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domingo, 18 de agosto de 2013

Plano de Haddad não ataca problemas, diz professora

folha de são paulo
Pedagoga da Unicamp defende investimento em salário e infraestrutura
Envio de boletim aos pais e centros para a formação de docentes são elogiados pela pesquisadora
FÁBIO TAKAHASHIRICARDO SENRADE SÃO PAULOO pacote para a educação paulistana anunciado na última semana pelo prefeito Fernando Haddad (PT) tem pontos positivos, mas não ataca os problemas principais, avalia a pesquisadora Maria Marcia Malavazi, da Unicamp.
Coordenadora do curso de pedagogia da instituição, Malavazi elogiou o envio de boletim com as notas dos alunos aos pais e a ideia de transformar os CEUs (centros de educação unificados) em unidades para a formação de professores.
Para a pesquisadora, porém, o que mudaria efetivamente a qualidade do ensino público seria o investimento maior em salário do docente --o piso municipal hoje é de R$ 2.152 para 40 horas semanais. Ela também defende investimentos na infraestrutura das escolas.
Entre as medidas anunciadas por Haddad estão o aumento da possibilidade de reprovação dos alunos (em cinco das nove séries), a obrigatoriedade da lição de casa e a realização de provas bimestrais.
Atualmente, os dois últimos pontos são definidos pelas escolas.
A gestão municipal diz querer organizar melhor a rotina dos colégios e exigir mais estudos dos alunos. Em contrapartida, promete melhorar a recuperação dos estudantes (com mais professores) e a formação dos docentes (com mais cursos).
O plano dividiu os analistas. A ONG Todos pela Educação, por exemplo, entende que a proposta é positiva, por tentar implementar "o básico" para um bom ensino.
A seguir, a opinião da pesquisadora da Unicamp.
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Folha - Qual a avaliação da sra. sobre o plano da prefeitura?
Maria Marcia Malavazi - Não ataca o que é importante. A discussão não deveria ser se vai avaliar ou reprovar mais os alunos. A discussão deveria ser: Quando as escolas terão efetivamente condições de ensinar?
A aprovação automática não deu certo. Mas a reprovação também não dará. Um salto de qualidade só viria com melhores condições salariais e de trabalho para os professores, o que poderia atrair profissionais excelentes.
Além de escolas mais bem equipadas, com computadores, laboratórios. E formação melhor dos professores.
A sra. vê pontos positivos no plano da prefeitura?
Gosto da ideia de enviar o boletim com notas aos pais. Não muito pelo ato em si, mas porque isso pode desencadear uma participação maior da família na vida escolar.
Também achei interessante a ideia de transformar os CEUs em centros de formação de professores, eles precisam estar em constante atualização. Só precisa ver a qualidade desses cursos.
Mas são medidas paliativas. A ideia aí é dizer que a culpa pela situação do aluno é do professor, não da estrutura oferecida. Isso acontece na prefeitura e no Estado, não tem muita diferença.
A sra. citou a necessidade de melhorar a formação dos professores, mas gestores e analistas criticam também cursos considerados de ponta, como da Unicamp, por serem muito teóricos e pouco práticos.
A teoria ilumina a prática. O professor tem de saber ensinar em diversas comunidades, sem receita pronta. Os gestores reclamam desses cursos porque eles ensinam o professor a pensar. E, assim, eles não aceitam qualquer medida de um gestor.

    quinta-feira, 15 de agosto de 2013

    Plano de educação de Haddad aumenta rigor sobre alunos - Ricardo Gallo

    folha de são paulo
    Prefeito pretende elevar número de séries em que estudante pode ser reprovado
    Projeto para 2014 prevê também lição de casa obrigatória e boletim bimestral divulgado para pais na internet
    DE SÃO PAULOO prefeito Fernando Haddad (PT) anunciará hoje um plano de reestruturação na educação municipal que prevê aumentar, a partir do ano que vem, as exigências para os alunos do ensino fundamental em São Paulo.
    Entre as medidas está a possibilidade de reprovação em cinco das nove séries, como antecipou a Folha em julho. Hoje, o estudante só pode ser retido em duas séries.
    A proposta, que ficará em consulta pública de hoje a 15 de setembro, fixa ainda obrigatoriedade de provas bimestrais e de lição de casa aos alunos, algo para o qual não há regra atualmente.
    As notas irão de zero a dez, em vez dos atuais conceitos (plenamente satisfatório, satisfatório e não satisfatório).
    Para o secretário de Educação, Cesar Callegari, "não se trata de mais rigidez aos alunos, mas de mais organização". Segundo ele, as escolas saberão com mais rapidez as dificuldades dos alunos e poderão atacar o problema.
    Sem ter tido acesso à proposta, o presidente do Sinesp (sindicato dos diretores da rede municipal), João Alberto Rodrigues de Souza, faz ressalvas às notas de zero a dez em lugar de conceitos e à reprovação em cinco séries.
    "É preciso ter cuidado com a forma como os professores receberão esses instrumentos nas mãos. Há histórico de professores que usam nota como forma de repressão, como se fosse uma arma para controlar o aluno", diz.
    BOLETIM
    O plano estabelece boletim bimestral para acompanhamento do desempenho de alunos, que os pais poderão consultar pela internet.
    No aspecto disciplinar, também há alterações. Hoje cabe a cada escola definir quais sanções serão aplicadas em caso de indisciplina.
    Pela proposta, haverá uma espécie de código de conduta, com regras para advertência ou suspensão.
    PREMISSA
    A proposta de alteração nas reprovações se baseou em uma premissa: pelo modelo atual, em que o aluno do primeiro ciclo só pode ser retido ao final do quinto ano, ele pode ficar muito tempo na escola sem aprender.
    Dados da Prova Brasil de 2011 mostram que 38% dos alunos do 5º ano na cidade de São Paulo não estavam plenamente alfabetizados.
    A meta é assegurar que todas as crianças saiam do terceiro ciclo alfabetizadas.
    Souza, do sindicato dos diretores, acha boa a preocupação com alunos que não estão aprendendo e diz que as escolas ganharão autonomia.
    A reprovação, segundo Haddad, só ocorrerá em último caso, de modo "residual". Isso porque, disse ele, haverá mais chances de recuperação durante o ano letivo.
    Uma delas é a recuperação nas férias. Outra é a dependência --em que o aluno "carrega" no ano seguinte disciplinas nas quais não foi aprovado na série anterior.
    Comum no ensino superior, a dependência valerá para os alunos do sétimo e do oitavo anos. Não está definido ainda qual o máximo de disciplinas a ser permitido.
    OFERTA
    O plano municipal também contempla ampliar a rede.
    Está prevista, por exemplo, a construção de 367 unidades educacionais, das quais 20 CEUs (centros de educação unificados).
    Para os CEUs, a gestão Haddad erguerá unidades ao lado de clubes-escola, para aproveitar a estrutura. O secretário da Educação disse que o modelo pedagógico no novo e no antigo CEU será idêntico.
      ANÁLISE - EDUCAÇÃO
      Proposta do prefeito agrada docente que quer mais poderes
      Educadores apontam que alunos perderam a disciplina porque sabem que a reprovação é quase impossível
      OS AGRADOS CONTEMPLARÃO CATEGORIA QUE FEZ UMA GREVE DE 23 DIAS EM MAIO PASSADO, CINCO MESES APÓS FERNANDO HADDAD ASSUMIR A PREFEITURA DE SÃO PAULO
      FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULO
      Parte das propostas apresentadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) vai ao encontro do que reivindicam os professores das escolas públicas: mais poderes dentro das salas de aula.
      Um forte discurso entre educadores é que os alunos perderam a disciplina porque sabem que a reprovação é quase impossível após a adoção da progressão continuada, em 1992, na gestão Luiza Erundina (então no PT).
      A proposta de Haddad atende aos professores ao aumentar a possibilidade de retenção das atuais duas para cinco séries do fundamental.
      O prefeito diz que seu plano visa avaliar melhor e dar mais apoio pedagógico ao aluno, o que evitará que ele não saiba o conteúdo (e, consequentemente, reprove).
      De qualquer forma, a ferramenta da retenção estará à disposição dos professores, para desespero de educadores que veem a reprovação como uma das principais causas da evasão escolar.
      Ainda no capítulo disciplinar, o plano abre possibilidade para que se institucionalize na rede a advertência e a suspensão de alunos, outra reivindicação de docentes. A adoção de sanções hoje depende de cada escola.
      Os agrados contemplarão categoria que fez uma greve de 23 dias em maio passado --cinco meses após Haddad assumir a Prefeitura de São Paulo--, reivindicando aumento salarial.
      Reajuste esse que não deverá fugir muito do que já foi acertado durante o governo Gilberto Kassab (PSD), considerando a situação financeira que Haddad diz estar enfrentando no município.
      Nesse panorama de aperto orçamentário, com medidas de custo quase zero, Haddad agrada boa parcela de seus professores --que tanto podem se engajar no plano de melhorar o ensino como dar ao petista considerável base para futuras eleições.
      Resta saber qual será o impacto das medidas sobre os estudantes, principais interessados na melhoria do sistema educacional

