sábado, 24 de maio de 2014

João Paulo - Hora e vez dos radicais‏

O ideal é que o Congresso e as câmaras de deputados estejam cheios de pessoas capazes de defender ideias extremas


João Paulo
Estado de Minas: 24/05/2014



Herbert Marcuse ajudou a dar dimensão filosófica aos movimentos libertários dos anos 1960 (AP Photo/Archiv)
Herbert Marcuse ajudou a dar dimensão filosófica aos movimentos libertários dos anos 1960


Vivemos tempos médios, de emoções medidas e apelos à contenção. A todo momento somos convidados a refletir sobre nossos impulsos, a usar a régua do bom senso em política, a diminuir os sonhos em nome da realidade. Uma certa incitação ao comedimento.

Não é atitude de todo má. Desde Freud, aprendemos que a repressão é civilizadora, que a má notícia da condenação à infelicidade estrutural que nos define como seres de desejo contido é compensada, em termos, pela funcionalidade social. A sublimação é nosso destino, o que é uma forma de capitulação, mas também de afirmação.

Ser radical é quase sempre tomado como desvio, como um exagero que desconcerta o ritmo do mundo, que acirra os ânimos, que pode causar excessos de toda forma, da conturbação da ordem à inauguração de novas demandas difíceis de serem alcançadas. O radical é um ser que desequilibra.

No entanto, em alguns momentos da vida pública e da afirmação da nossa potência como humanidade, é preciso sair da raia comum e ir à raiz das coisas. Os radicais, de certa forma, são a reserva de criatividade e vigor da sociedade, da arte e do comportamento humano. Quem não radicaliza corre o risco de decair.

Com a proximidade das eleições, por exemplo, nada melhor que apostar todas as fichas na radicalidade. O eleitor costuma dividir sua participação eleitoral em fases bem definidas. No caso da escolha de cargos majoritários, como presidente, governadores e prefeitos, a tendência é reduzir a energia a um voto mais convencional. Não parece ponderado dar poder aos radicais.

Algumas propostas podem até parecer boas, mas soam inviáveis ou perigosas quando ampliadas para toda a sociedade. Exatamente por isso foi criado o instituto dos dois turnos, que libera o primeiro voto para a ideologia e o sonho, para se recuperar, no segundo turno, o senso de realidade, ainda que constrangido. No primeiro turno, o desejo; no segundo, a razão. Primeiro Marx e Freud; depois, Maquiavel e Hobbes.

Outra forma de fatiar o comportamento eleitoral é separar as instâncias de poder. Assim, a lógica que rege os cargos executivos não se reproduz no âmbito do legislativo. É uma dualidade que pode se mostrar até mesmo operacional, já que parece compreender que para ações distintas precisamos de pessoas diversas. Uma coisa é exercer o poder de mando, outra é usar a astúcia para controlá-lo. E é aqui que a radicalidade tem um terreno fértil.

Gostaria de sugerir aos eleitores que começassem a buscar seus candidatos a deputados estaduais e federais e a senadores entre aqueles que mais se aproximam de seus sonhos de sociedade. Quanto mais radical melhor. As casas legislativas e o Estado brasileiro só têm a ganhar com eles. A radicalidade é a única condição da utopia, sem ela, o futuro se torna previsível, regressivo e entrópico.

O ideal é que o Congresso e as câmaras de deputados estejam cheios de pessoas capazes de defender ideias extremas nas áreas de educação, saúde, meio ambiente, habitação, segurança, direitos humanos, trabalho, reforma agrária e cultura. Os radicais, em cada um desses campos, têm sido ao longo do tempo, nossa reserva intelectual e ética. Como são responsáveis pela elaboração das leis, poderão ser os portadores adequados das mensagens de renovação.

O bom radical é aquele que não transige. É o homem e a mulher que em nome de valores maiores é incapaz de negociar princípios, seja por poder ou dinheiro. Com isso eles têm tudo para fazer o debate avançar e, assim, ampliar o universo de direitos inscritos nas leis de nossa sociedade. Democracia, e os radicais sabem bem disso, não é apenas o terreno da lei, mas da expansão dos direitos.

