O Globo 10/11/2013
POR MAURO VENTURA
mventura@oglobo.com.br
Desde cedo o advogado Rodrigo da Cunha Pereira revoltava-se com a moral vigente em Abaeté, no interior de Minas, onde nasceu há 55 anos. “Por que o homem podia transar antes do casamento e a namorada não?” Em 1997, ele fundou, com outros especialistas, o Instituto Brasileiro de Direito de Família (Ibdfam), que promove, de 20 a 22, em Araxá (MG), o IX Congresso Brasileiro de Direito de Família, com o tema “Famílias: pluralidade e felicidade”. O instituto tem proposto leis inovadoras e humanizado o direito de família, que tem um histórico de exclusões. “Até 1988 os filhos tidos fora do casamento não podiam ser registrados. E até pouco tempo a mulher que traísse o marido era considerada culpada pelo fim do casamento e perdia a guarda do filho”, lembra. Ele adora criar teses jurídicas para resolver casos que não estão previstos na lei. Foi assim em 1984, quando fez a primeira ação judicial da causa do movimento feminista do país. Uma mulher o procurara: “Só porque tive filho e sou solteira não posso ir ao clube social em Conselheiro Lafaiete. E o pai pode.” Ele inventou a ação, ganhou e ela entrou para o clube.
O GLOBO: Que inovações o instituto tem trazido?
RODRIGO DA CUNHA PEREIRA: Família homoafetiva é expressão inventada
por nós. A sustentação jurídica do STF para reconhecer essas
relações foi com base no que escrevemos. Outra expressão nossa
é paternidade socioafetiva. Os laços de sangue não são suficientes
para garantir a paternidade e a maternidade, os laços de
afeto devem ser considerados tão importantes quanto os biológicos.
Criamos ainda a tese da fraternidade socioafetiva. Três irmãs
viviam com um homem rico, como irmãos. Ele não tinha filhos
e morreu sem fazer testamento. Pela lei, tudo iria para sobrinhos
que moravam na Itália e com quem ele não tinha contato.
Fizemos um acordo e elas receberam metade da herança.
Fale de algumas novas formações familiares.
Há pessoas que querem ter filho, mas sem constituir vínculo
amoroso, e recorrem a sites, onde você conhece alguém, vê o
perfil e decide se ela pode ser boa mãe ou bom pai. Fiz um contrato
de geração de filho e de guarda compartilhada no interior
de Minas. Ele, sem filho, de 35 anos, ela, sua secretária, casada,
com filho, de 50. O marido autorizou a inseminação artificial e o
garoto hoje tem 8 anos. É a chamada parceria de paternidade.
Você tem recebido outros casos pouco usuais?
Duas mulheres de Brasília me procuraram. Viviam juntas, desejavam
ter filho, mas sem ir ao banco de sêmen, porque queriam
que o filho conhecesse o pai. Um casal de homens, amigos delas,
também queria filho. Um deles doou o sêmen, uma delas, o óvulo,
e a criança foi gerada por inseminação. Fiz o contrato de regulamentação
da guarda. O menino tem dois pais, duas mães,
oito avós, 16 bisavós. Isso é ruim para a criança? Não sei, ela vai
ser feliz na medida do amor que receber. Isso é o que interessa.
Sua opção pelo direito de família tem a ver com sua história?
Sempre me indignei com as injustiças nas famílias, inclusive na
minha. Meu avô materno tinha duas mulheres, e teve filhos com
a esposa e a companheira. As duas filhas “legítimas” foram retiradas
dali para não conviverem com as filhas “ilegítimas” e mandadas
para a capital, Belo Horizonte. Já um dos filhos de meu
avô materno teve filho com a empregada. Esse meu tio foi mandado
para o Rio, e a empregada teve que casar com outro empregado.
Tudo para preservar a moral e os bons costumes. Para a
família, tudo bem fazer de conta que aquilo não existe. Mas e
aqueles parentes marginalizados, condenados à invisibilidade?
Existem hoje dezenas de configurações familiares...
A família se reinventa. Antes só havia a formação clássica (pai,
mãe, filhos). Mudou tanto que, ano passado, um de meus filhos,
com 12, falou: “Pai, vocês não vão se separar? Queria ter duas casas,
na minha sala quase todo mundo tem.” (Risos.) Antes, filho
de pais separados era discriminado, hoje ficou comum. O que
interessa é a felicidade, seja a composição que a família tiver.
domingo, 10 de novembro de 2013
MARTHA MEDEIROS - A juventude da maturidade
Zero Hora - 10/11/2013
Feliz aniversário!
