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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O verdadeiro valor do dinheiro - Carlos Orsi

Dinheiro é o que permite que pessoas que não se conhecem cooperem entre si dentro de grupos humanos muito grandes, diz artigo publicado no periódico PNAS. Assinado por pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça e Itália, o trabalho tem como título Money and trust among strangers (“Dinheiro e confiança entre desconhecidos”).
Os autores especulam que, se a cooperação nas sociedades humanas evoluiu com base na interação de pessoas que viviam em pequenos grupos e se encontravam cara a cara, “há uma questão aberta sobre o quê permitiu que os humanos obtivessem sucesso em tarefas de cooperação envolvendo milhões de indivíduos”.
Para explorar o problema, os autores criaram um experimento no qual alguns participantes eram “produtores” e outros “consumidores”. A cada rodada, o produtor poderia optar por dar um presente ao consumidor, ou não fazer nada. Os papéis eram trocados aleatoriamente a cada nova interação, o que em tese deveria estimular doações, já que os papéis de produtor e consumidor poderiam inverter-se a qualquer momento.
Num dado momento do experimento, os pesquisadores incluíram uma “pedrinha”, que o consumidor poderia usar para “comprar” o presente. O resultado encontrado foi de que a troca espontânea de presentes tendia a diminuir à medida que o tamanho do grupo de voluntários aumentava – o máximo testado foi de 32 – mas que a opção de “comércio” era estável mesmo em grupos grandes. “Nossa pesquisa sugere que regras de cooperação voluntária são difíceis de usar numa sociedade de desconhecidos, a menos que mediadas por uma instituição”, escrevem os autores. “No experimento, a troca monetária (...) deu sustentação a um nível de cooperação estável em grupos grandes e pequenos. Pedrinhas sem valor intrínseco agiram como catalisadores de cooperação”.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Discurso de Natal

FOLHA DE SÃO PAULO

CARLOS ORSI
TENDÊNCIAS/DEBATES
Dirão que Papai Noel ocultou o 'aniversariante', que o comércio tomou a data cristã. Mas a raiz do Natal não é o cristianismo. A data já era de festas antes dele
Tão inevitável quanto o próprio Natal são os excessos que o acompanham: de gastos, de comida, de bebida, de riso e de uma alegria que parece não ter outra fonte além da constatação de que, a despeito dos melhores esforços de nossos sábios e hábeis líderes, o país, a civilização e o mundo duraram mais um ano.
E, tão inevitável quanto os excessos, há o murmúrio que vem por baixo da música e do riso, a advertir-nos de que o Natal é uma festa desvirtuada: Papai Noel tomou o lugar do "aniversariante", o menino de Belém! E o interesse comercial engoliu a caridade. Deveríamos nos insurgir contra isso, queixa-se. O Natal deveria voltar a suas raízes cristãs.
Muitas dessas exortações são, provavelmente, bem intencionadas e, até certo ponto, salutares. Sempre é bom ter a mão estendida para os desfavorecidos, principalmente num período de ostentação e fartura, quando as desigualdades ganham ainda mais relevo.
Mas, ao falarem em "raízes cristãs", as vozes de alerta ignoram que a vinculação do 25 de dezembro à figura de Jesus de Nazaré é apenas uma dentre várias. Que a data já estava ligada a um período de festas muito antes da primeira celebração cristã de Natal registrada pelos romanos, no ano 334. Segundo o historiador húngaro Geza Vermes, "a chance de Jesus ter nascido em 25 de dezembro é de 1 em 365 (ou 366, em anos bissextos)".
Ninguém menos que o papa Bento 16 afirmou, em dezembro de 2009, que "a festa do Natal atingiu sua forma definitiva no século 4º, quando substituiu o festival romano de Sol Invictus, o sol invencível".
"Substituiu." A palavra indica que já havia uma festa, à qual o Natal cristão se sobrepôs. Como, então, falar em "raízes cristãs"? As verdadeiras raízes são muito mais profundas: mesmo a adoração romana do Sol Invictus (cuja festa, Dies Natalis Solis Invicti, já incluía até mesmo o nome "Natal") parece ter sido copiada de cultos orientais antigos.
Dos símbolos atuais do Natal, a guirlanda e a própria árvore enfeitada -cuja criação às vezes é atribuída a Lutero- remetem a mitologias que precedem o cristianismo.
O período em torno de 25 de dezembro era especial, para os povos antigos da zona temperada do hemisfério Norte, por incluir o solstício de inverno. A data marca não apenas a noite mais longa do ano como também a promessa de retorno à vida, que ressurge em meio à escuridão, ao gelo e à neve: após a maior das noites, os dias vão se tornando cada vez mais longos. O sol, aos poucos, vence as trevas.
Não é de surpreender, portanto, que celebrações marcadas por fartura, tendo como tema a alegria e a esperança de uma vida melhor, fossem populares. E, como praticamente não há civilização no mundo, hoje, que não seja fruto de um transplante ou de um enxerto da matriz do norte, também não surpreende que uma celebração tão enraizada na cultura de lá tenha se universalizado.
O caráter cristão, supostamente essencial, é apenas uma roupagem, talvez passageira, fruto de um acidente histórico. Em sua raiz mais profunda, a festa celebra não um personagem ou um sistema, mas a esperança de vida após o duro inverno, real ou metafórico.
Num mundo cada vez mais plural, todos os que desejarem partilhar do sentimento deveriam se sentir livres para dar a ele sua face favorita, incluindo a de um bebê numa manjedoura, mas também a de um velhote de gorro vermelho ou, até, face nenhuma. Doutrinas têm donos, mas alegria, esperança e generosidade não admitem monopólio.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O assunto de hoje: Deus no dinheiro - Carlos Orsi


