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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"Orestes" une ficção e realidade para mostrar consequências da ditadura nos dias de hoje

folha de são paulo
FERNANDA MENA
DE SÃO PAULO
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"Choque elétrico é fato?", ouviu o coronel Walter da Costa Jacarandá, ex-integrante de órgãos de repressão do regime militar (1964-85), durante sessão da Comissão da Verdade ocorrida há cinco dias, no Rio.
"É fato", respondeu o militar, o primeiro a assumir publicamente ter participado de sessões de tortura durante a ditadura.
Para o cineasta Rodrigo Siqueira, 40, diretor do documentário "Terra Deu, Terra Come" (2009), vencedor do festival É Tudo Verdade de 2010, a acareação entre coronel e vítimas de tortura pelo regime poderia estar em seu novo filme, "Orestes".
O longa mistura ficção e realidade. Inventa um crime a partir de fatos reais e o leva a debate público e a tribunais do júri simulados, em que juízes, promotores e advogados de defesa renomados tiveram liberdade para tecer teses sobre o caso sem sugestões ou interferências do diretor.
O crime: em 19 de julho de 2010, Orestes, 43, estrangula e mata Gilson, seu pai biológico, que o havia conhecido naquele dia, naquela hora.
O contexto: Gilson, agente da repressão infiltrado em movimento de esquerda, conhece Socorro. Ela fica grávida, mas o casal se separa antes mesmo de saber da gestação de Orestes.
Em 1973, o esconderijo de Socorro e seu filho é denunciado por Gilson à polícia.
Escondido no sótão da casa, aos 6 anos, Orestes testemunha a tortura e a morte da mãe, por estrangulamento, nas mãos de seu pai, Gilson.
Gabo Morales/Folhapress
Júri simulado durante as gravações do longa 'Orestes'
Júri simulado durante as gravações do longa 'Orestes'
TRAGÉDIA
O caso remete à "Oresteia", de Ésquilo (leia ao lado), trilogia trágica grega em que Orestes mata a mãe, Clitemnestra, que havia assassinado seu pai, Agamêmnon.
É, no entanto, inspirado na história de Soledad Barrett, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), morta sob tortura, em 1973, no episódio conhecido como Massacre da Chácara São Bento, em Pernambuco.
Soledad namorou José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, que se tornou informante da repressão e delatou a amante. A militante estaria grávida de Anselmo quando foi morta.
"Fiquei impressionado com o caráter trágico desta história", lembra Siqueira. "Mas queria evitar reconstituições ou imagens de arquivo. Queria fazer um filme do presente, porque há consequências da ditadura em curso ainda hoje, por exemplo, no tipo de polícia que temos."
Para ele, as estratégias de repressão empregadas, com viés político, durante o regime militar, são hoje usadas pelas forças policiais em episódios como os protestos ocorridos em junho e "contra pretos e pobres, que tomam porrada e desaparecem".
"Ontem eram aqueles que lutavam contra o regime, hoje são milhares e milhares de Amarildos", diz, em referência ao caso do pedreiro morador da Rocinha, no Rio, que desapareceu em 14 de julho depois de ter sido levado por recrutas da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).
PSICODRAMAS E JÚRIS
Diante do crime ficcional criado pelo diretor e de seu contexto, foi inevitável tocar na questão da Lei de Anistia, cuja revisão foi rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal em 2010, e das atuais comissões da Verdade.
Para trazer este debate para o presente, o diretor primeiro promoveu sessões de psicodrama entre ex-militantes de esquerda torturados, filhos de desaparecidos durante o regime militar -entre eles, Ñasaindy, filha de Soledad-, pais de jovens desaparecidos hoje, militantes de direitos humanos e policiais.
Os encontros foram filmados no prédio vazio do DOI-Codi de São Paulo e no teatro Taib, no Bom Retiro.
Depois, o caso foi apresentado a dois tribunais do júri simulados. A Folha teve acesso a um deles, do qual participaram o juiz José Henrique Rodrigues Torres, o promotor Maurício Antônio Ribeiro Lopes, e José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça e advogado de defesa de mais de 600 presos políticos da época.
"A ideia não é colocar a Lei de Anistia no banco dos réus, mas transpor para a vida dos homens os dilemas políticos, históricos e éticos deste debate, a construção e a desconstrução das verdades", explica o cineasta.
Ao submeter um crime ficcional, com certo lastro no real, a situações que fogem ao controle do diretor, regidas por visões e versões sobre justiça no Brasil de hoje, "Orestes" se configura como filme de experiência, aberto e processual, que procura demolir as fronteiras entre ficção e documentário.
"Vivemos uma falsa reconciliação, cor-de-rosa. Acho que o filme vai fazer cócegas nessa mentira", avalia José Roberto Michelazzo, ex-preso político que participou dos psicodramas no mesmo edifício em que foi torturado.

SAIBA MAIS
'Oresteia' firmou temas centrais da tragédia grega
DE SÃO PAULO
"Oresteia" é uma trilogia de peças teatrais do grego Ésquilo (525 a.C.-456 a.C.), o "pai da tragédia": "Agamêmnon", "Coéforas" e "Euménides".
A obra estabeleceu temas centrais da tragédia grega: destino (o assassinato de Agamêmnon por sua mulher, Clitemnestra, e o amante, Egisto), vingança (a reação do filho Orestes, que mata a mãe e Egisto) e justiça (a perseguição de Orestes pelas Fúrias, divindades que vingam crimes de sangue com sangue, e seu julgamento pela corte de Atenas).
O júri empata. A deusa Atena vota a favor de Orestes, absolvendo-o.

ANÁLISE
Dilema entre mostrar e editar a realidade é típico do gênero
ANDRÉ BARCINSKICRÍTICO DA FOLHAO cinema documental sempre viveu esse dilema: o que é real e o que é ficção? Quando um cineasta edita uma cena, não está também impondo a "sua" verdade?
Um dos grandes documentaristas do cinema, o norte-americano Robert Flaherty (1884-1951), reencenava sequências inteiras.
Em "Nanook do Norte" (1922), Flaherty pediu aos esquimós que construíssem um iglu sem teto, para facilitar o trabalho da câmera (as condições técnicas dificultavam registros "reais", já que Flaherty usava uma câmera a manivela, uma Akeley, com capacidade reduzida de filme).
Em "O Homem de Aran" (1934), o cineasta pediu aos moradores das isoladas ilhas de Aran, na costa da Irlanda, que reencenassem técnicas de pesca que não usavam havia quase meio século.
Na década de 1920, vários filmes documentais tentaram --com graus diferentes de experimentalismo-- "captar" a vida de cidades, caso de "Berlim, Sinfonia da Metrópole" (1927), de Walter Ruttmann, "São Paulo, Sinfonia da Metrópole" (1929), de Adalberto Kemeny e Rodolfo Lustig, e "O Homem da Câmera" (1929), do russo Dziga Vertov.
Os filmes traziam cenas do cotidiano, mas a montagem e efeitos visuais "organizavam" a realidade de acordo com o gosto e objetivo dos realizadores.
E o que dizer do grande "Cabra Marcado para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho? O filme começou a ser rodado em 1964, como uma obra ficcional inspirada no assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, na Paraíba. Várias pessoas faziam os papéis delas mesmas.
As filmagens foram interrompidas pelo golpe militar e retomadas por Coutinho quase 20 anos depois, mas na forma de um documentário sobre o destino de atores e equipe.
"Cabra" é, portanto, um documentário sobre um filme ficcional, sendo este inspirado em fatos e interpretado pelos personagens reais.
A mistura de fato e ficção em documentários ganhou um capítulo importante há poucos meses, com o lançamento --por enquanto, apenas no exterior-- do poderoso "The Act of Killing", do norte-americano Joshua Oppenheimer.
No filme, ex-participantes de esquadrões da morte indonésios reencenam, em forma de faroeste, musical e comédia, as atrocidades que cometeram após o golpe de 1965, que pôs no poder o ditador Suharto. A fantasia sádica dos carrascos assusta tanto quanto os crimes --reais-- que cometeram.

