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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Cesta básica cai em todo o país, e alimentos derrubam inflação - Tatiana Freitas

folha de são paulo
Cesta básica cai em todo o país, e alimentos derrubam inflação
Antes vilão, tomate leva cesta de produtos essenciais à primeira queda generalizada desde 2007
Para analista, alimentos voltam a subir em agosto com leite, carnes e trigo; BC fala em convergência com meta
TATIANA FREITASDE SÃO PAULOVilões nos primeiros meses do ano, os alimentos apresentam queda generalizada de preço e, agora, empur- ram para baixo os índices de inflação.
Em julho, o valor da cesta básica caiu em todas as capitais pesquisadas pelo Dieese --fato inédito desde 2007.
Itens retirados momentaneamente dos carrinhos de compra devido ao alto preço, como o tomate e o feijão, tiveram as maiores influências para a queda no mês passado.
"Há muita volatilidade nos preços desses alimentos, que dependem das condições de clima e safra", diz José Silvestre, coordenador do Dieese.
Historicamente, a maioria dos alimentos "in natura", como hortaliças e frutas, sobe nos primeiros meses do ano, devido ao excesso de chuvas, e caem na metade, beneficiados pelo clima.
É o que acontece neste momento. Além disso, a colheita de grãos já foi encerrada no país, garantindo boas condições de oferta para soja e milho --ingredientes em muitos alimentos industrializados e na ração de animais.
Mas, apesar de a queda recente não ter sido suficiente para anular a alta do primeiro semestre --no acumulado do ano, a cesta básica só cai em Florianópolis--, a deflação de alimentos deve perder força nos próximos meses.
"Julho deve ser o pico de queda para os preços dos alimentos ao consumidor", diz Adriana Molinari, analista da Tendências Consultoria.
Para ela, a inflação de alimentos volta para o terreno positivo em agosto.
Segundo a analista, os preços no atacado já mostram desaceleração da queda de preços nos itens "in natura" e alta das carnes, do leite e de derivados do trigo.
Nesses casos, o preço sobe por causa de restrições na oferta. No caso do trigo, a alta do dólar também pesa, já que pelo menos metade do abastecimento é garantida pelo produto importado.
O impacto do câmbio na inflação só não é maior porque as matérias-primas caem no mercado internacional.
"A dinâmica internacional das commodities mais do que está compensando a alta do dólar", diz em relatório o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otavio Leal.
Para o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, o impacto do câmbio na inflação será limitado. "A trajetória de convergência para a meta [de 4,5%] se inicia neste semestre", disse ontem.

