sábado, 31 de maio de 2014

João Paulo - Intolerantes são sempre os outros‏

Intolerantes são sempre os outros

João Paulo
Estado de Minas: 31/05/2014

Rachel Daniel mostra o retrato da filha sequestrada por militantes do Boko Haram, na Nigéria (Joe Penney/Reuters)
Rachel Daniel mostra o retrato da filha sequestrada por militantes do Boko Haram, na Nigéria

Freud definiu a religião como uma ilusão. Não se tratava de um juízo negativo. Para o pensador, em determinados assuntos não cabia a exatidão da ciência, mas a busca de realização de desejos. No mundo real, podemos estar certos ou errados. A ciência se tornou nossa medida por excelência nesse campo. No universo das grandes causas, o que vale é a crença.

Quem navega no mundo da religião sabe que as crenças, no seu limite, se equivalem, que elas traduzem nossa sede de ligação com o absoluto, com os antepassados e com os grandes valores. As religiões se avizinham da ética, se preocupam com a moral, são atentas à convivência como forma de garantir a continuidade dos povos e civilizações.

Certa vez perguntaram ao dalai-lama qual era a melhor religião. Ele respondeu rapidamente: a que torna a pessoa mais compassiva. A boa religião é a que nos faz melhores, mais tolerantes, mais amorosos e justos. Assim, cada crença teria algo que se somaria numa possível religião universal, uma espécie de grande acordo da sabedoria de todas as formas de fé.

Essa tentativa eclética de somar sabedorias ganhou na Renascença o nome de “filosofia perene”. Seria algo como o substrato que garantiria o solo moral de todas as formas religiosas. Em outras palavras, um núcleo comum, um mar de bondade que se comunicaria com todos os deuses e revelações. Para quem não tem fé, a filosofia perene poderia ser um tipo de grande acordo ético sobre o sentido da vida.

Essas reflexões vêm à tona quando o mundo parece conviver com um oceano de barbárie, que faz questão de ser filiar ao pensamento e às práticas religiosas. São ações de desumanidade aterradora, que ao mesmo tempo que conquistam a solidariedade de alguns países, se escondem no sentido inquestionável do dogma e da covardia dos povos. Nesses casos, quase sempre o intolerante é o outro. Os exemplos são hediondos.

A Justiça do Sudão, por exemplo, condenou à morte por enforcamento Meriam Yehya Ibrahim Ishag, grávida de oito meses, pelo fato de ela ter-se convertido do islamismo ao cristianismo para se casar com um cristão. A sentença é ainda mais cruel. Até que seja executada, foi destinada a receber 100 chibatadas pelo delito de adultério, já que seu casamento não é considerado legítimo pela lei islâmica. Morte anunciada, a ser acompanhada com leniência por uma comunidade internacional estática, a repetir com um esgar de nojo: o horror, o horror. E não passa disso.

Quem acha que se trata de um comportamento incivilizado, é só comparar com a forma como os grupos ultraortodoxos judeus se manifestaram durante a recente visita do papa à chamada Terra Santa. Para eles, o governo israelense estaria disposto a assinar um acordo que entregaria ao Vaticano o controle do prédio onde Jesus teria feito a última ceia com os apóstolos. Em outros termos, trata-se da negação do Estado em nome das crenças, sem qualquer justificação humana. Mais uma ação separatista numa terra que edifica muros em vez de propor diálogo.

Recentemente, o grupo Boko Haram, militantes por um Estado islâmico no Norte da Nigéria, se tornou célebre pelo sequestro de 200 garotas em uma escola. Mesmo com a condenação internacional, o grupo segue sua trajetória de horrores, atacando bases militares e matando civis, numa guerra que parece não ter fim. Há questões econômicas e morais na base desses grupos. A violência contra as mulheres e os homossexuais é uma das faces mais cruéis.

Curiosamente, os mesmos Estados Unidos que se manifestaram contra o Boko Haram parecem não se importar com a exportação da homofobia para países da África, por meio da ação de seus evangélicos. São milhões de dólares em doações para diversos países, num trabalho que mescla ação humanitária com ideologia que propaga discriminação contra gays, lésbicas e transgêneros. Sem lugar no reino de Deus, eles são apresentados como ameaça à sociedade.