O ideal seria que cada um definisse a área que mais se aproxima de suas ansiedades de transformação social e fizesse tudo para eleger um radical que levasse adiante a chama que mais lhe aquece a alma. Os exemplos ajudam a entender melhor essa ideia. Militantes do movimento negro deveriam eleger pessoas dispostas e centrar sua ação no combate ao racismo e à injustiça social que os cerca. Certamente, terão efeito incendiário e esclarecedor, servirão de referência e ponte.

Ou, no caso do movimento ecológico, nada melhor que uma bancada de radicais bem preparados para reformar a legislação, garantir políticas de preservação, proibir a devastação, ainda que sob o “sagrado” direito do mercado de escavar o solo, derrubar árvores e desviar rios para seu proveito. O que um dia foi ironizado como a ética dos bagres pode ser um índice de civilização.

Alguém duvida que sem a ação do radicais teríamos cotas na universidades públicas? Passa pela cabeça de algum cidadão que um fazendeiro preservaria matas próximas aos rios se não houvesse a ameaça e multas e outras sanções? Será que as pessoas creem que os proprietários de terras improdutivas ou que não cumprem função social vão entregar de mão beijada suas sesmarias para os sem-terra, dispostos a trocar a monocultura de grãos para engordar gado, turbinada a veneno, por alimentos para as pessoas?

Pode parecer que esses são campos de conflito mais ético que político. Não é verdade. A mesma lógica pode ser percebida em setores, digamos, mais técnicos, como saúde e educação. Basta ver a resistência de parte da corporação médica ao programa que leva profissionais onde eles não querem ir; ou a competitividade que sustenta os programas de educação privada, baseados na exclusão e em históricos certames de seleção dos “melhores”, como se a educação fosse o setor de recrutamento de uma empresa qualquer. Sem os radicais da saúde pública ou da educação popular, a situação estaria ainda pior.

Além disso, os candidatos radicais de verdade costumam ser os mais confiáveis. Num terreno de alianças muito fluidas, em que o legislativo se torna fiador de projetos de poder, na chamada democracia de coalizão, dificilmente você vai ver um radical de boa cepa em direção de estatais. Patrocinar com o voto um candidato popular é uma forma de puxar o Legislativo em direção à sociedade, retirando o triste álibi de ser arrimo do Executivo que, por definição, deveria ser controlado exatamente pelos parlamentares.

Tempo de utopia Os radicais são também cada vez mais necessários no campo do pensamento, território que, como a política, sofre ataques regressivos, mediocrizantes e apaziguadores. No âmbito da reflexão política, por exemplo, está na hora convocar os defensores da utopia. Eles nunca foram tão necessários, embora dados por mortos pelos arautos do fim da história.

Acredito que pensadores como Herbert Marcuse, por exemplo, ligados ao último grande movimento libertário, os acontecimentos de maio de 1968, têm muito a contribuir na busca de saídas para nossos impasses contemporâneos. Quando ele publicou Eros e civilização, ainda em 1953, depois retomado em edição ampliada em 1968, o horizonte da utopia era real. As pessoas acreditavam que era possível mudar o mundo. Hoje, defende-se que as pessoas precisam se adaptar a ele.

A mensagem de Marcuse, numa fusão criativa de sociologia e psicanálise, era que a teoria marxista da exploração do trabalho precisava ser atualizada e aprofundada para dar conta do novo contexto social e econômico. Não se tratava mais, na sociedade pós-industrial, de uma exploração como no início do capitalismo, mas de uma superexploração garantida por elementos de ordem simbólica e psíquica.

