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domingo, 30 de junho de 2013

O PT não vai perder o bonde, diz Haddad

folha dse são paulo
ENTREVISTA
Para prefeito, partido é a maior máquina popular do país; mas ele afirma entender quem "teme pelo pior"
MÔNICA BERGAMOCOLUNISTA DA FOLHAEDUARDO GERAQUEDE SÃO PAULOUma semana depois de anunciar que baixaria as tarifas de ônibus na cidade, o prefeito Fernando Haddad recebeu a Folha em seu gabinete para um balanço.
Disse que a prefeitura está "insolvente" e que seu problema agora é fechar as contas até dezembro. Afirmou que não pode "desperdiçar" a energia das ruas e que pretende, se necessário, "comprar briga" com os usuários de carro para melhorar o transporte público.
Para Haddad, que é professor de ciência política, ainda não está clara a agenda das manifestações que tomaram conta do país. Tanto podem ser "progressistas" quanto "desaguar em retrocessos". Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Folha - O senhor foi insensível e tratou como técnico um problema que era político, inclusive demorando para receber os manifestantes?
Fernando Haddad - Discordo. Os fatos não são esses. Nas duas primeiras manifestações aqui na Prefeitura, nós tínhamos uma comissão para receber aqueles jovens [do Movimento Passe Livre]. E eles disseram que não havia o que negociar. Era baixar ou baixar [a tarifa de ônibus]. Os jornalistas registraram a recusa [de diálogo]. E escreveram inclusive que eu não deveria negociar com vândalos. Fui criticado por abrir diálogo com aqueles que eram considerados vândalos. E que hoje são festejados pela mesma imprensa que os acusou.
E o que diria a eles?
Eu queria explicar que a tarifa estava defasada há dois anos e que toda a região metropolitana tinha feito o reajuste, em janeiro, para R$ 3,30. E que em SP ele seria menor do que a inflação. Mas só houve o pedido de diálogo [dos manifestantes] no dia em que eu e o governador Geraldo Alckmin estávamos em Paris, por causa da Expo 2020. O município e o Estado foram pegos no contrapé por atenderem ao pedido do governo federal para não dar o aumento antes, aguardando as desonerações. E ficaram isoladamente como aqueles que estavam aumentando.
Por que relutou tanto em baixar a tarifa?
Porque isso vai ter consequências de médio e longo prazo imprevisíveis. Não estamos falando só de 2013.
Será impossível um aumento em 2014?
Não vou nem discutir esse tema. Tenho que fechar as contas de 2013. Meu longo prazo é dezembro.
A prefeitura quebrou?
Você quer uma palavra [rindo]... A posição da prefeitura é de insolvente.
São R$ 200 milhões para cobrir a baixa da tarifa em 2013?
Que nós não tínhamos. Mas tem uma boa notícia: o sucesso do programa de parcelamento do governo estadual, que aumenta o repasse do ICMS para o município na ordem de R$ 276 milhões. A repactuação da dívida com a União, no Congresso, se tornou premente. SP é hoje a cidade mais debilitada do país em função da dívida e dos precatórios, questão em aberto [no STF], com repercussões desastrosas sobre as finanças municipais.
E para investir?
Temos cerca de R$ 3 bilhões. Que para SP não é nada. Precisaríamos de R$ 6 [bilhões] para chegar em um patamar mínimo. Por isso fiz questão de deixar claro as consequências desse gesto [de baixar a tarifa]. Em termos per capita, SP investe menos da metade do Rio. Os contratos de terceirização tiveram aumento vertiginoso, muito acima da inflação nos últimos três anos. Fizemos um enorme esforço e conseguimos economizar R$ 500 milhões. Para fechar a conta.
E quando decidiu baixar?
Foram três fatores. A decisão da prefeitura do Rio, que estava com uma mega manifestação prevista para o dia seguinte, a decisão do governo [de não votar novas desonerações] e relatos sobre a segurança pública [em SP]. Não havia resposta das forças de segurança em relação aos saques e depredações. Diante das circunstâncias e dos riscos para a população, eu tomei a decisão. Para mim, o mais importante é que não terei falseado para a população as consequências. Nunca faltei com a verdade nem soneguei informação. Eu vou para onde me convidarem, rádio, televisão. É claro que, quando você convoca manifestação, aparecem 50 mil. Quando fala "vamos discutir", 40 mil somem.
Sempre se discute desonerações. Mas pouco se fala das empresas. Elas lucram muito? São máfias, cartéis?
Se há uma coisa que eu não temo é a abertura de qualquer dado ou documento sobre isso. Nós cancelamos a licitação [para renovar os contratos com as companhias de ônibus, por 15 anos e R$ 46 bilhões]. Entendemos que eles vão superar três, quatro administrações. Neste contexto, não podem ser feitos sem muita participação.
Mas iam ser feitos caso não houvesse passeatas.
Eles estavam em consulta pública. O contexto mudou. Ninguém pediu para... Ninguém participa dessas coisas. Fizemos reunião com milhares de pessoas nas 31 subprefeituras para discutir um programa de metas. Das 9.000 propostas que recebemos, três referem-se ao preço da passagem. Três! E nenhuma pedia o passe livre.
