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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O verdadeiro valor do dinheiro - Carlos Orsi

Dinheiro é o que permite que pessoas que não se conhecem cooperem entre si dentro de grupos humanos muito grandes, diz artigo publicado no periódico PNAS. Assinado por pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça e Itália, o trabalho tem como título Money and trust among strangers (“Dinheiro e confiança entre desconhecidos”).
Os autores especulam que, se a cooperação nas sociedades humanas evoluiu com base na interação de pessoas que viviam em pequenos grupos e se encontravam cara a cara, “há uma questão aberta sobre o quê permitiu que os humanos obtivessem sucesso em tarefas de cooperação envolvendo milhões de indivíduos”.
Para explorar o problema, os autores criaram um experimento no qual alguns participantes eram “produtores” e outros “consumidores”. A cada rodada, o produtor poderia optar por dar um presente ao consumidor, ou não fazer nada. Os papéis eram trocados aleatoriamente a cada nova interação, o que em tese deveria estimular doações, já que os papéis de produtor e consumidor poderiam inverter-se a qualquer momento.
Num dado momento do experimento, os pesquisadores incluíram uma “pedrinha”, que o consumidor poderia usar para “comprar” o presente. O resultado encontrado foi de que a troca espontânea de presentes tendia a diminuir à medida que o tamanho do grupo de voluntários aumentava – o máximo testado foi de 32 – mas que a opção de “comércio” era estável mesmo em grupos grandes. “Nossa pesquisa sugere que regras de cooperação voluntária são difíceis de usar numa sociedade de desconhecidos, a menos que mediadas por uma instituição”, escrevem os autores. “No experimento, a troca monetária (...) deu sustentação a um nível de cooperação estável em grupos grandes e pequenos. Pedrinhas sem valor intrínseco agiram como catalisadores de cooperação”.

domingo, 1 de setembro de 2013

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

Sol novo, Sol velho


 
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Você gostaria de se ver mais velho? Se houvesse um espelho mágico capaz de mostrar sua imagem em uma, duas ou mais décadas, você olharia?
Imagino que a opinião seria dividida, uns tantos sim, outros tantos não. Afinal, ver o futuro teria repercussão sobre como viveríamos no presente, o que criaria uma série de paradoxos estranhos.
Se no futuro eu me visse gordo e resolvesse fazer uma dieta, emagreceria? Se emagrecesse, não estaria mudando o futuro? E será que isso é possível? Afinal, o espelho me mostrou gordo... Ou, quem sabe, o futuro não seja um apenas, mas feito de múltiplas opções, como no conto de Jorge Luis Borges "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam".
Deixando essas preocupações um tanto humanas de lado (voltaremos a elas em outro dia), o fato é que em astronomia, ao menos, ver o futuro e o passado é extremamente útil.
Tanto assim que um time internacional de astrônomos, liderados pelo brasileiro Jorge Meléndez, da USP, vem buscando estrelas semelhantes ao Sol, mais velhas e mais novas, para que possamos aprender sobre a evolução da nossa estrela-mãe. Para tal, o grupo usa o gigantesco telescópio em Paranal no Chile conhecido como VLT (do inglês Very Large Telescope, "Telescópio Muito Grande"), do ESO (Observatório Europeu do Hemisfério Sul), um consórcio de 15 países com vários instrumentos de grande alcance e precisão. O Brasil deve ratificar sua presença como membro oficial do ESO ainda este ano.
Em artigo de abril publicado no prestigioso "Astrophysical Journal Letters", com TalaWanda Monroe, também da USP, como primeira autora, o grupo revela dados de duas estrelas "gêmeas" do Sol, uma bem mais nova, a 18 Scorpii, e outra bem mais velha, a HIP 102152. Ou seja, um olho no nosso passado e outro no nosso futuro ou, ao menos, no futuro do Sol.
HIP 102152, com 8,2 bilhões de anos, é bem mais velha do que o Sol, que tem 4,6 bilhões de anos. A questão de maior importância para o público é se o Sol é uma estrela típica ou atípica. É bom sabermos, pois nossa sobrevivência na Terra depende do Sol e da sua estabilidade.
Caso seja uma estrela normal, dentro de sua classificação (estrelas aparecem em classes diferentes, dependendo da sua massa, temperatura etc.), o Sol continuará a gerar luz por muitos bilhões de anos, em torno do dobro da sua idade. Caso não seja normal, as coisas podem complicar. E, se complicarem, a vida na Terra poderá estar em apuros mais cedo do que gostaríamos.
Estudando 21 elementos químicos presentes nas três estrelas, o grupo mostrou que o Sol é uma estrela normal. Em particular, que o elemento lítio, que é bem mais raro no Sol do que em estrelas gêmeas mais novas, é destruído com o envelhecer da estrela: HIP 102152 tem aproximadamente a metade do lítio que temos aqui.
O grupo mostrou também que a HIP 102152 não tem planetas gigantes como o nosso Júpiter ou Saturno na região mais próxima dela, onde podem existir planetas rochosos como a Terra. Ou seja, da imagem do Sol idoso, aprendemos que o nosso Sol não foge à regra; o que possibilita que outros como ele tenham planetas como a Terra que, quem sabe, abriguem também formas de vida.
Marcelo Gleiser
Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".

domingo, 25 de agosto de 2013

Marcelo Leite

folha de são paulo

Simples monarcas


 
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Todos os anos, algo entre 60 milhões e 1 bilhão de borboletas monarcas (Danaus plexippus) migra de Ontário (Canadá), para Michoacán (México). Uma jornada de 3.500 km, que dura até dois meses. Podem ser necessárias quatro gerações para chegar ao destino final.
As monarcas deixam o Canadá no outono do hemisfério Norte, quando o frio aperta. Partem atrás de temperaturas mais estáveis, que não caiam abaixo de 0°C, no planalto central do México. Para recebê-las, e aos milhares de turistas que atraem, existe a Reserva da Biosfera Borboleta Monarca ("mariposa monarca", em espanhol).
Na primavera, elas fazem a viagem de volta. Alguns desses insetos, que pesam 1 g, foram rastreados. Descobriu-se que vários retornam para as mesmas árvores de que haviam partido seus antepassados.
Essa pequena maravilha da natureza serviu de mote para um bom romance sobre a mudança global do clima: "Flight Behavior" (comportamento de fuga, ou de voo), da americana Barbara Kingsolver --uma resenha sobre ela se encontra hoje no caderno "Ilustríssima".
Como tantas migrações periódicas (pássaros, baleias, tartarugas marinhas), a das monarcas intriga os humanos. Como é possível que seres tão menos aparelhados do que nós consigam ser tão precisos, tendo apenas o instinto por guia?
Por algum tempo, acreditou-se que as monarcas tinham uma espécie de mapa gravado nos genes (embora ninguém tenha sido capaz de imaginar como se pode inscrever um mapa numa sequência de DNA). Bastaria seguir os grandes marcos da paisagem nele registrados para orientar o voo e achar o rumo certo.
Parece que a coisa é bem mais simples. Henrik Mouritsen, um dinamarquês que faz pesquisa na Universidade de Oldenburg (Alemanha), teve a ideia maliciosa de deslocar um grupo de borboletas 2.500 km para oeste, de Ontário para Alberta, e depois soltá-las para voar.
Mouritsen verificou que as monarcas transferidas jamais alcançariam as montanhas de Michoacán. Elas não se davam ao trabalho de fazer ajustes na longa rota. Simplesmente continuavam a voar para o sudoeste, como se o México tivesse sido transferido 2.500 km para oeste, como elas.
Tudo indica que a única programação inscrita em seus minúsculos sistemas nervosos manda rumar para o sudoeste quando começa a fazer frio. O resto fica por conta de um funil geográfico, concluiu o dinamarquês em artigo na revista "PNAS". Sua teoria é tão elegante quanto a navegação lepidóptera.
"É bem esperto: as borboletas não gostam de voar sobre água ou sobre montanhas", explica Mouritsen. "Isso quer dizer que, enquanto sua direção estiver correta --isto é, sudoeste no outono-- elas vão seguir ou a Costa Leste dos EUA ou as Montanhas Rochosas [a oeste] até atingir seu destino invernal nas montanhas Transmexicanas, que atravessam todo o México."
Para dar apoio empírico à explicação, Mouritsen precisava provar que as monarcas voam sempre para sudoeste no outono. Buscou a ajuda do canadense Barrie Frost, da Universidade Queens, que inventou um simulador de voo sob medida para as monarcas.
Sim, elas voam só para sudoeste.
O leitor pode achar uma grande bobagem essa história de ficar medindo voo de borboleta. Por sorte ainda há quem ache isso bonito.
marcelo leite
MARCELO LEITE é repórter especial da Folha, autor dos livros "Folha Explica Darwin" (Publifolha) e "Ciência - Use com Cuidado" (Unicamp). Escreve aos domingos.