Marx e Freud, acredita Marcuse, concordariam que o capitalismo, para se realizar, juntou exploração e repressão sexual. O resultado era o que a psicanálise chamava de ‘‘princípio de realidade’’, que se opunha ao princípio de prazer, perigosamente disruptor. Mas não foi suficiente: para o padrão de produtividade do novo capitalismo, era preciso avançar até o que ele chamou de ‘‘princípio de rendimento’’ ou ‘‘princípio de desempenho’’. A repressão, mesmo numa sociedade aparentemente mais livre, precisa ser muito mais potente.

Para Marcuse, o princípio de rendimento “é o de uma sociedade orientada para o ganho e a concorrência dentro de um processo de expansão constante. Ela pressupõe uma longa evolução no curso da qual a dominação foi cada vez mais racionalizada”. A carapuça serviu? Pois bem, se o diagnóstico é bom, a questão apontada por Marcuse merece ser examinada com atenção ainda hoje: é possível fundar uma sociedade não repressiva, na qual o princípio de realidade não seja o oposto do princípio do prazer?

O pensador vai atacar o problema por várias frentes, todas elas bastante significativas anda hoje: o combate à miséria, a defesa das condições de trabalho liberadas do jugo da alienação, a recuperação da relação com a natureza, a mudança nos padrões de consumo, o combate a todas as formas de repressão sexual e, sobretudo, a retomada do horizonte utópico.

Sexo, trabalho e política compõem o mesmo horizonte de afirmação humana. Precisamos dos três para alcançar o gozo, a realização e a melhor convivência entre iguais. Sem sexo o mundo é cinza; com trabalho alienado, estamos incompletos; fora da política, somos objeto do desejo do outro.

Marcuse, na tradição de Ernst Bloch, acreditava que havia, em cada pessoa, uma espécie de patrimônio de utopia, que podia ser desarquivado quando as condições sociais e psicológicas assim o permitissem. A liberdade, pessoal, sexual e política era condição da utopia. Esse arquivo espiritual de civilização, de acordo com ele, se apoiaria ainda na arte e na filosofia, repertório ao qual todos teriam acesso e direito numa sociedade mais justa.

Marcuse continua a ter razão no que diz respeito ao processo contemporâneo de precarização do trabalho, cada vez menos criativo e agora explorado em escala 2.0 (a realidade foi ainda mais perversa do que ele imaginava, já que não deixava de ser otimista em relação ao poder libertador da tecnologia). O filósofo permanece um guia político instigante, ao valorizar as possibilidades reais de subversão em todos os campos da atividade humana. Por fim, a forte regressão da questões referentes à sexualidade, sobretudo a homofobia e a violência contra as mulheres, mostra que o pensador ainda tem o que dizer. Não haverá civilização sem eros.

Os radicais, na política e no pensamento, talvez sejam a saída mais viável para nossos impasses. O contrário de eros é morte.

Um novo planeta, um novo poema‏ - Carlos Ávila

Um novo planeta, um novo poema 
 
Tema com presença na história da poesia, as estrelas são pontos de luz na lírica moderna brasileira. Em três estrofes com versos livres, Thais Guimarães apresenta a descoberta do planeta Kepler-186f 

 
Carlos Ávila
Estado de Minas: 24/05/2014


Imagem divulgada pela Nasa do planeta Kepler-186f: semelhanças reais e imaginárias com a Terra     (Nasa/AFP)
Imagem divulgada pela Nasa do planeta Kepler-186f: semelhanças reais e imaginárias com a Terra


“Ora, direis, ouvir estrelas...” Ou ver estrelas. Os poetas sempre foram ligados às estrelas; ao céu, ao sol e à lua, enfim, aos planetas e ao espaço infinito sobre nossas cabeças. Desde os mais eruditos até os mais populares. Todas as três partes da Divina comédia, de Dante (1265-1321) terminam com a mesma palavra: estrelas. “L’amor che move il sole et l’altre stelle” (O amor que move o sol e as outras estrelas) – o famosíssimo último verso do livro tornou-se uma espécie de signo-insígnia. Uma letra de canção do poeta Orestes Barbosa (1893-1966), com música de Sylvio Caldas, termina com a seguinte estrofe: “Olho as estrelas cansadas/ que são lágrimas doiradas/ no lenço azul lá do céu/ Estrelas são reticências/ estrelas são confidências/ do meu romance e do teu”. Em geral, as estrelas aparecem nos poemas identificadas com o amor.

