sábado, 5 de outubro de 2013

A sapolândia é aqui‏

Biólogos da UFV descobrem novos sapos em Minas, reforçando liderança do país em número de espécies. Além do potencial farmacológico, achados podem ajudar a criar áreas de preservação


Shirley Pacelli

Estado de Minas: 05/10/2013 




Aparasphenodon pomba, perereca encontrada em Sinimbú, Cataguases, na Zona da Mata mineira  (Clodoaldo Lopes de Assis/Divulgação)
Aparasphenodon pomba, perereca encontrada em Sinimbú, Cataguases, na Zona da Mata mineira

Das cinco da manhã até meia-noite, no meio da mata à procura do desconhecido. Poderia ser o roteiro de um filme de aventura, mas foi a rotina de vários meses do pesquisador Clodoaldo Lopes de Assis, de 33 anos, do Museu de Zoologia João Moojen, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Clodoaldo descobriu uma espécie de perereca – Aparasphenodon pomba – na localidade chamada Sinimbú, no município de Cataguases, na Zona da Mata mineira. O artigo científico resultante da novidade foi publicado há 15 dias na revista Zootaxa, da Nova Zelândia. O nome do anfíbio homenageia o Rio Pomba, na região. Além de Cloadoaldo, Leandro Braga Godinho, de 30, pesquisador da mesma instituição, encontrou na Bacia Hidrográfica do Médio São Francisco um sapo não descrito na literatura: o Proceratophrys carranca.


O primeiro exemplar da Aparasphenodon pomba foi encontrado em 2008, mas só neste ano Clodoaldo conseguiu reunir a quantidade mínima de oito animais, exigida para o estudo, a fim de atestar que não se trata apenas de um bicho comum com alterações quaisquer. A perereca tem entre cinco e seis centímetros e, como ele conta, parece uma onça: dourada, com manchas bege e olhos vermelhos. O pesquisador comparou o animal com todas as espécies do gênero, encontrando diferenças significativas tanto na coloração quanto na morfologia interna. 


Peneira, lanterna, máquina fotográfica, gravador e caderno para anotações foram as ferramentas de campo do biólogo Clodoaldo Assis ao descobrir a Aparasphenodon pomba, considerada por ele uma espécie difícil de ser observada e capturada. “Ela vive em bambuzais e no período chuvoso tem hábitos reprodutivos explosivos. Reproduz-se em um pequeno período, quando está chovendo, e depois some, volta para seu refúgio”, diz. O próximo passo, segundo ele, é encontrar o animal se reproduzindo, gravar seu canto e achar o girino, para aprofundar os estudos sobre a espécie.


Morador de Cataguases e profissional da área científica há sete anos, Clodoaldo conta que desde novo andava mato afora em meio aos animais. Seu pai foi policial florestal e ele sempre deu apoio aos agentes da instituição que estavam em campo. O pesquisador vê na descoberta uma oportunidade para levantar a bandeira da preservação. Ele conta que só existe uma unidade de conservação em sua cidade e que encontrar uma nova espécie em outro trecho de mata é um subsídio para criar uma nova unidade de conservação. 


A localidade onde a perereca foi descoberta é uma área particular, de uma empresa que faliu, e disputada por diversas pessoas. “De uma hora para outra essa mata pode sumir. Com a descoberta, é possível proteger a área em alguma categoria estabelecida por lei”, explica o biólogo. Além disso, outro benefício esperado pelo pesquisador é o interesse de outros cientistas em estudar espécimes na região, ainda muito carente de pesquisas.

No Velho Chico Morador de Buritizeiro, mas nascido em Pirapora (a 11 quilômetros de distância), no Norte de Minas, o pesquisador Leandro Braga Godinho fez da região ponto referencial de coleta para seu mestrado em biologia animal. O trabalho de descrição do Proceratophrys carranca foi publicado em junho na Salamandra Journal, importante periódico científico de herpetologia da Alemanha. Ele conta que encontrou o animal por sorte, “praticamente no quintal da fazenda da avó”. Depois de um dia todo no campo, já na fazenda, ouviu um canto peculiar, similar a um ganso grasnando, e foi atrás. Acabou descobrindo a nova espécie. O nome escolhido é uma homenagem ao Rio São Francisco. A carranca é uma escultura colocada na proa das embarcações para afastar mau agouro, e se transformou em símbolo do Velho Chico.


O sapo tem pele rugosa, formada por pequenos grânulos (verrugas), é de médio porte (40mm), tem hábitos noturnos e terrestres, sendo encontrado embaixo de folhas ou quase enterrado próximo a pequenos riachos, em matas de galerias, durante o período chuvoso. O canto do Proceratophrys foi de fundamental importância para sua descoberta, pois ele é uma das principais características na diferenciação de outras espécies. “Fui feliz em encontrar o Proceratophrys carranca. Falta estudo sobre a fauna de Buritizeiro, assim como de todo o Norte de Minas Gerais. Há muitas espécies a serem descobertas na região do São Francisco. Esse novo sapo foi só um indício disso”, afirma.
A ausência de registros científicos foi a principal motivação do pesquisador ao estudar a região. “Só existe a Unimontes como instituição de ensino superior na região. Na Universidade Federal de Minas Gerais, os trabalhos são voltados para o entorno de Belo Horizonte e a UFV se concentra mais em pesquisas na Zona da Mata”, ressalva Godinho.


O primeiro exemplar da espécie foi encontrado ainda em 2011, mas era preciso ter certeza que se tratava de um animal desconhecido e nunca descrito na literatura científica. Há 10 espécies do gênero Proceratophrys no país, sendo um sapo de Goiás muito semelhante ao P. carranca. Mas Leandro comparou o sapo com outros de coleções da Federal de Viçosa e de demais regiões do Brasil e atestou que se tratava de uma nova espécie. “Isso indica o quanto a biodiversidade da região é rica e que é preciso investir mais em pesquisas e, claro, em áreas de conservação, pois a região tem forte atividade agrícola”, lembra.