No Brasil, com sua pretensa liberdade de religião, presenciamos recentemente a sentença de um juiz que manteve a veiculação de mensagens discriminatórias contra crenças de origem africana na internet, sob o argumento que não se tratavam propriamente de religiões. Para o juiz-teólogo, uma religião digna do nome só pode ter um Deus e precisa ter um livro sagrado (mesmo que ele contenha, como a Bíblia, milhares de erros crassos em ciência e moral).

Para muita gente, a religião – e especialmente os monoteísmos revelados – seria portadora de uma verdade moral que escapa a outras formas de conhecimento. Quem não crê, por esse raciocínio, seria menos humano, menos capaz de amar ao próximo, menos sensível à justiça e ao bem. Foi a ideologia que sustentou por muitos séculos as religiões próximas aos negócios do Estado.

A conquista da laicidade, nesse sentido, foi um avanço de civilização. Com ela, caiu por terra o exclusivismo moral das religiões e o bem se tornou uma responsabilidade dos homens e mulheres. A equação se inverteu: quanto menos religioso, mais humano. Quem não crê em Deus tem, por isso, muito mais condições de ser uma boa pessoa.

As religiões, todas elas, podem concorrer no campo do conforto da alma ou das lendas apaziguadoras do nosso medo da morte, mas devem ser banidas do Estado e da ciência, onde só contribuem com o atraso. Se Deus ama seus filhos, o melhor é matar o pai e tentar construir a grande família humana, onde todos sejam irmãos. Se a religião é futuro de uma ilusão, a política é nosso destino real e presente, mesmo que pequeno e comezinho. Somos gente, não filhotes de deuses. Caso contrário, só nos restará ficar esperando a morte de inocentes.

Inez Lemos - Seleção de ressentidos‏

Os atuais episódios de violência e a corrupção no Brasil têm raízes históricas e psíquicas que devem ser analisadas. A Copa do Mundo precisa apontar para a recuperação da cidadania e do pacto de civilidade


Inez Lemos

Estado de Minas: 31/05/2014


Grafite de Paulo Ito, num muro de São Paulo, imagem que ganhou as redes sociais e traduz o sentimento de parte dos brasileiros frente ao torneio (Nelson Almeida/AFP)



Como explicar a gênese da violência que assola o país? Depredação de ônibus, bancos, linchamentos aos supostos bandidos, execuções a pedradas, vasos sanitários e pauladas. Crueldade, vingança, ira e ressentimento. O caldo da maldade é engrossado dia a dia. Ao analisar os sinais de descontentamento e vandalismo, esbarramos em questões políticas e psíquicas. O inconsciente, ao ser contaminado pela realidade social, sofre os efeitos da vida política.

O descobrimento do Brasil fez parte de um projeto de modernidade, em sua corrida pela acumulação de riquezas. Somos filhos da pirataria, da contravenção e da corrupção. Filhos de uma relação de interesses – o português que engravidou a índia como forma de obter informação de quem aqui vivia. Estratégias de dominação. A arte de manipular para melhor reinar. Alienar, impedir que o outro participe, interaja. Quanto mais alienado, mais fácil de controlar. Contudo, o brasileiro, cansado de desrespeito e descaso, resolve se rebelar contra o poder público e privado. Não sobrou ninguém. A espada está no pescoço de todos nós.

O que move o mundo é o desejo insatisfeito. O capitalismo manipula, os políticos fingem que não escutam, mas a verdade é que não se controla um país oferecendo apenas pão e circo, celulares, tablets, lipoaspiração. O trabalhador, além de cartão de crédito, exige transporte, saúde e educação de qualidade. Anseia por dignidade, direitos, justiça. A desigualdade provoca revolta e ressentimento. O sonho agora é por igualdade de oportunidades. Punição aos ladrões de baixo e de cima. Quando o crime é uma prática da classe política, rebelar é a palavra de ordem entre os que sofrem as consequências.

