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domingo, 18 de agosto de 2013

'Brasil gastou sua poupança na Disney' Paulo Leme

folha de são paulo
'Brasil gastou sua poupança na Disney'
Paulo Leme diz que modelo baseado no consumo levou a deficit externo e a inflação e que correção está a caminho
Para economista, que comanda o Goldman Sachs no Brasil, país ficou mais vulnerável a guinadas no exterior
ÉRICA FRAGAMARIANA CARNEIRODE SÃO PAULOO Brasil tem um encontro marcado com o ajuste, afirma o economista Paulo Leme, 58.
No comando do banco de investimento americano Goldman Sachs no Brasil, o executivo prevê que vai chegar a conta do deficit nas contas externas --produzido pelo consumo interno turbinado.
Conhecedor da economia (e da política) brasileira, Leme afirma, contudo, que o processo será detonado pela mudança nos EUA e após as eleições no Brasil. Até aqui, diz ele, foi só o ensaio.
Folha - Qual sua expectativa para a economia brasileira?
Paulo Leme - Acho que o crescimento deve estar muito próximo a 2%. E, infelizmente, em razão de baixos investimentos e da queda na produtividade, o crescimento sustentável de longo prazo está próximo a 3%, provavelmente abaixo disso, o que é bem menos do que eu esperava há um ano.
O que é longo prazo?
De 3 a 10 anos. A economia mundial tem demorado mais a se recuperar, e a perspectiva de preço de commodities não é favorável.
Internamente, houve uma mudança na política econômica com a adoção de um modelo centrado na expansão da demanda doméstica.
Mas a oferta não está se expandindo. Então, esse aumento do consumo tem levado a um excesso de demanda por bens importados, o que provoca um aumento do deficit em conta-corrente e da inflação.
Qual a contribuição da política fiscal para a inflação?
A política fiscal está muito expansionista, o que aumenta a inflação e contribui para o deficit em conta-corrente. Em vez de gastar com hospitais, escolas, transporte público, o governo está gastando em salários, aposentadorias.
Esse modelo está levando a uma despoupança doméstica, que está sendo financiada por investidores estrangeiros.
Se você toma empréstimos no exterior ou atrai investimento direto estrangeiro e, com isso, investe em indústrias ou atividades que geram receitas em dólares no futuro, o pagamento dos juros dessa dívida está garantido.
No nosso caso, não, os empréstimos foram queimados com turismo da Disneylândia, malas cheias de bens vindas de Nova York ou Miami. Essa conta vai chegar.
E o que acontecerá?
Quando tivermos que pagar esse serviço da dívida, não teremos a receita dos investimentos porque ela foi consumida. Você vai ter que desacelerar a economia, reduzir o consumo e os salários reais, que são fonte da inflação, e isso ocorre através do aumento do desemprego.
Por último, você tem que desvalorizar o real, tornar a economia mais competitiva. Creio que, em 12 meses, o câmbio estará perto de R$ 2,50 e, em dois anos, de R$ 2,75.
Ainda não estamos no ajuste?
Temos o início de um ajuste, mas é pior porque não vai ser completo. Os problemas de falta de crescimento são estruturais, queda de produtividade, perda da competitividade, falta de investimentos. Sem resolver esses problemas, quanto mais você estimula, é como um carro com o afogador quebrado.
O que deverá ocorrer com o crescimento após as eleições?
Para reduzir a inflação e fechar o deficit externo, a economia crescerá pouco, quase estagnada, sem recessão, mas com o desemprego subindo acima de 6%.
Depende do cenário no exterior, e você fica muito vulnerável a grandes guinadas externas. Já tivemos um ensaio em junho, quando houve uma rapidez na saída de capitais do Brasil. O câmbio se desvalorizou rapidamente.
Quando de fato o Fed (banco central americano) resolver subir a taxa de juros, o mercado já terá antecipado isso, o que poderá levar a uma queda dos investimentos ou da capacidade das empresas brasileiras, que estão endividadas em dólar, de rolar sua dívida externa.
O que detonou o pessimismo com o Brasil? Tem a ver com os protestos?
Tanto os investidores quanto a população expressaram, de maneiras diferentes, coisas parecidas, que têm a ver com a perda de conectividade entre a política e os anseios do investidor e da população.
Depois dos protestos, não é difícil concluir que o ajuste econômico ortodoxo não seria muito bem-vindo nas televisões às oito da noite. Então, claramente encoraja uma política de mais riscos.
O que são políticas de risco?