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

O poder criativo da imperfeição

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Na semana passada, escrevi sobre como nossas teorias científicas sobre o mundo são aproximações de uma realidade que podemos compreender apenas em parte. Nossos instrumentos de pesquisa, que tanto ampliam nossa visão de mundo, têm necessariamente limites de precisão. Não há dúvida de que Galileu, com seu telescópio, viu mais longe do que todos antes dele.
Também não há dúvida de que hoje vemos muito mais longe do que Galileu poderia ter sonhado em 1610. E certamente, em cem anos nossa visão cósmica terá sido ampliada de forma imprevisível.
No avanço do conhecimento científico, vemos um conceito que tem um papel essencial: simetria. Já desde os tempos de Platão, a noção de que existe uma linguagem secreta da Natureza, uma matemática por trás da ordem que observamos, teve um papel fundamental.
Platão --e, com ele, muitos matemáticos até hoje-- acreditava que os conceitos matemáticos existiam em uma espécie de dimensão paralela, acessível apenas através da razão. Nesse caso, os teoremas da matemática (como o famoso teorema de Pitágoras) existem como verdades absolutas, que a mente humana, ao menos as mais aptas, pode ocasionalmente descobrir. Para os Platônicos, a matemática é uma descoberta e não uma invenção humana.
O matemático Gregory Chaitin, que defende esta posição, sem muita paixão, também a acusa de ser uma espécie de religião, um resquício de uma teologia Tomista onde a fé é buscada no estudo da "mente de Deus".
Hoje, a busca por uma teoria final da Natureza, ao menos no que diz respeito às forças que agem nas partículas fundamentais da matéria, é a encarnação moderna do sonho platônico de um código secreto da Natureza. As teorias de unificação, como são chamadas (veja a coluna da semana passada), visam justamente isso, formular todas as forças como manifestações de uma única, com sua simetria abrangendo todas as outras.
Culturalmente, é difícil não traçar uma linha entre as fés monoteístas e a busca por uma unidade da Natureza nas ciências. Este sonho, porém, é impossível de ser realizado.
Primeiro, porque nossas teorias são sempre temporárias, passíveis de ajustes e revisões futuras. Não existe uma teoria que podemos dizer final, pois nossas explicações mudam de acordo com o conhecimento acumulado que temos das coisas.
Um século atrás, um elétron era algo muito diferente do que é hoje. Em cem anos, será algo muito diferente outra vez. Não podemos saber se as forças que conhecemos hoje são as únicas que existem.
Segundo, por que nossas teorias e as simetrias que detectamos nos padrões regulares da Natureza são em geral aproximações. Não existe uma perfeição no mundo, apenas em nossas mentes. De fato, quando analisamos com calma as "unificações" da física vemos que são aproximações que funcionam apenas dentro de certas condições.
O que encontramos são assimetrias, imperfeições que surgem desde as descrições das propriedades da matéria até às das moléculas que determinam a vida, as proteínas e os ácidos nucleicos (RNA e DNA). Por trás da riqueza que vemos nas formas materiais, encontramos a força criativa das imperfeições.
Marcelo Gleiser
Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Profissionalização do Cientista: um olhar além da manchete

via @sibelefausto
Fonte: 

Agora que vocês revisitaram os textos e ações públicas acerca da ‘Profissionalização do Cientista’ podemos partir para uma análise crítica. Nesse texto, vou explorar alguns aspectos da proposta e da linha de argumentação utilizada pela professora Suzana Herculano-Houzel, grande promotora da ideia, no âmbito político formal. Antes de qualquer coisa, reitero que esse artigo reflete a opinião pessoal do autor e não do Instituto de Química (IQ), tampouco da Representação Discente da Pós Graduação (RDPG) do IQ. Sintam-se a vontade para discordar e debater – aliás, esse é o objetivo desse texto.

Começo por fazer duas importantes ressalvas sobre o assunto: 1. Eu compreendo e compartilho da preocupação de Suzana e muitos outros colegas sobre a falta de reconhecimento social sobre os trabalhos de pesquisa e os profissionais da academia. A pouca familiaridade da população com a realidade da ciência, dentro e fora do Brasil, é refletida em perguntas desconfortantes ao jovem que opta pela pesquisa: “quando começa a trabalhar?”, “você só estuda?” e por aí segue. O abismo é tão grande que Suzana, em seus textos e palestras, refere-se ao universo externo à academia como “mundo real”. Aliás, aproveito para fazer uma primeira crítica: usar como ferramenta retórica um distanciamento entre academia e sociedade é uma atitude pouco responsável para um comunicador que preza pela valorização da ciência. Pode ajudar a fazer-se entendido dentro do meio acadêmico, mas reforça, para a sociedade, um estereótipo nós/eles que mantém o universo acadêmico invisível (escreverei sobre, em breve).

2. Quando vamos falar de nossas profissões (isso vale para qualquer categoria) é muito comum a vitimização e uma descrição dramática de nossa condição. É um comportamento social comum, que resulta de uma visão pessimista e egoísta – incomoda-me. Portanto, sugiro uma breve reflexão sobre a condição social do cientista. Somos uma classe privilegiada, pode ser que a remuneração do cientista, principalmente ao longo de nosso treinamento, não seja a melhor ou mais justa, mas nossa realidade é muito mais confortável do que grande parte da sociedade, grande parte que possui, inclusive, a abençoada assinatura no livrinho azul. Se você não entende como pode ser privilegiado, deixo uma postagem mais antiga na qual reconheço os privilégios dentro de minha própria história escolar – a discussão nessa, em particular, foi bem rica.


Agora vamos à análise da proposta e da linha de argumentação da professora. Devo aqui confessar que não vejo com animação o conteúdo (a proposta) e a forma (linha de argumentação e ações públicas) com que o tema vem sendo tratado. O estranhamento poderia ser simplesmente pelo fato de que a mobilização vem sendo realizada por alguém que já ocupa uma posição confortável na academia (docência na universidade pública) e na ciência (a área de neurociências é particularmente forte, hoje). Outro estranhamento advém do caminho escolhido pela professora para efetivar a mudança desejada. Por mais que a esfera política formal seja a instância onde alterações legislativas sejam possíveis, parece-me que a proposta pulou etapas, por não ter sido amplamente debatida dentro das universidades, pelos principais afetados por essas proposições. Entretanto, constato alguns problemas mais sérios, que precisam ser descontruídos. Abordo-os a seguir.

Em sua palestra, Herculano diz que o regime de trabalho nos laboratórios das universidades é ilegal e que auditores do trabalho fechariam todos os laboratórios de pesquisa se houvesse denúncia ao ministério público do trabalho por qualquer cidadão comum. Há controvérsias. Copio um amigo, advogado, sobre o assunto: “Trata-se de um assunto um pouco complexo para ser tão objetivo e simplista. Todavia o direito se baseia em interpretações e em última instância culminam em decisões políticas. Nesse sentido vem se posicionando o nosso STF (Supremo Tribunal Federal) onde as decisões tomadas lá mostram cada vez mais a influência política das decisões. No que diz respeito às primeiras instâncias da justiça, verificamos uma decisão em bloco e cada vez mais “industrializada”, onde os magistrados sequer leem a petição inicial e decidem por assunto, cabendo aos funcionários dos cartórios judiciais elaborarem as sentenças e os despachos. Nessa toada, tem-se que o posicionamento adotado pela Suzana pode ser plausível (preciso ver mais a fundo como ela se fundamenta) uma vez que os pós-graduandos trabalham em regime integral, sem férias, décimo terceiro salário e etc. Contudo, hoje temos um contrato que delimita as regras dos bolsistas, regulamentados por instituições de fomento e com interveniência das universidades. Ademais, não devemos nos esquecer de que muitos juízes são professores na universidade e também tem seus bolsistas vinculados a eles, razão pela qual não vislumbro um cenário de fechamento por uma auditoria do ministério público do trabalho.” Ou seja, o pós-graduando possui ambos matrícula junto à universidade e termo de outorga frente às agências de fomento, sendo no mínimo surreal o anúncio terrorista de ilegalidade dos laboratórios nas universidades.

