sábado, 7 de junho de 2014

João Paulo - As palavras e os minutos‏

As palavras e os minutos
João Paulo
Estado de Minas: 07/06/2014


José Mujica mostrou que o rei estava nu: as drogas não são violentas. Quem mata é a repressão   (Brendan Smialowski/AFP)
José Mujica mostrou que o rei estava nu: as drogas não são violentas. Quem mata é a repressão

À medida que vão sendo fechados os acordos eleitorais entre os partidos, vai ficando claro o tempo que cada candidato deverá ter no horário eleitoral gratuito. Tudo parece indicar que, quanto mais minutos, mais propaganda e, consequentemente, mais votos. Nessa matemática pouco sincera não entram nem o discurso em si nem a resistência intelectual e moral do eleitor.

De fato tem sido assim. Há uma hipocrisia que faz com que as campanhas se norteiem menos pelos projetos e mais pelas mensagens que podem ser traduzidas operacionalmente em votos. Tanto o que é dito quanto o respeito ao destinatário das mensagens se tornam objetos manipuláveis, que podem ser testados e, se necessário, trocados por outro.

A cada eleição parece haver um tema que se torna tabu. É a pergunta que surge com o propósito de interferir na atmosfera moral e causar impacto pelo impacto. Há alguns anos, se indagava sobre a crença em Deus, em seguida o tema foi o aborto. Hoje parece ser o consumo de drogas. Questionar se um candidato já usou drogas ilícitas se tornou um clássico. Mas é, quase sempre, uma operação de má-fé, no sentido sartriano.

Para o existencialismo de Jean-Paul Sartre, a má-fé era uma posição de inautenticidade, um erro assumido no pleno domínio da liberdade, não apenas um ato calhorda. Não se trata de uma mentira ao outro, mas de uma mentira a si mesmo. De certa forma, as campanhas políticas abusam da má-fé, com certeza de que os resultados garantem a necessidade do gesto. Um maquiavelismo de resultados, que costuma inclusive operar a troca de marqueteiros como se faz com técnicos de futebol frente ao insucesso esportivo.

A pergunta acerca das drogas é sempre posta de forma atravessada. Um dos grandes temas atuais, a questão das drogas é, de acordo com as pesquisas mais avançadas em sociologia e neurociência, um índice do fracasso social, não uma capitulação ou defeito individual. As pessoas consomem drogas, como defende Carl Hart, por falta de melhores opções, ou por livre opção por um prazer potencialmente destrutivo. A miséria não é resultado do crack, é, quase sempre, sua causa. Quem tem escolhas melhores a fazer, com tempo deixa as substâncias estupefacientes de lado.

No entanto, até por razões moralistas, sempre foi melhor apostar todas as fichas na repressão, no uso da violência e na criminalização ostensiva do usuário. A proposta de José Mujica, presidente do Uruguai, de liberar o consumo recreativo da maconha, é a quadratura do círculo dos impasses das campanhas repressivas: ataca o bolso do tráfico e destrói a corrupção do sistema. Por isso assusta tanto e recebe tamanha resistência. Foram décadas vendendo repressão, armas e ideologia higienista.

Mas não é disso que se trata nas campanhas eleitorais brasileiras. O aguilhão da pergunta de má-fé quer apenas emparedar o candidato. E, nesse aspecto, a hipocrisia está dos dois lados. O postulante que se recusa a responder a pergunta, ou foge dela acusando quem o questiona ou o meio que representa, presta um desserviço à democracia. O melhor é responder com sinceridade, positiva ou negativamente, e passar para os temas que interessam.

Por outro lado, quando a oposição, mesmo defendendo posturas mais libertárias, passa a usar o tema a seu favor, dando vazão ao mesmo papel de acusador contumaz e intolerante, reza na mesma cartilha da mentira, reforçando a discriminação. O que deveria estar em jogo, nos dois lados, não é se o candidato fuma, bebe ou cheira, mas se tem propostas coerentes para o debate público e se é capaz de realizá-las .

Nos Estados Unidos, por exemplo, os três últimos presidentes declararam o consumo de drogas ilícitas na juventude. Nem por isso perderam as eleições nem deixaram de cumprir com suas responsabilidades. Os eleitores reconheceram naqueles homens (um deles, Obama, ainda está o poder) qualidades para dirigir o país e tomar decisões fundamentais para suas vidas e, em alguns casos, da segurança de todo o planeta. Mesmo tendo usado drogas ilegais. Devemos ter orgulho das ações, não da folha corrida. Tanto com os candidatos quanto com nossos filhos.