Essa é uma pauta de estudantes de classe média?
Do meu ponto de vista, uma pauta de todos é a da qualidade. Por isso que o edital [para a renovação dos contratos com as empresas] alterava regras como o pagamento por passageiro. Hoje, não importa se o ônibus carrega 50 ou 150 pessoas. E muitas vezes o empresário prefere pagar multa do que botar o ônibus para circular.
Mas o cancelamento só ocorreu depois das manifestações.
Mas é evidente que tenho que usar isso. Não posso desperdiçar a energia das ruas. Agora, assumi em janeiro, com contratos vencendo. Se não faço a licitação, sou acusado de forçar um contrato de emergência [sem concorrência] e favorecer empresário. Se faço, sou açodado. Você não escapa. Hoje vocês publicam notícia de que a CPI [da Câmara, que investigará o sistema de transporte] é governista. Ela não é governista nem deixa de ser. Todos os partidos têm o direito de participar. E ainda, desculpa, têm o disparate de dizer que são ínfimas as chances de [a CPI] me atingir. Como assim? Qual é a acusação?
A CPI vai ser transparente?
É problema da Câmara. A minha administração vai ser. Considero quase um desrespeito dizer "são ínfimas as chances..." Estamos chegando, abrindo números, discutindo com a sociedade. Do que estamos falando, afinal?
Com a criação das faixas para ônibus, pode haver conflito com os usuários de carro.
A faixa exclusiva é uma decisão política, é comprar briga [com carro]. Uma decisão difícil de ser tomada. Tanto é que ninguém tomou. Estou cumprindo exatamente o meu programa de governo. Porque agora também virou pecado cumprir compromisso de campanha.
E o pedágio urbano?
Não simpatizo. Operacionalmente, é complexo. A chance de injustiça é grande. O transporte como um todo financiar o transporte público me parece mais engenhoso. É até paradigmático, até como política pública tipo exportação. Padrão Fifa, como se diz.
O plano de implantação do bilhete único foi afetado?
Nós temos aí o desafio de fazer essa transição na ponta do dedo. Você gerou uma instabilidade em um sistema que é muito frágil, muito delicado. Tem insegurança.
Não há uma certa letargia do poder público, que foi chacoalhada pelas passeatas?
Sinceramente, a energia da rua é boa, se bem canalizada, bem utilizada. Mas a administração pública tem que cumprir o seu dever com ou sem passeata. Estávamos cumprindo sem, e vamos continuar cumprindo com. O corte do meio bilhão de reais em contratos não dependeu de passeata para ser feito.
O PT está perdendo o bonde dos movimentos sociais?
Não tem hipótese. O PT é a maior e mais eficiente máquina de organização popular já criada no país. Quem não quiser ver isso vai se surpreender. Em nenhum tempo houve isso. E isso não vai se perder. O PT é um patrimônio da democracia. Nasceu da base, do cortador de cana, do metalúrgico. Agora, outros movimentos surgirão.
A inflação pode estar levando as pessoas para as ruas?
A conjuntura pode afetar. O PT tem entre 25 e 30% de preferência partidária. Se nós somarmos com outras legendas, chega a 50% do eleitorado. Ou seja, tem um povo aí que talvez não esteja conseguindo fazer sua voz chegar nesses canais institucionais. Tem um povo apartidário na rua, e curiosamente é de esquerda e de direita.
O país não tem tradição de manifestações.
Em Caracas [Venezuela], em Buenos Aires [Argentina], Santa Cruz de La Sierra [Bolívia], em Quito [Equador] é normal ter manifestação. E aqui, não. Parece que agora você vai ter uma democracia de pessoas querendo se manifestar. Contra a intolerância, o preconceito, a Copa, as tarifas. Também nos países ricos o povo não sai da rua, até com pautas conservadoras, contra a união civil de pessoas do mesmo sexo. Não precisa estar em crise. A pergunta que cabia era: por que o Brasil é o único país do mundo que não se manifesta?
Talvez por isso tanto susto.
Tem uma disputa. E tem gente que, conhecendo o perfil conservador da sociedade brasileira, teme pelo pior.
E o senhor?
Não. As bandeiras conservadoras já vinham se expressando no Brasil, sobretudo nas eleições. E agora elas ganharam expressão fora do período eleitoral, o que é uma novidade. Nas manifestações das Diretas Já [em 1984] ou pelo impeachment [de Fernando Collor, em 1992], você tinha uma pauta homogênea e progressista.
E agora?
E eu diria que isso não está definido em relação, hoje, à agenda da rua. Se ela é progressista. Ou se revelará contradições e tensões que podem desaguar em retrocessos. É uma preocupação razoável de pensadores que têm distanciamento para analisar. O Brasil vai ser um país mais provinciano, mais atrasado, mais conservador, fechado? Ou é uma energia que vai ajudá-lo a se abrir mais? A sociedade abriu a discussão. E, quando isso ocorre, você não sabe o fim da história. Não tem segurança sobre o fim do processo.
E o ex-presidente Lula?
Lula é muito diferenciado. Ele se sente sempre estimulado por esse tipo de ebulição. Não se deixa acuar.