Outro problema é o modo como Suzana expõe o quadro da não profissionalização, que dá a entender que nós, pós-graduandos, não temos direitos e deveres. Oras, novamente, lembro-os que existem termo de outorga e regimento da pós-graduação. Recebemos uma bolsa de pesquisa mensal que nos permite viver e, em contrapartida, executar o projeto de pesquisa proposto. Dizer que a profissionalização teria como consequência o estabelecimento de direitos e deveres trabalhistas é desconsiderar a pré-existência deles. Assim, a proposta de profissionalização do cientista teria como consequência real a adequação de direitos e deveres à lei trabalhista brasileira, ou seja, à CLT. (Aliás, sobre aposentadoria, especificamente, não é verdade que o tempo em que somos somente bolsistas não conte como tempo de serviço. Um projeto de emenda que poderia facilitar isso já foi discutido, porém arquivado.)

É verdade que hoje alguns dos direitos previstos na legislação trabalhista não estejam contemplados em nossos contratos com universidade e agências de fomento, mas a profissionalização não é o único modo de garantir que esses direitos existam, ou seja, podemos conseguir a ampliação dos direitos dos pós-graduandos. Assim, regulamentar férias, coibir jornadas de trabalho abusivas, coibir o assédio moral, garantir assistência médica, psicológica e odontológica são todas pautas justas que podem ser conseguidas e cuja implementação independe da criação de um cargo de cientista dentro das universidades.




scientist

Após a análise da apresentação do problema, podemos partir para a proposta em si. A profissionalização do cientista defendida por Suzana sugere a criação do cargo de cientista nas universidades, a ser ocupado por graduados, de qualquer área. Além disso, defende que o financiamento dos salários e encargos sociais dos novos profissionais venha daquele recurso destinado ao pagamento das bolsas de pesquisa. A consequente redução da formação de mestres e doutores no país seria, segundo a neurocientista, uma das vantagens, uma vez que a pós-graduação – em particular o doutorado – passaria a ser valorizada. Dois aspectos precisam ser considerados.

O primeiro diz respeito à finalidade da pós-graduação e à própria definição de cientista. Se enxergarmos o cientista como categoria profissional, eu me pergunto se a graduação oferece preparo para o exercício pleno da profissão. A pós-graduação, hoje, é compreendida como um período de capacitação e treinamento em ciência. Temos, ao longo da graduação, programas de iniciação científica, mas nem todos os alunos passam pelo programa e não existem garantias sobre a eficácia desses programas em formar o cientista. Além disso, a formação durante a graduação segue, majoritariamente, um modelo de aprendizagem tradicional, passivo, que não estimula o desenvolvimento de habilidades essenciais ao cientista. Assim, se a pós-graduação, que passaria a existir somente para os mais bem sucedidos – como especialização do cientista profissional -, é fundamental para o amadurecimento científico a profissionalização contribui mais para o processo de alienação do trabalho nas universidades do que para a melhoria da qualidade de vida dos profissionais da academia.

O segundo aspecto é sobre a suposta valorização da pós-graduação a partir da restrição do acesso à mesma. Essa linha de argumentação é frequente entre os contrários à expansão do ensino superior ou de vagas para cursos específicos, como medicina, em 2012. Contudo, a expansão, em si, não causa desvalorização e nem compromete a qualidade e sim uma alocação insuficiente de recursos, financeiros e humanos, para sua implantação. Além disso, a desvalorização de um profissional é resultado de vários outros aspectos culturais, indo muito além da ausência de regulamentação e contrato por carteira assinada. Não vejo problemas em conceber o cientista como um profissional liberal, assim como artistas plásticos, escritores, músicos, advogados ou médicos. Embora muitos desses estejam regulamentados e alguns sejam empregados, o cientista produz algo, ciência, cuja atribuição de valor é artificial e que deve estar disponível para toda a sociedade. Musicistas passam boa parte da vida trabalhando sem carteira assinada e não me parece que profissionalizá-los e dar-lhes emprego precarizado (contrato de trabalho flexibilizado, junto a fundações e não à universidade) solucione seus anseios enquanto classe produtiva.

Assim, embora a inexistência de uma categoria profissional para o cientista seja, a priori, frustrante para a classe, o projeto visionado por Suzana engloba outros aspectos. A proposta criaria uma categoria fraca, já desgastada pela precarização, em prol de uma ambiciosa maior agilidade da produção científica. Nesses termos, o enfoque da profissionalização prometida parece ser a maior autonomia e agilidade para pesquisadores seniors e não a melhoria das condições de trabalho dos pós-graduandos. Nesse contexto, a criação de projetos de lei que expandam, divulguem e garantam os direitos dos pós-graduandos configuram proposições mais maduras e pragmáticas, que apontam na direção de valorização do pós-graduando e da pesquisa brasileira.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Cientistas vislumbram manipulação da memória

folha de são paulo
nytimes
NICK BILTON
DO "NEW YORK TIMES"
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Os cientistas ainda não encontraram um jeito de reparar um coração partido, mas estão chegando mais perto de manipular a memória e de descarregar instruções de um computador diretamente para um cérebro.
Pesquisadores do Centro de Genética de Circuito Neural do Instituto de Tecnologia Riken-Massachusetts nos levaram para mais perto da ideia de manipulação cerebral quando anunciaram ser capazes de criar uma memória falsa num camundongo.
Na edição de 26 de julho da "Science", os cientistas anunciaram ter feito camundongos se lembrarem de ter recebido um choque elétrico em um lugar, quando, na realidade, isso teria acontecido em local completamente diferente.
"Não foi exatamente escrever uma memória a partir do nada, mas conectar dois tipos diferentes de recordações. Pegamos uma recordação neutra e a atualizamos artificialmente para convertê-la em recordação negativa", explicou Steve Ramirez, um dos neurocientistas do MIT.
Pode soar insignificante, mas, segundo Ramirez, não é um salto muito grande imaginar que essa pesquisa possa levar à manipulação computadorizada da mente para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático.
Tecnólogos estão trabalhando sobre interfaces cérebro-computador que nos permitirão interagir com nossos smartphones e computadores, usando simplesmente nossas mentes. Já existem aparelhos que leem nossos pensamentos e nos permitem fazer coisas como nos desviar de objetos virtuais em um jogo de computador ou ligar e desligar chaves com o pensamento. Mas os cientistas que trabalham com a manipulação da memória parecem estar ampliando as fronteiras do que pensamos ser possível.
No filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", o personagem representado por Jim Carrey usa um serviço que apaga memórias para limpar de seu cérebro a lembrança de sua ex-namorada (interpretada por Kate Winslet).
De acordo com Ramirez, o filme só erra em uma coisa: uma lembrança inteira é apagada. "Acho que nós podemos fazer melhor: podemos conservar a imagem de Kate Winslet, livrando-nos apenas da parte dessa recordação que provoca tristeza".
Em 2011, cientistas que trabalham com a Universidade de Boston e os Laboratórios A.T.R. de Neurociência Computacional, em Kyoto (no Japão), publicaram um artigo sobre um processo chamado neurofeedback decodificado, ou "DecNef", que envia sinais para o cérebro por meio de um aparelho de imagem por ressonância magnética funcional, capaz de modificar o padrão de atividade cerebral de uma pessoa. Os cientistas acreditam que, com o tempo, poderão ensinar uma nova linguagem ou o domínio de um esporte "carregando" informações no cérebro.
Em fevereiro, o neurocientista Miguel A. Nicolelis, da Universidade Duke, na Carolina do Norte, conectou os cérebros de dois ratos pela internet, permitindo que eles se comunicassem com suas mentes de tal modo que, quando um rato pressionava uma alavanca, o outro fazia a mesma coisa. Um dos ratos estava na Carolina do Norte e o outro em um laboratório em Natal, no Brasil.
No verão deste ano, cientistas da Escola Médica Harvard criaram uma interface cérebro-a-cérebro com a qual um humano pode mover a cauda de um rato pelo simples pensamento.
"Acho que essa é a fronteira real da comunicação humana no futuro. Já podemos fazer com que macacos, e até mesmo humanos, movimentem artefatos com o simples pensamento", comentou Nicolelis. "A partir do momento em que for possível 'escrever' no cérebro, posso imaginar o mesmo tipo de lógica funcionando para a comunicação de pensamentos e mensagens entre humanos."