Dobrar a aposta, continuar a aumentar o gasto público. Parte dos pleitos são investimentos em transporte, educação, saúde. É correto. Mas você tem que fazer escolhas, alocar recursos em uma coisa em detrimento de outra. Baixar o preço do transporte terá consequência orçamentária, que vai acabar sendo paga com inflação, que é um imposto que todos pagam.
Alguns economistas dizem que há pouco espaço para cortes de gastos do governo.
Os gastos discricionários são mesmo uma parcela pequena. Mexer na parte estrutural de fato é extremamente difícil, mas não é impossível.
A gente decidiu aumentar a participação dos funcionários do setor público, que é muito onerosa. O salário mínimo tem uma consequência fiscal e sobre a inflação. São escolhas. Não temos feito as melhores escolhas.
A economia pode interferir na perspectiva de reeleição da presidente Dilma Rousseff?
Se a gente relacionar as manifestações populares ao baixo crescimento, mas especialmente à falta de correspondência entre a carga tributária e os serviços públicos, isso já mudou a perspectiva eleitoral, em que parecia altamente provável a reeleição da presidente para um cenário que pode ser o de uma eleição bastante competitiva.
Qualquer que seja o próximo governo terá um primeiro ano difícil?
Sim, pode ser um pequeno desafio ou pode ser problemático. Acho que não teremos nenhum problema na escala como tivemos, por exemplo, em 1999, em 2002 para 2003, simplesmente porque as condições iniciais hoje são muito mais favoráveis do que foram nesses momentos. Você tem muito mais reservas internacionais, você não tem dívida fiscal dolarizada. Agora, tudo depende da reação desse governo e do seu sucessor.
    RAIO-X PAULO LEME, 58
    ATUAÇÃO
    É chairman do Goldman Sachs Brasil. Antes, foi um dos responsáveis pela análise econômica para a América Latina do banco, em Nova York, e economista sênior no FMI (Fundo Monetário Internacional)
    FORMAÇÃO
    Graduado em engenharia elétrica pela UFRJ e mestre em economia pela Universidade de Chicago
      Preocupação do BC com a taxa de câmbio se acentuou em junho
      Número de intervenções para conter dólar disparou naquele mês
      Copom eleva cotação da moeda americana no cenário de referência em 10% em três meses; Selic deve voltar a 9%
      DE BRASÍLIA
      A mudança no ritmo de atuação do Banco Central no mercado de câmbio em junho foi um dos primeiros sinais concretos da preocupação do governo com a cotação do dólar e seus efeitos na inflação.
      Para atenuar a flutuação da moeda norte-americana, o BC atuou 25 vezes naquele mês. De janeiro a maio, foram apenas seis operações.
      Em julho, a preocupação foi descrita em detalhes na ata da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Os diretores do BC deixaram claro que a desvalorização do real causa uma forte pressão inflacionária no curto prazo e pode, se não for combatida, gerar mais inflação em 2014.
      O aumento da taxa básica de juros pode limitar os efeitos dessa desvalorização sobre os índices de preços, além de funcionar como uma espécie de atrativo para a entrada de dólares no país.
      Na reunião do mês passado, o Copom elevou a taxa Selic para 8,5% ao ano. Na próxima, no fim deste mês, a aposta é que ela chegue a 9% para tentar coibir repasses da desvalorização cambial para os preços.
      Entre as reuniões de maio e julho do Copom, os diretores do BC mudaram drasticamente a estimativa para a cotação da moeda americana usada em seus cálculos.
      Há três meses, o dólar usado no chamado cenário de referência do comitê estava em R$ 2,05. Em julho, esse valor subiu para R$ 2,25.
      ESTADOS
      Além da revisão das restrições à entrada de dólares no país e da elevação da Selic, alguns integrantes da equipe econômica consideram que a autorização dada pelo Tesouro Nacional para os Estados captarem recursos no exterior contribuiu para suavizar o impacto da alta do dólar.
      Mas essa opinião não é consensual. Dentro do próprio governo teme-se que uma alta ainda mais forte do dólar crie dificuldades financeiras para os governadores pagarem seus débitos.
      Uma das incógnitas que mais preocupam integrantes da equipe econômica é o que acontecerá com os juros dos papéis do Tesouro dos EUA.
      Esses títulos são considerados uma espécie de porto seguro pelos investidores.
      Mudanças na política do Fed (o BC dos EUA) podem elevar o rendimento dos papéis e, consequentemente, gerar uma onda de migração de recursos de mercados como o brasileiro para o americano, aumentando, assim, a escassez de dólares no Brasil.