O Brasil é terra de ninguém, onde as leis dificilmente são cumpridas, onde viceja o racismo, a homofobia e a intolerância. A onda fascista é um efeito da anomia, da farra e desfaçatez dos poderosos. Como circular ideias de ética, honestidade e honradez, se grande parte dos governadores, prefeitos e deputados direciona o olhar para suas contas bancárias? Educar e governar são tarefas intermináveis. Aprendemos a amar, respeitar e governar com os pais. Pai é aquele que, ao exercer a função paterna, simboliza a lei: interdita o desejo descabido. Cobrar doçura de um povo injustiçado é despautério. Sem o bom exemplo, os filhos continuarão no vandalismo. Seria o Brasil um convite ao banditismo?

Por que somos tão condescendentes com os políticos corruptos? Se a corrupção sempre foi um direito dos que dela se beneficiam, privilégios e injustiças sempre fizeram parte dos que detêm o poder econômico e político. Educar é barrar os filhos em seus impulsos destrutivos, inserindo-os nos limites da lei. Sem interditar, frustrar, a chance da criança tornar-se perversa é grande. A política é o palco privilegiado dos perversos, é onde eles são amparados em seus atos ilícitos e soltam as garras da ambição.

O passado coronelista e patrimonialista nos ensinou a utilizar o espaço público como se fosse privado. Ao mesmo tempo que o criticamos, repetimos posturas que condenamos. Como ultrapassar o atavismo moral que parece nos definir? Mudar uma cultura, fundar outra ideia de nação, quão difícil! É trabalho profundo, há de se tocar entranhas e rever o lixo recalcado. Todo sintoma aponta para uma tentativa de cura. Ao mesmo tempo que denuncia o que não vai bem, revela um gozo – prazer e desprazer na compulsão à repetição. Reclamamos dos corruptos, mas somos tolerantes quando eles defendem nossos privilégios.

Ao analisar a violência, penso na palavra ressentimento. Res-sentir – sentir duas vezes, não perdoar, guardar mágoas, alimentar vingança, não se implicar nos conflitos. Ressentimento é sentimento que fixa o sujeito na neurose. A neurose paralisa o sujeito no sintoma, impedindo-o de avançar nos bons sentimentos. O ressentido é um infeliz, pois se cristaliza na amargura. O brasileiro, que sempre gozou da condição de ressentido e trapaceado, agora quer, nas ruas, exigir políticas públicas de qualidade. Melhor que reclamar em mesa de bar ou descontar no erário, engrossando o caldo dos corruptos.

Desejo de desforra

A exposição de um cotidiano promíscuo provoca no brasileiro o desejo de desforra, de botar para quebrar. Se para o político a demanda da população é o que menos conta, se poucos se ocupam com suas necessidades, é de se esperar que o muro se rompa. No filme Getúlio, quando não havia mais o que esconder, o presidente Vargas confessa: “Nunca me pediram nada para o país (ou para povo), sempre me pediram algo para alguém”. A violência das ruas metaforiza o filho lesado contra o pai perverso. Passa-se ao ato de forma impulsiva, impensável. É sangue fervendo na veia.

Nossa história ressalta a ausência de interdição capaz de regulamentar o apetite pelo gozo e organizar um quadro social que outorgue a cidadania. O romance familiar brasileiro, nossa mitologia, produziu a fantasia do privilégio e da violação de direitos. Revisitando as determinações histórico-sociais dos processos de subjetivação, identificamos o descaso pela res-pública (coisa pública). O ethos que nos funda é o do prazer e não o da felicidade. A imagem que vendemos é do paraíso sexual. Mulheres gostosas e de fácil acesso.

País idílico, frívolo, que não soube se fazer respeitar. A Copa promete jogos e orgia. Goleada no campo e na cama. A volúpia e o fascínio que exercermos no imaginário dos estrangeiros condena nossa filiação. Submetidos ao imperativo do gozo, deixamos de cobrar o ouro que o mundo nos deve. Filhos de um amor pérfido. Sedução e traição.

A filha pobre e de pouca escolaridade, diante do dinheiro, se corrompe e se prostitui. Promiscuidade que lhe atravessa a alma e a lança na sarjeta das perdidas. Menina de um futuro morto. O que não nos faltam são motivos para subverter a ordem, romper com a imagem do negativo social. Chega de manipulação. Mídias e governantes nos alienam e dominam. Submissos aos interesses do mercado, nos fixamos no gozo.