Os astros (estrelas, planetas etc.) e o silêncio eterno dos espaços infinitos – que espantava o filósofo e físico Pascal – sempre estiveram presentes na poesia universal, inspirando versos e poemas dos mais diversos tipos e linguagens. Para ficar apenas na poesia brasileira do século 20, nunca é demais lembrar alguns textos marcantes, onde esses astros servem de mote ou motivo para a criação. Manuel Bandeira, no seu livro emblematicamente intitulado Estrela da tarde, publicou o poema “Satélite”, onde fala da lua num fim de tarde, desmetaforizada e desmitificada como “coisa em si/ satélite”.

Na última fase de sua obra, Cassiano Ricardo se voltou para temas espaciais: vejam-se os poemas “Translação” e “Gagarin” (este uma homenagem ao astronauta russo que foi o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 1961, a bordo da nave Vostok-1). Drummond e Murilo Mendes ficaram fascinados e escreveram sobre o cometa Halley, “iluminando de ponta a ponta o céu de 1910”. Murilo, mais “viajante”, fala ainda em “universos-naves”, “faixas-galáxias”, “Betelgeuse” (uma estrela de brilho variável sendo a 10ª ou 12ª mais brilhante no firmamento, que aparece também em dois poemas de Décio Pignatari), “pluricéus” e “ruído rotação”.

Haroldo de Campos intitulou sua poesia-prosa de Galáxias e seu irmão Augusto compôs “Pulsar” e “Quasar”, dois poemas visuais (um pulsar é uma estrela de neutrons de rápida rotação, o remanescente da explosão de uma supernova; um quasar é uma galáxia distante com uma luz brilhante e variável e outras radições vindas de suas regiões centrais). No “Pulsar”, o mais inventivo deles, ele envia um “abraço de anos luz” a alguém (um outro ser, humano ou inumano; um amigo ou uma pessoa amada), onde quer que ele esteja, em Marte ou Eldorado.

Imagens cósmicas aparecem ainda em diversos poemas de Ferreira Gullar, como, por exemplo, em “Pergunta e resposta”, onde observa que “a Via Láctea é apenas uma/ entre bilhões de galáxias/que à velocidade de 300 mil km por segundo/ voam e explodem/ na noite”; e indaga: “o que faz aí/ meu poema com seu/ inaudível ruído?”. Já Paulo Leminski escreveu o sensível “Espaçotemponave para Alice”, dedicado à sua companheira, a também poeta Alice Ruiz, que termina com estes versos: por isso/ nos apertar/ tanto/ nos juntar/ tanto/ juntos enfrentar/ a noite/ dos espaços interestelares”.

Vários poetas continuam trabalhando temas ligados à observação celeste, às descobertas e explorações espaciais. Estas vêm se aprofundando com o avanço dos recursos tecnológicos, desde o lançamento, em 1990, do Hubble – um satélite astronômico artificial não tripulado que transporta um grande telescópio para a luz visível e infravermelha.

A poesia – verbal ou visual, no papel ou na tela, com movimento e cor – continua pulsando e pulsante em relação aos astros. Recentemente, foi detectado um novo planeta, o Kepler-186f, parecido com a Terra e orbitando a zona habitável de uma estrela, ou seja, a região onde a radiação desta é tal que o planeta possui uma temperatura semelhante à do nosso, capaz de manter a água na forma líquida com condições favoráveis à existência de vida como conhecemos.

A descoberta do Kepler-186f inspirou a poeta Thais Guimarães. Com linguagem direta e síntese verbal – marcas de sua poética desde o primeiro livro, Jogo de cintura –, Thais colocou em três estrofes de versos livres sua visão dessa nova descoberta: “um planeta possível” e um “outro encontro com a ficção”. Mais uma vez, a conjunção dos astros ilumina nossa poesia. 