Governo lança programa de R$ 450 milhões para estimular nanotecnologia

folha de são paulo
RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO
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O MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) lançou hoje um programa que prevê o investimento de R$ 450 milhões em dois anos para estimular a ligação entre universidade e empresa na área da nanotecnologia. A ideia é permitir que empresas possam desenvolver produtos com estruturas complexas da ordem de milionésimos de milímetro -- a escala dos átomos e moléculas.
O programa prevê ações simultâneas por parte de vários entidades federais, e um de seus objetivos é oferecer infraestrutura de vários laboratórios estatais a empresas. A ideia é permitir que a iniciativa privada possa realizar pesquisa aplicada sem ter de investir pesadamente em equipamentos científicos.
"Muitas empresas que acessam os laboratórios têm uma relação quase pessoal com os dirigentes, mas agora vai ser uma coisa institucional", disse o ministro Marco Antonio Raupp nesta manhã, em São Paulo durante o lançamento da IBN (Iniciativa Brasileira de Nanotecnologia).
Dos recursos já empenhados no programa, R$ 150 milhões são para o ano fiscal de 2013, e outros R$ 300 milhões para o de 2014. Dos recursos deste ano, R$ 38,7 milhões serão distribuídos para o SisNano (Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologia), que reúne 26 centros de pesquisa espalhados pelo país. A Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) receberá mais R$ 30 milhões e o restante será distribuído entre entidades diversas. Em 2014, a recém criada Embrapii (Empresa Brasileira para Pesquisa e Inovação Industrial) deve receber R$ 30 milhões.
O dinheiro do programa terá uso distinto, dependendo da entidade que o recebe. "Nos projetos de desenvolvimento que nos vamos financiar pela Embrapii, as empresas terão que entrar com um terço do dinheiro", disse Raupp. "No SisNano, [a parceria] será uma negociação direta do laboratório com a empresa."
As áreas prioritárias para aplicação do dinheiro são indústria aeronáutica/aeroespacial, agricultura/alimentação, energia, perfumaria/cosméticos e meio ambiente.
BUROCRACIA
O Ministério da Ciência levou ao lançamento do IBC empresários que apresentaram casos de sucesso de investimentos em inovação na área de nanotecnologia.
A Nanum, de Belo Horizonte, nasceu há dez anos de uma ideia de alunos da UFMG para formar uma empresa de consultoria. Os funcionários eram pagos basicamente com bolsas de pesquisa, o que envolvia um bocado de burocracia acadêmica, e o faturamento era baixo. Após conseguir investimento privado, a empresa desenvolveu um tipo inovador de tinta magnética, usada em impressoras de documentos, e hoje tem um contrato com a HP que lhe garante a maior parte de um faturamento anual de R$ 10 milhões.
A Biolab, uma empresa que se dedica a aplicações farmacológicas da nanotecnologia, desenvolveu em conjunto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul um novo tipo de protetor solar. "Depois de passarmos por um bocado de burocracia, o produto está no mercado há três anos", contou Dante Alário Jr., presidente da empresa.
Outros empresários reclamaram da demora da Finep e dar resposta a pedidos de financiamento nos últimos anos. Em alguns casos, a agência de fomento levou mais de um ano para deferir ou indeferir o pedido.
O ministro Raupp reagiu a reclamações sobre a burocracia para estabelecer parcerias dizendo que o problema será resolvido por meio de uma nova lei que rege o status das fundações universitárias. Essas entidades são hoje as maiores responsáveis por tentar ligar pesquisas acadêmicas a aplicações desenvolvidas pela iniciativa privada. Cercadas de controvérsia, as fundações tem tido mais dificuldade para captar recursos e para aplicar o trabalho de pesquisadores pagos pelo dinheiro público em pesquisas que envolvem empresas privadas.
"Mas nós estamos mudando a lei das fundações da apoio às universidades", disse Raupp. "Uma proposta do governo está no Congresso e está redigida como medida provisória que deve ser aprovada logo, em questão de semanas. Depois disso, teremos condições de estimular, facilitar e flexibilizar a contratação de serviços dos laboratórios universitários por parte de empresas. Isso será feito sempre através da fundação."

domingo, 18 de agosto de 2013

Marcelo Gleiser

folha de são paulo
Bóson de Higgs e simetrias
A partícula Higgs confirma a unificação das forças fraca e eletromagnética, mas o que isso quer dizer?
Passados três anos da publicação do meu livro "Criação Imperfeita", achei oportuno revisitar, hoje e esporadicamente, alguns de seus temas tendo em vista novas descobertas da física e da astronomia.
Para os leitores que não conhecem a obra, nela essencialmente proponho uma nova estética da natureza, baseada na imperfeição e nas assimetrias. Essa noção vai contra a ideia dominante das ciências naturais, onde a simetria tem uma papel fundamental.
Claro, isso sempre continuará a ser o caso, mas o que muda é a interpretação dessas simetrias, que deixam de ser fundamentais e passam a ser ferramentas que usamos na descrição do mundo.
Tomemos então nossas teorias que descrevem as partículas de matéria. Elas também são aproximações, descrições matemáticas dos dados que coletamos no laboratório. Nessas teorias, vemos que existem certos padrões de ordem, regularidades nas propriedades das partículas de matéria.
Em geral, essas regularidades são descritas por simetrias. Conhecemos quatro forças que chamamos de "fundamentais". Esse adjetivo, a meu ver, é equivocado, pois não sabemos se existem outras forças na natureza. As quatro que conhecemos são as que podemos medir com nossos instrumentos. Possivelmente, não são as únicas. De qualquer forma, cada força tem uma ou mais simetrias associadas a ela.
Das quatro forças, duas são familiares, a gravidade e o eletromagnetismo. As outras duas agem dentro do núcleo atômico, as forças nucleares forte e fraca.
Em julho de 2012, cientistas do laboratório europeu Cern anunciaram a descoberta de uma nova partícula, o famoso bóson de Higgs. Sua importância é imensa. Ela é a partícula que dá massa a todas as outras, com exceção do fóton, a partícula de luz, que não tem massa. A partícula Higgs havia sido prevista nos anos 60, caso as forças fraca e eletromagnética pudessem ser descritas conjuntamente. O fato de a partícula Higgs ter sido descoberta confirma essa unificação de forma espetacular. Porém, precisamos ter cuidado com a interpretação dessa unificação. O que ela quer dizer?
Na prática, significa que as duas forças comportam-se de forma semelhante acima de certas energias. Podemos investigar o comportamento da matéria a energias diferentes. Você pode fazer isso atirando uma laranja contra a parede com velocidades diferentes. Quanto maior a velocidade, maior a energia do impacto e mais você "descobre" sobre a composição da fruta.
Quando cientistas investigam como as forças fraca e eletromagnética comportam-se a energias muito altas, veem uma semelhança. Na descrição da teoria, as duas forças aparecem juntas. Mas não como uma única força. A simetria que foi descoberta é uma aproximação. (Físicos expressam isso dizendo que "a teoria tem duas constantes de acoplamento", ou seja, as duas forças não perdem a sua individualidade.)
Toda simetria na natureza é uma aproximação. A "unificação" das forças fraca e eletromagnética não reúne as duas forças em uma única simetria. Mesmo que seja triunfo da inventividade humana --tanto a teoria quanto a sua verificação experimental--, ela não é uma unificação real.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Guerra declarada - Helio Schwartsman