    segunda-feira, 17 de junho de 2013

    MinC quer turbinar imagem do país criando CEUs no exterior

    folha de são paulo
    FERNANDA MENA
    DE SÃO PAULO

    Começa nesta segunda-feira (17), em Marrakech, no Marrocos, uma conferência da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) que propõe a 186 países um tratado de direitos autorais, apresentado por Brasil, Equador e Paraguai, para facilitar o acesso à leitura de deficientes visuais.
    O documento, baseado em lei vigente no Brasil e em outros 46 países, isenta as obras vertidas ao braile de pagar direitos autorais. Países que assinarem o acordo deverão criar dispositivos para verter livros ao braile sem essa cobrança, além de liberar seu trânsito internacional.
    "Uma vez que a obra esteja em braile aqui, por exemplo, a entidade pode exportar gratuitamente esta versão", explica a ministra da Cultura, Marta Suplicy, que representará o Brasil na conferência. "Isso é 'soft power'."
    Pedro Ladeira/Folhapress
    A ministra da Cultura, Marta Suplicy, posa para retrato em seu gabinete em Brasília
    A ministra da Cultura, Marta Suplicy, posa para retrato em seu gabinete em Brasília
    "Soft power" (poder "suave", em tradução livre) é um conceito das relações internacionais --criado por Joseph Nye, cientista político de Harvard-- que denota a capacidade de um país de influenciar e persuadir por meio de seu poder de inspiração e atração, em vez de militar.
    À Folha, em 2010, o acadêmico afirmou que o Brasil tem um "soft power" natural graças ao apelo de sua cultura.
    Marta parece ter tomado a análise como meta e afirma, à Folha, que pretende construir CEUs das Artes no exterior e que o investimento do governo na Feira Internacional do Livro de Frankfurt (R$ 18,9 milhões), em setembro, não é muito quando visto pelo prisma do "soft power".
    Leia trechos da entrevista.
    *
    Folha - O conceito de "soft power" é abstrato. O que esperar de palpável do investimento do MinC nessa direção?
    Marta Suplicy - É algo tão palpável como Hollywood foi para os Estados Unidos.
    Os países que entenderam isso criaram institutos para divulgar sua cultura pelo mundo. A China tem mais de mil institutos Confúcio. O Instituto Goethe está no mundo inteiro. A identidade brasileira já tem uma marca. E o ministério se esforça para expandir essa marca.
    De que maneira?
    Os Pontos de Cultura, iniciados na gestão Gilberto Gil, já se expandiram pela América Latina. Isso faz parte da estratégia. Há hoje 250 pontos de cultura na Argentina.
    MinC pretende criar CEUs das Artes no exterior também?
    Sim. O de Portugal vai ser o primeiro. Foi alugado um espaço enorme para o ano do Brasil em Portugal [encerrado na semana passada] e estamos avaliando as possibilidades com o Itamaraty. Aí não precisamos investir tanto. Outro deve ser em Londres, na entrada da embaixada do Brasil. Agora estamos vendo a programação.
    O Brasil não precisa mais desses espaços do que outros países?
    Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Essa é uma forma de investir no "soft power" brasileiro. O CEU das Artes no Brasil é para ajudar a população que não tem acesso à cultura. Serão 360 e farão uma parceria com o Vale-Cultura porque vão qualificar o gasto do trabalhador.
    Como está a construção desses CEUs das Artes no Brasil?
    Vamos inaugurar cem neste ano. Estamos capacitando os gestores que vão atuar nesses locais. Até agora, inaugurei um no Paraná. Os outros estão sendo erguidos em ritmos diferentes. Cada um desses aparelhos custa R$ 1,65 milhão.
    E qual é o custo de manutenção dos CEUs das Artes?
    A manutenção fica por conta das prefeituras. Eu gostaria que o projeto dos CEUs das Artes incluísse manutenção pelo MinC. Mas eu primeiro preciso construir e depois ver como conseguir dinheiro para manutenção.
    O MinC vai investir R$ 18,9 milhões na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, evento em que o Brasil é homenageado. Não é muito dinheiro?
    A Argentina investiu R$ 20 milhões em 2010. A Catalunha, R$ 39 milhões em 2007. A Índia, R$ 12 milhões em 2006. Depende de que país você fala e do quanto quer aparecer. É uma média razoável porque temos de representar o Brasil da melhor forma possível.
    Isso é "soft power".
    O novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Renato Lessa, criticou o fato de a projeção internacional da nossa literatura estar sendo bancada por verbas públicas.
    Não vou comentar o que já está. Se, numa próxima oportunidade, não precisar ser assim, vai depender da avaliação dessa experiência. Pode ter sido um gasto desnecessário, um erro. Imagino que não, mas pode ser.
    Se o projeto fosse feito na sua gestão, a sra. pensaria numa contrapartida do mercado?
    Mais recurso é sempre bem-vindo.
    O Fundo Nacional Pró-Leitura, alimentado por 1% do lucro das editoras brasileiras e gerido pelo MinC, seria uma forma de contrapartida?
    Acho boa ideia. Temos de ver como proceder. O [José] Castilho [Marques Neto, secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura] tem essa posição. Concordo. Essa negociação ocorrerá em algum momento.

    domingo, 26 de maio de 2013

    Fernanda Montenegro: 'eu é um outro'

    folha de são paulo - revista serafina
    Aos 83 anos, Fernanda Montenegro abre o leque de suas personalidades e ataca em várias frentes: está na novela "Saramandaia", faz sua estreia como diretora de teatro e volta aos palcos como Simone de Beauvoir

    FERNANDA MENA
    DE SÃO PAULO

    Ela já encarnou personagens de Sófocles e Molière, Pirandello e Beckett, Jorge Andrade e Nelson Rodrigues. Mas, em seus quase 65 anos de carreira, em que esteve na pele de cerca de 500 tipos, nos palcos, no cinema e na TV, há uma personagem que se destaca, interpretada diariamente e tida em todo o país como a primeira dama do teatro brasileiro: Fernanda Montenegro.
    Foi esse o pseudônimo criado pela adolescente Arlete Pinheiro Esteves da Silva, em 1949, para apresentar um programa de adaptações literárias na Rádio do Ministério da Educação.
    "Escolhi um nome que achei literário e maluco. E pegou", diz a atriz, remetendo à célebre frase com que o poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891) descreveu a multiplicidade de vozes que o artista traz em si: "Eu é um outro".