O consumo de drogas numa fase da vida não impossibilita ninguém de exercer qualquer função, nem mesmo a presidência da República. A mentira, no entanto, é um pecado muito grave, que envenena todo o jogo político. É muito melhor um presidente que, como a maioria dos jovens, fumou maconha na juventude, do que um adulto que mente para se preservar dos preconceitos e acusações religiosas regressivas.

Por outro lado, quem condena um candidato por sua vida particular, sobretudo quando exibe os mesmos comportamentos criticáveis do ponto de vista das convenções, padece de grau equivalente de hipocrisia. Está mais do que na hora de deixar de lado pegadinhas e passar para o que realmente interessa. No caso das drogas, que políticas apresenta para a questão; em relação ao aborto, suas reais convicções e disposição de oferecer atendimento público às mulheres que optarem por ele; no caso de Deus, reafirmar o caráter laico do Estado.

Todos precisam aprender com as eleições: a imprensa a fazer as perguntas necessárias e não se deixar intimidar, os candidatos a responder com honestidade porque são pessoas públicas, o eleitor a deixar de lado seus preconceitos para julgar a partir de critérios racionais e intersubjetivos quem quer como representante.

Está na hora de amadurecer. Temos coisas muito importantes para resolver, como saúde, segurança e educação. Sem falar que a Copa vai roubar boa parte do tempo que temos até a eleição. 

ENTREVISTA/SEBASTIÃO SALGADO » "O Brasil passa por uma auditoria popular"

Autor da série de fotografias Genesis, exposta no Palácio das Artes, defende a preservação da natureza

Carlos Herculano Lopes

Estado de Minas: 07/06/2014
(Alexandre Guzanche/EM/D.A Press)


Mineiro de Aimorés, no Vale do Rio Doce, e atualmente um dos fotógrafos mais celebrados do mundo, Sebastião Salgado esteve em Belo Horizonte esta semana, na companhia de sua mulher, a arquiteta Lélia Wanick, para a abertura da exposição Genesis, que até 24 agosto poderá ser vista na Grande Galeria e na Sala Mari’Stella Tristão, do Palácio das Artes. Estão à mostra 245 fotos em preto e branco, dividas em cinco seções geográficas, através das quais são reveladas paisagens e povos que ainda estão às margens da chamada civilização moderna. Preocupado com a preservação do planeta, que segundo ele anda muito castigado, Sebastião e Lélia (curadora da exposição) há 15 anos criaram, em Aimorés, em uma antiga fazenda da família, o Instituto Terra, de preservação ambiental. De lá para cá, já foram plantadas no local mais de 2 milhões de mudas de árvores da mata atlântica. Atualmente, Sebastião Salgado está com três projetos em andamento: um sobre o café, outro com populações indígenas do Brasil e o terceiro sobre a preservação do Rio Doce. “É um dos rios mais importantes do Sudeste brasileiro que está morrendo, e não podemos deixar que isso aconteça, daí a nossa luta para mantê-lo vivo, para preservar as suas nascentes”, disse o fotógrafo, em entrevista ao Pensar.

Depois da maratona de exposições de Genesis, quais são suas próximas frentes?

Já estou terminando outro projeto, que iniciei em São João do Manhuaçu, no Vale do Rio Doce, também em Minas, e é sobre o café. Volto para a França daqui a alguns dias e passo a Copa do Mundo lá. Gosto muito de futebol. Nesse período não viajo, pois quero assistir a todos os jogos do Brasil. Esse projeto do café já está praticamente terminado, e vem sendo realizado em parceria com uma empresa da Itália. Fiz fotos sobre o café também na Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Etiópia, Índia, China e, logo depois da Copa, já tenho uma viagem programada para a Tanzânia e outra para a Ilha de Sumatra, na Indonésia. Mas esse projeto nasceu aqui em Minas, em São João do Manhuaçu.

É uma história sobre a origem do café?

Não. É sobre as pessoas que trabalham com o café. Quando alguém compra um quilo de café, a ideia que se tem é que o pé nasceu ali mesmo, perto do supermercado ou no armazém da esquina. Não é nada disso. Só para se ter uma ideia, depois do petróleo, o café é um dos negócios que envolvem mais gente e mais dinheiro no mundo. É um produto importantíssimo. Em Minas, por exemplo, e no Espírito Santo também, milhares de pessoas dependem diretamente do café para sobreviver. Meu trabalho não tem nada a ver com os grandes produtores do café ou com as indústrias que o processam, mas com as pessoas que trabalham diretamente com ele nas lavouras: as pessoas comuns, os pequenos proprietários, os operários. Esse trabalho fica pronto no final do ano e a Lélia já está começando a pensar o livro, que deve sair no ano que vem. Logo depois, começo a deslanchar um projeto sobre as populações indígenas do Brasil.