Riqueza da biodiversidade

Ambas as dissertações foram orientadas pelo professor Renato Neves Feio. Ele explica que o Brasil é o país com maior número de sapos do mundo – mais de 950 espécies já descritas pela literatura científica. Mas ainda há muito a descobrir, sobretudo em regiões pouco estudadas, como o Norte de Minas Gerais. “A identificação de novas espécies é um indicador da riqueza da biodiversidade de uma região e um motivo a mais para preservá-la”, afirma Renato.
O professor também comenta que há estudos recentes mostrando que a pele dos sapos, por onde eles secretam venenos, pode esconder compostos para novos medicamentos como antibactericidas e antimicrobianos. “Dizemos que são bichos medicinais numa analogia às plantas curativas. O que importa é que cada nova espécie sugere estudos que podem ser promissores para a humanidade”, disse.
A equipe do Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa já identificou sete novas espécies da ordem Anura. A universidade guarda também uma das maiores coleções de anfíbios do país. São mais de 950 espécies de cobras, sapos, rãs, pererecas e salamandras.

Anuros
Os anuros são anfíbios que não têm cauda. Há diferenças significativas entre sapos, rãs e pererecas. O sapo tem a pele rugosa, pernas curtas e glândulas de veneno atrás do olho. Já a rã/jia tem a pele lisa e brilhante, além de pernas compridas, enquanto a perereca é menor que os dois, tem olhos esbugalhados e discos digitais para ajudar a subir nas árvores. Os anuros fazem o controle de pragas, como os insetos, dos quais se alimentam. Além disso são indicadores da qualidade do ambiente (bioindicadores), pois são muito sensíveis a qualquer alteração ambiental. Geralmente, os sapos têm reprodução sazonal, durante a estação chuvosa. É nessa estação que começam a aparecer os insetos, fonte farta de alimentação. Os machos coaxam para atrair as fêmeas e cada espécie tem um canto único.

Descendente de escravos luta para tirar crianças do abandono‏

MINEIROS DE OURO » A mãe de todos Descendente de escravos luta desde jovem para manter tradições herdadas dos pais e avós e tem orgulho do trabalho que desenvolve pela cidadania e para tirar crianças do abandono


Simone Lima

Estado de Minas: 05/10/2013 


"Sete crianças achei na Praça Sete, em BH, abandonadas, vivendo nas ruas não sei há quanto tempo. Crianças que acabariam sem futuro. Peguei para criar e dar amor. Tenho filho preto e filho branco, mas são todos filhos" - Sebastiana Geralda Ribeiro

Bom Despacho – Aos 77 anos, Sebastiana Geralda Ribeiro continua sendo guerreira: enfrenta obstáculos, supera-os e transforma a dificuldade em aprendizado. Essa é a lição de vida dessa mineira, descendente de escravos, que há mais de meio século luta para que o negro tenha orgulho de suas origens. Dona Tiana, como é conhecida em Bom Despacho, Centro-Oeste de Minas, travou uma batalha para melhorar as condições de vida da comunidade na qual mora. Mais de 60 crianças e adolescentes são beneficiados com ações sociais do Quilombo dos Carrapatos, realidade possível graças a essa mulher, que não teve medo de lutar pelo seu povo.

Portão aberto, fogão a lenha sempre aceso, cantoria e devoção. É assim na casa de Dona Tiana. Difícil saber quem mora ou não na residência, tamanha a intimidade dos amigos e vizinhos. No bairro Ana Rosa, também conhecido como Comunidade da Tabatinga, não tem pessoa mais conhecida. Com sorriso largo e simpatia, ela conta sua história. Aos 2 anos, Sebastiana saiu da casa dos pais, em Bom Sucesso, para viver em Bom Despacho com a avó. Chegou a se casar, mas ficou viúva aos 36, com 14 filhos: sete dela e outros sete de criação. “Sete crianças achei na Praça Sete, em BH, abandonadas, vivendo nas ruas não sei há quanto tempo. Crianças que acabariam sem futuro. Peguei para criar e dar amor. Tenho filho preto e filho branco, mas são todos filhos.”

Tiana trabalhou muito e viveu em várias casas até comprar um terreno na Tabatinga, lugar que antigamente era um quilombo, onde escravos se escondiam de fazendeiros. “Quando mudei para cá, na década de 1950, o povo tinha medo até de passar pela Tabatinga. Diziam que havia muitos ladrões aqui. Gente ruim. Mas não era. Eram negros fujões, os filhos e netos deles, descendente de escravos assim como eu.”.

Não chegou a frequentar escola, mas sabe ler, escrever e tem histórias guardadas na lembrança. Algumas tristes, como a da tia, que era escrava e teve a mão queimada pela sinhá porque havia provado um pouco de melado. Outras de pura superação, como quando formou um grupo de escola de samba na Tabatinga e confeccionou figurinos para 800 pessoas em 10 dias e 10 noites. “Minha amada Estrela de Ouro! Trouxe todo mundo para treinar no meio do mato. Quando parávamos, havia terra no olho, no cabelo, em todo os lugares. Mas foi assim, com a escola sacudimos Bom Despacho e abrimos a porta da Tabatinga para a arte.”

Uma das poucas mulheres no Brasil a comandar uma guarda de reinado, Tiana é capitã, há 75 anos, da guarda do Reinado de Moçambique e São Benedito. Na família, até os pequenos acompanham e sabem de cor a letra dos hinos, que falam do sofrimento e da fé do escravo. “O que mais me deixa chateada é que o negro, por mais bonito que faça, é visto como macumbeiro ou feiticeiro, nunca como artista. O congado é nossa cultura, arte, devoção. Tento manter tudo vivo dentro da família e na comunidade. Meu sonho é reunir todos os reinados da região.”


Dona Tiana, como é conhecida em Bom Despacho, Centro-Oeste de Minas, travou uma batalha para melhorar as condições de vida da comunidade na qual mora.  (NANDO OLIVEIRA/ESP EM/D. A PRESS)
Dona Tiana, como é conhecida em Bom Despacho, Centro-Oeste de Minas, travou uma batalha para melhorar as condições de vida da comunidade na qual mora.
 QUILOMBO Dona Tiana dedicou a vida ao fortalecimento da tradição de seu povo e foi por inspiração na cultura negra que surgiu a Associação dos Quilombos de Bom Despacho, que promove cursos profissionalizantes para crianças e jovens da Tabatinga. Hoje, mais de 60 meninos e meninas, com até 17 anos, têm aulas de estampa em silk, oficinas de bonecos, informática e confecção de tapetes e peças em fuxico. Tiana lembra que nem sempre foi assim: “Quando vim para cá, isso era ponto de prostituição. Já saí correndo atrás de carro, jogando pedra para não levarem as meninas. Não digo que tirei todas dessa vida, mas muitas hoje são mães de família, trabalham e até se formaram na faculdade”.