folha de são paulo

Guerra declarada

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A tradicional troca de farpas entre representantes das humanidades e entusiastas das chamadas ciências duras deu lugar à guerra declarada.
No último par de anos, as escaramuças vinham se acumulando perigosamente. O físico Stephen Hawking em "The Grand Design", livro de 2010 escrito em conjunto com o também físico Leonard Mlodinov, decretou que a filosofia estava morta. Outro físico (eles não se cansam), Lawrence Krauss, foi apenas um pouco mais polido quando afirmou, em seu "A Universe From Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing", de 2012, que a filosofia não fez nenhum progresso ao longo dos últimos dois mil anos.
Um bom troco veio pela mão do filósofo Thomas Nagel ("Mind and Cosmos", 2012). O subtítulo da obra resume sua tese com perfeição: por que a concepção materialista neodarwinista da natureza é quase certamente falsa.
Mais virulento, o escritor e crítico literário Curtis White acaba de publicar "The Science Delusion", em que ataca amparado em muitos adjetivos os físicos mencionados bem como os novos ateus liderados por Richard Dawkins, neurocientistas e divulgadores de ciência, como Jonah Lehrer (que caiu em desgraça após ter sido apanhado em flagrante delito de fabricar uma citação).
Se esse é o tom no circunspecto e normalmente lento mercado editorial, as coisas são muito piores nas trincheiras de publicações mais ágeis, como revistas e blogs. Ali, as batalhas podem ser verdadeiramente sangrentas. Do mar de artigos que saíram, limito-me a mencionar o texto de Steven Pinker estampado na semana passada em "New Republic", do qual falarei mais adiante.
O que tudo isso significa? De onde vem tanta rivalidade? Vale observar que as duas áreas começaram juntas. Aristóteles, por exemplo, filósofo "par excellence" é autor de vasta obra biológica e física (ainda que estas estivessem numa fase pré-científica). E a indistinção profissional prossegue relativamente sólida até o século 18. Francis Bacon (1561-1626), Blaise Pascal (1623-1662) e Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), para citar apenas alguns, merecem um lugar na história tanto por suas contribuições para a filosofia como para a ciência. Dali para cá, a crescente especialização do saber, magnificada a partir do século 19, vai fazendo com que os pensadores sejam cada vez mais identificados com uma disciplina específica, ainda que sigamos tropeçando em notáveis polímatas.
À especialização, é claro, correspondem métodos de trabalho diversos, que acentuaram as diferenças. Enquanto cientistas em geral contam com o amparo da empiria (que alguns chamam de realidade) para corroborar ou refutar suas hipóteses, distinguindo-as de meros palpites ou francos delírios, o pessoal das humanidades se pauta principalmente pelo método analítico, que não proporciona muitas oportunidades de "reality check". Vale observar aqui que existe uma hierarquia. A revolução científica começou na física, que é a mais matematizável das ciências empíricas, e depois seguiu para outros ramos, como a química, a geologia, a biologia e, em menor escala, a medicina.
Nos últimos anos, o esforço de cientificizar avançou mais um pouco, incorporando áreas que antes eram bastiões das humanidades, como a psicologia, a sociologia, a linguística, a arqueologia e parte da antropologia. Já há quem tente empregar a matriz evolucionista para explicar e analisar obras literárias, artes plásticas, o que deve assustar muitos críticos.
Coloque tudo isso no contexto de departamentos universitários que competem entre si por verbas, cargos e prestígio e temos a receita para a verdadeira guerra cultural em que essa rivalidade se desdobrou.
Um marco na fratura entre esses dois mundos foi a palestra que o químico e escritor britânico C.P. Snow (1905-1980) deu em Cambridge em 1959 e que logo se transformou no livro "The Two Cultures and the Scientific Revolution". Ali, Snow, num tom bem humorado, brinca com a ignorância científica das elites britânicas da época, que, embora dominassem o grego e o latim, eram incapazes de enunciar a segunda lei da termodinâmica (o equivalente científico de não ter lido Shakespeare) ou de definir "massa" e "aceleração" (o equivalente de não saber ler). O autor pedia que as autoridades educacionais dessem mais ênfase à cultura científica dos jovens.
Acho que em alguma medida o apelo deu certo. Não saberia dizer se o nível de preparo científico dos estudantes britânicos (ou de qualquer outro país) é adequado, mas o pêndulo definitivamente mudou de lado. As ciências são hoje as mais valorizadas em todas as universidades relevantes e já quase ninguém estuda o grego e o latim (o que é uma pena). "The Two Cultures" foi classificado em 2008 pelo "The Times Literary Supplement" como uma das 100 obras mais influentes do pós-guerra.
A disputa trouxe vários momentos interessantes. Um de meus preferidos (pelo bom humor e por evidenciar um problema grave das humanidades) é o célebre caso Sokal. Em 1996, o físico Alan Sokal, disposto a demonstrar a falta de rigor das ciências humanas, submeteu à revista "Social Text" um artigo-embuste que foi aceito e publicado. O texto era uma coleção de disparates em linguagem empolada, argumentando que a gravidade quântica é uma construção social e linguística. Depois que a fraude foi revelada, foi um deus nos acuda. Diga-se em favor da "Social Text" que, à época, ela não contava com sistema de revisão por pares.
Para ser justo, devo lembrar que algo semelhante fora feito com médicos --o caso Fox--, que já descrevi numa coluna, o que mostra que esse tipo de problema não é exclusivo das humanidades. O problema, receio, é a arquitetura de nossas mentes, que se deixam facilmente seduzir por elementos não muito objetivos.
E quem tem razão nessa história toda? Eu, como representante das humanidades profundas (graduei-me em filosofia e cheguei a aprender grego e latim), mas que tenta acompanhar à distância o que acontece nas ciências, fico com Pinker, cujo texto mencionei mais acima.
Ali, o linguista e cientista cognitivo sustenta que a ciência não é inimiga das humanidades. Especula, muito apropriadamente, que alguns dos maiores filósofos da história, como Descartes, Spinoza, Hobbes, Locke, Hume, Rousseau, Leibniz, Kant e Smith teriam ido muito mais longe se tivessem acesso ao conhecimento científico hoje disponível. Imaginem o arraso que Hume faria com o que sabemos hoje sobre o cérebro humano. E o que diria Kant, se pudesse deitar os olhos nos trabalhos qualitativos e quantitativos sobre dilemas morais e comparar as taxas de homicídios de diferentes povos?
O surpreendente, como diz Pinker, é que o pessoal das humanidades não esteja ávido por mais interações entre suas especialidades e as ciências e por "insights" novos e relevantes, venham eles de onde vierem.
As humanidades não estão em risco pelo avanço dos cientistas, ainda que empregos e prestígio universitário possam estar. Apesar das declarações meio destrambelhadas de Hawking e Krauss, a filosofia segue viva e firme, inclusive na cosmologia. Nem a física nem o método científico prescindem de uma ontologia, isto é, uma visão sobre o que existe e o que não existe, o que constitui a realidade, se é que ela existe. Essas questões, pelo menos por enquanto, não estão ao alcance da física se não por meio de especulações, ou seja, no que ela é idêntica à filosofia.
Também não é exatamente verdade, como acusam os das humanidades, que cientistas sejam um bando de arrogantes que se julgam donos da verdade. É claro que, individualmente, muitos cientistas são exatamente assim. Mas toda a ideia por trás do método científico é criar estruturas que, levando em conta a lista telefônica de propensões humanas para embarcar em canoas furadas, previnam o erro. A mais importante delas é o teste empírico. Se a teoria e a realidade (por mais precário que seja seu estatuto ontológico) estão em desacordo, pior para a teoria, por mais bela e elegante que seja. E, como esse modelo funciona muito melhor no papel do que na prática, decreta-se que todas as "verdades" científicas são provisórias, sujeitas a retificação e até revogação.
É justamente de um divisor desse tipo, algo que permita distinguir uma boa análise de um delírio, seja ele pessoal ou coletivo, que as humanidades se ressentem.
Hélio Schwartsman
Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Livro conta como a imagem dos dinossauros foi modificada por estudos recentes