Com que povos indígenas você vai trabalhar?

Estou atuando em conjunto com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o trabalho envolve principalmente populações indígenas isoladas, que ainda existem no Brasil. São dezenas de tribos. Tenho um ótimo diálogo com a Funai e nosso foco maior é trabalhar com as tribos que estão tendo suas terras e culturas ameaçadas, em decorrência do avanço do homem branco e dos seus interesses e que ao mesmo tempo ainda estão conseguindo manter suas tradições. Recentemente estive no território dos ianomâmis, em Roraima, e voltei muito preocupado, pois o senador Romero Jucá (PMDB-RR) apresentou um projeto que visa permitir a exploração mineral no território, que só no Brasil é de 9 milhões de hectares, mais 8 milhões na Venezuela. Se esse projeto passar, não tem outro jeito: acaba com a terra e com a cultura deles. Será uma tragédia. No Brasil, eles são cerca de 20 mil índios e na Venezuela 16 mil. Dentro do mundo ianomâmi, que é imenso, existem cerca de quatro dialetos e eles têm uma cultura riquíssima.

É uma ameaça real?

Com certeza. No início dos anos de 1980, eles já sofreram muito com a invasão dos garimpeiros em suas terras, em busca de ouro, e esse contato foi muito ruim para eles, que morreram aos milhares de envenenamento por causa do mercúrio despejado nas águas, de febre e em decorrência de algumas chacinas que foram cometidas. Existe outra proposta em tramitação, feita pelo agronegócio, que é de retirar da Funai o direito de fazer a demarcação das terras indígenas. E também de tirar da Presidência da República o direito da homologação, o que seria inconstitucional. Eles querem que esse direito passe para a Câmara dos Deputados: serão eles que irão decidir o que é terra indígena ou não. E se isso passar, acaba com tudo, inclusive com a floresta amazônica. E é contra isso que todos devemos lutar, para que esses povos e a Amazônia sobrevivam.

Em meio a essas ameaças contra o homem e a natureza, você ainda continua mantendo a esperança?

As coisas estão ficando muito complicadas. Acho que se não mudarmos o nosso comportamento vai ser muito difícil sobreviver. Veja aqui em Minas. Vamos falar do Rio Doce: ele está morrendo, o Jequitinhonha também, o São Francisco, o Paraíba. Se hoje isso está complicado, imagine daqui há 20, 30 anos. As águas serão menores ainda e, daqui a 50 anos, elas vão acabar, não tenhamos dúvidas disso. Praticamente não iremos ter água para beber e nem para gerar energia elétrica, que também é uma coisa vital para a nossa sobrevivência. E então, como as coisas vão ficar? A única esperança, a meu ver, é voltarmos para a proteção do meio ambiente, para tentar preservá-lo, para poder recuperar as nascentes do rios e ajudar a manter a vida, como já começamos a fazer em relação ao Rio Doce.

Você e Lélia desenvolvem alguns projetos no Instituto Terra, em Aimorés, não é mesmo?

Se você plantar a floresta, ela nasce. Veja o que fizemos na Fazenda Bulcão, lá em Aimorés. Foi um grande sucesso e a floresta e os animais estão voltando. Antes, aquilo estava um deserto e hoje é um ecosisstema sofisticado. Um dos nossos projetos – e já contamos com o apoio do BNDES –, é recuperar todas as nascentes do Rio Doce. Devemos recuperar em torno de 370 mil nascentes. Vamos dar aos fazendeiros o arame, os mourões, as mudas e eles terão de plantar as árvores e cercar os olhos d’água para protegê-los das patas dos animais. A patada de um boi de 600 quilos pesa mais de 200, é mais forte do que uma mão de pilão batida no chão com força. Não tem nascente que resista. A presidente Dilma abriu as portas do BNDES para nós e encampou o projeto. Mas ele vai além disso: depois de recuperar o Rio Doce, pelo qual iremos lutar com todas as forças, vamos também tentar recuperar todos os rios do Sudeste do país. Estamos criando um novo viveiro em Colatina, no Espírito Santo, com capacidade para 5 milhões de mudas. Na Fazenda Bulcão, estão sendo preparados técnicos de recuperação de nascentes e os resultados estão sendo muito bons.