Durante 22 anos, Tiana foi presidente da Associação do Bairro Ana Rosa. Graças a ela, mais de 90 famílias contam com água tratada, esgoto, energia elétrica, escolas e seu grande orgulho: a creche municipal. “Isso era tudo mato. Ajudei a melhorar aos poucos. Pedi aos prefeitos e as coisas começaram a dar certo. Mas não foi fácil. Já fiquei parada até na porta do Congresso para ser atendida e alguém me escutar.”

Tiana recebeu títulos em muitas cidades da região e, em 2005, foi homenageada na Assembleia Legislativa. Mas para esta neta de escravos, o que mais importa é ver família e amigos reunidos na cozinha, em torno de uma mesa farta e perceber que a luta valeu a pena. “Meus filhos tiveram estudo e os netos também estão nesse caminho. Felicidade para mim é ver a nossa associação funcionando, pedindo ajuda e lutando sempre. Hoje, conto com meus filhos para ajudar nesse trabalho. Quero melhorar muito ainda a vida desse povo.” 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Eternamente 'femme fatale' - Elaine Guerini

Valor Econômico - 04/10/2013
Collet Guillaume/SIPA/Newscom / Collet Guillaume/SIPA/Newscom

"Quem nunca viveu uma paixão (...) daquelas em que o casal não consegue ficar junto nem se separar não sabe o que é o amor"


De todos os longas-metragens que rodou, quase 70, Fanny Ardant nunca se esqueceu de "A Mulher do Lado" (1981), sua primeira incursão pelo universo do diretor François Truffaut (1932-1984). "Talvez Mathilde Bauchard, minha personagem no filme, ainda me assombre tanto por ter sido a mais próxima de mim de toda a minha carreira. Por escolher ver a vida por um ângulo trágico, sempre acreditei ser possível morrer de amor. Não necessariamente a morte física, mas a da alma, que é ainda mais triste", diz a francesa de 64 anos, projetada mundialmente ao estrelar com Gérard Depardieu a história dos amantes que se reencontram e caem novamente nas armadilhas que os afastaram anos antes. A atuação rendeu a Fanny sua primeira indicação para o César, o Oscar francês. "Quem nunca viveu uma paixão sem remédio, daquelas em que o casal não consegue ficar junto nem se separar, como em 'A Mulher do Lado', não sabe o que é o amor."

Por já não receber tantos convites para filmar romances ("como se os sexagenários perdessem a capacidade de amar", diz), Fanny disse um sonoro "sim" quando a cineasta francesa Marion Vernoux a chamou para rodar "Os Belos Dias". Uma das atrações da 15ª edição do Festival do Rio, que ocorre até quinta-feira, o drama segue os passos de Caroline, uma dentista forçada a se aposentar. Com a agenda livre pela primeira vez na vida, ela tenta ocupar o tempo num clube para a terceira idade. Mas em vez de se dedicar às aulas de teatro ou de computação, Caroline inicia um caso extraconjugal com um professor com idade para ser seu filho (Laurent Lafitte), o que desencadeia o seu redespertar erótico.

Depois da passagem pelo Rio (com exibições neste sábado, às 13h30 e 21h45, no Estação Rio 1), o filme estreia no circuito comercial brasileiro no dia 11.

"O que mais me fascina na personagem é o seu espírito livre, a ponto de se lançar no romance, ainda que ela ame muito o seu marido [interpretado por Patrick Chesnais]", afirma a atriz. "As tramas que envolvem traições no cinema de hoje muitas vezes tentam pateticamente justificar a ação, com um casamento infeliz, por exemplo. Ninguém considera que uma mulher pode decidir viver um tórrido caso simplesmente em nome do desejo e do prazer."

Para Fanny, o filme trata da "disposição para abraçar a vida intensamente", o que segue na contramão do conformismo, "algo que se espera de uma mulher de mais 60 anos". "Quando amamos a vida, estamos abertos e aceitamos o que ela nos propõe, por mais maluca que seja a oferta. O que costuma nos impedir de viver, independentemente da idade, é o medo. Seja o medo das consequências dos nossos atos ou do julgamento que os outros farão de nós. Felizmente, vivi tudo o que pude e nunca liguei para a opinião da sociedade", diz a atriz, que foi a última companheira de Truffaut, com quem teve uma filha, Josephine, de 30 anos.

"François foi o homem da minha vida", afirma Fanny, que também rodou "De Repente num Domingo" (1983) com o diretor da nouvelle vague. Antes dele, ela foi mulher do ator francês Dominique Leverd, pai de sua primeira filha, Lumir, de 37 anos. Depois de Truffaut, ela viveu com o produtor italiano Fabio Conversi, pai de sua terceira filha, Baladine, de 23 anos. "Quando impomos regras a nós mesmos, a existência vira um tédio. Só recebe os presentes da vida quem está de coração aberto. É melhor se machucar do que deixar de viver."

O fato de Fanny ser um ícone do cinema francês ou ter a imagem eternamente associada à da "femme fatale" nunca influenciou as suas escolhas nas telas. "Sempre acho que estão falando de alguém que não conheço quando falam de mim. Nunca fiz esforço para projetar isso ou aquilo com as personagens que interpretei. Sempre gostei de ser uma mulher contraditória, o que me libertou imensamente", comenta. "Talvez por isso eu nunca tenha ousado me engajar na política, apesar da minha inclinação pelos partidos de esquerda. Ainda que os políticos estejam totalmente desacreditados hoje em dia, o discurso ainda exige certa coerência. Só que a vida não é assim. Viver é, muitas vezes, administrar sentimentos e pensamentos opostos."

O olhar curioso e a leveza para encarar a profissão como "um jogo" foram qualidades determinantes na longevidade de sua carreira, na visão de Fanny. "Como atriz, nunca me levei a sério demais." Todos os prêmios que conquistou (como o César por "Loucas Noites de Batom", em 1996), ao longo de mais de 30 anos nas telas, nos palcos e nos estúdios de TV, foram encarados como "prazeres de criança". "Recebi os troféus como se eu fosse uma garotinha diante de um sorvete. Sempre tomei na mesma hora por saber que aquilo não duraria para sempre. A maior recompensa sempre foi o fato de eu ganhar a vida fazendo o que mais amo. Não há luxo maior."