A herança escravocrata explica a sujeição ao grande outro e a vocação à dependência. Consumista, imediatista e permissivo. Reserva libidinal do mundo. Aos olhos dos estrangeiros, a imagem será de eterno prostíbulo? Como explicar a tendência da mulher brasileira à nudez? Nossa condescendência com os sedutores revela o fracasso da função paterna. Adoramos nos exibir. Do carnaval ao Facebook, não perdoamos os flashes. Repetiremos na Copa o destino colonial? Permitiremos que o estrangeiro entre e explore o melhor, seja açaí ou adolescentes?

Sem Marx e Freud, sem pudor e ética, vencerá a violência. O niilismo quer acabar com a consciência social – utopia por maior distribuição de renda e oportunidades. O fantasma fundamentalista, aliado ao obscurantismo que se esconde nas religiões de esquina, prega a ignorância e a insanidade. Viver é enfrentar contradições. Saber lidar com os paradoxos humanos.

A anomia revela a desorganização social, a ausência de leis. Para que o tecido social se articule, é necessário mais que renúncia pulsional. Não se constrói uma nação apenas com repressão. O respeito aos pais se deve ao amor – o temor apenas é insuficiente para que a criança internalize a lei. Para que o brasileiro se anime e torça pelo Brasil, é preciso haver paixão. É preciso motivo para que o filho torça pelo pai. Contudo, a questão da violência no Brasil, antes de ser política, é psíquica.

Se a Copa servir para deflagrar a consciência de cidadania, que indica que a responsabilidade na construção de um país é de todos, valeram os investimentos. Se servir para estancar o masoquismo e investigar a condição de vítima, melhor ainda. Toda neurose, todo lugar de gozo, responde por uma filiação. A violência tanto pode ser efeito de uma metáfora paterna inconsistente, como do desamor do pai pelo filho. Como respeitar a casa se nela somos violentados, desprezados? Por tudo isso é difícil para o brasileiro sair às ruas com bandeiras e apitos. No lugar da torcida, prepara-se a revolta. Como sustentar um outro lugar, uma outra filiação?

O significante que operou como referência simbólica foi o da permissividade – riqueza e sexo em terras tropicais: praias, borracha e minério. Quando a filiação fracassa, a maledicência ganha espaço e se instaura como arremedo da função paterna. Colonização e exploração, corrupção e impunidade, permissividade e leviandade. A história e os significantes nos condenam. A onda de ações predatórias revela a condição de rebotalho, ela está no inconsciente do sujeito e não em sua condição econômica. Traço de filho rejeitado, com mãe omissa e pai ambicioso. Filho do português com a índia, do coronel com a escrava. Como reparar as perdas? Não estariam os black blocs denunciando o fracasso da função paterna?

. Inez Lemos é psicanalista.
E-mail: inezlemoss@gmail.com

ENTREVISTA/JOSÉ LUIZ PASSOS » O delírio e o cotidiano‏

Romancista pernambucano fala sobre as tendências e os desafios da ficção brasileira contemporânea


Nahima Maciel
Estado de Minas: 31/05/2014


 (Alfaguara/divulgação)


O diálogo e a descrição são instrumentos importantes para o escritor pernambucano José Luiz Passos. Ao contrário do que pensam muitos críticos, ele não encara a dupla mais antiga da literatura como antiquada ou ultrapassada. São as descrições e os diálogos que fazem de O sonâmbulo amador, ganhador do Prêmio Portugal Telecom 2013 e do II Prêmio Brasília de Literatura, um livro diferente. A narrativa se destacou em meio a uma leva de romances muito marcados por histórias pessoais e universos urbanos e colocou os holofotes sobre Passos, que estreou na ficção com Nosso grão mais fino, em 2009. O sonâmbulo do título é Jurandir, funcionário de uma fábrica de tecidos que se recusa a encarar certos traumas. A narrativa repartida em blocos nos quais o personagem transita entre o delírio dos próprios sonhos, um suposto hospital psiquiátrico e o cotidiano real e cru conduz o leitor para um mundo psicológico que Passos descreve como “do autoengano”.