Foi só ela ouvir o cumprimento e virou o rosto como se estivesse sendo agredida. “Não repita isso de novo. Não sei o que há de feliz em ficar mais velha”.
Respondi: “Você diz isso porque está fazendo 34 anos. Quando fizer 52, vai sentir vontade de pendurar balões pela casa”.
Ela desvirou o rosto e voltou a me encarar como se eu estivesse tendo algum surto de insanidade. Exatamente como aquelas expressões que ilustram a coluna da Mariana Kalil aqui no Donna, com um baloon escrito “HÃ?”.
Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida pode entender a bênção que é entrar na segunda juventude.
Claro que antes é preciso passar pelo purgatório. Poucos chegam aos 50 anos sem fazer uma profunda reflexão sobre a finitude, e dá um frio na barriga, claro. Amedronta principalmente quem ainda não fez nem metade do que gostaria de já ter feito a essa altura. Será que vai dar tempo?
Passado o susto, a resposta: vai. E se não der, não tem problema. Você não precisa morrer colecionando vontades não realizadas. Troque de vontades e siga em frente sem ruminar arrependimentos. Você finalmente atingiu o apogeu da sua juventude: é livre como nunca foi antes.
Sendo assim, não passe mais nem um dia ao lado de alguém que lhe esnoba, lhe provoca ou que não se importa com seus sentimentos. Pare de inventar razões para manter seus infortúnios, você já fez sacrifícios suficientes, agora se permita um caminho mais fácil. Se ainda dá trela a fantasmas, se ainda pensa em vingançazinhas ordinárias, se ainda não perdoou seus pais e seu passado, se ainda perde tempo com vaidades e ambições desmedidas, se ainda está preocupado com o que os outros pensam sobre você, está pedindo: logo, logo vai virar um caco.
Para alcançar e merecer a segunda juventude, é preciso se desapegar de todas aquelas preocupações que existiam na primeira. Quando essa Juventude Parte 2 terminar, não virá a Juventude Parte 3, mas o fim. Então, esta é a última e deliciosa oportunidade de abandonar os rancores, não perder mais tempo com besteiras e dar adeus à arrogância, à petulância, à agressividade, ou seja, adeus às armas, aquelas que você usava para se defender contra inimigos imaginários. Agora ninguém mais lhe ataca, só o tempo – em vez de brigar contra ele, alie-se a ele, tome o tempo todo para si.
Eu sei que você teve problemas, e talvez ainda tenha – muitos. Eu também tive, talvez não tão graves, depende da perspectiva que se olha. Mas isso não pode nos impedir a graça de sermos joviais como nunca fomos antes. Lembra quando você dizia que só gostaria de voltar à adolescência se pudesse ter a cabeça que tem hoje? Praticamente está acontecendo.
Essa é a diferença que tem que ser comemorada. Na primeira juventude, tudo vai acontecer. Na segunda, está acontecendo.
Feliz aniversário!
Foi só ela ouvir o cumprimento e virou o rosto como se estivesse sendo agredida. “Não repita isso de novo. Não sei o que há de feliz em ficar mais velha”.
Respondi: “Você diz isso porque está fazendo 34 anos. Quando fizer 52, vai sentir vontade de pendurar balões pela casa”.
Ela desvirou o rosto e voltou a me encarar como se eu estivesse tendo algum surto de insanidade. Exatamente como aquelas expressões que ilustram a coluna da Mariana Kalil aqui no Donna, com um baloon escrito “HÃ?”.
Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida pode entender a bênção que é entrar na segunda juventude.
Claro que antes é preciso passar pelo purgatório. Poucos chegam aos 50 anos sem fazer uma profunda reflexão sobre a finitude, e dá um frio na barriga, claro. Amedronta principalmente quem ainda não fez nem metade do que gostaria de já ter feito a essa altura. Será que vai dar tempo?
Passado o susto, a resposta: vai. E se não der, não tem problema. Você não precisa morrer colecionando vontades não realizadas. Troque de vontades e siga em frente sem ruminar arrependimentos. Você finalmente atingiu o apogeu da sua juventude: é livre como nunca foi antes.
Sendo assim, não passe mais nem um dia ao lado de alguém que lhe esnoba, lhe provoca ou que não se importa com seus sentimentos. Pare de inventar razões para manter seus infortúnios, você já fez sacrifícios suficientes, agora se permita um caminho mais fácil. Se ainda dá trela a fantasmas, se ainda pensa em vingançazinhas ordinárias, se ainda não perdoou seus pais e seu passado, se ainda perde tempo com vaidades e ambições desmedidas, se ainda está preocupado com o que os outros pensam sobre você, está pedindo: logo, logo vai virar um caco.