    Fernanda Montenegro

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    Murillo Meirelles
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    Aos 83 anos de idade, Fernanda Montenegro integra o elenco do remake de "Saramandaia"
    Desde então, uma é outra, e outra é, no fundo, uma. "O esteio da dona Montenegro é a dona Arlete. Uma é para uso externo, outra é para uso interno. Uma tem uma fantasia em torno dela, outra tem a realidade palpável do dia a dia", teoriza, enquanto retoca a maquiagem para as fotos que ilustram estas páginas.
    Mas, aos 83 anos, ainda consegue se enxergar como Arlete?
    Antes de responder, uma mira a outra no espelho, em silêncio. Sem desviar os olhos do reflexo, diz: "Consigo. Mas consigo lá dentro. Isso aqui, agora, por exemplo, não é a Arlete. É a Fernanda. Embora o cavalo seja da dona Arlete, ou seja, o corpo seja o dela, tudo isso o que está armado sobre ele é da dona Fernanda", explica.
    E foi como Fernanda Montenegro que ela causou barulho recentemente ao beijar na boca a colega Camila Amado, 77, durante o prêmio da Associação dos Produtores de Teatro do Rio (APTR). O beijo, interpretado como um protesto contra a permanência do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, transformou a atriz em nova musa da luta contra a homofobia.
    "Não foi bem um proteeeeesto", diz. "Dois atores haviam dado um selinho em repúdio ao insulto que é esse homem. A Camila entrou no palco e disse: 'Eu também gostaria que alguém me beijasse na boca'. E eu disse: 'Pois não, vamos nós'. Fui lá e a beijei simplesmente", narra. "Se foi tido como um protesto, tudo bem."
    Agora, Fernanda integra uma campanha contra o preconceito cujo slogan é: "O próximo pode ser você".
    Ela mesma já foi alvo. "Nos anos 1950, atriz era prostituta, e ator era gigolô ou veado. Não tinha salvação", lembra. Ela é do tempo em que toda atriz e toda prostituta tinham de obter na delegacia uma carteirinha para trabalhar na área de diversão. "Era um documento da segurança pública para a marginália. Foi suspenso após campanha da atriz Dulcina de Moraes [1908-1996]."
    Criada num sítio na região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, Fernanda teve uma infância primitiva, cercada de bichos e dos parentes --muitos deles eram pastores na Sardenha, Itália.
    A memória deve ajudá-la no remake de "Saramandaia", em que interpretará uma personagem que não existia na trama original e que contracena com animais. "Sempre conversei com os bichos, não vai ser novidade", brinca. "Perdi um cachorrinho que era a minha conversa noturna e tenho um casal de passarinhos com quem fico de papo. Mulher fala muito, né? Está sempre conversando com ela mesma e com as coisas. E bichos são ótimos para isso."

    Carreira de Fernanda Montenegro

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    Adriano Vizoni/Folhapress
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    A atriz Fernanda Montenegro durante gravações de um especial de fim de ano da Rede Glob
    PRIMEIRO ATO
    Além do trabalho na TV, neste ano Fernanda ainda será, pela primeira vez na vida, diretora de uma peça. Também retomará as viagens com a peça "Viver sem Tempos Mortos", monólogo em que interpreta, há quatro anos, a escritora Simone de Beauvoir (1908-1986).
    O desafio de dirigir pela primeira vez teve como incentivo extra a autoria do texto. "Nelson Rodrigues, por Ele Mesmo - Um Depoimento" baseia-se no livro em que a filha do dramaturgo, Sônia Rodrigues, reúne crônicas nunca publicadas.
    "Fui muito ligada a Nelson. A meu pedido ele fez três peças: 'O Beijo no Asfalto', 'Toda Nudez Será Castigada' e 'A Serpente'. Fiz 'A Falecida' no cinema e duas de suas novelas. Achei que saberia levar aquilo para os palcos", conta.
    Ninguém diria que a moça que estreou no teatro em 1950, com a peça "Alegres Canções nas Montanhas", chegaria tão longe. O espetáculo foi "um fiasco", como costuma dizer, e ficou só dez dias em cartaz --mas foi ali que ela conheceu Fernando Torres, com quem se casou três anos depois.
    No ano seguinte, estreou na TV Tupi. "Era um tempo em que ninguém via TV porque pouquíssima gente tinha o aparelho em casa. De modo que eu fazia programas para ninguém", ri.
    "Com o tempo, a TV passou a imprimir a visão de que o ator vai ali para ganhar dinheiro, e não para fazer arte. Que ali é um pulo para o sucesso", avalia. "Hoje, 20% dos atores estão na TV com garantia de emprego por um bom tempo. Os outros 80% estão no teatro a pão e laranja. O teatro é um artesanato lento, e cada dia é uma batalha para sobreviver artística e economicamente."
    Fernanda foi a atriz certa nas horas e nos lugares certos e se destacou em meio a uma geração de grandes talentos: Ítalo Rossi, Bibi Ferreira, Raul Cortez, Paulo Autran e Sérgio Britto. Após a morte de Cacilda Becker, em 1969, ela assumiu, aos 40 anos, o título informal de maior atriz do Brasil.
    O ápice, no entanto, foi a indicação ao Oscar de melhor atriz, inédita para uma brasileira, pela atuação em "Central do Brasil" (1998), de Walter Salles.
    "Não haveria 'Central do Brasil' sem ela", diz o cineasta. "O filme parte de uma ideia original criada para Fernanda, que imprimiu um nível de excelência que irradiou para a equipe inteira."
    Veremos Walter e Fernanda juntos novamente? "Estamos pensando em um novo filme juntos. É algo embrionário, mas que pretendo realizar," diz a atriz. "Colaborar novamente com Fernanda seria um sonho", derrete-se o diretor.
    SEGUNDO ATO
    Arlete conseguiu preservar sua intimidade e manter Fernanda Montenegro na linha de frente. A atriz se tornou empresária de si mesma.
    "Meus pais eram independentes: autodidatas, franco-atiradores, aventureiros", diz a atriz Fernanda Torres, 47, colunista da Folha e filha do casal, assim como o cenógrafo e diretor Claudio Torres.
    Mãe explica filha: "No meu tempo, do espetáculo mais experimental ao mais careta, a gente ia ao banco, pegava um empréstimo e se endividava. Só que o público pagava o ingresso. E a gente saldava a dívida e sobrevivia".
    Fernandona ataca a estatização e o "pouco pão na mesa" da cultura. "O Estado é o grande pai --no caso, a grande mãe--, e somos prisioneiros desse sistema", diz. "Só se faz tanto monólogo hoje porque é o que dá para produzir."
    Para a atriz, o bom exemplo desse "sistema" é o modelo de prestação de contas. "Adoraria ver os 39 ministérios do Brasil justificando despesas como nós da cultura fazemos para o Ministério da Cultura. Isso é dinheiro público."
    Fernanda foi convidada duas vezes a assumir esse Ministério da Cultura: uma no governo Sarney (1985-1990) outra no Itamar Franco (1992-1994).
    "Quando você se entrega a uma profissão, passa a ter uma deformação profissional, entre aspas, que me levou a declinar desses dois convites. Vê a que ponto se chega?" E cai na gargalhada, sem arrependimentos.
    Para ela, outro problema da cultura atualmente é o "vício" em ingresso barato e em meia-entrada. "Você não pode fazer um espetáculo em que, se aparecer 100% de público com carteirinha, você obtém metade da bilheteria. Se você levar essas carteirinhas no supermercado, o açúcar não sai pela metade do preço, não é verdade?"
    TERCEIRO ATO
    Vaidosa, Fernanda diz manter a silhueta esguia por sorte. "Não tenho propensão para engordar. Como bem, mas não gosto de gordura nem de doce."
    Há 40 anos, fez sua primeira e única cirurgia plástica. "Tirei bolsas debaixo dos olhos. Elas voltaram, maravilhosas. Percebi que era inútil lutar. Inútil paisagem, como cantou Tom Jobim."
    O passar dos anos e a fragilidade do corpo parecem não a incomodar. Difícil é testemunhar a morte dos amigos.
    Nos últimos dez anos, Fernanda convive com esses vazios: Sérgio Britto, Gianni Ratto, Gianfrancesco Guarnieri, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Ítalo Rossi e Fernando Torres, que morreu em 2008, após 60 anos de casamento. "Os primeiros anos sem Fernando quase me derrubaram", desabafa.
    Sobre a perda de colegas, confessou ao ex-genro, Gerald Thomas, chorar diariamente. "Na hora de dormir, olho para o teto e choro. Na hora de acordar, olho para o teto e choro de novo. E, se você quer saber, às vezes, no meio da madrugada, eu choro também."
    A declaração fez o dramaturgo produzir um texto intitulado "Eu Choro". "Fernanda tem aqueles olhões para fora e se emociona facilmente. Dá para ver ali toda a angústia da humanidade."
    À Serafina, confessou. "É horrível. São pessoas que vão embora e não têm peça de reposição. Com cada um se viveu uma memória. E agora só eu estou com aquela memória em comum... Por enquanto."
    Fernanda acredita que já viveu os melhores anos da vida, portanto, a preparação para a morte é inevitável. "Mas vamos carregando o processo vital até onde der."