folha de são paulo
A reinvenção dos dinos - 
REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
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A informação, convenhamos, é um tanto chocante. Pode fazer com que muita gente sinta que a sua infância foi uma enorme mentira. Mas não se pode fugir dos fatos: brontossauros não existem.
A rigor, o sepultamento científico do brontossauro, ou Brontosaurus excelsus, aconteceu em 1903, quando o paleontólogo americano Elmer Riggs publicou uma pesquisa mostrando que o bicho, então o maior dinossauro conhecido, não tinha características suficientemente únicas para merecer um gênero só para si.
Na verdade, ele era muito parecido com o Apatosaurus ajax, espécie descrita antes. E, como o nome mais antigo é o que vale na nomenclatura científica, o caso estava encerrado: o certo era "apatossauro".
Editoria de arte/Folhapress
Só que, em 1905, o museu de história natural da Universidade Yale (EUA) resolveu exibir sua impressionante reconstrução do esqueleto do bicho, o primeiro do tipo a ser visto pelo público leigo. E o nome original, o de brontossauro, foi usado na exposição. É claro que o sucesso da mostra foi suficiente para que o nome "errado" fosse consagrado em (quase) todos os livros infantis sobre dinossauros publicados desde então.
Isso inclui os livros que um garoto de Nova Jersey chamado Brian Switek devorava nos anos 1980. O menino virou escritor, blogueiro e paleontólogo amador - chegou até a se mudar para Utah, no desértico sudoeste dos EUA, só para ficar mais perto das principais jazidas de fósseis do país. E resolveu batizar seu novo livro de "My Beloved Brontosaurus" ("Meu Amado Brontossauro").
O "gancho" para o título, claro, é a enrolada história do nome do dino, que Switek conta em detalhes na obra. No livro, os "finados" brontossauros são uma espécie de símbolo das múltiplas mudanças de imagem pelas quais os dinossauros têm passado nas últimas décadas.
RECAUCHUTADOS
A lista de características "recauchutadas" é longa, a começar pela postura dos próprios apatossauros e assemelhados. Paleontólogos do século 19 tinham certeza de que bichos com pescoço e cauda tão compridos --sem falar no tamanho do tronco-- mal conseguiam suportar o próprio peso e, para aguentar o tranco, precisavam ficar dentro d'água, mas reavaliações de seus esqueletos indicam que sua postura era ereta e elegante mesmo em terra firme.
Também caiu totalmente por terra a ideia de que os dinos eram basicamente lagartos supercrescidos, com metabolismo lento e "sangue frio". Quando postos sob o olhar do microscópio, os ossos desses animais revelam um padrão acelerado de crescimento, que só podia ter sido sustentado caso eles tivessem "sangue quente" como nós. Não faz muito sentido pensar neles como se fossem répteis, portanto.
Da mesma maneira, um dado que parecia ficar totalmente restrito ao terreno da especulação - afinal, que cor eles tinham? - passou a ser investigado de forma muito mais sólida nos últimos anos graças à identificação, nos fósseis de dinos, da preservação de melanossomos, pequenos "sacos" de pigmento que são uma das formas de dar cor aos seres vivos.
Os melanossomos, aliás, só foram identificados graças a outro elemento central da nova imagem dos dinossauros, o aparecimento cada vez mais frequente de fósseis com penas (as estruturas celulares costumam estar associadas à penugem dos dinos). Hoje, já se contam tantas espécies de dinossauros com penas, distribuídas ao longo dos mais variados ramos da árvore genealógica do grupo, que é possível imaginar que as penas tenham sido a regra na aparência desses animais, mesmo no caso das formas grandalhonas, como os tiranossauros.
O livro aborda outros temas fascinantes, como o sexo dos dinossauros (há técnicas hoje para saber se determinado bicho era macho ou fêmea) e seus sistemas de comunicação. Mas a principal mensagem da obra aparece quando Switek aborda a origem e o sumiço dos bichos.
No primeiro caso, enquanto antes se acreditava que os dinos viraram os principais vertebrados terrestres graças às suas patas eretas e ágeis, os estudos mais recentes indicam que uma série de outros animais desenvolveram essas características mais ou menos na mesma época, embora tenham se extinguido --em parte, foi graças a um lance de dados da evolução que os dinossauros ganharam o estrelato.
E um lance de dados parecido --o corpo celeste que atingiu nosso planeta há 65 milhões de anos-- é o principal suspeito de ter eliminado o grupo. Isso, diz Switek, mostra por que estudar dinossauros é mais do que um passatempo de crianças ou nerds incorrigíveis: a ascensão e queda desses gigantes ajudam a enxergar a fragilidade e a contingência da vida na Terra.
"MY BELOVED BRONTOSAURUS (269 págs.)
AUTOR Brian Switek
EDITORA Scientific American/Farrar, Straus and Giroux
PREÇO R$ 25,25 (livro eletrônico)

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

A ideia que redefiniu o mundo


 

O mês passado marcou o centenário da publicação do modelo do átomo pelo físico dinamarquês Niels Bohr, com seus famosos saltos quânticos. Desde então, e de forma inesperada, a física quântica tomou conta do mundo, dominando as transformações tecnológicas que definem grande parte da história do século 20: radioatividade e energia nuclear, bombas atômicas e termonucleares, transistores e semicondutores, lasers, tecnologias digitais, como as usadas em seu celular ou laptop, CDs, DVDs, enfim, os produtos que usamos no nosso dia-a-dia e que são todos derivados das propriedades da matéria ao nível atômico e subatômico.
O interessante é que o modelo atômico de Bohr é meio absurdo, uma colagem de ideias clássicas e quânticas, fruto da intuição genial do único cientista capaz de confrontar Einstein. Bohr imaginou o átomo como um minissistema solar, com o próton no centro e o elétron circulando à sua volta. Seu modelo servia apenas para o átomo mais simples que existe, o de hidrogênio. Nisso, Bohr seguiu o protocolo dos físicos, de sempre buscar um problema mais fácil para começar.
Bohr sabia que o átomo não era um simples sistema solar: planetas giram em torno do Sol por bilhões de anos praticamente sem perder energia; já o elétron cairia rapidamente no próton, ao menos segundo a física clássica, que descrevia como cargas elétricas opostas se atraem.
Bohr teve que inventar para o átomo novas regras que necessariamente iriam contra a física clássica. Corajosamente, apresentou sua ideia sugerindo algo inusitado: o elétron só poderia estar em algumas órbitas, separadas no espaço como os degraus de uma escada. Da mesma forma que você não pode ficar entre dois degraus, o elétron não pode ficar entre duas órbitas. Pode apenas pular de uma para outra, como nós pulamos entre degraus de uma escada. Esses são os famosos saltos quânticos.
E o que determina essas órbitas? Mais uma vez, encontramos a incrível intuição de Bohr: como os elétrons giram em torno do próton em órbitas circulares, eles têm o que chamamos de "momento angular", uma quantia que mede a intensidade de movimentos circulares. (Por exemplo, quando uma patinadora no gelo gira com os braços estendidos e depois encolhe os braços sua velocidade de giro aumenta --essa é uma consequência da conservação de momento angular.)
Bohr sugeriu que o momento angular do elétron devesse ser "quantizado", isto é, só podia ter certos valores discretos, dados pelos números inteiros (n=1, 2, 3...). Se L é o momento angular, a fórmula de Bohr é L = n (h cortado), onde h cortado é a famosa constante de Plank, que o físico alemão havia introduzido em 1900 e que aparece em todos os processos quânticos.
A sacada genial de Bohr foi misturar conceitos da física clássica com a nova física quântica, criando uma teoria híbrida do átomo. Com ela, Bohr resolveu um antigo mistério da física, relacionado com a radiação que um elemento químico emite quando aquecido, que aparece apenas em algumas cores (ou melhor, frequências).
Os pulos dos elétrons entre as órbitas são acompanhados da emissão e absorção de "fótons", as partículas de luz que Einstein havia proposto em 1905. A teoria de Bohr capturou a essência dos átomos, suas órbitas discretas, explicando suas emissões ou espectro quantizado. Uma nova física para um novo século, que continua nos surpreendendo até hoje.
Marcelo Gleiser
Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".