Para alcançar e merecer a segunda juventude, é preciso se desapegar de todas aquelas preocupações que existiam na primeira. Quando essa Juventude Parte 2 terminar, não virá a Juventude Parte 3, mas o fim. Então, esta é a última e deliciosa oportunidade de abandonar os rancores, não perder mais tempo com besteiras e dar adeus à arrogância, à petulância, à agressividade, ou seja, adeus às armas, aquelas que você usava para se defender contra inimigos imaginários. Agora ninguém mais lhe ataca, só o tempo – em vez de brigar contra ele, alie-se a ele, tome o tempo todo para si.
Eu sei que você teve problemas, e talvez ainda tenha – muitos. Eu também tive, talvez não tão graves, depende da perspectiva que se olha. Mas isso não pode nos impedir a graça de sermos joviais como nunca fomos antes. Lembra quando você dizia que só gostaria de voltar à adolescência se pudesse ter a cabeça que tem hoje? Praticamente está acontecendo.
Essa é a diferença que tem que ser comemorada. Na primeira juventude, tudo vai acontecer. Na segunda, está acontecendo.
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » O palco, a janela e a vida
Estado de Minas: 10/11/2013
Entro no Palácio das Artes de Belo Horizonte para assistir a Um baile de máscaras, de Verdi. Estou imerso no passado e no presente, vendo tantos rostos amigos quando, de repente, ouço a notícia de que, na véspera, havia morrido o Caiado, Carlos Eduardo Prates. Volto àquele dia (há mais de 50 anos) em que ele fez um teste musical comigo para aceitar-me no Madrigal Renascentista, no naipe dos baixos. Com Isaac Karabchevisky e Carlos Alberto Pinto Fonseca (também falecido), criou o Madrigal, um fenômeno musical brasileiro que percorreu o mundo. Os três seguiram caminhos musicais paralelos e, me parece, foram alunos de Koellreuter, que vi fazer uma palestra em Belo Horizonte.
Assisto, maravilhado, ao milagre operístico dirigido por Fernando Bicudo. Ele foi responsável também por um período excepcional da ópera no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A vida é uma ópera. A vida é um palco. Tudo é representação.
Ainda há pouco estava na janela do hotel e olhava o Parque Municipal de Belo Horizonte. Drummond inventou que Greta Garbo se encontrou, secretamente, com ele e Abgar Renault naquele jardim. Naquele jardim vi Klauss Viana fazendo seu filho Rainer andar num burrinho. Naquele jardim, em frente ao Francisco Nunes, vi Tônia Carrero e Paulo Autran cantarem Qué que ocê foi fazer no mato Maria Chiquinha… Isto foi depois de terem encenado Entre quatro paredes, de Sartre.
Poderia permanecer (intemporalmente) nesse teatro, que vi nascer ao tempo do governador Israel Pinheiro, ou deixar-me ficar na janela desse hotel – jovem e eternamente. Lá longe está a Serra da Piedade! Numa certa noite escalamos a montanha e lá em cima ficamos bebendo, comendo e falando de nossas perplexidades frente às estrelas!
No hall do teatro, Marina e eu recebemos o carinho dos leitores. A cidade vive um belo momento cultural. Mas quando, em 1957, voltei a viver aqui, creiam-me, a cidade tinha 650 mil habitantes. A Avenida Afonso Pena tinha bondes que iam para Santa Tereza e Santa Efigênia. Depois vieram os trólebus. E um deles atropelou o crítico Fábio Lucas na Rua da Bahia, ali onde ficava a Livraria Itatiaia e onde a gente se reunia todo fim de dia. Claro, antes a livraria era lá no Dantés. E quando Pedro Paulo Moreira lançou a tradução do best-seller Doutor Jivago passou a ser respeitado além de Nova Lima.
Nova Lima era longe. Longe era Lagoa Santa e Vespasiano ou Venda Nova.
Até a Pampulha era longe. A cidade ia pouco além da Avenida do Contorno. E quando aportei aqui, com aquela frágil mala de papelão e juventude, fui buscar abrigo lá nas quebradas de Santa Efigênia, na casa do tio Sebastião e tia Vicentina. Como dizia aquele matuto: “Se eu contar minha vida debaixo de um pé de amora, enquanto eu conto você chora!”. Até o Luiz Ruffato chora.