      terça-feira, 13 de agosto de 2013

      Fora da lei, 11 capitais negam tempo livre a professores

      folha de são paulo
      (FÁBIO TAKAHASHI, NATÁLIA CANCIAN, RAFAEL TATEMOTO E RAYANNE AZEVEDO)

      Municípios ignoram exigência de horário para docente planejar aula
      Prefeituras alegam falta de verbas; apenas Macapá ainda não paga o valor mínimo de R$ 1.567 de salário-base
      DE SÃO PAULO
      Cinco anos após ser aprovada no Congresso, a lei que fixa condições mínimas aos professores de escolas básicas públicas não é cumprida em 12 das 27 capitais. Uma delas não paga o piso salarial e as outras 11 não concedem jornada extraclasse mínima.
      A regra determina piso salarial de R$ 1.567 no ensino fundamental e médio (jornada de 40 horas semanais).
      Também exige que o docente fique 1/3 do período fora das aulas, para preparação de atividades, por exemplo.
      Levantamento da Folha com secretarias municipais de Educação aponta que em 11 capitais o período extraclasse é inferior ao exigido (Belém, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Maceió, Manaus, Natal, Recife, Salvador, São Paulo e Vitória). Em relação ao valor do salário, Macapá paga R$ 1.345 --menos que o piso, portanto.
      A lei visa melhorar condições de trabalho dos docentes em atividade e atrair mais jovens para o magistério.
      A maior dificuldade para se cumprir a regra da jornada extraclasse é que ela requer contratação de docentes, pois os professores já em atividade teriam que dar menos aulas.
      Segundo a Undime, que representa secretários municipais de Educação, gestores buscam cumprir a regra, mas alegam falta de verbas.
      "Todo mundo vai ter de ceder nesse processo", disse a presidente da Undime, Cleuza Repulho, referindo-se a prefeituras e sindicatos.
      SANÇÃO
      A lei não prevê sanção automática ao gestor que descumpra a regra. Ao sancionar a norma, o então presidente Lula afirmou que só cabe punição se comprovada a desonestidade do administrador.
      Pesquisador da USP em direito administrativo, Gustavo Justino de Oliveira entende que a própria legislação sobre improbidade prevê punição a quem desrespeita lei como a do piso do magistério. Um passo necessário é o pedido do Ministério Público.
      Já Carlos Ari Sundfeld, pesquisador da PUC e da FGV, vê como exagerada uma ação de improbidade em casos que não se caracterizem má fé. Diz, porém, que há respaldo legal para que docentes peçam cumprimento da lei.
      Resolução do Conselho Nacional de Educação estabeleceu 2015 como prazo final de transição. A regra, porém, não tem força de lei.
      Há divergências sobre o alcance da lei do piso. "Atividade intelectual, principalmente como a docência, exige reflexão e preparação", disse o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.
      Já Ilona Becskeházy, consultora em educação, considera ser mais importante a definição de currículo claro para as escolas, melhoria nos materiais e infraestrutura.
      OUTRO LADO
      Redes municipais dizem que vão se adequar à norma
      DE SÃO PAULOAs capitais que descumprem a lei do magistério dizem buscar a adequação, mas esbarram na falta de recursos.
      Única capital que não paga o valor salarial mínimo, a Prefeitura de Macapá diz que o pagamento é compensado com gratificações, que podem aumentar "em até quatro vezes" o salário docente.
      A lei do magistério, porém, fixa piso para o salário-base. "Há uma série de penduricalhos [gratificações]. Se formos pagar o piso-base, quebra a prefeitura", afirmou a secretária de Educação, Antônia Costa Andrade.
      A rede paulistana diz que apenas parte dos professores não tem o 1/3 da jornada fora da aula (os com contrato de 30 horas semanais). Mesmo eles, afirma a prefeitura, podem migrar para jornadas que já cumprem o que prevê a lei.
      Florianópolis e Belém dizem que, como não conseguem deixar todos os professores 1/3 da jornada fora da sala de aula, pagam gratificações para compensar.
      A capital catarinense afirma que os professores dos anos finais do fundamental já estão enquadrados na lei. E que os demais estarão adequados até 2015.
      Campo Grande, Maceió, Natal, Recife e Salvador dizem que também estão em processo de adequação.
      A Prefeitura de Cuiabá afirma que seu percentual de jornada extraclasse ao menos cumpre lei municipal (20%).
      As redes de Manaus e Vitória não explicaram por que descumprem a regra.
      O Ministério da Educação afirma reconhecer a dificuldade de implementação da lei, mas diz que não tem o poder de fiscalizar as prefeituras, que têm autonomia.