Professor de literatura e cultura brasileira na Universidade da Califórnia (UCLA) em Los Angeles e radicado nos Estados Unidos há 19 anos, o pernambucano acaba de lançar Romance com pessoas — A imaginação em Machado de Assis, no qual traça um paralelo entre a obra do bruxo do Cosme Velho e a produção de William Shakespeare. A conexão está explícita no fascínio de Machado por Otelo e na ideia do engano associado à traição, fundamental na trama de Dom Casmurro.

Nascido em Catende, no interior de Pernambuco, em 1971, Passos estudou sociologia antes de se embrenhar academicamente pelas letras. Em 1998, depois de concluir o doutorado em Berkeley, uma das unidades da UCLA, a universidade o contratou como professor temporário de literatura brasileira. Em 2007, Passos foi convidado para integrar o corpo docente e, depois de um concurso, passou a ocupar a cadeira permanentemente, dessa vez na unidade de Los Angeles.

Tem-se falado muito que o Brasil vem passando por uma onda de autoficção na literatura contemporânea. Você concorda? O que acha?

Houve algumas obras interessantes e importantes nesse campo nos últimos anos e gerou-se esse debate. Luciana Hidalgo tem escrito sobre isso, Ricardo Lísias também. Tudo depende de como se define autoficção, porque autoficção começa muito antes desse boom brasileiro, ela é muito presente na literatura francesa e argentina, menos na anglo-saxã, mas muito presente na europeia. Acho que a relação da autoficção com a ficção propriamente dita é a de um jogo numa aposta de continuidade entre a matéria representada e a suposta matéria vivida pelo seu autor. O grande risco é você fazer o seu leitor a pensar que autoficção é autobiográfica, porque não é o caso. Os romances de autoficção não são autobiográficos, são sobre os outros, sobre dramas com os quais você simpatiza ou não, pelos quais você sente fascinação. Você se coloca como observador participante, é como aquela metodologia da observação participante de antropologia, em que você entra num sistema cultural, observa um sistema cultural, se acusa em um sistema cultural. Esse estranhamento produz significação, mas você não escreve sobre você. O problema da autoficção é que as pessoas não têm discernimento, não escrevem obras fortes o suficiente e acham que, comentando experiências pontuais meramente autobiográficas, estão fazendo muita evolução no campo da ficção. Não é o caso.

O sonâmbulo amador é um dos poucos livros que trata de uma temática diferente da que vem sendo explorada por boa parte dos jovens autores contemporâneos brasileiros, muito centrados em um drama de classe média com o qual estão familiarizados. Pode contar um pouco sobre o livro?

Acho O sonâmbulo um livro diferente da tendência mais corrente na literatura brasileira, que me parece ser mais urbana, mais voltada para a experiência contemporânea enfatizando questões de identidade, de movimentos sociais, de violência. E O sonâmbulo amador volta para certas estratégias literárias e até semióticas de romances clássicos do nosso cânone, da formação e da deformação do conceito que o indivíduo tem de si mesmo. É o sujeito que está em risco, mas não consegue aceitar esse risco. O livro surge de uma costela de meu primeiro romance, Nosso grão mais fino, que é a história de um químico, e tem um repasse de 40 anos da vida dele e da relação que estabelece com a amante. O capítulo cresceu muito, eu guardei e tive essa vontade de escrever um livro sobre alguém prestes a se aposentar que é forçado a reavaliar sua própria vida.

A descrição também é importante no livro. Alguns textos críticos dizem que o romance contemporâneo não pode se prender a descrições. O que você acha disso? E qual o risco do diálogo? A verossimilhança é importante no romance contemporâneo?

Estava me referindo ao debate sobre a falta de lugar ou a sem razão de narradores oniscientes ou em terceira pessoa na ficção contemporânea. Como se essas técnicas tivessem sido enterradas com o século 19, como se tivessem ficado para trás. Meu argumento é que, na verdade, a ficção contemporânea pode lançar mão de todas essas técnicas desde que a descrição esteja integrada ao movimento da trama, a uma revelação importante sobre a personagem, a um ponto de vista associado ao narrador que não existiria (sem ele). A descrição é parte da ação, não é uma descrição morta, como são alguns dos romances mais clássicos da primeira metade do século 19. É como dizer: “a gente não pode mais usar o verde na pintura contemporânea porque verde significa esperança e não existe mais esperança no mundo contemporâneo”. Não é por aí.