. Carlos Ávila é poeta e jornalista. Publicou, entre outros, Bissexto sentido e Área de risco (poesia) e Poesia pensada (crítica). Foi, por quatro anos, editor do Suplemento Literário de Minas Gerais.


Kepler-186f
Thais Guimarães


os astrônomos descobriram novo planeta
que possui uma lua
somente sua
a orbitar uma estrela
(seria insuportável viver na escuridão)
menos quente do que o sol
(desejada porção de calor)
onde a água pode ser líquida
e o solo habitável
(um planeta possível)

outro encontro com a ficção
que antecipa mundos destruídos
selvagens
planetas de escassez
tão temidos quando imaginados
à distância
mas tão próximos
das imagens de guerras
revoltas da natureza
dos piores instintos da mente

que poesia alcançará o futuro
espaço desconhecido
de estrelas distantes
onde o homem
em sua errância
será ainda metáfora de si

Do trágico ao épico - André Melo Mendes

Estado de Minas: 24/05/2014 

Sebastião Salgado durante a abertura da exposição Gênesis, no Museu Nacional de Singapura     (Roslan Rahman/AFP)
Sebastião Salgado durante a abertura da exposição Gênesis, no Museu Nacional de Singapura


Sebastião está de volta. Aproximadamente 13 anos depois da conclusão da sua última série de imagens, Êxodos (2000), Sebastião Salgado impressiona o mundo outra vez com Gênesis, seu novo trabalho, cujas imagens apresentaram novidades significativas com relação ao estilo pelo qual ficou mundialmente conhecido. O projeto Gênesis durou cerca de oito anos e custou algo em torno de oito milhões de euros. Nesse período, Salgado e sua equipe fizeram inúmeras viagens e várias fotografias foram publicadas em revistas e jornais internacionais, dando uma prévia daquilo que está sendo apresentado no livro e nas imagens que estão correndo o mundo em exposições.

A palavra gênesis vem do grego e significa “origem”, “nascimento”, “criação”, e nomeia o primeiro livro da Bíblia. Segundo Salgado, a escolha desse nome não está ligada ao tema bíblico, mas ao início da Terra na “versão científica”, quando ela teria sido moldada por erupções e terremotos que acabaram por dar origem à vida. Apesar dessa declaração, é impossível não estabelecer ligações entre essas imagens e esse momento da narrativa judaico-cristã, especialmente no trecho anterior à aparição do primeiro homem, quando a Terra era um paraíso – literalmente.

Nesse conjunto de fotografias, Salgado decidiu deixar de lado a sua conhecida opção pelo registro estético do sofrimento dos mais necessitados, direcionando suas lentes para a causa ecológica. Tal mudança de enfoque, do trágico em favor de um estilo mais épico, foi uma forma de reinventar-se. Essa transformação começou a se desenhar no final da década de 1990, quando o intenso contato com os problemas sociais com os quais conviveu durante toda sua carreira o levou à beira de uma depressão.

Por uma infeliz coincidência, justamente nesse momento, Salgado precisou voltar à sua terra natal, Aimorés (MG), para cuidar da fazenda dos seus pais e ali encontrou devastada a terra em que viveu sua infância. Esse fato contribuiu para agravar seu estado psicológico, mas com a ajuda de sua esposa, Lélia Wanick, conseguiu reagir a esses revezes e juntos criaram o Instituto Terra, por meio do qual recuperaram a vida nesse lugar. O sucesso dessa experiência deu novo ânimo a Salgado e lhe despertou o interesse por fotografar paisagens, animais e comunidades que ainda não haviam sofrido as consequências negativas da sociedade de consumo – ali começava o projeto Gênesis.