RAIO-X FERNANDO HADDAD
IDADE:50
FORMAÇÃO: Direito (USP)
CARGOS: Ex-ministro da Educação e prof. da USP

    sábado, 13 de abril de 2013

    Sem caixa, prefeitos apostam em cortes e ações midiáticas

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Ao completarem cem dias, novos gestores enfrentam crises financeiras
    Em São Paulo, dívida compromete projetos; Curitiba, Salvador, Manaus e Recife vivem situação semelhante
    THIAGO GUIMARÃESCOORDENADOR-ADJUNTO DA AGÊNCIA FOLHAEDUARDO GERAQUEDE SÃO PAULOAo completaram cem dias de governo, os novos prefeitos de capitais brasileiras têm um ponto em comum: enfrentam sérias crises financeiras.
    Sem dinheiros em caixa para grandes obras e projetos, São Paulo, Curitiba, Manaus, Recife e Salvador têm apostado no cardápio de cortes de gastos e de ações de apelo midiático, em busca pela imagem do prefeito de "pé na rua" e "guardião" da ordem pública.
    Na capital paulista, a situação da dívida é tão grave que o petista Fernando Haddad tem afirmado a aliados que, sem uma renegociação, não conseguirá cumprir algumas das principais metas.
    No ritmo em que o saldo devedor cresce atualmente, chegará a R$ 160 bilhões em 2030; hoje, o valor é de R$ 60 bilhões.
    Por isso, Haddad tem mantido reuniões constantes com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, buscando negociar uma redução no indexador atual.
    TARIFA DE ÔNIBUS
    Eleito com apoio do PT, Gustavo Fruet (PDT) emula o petismo na promoção de audiências públicas e na crítica à "herança maldita" deixada pela gestão anterior na Prefeitura de Curitiba.
    Das aguardadas mudanças no transporte público, por ora só o aumento da tarifa.
    Quem também teve que ceder ao reajuste do ônibus --e aos primeiros protestos de estudantes-- foi Arthur Virgílio (PSDB), em Manaus.
    Ex-algoz do governo Lula no Congresso Nacional, o tucano elegeu a concessionária de água como inimigo número 1 e se vestiu de gari em ação de limpeza.
    Em Recife, Geraldo Júlio (PSB) investe na "faxina geral" na cidade e foi acompanhar um recapeamento de avenida às 22h --até aliados viram exagero.
    Já colocou publicidade na rua, com uma campanha para aumentar a autoestima da população, e reforça o elo com o governador e padrinho político Eduardo Campos (PSB), potencial candidato à Presidência no ano que vem.
    PRAGMATISMO
    Como na capital de Pernambuco, ACM Neto (DEM) baixou em Salvador o tom das críticas ao PT, partido do governador da Bahia, e promove até mutirões de cadastro no programa Bolsa Família, bandeira social petista.
    Pragmatismo que reflete a situação dos prefeitos: sem dinheiro, é melhor descer do palanque e não rejeitar ajuda de ninguém.