Como é esse projeto?

Damos aos jovens formação intensiva e cada garoto será o responsável por recuperar cerca de 150 nascentes em três anos. É claro que teremos resistência de alguns fazendeiros, mas tenho certeza de que, assim que os resultados forem aparecendo, a resistência irá desaparecer. O projeto já foi testado e conseguimos recuperar 1.200 dessas nascentes com o apoio da Vale e da Fundação Príncipe Alberto, de Mônaco. Também criamos um projeto com o Banco do Brasil, que se chama Arredonde. Se você vai ao banco e paga com o cartão de crédito, pode optar em doar os centavos que sobrarem na conta para o Instituto Terra, para nos ajudar. O governo do Espírito Santo está financiando o viveiro de Colatina e o governo de Minas, que havia prometido ajudar na formação dos técnicos, só ficou na promessa.

Além da questão ecológica, como você está vendo a realidade brasileira atual?

O país está passando por um momento muito importante. Depois da ditadura, vivemos uma espécie de letargia, em que as coisas não estavam muito claras. Mas agora as coisas estão mudando e as pessoas estão pedindo as contas, cobrando e pagando para ver. Está sendo feita uma espécie de auditoria no Brasil: é forte, é popular, às vezes é complicada, mas está acontecendo. E acho isso muito bom. O país está vivendo uma crise econômica, mas ela não é só nossa, é mundial. Está acontecendo o mesmo na França, na Espanha, em Portugal. Mas existe um problema. Nos últimos 500 anos, não criamos nenhuma infraestrutura no país, não nos preparamos para o desenvolvimento. Temos poucos técnicos capacitados, e o mesmo acontece com os professores, que não foram preparados adequadamente. E a educação aqui no país não existe, ela é uma mentira e não dá para fugir dessa realidade. O país começou a ir para frente, mas para deslanchar ainda vai demorar muito. Além do mais, somos um povo que necessita de autoafirmação.

No início da conversa você falou sobre o desejo de assistir aos jogos da Copa. Está acreditando no Brasil?
Tenho uma grande esperança de que vamos ganhar. Ganhar a Copa das Confederações foi importante, deu moral ao time. Mas o que me preocupa é que a Seleção é nova, pouco experiente, embora o time seja dinâmico. Fico pensando: se em algum jogo tomarmos dois gols, por exemplo, o que a garotada irá fazer para recuperar? Noventa minutos passam muito depressa. Mas o Felipão é um homem experiente e acho que vai conseguir passar a segurança necessária para os meninos. Estou muito esperançoso na vitória.

A política e as redes - Carolina Braga

A política e as redes 
 
Livro com artigos de pesquisadores do Centro de Convergência de Novas Mídias analisa as jornadas de junho de 2013 a partir da nova dinâmica da comunicação na sociedade brasileira contemporânea

Carolina Braga
Estado de Minas: 07/06/2014


As manifestações políticas se transformam imediatamente em material informativo, que circula nos diferentes suportes (Mídia Ninja/Divulgação)
As manifestações políticas se transformam imediatamente em material informativo, que circula nos diferentes suportes

Enquanto as ruas brasileiras pegaram fogo em junho do ano passado, muitos pensadores, jornalistas e acadêmicos arriscaram explicações para as manifestações difusas que tomaram o país de assalto. As tentativas foram muitas, das mais diferentes abordagens, mas poucos conseguiram de fato explicar os levantes conhecidos como Jornada de Junho. Os pesquisadores do Centro de Convergência de Novas Mídias  (CCNM) da UFMG apresentam em Ruas e Redes – Dinâmicas dos protestos BR alguns olhares. Não é uma abordagem inédita, mas traz um recorte particular.

O diferencial do trabalho é saber exatamente onde pretende chegar com as reflexões que levanta sobre como a comunicação funciona nos dias de hoje. Não é um livro sobre movimento social, suas identidades ou reivindicações, como a introdução trata de esclarecer. Sobre isso, há muitos outros no mercado. O negócio aqui são “temporalidades que explodiram em um acontecimento aparentemente único na história brasileira”, como afirma a coordenadora Regina Helena Alves da Silva também no texto de abertura.