      quarta-feira, 22 de maio de 2013

      Entrevista Rafael Lucchesi

      folha de são paulo

      Dá para exigir mais do nosso sistema educacional
      Economista sugere mudanças no ensino como forma de tirar indústria da crise; solução é mais rápida do que se pensa, diz
      MARIANA CARNEIRODE SÃO PAULOUm trabalhador brasileiro produz, em média, um quarto do que produz um alemão, operando máquinas de mesmo padrão tecnológico.
      A constatação, do economista Rafael Lucchesi, 48, diretor de Educação da CNI (Confederação Nacional da Indústria), mostra que devolver competitividade à indústria envolve mais esforços do que cortar impostos e aumentar o crédito para a compra de máquinas.
      Para ele, é preciso modificar o sistema de ensino e abrir espaço para a formação profissional. Agenda que, na sua avaliação, se tornou tão relevante quanto os programas sociais nos últimos anos.
      Folha - Economistas atribuem a crise da indústria à menor capacidade de concorrer com importados, resultado da perda de produtividade [medida de eficiência]. Quais são os motivos da baixa eficiência?
      Rafael Lucchesi - O diagnóstico está correto. Vários fatores interferem na produtividade, mas o principal deles é o capital humano. Nossa baixa produtividade é resultado direto do padrão educacional do país. Sondagens feitas pela CNI com empresários mostram que grande parte dos problemas é resultado de deficiências [dos funcionários] em raciocínio abstrato, matemática e domínio de línguas.
      Como isso se traduz em menor produtividade?
      Em uma indústria que trabalha em três turnos, por exemplo, o trabalhador não sabe redigir um relatório de turno. Não sabe ler o manual de operações e não interpreta corretamente um gráfico.
      Atualmente, com os processos digitais, se o trabalhador não tem capacidade de interpretação abstrata, ele tem problemas que vão se traduzir no seguinte: uma mesma máquina, com o mesmo padrão tecnológico, é muito mais bem operada por um sul-coreano.
      A produtividade do brasileiro é um terço da produtividade de um coreano, um quarto da de um alemão e um quinto da de um americano.
      Outra questão diz respeito à nossa matriz educacional. Cerca de 80% dos alunos não vão para a universidade. E o que o sistema educacional dá a esse indivíduo para ir ao mercado de trabalho? Uma má formação em português, em matemática e em ciência. Dá para exigir mais do nosso sistema educacional.
      O que seria exigir mais?
      Hoje no Brasil só 6,6% dos jovens de 15 a 19 anos fazem educação regular junto com educação profissional. Esse número na Alemanha está acima de 50%, a média da OCDE [grupo de países mais ricos] está acima de 40%.
      Ensino técnico é bom para a indústria...
      Para o país, você dá mais competitividade para a indústria. Para a juventude, você dá uma oportunidade de ingressar mais cedo no mercado de trabalho e ter uma profissão estável e que pode, inclusive, permitir uma ascensão profissional e a continuidade dos estudos.
      Dessa forma, a gente cria um modelo diferente do atual, em que temos uma pedagogia formada como se todo mundo fosse para a universidade. E não vai.
      Precisamos que a estrutura educacional se ajuste às necessidades da sociedade.