domingo, 11 de agosto de 2013

A vitória do pênis cabeçudo - Reinaldo José Lopes

folha de são paulo
CIÊNCIA
A vitória do pênis cabeçudo
A anatomia masculina e outras artimanhas evolutivas do sexo
REINALDO JOSÉ LOPES
RESUMO
Livros do americano Jesse Bering e do britânico John Maynard Smith analisam o sexo por prismas complementares. Bering, com humor de banheiro masculino, comenta a importância do formato do pênis na evolução da espécie. Já Smith, com equações e dados experimentais, investiga por que o sexo existe na natureza.
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Que ninguém duvide da importância dos sex shops para testar hipóteses sobre a evolução da nossa espécie --em especial se estivermos falando das origens da anatomia peniana.
Um exemplo banal: por que diabos o pênis humano, em especial quando o prepúcio é recolhido e a glande fica exposta, tem esse curioso formato de cogumelo? A pergunta é pertinente porque nossos parentes mais próximos no reino animal, os grandes macacos, ostentam membros relativamente finos e "retos", mais parecidos com uma banana-nanica.
Pensa daqui, pensa dali, o psicólogo evolucionista Gordon Gallup Jr., da Universidade do Estado de Nova York em Albany, propôs que a chave para entender a esquisitice do pênis do Homo sapiens residia no fato de que a glande costuma ter diâmetro consideravelmente maior do que a haste do membro masculino.
Imagine uma mulher que copula com dois parceiros, com intervalo relativamente curto entre eles.
Durante a pré-história da nossa espécie, quando camisinhas eram item inexistente, estava armado o cenário para uma competição de espermatozoides entre os moços -- a não ser que a glande em forma de cogumelo do segundo parceiro servisse como uma espécie de vassoura, armazenando debaixo de si o sêmen do rival e puxando-o para fora da vagina durante o coito.
Do ponto de vista da teoria da evolução, a lógica é impecável. Mas como testar experimentalmente a ideia?
VIBRADORES
Visitando um sex shop, é claro. Gallup Jr. e companhia adquiriram um conjunto completo de vibradores --com e sem glande simulada-- e vaginas artificiais anatomicamente realistas.
De volta ao laboratório, produziram uma caldeirada de "sêmen artificial" (farinha de trigo misturada com água e fervida). E, após "lubrificar" devidamente a vulva de borracha, verificaram que tipo de consolo era o mais apropriado para remover o esperma falso.
Vitória dos pênis "cabeçudos", que conseguiam retirar mais de 90% do líquido da vagina de brinquedo, contra apenas 35% de eficiência do vibrador sem glande. Está tudo registrado nas páginas da revista científica "Evolution and Human Behavior". E também no livro "Devassos por Natureza: Provocações sobre o Sexo e a Condição Humana" [trad. Maria Luiza X. de A. Borges, Zahar, 304 págs., R$ 44,90], do psicólogo americano Jesse Bering.
As reflexões sobre a importância evolutiva do formato do pênis são bastante representativas da temática do livro, ainda que não de sua linguagem --se você achou os parágrafos acima galhofeiros, é só porque não leu o relato original de Bering, um sujeito com senso de humor típico de banheiro masculino.
Por outro lado, a disposição para usar piadas é coisa que inexiste em "A Evolução do Sexo" [trad. Antonio Carlos Bandouk, ed. Unesp, 262 págs., R$ 29], clássico escrito em 1978 pelo biólogo britânico John Maynard Smith (1920-2004) que só agora chega ao país.
Usando os dados experimentais e de campo mais refinados que havia em sua época, Maynard Smith investigou por que, afinal de contas, o sexo existe na natureza. Deu à pesquisa contornos panorâmicos, que vão das trocas de genes entre bactérias às origens do tabu do incesto entre os membros da nossa espécie.
Apesar das diferenças brutais de estilo, os dois livros se complementam. Com seu estilo pop, Bering apresenta suavemente ao leitor um dos grandes pilares do pensamento evolutivo: encarar a anatomia e o comportamento dos seres vivos sob o prisma da engenharia reversa.
Trocando em miúdos: diante de características biológicas intrincadas, o cientista dessa área tenta compreender tanto questões funcionais (o famoso "para que serve?") quanto de causalidade, ou seja, até que ponto, em última instância, essa funcionalidade tem um impacto na seleção natural.
É mais ou menos o que também faz Maynard Smith, com a ressalva importante de que o britânico não quis poupar o leitor das equações que despeja em diversas páginas do livro (embora a maior parte da obra esteja escrita em prosa clara, ainda que árida).
O arcabouço matemático, de todo modo, é necessário porque o sexo tem um custo --medido naquela que é por excelência a moeda de troca da evolução: o sucesso reprodutivo.
Ocorre que, do ponto de vista dos "interesses" de cada organismo (as aspas são necessárias porque se trata quase sempre de interesses inconscientes), reproduzir-se por meio do sexo equivale a um desperdício de material genético, já que a prole sempre terá apenas 50% do DNA de cada genitor.
E é preciso ainda levar em conta o custo considerável de procurar um parceiro, disputar as atenções dele com rivais e sobreviver à cópula, que muitas vezes deixa o casal em posição vulnerável.
Sob esse prisma, a opção mais razoável, à primeira vista, seria clonar a si mesmo e pronto. Mas o curioso é que essa estratégia, a partenogênese (em grego, "nascimento virgem"), é bastante rara entre animais e plantas. E sua distribuição nos grupos de seres vivos sugere que ela costuma surgir de modo esporádico, a partir de ancestrais com vida sexual "normal".
Maynard Smith usa modelos matemáticos para examinar as possíveis razões para esse paradoxo. O mais provável é que o sexo seja um mecanismo para "embaralhar" genes de pais e mães com eficiência, de maneira que a prole carregue em seu DNA armas mais diversificadas para enfrentar contingências como novos parasitas, predadores ou eventuais mudanças ambientais.
Centenas de milhões de anos depois que o primeiro organismo desenvolveu essa estratégia, chegamos a mamíferos de cérebro complexo como nós e os demais primatas, cujas estruturas mentais, além da anatomia, também parecem ter sido buriladas para maximizar o sucesso reprodutivo --universo que é a especialidade de Jesse Bering.
Autor de um blog no site da revista "Scientific American", ele domina a arte de escolher os detalhes mais picantes dessa temática e "descascá-los" de forma cientificamente sólida.
Ou, ao menos, tão sólida quanto possível. A área de especialidade de Bering, a psicologia evolucionista, costuma sofrer a acusação, muitas vezes injusta, de construir cenários fantasiosos.
Como não é possível viajar no tempo para registrar em filme a vida sexual dos hominídeos, e uma vez que os indícios da evolução da mente e do comportamento com frequência só podem ser flagrados de maneira indireta, há quem veja a psicologia evolucionista como um exercício de imaginação divertido, mas que pode ser usado para provar que qualquer coisa e o seu contrário são produtos da seleção natural --tanto o cuidado com a prole quanto o infanticídio, tanto a monogamia quanto a infidelidade.
ANTIDEPRESSIVO
Às vezes, Bering incorre nessa caricatura, ainda que com resultados que injetem sabor no texto, como quando ele aborda a literatura sobre os efeitos antidepressivos do esperma humano (mais um estudo, digamos, seminal de Gordon Gallup Jr.) ou quando saúda as habilidades do músculo cremastérico, aquele que faz os testículos humanos se encolherem para perto do corpo num dia frio.
Hipótese de trabalho dos cientistas nesse caso: o músculo seria o responsável por manter a temperatura testicular num nível nem muito quente, nem muito frio, de maneira a otimizar produção e sobrevivência dos espermatozoides.
O psicólogo, no entanto, consegue abordar temas surpreendentemente sérios por baixo dessa fachada de deboche. Um deles é o da origem das preferências sexuais humanas e dos preconceitos que as cercam --talvez não por acaso, já que Bering é homossexual.
É difícil, por exemplo, não pensar em alguns candidatos ao teste descrito pelo pesquisador no capítulo sobre homofobia. Basicamente, amarra-se o pênis do sujeito a um sensor e expõe-se o voluntário a imagens pornográficas, de natureza tanto hétero quanto homossexual. Surpresa: quanto mais a pessoa declara ter raiva de gays, maior a chance de ela ter uma ereção assistindo a homens fazendo sexo com homens.
Nesse ponto, os dois livros voltam a se aproximar. Não há como a homossexualidade (ao menos se for a prática exclusiva) aumentar o sucesso reprodutivo dos homens gays, embora ela se manifeste a partir de uma base biológica que compartilha com a sexualidade hétero (gays também sentem ciúmes, por exemplo).
Do mesmo modo, organismos praticantes da partenogênese volta e meia evoluem em condições especiais, mesmo que o sexo seja uma estratégia mais vantajosa, em média. A biologia é o reino da contingência, e não há uma seta única apontando o rumo do progresso --ainda bem, ao menos para quem advoga a diversidade.

