 94 (2006). 
    (3)Wakai S. - Mobilization of Cuban doctors in developing countries. Lancet 2002: 360;92
    (4)http://www.worldpoliticsreview.com/articles/12840/the-danger-of-dependence-cubas-foreign-policy-after-chavez
    (5)Julie M. Feinsilver -Fifty Years of Cuba's Medical Diplomacy: From Idealism to Pragmatism. 
    Cuban Studies, Volume 41, 2010, pp. 85-104