      Metas de Haddad para SP dependem de redução de dívida
      Prefeito negocia a mudança do índice que reajusta o valor devido pelo município, mas precisa de aval do Congresso
      Principal objetivo é "limpar" o nome da prefeitura e recuperar a capacidade de pedir novos empréstimos
      EDUARDO GERAQUEDE SÃO PAULOO poço sem fundo da dívida de São Paulo tem tirado o sono do prefeito Fernando Haddad (PT), a ponto de ele dizer a aliados que não conseguirá cumprir algumas de suas principais metas caso ela não seja renegociada.
      A capital deve hoje por volta de R$ 60 bilhões. O gasto anual com a dívida é quase R$ 5 bilhões, o que representa a terceira maior conta do município, atrás apenas de saúde e de educação.
      No ritmo com que o saldo devedor cresce (veja quadro), a administração que estiver no comando da cidade em 2030 terá uma conta de R$ 160 bilhões para pagar.
      É por causa deste número que Haddad tem se reunido a cada 15 dias com o ministro Guido Mantega (Fazenda).
      A prefeitura quer trocar do índice de reajuste da dívida. Em vez do indexador atual (IGP-DI), a ideia é aplicar o IPCA ou a Taxa Selic, que possuem índices menores.
      Se aplicada para com efeito retroativo, a troca pode reduzir, de imediato, o saldo em 30%. Mas, para isso, o Congresso Nacional precisa aprovar um projeto de lei, que interessa a outras capitais endividadas, já em tramitação.
      "Ele deve ser aprovado até junho", afirmou Haddad durante a semana.
      A redução é fundamental para que São Paulo possa contrair novos empréstimos e tirar do papel os planos do prefeito. Hoje, a dívida equivale a quase 200% da receita líquida da cidade. Por lei, para ter acesso a novos empréstimos, esta relação não pode ser maior do que 120%.
      REFINANCIAMENTO
      A troca do indexador, portanto, deve "limpar" o nome de São Paulo.
      Outra estratégia em curso é tentar convencer o governo federal a incluir a cidade no PAF (Programa de Ajuste Fiscal), hoje destinado apenas ao refinanciamento das dívidas dos governos estaduais.

        Propostas visam aliviar o caixa dos municípios
        NATUZA NERYDE BRASÍLIAEnquanto o Ministério da Fazenda se empenha para resolver o problema do endividamento da Prefeitura de São Paulo, o Congresso tem uma alternativa que alivia o caixa de todos os municípios e Estados --mas com impacto bilionário no Tesouro Nacional.
        Trata-se de uma alteração no projeto de lei do Executivo que muda o indexador da dívida. A mudança, incluída pelo relator da proposta, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), reduziria, de 13% para 9%, a parcela das receitas de Estados e municípios que deve ser destinada ao pagamento da dívida com a União.
        Para viabilizar essa redução, os gastos das prefeituras e Estados com educação e saúde seriam excluídos do cálculo total, enxugando os valores pagos mensalmente.
        Segundo o deputado, isso teria um impacto de R$ 15 bilhões nos cofres federais. "A contrapartida é investir essa diferença em infraestrutura", diz. "Serão R$ 15 bilhões injetados na economia."
        O relator já rodou o Brasil angariando apoio, principalmente de governadores e prefeitos do Sudeste. Manteve conversas com Fernando Haddad, Sérgio Cabral (Rio) e Eduardo Campos (PE).
        Já uma proposta do ministro Guido Mantega (Fazenda) flexibiliza os limites de endividamento para as capitais.
        A ideia é usar o PAF (Programa de Ajuste Fiscal) para permitir que municípios contratem mais empréstimos para investir, como já é feito para a União e os Estados. A proposta ainda deve ser encaminhada ao Congresso.