      Jornada afeta professor e aluno, diz docente
      DE SALVADOR
      A baiana Ivone Anunciação Souza, 43, não se conforma. Ela trabalha na rede municipal de Salvador, que descumpre a lei dos professores e não lhe dá um terço de sua jornada para preparar aulas ou corrigir provas.
      Ivone, que ensina em dois turnos (à noite, para jovens e adultos), diz que isso compromete a qualidade do curso e de sua vida.
      "Nós também temos relações interpessoais e nosso futuro. Isso tudo fica prejudicado quando se tem uma pilha de provas para corrigir ou três empregos", diz.
      Em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) julgou que a reserva do chamado terço extraclasse é constitucional.
      "Assim como vocês, repórteres, precisam de tempo para apurar uma história e depois escrevê-la, o professor precisa para fazer seu planejamento pedagógico", diz.
      O professor Arlindo César, 24, concorda.
      "Por enquanto não tenho filhos e estou sem namorar. Como conseguirei ter uma vida normal no ritmo que levo?", questiona.
      ANÁLISE
      Da intenção à realidade, ainda há uma grande distância
      MARCELO LEITEDE SÃO PAULOCom a adoção de um piso salarial nacional para professores de educação básica, há cinco anos, a sociedade brasileira emitiu sinal inequívoco de que deseja pôr termo à progressiva proletarização dessa profissão decisiva para o desenvolvimento do país e de seus cidadãos. Da intenção à realidade, todavia, vai uma grande distância.
      A boa notícia do levantamento realizado pela Folha está na razoável obediência à norma salarial pelas redes municipais de ensino nas capitais. Só em Macapá se observa descumprimento.
      O valor do piso também é respeitado pela maioria das secretarias estaduais de Educação, indicam levantamentos anteriores. Falta porém, uma pesquisa sobre as outras 5.544 cidades do país, que indicará se esse padrão mínimo de remuneração determinado pela lei "pegou" ou não.
      Não seria arriscado dizer, tomando só as capitais e as redes estaduais de ensino, que a maioria dos alunos de educação básica no Brasil já conta com professores que recebem o piso. Embora acarrete um ônus e tanto para prefeitos e governadores, seria leviano concluir que está tudo bem. Longe disso.
      Em primeiro lugar, o piso de R$ 1.567 não pode ser considerado alto. Equivale a 2,3 salários mínimos, é verdade, mas fica abaixo do salário médio nacional de R$ 1.793 (dado de 2011) divulgado em maio passado pelo IBGE, com base no Cadastro Central de Empresas (Cempre).
      Se comparado com a média dos que têm diploma de nível superior (R$ 4.135), como se exige da quase totalidade de docentes de educação básica, o piso dá uma medida mais objetiva do prestígio social conferido à categoria: o trabalho do professor vale não muito mais do que um terço (38%) do que ganham outros profissionais com a mesma titulação.
      QUALIDADE
      De um ponto de vista qualitativo, então, a realidade é ainda mais preocupante.
      O levantamento constatou também que só 16 das sedes de unidades da Federação cumprem outro dispositivo menos lembrado da lei 11.738: a obrigação de reservar um terço da jornada de 40 horas semanais para trabalho fora da sala de aula.
      Para dar uma educação melhor, o professor precisa de tempo para preparar aulas, fazer cursos e atualizar-se sobre novos conhecimentos, livros didáticos e técnicas de ensino na sua área.
      Se ficar oito horas por dia em classe, a tendência é que repita sempre a mesma aula. Ou, pior, que siga sem refletir as receitas prontas, sem adaptá-las aos alunos de carne e osso que tem diante de si.
      O piso salarial representa um avanço importante para a educação brasileira. Mas o país ainda está muito aquém do teto do que é possível e necessário realizar para que se eleve acima do pântano de mediocridade em que afunda.

        domingo, 4 de agosto de 2013

        Quem educa os educadores

        folha de são paulo
        QUEM EDUCA OS EDUCADORES?
        EDUCAÇÃO BÁSICA
        Formação de professor fica longe da realidade da escola
        Principal crítica dos especialistas é o excesso de teoria com pouca prática
        DE SÃO PAULOA educação no Brasil ainda é um ponto crítico para o desenvolvimento do país.
        A qualidade do que se ensina nas escolas puxa o Índice de Desenvolvimento Humano brasileiro para baixo e coloca o Brasil no fim da lista de países em termos de qualidade de ensino de ciências e de matemática.
        As causas disso dividem a opinião de educadores, de gestores e de especialistas. Muitos, no entanto, concordam que um dos gargalos da educação está justamente na formação do professor.
        De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, o que se ensina nos cursos de pedagogia (que formam quem dá aula para as crianças de seis a dez anos, do ensino fundamental 1), e nas licenciaturas (que graduam os docentes dos jovens de 11 a 17 anos, do fundamental 2 e do ensino médio) está bem longe da realidade encontrada na escola.
        Isso porque os estágios ocupam, em média, 10% da carga horária da graduação para formar professores.
        Em países como os EUA, a relação é oposta: a maioria das disciplinas é prática.
        DIPLOMA
        Para dar aula no Brasil, é preciso, desde 2009, ser graduado em uma licenciatura.
        Isso significa que, por aqui, um engenheiro não pode lecionar matemática porque não é licenciado.
        Hoje, 24% dos que estão na sala de aula não fizeram curso universitário. Há, inclusive, quem nem tenha concluído o ensino médio (8,4 mil de 2,1 milhões docentes).
        A obrigatoriedade do diploma de licenciatura para dar aula fez ainda com que a graduação de pedagogia à distância ganhasse força.
        O número de cursos remotos de formação de professor aumentou de 6.077 para 273 mil de 2000 a 2010.
        Mesmo assim, ainda faltam docentes na sala de aula. O Ministério da Educação calcula que pelo menos 170 mil vagas para professores de matemática, química e biologia estejam sem dono.
        Os motivos disso? Aqui também há divergências. Há quem diga que o problema seja o salário. Para alguns, o piso nacional para o professor, estipulado em R$ 1.567, não consegue atrair nem segurar grandes talentos da educação.
        Por essas e por outras, quem se forma em matemática no Brasil, por exemplo, acaba preferindo não ir para a sala de aula.
        Hoje, o professor brasileiro é, em geral, uma mulher que tem entre 30 e 50 anos que veio de uma família de baixa ou média renda. A maioria (78%) trabalha em uma única escola.
        Boa parte dos docentes reclama do salário e da condição das escolas, mas não de sua própria formação.
        Apesar dos problemas, 68% dos pedagogos se sentem bem preparados, de acordo com dados do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

        terça-feira, 30 de julho de 2013

        Rosely Sayão

        folha de são paulo
        De volta para a escola
        Umas das funções da escola é inserir a criança no mundo público --e essa é uma lição difícil para a criança
        Nos próximos dias, as crianças voltarão às aulas depois de um período de descanso. O melhor desse retorno é reencontrar os colegas, conviver e brincar com eles e até mesmo provocá-los. Isso também faz parte do relacionamento entre elas.
        Durante as férias, em geral, as crianças ficam sem a rotina rigorosa que a escola impõe até mesmo fora de seu espaço. É que o horário escolar determina também os horários em casa. Horários para dormir, para acordar, para alimentar-se e para brincar, entre outros, são organizados pela família de acordo com o horário em que os filhos vão para a escola, não é verdade?
        Além da retomada de uma rotina nem sempre agradável para a criança, retornam também as responsabilidades com a vida escolar: lição de casa, estudo para um bom aproveitamento, aulas particulares e outras atividades complementares. E voltam também a cobrança dos pais e as próprias da criança, é claro.
        Por isso é que, depois das férias, independentemente da idade, a criança passa novamente por um período de adaptação. E, nesse recomeço, muitos pais enfrentam birras, recusas, mal humor, resistências e choros que atrapalham a retomada da rotina e o cotidiano familiar, sempre marcado por horários.
        É preciso ter paciência porque é difícil mesmo para a criança passar de uma situação para outra quando a escolha não foi feita por ela. Quando ela está dormindo não quer acordar, quando está brincando não quer ir tomar banho e, quando está no banho, não quer sair. Haja paciência! Mas esse é mesmo o ingrediente mais importante quando se tem filhos.
        Há também um ponto importante que nem sempre é considerado nessas horas difíceis para os pais, que podem achar que tudo não passa de manha dos filhos.
        Como integrante da família, o filho é único, mesmo quando há irmãos. Todos os filhos são únicos na dinâmica familiar atual. E, acima de tudo, as crianças são o centro da família.
        Agora, imagine, caro leitor, sair desse lugar privilegiado e passar a ser mais uma entre tantas outras crianças. Não, não é nada fácil para ela essa passagem do aconchego e da segurança do ambiente familiar para a impessoalidade do mundo público. Essa é uma das funções fundamentais da escola. Aliás, essa é uma das lições mais difíceis para a criança: a entrada no mundo público. Difícil, mas absolutamente necessária.
        Na experiência de ser mais uma, a criança tem vantagens e desvantagens. Ela vivencia, por exemplo, relacionamentos em que o afeto não é o eixo central. Por mais que isso possa parecer ruim, saiba, leitor, que é muito bom! Os afetos familiares são fundamentais, mas também pressionam, exigem, cobram. Livrar-se deles por um período do dia é estruturante também para a criança.
        Por outro lado, participar de um grupo de adultos e de pares que a criança não escolheu pode ser incômodo. Mas assim será a vida dela num futuro próximo e, por isso, é tão importante que ela aprenda a viver por conta própria no ambiente social.
        É por isso que muitas crianças expressam, de maneiras diversas, algum desgosto no retorno às aulas. E é por isso também que os pais precisam ser pacientes, compreensivos e amorosos na situação, porém firmes e confiantes de que o filho conseguirá superar sua dor. E a escola deve realizar essa transição docemente.
        Aprender e crescer doem, mas ninguém deve permanecer na infância além do tempo próprio dela, não é?