      O Brasil está experimentando uma transformação demográfica acelerada, a taxa de natalidade está caindo rapidamente. Parte dos nossos ganhos de produtividade estava associada ao ingresso de jovens no mercado de trabalho. Nosso sistema educacional perdia muita gente, mas em um país de jovens não era problema.
      Isso não vai voltar a acontecer com a mesma intensidade. Com a fila se escasseando, não podemos nos dar ao luxo de perder tanto. Então é importante que preparemos melhor quem vai ingressar no mercado de trabalho.
      Pode resolver o futuro. Mas a crise da indústria é presente.
      A velocidade [de mudança] é um pouco mais rápida do que se imagina. A diferença dos sistemas educacionais é como dois prédios. Na educação regular, você entra no primeiro andar, no ensino fundamental, e só tem uma profissão quando concluir a graduação, 17 andares acima.
      Na educação profissional, é diferente. Se você faz um curso de formação inicial, de 200 horas, pode ter resultado de melhor produtividade desde o primeiro curso, ou do primeiro andar desse prédio. Então, os resultados são mais rápidos e efetivos.
      Mas qual a proposta prática?
      Aumentar os cursos técnicos é um passo. O outro é destravar a educação regular.
      Nos últimos anos, o governo teve uma agenda importante dos programas sociais. A educação profissional cria uma agenda de cidadania, de formação de indivíduos e aumenta a produtividade da indústria. É a continuidade de uma agenda promotora do capital humano. Sobretudo para a juventude, pois permite a inserção produtiva e atende à necessidade de dar perspectiva para quem não vai para a universidade.
      Grande parte do abandono do estudo ocorre porque os jovens do ensino médio não veem relação entre o que estão aprendendo e a vida. Estão aprendendo física, química e o pai dando esporro porque é improdutivo em casa. Ele não vai para a universidade porque não tem grana para entrar em uma particular e não tem estudo para entrar numa pública. Então, o que ele vai fazer? Vai trabalhar de balconista, no lava-jato...
      A falta de inovação é outra lacuna da indústria e o esforço do governo e da CNI foi criar a Embrapii [Empresa de Pesquisa e Inovação Industrial]. Por que criar uma estatal?
      A Embrapii não é uma estatal, é um fundo que vai certificar instituições de pesquisa com pessoal qualificado, equipamentos e um plano de atendimento a empresas.
      Colocar recursos em pesquisa na universidade, acreditando que vai virar inovação... Toda a literatura diz que isso é ineficiente. Você melhora se o centro se desloca para o que a empresa precisa. Ela vai aportar recursos e não joga dinheiro fora.
      Se pegarmos os principais fatores para impulsionar a competitividade, não vamos ver grandes mudanças na orientação macroeconômica, nas relações do trabalho, no marco legal e jurídico.
      Em inovação e em educação é onde podemos responder a essa questão.

        RAIO-X - RAFAEL LUCCHESI
        Idade
        48 anos
        Formação
        Graduado em economia pela UFBA
        Atuação
        É diretor de Educação e Tecnologia da CNI. Antes, foi diretor de Operações da CNI e secretário de Ciência e Tecnologia da Bahia