    Personagens favoritas de Fernanda Montenegro

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    Divulgação
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    Fernanda Montenegro como Lucília, de "A Moratória" (1955)

    sexta-feira, 29 de março de 2013

    Em busca da fantasia perdida

    folha de são paulo

    Hollywood vive crise no setor de efeitos especiais; produtora que levou o Oscar pediu falência
    RODRIGO SALEMDE SÃO PAULOUm filme com um jovem indiano atacando o vazio com um remo dificilmente ganharia o Oscar de melhor direção em 2013. Um terço de um transatlântico afundando em um tanque d'água não se transformaria em um dos maiores fenômenos de bilheteria da história -caso de "Titanic".
    E "Jack - O Caçador de Gigantes", blockbuster que estreia hoje nos cinemas do Brasil, teria cenas de ação com seu herói (Nicholas Hoult) lutando contra bolas de tênis.
    As situações descritas são extremas, mas o alerta vermelho está aceso em Hollywood, que enfrenta uma grave crise no setor de efeitos visuais. Apesar da demanda crescente por parte dos estúdios, a concorrência se acirrou a ponto de derrubar cachês e margens de lucro dessas empresas, que têm alto custo.
    Em setembro passado, a Digital Domain, fundada por James Cameron e responsável pelos efeitos de "Titanic", fechou as portas. Em janeiro, a Dreamworks Animation demitiu 350 pessoas.
    Já a Rhythm and Hues, que venceu o Oscar de efeitos visuais neste ano por "As Aventuras de Pi", entrou com pedido de falência na mesma semana em que foi premiada.
    Bill Westenhofer, supervisor de efeitos da empresa (uma das maiores do setor), até tentou alertar o mundo sobre a crise no segmento na cerimônia do Oscar, mas foi cortado abruptamente pela produção da festa com a música tema de "Tubarão".
    Pior: ao receber o Oscar de melhor diretor por "As Aventuras de Pi", Ang Lee agradeceu até aos "construtores do tanque" do filme, mas deixou de lado os técnicos que desenharam 80% de seu longa.
    O filme retrata um garoto (Suraj Sharma) aprendendo a conviver com um tigre -reproduzido digitalmente em quase todas as cenas- em um bote no meio de um oceano (ampliado por computador).
    PROTESTO
    Do lado de fora do Dolby Theatre, no qual ocorreu a festa do Oscar, 450 artistas visuais protestaram contra o sistema de trabalho dos grandes estúdios. Entre as reivindicações estão a criação de um sindicato e a participação nos lucros das produções.
    Lee conseguiu enfurecer ainda mais os artistas quando, nas entrevistas pós-Oscar, disse que os "efeitos especiais poderiam ser mais baratos".
    A declaração do cineasta deu origem a uma carta aberta de Phillip Broste, da Rhythm and Hues: "Foram precisos centenas de horas de artistas habilidosos e coordenadores para moldar os cenários e as performances de 'As Aventuras de Pi'. Seu dinheiro foi gasto nisso e, julgando pela noite que teve, foi uma barganha dos diabos".
    Dias depois, o diretor respondeu tentando colocar panos quentes. "Quando a economia está bem, as empresas de efeitos visuais vão bem, porque existe dinheiro. Quando os tempos ficam ruins, é provável que elas peçam falência", afirmou Lee à Folha.
    "Sei que é difícil fazer um trabalho artístico, mas espero que esse negócio custe menos e seja mais artístico e respeitado. Seria um sonho."
    Para Tim Squyre, montador de "As Aventuras de Pi", o setor de efeitos especiais precisa encontrar um modelo de negócio que funcione. Hoje, uma empresa fecha um contrato com valor fixo -mesmo que filme renda US$ 600 milhões (R$ 1,2 bilhão), como "As Aventuras de Pi".
    A competitividade acirrada entre as produtoras leva a um leilão às avessas nos bastidores: leva o projeto quem oferecer o menor orçamento.
    "As companhias precisam operar como negociantes de verdade e parar de passar a perna umas nas outras", diz Scott Squires, um dos organizadores do protesto no Oscar.
    PROTECIONISMO
    Outro ponto que incomoda o segmento nos EUA é a estratégia de países como Nova Zelândia (sede da empresa que fez "O Senhor dos Anéis") e Canadá, que oferecem incentivos fiscais para atrair produções hollywoodianas.
    "Nenhum trabalho que deixe os EUA, principalmente nesta época, será bem visto, a não ser que o outro país esteja financiando o longa", afirma o designer de produção Neville Page ("X-Men").
    Page veio ao Brasil para a inauguração da Axis, escola de efeitos visuais que surge da parceria entre a brasileira Saga e a americana Gnomon.
    Para ele, a internacionalização não resolve problemas do setor. "O Brasil está com uma economia diferente dos EUA e custa menos fazer efeitos aqui. Mas os estúdios sempre buscarão lugares mais baratos. É um ciclo vicioso."
    Colaborou FRANCISCO QUINTEIRO PIRES, de Nova York
    Atores admitem que trabalhar em filmes hi-tech é frustrante
    FERNANDA MENAENVIADA ESPECIAL A LONDRESSe, nas telas, as novas tecnologias aplicadas ao cinema encantam os olhos por trás de óculos 3D, nos estúdios e sets de filmagem elas parecem arruinar a magia do trabalho dos atores.
    É essa a avaliação de atores como Ewan McGregor e Stanley Tucci, que integram o elenco da superprodução hi-tech "Jack - O Caçador de Gigantes", dirigido por Bryan Singer, de "X-Men".
    O filme utiliza quase toda a tecnologia de ponta disponível hoje para criar uma versão do conto de fadas "João e o Pé de Feijão".
    Há 3D, imagens geradas por computador e filmagens com a tecnologia "motion capture" (captação de movimentos com atores cobertos por sensores dos pés à cabeça, que posteriormente determinam as ações das animações digitais).
    "O trabalho do ator se torna outra coisa quando você tem de contracenar com nada, em um ambiente todo verde ou azul. É frustrante", admite o escocês McGregor.
    "Frustrante? É humilhante", diz Tucci. "Eram horas e horas no set, vestido com uma armadura e empunhando uma espada e, na hora da ação, parávamos tudo porque uma câmera sei lá o quê não funcionou."
    "Nas telas, os efeitos são incríveis. Mas, no set, esse tipo de tecnologia simplesmente acaba com a imaginação do ator", resume ele.
    Os atores tiveram de gravar muitas cenas em estúdios totalmente verdes em que as imagens geradas por computador (gigantes e mais gigantes) seriam posteriormente inseridas.
    "Você tem de contracenar com bolas de tênis, conversar com elas como se fossem os gigantes. O set de filmagem fica cheio de técnicos, que são criativos, mas de uma maneira diferente de um ator", explica McGregor.
    O longa custou cerca de US$ 150 milhões (cerca de R$ 300 milhões) e consumiu quase um ano de pós-produção -fase restrita aos computadores, em que a mágica vista nas telas, quase incompreensível nas filmagens, de fato acontece.
    "O problema é a expectativa da audiência", diz Singer. "Quando algo feito nos computadores não parecia real, refizemos até que ficasse a contento. Fui muito exigente com o pessoal da computação gráfica."
    Atores e diretor avaliam o resultado de todo esse aparato tecnológico, além de caro, como surpreendente.
    "O mais engraçado é que, em geral, quando faço parte de um filme e vou assisti-lo no cinema, fico me lembrando dos locais de filmagem", afirma McGregor. "Neste caso, no entanto, é surpresa pura porque o ator não tem memória de nada do que está ali. É como ver outra pessoa fazendo aquilo que você fez."