Embora a paixão pela atuação continue intacta, Fanny volta a se arriscar atrás das câmeras com "Cadences Obstinées", produção francesa de baixo orçamento que ela acabou de filmar em Lisboa. A atriz estreou como cineasta em 2009, com "Cinzas e Sangue", sobre uma viúva exilada no sul da França que decide retornar à Romênia para o casamento da prima. "De todos os cineastas com quem trabalhei, os que mais me marcaram foram os que filmaram com paixão, como Truffaut, Ettore Scola e Michelangelo Antonioni. E é isso que eu procuro imitar, antes de mais nada. Uma filmagem precisa ser como um bom caso de amor: rápido e intenso", afirma, abrindo um sorriso.

Para gritar "ação!" pela segunda vez num set, Fanny escolheu uma trama que ela mesma escreveu. Com estreia prevista em dezembro na França, "Cadences Obstinées" retrata a trajetória de um arquiteto obstinado em restaurar um antigo hotel em ruínas, enquanto seu casamento com uma violoncelista desmorona. "Sempre quis contar o fim de uma história de amor com o mesmo empenho com que cineastas costumam narrar o começo. Enquanto o hotel é construído, a relação é desconstruída." À medida que o dia da inauguração se aproxima, um abismo nascerá entre o casal, vivido pela italiana Asia Argento e pelo português Nuno Lopes. "Para mim, não há nada mais doloroso do que testemunhar a morte de um grande amor."



O gigante fragilizado

Valor Econômico - 04/10/2013

 Luciano Máximo e Viana de Oliveira

Especialistas debatem o futuro do SUS, uma promessa da Constituição que confronta a adversidade há 25 anos.

Em 25 anos de história, completados em outubro deste ano, o Sistema Único de Saúde (SUS) está longe de observar os princípios que orientaram sua criação e seu funcionamento, conforme foi estabelecido na Constituição de 1988: ser universal, integral e igual.

Especialistas em saúde pública reconhecem limitações nas áreas de atendimento, gestão, financiamento e participação social, mas consideram o SUS o melhor modelo de saúde pública para o país. Para que um SUS melhor seja realidade, porém, recomendam mudanças, a começar pelas que aumentem a capacidade de investimento do sistema.

Para fazer o balanço do primeiro quarto de século de existência do SUS, o Valor realizou um debate entre o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, superintendente do Hospital Sírio-Libanês, o diretor-presidente do Instituto Performa, Bernard Couttolenc, e o professor Mário César Scheffer, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

"O maior problema é o subfinanciamento crônico. O SUS foi pilhado desde a origem, faz milagre com o pouco que tem. Países com sistemas universais, nos quais o SUS se inspirou, reservam, em média, 7% do PIB para a saúde pública. No Brasil, são 3,6%. Estamos numa encruzilhada", questiona Scheffer.

Especialista em economia da saúde, Couttolenc afirma que a oferta de serviços a 100% dos brasileiros é inviável. Uma saída para o SUS, diz ele, seria aprimorar a integração com a iniciativa privada, que investe mais em saúde que o setor público. "A promessa do SUS me parece inviável, política e economicamente. Ninguém conseguiu fazer isso. Nem Inglaterra nem Canadá, ninguém promete tudo de graça para todos. Isso passa pela discussão do papel relativo do setor privado no SUS. Não há recursos suficientes para dar conta de 200 milhões de pessoas."

Temporão é enfático ao discordar: "No Canadá ou na Inglaterra, todos os cidadãos são obrigados a passar pelo clínico geral do serviço público, do peão ao presidente. Temos que discutir qual modelo queremos. O que aconteceu para não termos o SUS que queremos? Desde o início, os setores do operariado, na retórica, apoiavam o SUS, mas na prática promoviam o plano de saúde privado por categoria no acordo coletivo de trabalho. Isso fragiliza a força política e estratégica do SUS até hoje."

Vecina lembrou que saúde foi uma das principais demandas projetadas nas manifestações de junho. Portanto, o SUS não teria outra saída, a não ser buscar a eficiência. "A sociedade brasileira nunca deu bola para eficiência, mas hoje ou a gente é mais eficiente ou não tem saída. Tem um conjunto de arranjos possíveis que temos que discutir", acrescentou o médico, referindo-se a parcerias com o setor privado e opções para elevar o investimento público no SUS.

A seguir, os principais trechos do debate.

Valor: Como se compara o atual SUS com a saúde pública antes de 1988? É possível enxergar uma evolução nesses 25 anos e fazer um balanço daquilo que não deu certo?

José Gomes Temporão: O SUS é um sucesso estrondoso. Sem ele, estaríamos numa situação de barbárie social, em que cada um teria a saúde que pudesse pagar no mercado. Os demais países olham o Brasil como a experiência mais interessante das últimas décadas. O SUS surgiu no contexto da luta política contra a ditadura. Havia um forte olhar para mudanças estruturais, que modificassem o padrão de saúde. A melhora nos indicadores de saúde são impressionantes: expectativa de vida ao nascer, mortalidade infantil, controle de doenças infectocontagiosas, redução da mortalidade de doenças crônicas. Na atenção à saúde individual, os resultados são heterogêneos. Houve coisas importantes, como o Programa Nacional de Imunização - é, disparado, o melhor do mundo. O Brasil é o país onde mais transplantes de órgãos são feitos, depois dos Estados Unidos. O SUS está fragilizado por questões macroestruturais, que foram se acumulando ao longo dessa trajetória. Chamaria a atenção para quatro ameaças: disputa político-ideológica, financiamento, a questão do modelo assistencial e gestão.

Gonzalo Vecina Neto: É importante olhar o passado. Parece que o SUS é uma ruptura, mas não é. O sistema de saúde está inserido no processo de urbanização e industrialização do Brasil. Na década de 1970, só as capitais tinham Secretaria Municipal de Saúde. No início dos anos 1980, 90% da população urbana tinham acesso à Previdência Social. Em 1986, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, surge a ideia do SUS, mas ele já estava em gestação. Não tem ruptura na construção do que a sociedade brasileira tem hoje; nem no setor privado, que nasce nos anos 1950 em torno do Iapi [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários], que não conseguia dar atenção adequada aos operários.

Temporão: Antes do SUS, 90% da população urbana, que constituía 40% da população, tinham garantia de algum tipo de atenção. E os outros? Eram objeto de caridade e morriam à míngua. Era natural morrer sem assistência. Isso mudou radicalmente.

Bernard Couttolenc: O SUS representa um ponto de inflexão, embora seja fruto de um processo evolutivo, político. Não se pode comparar diretamente o SUS com a situação anterior. Em algumas áreas, houve uma revolução. Em outras, houve avanços. Há algumas em que se avançou muito pouco.

Valor: Mas foi um "sucesso estrondoso"?