          domingo, 5 de maio de 2013

          Ex-ministro da Fazenda se arrisca no cinema

          folha de são paulo

          Filme de Maílson da Nóbrega e Louise Sottomaior tem confissões de quem esteve no poder
          MARIANA CARNEIRODE SÃO PAULO"Nós não éramos ingênuos a ponto de acreditar que o Plano Verão pudesse ser uma solução definitiva [para a inflação]". A frase é de João Batista de Abreu, ex-ministro do Planejamento do governo José Sarney (1985-1989), sobre os fatos ocorridos no segundo semestre de 1988.
          Apesar de declarar publicamente que não recorreria a um novo congelamento de preços, o terceiro em dois anos, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega admite que mudou de ideia.
          "Em agosto de 1988, a inflação bateu 20% ao mês, chegamos à conclusão de que ela só iria acelerar e teríamos que recorrer a um novo plano", diz Maílson. "Em dezembro, ela chegou a 50% ao mês. Eu e João Batista não sabíamos mais o que fazer."
          As confissões integram o conjunto de declarações de ex-presidentes da República, ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central no documentário "O Brasil deu Certo, e Agora?", de autoria de Maílson e da jornalista Louise Sottomaior.
          O filme entrou em cartaz em Rio, São Paulo e Brasília neste final de semana. O documentário pincela a história econômica do Brasil desde 1500. Mas o interessante são as histórias e confissões de quem esteve no poder.
          "Bancos privados não são todos eficientes", comenta Pérsio Arida, hoje no BTG Pactual, sobre o resgate aos bancos, feito em 1995.
          Delfim Netto revela que o Brasil "não tinha saída" senão o aumento da dívida externa, que levou o Brasil à década perdida (anos 80).
          "Qual era a saída? Fazer racionamento de petróleo. O Brasil viraria Bangladesh e nunca mais se recuperaria."
          Notório crítico da gestão econômica do PT, Maílson não entrevistou Lula, Dilma, Guido Mantega nem Antonio Palocci. O único representante é Henrique Meirelles, que esteve no comando do BC durante o governo Lula.
          Maílson informa que tentou ouvi-los, mas eles não quiseram participar.
          "Não sou tucano, sou independente. O que acontece é que penso muito igual aos tucanos. Mas até mesmo entre eles há divergência."