      CRÍTICA AVENTURA
      Longa tem bons personagens e cara de game
      Diretor soube valorizar ator principal e teve habilidade para trabalhar com arquétipos típicos dos contos de fada
      SÉRGIO ALPENDRECOLABORAÇÃO PARA A FOLHAAtualmente, quase todos os filmes de ação contam com um determinado artifício de estilo: a câmera-pássaro. Se for fantasia, para exibição em 3D, é quase certa a presença de tal expediente.
      Trata-se de uma câmera que voa alucinadamente por paisagens artificiais e faz com que os longas se pareçam com videogames.
      Temos um pouco disso em "Jack - O Caçador de Gigantes", adaptação de um antigo conto de fadas inglês cuja variação mais famosa é "João e o Pé de Feijão".
      Jack, jovem plebeu, recebe a visita de uma princesa que foge de um casamento forçado. Por acidente, um gigantesco pé de feijão cresce no meio de sua casa, levando-os a um mundo desconhecido, em uma montanha e habitado por gigantes. Os voos rasantes aparecem aqui e ali, para aproveitar ao máximo o efeito da terceira dimensão.
      Por outro lado, há na aventura um senso dramatúrgico interessante. Temos arquétipos que representam um panorama histórico da narrativa fantástica.
      Há o vilão ganancioso, seu ajudante abobalhado, a princesa meiga e justa, o pai atencioso e durão, o rapaz pobre de caráter rico, o guerreiro das causas nobres etc. Até mesmo os gigantes reproduzem tal esquema.
      Esse tipo de esquematização, quando trabalhado conscientemente, rende nas mãos de um diretor hábil como Bryan Singer. Porque se apoia na construção arquetípica dos personagens para conseguir momentos de emoção genuína (algo raro atualmente em filmes para a família).
      Singer sabe, por exemplo, como valorizar o trabalho de um jovem ator como Nicholas Hoult (que, aliás, se parece com Christopher Reeve).
      Sabe também encontrar o tom ideal para a atuação de Stanley Tucci, pois seu vilão pode ser caricatural de tão maldoso, mas funciona dentro da proposta.
      "Jack - O Caçador de Gigantes" não é primoroso como, por exemplo, "As Crônicas de Spiderwick", de Mark Waters. Tampouco tem o charme de algumas fábulas de Tim Burton. Mas é digno, um bom divertimento para uma tarde de domingo.