Couttolenc: Não diria isso. Um aspecto que o SUS revolucionou foi a lógica do sistema de saúde. Antes, não havia um sistema, mas uma coleção de subsistemas fragmentados. Hoje, temos um desenho claro e estruturado. Há um planejamento unificado em saúde pública. Mas um sistema que se quis único e universal não conseguiu ser isso. A parte privada ficou de fora e cresceu. Outro ponto de inflexão é a alocação de recursos. Antes do SUS, 90% dos recursos iam para atenção curativa, principalmente hospitalar. A partir dos anos 1990, priorizou-se a atenção primária. Isso se reflete nos indicadores de saúde. Na atenção secundária e terciária, as comparações são mais complexas. O Brasil era muito atrasado em indicadores de saúde, mas recuperou bastante terreno. É resultado do SUS? Não só. Junto com o SUS, houve uma série de mudanças importantes que afetam os indicadores de saúde. A redução das desigualdades sócioeconômicas, por exemplo. O nível de renda da população de baixa renda melhorou bastante. A melhoria no acesso à água e ao saneamento também seriam importantes.

Mário César Scheffer: O SUS é um projeto de inclusão. Se analisarmos a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) antes do SUS e hoje, mais que dobrou o acesso da população a serviços de saúde. Antes do SUS, as pessoas tinham acesso de acordo com sua capacidade de pagamento ou inserção no mercado de trabalho. Aos 25 anos, o SUS é um projeto viável. Só não podemos deixá-lo morrer por causas externas. É um projeto incompleto. Não foram dadas condições para efetivar o SUS constitucional, mas o SUS adquiriu uma base legal sólida e uma experiência técnica operacional enorme. O problema do SUS é a sustentabilidade política e financeira. Ele não se tornou uma política de Estado. O SUS tem problemas de gestão. Temos dificuldades de acesso e, quando o paciente acessa o serviço, não tem seu problema resolvido. Mas seu maior problema é o subfinanciamento crônico.

Valor: Nesses 25 anos, o SUS sofreu alguns "golpes", com prejuízo para seu financiamento.

Scheffer: Foi pilhado desde a origem. A Constituição diz que o SUS deveria ter 30% do orçamento da Seguridade Social. Se isso estivesse vigorando hoje, seriam R$ 195 bilhões. O orçamento federal do SUS está em R$ 84 bilhões. Perdemos a base de cálculo das contribuições sociais, da folha de pagamento, depois tivemos a extinção da CPMF, a criação da DRU [Desvinculação das Receitas da União]. O SUS faz milagre com o pouco que tem. Os países com sistemas universais, nos quais o SUS se inspirou, reservam, em média, 7% do PIB para a saúde pública; o Brasil investe 3,6%. Estamos numa encruzilhada. Não vislumbramos o SUS como sistema universal, como diz a Constituição. Mas também não podemos vislumbrar um sistema predominantemente privado como o chileno, o colombiano ou o americano, que são fracassos estrondosos. O alento está nas manifestações de rua de junho, pedindo serviços públicos de qualidade, principalmente serviços de saúde.

Couttolenc: Um ponto central é o financiamento. O SUS, legalmente, foi desenhado como um sistema que ofereceria tudo para todos de graça, e não houve condições políticas e econômicas para assegurar um financiamento compatível. Não conheço nenhum país em desenvolvimento, com o nível de renda do Brasil, cujo sistema de saúde consiga oferecer tudo para todos de graça.

Valor: O SUS deveria ser menos ambicioso?

Couttolenc: A promessa do SUS me parece inviável, política e economicamente. Ninguém conseguiu fazer isso. Nem a Inglaterra nem o Canadá, ninguém promete tudo de graça para todos. Isso passa pela discussão do papel relativo do setor privado dentro do SUS. Não há recursos suficientes para dar conta de 200 milhões de pessoas.

Scheffer: Temos um sistema peculiar. Constitucionalmente universal, mas uma estrutura de gastos com predominância privada. Temos pouco mais de 8% do PIB para saúde, mas 60% desses recursos são privados. Essa é a raiz da desigualdade e da dificuldade em efetivar a universalidade proposta pelo SUS. Não acho que devamos abdicar desses pilares. Temos é que conversar, inclusive em praça pública, sobre as contas da saúde.

Valor: O povo não percebe o SUS como um sucesso estrondoso. Se outros países se inspiram no Brasil, por que a população vê outra coisa?

Temporão: Como se dá o processo de construção da consciência em saúde coletiva na sociedade? Como a população avalia um sistema de saúde? Pelo contato diário, concreto. Discordo da ideia de que o SUS é inviável política e economicamente. Depende do sistema que se quer montar. Não temos uma porta de entrada única, como no Canadá ou na Inglaterra, em que todos os cidadãos são obrigados a passar pelo clínico geral. Temos que discutir que modelo queremos. O que aconteceu para não termos o SUS que queremos? Primeiro, financiamento. Segundo, desde o início, os setores do operariado, na retórica, apoiavam o SUS, mas na prática promoviam o plano de saúde privado por categoria no acordo coletivo de trabalho. Isso fragiliza a força política e estratégica do SUS até hoje.

Couttolenc: Quando digo que tem um conflito entre a promessa do SUS e o volume de recursos necessário e quando também falo de viabilidade econômica, não estou questionando a existência do SUS. Ele precisa ser adaptado em várias questões. Não faz sentido, por exemplo, ter o SUS e o sistema privado completamente separados. E tem o chamado racionamento. Qualquer país na área de saúde raciona o acesso a serviços.

Scheffer: Aí perde-se o teor de integralidade.

Couttolenc: Dá para garantir integralidade apesar disso. Em todos os sistemas existe algum racionamento. Ou de maneira clara, com regras explícitas, ou por omissão. Quem pode, pode. O exemplo mais truculento é o sistema americano. Países europeus e o Canadá racionam atendimento em função de um critério de custo e efetividade.

Temporão: A diferença desses países para o Brasil é que lá a racionalidade vale para todos, sem exceção. Do presidente ao operário.

Couttolenc: É a vantagem dos critérios objetivos. A sociedade brasileira ainda não discutiu isso. Temos uma promessa generosa, mas a sociedade, digamos assim, não concorda em bancar o custo do que quer receber. O descompasso precisa ser resolvido.