E como isso pode ser interpretado na ficção?

Acho que você pode lançar mão de narradores em terceira pessoa e descrições. E o diálogo, eu acho difícil de dominar. Extremamente difícil, porque na língua portuguesa há esse divórcio tão grande entre o que é oral e o que é escrito, entre a norma culta e a norma falada, entre o coloquial e o erudito. Toda vez que você faz alguém falar, você sofre uma marcação sociolinguística muito forte. É uma opção que o escritor tem que tomar desde o início, e ela é enganosa. Muitas vezes as pessoas acham que os romances têm que falar com a voz contemporânea, coloquial, quando na verdade acho falso supor que uma obra escrita possa ou deva acompanhar a norma falada só porque a norma falada parece mais aderente à realidade. A aderência à realidade é uma convenção da ação literária, então uso uma mescla das duas sem exagero.

Ainda há pouca literatura que trata de questões centrais para uma maioria da população?

A literatura no Brasil sempre foi feita por poucos e para poucos, e isso se explica demograficamente e estatisticamente de modo muito simples: é um país sem hábito de leitura e com índices de analfabetismo muito altos quando comparados a países com a mesma força econômica. E os índices de leitura na nossa elite, particularmente entre os jovens, não são tão representativos assim. O consumo sempre foi mais especializado, um consumo de nichos: você tem o nicho da alta ficção, o nicho dos consumidores e produtores de poesia, o nicho do romance de ação ou aventura, ou do romance rosa. O importante é que, levando-se em conta que a literatura é um direito de todos, que a expressão individual na língua é um direito de todos, que a imaginação é um direito de todos, devemos fazer todo o possível para que essas formas de representação estejam disponíveis para mais e mais pessoas. Por outro lado, os índices atualmente são muito maiores do que há 20, 40 anos, e isso é um sinal de grande progresso e inclusão.

A classe média baixa não está representada na literatura brasileira?

Você pode usar o mesmo argumento: se o romance não representa certas experiências, a pintura cubista também não representa certas experiências. Nem todas as formas de expressão podem representar tudo, porque aí teríamos uma pasteurização de tudo. Seria a mesma coisa que vender produtos que precisam ter a cara do consumidor. A literatura da qual eu gosto é a literatura que me desloca, me desarma, me provoca, é mais difícil, mais densa, tomo mais tempo para passar por esses livros, volto a esses livros. E há outros tipos de literatura. O bom da literatura é que é como a culinária: você não come foie gras e bebe champanhe todos os dias. Eu consumo romances policiais e vejo seriados de televisão, mas também leio Guimarães Rosa e Joyce. Não vejo necessidade de afirmação de uma regra única. A outra questão é mais social, que é o acesso da grande população a esses bens simbólicos como consumidores e como produtores. E, para isso, é preciso tanto uma política de cultura quanto de educação.

Morar fora do Brasil e viver cotidianamente uma outra língua tem influência na sua literatura?

Sou casado com uma pernambucana, tenho dois filhos que falam português em casa, mas minha atuação profissional é muito mediada pela língua inglesa, assim como meu consumo de ficção contemporânea, cinema, tudo. Escrevo ensaios críticos em inglês, poema, ficção, tenho uma peça em inglês. Acho que há uma influência grande, sim, e acho particularmente notável nos dois romances. No primeiro, vários resenhistas destacaram a relação com Faulkner, o romance do Sul dos Estados Unidos, que leio muito. E a ficção do romance inglês está muito presente em O sonâmbulo amador. Romancistas como Henry James, que era americano e se naturalizou inglês, e Kazuo Ishiguro, me influenciaram muito a alcançar esse tom para a voz de Jurandir.