        quarta-feira, 24 de julho de 2013

        Gilberto Dimenstein

        folha de são paulo

        Homem simula dor do parto


        Uma das melhores forma de intermediar conflitos e assim evitar a violência é ensinar as pessoas a se colocarem no lugar do outro. Ou seja, ensinar a conviver com a diversidade.
        Daí que me chamou a atenção uma experiência que não tem a ver nada com violência. Mas tudo com o ensino da diversidade.
        Um jornalista inventou um interessante jeito de os homens entenderem um pouco melhor o que significa ser mulher: usou aparelhos para simular as dores do parto.
        Não aguentou. Suportou a dor apenas duas horas.
        É apenas uma ilustração sobre o que imagino ser um aspecto da educação para a cidadania.
        A humanidade vai alcançar um novo patamar civilizatório se nas escolas for ensinada intermediação de conflitos, fazendo com que as crianças e adolescentes saibam ver pelo ponto de vista do outro.
        *
        Por falar em violência, é simplesmente incrível uma obra de um artista que, numa série fotográfica, crucifixa crianças em corpos de vários tipos de adultos. Dê uma olhada
        *
        Falando em série fotográfica, há um projeto tocando: um projeto que registra a cumplicidade afetiva entre familiares e pacientes terminais. Aqui
        Gilberto Dimenstein
        Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.

        segunda-feira, 22 de julho de 2013

        Entrevista Daphne Koller - Yuri Gonzaga

        folha de são paulo
        O mundo precisa dos cursos virtuais para instrução superior
        Cofundadora da plataforma Coursera, de cursos virtuais, diz que universidade não pode ser substituída, mas nunca será para todos
        YURI GONZAGADE SÃO PAULO
        Nascida e formada em Israel, Daphne Koller, 45, professora de ciência da computação na Universidade Stanford (EUA), lançou no ano passado um site de educação a distância, o Coursera.org, que tem 83 instituições parceiras --entre as quais estão a Universidade Harvard e o MIT-- e que anunciou no dia 10 ter recebido US$ 43 milhões em novos investimentos.
        Em entrevista à Folha por telefone, Koller explica por que acha que a universidade nunca será substituída por completo (mas seguirá sendo um privilégio) e fala sobre o novo aporte, uma parceria com a USP e o "entusiasmo" dos brasileiros que usam a plataforma.
        -
        Aonde os novos investimentos levam o Coursera?
        A novos públicos e aos dispositivos móveis. Os trabalhos de internacionalização incluem mais traduções e esforços para chegar a outros países. Também acabamos de contratar um desenvolvedor "mobile", para que as pessoas possam usar o Coursera enquanto se deslocam e para chegar a lugares com menor conectividade, como o mundo em desenvolvimento.
        Países pobres precisam mais da educação a distância?
        Há uma carência maior. Nos EUA ponderamos sobre se a universidade que fez uma pessoa é melhor que a que fez a outra, e essa é uma questão importante. Mas há países em que a questão é: "Existe uma universidade?". É desse tipo de lugar que estou falando.
        Na Índia, existe um projeto para aumentar de 13% para 30% o índice de formação superior. Para isso, o país teria que construir um número estimado de 1.600 universidades. Mesmo se você puser de lado o problema logístico da construção, se essas universidades existissem não haveria professores o suficiente para lecionar nelas. Por isso é que você precisa de um método alternativo.
        E isso na Índia, que tem um sistema de educação relativamente avançado. Imagine na África, países do sudeste asiático ou mesmo o Brasil. A capacidade é ainda menor.
        A universidade pode ser substituída por cursos on-line?
        Pode ser substituída no ensino de pessoas já graduadas e que querem expandir seu conhecimento, mas, no geral, não. A universidade exerce papéis geralmente postos de lado e que vão além da simples instrução, como a geração de conteúdo científico. Além disso, ela não só treina os estudantes, mas também os socializa e os ensina a serem pessoas melhores.
        Qual a importância do Brasil para o Coursera?
        Uma parcela de por volta de 5% da nossa base de usuários é composta por brasileiros --um índice muito alto. Uma coisa que percebi sobre eles é o quão apaixonados são pelo site. Eles demonstram muito mais do que outros grupos estar gratos pela oportunidade e entusiasmados em poder colaborar, trabalhando em traduções, por exemplo.
        Atualmente, não há no site conteúdo criado em português. Isso vai mudar?
        Sim. Acho que precisamos tanto continuar traduzindo o material que já existe quanto produzir um voltado para as pessoas que falam português --não só no Brasil, mas em várias partes do mundo.
        Estamos bastante empolgados com a possibilidade de fazer parcerias, como uma com a Universidade de São Paulo --seria ótimo se eles se dispusessem a criar conteúdo para os falantes de português.
        Há uma parceria com a USP?
        Ainda não há nada finalizado, mas, sim, estamos trabalhando nisso.
        Site brasileiro já tem 3 cursos com certificado
        DE SÃO PAULODesde o mês passado, a USP oferece cursos de física e de estatística on-line no site Veduca, que terão prova presencial para emitir um certificado.
        No último dia 11, foi a vez da federal UnB (Universidade de Brasília) passar a oferecer o seu primeiro curso certificado no serviço, de bioenergética.
        Somados, os três cursos já atraíram 15 mil pessoas, segundo a empresa.
        As provas serão as mesmas que são aplicadas a alunos presenciais e terão a supervisão dos próprios professores responsáveis pela disciplina, conta o fundador do Veduca, Carlos Souza, 32.
        "Damos prioridade às áreas que carecem de mais profissionais no Brasil, como as tecnológicas e de engenharia", diz.
        As próximas universidades que lançarão cursos pelo Veduca são a FGV, o ITA, a PUC-Rio e a UFPB --Unesp e Unicamp já oferecem algumas disciplinas.
        Atualmente, o serviço tem 110 mil usuários com cadastro --que não é obrigatório--, e acumulou 400 mil visitas no mês passado. Segundo Souza, a meta é levar esse número a 1 milhão até o fim do ano.
        AUDACIOSO
        Em maio deste ano, a start-up de educação a distância Udacity anunciou que vai oferecer no ano que vem um curso de mestrado em ciências da computação totalmente on-line, o primeiro do tipo no mundo, que será reconhecido pelo sistema educacional dos EUA.
        O curso custará US$ 7.000, cerca de R$ 15,6 mil, terá duração de cerca de três anos e é fruto de uma parceria com o conceituado Instituto de Tecnologia da Geórgia. Quem quer só assistir às aulas, sem ganhar o certificado, poderá vê-las de graça. Há mais informações no site udacity.com/georgiatech.
        Outro serviço popular de educação on-line é o edX (edx.org).