Scheffer: A relação público-privado é mal resolvida. O sistema de saúde brasileiro nunca será puro público ou puro privado. Sempre teremos que trabalhar com essa sobreposição de lógicas. A agenda reformista do movimento sanitário emplacou a saúde como direito na Constituição, mas a Constituinte foi confrontada com os interesses do setor privado. Sempre teremos que trabalhar com essa dualidade, mas, ao longo do tempo, há uma contradição nas dificuldades impostas ao SUS universal pelas políticas cumulativas de privatização da saúde pública.

Valor: O gasto das famílias com saúde, ao longo desses 25 anos, aumentou muito. O SUS universaliza vários serviços, mas, mesmo assim, as famílias estão gastando mais.

Scheffer: Com 70% da rede hospitalar privada, o SUS depende de prestação e financiamento privados. Com duas novidades recentes: a privatização galopante da gestão, com a presença das OSs [organizações sociais] nos postos de saúde e hospitais públicos, por exemplo, que contribuem para afastar o SUS de seu projeto original, e o crescimento do mercado de planos de saúde. Há dois projetos claros em disputa: um é o projeto do movimento sanitário, o original, que significaria mais recursos públicos para o SUS e regulação do setor privado; o outro é o crescimento artificial dos planos de saúde, com planos baratos no preço e medíocres na cobertura.

Couttolenc: Mudaram as expectativas da população. Se a população critica o atendimento, em parte não é por que o SUS piorou as coisas. É por que as expectativas aumentaram mais do que aquilo que o SUS conseguiu oferecer. Aumentou a renda, aumentou a educação, as pessoas querem mais do que só ser atendidas. Antes, ser atendido era central. Isso é um sinal de sucesso. Outra coisa é que o setor privado não é necessariamente melhor que o SUS. O setor privado é uma catástrofe. Plano de saúde é uma droga. Temos que batalhar por um melhor desenho de integração dos sistemas.

Vecina: Toda ação é derivada de um sonho. E sonhamos fora da realidade, em outro espaço. Se a gente só sonhasse na realidade, continuaria reproduzindo as coisa eternamente. O sonho do SUS busca construir uma nova realidade. Qual é a solução? De onde vem o dinheiro? Não tem solução nem de onde vem o dinheiro. Tem arranjos que foram socialmente construídos e que precisam continuar sendo construídos. O SUS é fruto disso..

Valor: A iniciativa privada se apoia muito na estrutura da saúde pública?

Vecina: A relação do Estado com o setor privado é promíscua. O capital tem envolvimento importante na determinação da vida política. A sociedade brasileira nunca deu bola para eficiência, mas hoje, com mais comensais à mesa, ou a gente é mais eficiente, ou não tem saída. Tem um conjunto de arranjos possíveis que temos que discutir.

Scheffer: Há um compartilhamento de serviços, um livre trânsito de profissionais e pacientes entre um sistema e outro. Cerca de 60% dos médicos trabalham ao mesmo tempo no público e no privado. São 50 milhões de brasileiros com planos de saúde, mas que usam o SUS constantemente pelas inúmeras exclusões de cobertura, mas também por aquilo que só o SUS oferece. Precisamos refazer as contas em praça pública. A população precisa ser convidada a participar do debate das deduções tributárias, das isenções e dos benefícios fiscais que o setor público dá ao privado. O fundo público sustenta em grande parte o mercado privado. Apesar de o ressarcimento ser previsto em lei, o SUS não recebe toda vez que um cliente de plano de saúde particular é atendido em hospital público. Há muito recursos públicos em favor do setor privado. Estamos chegando ao ponto de o SUS ser uma espécie de resseguro, um sistema compensatório do setor privado.


Valor: Alguém já conseguiu mapear quanto recurso público está no privado?

Temporão: Muito. O sistema de saúde brasileiro sempre foi uma mistura de público e privado. Nesses 25 anos, a oferta pública ambulatorial cresceu estupidamente, mas a oferta de leitos hospitalares continua mais da metade na mão do setor privado. O privado a serviço do universal é possível. A questão do trabalho médico é central nessa promiscuidade. A Constituição garante que o médico possa ter dois empregos públicos em entes distintos da federação e pode ter uma atividade privada. Ao se formar, o médico deveria ter de optar entre o público, em que teria de ser bem remunerado, claro, e o privado. Os médicos não querem nem ouvir falar nisso. Querem trabalhar 20 horas e dar muitos plantões, ter muitos vínculos. Surgem muitos conflitos de interesses. Na gestão, defendo um modelo público de fundação estatal regida pelo direito privado. O que é isso? Os funcionários vão ser contratados pela CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] como qualquer trabalhador brasileiro.

Valor: O ponto é o Estado ter autonomia para contratar e demitir quando precisar?

Vecina: Veja o que aconteceu com a rede hospitalar do Rio de Janeiro: onde João Figueiredo [presidente da república entre 1979 e 1985] foi se tratar?

Temporão: No Hospital dos Servidores do Estado.

Vecina: Hoje, onde os políticos se tratam? O que aconteceu com o Hospital dos Servidores? Também no Rio de Janeiro, o que aconteceu com o Inca [Instituto Nacional de Câncer]? E a Fiocruz? Esses têm fundações privadas de apoio. A fundação é o órgão de apoio contra o qual se insurge o Ministério Público, porque é uma solução jurídica esdrúxula. É uma fundação chamada de terceiro tipo. É privada com objetivo de administração pública.

Valor: Isso ocorre porque a gestão pública é engessada, não?

Scheffer: Talvez o cenário seja uma competição de várias modalidades. Não me parece adequada a epidemia de organizações sociais. A cidade de São Paulo foi esquartejada entre 11 organizações sociais. Elas competem por recursos humanos predatoriamente, cada uma com uma forma de remuneração, um maneira de gerir o serviço. Abdicamos de ter parâmetros homogêneos e padronizados na saúde sem resolver o problema.

Vecina: Mas quem dita a política é o Estado, que tem o poder regulador. O problema é o Estado não ser capaz de ditar a política de gestão.

Couttolenc: Embora o Brasil tenha uma coleção razoável de experiências e modelos, não construiu duas coisas: um consenso sobre o que funciona melhor e o que não funciona, e um consenso para evoluir para um determinado modelo. É preciso uma reforma de fundo do papel e do funcionamento do Estado, da modalidade de gestão pública.

Temporão: O Inca é uma entidade de referência em câncer. Se um neurocirurgião do Inca se aposenta, é preciso contratar outro. Como funciona? O Inca manda o pedido para o Ministério da Saúde. Isso leva seis meses. Vai para o Ministério do Planejamento e leva mais um ano e meio. Depois, faz um concurso público, que leva mais seis meses. São dois anos e meio sem o cirurgião. O que o Inca fazia? A fundação contratava. O modelo em que o diretor de um instituto gasta dois anos para substituir um profissional está morto.