Romance com pessoas

. De José Luiz Passos
. Alfaguara, 400 páginas. R$ 46,90

O sonâmbulo amador
. De José Luiz Passos
. Alfaguara, 270 páginas. R$ 39,90

Histórias dentro da história - Carolina Braga

Estado de Minas: 31/05/2014 



Hoje é dia de Maria chegou à televisão com visual deslumbrante e texto cheio de referências literárias (Renato Rocha Miranda/Divulgação)
Hoje é dia de Maria chegou à televisão com visual deslumbrante e texto cheio de referências literárias

Quando fala sobre o livro Hoje é dia de Maria Borralheira – Intertextualidades do roteiro da minissérie televisiva, a professora Myriam Pessoa Nogueira pensa logo em um banquete. Para muita gente é assim: quanto mais pesquisa, quanto mais conhece, mais saboreia os detalhes de cada menu. É de se imaginar o quanto se “lambuzou” ao se debruçar no trabalho de desvendar as intertextualidades contidas no roteiro da minissérie Hoje é dia de Maria. O livro será lançado hoje, a partir das 14h, na Livraria Mineiriana (Rua Paraíba, 1419, Savassi).

Exibida em duas temporadas entre 2005 e 2006, a microssérie marcou a história da teledramaturgia brasileira pela ousadia na experimentação de linguagens, característica do diretor Luiz Fernando Carvalho. O roteiro, baseado na dramaturgia de Carlos Alberto Soffredini, foi elaborado pelo próprio Carvalho em parceria com Luís Alberto de Abreu. Em 2006, o que foi para a televisão virou livro e nele Myriam Pessoa Nogueira se baseou para desenvolver a dissertação de mestrado no Departamento de Letras da PUC Minas. O trabalho foi defendido em 2009.

Como a autora salienta, apesar de se tratar de uma obra audiovisual, concentrou-se em rastrear as relações intertextuais contidas no livro. “O roteiro de Hoje é dia de Maria não foi construído a partir de uma adaptação de uma obra apenas, mas de um processo de reciclagem cultural, presente na estilização feita pelos autores da microssérie, adaptando à realidade e à cultura nacionais elementos da cultura universal e, ao mesmo tempo, resgatando da oralidade popular outros elementos, tidos como folclóricos, e consagrando-os num padrão considerado elitista dentro da televisão brasileira, determinado já pelo horário de exibição, pelo público a que se destina e pelos profissionais envolvidos”, afirma na introdução.

Hoje é dia de Maria Borralheira – Intertextualidades do roteiro da minissérie televisiva  é dividido em quatro capítulos e cada um deles com uma referência aos episódios televisivos. No primeiro, Myriam Pessoa Nogueira se debruça no conceito de intertextualidade a partir da perspectiva do francês Gerard Genette. Ele entende o termo como “uma efetiva copresença de dois textos”. No capítulo seguinte, a professora se dedica a caracterizar gêneros literários, contos tradicionais e também o que define a narrativa dos contos maravilhosos, ou seja, daqueles ligados “ao extraordinário, ao insólito”.

O que é próprio da linguagem televisiva – ou mesmo cinematográfica – é detalhado no capítulo 3. À medida em que comenta a estrutura do roteiro, a autora identifica, de fato, as intertextualidades. “Hoje é dia de Maria é um verdadeiro mosaico de citações, uma ‘colcha de retalhos’”, salienta. As matrizes da trama podem ser encontradas em contos populares orais compilados por Sílvio Romero e Câmara Cascudo. Há, ainda, referências a outros clássicos da literatura brasileira e universal. O trabalho de identificação feito por Myriam é minuscioso.

“A adaptação acontece de forma predominantemente parafrástica, havendo citações diretas, como a do poema ‘O lutador’, de Drummond, entremeado de um estribilho novo”, afirma. Foram encontradas também referências a obras de Monteiro Lobato e especificamente a Macunaíma, de Mário de Andrade. O teatro não é excluído da análise de Myriam Pessoa Nogueira, já que esta também é uma característica de linguagem que ficou muito marcada na microssérie. Dessa seara, foram identificadas intertextualidades com Ésquilo, Shakespeare e Brecht.

Ao alcançar as “franjas do mar”, como diria Maria, Myriam conclui que o roteiro dessa obra-prima da teledramaturgia brasileira se constitui “a partir de um conjunto de obras literárias e de todo um universo oral, em que o movimento de estilização realizou a tessitura entre os textos”.

HOJE É DIA DE MARIA BORRALHEIRA
• De Myriam Pessoa Nogueira.
• Editora Mineiriana, 125 páginas, R$ 39,90
• Lançamento hoje, às 14h, na Livraria Mineiriana, Rua Paraíba, 1.419, Savassi, (31) 3223-8092