          domingo, 21 de julho de 2013

          USP reconhece que terá de alterar bônus no seu vestibular - Sabine Righetti e Fabio Takahashi

          folha de são paulo
          Universidade persegue meta posta pelo governo de ter 50% dos calouros provenientes de escolas públicas
          Mudança em bonificação racial e para alunos de escolas públicas foi aprovada pelo Conselho Universitário neste mês
          SABINE RIGHETTIFÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOSem apresentar estudos que mostrem a base para a mudança em sua política de bônus no vestibular a alunos de escolas públicas, a USP reconhece que outras alterações serão necessárias.
          Situação parecida vive a Unicamp, que também alterou recentemente sua política de benefício a estudantes das escolas públicas.
          As instituições perseguem a meta posta pelo governo estadual de ter 50% dos calouros provenientes da rede pública, em cada curso. Na USP, a média hoje é de 28%, mas chega a 17% em medicina.
          A universidade aprovou no início deste mês bônus de 5% para vestibulandos pretos, pardos e indígenas. Para os demais alunos de escolas públicas, o benefício subiu de 15% para 20%.
          SEM EXPLICAÇÃO
          Proposta pela pró-reitoria de graduação, a mudança foi aprovada pelo Conselho Universitário. Membros do órgão reclamaram que não foram apresentados estudos que mostrassem seu impacto.
          Assim, não foi explicado, por exemplo, qual será a mudança no perfil dos ingressantes nem se a medida será suficiente para chegar à meta. "A pauta do dia tinha 200 páginas. Para a parte da inclusão era apenas uma", disse Leandro Salvatico, representante dos pós-graduandos.
          A Folha pediu nas três últimas semanas os estudos que deram embasamento à alteração. Sem sucesso.
          A universidade informou apenas que há "várias" simulações, mas não as mostrou. Afirmou ainda que a ideia é "ajustar" os bônus nos próximos anos e incentivar que mais alunos de escolas públicas prestem o vestibular.
          O próprio reitor, João Grandino Rodas, disse logo após a votação que uma possibilidade era aumentar os bônus nos cursos mais elitizados, como medicina e engenharia.
          PRESSÃO
          A alteração aprovada pela USP foi feita após o governador Geraldo Alckmin (PSDB) pressionar as universidades a se tornarem menos elitistas.
          Nas federais, já neste ano, começou a implementação das cotas, tanto para escolas públicas quanto para negros.
          Alckmin e os reitores chegaram a apresentar um modelo de metas no final do ano passado, que previa que, até 2016, metade dos calouros sairiam das escolas públicas, sendo 35% deles pretos, pardos ou indígenas.
          Pressionadas, mas com autonomia, as universidades buscaram alternativas à proposta. A USP determinou que as metas podem ser atingidas até 2018; a Unicamp, até 2017. Não haverá punição caso os objetivos não sejam atingidos.
          Além disso, as duas instituições recusaram uma das ações propostas pelo governo: a criação do "college" --um curso intermediário semipresencial, de dois anos, em que os alunos que terminassem o ensino médio poderiam estudar nas universidades.
          "Foi mais uma maneira da USP de burlar a sociedade", afirma Frei David, presidente da ONG Educafro.
          "A USP está acirrando os ânimos da comunidade negra. Não aceitaremos sermos enganados mais uma vez."
          No vestibular deste ano, não houve nenhum negro aprovado no curso de medicina, por exemplo.
          OUTRAS INSTITUIÇÕES
          A direção da Unicamp também não apresentou ao Conselho Universitário ou à reportagem os estudos que embasaram o aumento em seus bônus no vestibular.
          Das três universidades estaduais paulistas, apenas a Unesp decidiu manter 2016 como prazo para se atingir as metas de inclusão.
          Foi a primeira das três instituições a tomar uma decisão, em abril passado.
          Mas a instituição não fez alterações na sua seleção e não deixa claro como aumentará a participação de quem estudou em escolas públicas entre os matriculados.
          Principal era aprovar metas, diz governo
          Apesar de sua proposta ter sido alterada, gestão Alckmin afirma estar satisfeita com decisões das universidades
          Uma das dificuldades para chegar aos objetivos é a baixa procura das escolas públicas ao vestibular
          DE SÃO PAULOApesar de USP e Unicamp terem aumentado o prazo para se chegar às metas de inclusão propostas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), a gestão estadual paulista diz estar satisfeita com as decisões.
          "A aprovação das metas pelas universidades é a espinha dorsal da proposta", diz Carlos Vogt, assessor especial do governo para assuntos de ensino superior.
          De acordo com ele, cada universidade fará o que for preciso para atingir as metas.
          "As universidades estão avaliando suas próprias estratégias", afirma.
          Em privado, professores que participaram da elaboração da proposta inicial do governo --que teve o apoio dos reitores-- afirmam que chegaram a temer que as metas nem fossem aprovadas pelos Conselhos Universitários.
          Um dos problemas, dizem, foi a proposta da criação do "college", que enfrentou forte resistência nas faculdades.
          A ideia era que o aluno de escola pública se preparasse melhor no curso intermediário, de dois anos, antes de ingressar nas universidades.
          Mas houve críticas em relação ao modelo semipresencial e à demora que haveria até o aluno entrar na USP, na Unesp ou na Unicamp.
          Assim, o governo passou a defender que o importante eram as metas. As ações ficariam a cargo de cada escola.
          ATRATIVIDADE
          Um dos problemas para que as metas de aprovados egressos do ensino médio público sejam atingidas é a baixa procura desse público pelos vestibulares.
          Apesar de a rede pública representar 85% do total de matrículas no Estado, a participação desses alunos entre os inscritos na Fuvest é de apenas 35%. Na Unicamp, a taxa chega a 28%.
          Professores da USP envolvidos nas discussões apontam que corre-se o risco de se aprovar estudantes com muito deficit de conteúdos se a universidade "forçar" que 50% dos calouros sejam de escolas públicas.
          Além disso, é preciso garantir que os alunos permaneçam nas instituições.
          "Sabemos que os alunos que vieram de escolas públicas terão dificuldades, inclusive financeiras, para se manter", afirma Vera Lucia Felicetti, doutora em educação e especialista em inclusão social na educação superior.
          "As universidades também precisam se preparar para isso", complementa.
          DESIGUALDADE INTERNA
          A participação de egressos de escolas públicas varia de curso para curso.
          Na Unesp, por exemplo, 40% dos matriculados vieram do ensino oficial. Mas, em medicina, a taxa cai para 2%.
          A universidade afirmou, via assessoria de imprensa, que aposta em cursinhos pré-vestibulares gratuitos para que as metas sejam atingidas.
          Assim, quem não teve um bom ensino médio --que, em geral, é particular-- poderia compensar o deficit no cursinho da própria Unesp.
          A partir deste ano, a USP também seguirá estratégia dos cursinhos. Serão oferecidas mil vagas, destinadas a alunos que tiveram bom desempenho no vestibular. Eles também ganharão auxílio financeiro.
          ANÁLISE
          Universidades exerceram sua autonomia e mudaram plano
          LEANDRO TESSLERESPECIAL PARA A FOLHAO Pimesp (programa para inclusão social nas universidades paulistas, apresentado em dezembro) propõe atingir o mesmo objetivo da lei de cotas das instituições federais de ensino superior por meio de uma formação inicial em um colégio semipresencial e posterior transferência.
          Na proposta, essas metas deveriam ser atingidas até 2016. Como as universidades estaduais paulistas gozam de autonomia, o projeto precisava ser aprovado nos Conselhos Universitários.
          USP, Unicamp e Unesp recusaram a transferência automática dos alunos do curso semipresencial e também o prazo proposto para se chegar às metas (só a Unesp manteve o prazo).
          A Unicamp decidiu dobrar o bônus que já concedia no vestibular aos oriundos de escola pública. A USP também aumentou o seu bônus.
          As medidas permitem prever que a meta do Pimesp será atingida em qualquer prazo? Não. Ou pelo menos não foram fornecidos aos conselheiros dados que demonstrem isso claramente. As decisões foram tomadas em um prazo bastante curto.
          É possível chegar a 50% das vagas para oriundos da escola pública admitindo os melhores talentos?
          Sim, mas somente se o percentual de candidatos de escola pública for de 50%. Não, se ele se mantiver em 30%.
          É difícil entender por que a lei de cotas e o Pimesp propõem só 50% enquanto 88% dos concluintes do ensino médio saem da rede pública.
          Não há cota capaz de compensar uma formação deficiente. O ideal seria romper a separação que se configura com as crianças das classes A e B estudando em escolas particulares quase totalmente brancas e as demais em escolas públicas, que em média formam mal os estudantes.
          Inclusão social requer uma mudança na sociedade. O convívio entre brancos e pretos, pobres e ricos deve ocorrer desde o início da formação, não só durante o ensino superior.