Mas desta janela vejo a Praça Sete. Ali um dia Teotônio Jr., travestido de Fidel Castro, saiu correndo das pauladas da TFP (Tradicão, Família e Propriedade). Durante três anos, bancário, morando em pensão, ia ao Banco do Brasil fazer a compensação de cheques do Banco do Comércio Varejista. Claro, não havia internet. E eu morria de inveja de meus colegas da Faculdade de Filosofia, que podiam estudar sem trabalhar.
Não sei se as pessoas devem ficar numa janela dessas muito tempo encenando na lembrança a ópera da vida. Dessa janela vejo aquele viaduto de Santa Tereza que o romance O encontro marcado, do Fernando Sabino, eternizou. Meio bêbados de vida, ele, Hélio, Otto e Paulinho arriscavam a vida ali. Minha geração os imitou como eles imitaram Drummond e outros. Ainda outro dia me chamaram para um depoimento sobre Fernando Sabino, que faria agora 90 anos. Ele dizia que era capaz de descrever casa por casa várias ruas da cidade.
Numa mesma semana estive de novo duas vezes em Belo Horizonte. E isto tem consequências crônicas. Ao passar diante do Edifício Maletta comecei a contar para a jovem que me acompanhava uma série de coisas idas e vividas – Lua Nova, o Lucas… Ela me olhava como se eu tivesse a idade de Aarão Reis, que construiu a nova capital de Minas. Ela me olhava e eu falava, falava instalado no passado.
No passado que me trespassa e não passa.
A vida é um palco. Uma ópera. Uma janela.
>> affonsors@uol.com.br
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Entro no Palácio das Artes de Belo Horizonte para assistir a Um baile de máscaras, de Verdi. Estou imerso no passado e no presente, vendo tantos rostos amigos quando, de repente, ouço a notícia de que, na véspera, havia morrido o Caiado, Carlos Eduardo Prates. Volto àquele dia (há mais de 50 anos) em que ele fez um teste musical comigo para aceitar-me no Madrigal Renascentista, no naipe dos baixos. Com Isaac Karabchevisky e Carlos Alberto Pinto Fonseca (também falecido), criou o Madrigal, um fenômeno musical brasileiro que percorreu o mundo. Os três seguiram caminhos musicais paralelos e, me parece, foram alunos de Koellreuter, que vi fazer uma palestra em Belo Horizonte.
Assisto, maravilhado, ao milagre operístico dirigido por Fernando Bicudo. Ele foi responsável também por um período excepcional da ópera no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A vida é uma ópera. A vida é um palco. Tudo é representação.
Ainda há pouco estava na janela do hotel e olhava o Parque Municipal de Belo Horizonte. Drummond inventou que Greta Garbo se encontrou, secretamente, com ele e Abgar Renault naquele jardim. Naquele jardim vi Klauss Viana fazendo seu filho Rainer andar num burrinho. Naquele jardim, em frente ao Francisco Nunes, vi Tônia Carrero e Paulo Autran cantarem Qué que ocê foi fazer no mato Maria Chiquinha… Isto foi depois de terem encenado Entre quatro paredes, de Sartre.
Poderia permanecer (intemporalmente) nesse teatro, que vi nascer ao tempo do governador Israel Pinheiro, ou deixar-me ficar na janela desse hotel – jovem e eternamente. Lá longe está a Serra da Piedade! Numa certa noite escalamos a montanha e lá em cima ficamos bebendo, comendo e falando de nossas perplexidades frente às estrelas!
No hall do teatro, Marina e eu recebemos o carinho dos leitores. A cidade vive um belo momento cultural. Mas quando, em 1957, voltei a viver aqui, creiam-me, a cidade tinha 650 mil habitantes. A Avenida Afonso Pena tinha bondes que iam para Santa Tereza e Santa Efigênia. Depois vieram os trólebus. E um deles atropelou o crítico Fábio Lucas na Rua da Bahia, ali onde ficava a Livraria Itatiaia e onde a gente se reunia todo fim de dia. Claro, antes a livraria era lá no Dantés. E quando Pedro Paulo Moreira lançou a tradução do best-seller Doutor Jivago passou a ser respeitado além de Nova Lima.
Nova Lima era longe. Longe era Lagoa Santa e Vespasiano ou Venda Nova.