            segunda-feira, 15 de abril de 2013

            Entrevista da 2ª Marcos Lisboa

            folha de são paulo

            Infraestrutura e burocracia chegaram ao limite no país
            UM DOS FORMULADORES DAS REFORMAS MICROECONÔMICAS DOS ANOS 2000, EX-SECRETÁRIO DO GOVERNO LULA DIZ QUE É PRECISO CRIAR ESTRUTURA PARA O BRASIL PROMOVER GRANDES OBRAS
            ÉRICA FRAGAMARIANA CARNEIRODE SÃO PAULOA falta de estradas decentes e complicações para importar e exportar não serão temas exclusivos de empresários. Vão virar agenda social.
            A previsão é do economista Marcos Lisboa, recém-saído do Itaú Unibanco, hoje no Insper. Um dos formuladores da "agenda positiva", ele diz que o lapso de infraestrutura chegou ao limite.
            "Talvez tenha chegado num nível tal que não dá mais, como a violência nos anos 90", diz ele, nesta entrevista à Folha.
            Em recente estudo com o economista Samuel Pessôa, colunista da Folha, Lisboa diz que reformas feitas nos anos 2000 estimularam o setor de serviços. Mas a indústria, dependente de grandes obras, ficou para trás.
            -
            Folha "" A tese de que o câmbio valorizado foi vilão da indústria é equivocada?
            Marcos Lisboa - Acho que essa história sobre o câmbio --e sobre a macroeconomia em geral-- acaba tendo a importância exagerada porque o Brasil, durante muitas décadas, teve uma macroeconomia muito desequilibrada. Então o câmbio, assim como juros e inflação, ganharam importância no debate. Mas nos últimos anos, ele tem sido mais reflexo do que causa do andamento da economia.
            O que afetou a indústria foi a falta de reformas? É correto dizer que estamos há dez anos sem reformas relevantes?
            Eu não diria isso. Esses movimentos são mais lentos. Não são grandes reformas. Tivemos um processo de estabilização, de construção de uma institucionalidade para uma economia que passou muitos anos desequilibrada. Isso foi progressivo.
            A partir da década passada, a gente começou a colher um pouco os benefícios dessas melhorias. Tivemos diversos setores no Brasil que cresceram muito bem nesse período e com grandes conquistas para a sociedade.
            Que setores se saíram bem?
            Todo esse Brasil urbano, que teve ganho de produtividade, dos serviços, de consumo, e que emprega muita gente. Com isso, as taxas de desemprego caíram para níveis que nunca imaginávamos. E a consequência foi uma queda da desigualdade.
            Mas teve toda uma parte importante que não teve os mesmos benefícios. Nossa hipótese é que os setores para os quais são necessários investimentos complexos acabam mais penalizados pelas dificuldades do nosso marco regulatório.
            É complicado exportar, importar, construir uma estrada, uma hidrelétrica. Isso significa custos maiores de produção, maior incerteza sobre o investimento.
            Por que a agenda para esses setores travou?
            Como envolve mais instâncias nos diversos níveis de governo, essa agenda acabou sem o foco ou o debate que poderia ter tido.
            Acho que o país agora começa a discutir essa agenda, que não se esgota nos grandes debates. As dificuldades são os detalhes: quem autoriza determinado tipo de obra? Quem vai fiscalizar, qual é o critério de realização? Você vai fazer uma grande rodovia, as pessoas vão ter terrenos desapropriados, como será esse processo? Para nada disso temos uma estrutura.
            A questão não é tornar mais fácil fazer a obra ou não. É tornar o processo mais eficiente e ter clareza do que pode e do que não pode fazer.
            É uma agenda extensa de melhoras institucionais, que vai aperfeiçoar processos de autorização, de controle, de negociação de conflitos, que vai permitir a expansão dos investimentos e a redução do seu custo. Isso se traduz em eficiência para a economia.
            A quantidade de problemas que têm aparecido tem tornado essa agenda ainda mais claramente necessária.
            Que problemas o sr. ressalta?
            Fornecimento de energia, construção de estradas, a parte logística. A nossa dificuldade de ter um avanço adequado na oferta de infraestrutura.
            Essa "agenda perdida" explica a desaceleração de agora?