Em 2004, Salgado partiu em busca desses lugares em que a presença do homem ainda não havia causado mudanças relevantes no hábitat. A intenção do fotógrafo brasileiro foi revelar o que ainda havia de “puro” no planeta, pretendendo assim despertar a consciência das pessoas para a necessidade de proteger esses lugares majestosos ameaçados pela ganância dos homens e pelo consumo desenfreado. As viagens começaram com visitas às tartarugas das ilhas Galápagos e às baleias na costa da Argentina, se estenderam à África e à Oceania, chegando à Sibéria, onde registrou a vida dos netnets e suas renas. Ao todo, foram 32 países visitados pelo fotógrafo e sua equipe – parte dessas imagens deu origem ao livro de mesmo nome do projeto.

Apesar de Salgado afirmar que as mudanças no seu trabalho estão relacionadas à sua experiência com o Instituto Terra, algumas pessoas acreditam que essa alteração ocorreu devido ao fato de o fotógrafo brasileiro ter se cansado de ser alvo de críticos de várias áreas relacionadas à imagem. Ao longo da sua carreira, Salgado tem colecionado não apenas aplausos e prêmios, mas também censuras e polêmicas em relação à sua opção estética. A apreciação negativa ao seu projeto fotográfico se manifestou com mais vigor principalmente após Êxodos. Seus críticos podem ser divididos basicamente em dois grupos: aqueles que o acusam de tirar vantagem da desgraça dos menos favorecidos e aqueles que o repreendem por esvaziar o poder revolucionário que uma imagem trágica possuiria.

A pensadora norte-americana Susan Sontag defende a ideia de que as imagens de Salgado, por terem grande veiculação, acabam por despotencializar a tragédia, o estranho, o drama, na medida em que a exibição da sua coleção de pessoas em situações degradantes banalizaria essa situação trágica, anulando seus efeitos. Segundo Sontag, o choque causado por fotos desse tipo teria uma espécie de “prazo de validade” e a exposição prolongada na mídia enfraqueceria esse potencial, já que as pessoas poderiam se “habituar ao horror de certas imagens”. Jean-François Chevrier, professor da Escola Nacional Superior de Belas Artes (Paris), afirma que em Êxodos Salgado cria um “esteticismo vaidoso” que poderia levar à anestesia da realidade; enquanto que Natacha Wolinski, crítica de arte independente, repreendeu publicamente Salgado por apresentar belas imagens de cenas revoltantes. Segundo Wolinski, o fotógrafo brasileiro estaria tirando vantagem das desgraças dessas pessoas para “servir à causa da beleza como se autorizasse a beleza a tirar proveito do sofrimento”.

Ao criar Gênesis, é pouco provável que Salgado esteja fugindo das recriminações que lhe foram endereçadas ao longo da sua carreira. De todo modo, agora seus críticos não terão do que reclamar, já que nessa nova série a pobreza e a desgraça dos menos favorecidos deram lugar à beleza e à pujança da natureza. Em Gênesis, Salgado deixou de lado a denúncia das consequências de um mundo desigual para concentrar-se na apresentação de um planeta ainda intocado, preocupando-se com aspectos geométricos da imagem, como nunca fizera antes. Se houve mudanças relevantes com relação à forma e ao tema, no que diz respeito ao seu discurso, vamos perceber que nada se alterou: continua sendo crítico em relação à maneira como percebe o homem se relacionando com seu hábitat. Ao mudar o tema das suas fotos, elas não deixaram de ser belas e seu projeto continua sendo o de sensibilizar o público para combater o mundo do consumo e suas consequências, mas não mais pela divulgação de imagens trágicas e, sim, por imagens épicas.

. André Melo Mendes é professor do curso de comunicação social da UFMG.


GÊNESIS
Exposição de fotos de Sebastião Salgado. Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard e Espaço Mari’Stella Tristão do Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. De 4 de junho a 24 de agosto. De terça-feira a sábado, das 9h às 21h; domingo, das 16h às 21h. Entrada franca.