CARLOS ORSI
TENDÊNCIAS/DEBATES
O ASSUNTO DE HOJE: DEUS NO DINHEIRO
Analisando as principais críticas à proposta
Estado ateu seria escrever 'Deus não existe' na moeda. Usá-la para mandar pessoas louvarem a Deus é um caso bem claro de subvenção do Estado à religião
Entre várias que circularam nos últimos dias, a crítica mais comum ao pedido do Ministério Público Federal para que o real deixe de trazer a frase "Deus seja louvado" é a de que essa solicitação seria "falta do que fazer".
Uma objeção curiosa porque, primeiro, suscita a pergunta: e quando a frase foi incluída no dinheiro, será que ninguém tinha nada mais importante a fazer? (O lema entrou na moeda com o Plano Cruzado, que acabou levando o país à falência, em 1987.)
Em segundo lugar, a alegação de "falta do que fazer", ao esquivar-se do mérito da questão, embute um reconhecimento tácito de derrota.
É como se o crítico dissesse que sim, a frase não deveria estar lá, mas será que não temos erros maiores a corrigir antes?
Só que a presença do lema no real é um erro grave -viola o princípio geral do Estado laico e a letra da Constituição- e relativamente fácil de corrigir. Então, por que não resolvê-lo, logo de uma vez?
Confrontadas com essa sugestão, muitas das pessoas que vinham argumentando que o problema era irrelevante e, portanto, não precisava ser solucionado, repentinamente convertem-se em defensoras ferrenhas da frase. O que indica que a alegação de irrelevância não passava de mera afetação.
Um pouco sobre o laicismo: ele deriva diretamente do princípio da liberdade religiosa: se todo brasileiro é livre para ter a religião que quiser (ou não ter religião nenhuma), então é errado que o governo, que representa e é sustentado pela totalidade dos cidadãos, eleja favoritos.
O artigo 19 da Constituição proíbe o Estado de "subvencionar" cultos religiosos. E usar dinheiro para mandar as pessoas louvarem a Deus me parece um caso claro de subvenção.
Da mesma forma que seria errado, porque discriminatório, o governo pôr "Vai Corinthians" ou "Sempre Flamengo" na moeda, mesmo sendo estas as nossas torcidas majoritárias, é errado fazer isso com "Deus seja louvado", "Deus não seja louvado" ou "Satanás é o senhor". Todas são frases que uma vez sancionadas pelo Estado, alienam e discriminam cidadãos brasileiros.
Há ainda quem tema que, à remoção da frase, sigam-se extinção de feriados e a mudança dos nomes de cidades, como São Paulo.
O temor ignora, porém, que os nomes de cidades seculares têm peso cultural e histórico muito maior que "Deus seja louvado" (lema adotado nos anos 1980). Sobre os feriados, quantos mantêm caráter, de fato, religioso? O coelhinho da Páscoa e Papai Noel, por exemplo, não têm culto, exceto nas lojas de chocolate ou de brinquedos.
Há ainda a objeção de que "o Estado é laico, mas não ateu". Sim, o Estado não é ateu! Só que ninguém exige que o real passe a dizer "Deus não existe", mas apenas que o dinheiro pare de falar de Deus e ponto. Confunde-se neutralidade com oposição, o que é tolice ou má-fé.
O medo de que a frase desapareça do real reflete, no fim, uma ótica de disputa de prestígio: nesse enfoque, se "Deus seja louvado" sair do dinheiro, isso significará que "os ateus estão mais fortes", ou que o sentimento religioso perdeu relevância na sociedade, o que algumas pessoas consideram intolerável.
É uma interpretação míope. Há muitos religiosos que consideram a frase inadequada, seja por respeito ao caráter laico do Estado, seja por acreditar que o vil metal, causa de tantos crimes e pecados, é indigno do nome do ser supremo.
Se realmente há algum "prestígio" em jogo, certamente não é o do suposto criador, mas apenas o que alimenta a vaidade de alguns de seus autoproclamados representantes aqui na Terra.