            Acho que ela explica porque a gente cresce menos do que poderia. Na medida em que os problemas vão sendo enfrentados, isso tem impacto positivo sobre a taxa de crescimento de longo prazo. Na medida em que os problemas vão se agravando, ela tem um impacto negativo.
            Há uma série de pequenos avanços que vão aperfeiçoando o funcionamento dos mercados. Quando essas medidas geram ganhos de produtividade nos setores onde estão ocorrendo, isso gera maior crescimento até que esses ganhos se esgotem.
            Em que fase estamos?
            A gente teve um ciclo bom de crescimento. Teve um choque externo em 2007 e 2008. E os setores que estavam na liderança desse crescimento têm tido expansão menor. O ciclo de produtividade tem uma vida e parece que está se esgotando nesses setores.
            Então a economia está se afastando do crescimento alto, dos serviços, e convergindo para o baixo, da indústria?
            O Brasil está tendo um crescimento sustentável, mas baixo. E acho que temos a oportunidade de crescer mais. Se o país mergulhar nessa agenda, há grande oportunidade de ter um ciclo longo de investimento. O Brasil tem condições de crescer não 3%, mas 4%, 5% ao ano, enfrentando seus desafios.
            Com esse esgotamento, é preciso avançar em outras áreas?
            Quando se tem uma agenda que melhora a infraestrutura, isso tem efeitos positivos sobre toda a economia.
            Quando se consegue reduzir custos de energia porque houve ganhos de produtividade, quando se consegue melhorar eficiência no processo de importação e exportação --que passa por portos, mas também pela burocracia dos processos--, isso ajuda o investimento e a melhorar a qualidade do investimento.
            Quando há mais clareza e definição do que pode e do que não pode e agilidade nesse processo, isso melhora a qualidade para se investir mais e nos lugares certos.
            Com essa complexidade dos processos, o que acontece é que alguns investimentos começam e param em obstáculos, atrasam... e cada vez que isso ocorre, vira custo para os novos projetos.
            Recuperar a produtividade é reduzir custos das empresas?
            Tem de ser redução de custo para a economia. É uma diferença importante. Por exemplo, a tarifa de importação para um setor o protege de concorrência externa, mas aumenta os custos dos consumidores. Existe uma diferença grande entre medidas de proteção ou de estímulo que levem a transferências de recursos entre os setores e medidas que permitam ganho de produtividade para toda a economia.
            É preciso reduzir salários para recuperar a produtividade?
            Alguns setores tiveram ganhos de produtividade e esses setores são fortes empregadores. Os salários aumentaram e afetaram os setores que estavam com a produtividade crescendo menos. Agora, melhoras na produtividade, sobretudo em infraestrutura, têm impactos difusos sobre a economia. Você aumenta a capacidade de geração de renda como um todo.
            Como o impacto é difuso, quem o sr. imagina que vá empunhar essa bandeira?
            Exatamente por ser difusa é que ficamos tão atrasados nisso. Temas que têm benefícios muito localizados são mais fáceis de entrar no debate do que temas que têm efeitos sobre todos nós.
            Mas acho que tem começado a entrar e talvez tenha chegado num nível tal que não dá mais. Foi um pouco como a violência nos anos 90. A violência no Brasil chegou num nível em que a sociedade começou a cobrar uma ação mais efetiva do Estado, como a nossa educação, como a política social.
            Talvez a dificuldade seja que, no Brasil, a gente tenha que chegar no limite para tomar as providências.
            Mas este tema pode virar uma demanda social?
            Está virando. Quando você fala sobre a entrega da soja nos portos, o prazo, as filas e as complexidades, isso está virando um tema. Tanto é que o governo está entrando na discussão. Aí acho que a lei de acesso a informação pode ser útil. A transparência e o acesso a informação de forma periódica e regular permite que a sociedade cobre o que ela ache importante.
            Toda vez que os problemas são trazidos à luz do dia, a sociedade se manifesta, a gestão ocorre e muitas vezes os problemas melhoram.