Até a Pampulha era longe. A cidade ia pouco além da Avenida do Contorno. E quando aportei aqui, com aquela frágil mala de papelão e juventude, fui buscar abrigo lá nas quebradas de Santa Efigênia, na casa do tio Sebastião e tia Vicentina. Como dizia aquele matuto: “Se eu contar minha vida debaixo de um pé de amora, enquanto eu conto você chora!”. Até o Luiz Ruffato chora.
Mas desta janela vejo a Praça Sete. Ali um dia Teotônio Jr., travestido de Fidel Castro, saiu correndo das pauladas da TFP (Tradicão, Família e Propriedade). Durante três anos, bancário, morando em pensão, ia ao Banco do Brasil fazer a compensação de cheques do Banco do Comércio Varejista. Claro, não havia internet. E eu morria de inveja de meus colegas da Faculdade de Filosofia, que podiam estudar sem trabalhar.
Não sei se as pessoas devem ficar numa janela dessas muito tempo encenando na lembrança a ópera da vida. Dessa janela vejo aquele viaduto de Santa Tereza que o romance O encontro marcado, do Fernando Sabino, eternizou. Meio bêbados de vida, ele, Hélio, Otto e Paulinho arriscavam a vida ali. Minha geração os imitou como eles imitaram Drummond e outros. Ainda outro dia me chamaram para um depoimento sobre Fernando Sabino, que faria agora 90 anos. Ele dizia que era capaz de descrever casa por casa várias ruas da cidade.
Numa mesma semana estive de novo duas vezes em Belo Horizonte. E isto tem consequências crônicas. Ao passar diante do Edifício Maletta comecei a contar para a jovem que me acompanhava uma série de coisas idas e vividas – Lua Nova, o Lucas… Ela me olhava como se eu tivesse a idade de Aarão Reis, que construiu a nova capital de Minas. Ela me olhava e eu falava, falava instalado no passado.
No passado que me trespassa e não passa.
A vida é um palco. Uma ópera. Uma janela.
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A vida é um show [Leandra Leal]
A vida é um show
Leandra Leal dirige filme sobre trajetória de travestis que abriram caminho para outras artistas. Equipe luta contra o preconceito para conquistar patrocinadores
Ana Clara Brant
Estado de Minas: 10/11/2013
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| Leandra Leal e as divas Rogéria, Jane Di Castro, Waléria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios |
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| Cartaz antigo com anúncio de show de Rogéria, que completa 50 anos de carreira no ano que vem |
O lado atriz de Leandra Leal boa parte das pessoas conhece, mas a faceta de diretora, ainda mais de um longa-metragem, é novidade. “O ator tem um olhar sobre o mundo e sobre pesquisa que é diferente. E acho que esse trabalho que estou fazendo no momento é exatamente esse registro a partir da minha vida de atriz”, revela. A carioca, que soma 19 filmes, 24 projetos de televisão e sete espetáculos teatrais na carreira, está dirigindo o documentário musical Divinas divas, empreitada que surgiu há sete anos, sendo que há três começou a ser rodada. A produção resgata a trajetória de oito artistas pioneiras: Rogéria, Jane Di Castro, Waléria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios, que foram os primeiros homens que se travestiram nos palcos cariocas no fim dos anos 1960, em pleno regime militar. Ano que vem, boa parte delas completam 50 anos de carreira, ainda em atividade, como cantoras, atrizes e comediantes. “Eu as conheço desde criança, porque muitas delas trabalharam e ainda trabalham no Teatro Rival, que pertence à minha família. Sempre acompanhei suas trajetórias e me encantei não só pelo fato de serem pioneiras, mas pela potência artística de cada uma. Todas são apaixonadas pela arte, ela ocupa um lugar central na vida delas”, destaca Leandra.
Além do depoimento das personagens principais, a diretora fez questão de conversar com amigos, familiares e com os companheiros de toda a vida, como o fazendeiro baiano Otávio Bonfim, casado há 44 anos com Jane Di Castro. “A gente conta a história delas dentro e fora dos palcos. Impressionei-me com a trajetória de todas que conseguiram quebrar padrões”, frisa Leandra.
O fio condutor do filme será um espetáculo que será realizado em 13 e 14 de dezembro, no Teatro Rival, onde as sete – que já encenam a produção, que, inclusive, também se chama Divinas divas, há 10 anos – vão cantar, interpretar e reelaborar histórias de suas vidas. “Depois de três anos filmando com a mesma equipe, consegui formatar e mapear o que exatamente eu queria. Primeiro foquei no cotidiano, na vida delas, e achei que esse show comemorativo e os ensaios seriam uma espécie de clímax do longa-metragem”, explica Leandra.
