segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A discussao pública no Brasil está ruim - Renato Janine Ribeiro

Fonte  
Renato Janine Ribeiro
Esta imagem mostra como está ruim a discussao pública no Brasil. Exprime como postagens a favor (azuis) ou contra (vermelhas) o Mais Médicos repercutem. Simples: quem é a favor só repercute em quem é a favor, e o mesmo vale para quem é contra. Não se chega a discutir. Cada lado é reconfortado em suas posições e não toma conhecimento das opostas.
Era melhor estar tudo de preto: de luto pela inexistência de um espaço público de discussão, de uma ágora, que permitisse que as pessoas dialogassem, alterassem suas posições,negociassem propostas intermediárias.
Porque esse retrato está valendo para tudo, hj, que seja discutido publicamente no Brasil...

O Museu do Filho - LETICIA WIERZCHOWSKI

Zero Hora - 16/09/2013

Marina Silva disse, em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, que, se a internet mudou nossa concepção de viajar, de estudar, de nos comunicarmos e fazermos compras, inevitavelmente ela também mudaria a nossa concepção de fazer política (Marina falava das manifestações de rua no país). Pois é neste espírito – a internet está aí pra revolucionar a vida, e para melhor – que a Tetê Pacheco, publicitária gaúcha radicada em São Paulo, teve uma ideia genial: o Museu do Filho.

Tudo começou dentro de casa, com Bento e Otto, os filhos da Tetê. Mas esse espaço digital, seguro e e organizado, logo ganhou a participação dos filhos dos amigos e amigos dos amigos, em uma corrente que se multiplica com a velocidade que só a internet – aliada a uma boa ideia – é capaz de gerar.

Afinal, quem é pai sabe que não existe gaveta no mundo que possa abarcar os trabalhos artísticos que nossos filhotes fazem ao longo da vida. As cores, os traços, a ousadia, as marcas pessoais que as nossas crianças, amadurecendo e desbravando este mundo maluco e incrível, deixam no papel podem ser maravilhosas para além de qualquer corujice.

É por isso que vale a pena conferir o Museu do Filho – tudo que é postado passa pela Tetê Pacheco: são obras de pequenos artistas, selecionadas com critério de curadora e carinho de mãe.

O Museu do Filho é uma gaveta digital. Uma gaveta, sim, mas também uma vitrine do mundo que palpita dentro das cabeças dos nossos filhotes. Tetê criou o museu para guardar e para mostrar, mas também para valorizar a arte dentro de casa, no convívio entre pais e filhos.

A gente fica louco de orgulho quando uma obra entra para o acervo e pode ser vista e compartilhada por um monte de gente. Resultado? Tem filho aí saindo das gavetas para o mundo (como bem disse a Tetê, os pais são gavetas de lembranças das suas crianças).

Vale a pena conhecer, mesmo se você não é o orgulhoso papai de um Picasso de fraldas. O Museu do Filho tem uma fanpage na qual, além das obras, a Tetê dá dicas de exposições, arte e cultura pelo mundo afora. Há também uma conexão entre artistas, que participam contando dos seus começos, tropeços e experiências.

O Museu do Filho está no Facebook, no Instagram e no Pinterest, cumprindo a sua missão de aproximar a arte dos adultos do olhar infantil e a arte infantil do olhar adulto. É lindo de ver. É emocionante de participar.

A dama do perfume - Liberato Vieira da Cunha

Zero Hora - 16/092013


Vês estes campos em cujo horizonte já avança a cidade que outrora foi pequena? Vês estas colinas em cujo topo se erguem duas ou três chaminés e onde antes só havia a voz do vento compondo sua música ancestral? Vês aquele último trecho de mata, que em outra época foi uma grande floresta habitada por pássaros sem nome? Pois foi aqui que aconteceu.

Aconteceu nesse tempo muito anterior de que te falo, com um homem que não conheci. Tudo aqui era diverso, exceto por esta grande casa, que então se erguia solitária, num mudo desafio à paisagem. Tudo era diverso, descontando as figueiras que têm dois séculos e que já então se elevavam sobre uma vasta extensão de sombra.