            terça-feira, 9 de julho de 2013

            A Universidade Federal da Bahia (UFBA) decretou a morte do vestibular

            O vestibular sumiu. E agora?

            Malu Fontes

            A Universidade Federal da Bahia (UFBA) decretou a morte do vestibular, o bicho-papão que atormentou a vida escolar e o imaginário de dezenas de gerações de universitários baianos, principalmente daqueles que nunca conseguiram ingressar numa universidade pública. A partir de 2014, todas as 4.282 vagas de graduação da UFBA serão preenchidas através das notas obtidas no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) por alunos de todo o país. Com isso, os candidatos de Salvador e da Bahia disputarão as mesmas vagas com candidatos de todo o país. Pelo Sisu, nenhum candidato precisa se deslocar de seu estado para realizar a prova, o que aumenta em muito o número de concorrentes, já que não se gasta com viagem.

            Entretanto, o que num primeiro instante pode parecer uma maravilha para quem sempre teve pavor do vestibular e acha que agora vai navegar em mares tranquilos, outros elementos entraram em cena. Primeiro, a complexidade da prova do ENEM, cuja lógica e filosofia de avaliação são completamente diferentes dos formatos para os quais muitas das escolas tradicionais de Salvador treinavam a custo de ouro seus alunos desde as mais tenras séries. Os professores show men, com suas formulazinhas rimadas para facilitar a decoreba, agora estão no sal. Outros aspectos importantes e que faziam diferença entre um aluno baiano e o de outro estado disputando entre si uma vaga na UFBA eram os conteúdos culturais regionais, sobretudo ancorados na literatura e filmografia locais. Agora, adeus a essas especificidades. Estão mortos e cremados.

            Há ainda outros aspectos muito pouco tocados, não merecedores até agora de uma linha sequer na imprensa: os cotistas vindos das escolas públicas de Salvador e da Bahia - e vamos nos poupar do óbvio de dizer a quantas anda tocando a banda educacional por essas plagas - não mais disputarão suas vagas com o aluno do Odorico Tavares, da escola do subúrbio ferroviário há meses sem professor de química ou física ou com os alunos do interior do estado, mas com alunos de rede pública de estados cujo ensino é muito melhor que o nosso, o que, diga-se de passagem, não é lá algo difícil de conseguir. E para não dizer que também não se falou dos potenciais prejuízos dos privilegiados, as listas e rankings das melhores escolas privadas do Brasil têm mostrado que mesmo as melhores - e mais caras - escolas de Salvador fazem feio quando emparelhadas com as melhores do Sul e do Sudeste. Neste caso, merecem aplausos duas escolas privadas de Feira de Santana, entre as melhores do país.

            O último elemento que deve incomodar uns, agradar a outros, mas, certamente mudar a paisagem humana e a diversidade na UFBA, é a forasteirização da universidade, como já ocorre com outras universidades públicas do Norte e Nordeste que aderiram ao Sisu. Exemplo disso se deu na Paraíba e em Pernambuco, onde o índice de vagas ocupado por alunos de outros estados e outras regiões do país não chega hoje a ser exatamente objeto de elogio. É muito cedo para ver o desenho humano que o Sisu/ENEM esboçará na UFBA. Para uns, há o risco das universidades regionais perderem exatamente aquilo que têm de mais importante para contribuir: os investimentos em projetos locais. Para outros, algo mais arriscado: o risco dos forasteiros, mais bem formados por modelos escolares desde há muito melhores que o baiano, abocanharem legitimamente as melhores e mais disputadas vagas das universidades regionais, deixarem os cursos menos prestigiados para os nativos e, uma vez graduados ou pós, arrumarem as malas com o Lattes dentro e darem tchau para bater ponto em seus estados de origem.

             Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da UFBA.

            domingo, 7 de julho de 2013

            Alunos estudam e fazem quimioterapia em 'escola móvel'