Valor: Por que é difícil mudar isso? É corporativismo de trabalhadores ou o governo resiste?
Vecina: Concepção do Estado.

Couttolenc: O modelo da administração direta não funciona e temos uma série de experiências interessantes que deveriam ser aproveitadas, mas não se criou um consenso sobre a direção a seguir. Também não se criou uma filosofia e mecanismos para avaliar objetivamente o que é feito.

Valor: E os conselhos de saúde, que papel exercem nesse emaranhado de polêmicas?

Vecina: Foram tomados pelas corporações. O controle social é um dos pontos de clivagem fundamentais da construção do SUS. Mas o Conselho Nacional de Saúde e a maioria dos conselhos municipais foram tomados pelas corporações. Seja de profissionais, seja de representantes de doenças...

Scheffer: O Conselho Nacional de Saúde foi totalmente cooptado pelo Ministério da Saúde.

Couttolenc: Tem gente tentando inovar, propondo modelos alternativos. Há também um movimento forte contrário a qualquer modelo alternativo. O meio-de-campo do que precisamos e podemos fazer é uma bagunça.

Vecina: Sobre o financiamento, existem diversos arranjos e um país deste tamanho não tem como ter um só. O Hospital Federal de Clínicas de Porto Alegre é uma empresa pública. A rede Sarah Kubitschek é um serviço social autônomo. Tem as fundações de apoio. A PPP [parceria público-privada] do Hospital do Subúrbio de Salvador está indo muito bem. O que faz a diferença? A capacidade regulatória do Estado. O que é gestão? A capacidade de mobilizar recursos para atingir objetivos. Comprar coisas e contratar pessoas. Quando é o caso, demiti-las. Temos que rever a estabilidade.

Scheffer: Mas também não se mantém um sistema de saúde com contratos precários.

Vecina: A realidade do mercado é essa. Não tem como contratar todo mundo por CLT.

Valor: O Ministério do Trabalho não fiscaliza?

Vecina: Fiscaliza, mas não tem saída. O mercado funciona assim.

Couttolenc: O que não quer dizer que esses arranjos sejam os melhores possíveis.

Scheffer: São os piores possíveis.

Vecina: É o mercado. Como ignorar que a realidade anda desse jeito?

Valor: A discussão sempre volta para o financiamento. O melhor seria melhorar o modelo que existe ou financiar algo menos ambicioso?

Temporão: Seja qual for o modelo, só aceito se for para todos. Da presidente até o peão. A Inglaterra gasta 8% do PIB com saúde e os EUA, 17%. Comparando os indicadores, os americanos ficam muito atrás: são 50 milhões sem cobertura. Um ponto é a relação entre gasto público e privado. As famílias que têm plano gastam um per capita bem maior que o do SUS, que oferece muito mais porque vai da prevenção até o tratamento de doenças crônicas. E tem o gasto tributário, renúncias e subsídios. Em 2011, o total desse gasto foi de R$ 16 bilhões, 24% do total do gasto federal em saúde. O gasto tributário é elemento de indução da política fiscal, mas não tem critério. Mais da metade da renúncia beneficia famílias de mais alta renda. O Estado tira do SUS R$ 16 bilhões e põe no mercado.

Scheffer: Foi um movimento simultâneo: o desfinanciamento do SUS e os aportes públicos para o setor privado de saúde. E o mercado quer mais. Em março, as maiores seguradoras foram bater na porta da Presidência em Brasília para pedir mais isenções.

Temporão: Querendo desenvolver produtos simplificados para a nova classe média.

Scheffer: Planos de saúde pobres para pobres. Olha onde podemos parar.

Temporão: Outro ponto do financiamento é o absurdo de dizer que a saúde é um direito de todos e dever do Estado, mas subsidiar plano de saúde de funcionários públicos. Isso, sem entrar nos gastos com saúde dos senadores, assistência médica para a família inteira, sem um valor de teto, sem critério.

Scheffer: Fora a cobertura que o SUS garante em função das exclusões dos planos de saúde. Isso é incalculável e tem a ver com a leniência da ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar]. Ela foi capturada pelo mercado que deveria regular. É um mercado com sérios problemas de cobertura, rede insuficiente, reajustes abusivos.

Couttolenc: Subsídios em si não são o problema. A questão é: qual é o objetivo? Contribuem para o fortalecimento do sistema? Para preencher lacunas do sistema público? Hoje, não tem critério. É contraproducente.

Temporão: O ideal seria que esses gastos tivessem um foco. Na alta complexidade, na atenção primária. Resolver gargalos.

Valor: Fala-se muito nessa agenda, do público versus privado, mas sem unidade. Como fazer esse debate ficar mais profícuo?

Temporão: Caímos na armadilha de opor melhor gestão e mais dinheiro. Esforços de melhoria de gestão são uma obrigação de qualquer governo, em qualquer época. E tem gente que diz que o dinheiro é suficiente, basta gastar melhor. Isso não é verdade.

Scheffer: Mesmo a demanda atual de destinar 10% da receita corrente da União para a saúde não daria R$ 190 bilhões em seis anos. Passaríamos apenas de 3,6% para 4,5% do PIB em recursos públicos. É muito pouco.

Couttolenc: A questão do financiamento não vai avançar se ficar limitada a mais dinheiro para o SUS. Tem que rediscutir o papel do público e do privado, como alavancar o dinheiro do privado para contribuir no sistema como um todo. O Brasil gasta 9% do PIB em saúde. É muito num país em desenvolvimento. O que acontece com esse dinheiro? O que a sociedade quer do sistema de saúde? Quanto custa isso?

Scheffer: Só não pode cair na armadilha de dizer que dinheiro não é problema. A estrutura de gastos predominantemente privados está na raiz da estrutura de castas na nossa saúde. Todos os sistemas universais têm mais de 70% de gastos públicos. Aqui são 40%. Não é possível, sem mais recursos públicos e novas fontes de recursos, chegar a um sistema de saúde universal.

Valor: As manifestações de junho cobraram claramente melhorias nos serviços públicos de saúde. Qual é o espaço para discutir o que a população quer do sistema de saúde?