Orelha

Estado de Minas: 24/05/2014 



Artista japonesa, Yayoi Kusama ilustrou nova edição de Alice no país das maravilhas (Andrew Toth/Getty Images/AFP)
Artista japonesa, Yayoi Kusama ilustrou nova edição de Alice no país das maravilhas


Clássico

As clássicas histórias infantis parecem estar mesmo em alta, merecendo novas traduções e ilustrações feitas originalmente para edições especiais, de olho mais nos adultos que nas crianças. Depois de Mary Poppins, ilustrada por Ronaldo Fraga, o mais recente lançamento do gênero é Alice no país das maravilhas, com tradução de Vanessa Barbara e ilustrações da grande dama Yayoi Kusama, uma das mais baladas artistas plásticas contemporâneas, conhecida por sua obsessão pelas bolas coloridas. Desde 2009, Kusama tem a obra Narcissus garden no Inhotim, em Brumadinho. Papa fina da Editora Globo.

Índia

A Global Editora está lançando o livro Poemas escritos na Índia, de Cecília Meireles. O mosaico cultural da Índia é o fio condutor dos poemas e com ele, Cecília, que conheceu o país em 1953, tece com limpidez e delicadeza sua poesia. Editado originalmente em 1961, o livro explora formas e imagens de elementos cotidianos, além de retratos de pessoas como o líder pacifista Gandhi e o poeta Rabindranath Tagore, e locais como o Rio Ganges e o Taj Mahal.
A apresentação é do poeta Afonso Henriques Neto.

Orgulho nerd

Especializada em terror e fantasia, a editora DarkSide está lançando Star Wars, a trilogia. O livro reúne os romances inspirados nos três primeiros filmes do universo fantástico criado por George Lucas: Uma nova esperança, O império contra-ataca e O retorno de Jedi. Os três títulos chegaram a ser lançados no Brasil, sendo o último deles em 1983. Mas esta será a primeira vez que a trilogia completa é editada no país num único volume, em capa dura. O lançamento oficial será amanhã, pois 25 de maio é chamado o Dia do Orgulho Nerd. E a chegada do volume ao Brasil só vem ratificar a força da série, que terá um novo filme em 2015, dirigido por J. J. Abrams, considerado um novo George Lucas. Preço para nerd nenhum botar reparo: R$ 79,90.

Poesia e pelada
Hoje é dia de poesia e futebol. A Livraria Scriptum, Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi, está lançando a terceira edição de sua Pelada poética. Os poetas foram convocados para usar sua liberdade e criatividade para dar tratos à bola. São 26 escritores, a maioria mineiros, como André di Bernardi, Ana Elisa Ribeiro, Renato Negrão, Kaio Carmona, Kiko Ferreira, Carlos Britto e Melo, Chico Alvim e outros, que dividem o campo com o pernambucano Fabiano Calixto e os cariocas Zica Sardan e Armando Freitas Filho (foto) e outros craques das letras. Às 11h, com direito a prorrogação.

     (Camila Maia/AG  )


Quadrinhos 1

O terceiro volume de O mundo de Edena – A deusa, de Moebius, chega às livrarias em edição da Nemo. O cenário, apesar de diferente, mantém as características fantásticas, fluidas e oníricas dos volumes anteriores.

Quadrinhos 2


O selo Fantasy, da Editora Casa da Palavra, manda para as livrarias o terceiro álbum da série Guerra dos tronos, de George R. R. Martin, em adaptação do roteirista Daniel Abraham e do desenhista Tommy Patterson.

Lançamentos


O escritor e jornalista Ewerton Martins Ribeiro lança hoje, a partir das 10h, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, na Rua Carangola, 288, no Santo Antônio, a novela A grande marcha. A edição é da Circuito.

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Fred Melo Paiva lança hoje, a partir das 11h, na Livraria Quixote, Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, o livro Bandido raça pura. O volume reúne perfis de “ilustres mais ou menos virtuosos, notáveis, anônimos, cães, ratos, urubus e coisas supostamente animadas”.