O homem se havia refugiado nesta casa tão logo finda uma ida guerra e seus sonhos se povoavam ainda de batalhas e por vezes despertava em meio à treva como se as vozes dos mortos o chamassem.

Foi numa dessas insônias que sentiu o perfume que vinha de nenhuma parte e, com um castiçal, foi percorrendo cada lance da grande casa, o salão deserto, os quartos vazios, a escadaria em que se viam as marcas de um fogo desde sempre contido, a peça ao alto, sobranceira a tudo, onde numa parte esquecida de sua existência havia composto seu único poema. E então o perfume desapareceu.

Aquilo se reprisou por outras noites e outras insônias e novas guerras e batalhas povoadas das vozes dos mortos e o homem já não dormia, inquieto, perguntando se não era ela que então lhe voltava, mas não ousava crer que, há tanto tão perdida em seu passado, lhe pudesse retornar, já que não havia mais esperança habitando seu mundo e sua alma.

– Como será ela agora? – pensava, e tornava a andar pela casa deserta como um náufrago em fero mar, perdido o lenho, e buscava lenimento em reinventá-la, nua e sua, no quarto da cama com dossel de idas idades.

Teria olhos azuis, ou garços, ou mel, a senhora de todos os seus desejos, a que agora lhe roubava as noites com seu perfume e o sono com suas lembranças? E o homem não encontrava respostas para esse claro enigma e a chama do castiçal se desvanecia em suas mãos com a alba.

E, uma noite, mais forte lhe veio o perfume e ele abriu a porta do quarto da cama com dossel e lá estava ela, enovelada em sua pele alva e em seus cabelos dourados, e um ao outro se deram, e assim os acharam, muitos anos depois, extintos, abraçados em desejos antes interditos, em infinitos jogos de entrega e posse, que foi quando esta lenda verdadeira principiou.

Julgamento sem pedagogia - Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico - 16/09/2013

O julgamento do mensalão não mudou a opinião de quase ninguém sobre o caso. Falhou em seu papel pedagógico. Por quê?


Esta semana saberemos se terminou o processo do mensalão ou se ele comportará uma espécie de instância recursal. Ao contrário do que quase todos sustentam, creio que o melhor cenário para, pelo menos um dos acusados, é não ter apreciado seu recurso. Exporei por que e direi qual acusado.

O julgamento, embora longo, não mudou a opinião das pessoas. Teria sido um sucesso pedagógico se os favoráveis aos acusados ou em dúvida sobre sua culpa ficassem convencidos de que eles mereciam ser condenados. Alguém pode ser petista e continuar sendo, mas se persuadir, por provas e argumentos, de que líderes de seu partido agiram mal.

Só que isso não sucedeu. Fui atrás. Conversei, usei o Facebook, indaguei. Você mudou de opinião em função do julgamento? Entender a pergunta já era difícil. A maior parte reclamava dos crimes dos corruptos petistas ou do caráter tendencioso do julgamento. Quando eu refazia a pergunta, descendo à terra, à banal questão: mudou de ideia graças ao que ouviu?, verificava que não tinham mudado. Disso fica a constatação de que o julgamento falhou numa função básica da Justiça, e sobretudo da TV Justiça, que é convencer, especialmente os neutros ou os reticentes, de que justiça foi feita. Por quê?

Julgar os embargos dará mais peso à sentença final

Um intervalo sobre a divergência na democracia. Sabemos que na democracia deve prevalecer a vontade do povo e que a melhor forma de apurá-la é identificá-la à voz da maioria. Mas um elemento sutil da democracia, nem óbvio nem trivial, é: quem legitima a vitória do candidato vitorioso são os partidários dos derrotados. Não basta ganhar com a maior parte dos sufrágios. É preciso que o eleitor derrotado concorde, ainda que de má ou péssima vontade, que perdeu. Não há democracia que funcione sem esse acordo, que no fundo significa: primeiro, as regras do jogo foram respeitadas; segundo, essas regras são justas; terceiro, um dia eu posso ganhar.