Scheffer: Na Olimpíada de Londres, o Sistema Nacional de Saúde britânico fez parte da abertura. Isso mostra o orgulho que eles têm. Ninguém está satisfeito com a saúde no Brasil: nem quem depende do SUS nem quem usa o setor privado. A sociedade tem que entender o que está acontecendo e decidir que sistema de saúde quer. Não vislumbramos o SUS como foi idealizado há 25 anos, mas um sistema predominantemente privado não é solução.

Temporão: Nos países inseridos no modelo de bem-estar social, o sistema surge de um processo de maturação da democracia: querem um sistema igual para todos. É parte da consciência coletiva britânica que o sistema de saúde seja um bem público de valor inestimável. Tem um profundo sentido de solidariedade nisso. Agora o povo está na rua pedindo saúde pública de qualidade. Não vi nenhum cartaz dizendo que quer mais plano de saúde.

Vecina: Estou cético quanto a isso. Não existe acumulação de conhecimento suficiente nem disposição da sociedade para caminhar nessa direção. As pessoas não têm a percepção do público. É uma evolução que teremos de atravessar na consolidação da democracia. O sistema inglês é solidário, mas foi criado em 1948, depois da guerra.

Scheffer: Há um pouco mais de consciência social. As ruas reivindicam algo diferente.

Valor: A resposta imediata do governo federal no plano da saúde simboliza o quê?

Scheffer: Nada. Foi uma resposta insuficiente e precária.

Valor: Nem o Mais Médicos foi suficiente? Ele foca uma insuficiência de recursos humanos. Talvez o sistema de saúde devesse olhar mais para a formação de profissionais.

Couttolenc: A questão básica não é a insuficiência de médicos, mas sua alocação. O Mais Médicos é uma estratégia emergencial.

Scheffer: É uma política focalizada e, como tal, tem seus méritos.

Vecina: E a estrutura à atenção básica? Aumentamos bastante o número de escolas médicas. Em 20 anos vamos fechar esse buraco. Mas falta médico no país. O tempo de considerar um médico para mil habitantes era o tempo da atenção vertical. Estamos vivendo uma carga de doenças que exigem atenção horizontal. Não é mais uma consulta sobre pneumonia, mas tratar hipertensão e diabetes para o resto da vida. Esse modelo consome a percepção de um médico para cada 300 habitantes.

Scheffer: O programa Mais Médicos tem o aspecto meritório de contratar médicos para locais onde eles faltam. É melhor que nada, mas não é uma resposta para o que estamos discutindo. Temos três níveis de desigualdade de distribuição de profissionais: regional, entre público e privado - só 60% dos médicos atuam no SUS, muito pouco para um sistema que se pretende universal. O terceiro nível é o de formação. Não temos profissionais formados para atender às reais necessidades de saúde da população, principalmente as necessidades da atenção primária.


Temporão: A responsabilidade do governo é: como levo médicos para atender às necessidades básicas? A Austrália tem dificuldade de colocação de médicos e tem uma política para isso. Mas é ingênuo acreditar que abrir uma faculdade de medicina no interior vai fixar os médicos ali. Precisa ter uma política diferenciada, com estímulos. Acho que deve haver um serviço civil obrigatório para alunos de universidade pública. Essa lei dorme no Congresso há décadas, ninguém quer mexer nisso.

Valor: O que a política pública de saúde precisa olhar nos próximos 25 anos do SUS?

Vecina: O que queremos? Um serviço de qualidade voltado para a carga de doenças que temos. Isso implica repensar o SUS. Como enfrentar essa carga de doenças? Precisa de muito mais intersetorialidade. Essas causas não se enfrentam com remédio e hospital, mas com maior capacidade de ação social.

Couttolenc: O SUS e o sistema como um todo, da forma como o serviço de saúde está organizado, não fazem frente ao desafio. O SUS herdou da história o desafio de, ao mesmo tempo, recuperar o tempo perdido - ainda temos crianças morrendo de diarreia - e o surgimento do perfil epidemiológico, que exige outra organização. O SUS foi bem-sucedido ao recuperar o atraso, ajudado pela transição demográfica, que implicou ter menos crianças para tratar.

Temporão: Uma série de transições vai impactar o sistema. As três principais são a demográfica, a epidemiológica e a alimentar. Estamos nos aproximando do padrão de diabetes tipo dois e hipertensão arterial dos EUA. Em 2030 vamos ter mais brasileiros acima de 60 anos do que entre 0 e 19 anos. As demências senis, distúrbios neuropsíquicos, depressão vão ser muito importantes.

Scheffer: Os pontos a repensar são: financiamento, gestão, política de recursos humanos e relação público-privado. Há uma descontinuidade, cada gestão cria uma marca, uma saída, uma nova porta de entrada no SUS. A gestão é fragmentada, dificultando a organização do sistema. Talvez tenhamos ido longe demais na municipalização. O SUS alcançou uma base legal, experiência técnica e operacional, mas tem um problema de sustentabilidade política e financeira. A participação da sociedade é fundamental.

Couttolenc: Tem muita ineficiência sistêmica que decorre da dualidade entre público e privado, com sobreposição, setores que não conversam entre si, médicos que pulam de um lado para o outro. Eu gostaria que evoluíssemos de discutir o SUS para discutir o sistema de saúde. O SUS pretende ser o sistema único, mas não é. Para mudar isso, não se trata de estatizar o privado, mas trazê-lo para dentro do desenho de um sistema único.

Vecina: Eu acrescentaria a participação do setor de saúde na produção de valor, pela ativação da indústria em torno da saúde. Equipamentos, medicamentos, prestação de serviços hoje geram mais de 8% do PIB e são um dos maiores empregadores do país.

Temporão: O modelo do complexo industrial da saúde no Brasil é inovador. Envolve o BNDES, o setor privado, laboratórios, o poder de compra do Estado como promotor da internacionalização da capacidade de produção. China e Índia são grandes "players" no mercado internacional de genéricos, mas a produção industrial e o setor de saúde não têm nenhuma relação. Suas populações não têm acesso aos genéricos que eles exportam. Estamos tentando fazer uma coisa diferente.

Scheffer: O Sistema Único de Saúde é o sonho de que as pessoas possam ter acesso à saúde de acordo com sua necessidade e capacidade de contribuição, não de pagamento. Acreditava-se que a classe média estava totalmente divorciada do SUS. Parece que não é bem assim. O que vamos fazer com nossa riqueza coletiva, se o Brasil está crescendo? Vamos investir no projeto de um sistema único, universal, de qualidade, ou vamos ficar no sistema estratificado, desigual, injusto? A saúde pública está na pauta como nunca.