        domingo, 17 de fevereiro de 2013

        O som e o sentido No quintal de Kleber Mendonça Filho

        folha de são paulo

        REPORTAGEM
        O som e o sentido
        No quintal de Kleber Mendonça Filho
        FERNANDA MENA
        RESUMO
        Aclamado pela crítica e por festivais internacionais, "O Som ao Redor" se impõe como um raro acontecimento cultural no cinema brasileiro. O diretor levou a Folha à rua em que rodou o longa e expôs matrizes de seu trabalho, enraizado na crítica, no cineclubismo e na obra de Gilberto Freyre, com quem sua mãe trabalhou.
        -
        Em uma rua tranquila em Setúbal, região de classe média a poucos quarteirões da praia de Boa Viagem, no Recife, o som ao redor é o das crianças no pátio do colégio da esquina, o das vassouras de piaçava que investem contra o passeio de pedra e o meio-fio e o das visitas que dispensam a campainha para gritar da calçada por quem procuram. Tudo, porém, abafado pelo ruído constante da construção de torres residenciais avançando contra o casario local.
        Rosto colado num muro, olho direito espiando por uma fresta, Kleber Mendonça Filho, 44, vasculha a cena ocultada por tijolos e cimento. O enquadramento não ajuda. Ele pega o celular no bolso da bermuda, estica o corpo, na ponta dos pés calçados em chinelos de dedo, e ergue os braços sobre o muro, equilibrando o aparelho nas mãos. "Cuidado, Kleber! Pode ter um cachorro aí", aflige-se sua mulher, a francesa Emilie Lesclaux, arranhando ainda mais os erres do sotaque.
        Tira uma foto e levanta os óculos para avaliar a imagem. "É...", suspira, "já demoliram toda a parte próxima à piscina".
        O imóvel do outro lado do muro foi quartel-general e um dos cenários do primeiro longa-metragem de ficção de Mendonça, "O Som ao Redor", o filme brasileiro mais bem recebido e comentado dos últimos tempos.
        O terreno da casa em que, no filme, viveu a personagem Sofia (Irma Brown), namorada do protagonista João (Gustavo Jahn), deve dar lugar, fora das telas, a mais um "prédio de alta qualidade, entre aspas", como gosta de dizer o diretor, frisando o que diz com um gesto dos dedos indicadores e médios ao lado do rosto.
        É das relações entre muros dessa paisagem urbana em rápida transformação que trata "O Som ao Redor": a classe média enjaulada em edifícios sitiados, as brincadeiras de criança limitadas pelo portão do prédio e pelos cuidados das babás, o vaivém das empregadas domésticas nos apartamentos, a vigília dos guardas-noturnos.
        "Não sou contra filme de favela ou do sertão, mas a novidade de 'O Som ao Redor' é o fato de ter seccionado com tamanha precisão um pedaço da sociedade brasileira pelo qual o cinema em geral não se interessa: a classe média de condomínio", diz Cacá Diegues. "Não há referência a nada. É como se o cinema estivesse sendo inventado ali", entusiasma-se o cineasta, ele mesmo um autor de filmes de favela ("Orfeu", 1999) e de sertão ("Tieta do Agreste", 1996).
        Para Mendonça, nada mais natural do que retratar o território que lhe é familiar. "As pessoas se espantam com o fato de o filme tratar da classe média. Isso é muito estranho, já que 90% dos cineastas brasileiros são de classe média", arrisca o diretor. "O cinema brasileiro olha para lugares que não me interessam. Queria fazer o tipo de filme que não tenho visto no Brasil, o que diz muito sobre o que acho da cena atual."
        Trata-se de uma fatia da sociedade brasileira mais comumente retratada em comédias de apelo popular: blockbusters como "De Pernas para Ar", "Até Que a Sorte nos Separe" e "E Aí, Comeu?". "São filmes feitos com muita grana e lançados com muita grana. Gastam R$ 6 milhões mas parecem ter custado R$ 800 mil porque têm dois apartamentos, quatro atores da Globo, um cachorro e um gato", desdenha o diretor. "Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana."
        Após seis semanas em cartaz, "O Som ao Redor", que custou R$ 1,8 milhão -R$ 550 mil provenientes do fundo para o audiovisual do Estado do Pernambuco-, deve chegar aos 70 mil espectadores neste domingo. O filme estreou no circuito brasileiro em 13 salas, em 4 de janeiro; num movimento inverso ao trivial, chegou a ocupar 18, na semana seguinte ao lançamento. Hoje se mantém em 11.
        "Filme com menos de 100 mil espectadores não existe para o mercado", observa Carlos Augusto Calil, ex-diretor da Embrafilme, ex-secretário municipal de cultura de São Paulo e professor de cinema da USP. "Mas nosso horizonte cinematográfico é muito pobre e, nesse contexto, 'O Som ao Redor' se destaca pela inteligência dramatúrgica. Cria um painel e uma sensação parecidos com o filme
        'O Pântano', da argentina Lucrécia Martel. É o tipo de filme que precisa ficar mais tempo em cartaz, mesmo que seja em uma sala só, porque o boca a boca sobre ele é muito bom."
        GRADES
        Filmado em seis semanas e meia, em 2010, o longa de Kleber Mendonça Filho apresenta 80 locações -a maioria delas localizada nos arredores do apartamento em que ele vive há 25 anos, cuja janela gradeada dá hoje para os 17 andares de um prédio de alta qualidade, entre aspas, sendo erguidos a poucos metros dali.
        Diante da nova e inóspita urbanização do Recife, "O Som ao Redor" evita as paisagens abertas, as praias, e faz crônicas da vida íntima em que os espaços públicos, em suas raras aparições, surgem privatizados.
        A rua que serve de cenário para o filme tem dono: é de Francisco (W.J.Solha), o patriarca local, proprietário de um engenho decadente no interior do Estado e de boa parte dos apartamentos do quarteirão. Ele é avô do protagonista João e de Dinho (Yuri Holanda), ovelha negra da família.
        Com a chegada ao local de um grupo de seguranças particulares, liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos), o patrimônio permanece nas mãos do coronel, mas o controle passa a ser deles: nenhum carro ou pessoa passa por ali despercebido.
        "O condomínio fechado é mostrado como a versão contemporânea do feudalismo, em que empregadas e porteiros são objetificados", avalia Ismail Xavier, crítico de cinema e professor da USP. "Tudo parece normal e, ao mesmo tempo, a ponto de romper. Há sinais de instabilidade, e a tensão é trabalhada de maneira muito sutil, potencializada por uma estranheza familiar com tintura de insegurança", decreta. "Com isso, Kleber demonstra um grande domínio dos meios de expressão, do tempo e do espaço."
        É no mesmo celular em que registrou a ruína de um dos sets do longa que Mendonça checa, a todo momento, mensagens, na maioria elogiosas, sobre o filme. No Facebook, são postados os textos sobre filme publicados na mídia -como aquele que Caetano Veloso, em sua coluna no jornal "O Globo", escreveu que "O Som ao Redor" é "um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo".
        Quando foi lançado, há um ano, no Festival de Cinema de Roterdã, o filme havia sido inscrito em outros dois eventos do tipo. Ao final da première, Kleber Mendonça Filho deixou a sala de projeção com convites para outros cinco festivais: Nova York, Sidney, Edimburgo, Munique e Seul. Hoje, o longa coleciona participações em mais de 50 mostras de cinema no Brasil e no exterior e 14 prêmios nacionais e estrangeiros, entre eles os de melhor filme na Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, além do prêmio da crítica no festival holandês de sua estreia. Diante da consagração do filme, diz o diretor, "é difícil encontrar o equilíbrio entre o blasé e o fogueteiro".
        Com estreia prevista para março na Inglaterra, no Canadá e na Polônia, "O Som ao Redor" será lançado no iTunes em um mês e também deve ser exibido nos canais HBO na América Latina.
        O MoMA, o museu de arte moderna de Nova York, onde o longa foi exibido durante o festival New Directors New Films, quer adquirir uma cópia do filme para sua coleção permanente.
        "'O Som ao Redor' é particularmente interessante porque, ao mesmo tempo em que é muito brasileiro, cria um ambiente em que o espectador estrangeiro se sente seguro para adentrar uma estrutura social que não é a sua e observá-la através dos olhos do diretor", explica Jytte Jensen, curadora de filmes do MoMA. "Queremos ter o filme na nossa coleção porque ele anuncia a chegada de um diretor de com uma voz extremamente pessoal e original e com uma visão muito cinematográfica, que sabe pensar as imagens."
        CRÍTICO
        "Kleber fez um filme muito bom, mas o fato de ele ter sido crítico de cinema durante muitos anos ajuda: os colegas acabam sendo mais generosos", suspeita Claudio Assis, diretor pernambucano, amigo do cineasta e autor de filmes como "Baixio das Bestas" (2006) e "A Febre do Rato" (2011). "Não tem jeito, todo crítico é um cineasta frustrado", provoca.
        O clichê já foi alvo da ironia de Mendonça. Em um dado momento dos 11 anos em que se dedicou à reportagem e à crítica de cinema -em especial para o pernambucano "Jornal do Commercio", mas também em colaborações eventuais para a Folha-, ele mandou estampar uma camiseta com a frase: "Todo cineasta é um crítico frustrado".
        "Você não tem ideia do efeito que esta camiseta tem sobre os diretores. Pega no coração deles", diverte-se.
        Cineasta e crítico, programador e cinéfilo, Kleber Mendonça Filho começou, ainda na faculdade de jornalismo, a fazer vídeos -espécie de "primo pobre do cinema". "Meus curtas passavam de tarde nos festivais, em salinhas em queninguém entrava", lembra.
        Com o advento tecnológico que transformou o vídeo em cinema digital, Mendonça abandonou os horários esdrúxulos das ilhas de edição do Recife, aqueles desprezados pela publicidade, para trabalhar em casa. Foi o primeiro grande salto em sua produção.