          FOCO
          Prefeito do Rio mira vans e lixo na rua, mas gera dúvidas
          DO RIODuas medidas tomadas na última semana pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), causaram estranhamento pelo "timing" da divulgação e pela dificuldade de implementação, segundo especialistas.
          A proibição da circulação de vans na zona sul da cidade não veio acompanhada de explicação sobre como será atendida a grande quantidade de passageiros que utiliza o transporte alternativo diariamente e que, em tese, migrará para metrô e ônibus.
          "O prefeito não está levando em conta as 100 mil pessoas que utilizam as vans diariamente na zona sul e que vão migrar para o metrô e o ônibus, ambos sucateados", afirmou o diretor jurídico do Sindicato das Vans do Rio de Janeiro, Guilherme Piserra.
          "A medida é autoritária e difícil de ser posta em prática", completou. O sindicato promete entrar com mandado de segurança para impedir a proibição.
          No último dia 5, o prefeito decretou ainda a proibição do uso de película escura nos vidros das vans como forma de garantir maior segurança.
          A medida foi tomada em reação ao estupro de uma turista estrangeira dentro de uma van irregular no final do mês passado.
          A decisão de aplicar multas sobre quem jogar lixo na rua também causou incômodo. Há dúvidas sobre como o município irá fiscalizar o cumprimento da medida pela população.
          A ideia é que trios de agentes públicos --integrados por um guarda municipal, um policial militar e um funcionário da Comlurb-- circulem pela cidade multando quem jogar lixo no chão.
          As multas serão registradas no CPF do infrator e irão de R$ 157 a R$ 3.000, dependendo da quantidade do lixo descartado. Há críticas com relação à falta de campanhas de conscientização e ao número de lixeiras disponíveis.

            quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

            Contra enchente, Haddad mira lixo na rua

            FOLHA DE SÃO PAULO

            Prefeito de São Paulo anuncia pacote de medidas emergenciais para evitar transtornos causados pelas chuvas
            Medidas vão de limpeza mais frequente de bocas de lobo à colocação de contêineres em locais de comércio popular
            Moacyr lopes Junior/Folhapress
            Fernando Haddad entre Chico Macena (à esq.), secretário das subprefeituras, e Gustavo Vidigal, chefe de gabinete
            Fernando Haddad entre Chico Macena (à esq.), secretário das subprefeituras, e Gustavo Vidigal, chefe de gabinete
            EVANDRO SPINELLIEDUARDO GERAQUEDE SÃO PAULOO pacote de medidas emergenciais do novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), para o período de chuvas inclui limpeza intensiva de bocas de lobo em locais de alagamentos recorrentes e controle do lixo depositado irregularmente nas ruas.
            Haddad se reuniu ontem à tarde com os secretários e assessores das áreas envolvidas para tratar do assunto. Foi definido um conjunto de 16 medidas emergenciais, todas de baixo custo, segundo ele.
            São Paulo tem 132 pontos de alagamentos recorrentes, de acordo com Haddad. Nesses locais, as bocas de lobo e os ramais de águas subterrâneas terão de ser limpos a cada 15 dias. Até então, a limpeza era obrigatória apenas a cada dois meses.
            Além disso, as secretarias das Subprefeituras e de Serviços terão de coordenar os trabalhos para garantir que a limpeza seja simultânea.
            As bocas de lobo são limpas pelas empresas que cuidam também da varrição da cidade, cujo contrato é administrado pela Secretaria de Serviços. A limpeza dos ramais é de responsabilidade das subprefeituras.
            "Não havia coordenação dos trabalhos. A primeira medida é coordenar os trabalhos, sobretudo nessa época", disse Haddad.
            Por outro lado, para evitar o entupimento de ramais e bocas de lobo, Haddad vai pedir às empresas de limpeza que instalem contêineres nas áreas de comércio popular -citou como exemplos Bom Retiro, Brás, Pari e ruas Santa Ifigênia e 25 de Março.
            Assim, as empresas jogariam o lixo direto nos contêineres, facilitando o recolhimento ou reciclagem.
            "O lixo é, muitas vezes, depositado nas calçadas e nas ruas à espera dos catadores. Muitas vezes, com as chuvas, não há tempo suficiente para as empresas coletarem esse lixo ou os catadores recolherem para reciclagem", disse o prefeito.
            Haddad também determinou a instalação de mais contêineres nos ecopontos -locais da prefeitura onde os moradores podem jogar entulho- e o monitoramento diá-rio dos chamados pontos viciados, onde a população joga lixo irregularmente.
            ÁREAS DE RISCO
            Haddad disse que vai procurar o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para firmar um contrato para o monitoramento diário das 93 áreas de alto risco da cidade, onde vivem 98 mil pessoas, durante o período de chuvas.
            Segundo o prefeito, a proposta foi feita pelo próprio IPT, um ano e meio atrás, quando foi entregue o mapea-mento de todas as áreas de risco. O custo previsto é de R$ 400 mil por mês apenas no período de chuvas.
            Também será feita uma reorganização da Defesa Civil nas 31 subprefeituras.