              RAIO-X - MARCOS LISBOA
              IDADE
              48 ANOS
              FORMAÇÃO
              Graduado em economia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), doutor em Economia pela Universidade da Pensilvânia (EUA)
              ATUAÇÃO
              Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005 e presidente do IRB-Brasil (Instituto de Resseguros do Brasil) de 2005 a 2006

                quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

                Entrevista Albert Fishlow

                FOLHA DE SÃO PAULO

                Governo precisa ter paciência e não lançar medidas em excesso
                Economista sugere que governo se concentre no crescimento a partir de 2014 e dê tempo para empresas se acostumarem a novo clima
                MARIANA CARNEIRODE SÃO PAULOCom as lentes de quem já viu planos econômicos, milagres e recessões no Brasil, o brasilianista Albert Fishlow tem apenas uma recomendação ao país em 2013: que cultive a paciência.
                Nesta entrevista à Folha, ele observou que, apesar do noticiário econômico coalhado de dificuldades, a qualidade de vida no país melhorou: "O governo deveria se concentrar nisso em vez de focar os resultados do PIB trimestre a trimestre".
                -
                Folha - Por que o Brasil parou de crescer?
                Albert Fishlow - O Brasil tem uma taxa de investimento de 18% do PIB, enquanto outros países, até latino-americanos, têm taxas de 24%, sem falar na China (45%) e na Índia (35%). É muito difícil ter crescimento contínuo com investimento limitado. Além disso, o setor privado vive uma grande incerteza sobre a regulação do governo em alguns segmentos. Toda semana o governo anuncia medidas e isso não ajuda a aumentar os investimentos. Há intervenção, mas falta estratégia de médio prazo.
                A crise externa explicaria parte da desaceleração?
                A crise afetou os preços dos produtos exportados. Mas não se alteraram a ponto de prejudicar muito o Brasil. Alguns produtos primários perderam, mas os preços dos agrícolas aumentaram, o que compensou outras perdas.
                Por que a redução dos juros não surtiu efeito?
                Todo mundo esperava uma reação maior. Mas é preciso lembrar que grandes empresas já acessavam o mercado externo e obtinham recursos a juros baixos. Para elas, não houve grande mudança. O BNDES é responsável por 35% dos recursos para investimentos no país e também já oferecia juros mais baixos. A posição do governo, de imaginar que a queda dos juros poderia inspirar uma reação dos investimentos, foi um engano. Os juros não explicam a decisão de investir.
                Então por que os investimentos não reagem?
                Há que considerar outros fatores. Quase toda semana sai uma medida [do governo] e isso não é bom. É preciso paciência para esperar que o novo clima inspire as empresas, e essa reação leva tempo. Não é preciso tomar decisões toda semana, de olho no crescimento a cada trimestre. O governo diz "o próximo trimestre será melhor" e "vamos crescer 4%", mas o que se vê é outra história.
                Esse otimismo é excessivo?
                Depois de tantas expectativas frustradas, cria-se um clima de ainda mais incerteza. Os empresários ficam esperando mais e mais medidas, seguindo a lógica de que é melhor esperar e ver o que virá. Os dados de renda estão positivos e indicam uma melhora das condições de vida dos brasileiros. O governo deveria se concentrar nisso em vez de focar os resultados do PIB trimestre a trimestre. É melhor considerar as políticas necessárias para o crescimento em 2014 do que focar no curtíssimo prazo.
                O Brasil está fadado ao voo de galinha (sobe e cai)?
                As estimativas de crescimento de 5% ao ano como mínimo foram exageradas. Tomou-se como base o ciclo de recuperação pós-crise 2008/2009. Não se observou que a taxa de investimento continuava baixa. Além disso, em vez de enfatizar as exportações, que dariam mais competitividade às empresas brasileiras, optou-se por rejeitar as importações. Elas são úteis para limitar os preços dos insumos e ampliar a capacidade de investimento.
                O Brasil pode crescer mais?
                O país pode crescer de 4,5% a 5% ao ano se aumentar a taxa de investimento para 25% do PIB. Para isso, o governo precisa parar de falar de superavit primário e reconhecer que tem um deficit nominal de 2,5% do PIB. É preciso que o governo comece a poupar, reduza gastos da Previdência e aumente investimentos em saúde e educação.
                Analistas veem risco de a inflação acelerar, ao mesmo tempo em que o governo tenta reativar o crescimento. O sr. teme que o governo deixe a inflação de lado?
                A política do Banco Central até aqui é muito positiva. A redução dos juros foi necessária, não fazia sentido o Brasil ter juros mais elevados do que outros países neste momento. Mas em 2013 o BC tem que parar de baixar a taxa até que haja uma reação ao movimento feito no passado. Reduzir mais os juros não vai estimular mais a atividade e não vai alterar a decisão de investimento das empresas. Vai simplesmente criar mais incertezas sobre o que ocorrerá em 2014. É preciso parar de acumular medidas e dar tempo para que as regras estabelecidas sejam absorvidas.
                O governo está afobado?
                Eu tenho grande respeito pela presidente e pela capacidade de sua equipe. E espero que todos comecem a entender que a paciência também pode produzir efeitos tanto quanto outras medidas.
                É possível crescer 4% em 2013?
                O Brasil terá um ano melhor. O governo sempre está com 4%, mas eu acho que se der algo em torno de 3,5% está bom. Na segunda metade do ano haverá indicação mais clara de que o crescimento está voltando. Se houver decisões necessárias para o investimento crescer e redução das despesas do governo, o país poderá construir as bases do crescimento contínuo.

                  FRASE
                  "O setor privado vive uma incerteza sobre a regulação em alguns segmentos. Toda semana o governo anuncia medidas e isso não ajuda a aumentar os investimentos"

                    RAIO-X: ALBERT FISHLOW
                    Idade
                    77 anos
                    Atuação
                    É professor emérito na Universidade de Columbia (EUA); lecionou em Berkeley e em Yale e foi secretário-assistente de Estado para América Latina em 1975-1976; o seu mais recente livro é "O Novo Brasil" (2011)