        O segundo veio com a consolidação de uma política cultural do Estado do Pernambuco: um fundo, hoje com R$ 11,5 milhões destinados apenas à produção audiovisual, que premia, por meio de editais, cada etapa da produção cinematográfica local. "O fundo tem recursos específicos para o audiovisual, o que permite um nível de produtividade razoável. O filme de Kleber e tantos outros feitos agora são devedores desse sistema", explica Paulo Cunha, cineasta do ciclo pernambucano do Super8, professor de cinema brasileiro da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) e uma das poucas vozes cautelosas quanto à consagração do longa.
        "O filme tem questões -que não são defeitos propriamente. Merecia 20 minutos a menos, por exemplo, e ganharia com isso. A tentativa de justificá-lo sociologicamente, de torná-lo erudito, não agrega nada a sua narrativa. Também não estamos diante da reinvenção da linguagem cinematográfica. O filme é e será bem-sucedido, mas não precisa desse movimento incensatório", diz.
        Em seu blog no site da revista "Piauí", Eduardo Escorel, cineasta e montador, também abandonou o coro elogioso, que chamou de "surto de ufanismo patrioteiro". E, entre elogios à coragem do cineasta em retratar com realismo moradores comuns do Recife, apontou como falhas a "apatia do elenco" e o "tom monocórdico" que "empobrece os personagens".
        CURTAS
        "O Som ao Redor" revisita toda a filmografia de curtas do diretor: de "A Menina do Algodão" (2002), pega emprestado o clima sombrio; de "Vinil Verde" (2004), o pesadelo de uma das crianças do filme. De "Eletrodoméstica" (2006), rouba duas cenas inteiras em que Beatriz (Maeve Jinkings) usa o aspirador de pó para dissipar a fumaça do cigarro de maconha e a máquina de lavar em modo centrifugação para se masturbar. Do falso documentário "Recife Frio" (2009), captura dois personagens e volta a chamar a atenção para o quarto da empregada dos apartamentos de alta qualidade, entre aspas -no curta, que relata a situação absurda em que a capital pernambucana sofre com temperaturas abaixo de zero, o local, pequeno e sem ventilação, passa a ser o cômodo mais aconchegante e disputado do apartamento.
        Para a curadora do MoMA, mais do que fonte de autocitações, os curtas do cineasta são "a chave para entender como ele foi capaz de tamanha façanha em seu primeiro longa-metragem".
        ""O Som ao Redor' é um filme que vem sendo feito há muito tempo. Todos os meus curtas fazem parte deste processo. Hitchcock repetia cenas em filmes diferentes. Truffaut revisitou elementos ao longo da carreira", diz o cineasta, relativizando o procedimento. "Tem gente que entende, tem gente que se incomoda com isso."
        ENJAULADO
        Se toda a carreira anterior de Kleber Mendonça Filho no cinema conduz a seu primeiro longa, é talvez no seu primeiro curta, intitulado "Enjaulado" (1997), que se encontre mais claramente a gênese de "O Som ao Redor". Espécie de rascunho do mal-estar social do longa, o curta retrata a paranoia da segurança nas grandes cidades a partir dos devaneios de perseguição de um rapaz trancado num apartamento repleto de grades nas portas e janelas.
        Mas "O Som ao Redor" avança no diagnóstico que faz dessa questão urbana, buscando suas raízes na nossa cultura escravocrata. A ligação entre a aflição presente e a herança passada se anuncia já no prelúdio à ação do filme, uma sequência de fotografias em preto e branco de engenhos de açúcar no interior do Pernambuco. "Essa foi a fagulha do filme. Comecei a perguntar para os meus amigos: o que você acha de um filme em que o engenho seja uma rua moderna do Recife?", lembra ele.
        A estrutura social do Brasil no período escravista é um tema familiar ao diretor. Filho da historiadora Joselice Jucá, estudiosa do abolicionista mulato André Rebouças (1838-1898), Mendonça cresceu entre conversas sobre as reformas sociais pensadas e nunca implementadas no Brasil pós-abolicionista. Entre as memórias de sua infância estão ainda visitas à sala de Gilberto Freyre (1900-1987), vizinha da de sua mãe, no antigo Instituto (hoje Fundação) Joaquim Nabuco, no Recife.
        Só muitos anos depois, quando viveu em Essex, na Inglaterra, durante o doutorado da mãe, é que tomou conhecimento da obra seminal para a sociologia brasileira produzida por aquele senhor da sala ao lado. "Minha mãe me obrigou a ler 'Casa Grande e Senzala', livro que reli antes de fazer 'O Som ao Redor'", conta ele. Fica claro, portanto, o cineasta dedicar o filme a sua mãe.
        "Ela morreu em 1995 e deixou um livro não publicado sobre a reforma agrária proposta por Rebouças, que nunca aconteceu. Ela me ensinou que, no Brasil, os negros se tornaram cidadãos do dia para a noite, sem que nada fosse feito para recebê-los. As consequências disso estão aí até hoje", conclui. "Um sonho que tenho é o de adaptar seu livro para o cinema. Mas, de certa forma, já o adaptei em 'O Som ao Redor'."
        Ao legado intelectual da mãe se somou o olhar estrangeiro de sua mulher, Emilie Lesclaux, que chamou a atenção do cineasta para as estranhas relações entre patrões e empregados no ambiente doméstico brasileiro. "Para mim era tudo muito esquisito: havia uma senhora que cuidava da casa de Kleber, mas a relação deles não era nada profissional. Era uma presença totalmente misturada na casa: afeto com trabalho", explica Emilie, que assina a produção do filme.
        Antes de se mudar para a casa de Mendonça, a francesa havia vivido no apartamento de um casal de pernambucanos que havia trazido do interior uma garota para as tarefas domésticas. "Uma escravinha", define o cineasta.
        Numa possível transferência e atualização dos papéis de brancos e negros da sociedade do açúcar, Francisco é um senhor de engenho, Clodoaldo e seus vigias companheiros são capitães-do-mato, Beatriz é uma escrava recém-alforriada e João, um abolicionista. "João tem uma visão mais aberta da sociedade, mas não consegue ir até o final da luta, o que é algo bem brasileiro", pondera o cineasta.
        Para Ismail Xavier, além de Gilberto Freyre, o filme evoca o Brasil de Sergio Buarque de Hollanda: "Tudo se resolve no plano das relações pessoais, de poder, mando e serventia, fora da noção abstrata de cidadania e fora da ordem institucional democrática. É a sobrevivência de certas tradições que a modernização não dissolve".
        CINEMA DE ARTE
        Entre a crítica e a direção, o pernambucano trilhou ainda uma terceira carreira no cinema: a de programador. Há 15 anos, ele responde pela seleção dos filmes exibidos na principal sala de cinema de arte do Recife, a da Fundação Joaquim Nabuco, no bairro do Derby. Foi ali, em 1989, que o cineasta estagiou com o então programador Marcelo Gomes ("Era uma Vez, Verônica", "Cinema, Aspirinas e Urubus") e que assistiu a muitos dos filmes mais importantes de sua formação, como "A Lira do Delírio" (1978), de Walter Lima Jr.
        Hoje, é ele o responsável pela formação de uma nova linhagem de cinéfilos na quarta maior metrópole do país, muitos dos quais se tornaram também cineastas, que gravam com tecnologia digital e editam filmes em laptops.
        Mendonça encabeça uma geração de diretores pernambucanos que se apartou da estética regionalista do maracatu, do sertão e da pobreza para privilegiar as tensões urbanas e sociais da metrópole de seu tempo, tendo o passado como manual de instruções.
        É assim nas produções mais recentes de Marcelo Lordello ("Eles Voltam"), Gabriel Mascaro ("Doméstica") e Daniel Aragão ("Boa Sorte, Meu Amor").
        "Assim como a geração anterior, de Claudio Assis, há um sistema de 'brodagem' que é muito característico da cena do Recife", explica Paulo Cunha. O termo usado pelo professor da UFPE abarca não só a amizade que une o grupo fora dos sets mas também as frequentes parcerias de produção entre os cineastas locais. "Eles se frequentam, fazem projetos comuns e compartilham influências."
        "Esses diretores fazem filmes de significação nacional pela via da urbanidade. E são os únicos da cinematografia atual brasileira que enfrentam problemas sociais, de luta de classes. Isso é absolutamente marcante no que chamo de cinema recifense, e não mais pernambucano", explica o crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet.
        COTIDIANO
        A câmera de "O Som ao Redor" explora a intimidade dos personagens e coloca o espectador nos olhos de um intruso oculto que contempla crônicas do cotidiano -exemplo de uma estética assumidamente realista que Kleber Mendonça Filho apelidou de "lógica da vida". Com isso, obteve uma obra de alcance universal. "Alguns dos eventos que ocorrem entre quatro paredes poderiam ser episódios de uma novela global da banalidade doméstica em Cingapura, San Francisco, Cidade do Cabo ou Dubai", escreveu o crítico A.O. Scott no jornal "The New York Times", que elegeu o filme como um dos dez melhores do ano passado.
        Com a trama segmentada em vários núcleos, repartidos em diferentes espaços confinados, apenas o som tem livre circulação. Elementos sonoros contribuem não só para a composição do ambiente e para sublinhar situações -ocupando o espaço convencionalmente dado à música, usada no filme com parcimônia. Aqui, o som ao redor, é,principalmente, um detonador de ações no roteiro. Como o cachorro da casa vizinha à de Beatriz, a personagem de Maeve Jinkings, que passa madrugadas em claro na copa do apartamento em que, fora das telas, moram Kleber e Emilie. O local ainda guarda cicatrizes dos dias em que "O Som ao Redor" foi rodado: nas paredes decoradas com pôsteres de "Barry Lyndon", de Stanley Kubrick, e de "É Tudo Verdade", de Orson Welles, remendos apontam para onde, durante a filmagem, foram fixadas estruturas de iluminação do set.
        Mais do que servir de cenário, porém, o lar do casal resume e evidencia o embate entre as ideias do autor e o painel urbano e social retratado no filme.
        Para passar do corredor do prédio ao apartamento em si, é necessário destrancar dois portões, duas grades de ferro e uma porta. Ao abrir a última fechadura, que dá acesso à sala, de onde se ouvem as vassouras de piaçava na calçada e a construção do prédio na esquina, Kleber Mendonça fecha a porta, mas esquece o molho de chaves do lado de fora.