            folha de são paulo
            Projeto desenvolvido em São Paulo permite que crianças aprendam enquanto fazem tratamento contra câncer
            Cerca de 270 estudantes fazem tratamento no hospital; pela 1ª vez, quatro deles prestarão Enem no próprio Graacc
            SABINE RIGHETTIDE SÃO PAULO
            "Vou aproveitar a recuperação no hospital [após um transplante de medula] para dar um gás nos estudos"Quando o câncer voltou eu fiquei assustado. Mas estamos aí, sempre lutando"Assim que ficar curado quero viajar o mundo. Quero ver de perto a arquitetura de Dubai! Arthur Francisco GaldinoEstudante do 3º ano do ensino médio pela escola móvel do Graacc
            Apesar da pouca idade, o adolescente Arthur Francisco Andrade Galdino, 16, já tem um amplo currículo de superação: venceu duas doenças graves e está lutando para passar pela terceira.
            Ele ainda tem outro desafio: sair-se bem no Enem (Exame Nacional de Ensino Médio). Quer ser engenheiro civil, como sua mãe. Uma boa nota do Enem é pré-requisito para entrar na universidade.
            Arthur está fazendo tratamento contra um sarcoma de Ewing, um tipo de câncer nos ossos, no Graac (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), em São Paulo.
            Antes, ele venceu uma leucemia. No meio do caminho, teve mal de Chagas, uma infecção causada por um parasita, provavelmente contraída em alguma transfusão de sangue. A doença também foi vencida por Arthur.
            É lá mesmo, no Graacc, que ele estuda, nas chamadas "escolas móveis", desde 2009. Ele chegou a voltar para a escola regular, mas teve de retornar ao hospital devido a um novo tratamento.
            E é lá que o garoto fará o Enem. O exame será acompanhado por uma equipe do Ministério da Educação. Pela primeira vez, quatro jovens em tratamento --incluindo Arthur-- farão o exame juntos no Graacc. "Vou aproveitar a recuperação para dar um gás nos estudos."
            Ele fará uma transfusão de medula óssea nas próximas semanas, antes de uma nova batelada de quimioterapia. Já foram 26 sessões até hoje.
            As aulas da escola móvel acontecem até durante a químio, dependendo da disposição de cada estudante.
            São como aulas particulares. O professor encontra o aluno e leva o material didático, que varia entre livros, brinquedos e tablets. Quase 270 alunos participam.
            "Quando o aluno está na UTI usamos apenas o tablet, que é mais fácil de higienizar", explica Vanessa dos Santos Marques, 25, professora de português. Ela ensina oito crianças por semana.
            APRENDENDO A LER
            A escola móvel atende também os pequeninos. Alguns nem tiveram tempo de ir à escola. Caso de Pedro Alexsander Grandes Martins, 7, diagnosticado com meduloblastoma, um tipo grave de tumor cerebral, há três anos.
            Quando a reportagem conversou com ele, Pedro fazia um desenho ao lado de uma professora na sala de espera de mais um procedimento. Ele está sendo alfabetizado.
            A mãe dele, Elisandra Grandes Nunes, deixou o emprego em Manaus (AM), mudou-se para São Paulo e acompanha o filho nas aulas e nos procedimentos. Não desanima: "Ele é um lutador".
            Quem também estuda no Graacc é Merycler de Alcântara Silva, 11, nove deles em tratamento contra leucemia linfoblástica aguda, câncer nas células brancas.
            Agora que está curada, ela se prepara para frequentar a escola regular. "Quero ser médica quando crescer."
              Professores precisam de formação específica
              Docentes recebem aviso eletrônico quando alunos estão em tratamento
              Vantagem do modelo é permitir inserção da criança mesmo durante tratamento, que leva em média três anos
              SABINE RIGHETTIDE SÃO PAULO
              "O tratamento de uma criança com câncer leva uma média de três anos. Nesse período, mesmo que não fique internada, a criança pode estar debilitada. É muito tempo para ficar fora da escola Amália CovicFísica com doutorado em educação e coordenadora de pós-graduação em atendimento escolar hospitalar da Unifesp (Universidade Federal de SP)
              A vantagem do modelo de escola móvel do Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) é garantir a inserção da criança na escola mesmo no processo de cura feito no hospital.
              "O tratamento de câncer em crianças leva uma média de três anos. É muito tempo para ficar fora da escola", diz Amália Covic, coordenadora de uma pós-graduação em atendimento escolar hospitalar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
              Os alunos da pós, que dura dois anos, fazem residência no Graacc durante o curso com uma bolsa paga pela Petrobras, que apoia o projeto. Hoje, 50% do orçamento vem de empresas e de doações de pessoas físicas. A outra metade é do SUS (Sistema Único de Saúde).
              De acordo com Covic, os professores que atuam no hospital precisam de uma formação específica porque o trabalho é bem diferente do que seria encontrado em uma sala de aula regular.
              No hospital, o professor prepara a aula, ministra e tem de perceber a hora de parar. "O professor não tem sinal indicando que a aula acabou. O sinal é o limite do aluno."
              São os professores também que procuram os alunos pelas alas do hospital -- eles recebem uma notificação eletrônica quando o paciente entra em algum procedimento.
              Quase todos os 270 pacientes da instituição estudam. O projeto já atendeu mais de mil alunos desde que começou, em 2000.

                quinta-feira, 4 de julho de 2013

                Jovens fazem vídeos para falar de sexo e até transexualidade

                folha de são paulo
                SABINE RIGHETTI
                DE SÃO PAULO

                Um projeto que tem apoio da Fundação Carlos Chagas resolveu colocar o melhor interlocutor possível para falar sobre temas de sexo com os jovens: os próprios jovens.
                Em um conjunto de cinco vídeos disponíveis no YouTube (www.youtube.com/user/DarVozaosJovens), eles falam sobre temas como gravidez precoce, violência sexual e transexualidade.
                Os "atores" têm de 14 a 19 anos, a maioria de escolas públicas paulistas, e estão participando de um projeto do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).
                "Fizemos um diagnóstico e vimos que existe muito material em livros, vídeos e afins sobre sexo. O problema é que esses materiais tem uma linguagem muito formal", explica Thais Gava, responsável pelo Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas.
                Mais de 50 jovens se inscreveram para o projeto. Ao todo, 19 foram selecionados.
                O grupo escolheu os temas dos vídeos e fez um curso de produção dos roteiros que durou mais de 80 horas, em julho do ano passado.
                Depois, os jovens escreveram os seus roteiros e foram às gravações com ajuda de um apoio técnico do projeto.
                Nos vídeos, alguns encenam. Outros contam sua própria história: "Eu apanhava quase todo dia na escola. Foi por causa disso que parei de estudar", conta um aluno transexual no vídeo "Essa é a minha vida" --o mais assistido até o momento.
                De acordo com Gaya, a ideia é debater temas que fazem parte do dia a dia dos jovens "sem tabu".
                Um desses temas, que mais chama atenção pelo impacto que tem na vida escolar, diz Gaya, é a homofobia.
                "Se o jovem não vai à escola por causa de discriminação ele sofrerá consequências."
                A ideia agora é divulgar os vídeos em escolas públicas e particulares e incluir o material na formação de professores. "Não podemos partir do pressuposto de que o professor sabe lidar com questões de sexualidade", diz Gaya.

                sexta-feira, 28 de junho de 2013

                Conselho da USP aprova bônus racial para o vestibular

                folha de são paulo
                Proposta também aumenta bonificação para egressos de escola pública; ideia é atingir metas de inclusão do governo
                Documento ainda vai passar pelo Conselho Universitário da USP; Unesp e Unicamp já aprovaram suas metas
                SABINE RIGHETTIFÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOO Conselho de Graduação da USP aprovou ontem a criação de bônus de 5% no vestibular para candidatos de escolas públicas que se declararem pretos, pardos ou indígenas. Hoje, não há benefício específico para esse grupo.
                Haverá ainda aumento do bônus para os demais candidatos da rede pública. A pontuação máxima pode ir dos atuais 15% para 20%.
                Ou seja, um aluno autodeclarado preto, pardo ou indígena que cursou o ensino básico na rede pública poderá ter um acréscimo de até 25% na sua nota no vestibular. Hoje, ele só pode chegar aos 15%.
                A instituição aposta no aumento dos bônus no vestibular para atingir as metas do projeto apresentado em dezembro pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP).
                O governo quer que 50% dos calouros de cada curso das universidades estaduais paulistas --USP, Unicamp e Unesp-- sejam egressos de escolas públicas, sendo pelo menos 35% deles pretos, pardos e indígenas. O plano é atingir essas metas em 2016.
                Hoje, 28% dos aprovados na USP estudaram na rede pública. A universidade pretende alcançar as metas em 2018.
                O documento ainda passará pelo Conselho Universitário no próximo dia 2. Se aprovado, valerá já para o próximo vestibular.
                CURSINHO
                A USP aprovou ainda um reforço escolar --curso pré-vestibular-- para alunos da rede pública. Serão mil vagas, 35% delas em cota racial.
                O documento aprovado na USP, ao qual a Folha teve acesso com antecedência, é uma síntese das sugestões feitas pelas suas 42 unidades.
                A USP foi a última universidade estadual paulista a aprovar as metas do governo.
                A aprovação da Unesp foi em abril. Em junho, a Unicamp dobrou os bônus no vestibular para estudantes do ensino médio público e aos pretos, pardos e indígenas.