              FRASE
              "Não havia coordenação dos trabalhos. A primeira medida é coordenar os trabalhos, sobretudo nessa época, para que não haja retrabalho e para que seja mais eficaz a limpeza, para que a drenagem possa fluir naturalmente"
              FERNANDO HADDAD (PT)
              prefeito de São Paulo

              terça-feira, 11 de dezembro de 2012

              SP tem 98 mil vivendo em área de alto risco


              Folha de São Paulo
              Temporada de fortes chuvas começa com moradores em locais com grande ameaça de deslizamento ou desmoronamento 
              Número é 15% menor que o de 2011; somados todos os graus de risco, quantidade de ameaçados chega a 519 mil pessoas
              Silva Junior/Folhapress
              Vista do bairro Jova Rural, na região do Tremembé, zona norte de São Paulo; prefeitura considera área como de alto risco
              Vista do bairro Jova Rural, na região do Tremembé, zona norte de São Paulo; prefeitura considera área como de alto risco
              EDUARDO GERAQUEDE SÃO PAULOA cidade de São Paulo entra na época dos fortes temporais de verão -que devem ocorrer até março- com 98 mil pessoas morando em áreas com alto risco de desabamento ou deslizamento.
              O grande contingente de pessoas em loteamentos precários ou favelas está espalhado por todas as regiões, segundo mapeamento feito pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e divulgado pela prefeitura em 2011.
              A maior concentração está na zona sul. No total, somados todos os graus de risco, há 519 mil pessoas vivendo em áreas da capital com alguma ameaça de deslizamento ou desmoronamento.
              Apesar de a gestão Gilberto Kassab (PSD) anunciar ter feito investimentos de R$ 38 milhões no ano passado para remover famílias e concluir obras de redução do risco, apenas 15% da população que vivia em áreas problemáticas saiu dessa situação.
              No ano passado, 115 mil pessoas viviam em áreas sob alto risco de tragédia em razão de chuvas fortes.
              "A situação ainda é bastante precária, mas o fato de a população em áreas de risco estar diminuindo é relevante", afirma Renato Cymbalista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
              Segundo ele, nas décadas de 1980 e 1990, o número [de moradores de áreas de risco na capital] só aumentava.
              Antes do mapeamento divulgado no ano passado, o último levantamento confiável da situação de áreas críticas na capital era de 2003.
              O mapeamento de 2011, encomendado pela prefeitura, considera apenas as áreas de risco geológico. Não leva em conta, por exemplo, ruas que podem sofrer só enchentes.
              Na época, os técnicos do IPT apontaram a necessidade de desocupar imediatamente 1.132 moradias com "risco iminente de cair", mas o poder público demorou seis meses para executar a ação.
              Segundo especialistas -e o próprio Kassab-, as áreas de risco ocupadas vão compor a paisagem urbana pelo menos até 2025. As projeções, entretanto, levam em consideração só números oficiais.
              Como na cidade existem cerca de 1.600 favelas e nem metade chegou a ser completamente esmiuçada pelo estudo do IPT, o problema pode se arrastar por várias décadas, segundo os técnicos.
              "Nós avaliamos as áreas realmente mais problemáticas", afirma Luciana Santos, geóloga da prefeitura e conhecedora das áreas de risco. "Não devemos ter surpresas em locais não estudados."


              pROGRAMA
              Urbanização de favelas fica abaixo da meta
              A gestão Gilberto Kassab (PSD) não cumpriu a meta de atender 332 mil pessoas em seu programa de urbanização de favelas, que ajuda a reduzir as áreas de risco. Em seis anos no cargo, cumpriu 77% do previsto. A prefeitura diz que cumpriu 92%, pois leva em consideração projetos -mesmo que não tenham sido licitados- e obras em andamento. Nas grandes favelas, como Heliópolis (sul), muitas obras não estão 100% prontas.