    Marcelo Leite

    folha de são paulo
    Guerras biológicas
    O mais saliente na natureza humana talvez seja o vasto potencial para ramificar-se em manifestações culturais
    Predomina hoje a noção de que a violência tem raízes biológicas. Uma mixórdia de evidências e especulações refoga neurociência, genética e darwinismo com pitadas de antropologia para concluir que, no fundo, somos todos trogloditas.
    Não faltam exemplos de comportamento violento e irracional nos dias de hoje. Basta ver a PM e o Black Bloc em ação. Obviamente, são casos extremos, excepcionais. A maioria das pessoas é pacífica.
    Uma saída comum para justificar a anomalia consiste em tratar a violência como um resquício do passado natural da espécie humana.
    O raciocínio segue assim: o homem nasceu guerreiro e terminou por civilizar-se, preferindo cooperar a agredir. A seleção natural o pôs no bom caminho, pois haveria mais vantagens para os indivíduos, em termos de sobrevivência, na colaboração (até para vencer guerras).
    Como ninguém tem acesso ao que de fato acontecia na origem da espécie, uns 100 mil anos atrás, a reconstrução se vale de povos caçadores-coletores do presente. Ali estaria a demonstração viva da equação entre "primitivo" e "violento".
    Essa visão aproxima figuras célebres como Edward O. Wilson, Stephen Pinker, Jared Diamond e Napoleon Chagnon. Ganha adeptos até entre filósofos e economistas. Um destes é Samuel Bowles, do Instituto Santa Fé (Novo México, EUA).
    Bowles levantou uma polêmica sobre o tema na edição de 20 de julho do semanário "The Economist", leitura obrigatória entre poderosos (o germe ultradarwinista não se contenta com os limites estreitos da população universitária).
    Bowles reagia a uma reportagem da revista sobre o trabalho antropológico de Douglas Fry e Patrik Söderberg, da Universidade Abo Akademi (Finlândia). No periódico acadêmico "Science" daquela semana, eles tinham lançado um desafio aberto à tese da guerra primordial: pelas suas contas, a maioria dos povos naturais tem índole pacífica e haveria mais violência dentro dos grupos do que guerras entre eles.
    A dupla extraiu dados sobre 148 mortes violentas entre 21 grupos indígenas em estudos etnográficos clássicos. Concluiu que a maioria (55%) resultava de violência entre indivíduos, motivados por vingança ou disputa por alguma mulher, e não de conflitos entre tribos.
    Surgiram várias objeções ao trabalho. Bowles, por exemplo, argumenta com razão que guerras não precisam causar o maior número de mortes para ter um impacto na evolução de comportamentos sociais.
    O furo maior, contudo, se encontra na própria amostra de Fry e Söderberg: o povo tiwi, da Austrália, que responde por quase metade (69) das mortes estudadas. Os tiwis destoam não só pela violência, mas também por praticá-la em grupo.
    Das duas, uma: ou se nega a eles a condição de humanos ou algo na disposição natural do homem possibilita que se comportem assim.
    A resposta para esse dilema é que a característica mais saliente da natureza humana talvez seja o vasto potencial para ramificar-se em manifestações culturais, ainda que contidas entre balizas universais (como a interdição do incesto).
    Não tem nada a ver com relativismo ou com achar que a violência, se for ritual ou tradicional, pode ser aceitável. Não pode, ponto.
    Essa história de estado de natureza é uma gororoba do século 17, e nem mesmo o tempero científico do 21 a tornará mais palatável.

      terça-feira, 30 de julho de 2013

      Biólogos rivais disputam explicação da monogamia - Rafael Garcia

      folha de são paulo
      Análise com macacos atribui fidelidade sexual à prevenção do infanticídio
      Para estudo evolutivo com mais mamíferos, porém, comportamento surge quando acesso a várias fêmeas é difícil
      RAFAEL GARCIADE SÃO PAULOA última tentativa da biologia moderna de elucidar o paradoxo da monogamia --por que ser fiel a uma única parceira se a evolução favorece a promiscuidade?-- jogou mais dúvidas do que respostas sobre a questão. Os dois últimos estudos sobre o tema são contraditórios.
      O primeiro deles é uma análise com 2.500 mamíferos. O trabalho indica que a monogamia surgiu em espécies nas quais as fêmeas vivem muito distantes umas das outras, e o comportamento promíscuo fica custoso para o macho. Já o segundo trabalho, que analisou 230 macacos, mostra que a fidelidade a uma única parceira surgiu para prevenir o infanticídio.
      Ambos os estudos usaram métodos semelhantes para chegar às suas conclusões. Primeiro, fizeram uma reconstrução da árvore da vida dos mamíferos de todas as espécies analisadas, para saber quais eram mais próximas evolutivamente. Depois, usaram literatura científica existente para atribuir a cada uma delas diferentes comportamentos sociais --monogamia ou poligamia, solidão ou gregarismo etc.
      Os cientistas estavam tentando descobrir por que apenas 9% das espécies de mamíferos são monogâmicas, enquanto mais de 90% dos pássaros exibem esse comportamento. Uma análise estatística deveria levar os dois estudos a uma conclusão similar, mas ocorreu o inverso.
      "Quando fêmeas solitárias se distribuem num espaço amplo, machos em busca de oportunidades de acasalamento sofrem risco de ferimentos ou predação", afirmou Dieter Lukas, da Universidade de Cambridge, coautor do estudo mais abrangente com mamíferos, publicado na revista "Science". "Não vimos evidência de associação próxima entre monogamia e risco de infanticídio."
      Christopher Opie, porém, do University College de Londres, enxerga o inverso ocorrendo entre macacos. "A origem da monogamia em primatas é mais bem explicada pelo longo período de lactação causado pela dependência para alimentação, tornando filhotes particularmente vulneráveis a machos infanticidas", escreveu o cientista em estudo na revista "PNAS".
      Ao conversar com jornalistas ontem, cientistas pareciam surpresos ao saber da disparidade entre as conclusões dos estudos.
      "Na nossa análise, obtivemos um sinal muito claro de que foi o infanticídio que levou à monogamia e não aquilo que Lukas está sugerindo", disse Opie à Folha. "Ao analisar tantas espécies de mamíferos, ele pode ter perdido esse efeito entre os primatas."
      Os cientistas de Cambridge, porém, afirmam ter sido mais rigorosos do que Opie em suas análises estatísticas. "Uma razão para a disparidade pode ser o uso de maneiras diferentes para classificar as espécies", diz Tim Clutton-Brock, coautor de Lukas.
      No estudo, classificar humanos como monógamos gerou discussão. "O que temos em humanos são casais que se associam, mas se encaixam dentro de grupos maiores. Não observamos isso em nenhum outro mamífero."
      Outra explicação para a contradição entre os estudos é o tamanho da amostra, diz o cientista. "Em pequenos conjuntos de dados, é possível achar associações aleatórias que não aparecem nos grandes conjuntos."
      Nenhum dos grupos de cientistas disse ter enxergado erros evidentes no estudo dos rivais, porém. A disputa acadêmica tende a continuar.