                  segunda-feira, 24 de junho de 2013

                  País em Protesto: Virou aula - Sabine Righetti

                  folha de são paulo
                  PAÍS EM PROTESTO
                  Virou aula
                  Disciplinas como história, português e sociologia discutem as manifestaçõespelo país; segundo professores, a demanda parte dos próprios alunos, que querem entender o que está acontecendo
                  SABINE RIGHETTIDE SÃO PAULOSe está difícil para os adultos entenderem o que está acontecendo nas manifestações que tomaram conta do país nos últimos dias, está mais complicado ainda para as crianças e os adolescentes.
                  A demanda dos jovens por mais informações é tão grande que algumas escolas de São Paulo passaram a debater o tema em aulas de disciplinas como história, geografia e redação.
                  "Abrimos espaço na aula para contextualizar o que está acontecendo. Os estudantes traziam muitas questões", diz Walter Maejima, professor de geografia do São Luís.
                  A professora de história do colégio Santo Américo, Raquel dos Santos Funari, sentiu a mesma demanda.
                  "Eles querem saber o que está acontecendo. Relacionei o tema em aula com manifestações que aconteceram na Europa no século 18", conta.
                  A Folha acompanhou uma aula de sociologia no 2º ano do ensino médio no colégio Santa Maria para ver como as manifestações estão sendo tratadas em classe e quais são as questões dos estudantes.
                  De acordo com o professor e antropólogo Bernardo Fonseca Machado --que escrevia na lousa palavras como "alfabetização política", "transporte" e "partidos"--, o interesse dos alunos é crescente.
                  "Quando comecei a lecionar aqui, os alunos nunca tinham participado de nenhuma manifestação. Hoje isso mudou." Da turma do 2º ano, 10% dos alunos estiveram nos protestos recentes.
                  Alguns até reclamam por não terem estudado o tema mais cedo. "Deveríamos ter discutido essas questões [como alfabetização política] antes de as manifestações começarem", disse João Pedro Martins, 16. Os alunos concordaram com a cabeça.
                  REFLEXÃO POSITIVA
                  Para a psicopedagoga Neide Barbosa Saisi, da PUC-SP, essa reflexão nas escolas e em casa é "bastante positiva".
                  "O que é democracia? O que é participar? Qual é a função da PM na sociedade? Essas questões podem ser debatidas em aula", explica.
                  Os alunos, especialmente do ensino médio, relatam os professores, são os mais ansiosos por informações.
                  "Muitos deles trazem a opinião dos pais", conta a professora de redação Roberta Baradel. Ela dá aula no Arbos, da rede Uno Internacional, e na escola municipal Oscar Niemeyer, entre outras escolas de São Caetanos do Sul. "Depois do debate, muitos mudam de ponto de vista."
                  Mas o assunto não está apenas na sala de aula. Na Escola Internacional Alphaville, por exemplo, os alunos têm se reunido em uma espécie de assembleia, no horário de aula, para discutir o tema.
                  E fora da escola? Pais e professores devem incentivar os estudantes a participarem dos protestos nas ruas?
                  "Como mãe, teria medo. É preciso mostrar que há um risco", diz Saisi, da PUC-SP.

                    Imagina se educação fosse igual a futebol

                    folha de são paulo
                    Gilberto Dimenstein
                    Aproveitando o calendário esportivo, o Movimento Todos pela Educação lançou pelos meios de comunicação uma interessante provocação. Uma provocação que poderia ser vista como alucinação.
                    Foi sugerido que imaginássemos um Brasil tão apaixonado pela escola como é pelo futebol. Já pensou se acompanhássemos o desempenho das escolas como se acompanham os campeonatos. E os pais se comportassem como uma torcida vaiando e aplaudindo.
                    Podemos estar muito longe desse sonho. Mas talvez não seja alucinação.
                    É o que concluo a partir das manifestações. A mais recente pesquisa Datafolha mostrou que, segundo os paulistanos, a educação deveria ser o segundo foco mais importante dos protestos (o primeiro, saúde).
                    Pela pesquisa, educação está muito na frente da transporte público de qualidade ou segurança.
                    Vemos também que nas manifestações a paixão pelo futebol se misturou a cobranças sobre os gastos com as arenas, vistas como desperdícios. E vieram pedidos de mais recursos para saúde e educação.
                    Isso forçou a presidente Dilma Rousseff a se comprometer mais uma vez a drenar 100% do dinheiro do pré-sal nas escolas.
                    O próprio fato de que cerca de 80% dos manifestantes que lançaram os protestos têm ensino superior já mostra como investir em educação consegue fazer um país mais transparente.
                    Vamos virar uma nação civilizada quando for consenso de que o melhor investimento para nos tornar desenvolvidos é a escola pública de qualidade - o resto é resto.
                    Aproveito o tema para mostrar uma seleção de como usar a internet para aprender sem gastar dinheiro - e com materiais de alta qualidade. Veja.
                    Gilberto Dimenstein
                    Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.

                    terça-feira, 11 de junho de 2013

                    USP lança curso on-line de física e de estatística

                    folha de são paulo
                    SABINE RIGHETTI
                    DE SÃO PAULO

                    A USP lança amanhã seus primeiros cursos abertos e gratuitos na internet, na onda do que já tem sido feito nos EUA nos chamados Moocs (sigla em inglês para curso massivo on-line e aberto).
                    Por aqui, os cursos serão de física mecânica básica e de probabilidade e estatística. Ambos compõem o primeiro ano das engenharias.
                    Os interessados devem se inscrever a partir de amanhã no Veduca (veduca.com.br), plataforma na internet que reúne os cursos.
                    De acordo com os organizadores da Poli USP, os cursos podem ser feitos por qualquer pessoa. Mas são montados tendo em mente um estudante do primeiro ano de um curso de engenharia.
                    "A qualidade USP tem de ser acessível a toda sociedade", diz o físico Vanderlei Salvador Bagnato, da USP de São Carlos, responsável pelo curso de física mecânica básica.
                    Esse curso tem 45 videoaulas acompanhadas de exercícios. As atividades devem levar pelo menos três meses para serem concluídas.
                    Ao final, há um exame. Se aprovado, o aluno ganha um certificado -que não vale, ainda, como crédito de graduação ou de pós-graduação.
                    "Mas pode ser que, no futuro, alguns cursos de engenharia passem a usar o certificado do nosso curso on-line como crédito", acredita.
                    No curso de probabilidade e estatística, as videoaulas duram em média 15 minutos. "Senão o aluno se distrai", diz Melvin Cybalista, da Poli-USP, que ministra o curso.
                    O modelo da Veduca segue plataformas já usadas nos EUA como edX (com 59 cursos) e Coursera (com 386 cursos), de universidades de ponta como Harvard e MIT.
                    Nessas plataformas, há desde introdução à programação até noções sobre direitos humanos. A USP também quer expandir a oferta.
                    A iniciativa não é inédita no Brasil. A ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) já conduziu um Mooc independente, sobre língua portuguesa, que começou em abril e terminou ontem, com mais de 5.000 inscritos.
                    *
                    SAIBA MAIS
                    Cursos oferecidos
                    Física mecânica básica (com certificado)
                    Probabilidade e estatística (sem certificado)
                    Valor
                    Gratuito
                    Duração
                    Média de três meses, mas o ritmo é determinado pelos alunos
                    Quem pode fazer
                    Qualquer pessoa. Não há exigência de formação, mas os cursos são planejados para estudantes de cursos de engenharia
                    Inscrições
                    Abertas a partir de amanhã, no site Veduca (www.veduca.com.br), que servirá como plataforma para os cursos