Veteranos A atriz, que já tinha tido experiências atrás das câmeras em clipes, além de já ter produzido filmes, revela que a dedicação é grande no projeto Divinas divas – uma realização da Daza, sua produtora ao lado das sócias e amigas de infância Carolina Benjamin e Rita Toledo – e que tem sido extremamente prazeroso estar nos bastidores. Leandra Leal fez questão de se cercar de gente tarimbada e veterana, como o premiado ator e diretor teatral Gustavo Gasparani, o diretor musical e produtor Plínio Profeta e o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto.
Se a expectativa e a empolgação de Leandra são imensas, imagine a das homenageadas. Jane Di Castro, que tem 47 anos de carreira, acha importante apresentar uma história tão bonita e de superação como a sua e de suas colegas e o fato de ter a atriz no comando dá credibilidade ainda maior. “É um sonho nosso e da Leandra. Ela é uma jovem muito talentosa, de prestígio, que acreditou nesse projeto e percebeu que era uma história que merecia ser contada. Não deixa de ser também um exemplo”, opina. Já Rogéria, que em 2014 completa cinco décadas de trajetória artística, também ressalta o papel de Leandra Leal. “Sinceramente, para mim, o que mais contou em tudo isso é o trabalho da diretora. Porque já sou a Rogéria que todo mundo conhece, 70 anos de vida e 50 de carreira. Tenho uma trajetória consolidada e por isso precisava de uma boa profissional, que fizesse uma coisa de verdade, e tenho certeza que a Leandra conseguiu”, elogia.
“As pessoas tinham uma cabeça melhor” • Rogéria
Apesar de tanto esforço e talento reunidos, não está sendo fácil concretizar Divinas divas. O tema não despertou o interesse de patrocinadores e foi então que Leandra Leal decidiu viabilizar o projeto por meio de financiamento coletivo na internet, pelo processo conhecido como crowdfunding (ou “vaquinha virtual”, como ela prefere chamar), no qual qualquer pessoa pode dar a sua contribuição em troca de uma série de benefícios. A diretora confessa ter ficado surpresa com tantas negativas e que o único parceiro que conseguiu foi o Canal Brasil, que é coprodutor do filme. “Fui atrás de várias pessoas, mas não tive sucesso. Infelizmente ainda existe um preconceito velado, que eu, ingenuamente, achava que não existia mais. O conteúdo do filme é muito interessante. Elas são artistas com uma trajetória vitoriosa e tão bonita, têm uma luta pela liberdade, pelos direitos civis e não se vitimizam em nenhum momento. Todas são sobreviventes e me chocou saber como a questão do gênero ainda é um tabu. As pessoas não conseguem ainda avaliar o valor artístico da coisa”, lamenta.
Rogéria é outra que se diz decepcionada com o que está acontecendo e acredita que, independentemente das escolhas sexuais, o importante é ter talento e vocação, e isso ela garante ter de sobra. “Se todas nós não fôssemos boas de serviço, não teríamos prosseguido. Estreamos num momento extremamente complicado, em plena ditadura, e conseguimos sobressair. Acho que o povo está mais burro. Um povo culto assimila mais as coisas e, antigamente, as pessoas tinham uma cabeça melhor. O que fazemos é arte e é isso que muitos não conseguem enxergar”, desabafa.
A colega Jane Di Castro também lastima a falta de apoio, mas tem esperanças de que a equipe do documentário vá conseguir alcançar a meta e concretizar a iniciativa. “Infelizmente a cultura GLBT no país é muito empobrecida, ninguém consegue fazer nada. É um sacrifício fazer cinema no Brasil, ainda mais sobre travestis e velhos. Liberam dinheiro para tantos projetos e o nosso, que tem histórias tão bacanas, tem que ficar mendigando. Sinto vergonha de ver isso em pleno 2013, mas espero que com esse financiamento pela internet apareçam pessoas que acreditam na cultura e tenham bom senso”, diz.
A meta é chegar a R$ 150 mil, quantia necessária para complementar os recursos das filmagens e captação de áudio dos ensaios e do show, aquisição de material de arquivo e direitos de imagem, edição do material e montagem do primeiro corte do filme. As cotas vão de R$ 20 a R$ 5 mil e dão direito a lugar garantido na fila do gargarejo do show, visita ao camarim e até um jantar com Leandra e as divas, além do nome exibido nos créditos do filme. Se a meta não for atingida até 9 de dezembro, todo o dinheiro será devolvido. O apoio pode ser dado por meio do site www.benfeitoria.com/divinas.
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