Nesse sentido, a escolha da palavra “dinâmica” para o subtítulo da obra é acertada. Ela diz respeito ao movimento necessário a qualquer aproximação ao tema, assim como o ponto central da discussão: “A dinâmica de articulação entre as redes urbanas e as intermidiáticas nos recentes processos de mobilização política”. À sua maneira – e com múltiplas vozes –, o livro pretende problematizar a já relativa percepção que temos do tempo hoje. A comunicação não passa incólume a isso.

Como afirma a escritora argentina Beatriz Sarlo, “hoje o tempo é mais fluido”. Para os pesquisadores do CCNM, “a ideia de fluxo ligada ao tempo não pode ser vista como algo que nos arrasta em direção ao mar, e sim como um território disputado. O tempo não é matéria constante e estável; sabemos que é plural e sempre em movimento”. É por isso que em todos os artigos, de uma maneira ou de outra, há alguma mudança em questão, seja de fluxo de informação, de registro de imagens, de abordagem. Os seis capítulos tratam de aspectos diferentes, mas sempre relacionandos ao uso das mídias – ou suas respectivas dinâmicas – durante a movimentação de junho. Em todos eles há uma contextualização sobre a ocupação das ruas. É o ponto em comum para o leque de abordagens que se abre.

Em “Imagens violentas nas manifestações de 2013: multiplicidades, estética e dissenso nas narrativas em vídeos de comuns e de instituições”, por exemplo, Carlos d’Andréa e Joana Ziller se debruçam sobre as narrativas audiovisuais. Os eventos criados no Facebook para a convocação das manifestações sào o foco das pesquisadoras Geane Alzamora, Tacyana Arce e Raquel Utsch no artigo “Acontecimentos agenciados em rede – os eventos do Facebook no dispositivo protesto”.

Já a pesquisadora Sônia Caldas Pessoa parte do entendimento de “autocomunicação de massas”, defendido pelo sociólogo espanhol Manuel Castells, para falar sobre produção de conteúdo pelos cidadãos, no terceiro artigo da obra. A repercussão dos protestos no interior de Minas Gerais é o tema abordado por João Marcos Veiga em “Novas faces do interior: cidades de Minas Gerais em rede durante os protestos de junho de 2013”.  Em “Fios de política que tecem redes: a web e os intelectuais de hoje”, Valdeci da Silva Cunha se dedicou às análises publicadas em blogs e sites por nove formadores de opinião e questiona: estamos assistindo à emergência de novas formas de ser do intelectual?

“Vandalismo e política nas redes sociais: caso do Anonymous e Black Block” traz o resultado de uma observação participante e de uma análise da imprensa sobre a cobertura realizada à época, seja na mídia tradicional ou em movimentos autônomos criados naquela ocasião. Nenhum dos artigos fecha questões, já que o objetivo não era esse. Afinal, trata-se de “uma pesquisa dinâmica, que se faz em movimento e que nos tomou de assalto quando caminhávamos nas ruas dos espaços que hoje são possíveis”.



TRECHO

“Este livro entende que é fundamental discutir e problematizar a dinâmica de articulação entre as redes urbanas e as intermidiáticas nos recentes processos de mobilização política no Brasil. Entendemos que esse fenômeno é fruto de mobilização política no Brasil. Entendemos que esse fenômeno é fruto da apropriação social das ferramentas digitais e do espaço urbano que, entre outros aspectos, se caracteriza por agenciamentos múltiplos e em rede, pela sobreposição de mediações sociotécnicas e por complexificação da circulação de ideias na interface entre a internet e as ruas.”


RUAS E REDES – DINÂMICAS DOS PROTESTOS BR

• Organização de Regina Helena Alves da Silva
• Editora Autêntica
• 190 páginas

O avesso do poder - Jorge Zepeda Patterson

O avesso do poder

Em seu primeiro romance, o thriller Os corruptores, o jornalista mexicano Jorge Zepeda Patterson mergulha nos bastidores da política de seu país



Mariana Peixoto
Estado de Minas: 07/06/2014

Suspense de Jorge Zepeda Patterson, pela atmosfera tensa e relação com a imprensa, lembra a trilogia Millenium     (Planeta/Divulgação)
Suspense de Jorge Zepeda Patterson, pela atmosfera tensa e relação com a imprensa, lembra a trilogia Millenium


No poder desde 1929, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) perdeu sua hegemonia no México no ano de 2000, quando Vicente Quesada, do Partido da Ação Nacional (PAN), venceu as eleições presidenciais. O PRI retomou a presidência há dois anos, com a eleição de Enrique Peña Nieto. Durante sua campanha presidencial, vieram à tona uma série de escândalos de corrupção, fraude eleitoral e narcotráfico. Sua vida também enfrentou períodos turbulentos. Ele teve dois filhos fora do casamento, e sua primeira mulher, Mônica Pretelini, morreu em 2007 em circunstâncias mal esclarecidas – depressiva, houve insinuações da responsabilidade de Peña Nieto na morte. Hoje o presidente-galã está casado com Angélica Rivera, atriz da Televisa. A principal rede de TV do país esteve diretamente ligada à campanha presidencial de Peña Nieto.