Por isso o Brasil vai melhor que a Venezuela. Desde a vitória de Hugo Chávez em 1998, a cada pleito a oposição venezuelana denuncia fraude e nega legitimidade ao vencedor. Isso é um desastre institucional. Daí à desobediência civil, daí mesmo à rebelião, é um passo. Não importa quem tenha razão ou não: com isso o governo precisa das baionetas, para se manter, mais do que o desejável. Um apagão, em vez de falha técnica ou falta de investimento, vira crime, ato de traição - como estamos vendo.

No Brasil, não temos isso. Lula aceitou duas vitórias tucanas, o PSDB reconheceu três petistas. E isso depois de Collor se eleger, em 1989, deslegitimado pela oposição. O fato de recorrer a um golpe sujo no final da campanha, acusando Lula de tentativa de aborto, deu-lhe a vitória, mas lhe custou a reputação. Os escândalos que derrubaram Collor da Presidência, três anos depois, só completaram essa falha de legitimidade inicial.

Volto ao julgamento do mensalão, e retomo o ponto: na hora em que um julgamento tem forte impacto político - porque entre os réus estão o ex-primeiro-ministro (de fato) e o ex-presidente do partido do governo - é fundamental se ter a sensação de que foi feita justiça. Vencer no voto não basta. É necessário mostrar que o réu teve todas as oportunidades de se defender. Não se pode dizer que é do réu o ônus da prova, como afirmou um dos juízes. Nem ofender quem vota diferentemente do relator.

Recomendo um episódio da série "Law and Order", de nome "Jihad americana", em que é julgado um muçulmano fanático. Ele ofende a juíza e difama os judeus - mas a própria magistrada lhe garante o direito de falar, afirmando que a defesa deve ter liberdade de expressão maior que a acusação. Isso fará uma condenação final ser mais convincente, mais reconhecida. Ou, aqui, o julgamento dos Nardoni, acusados de matar a filha do réu. Foi horrível a defesa pedir que a mãe da menina assassinada fosse retirada do plenário e mantida incomunicável. Mas o juiz deferiu o pedido, para cortar pela raiz qualquer ulterior alegação de cerceamento da defesa. É isso o que convence os não convencidos.

Como os próprios defensores da punição presta e severa dizem que o julgamento é político, eu afirmo: político é dar a máxima chance de defesa aos réus, não só porque individualmente têm esse direito, mas porque apenas assim a sociedade se convence de sua culpa. Não sendo assim, a sociedade sai do julgamento como entrou: uns os acham inocentes vítimas, outros detestáveis culpados, e outros, ainda, discordam do que acham ter sido um teatro. Não ganha a Justiça.

E quem talvez mais ganhe seja José Dirceu. Ele, mesmo condenado, tem planos. A seu modo, repetirá o discurso de Fidel Castro em 1953, diante dos tribunais do ditador Batista, "A História me absolverá". Não importa que lá fosse uma ditadura e, aqui, uma democracia. É que, justamente porque o julgamento foi convertido em acusação ao PT como um todo, em projeto de criminalizar o partido inteiro do governo, ele falhou. Dirceu nunca será presidente da República, mas lhe deram de presente a politização do julgamento. Ou seja, a conversão do processo do mensalão em processo político. Neste campo, ele tem condições de refazer sua biografia. Certamente, isso é o que seus inimigos menos queriam. Mas eles lhe ofereceram isso ao fazer, de um julgamento que devia ter um foco preciso, uma guerra.

Contudo, se os embargos infringentes forem admitidos, se a defesa for apreciada, ficará mais difícil alegar-se que o processo foi político ou injusto. Dar aos réus o direito de contestar as sentenças, quer sejam as penas mantidas ou reduzidas, protegerá a sentença final da acusação de ter sido política e não jurídica.