          sexta-feira, 9 de novembro de 2012

          Meu objetivo aqui é criar uma política de Estado para a cultura


          ENTREVISTA MARTA SUPLICY
          Meu objetivo aqui é criar uma política de Estado para a cultura
          Ministra aponta como prioridades de sua administração a revisão dos mecanismos de incentivo fiscal e da lei de direito autoral
          DOS ENVIADOS A BRASÍLIAAo longo de uma hora de entrevista concedida à Folha, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, se posicionou pela primeira vez sobre alguns de seus principais desafios à frente da pasta.
          Ela afirmou que avalia a possibilidade de criar um órgão de fiscalização para o Ecad (escritório que arrecada e distribui direitos autorais) e de retirar da alçada da Fundação Biblioteca Nacional as políticas públicas de livro e leitura -mudança feita na gestão de sua antecessora, Ana de Hollanda.
          Veja abaixo os principais trechos da entrevista.
          (FERNANDA MENA E MATHEUS MAGENTA)
          -
          Folha - Quais serão as prioridades de sua gestão?
          Marta Suplicy - Eu não tenho que marcar a minha gestão, mas sim a do governo Dilma. Eu vim para a pasta com o objetivo de criar uma política de Estado. Entre as prioridades estão aprovar as novas leis de incentivo fiscal [ProCultura] e de direitos autorais [no Congresso], além de aumentar a inclusão social via cultura.
          A sra. está satisfeita com o orçamento da pasta de R$ 2,9 bilhões, motivo de reclamação de sua antecessora? É preciso aumentar recursos?
          Nenhum gestor nunca pode estar satisfeito com o que ele tem para trabalhar. Você sempre quer mais. Houve um aumento de 63% do orçamento, mas é dinheiro carimbado [para a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e para o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Então, dizer que teve um aumento de orçamento que vai viabilizar muita coisa nova é difícil.
          O prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), propõe a vinculação de verbas para a pasta da Cultura em São Paulo. Qual é a sua opinião sobre esse tipo de mecanismo?
          A tendência sempre é você engessar porque, para o gestor de um ministério, tornar obrigatório o investimento dá a certeza de que haverá recursos. A postura de quem está com a gestão total é de não engessar. Não serei eu a proponente disso à presidenta Dilma [Rousseff]. Acharia ótimo que fosse engessado, mas preciso fazer esse ministério acontecer com o dinheiro que tenho.
          O Fundo Social criado em 2010 para ser abastecido com recursos oriundos da exploração do pré-sal no país é alvo de disputa por diversas pastas do governo, como o Ministério da Educação. A Cultura está perdendo essa briga?
          Há tantas questões aqui para resolver... já estou até dando aula em algumas áreas, mas não tive tempo ainda de ver todas as questões do Congresso. Ainda não tem um ponto final. A Cultura ainda não se manifestou sobre essa briga.
          Seus antecessores, Gilberto Gil e Juca Ferreira, eram contra a manutenção de 100% de renúncia fiscal na reforma da Lei Rouanet. Queriam forçar as empresas a tirar dinheiro do bolso para os projetos. O que a sra. pensa sobre isso?
          Eu penso como eles. Por isso acredito que a solução à qual o Pedro Eugênio [deputado federal do PT-PE e um dos relatores da reforma da Lei Rouanet, em tramitação na Câmara] chegou foi a mais habilidosa. Ele está propondo que, para atingir os 100%, será preciso cumprir uma série de contrapartidas. Sempre preferiria o limite de 80%, mas não tenho a caneta na mão. Não dá para ter tudo no mundo.
          Com a reforma da Lei Rouanet, a sra. teme a migração de recursos para outras áreas, como o Esporte?
          Não tenho nenhum temor disso. Quem quer fazer uma marca com a cultura tem um perfil diferente de quem quer fazer isso com o esporte.
          Uma das primeiras medidas da sua gestão foi anunciar editais para criadores e produtores afrodescendentes. Cotas raciais, e não sociais, não promovem a discriminação?
          Não, de jeito nenhum. Sou absolutamente a favor das cotas raciais. Quando dizem que é racismo, não me incomoda e nem nunca me incomodou quando eu lutava pelos direitos das mulheres e dos gays.
          O relatório da CPI do Ecad no Senado, concluída neste ano, propôs a criação de um órgão federal para fiscalizar a atuação da instituição que arrecada e distribui direitos autorais. A sua antecessora era contra essa fiscalização. Qual é sua posição?
          Conversei com muitos setores da sociedade. A minha percepção é a de que o Ecad é um órgão que precisa existir e que tem uma autonomia que precisa ser preservada. Eles dizem que têm absoluta transparência. Ouvi o outro lado, que não está satisfeito com essa transparência. Então, estamos analisando a possibilidade de tornar o órgão mais transparente.
          Sem a necessidade de um órgão externo de fiscalização?
          Não, [a solução] pode ser [incrementar] a transparência com um órgão externo. Isso existe em todos os países do mundo e não muda absolutamente nada em relação à autonomia e à independência do órgão -e ainda responde ao clamor da sociedade.
          A Fundação Biblioteca Nacional concentrou, nos últimos anos, as políticas públicas de livro e leitura, ao mesmo tempo em que enfrentou problemas como vazamentos e deterioração do prédio da instituição, no Rio. Seria ela a instância adequada para a política do livro e da leitura?
          Não acho que seja. Estou estudando porque foi feito desse jeito e como ficaria se eu trouxesse a política do livro para Brasília. Ainda não tomei uma decisão sobre isso.
          Por que motivo Ana Paula Santana foi demitida da chefia da Secretaria do Audiovisual do ministério?
          Não tenho nada contra ela, mas eu queria um outro perfil para a secretaria. Ainda não decidi quem irá substitui-la.
          Diante da sua força política, a senhora cogita concorrer ao governo de São Paulo em 2014?
          Eu não sou candidata.