Isso é vida real, qualquer busca rápida na internet pode provar. O que Os corruptores, primeiro romance do jornalista mexicano Jorge Zepeda Patterson faz, é ficção. Mas pautada pelo real, fruto dos anos de redação do autor, fundador de dois jornais, Siglo 21 e Público, além de responsável por vários livros de análise política. Há 20 anos, Zepeda tem uma coluna semanal que se dedica a lançar luzes sobre os desmandos da política mexicana. Com o romance, ele leva sua experiência no jornalismo investigativo para uma narrativa de fôlego que mistura relato policial, thriller e até mesmo uma história de amor.

A narrativa de Zepeda tem início em novembro de 2013, ou seja, ao final do primeiro ano do retorno do PRI ao poder. É o assassinato bárbaro de Pamela Dosantos, atriz que sempre esteve envolvida com as altas rodas do poder mexicano, que desencadeia a ação. Tomás Arizmendi, um jornalista que já teve seus dias de glória e hoje se resume a assinar uma coluna semanal sem muito impacto, é o primeiro que relaciona o crime com as altas esferas do poder, através de uma informação, aparentemente sem importância, que lhe é repassada por um conhecido. Pois o fato liga o crime diretamente com o PRI, na figura de seu ministro do Interior, Augusto Salazar, o homem mais importante do novo governo, depois do presidente Alonso Prida.

De volta à linha de frente do jornalismo, Tomás começa a ir atrás do assassino ao mesmo tempo que é perseguido por saber demais. Mas ele é somente a ponta de um iceberg de trocas de favores de todos os lados. Para a empreitada, reúne os Azuis, seus três melhores amigos de infância: Amélia, hoje a presidente do Partido da Revolução Democrática (PRD), principal oposicionista ao governo do PRI; Jaime, um chefão da inteligência mexicana que tem franca relação com os Estados Unidos; e Mario, um professor universitário que leva uma vida tranquila ao lado da família. Cada um, a sua maneira (e de acordo com seus próprios interesses), vai contribuir para que o que parecia um crime passional influencie a vida mexicana definitivamente.

Há um quê da trilogia Millenium em Os corruptores, não somente por Zepeda, a exemplo do sueco Stieg Larsson, vir do jornalismo. A história cruza fatos reais da política daquele país com a narrativa ficcional, coloca seu protagonista como um Quixote na briga contra o poder, mostra a crise dos meios de comunicação tradicionais, que se recusam a reconhecer o seu declínio sob a pressão de novas tecnologias, aqui muito presentes na figura de hackers. Só que a narrativa de Zepeda tem várias vozes. Ainda que Tomás seja o principal, cada capítulo (todos sempre curtos) explora a passagem de um determinado personagem, nas quase três semanas em que dura a ação. A partir de um fato (o crime), Zepeda constrói um retrato aterrador de seu país nos dias atuais, mostrando como a política do México, a despeito da passagem dos anos, continua atrelada ao narcotráfico. Para mostrar que o México não é nenhuma exceção, Zepeda prepara um segundo livro sobre os quatro Azuis. Além do país natal, a narrativa também terá passagens na Espanha.

Trecho

“Pamela começou a tomar consciência de que o sujeito não estava nem aí para sua pose sugestiva. Não ia violentá-la. Uma boa notícia estava se transformando, de maneira acelerada, em outra terrível. A dor no plexo anunciou o pânico que pouco a pouco inundou seu corpo. Perguntou a si mesmo se o sujeito teria sido enviado para lhe arrancar informações. Desesperada, repassou o muito que sabia, os segredos de Estado que havia guardado ao longo de seu agitado passado. Seu carrasco, quem quer que fosse, poderia não se interessar por seu corpo, mas não podia ser indiferente a seus segredos, pensou Pamela. Inventariou as informações que tinha para oferecer: o avião, os vídeos, o acordo.”

OS CORRUPTORES
. De Jorge Zepeda Patterson
. Editora Planeta, 342 páginas, R$ 45,90