    quinta-feira, 11 de abril de 2013

    Entrevista Nildemar Secches


    Imprevisibilidade econômica é maior problema do país
    Um dos conselheiros mais influentes do Brasil, ex-BRF admite mágoa no processo de saída da empresa
    TATIANA FREITASFOLHA DE SÃO PAULOO principal problema para as empresas é a falta de previsibilidade no ambiente econômico, diz Nildemar Secches, um dos conselheiros mais influentes do país.
    Secches deixou ontem a presidência do conselho de administração da BRF (companhia resultante da fusão entre Sadia e Perdigão), mas permanece no conselho de cinco empresas líderes nos setores em que atuam --do financeiro ao industrial. "É uma forma de ter uma visão da economia como um todo."
    Com base nesse trânsito e na experiência --Secches comandou a BRF durante 18 anos, após outros 18 anos no BNDES--, ele diz que as empresas precisam de estabilidade nas variáveis macroeconômicas para investir.
    Em entrevista exclusiva no primeiro dia desligado da BRF, admitiu mágoa no processo que resultou na saída da empresa --ele soube da insatisfação dos fundos sobre a sua gestão pela imprensa.
    "A pessoa não teve a hombridade de me falar pessoalmente. Isso me magoou."
    Folha - Qual é o principal problema das empresas brasileiras atualmente?
    Nildemar Secches - A economia como um todo está perdendo competitividade, e isso é resultado de uma combinação de várias coisas. Mas o Brasil precisa, mais do que tudo, de regras relativamente estáveis. A indústria, para ser eficiente, precisa antes de mais nada de horizonte.
    O empresário faz ganhos de produtividade de curto prazo, mas eles são sempre marginais. Os grandes ganhos de eficiência se fazem no longo prazo. Eu vejo muitas coisas sendo feitas (para estimular a economia) e todo mundo reclama que não dá resultado.
    Elas terão algum efeito?
    Vão produzir efeitos no longo prazo se ficarem estáveis e de uma forma ordenada para que o empresário tenha condição de ter uma previsibilidade, para incorporar isso no seu planejamento. Você pode ter ganhos específicos setoriais de curto prazo, mas, para a economia como um todo, são pouco relevantes.
    Onde falta previsibilidade?
    Tem quatro grandes variáveis macroeconômicas --juros, câmbio, salário e tributos-- nas quais você precisa ter previsibilidade. As mudanças na desoneração da folha são superbem-vindas. Agora, causa insegurança você ter uma parte da economia num sistema e parte em outro.
    Esse ambiente afasta os investidores das empresas?
    Sim, o humor dos investidores estrangeiros azedou. E, quando começa a ter algum tipo de restrição dos investidores, os empresários também se perguntam: vou entrar nisso sozinho? Eles se retraem.
    O que as empresas fizeram uma boa parte da vida delas está baseado no espírito de confiança do brasileiro. Ele confiava que tudo ia dar certo e ia fazendo. Só que as empresas foram adquirindo dimensões tão grandes que hoje, no "feeling", é muito difícil. As empresas têm dimensões internacionais.
    Há maior preocupação com o grau intervencionista do governo na economia?
    Dos investidores estrangeiros sim, sem dúvida. Dos investidores nacionais, há nos setores que estão mais ligados a regulação, concessões. Nos segmentos mais concorrenciais, eu diria que não há essa preocupação.
    A inflação preocupa mais?
    No meu ponto de vista, a inflação não joga o principal papel nesse processo. É importante, mas ela dá um tom de curto prazo para um problema de longo prazo, que é a estruturação da economia.
    Como é deixar a BRF após 18 anos à frente dela?
    Tem a sensação de perda de uma relação que foi muito boa. Obtivemos sucesso todos juntos. Éramos um grupo muito unido. Somos, não é? Esperamos continuar sendo.
    Mas isso foi preparado. Decidi sair agora porque a companhia, nos dois últimos anos, adquiriu características que de certa forma estavam conflitando, querendo rediscutir muitos assuntos, estratégias... Achei que minha saída facilitaria o processo.
    A data foi definida no fim do ano passado?
    Sim, em dezembro já havia conversado com a Previ. Depois ocorreram todos aqueles fatos que deram uma sensação um pouco ruim desse processo, que era para ter sido absolutamente normal.
    A mudança, então, não ocorreu porque havia acionistas incomodados com o retorno?
    Isso é o que me incomodou um pouco, porque eu fiquei sabendo pelos jornais. Apareceram coisas estranhas, questionamentos de que a empresa não está com dinamismo de crescimento.
    Ora, a empresa cresceu 26% ao ano, 18 anos seguidos. Mas eu não posso nem fazer uma crítica aberta, porque não me foi feita uma crítica diretamente.
    Esse desfecho o magoou?
    Sim. Não precisava ser feito dessa forma. A pessoa não teve a hombridade de falar pessoalmente, isso me magoou. Ponto. Mais nada. Não tenho nada contra o Abilio (Diniz, eleito anteontem presidente do conselho da BRF).
    O sr. vê conflito de interesses no fato de Abilio acumular a presidência dos conselhos da BRf e do Pão de Açúcar?
    Não vou opinar. Os acionistas são soberanos para decidir sobre isso e eles já decidiram.
    Leia a íntegra
    folha.com/no1260642

      RAIO-X - NILDEMAR SECCHES
      IDADE
      64 anos
      FORMAÇÃO
      Engenheiro, com pós-graduação em finanças e doutorado em economia
      CURRÍCULO
      Membro dos conselhos de administração do Itaú, Weg, Suzano, Ultrapar e Iochpe-Maxion; foi presidente da Perdigão de 1995 a 2008 e, após fusão da empresa com a Sadia, assumiu a presidência do conselho de administração da BRF, função que deixou anteontem

      quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

      Crise da carne de cavalo assusta exportador

      folha de são paulo

      Temor no curto prazo é que o escândalo na Europa diminua o interesse dos consumidores pelo produto bovino
      Problema tem origem na oferta escassa de carne de boi no bloco europeu, que tem várias regras para importar
      TATIANA FREITASDE SÃO PAULO
      O escândalo envolvendo a presença de carne de cavalo em alimentos na Europa pode prejudicar o consumo de carne bovina no continente e as exportações brasileiras.
      "O primeiro sintoma que se vê no mercado, em uma crise como essa, é queda de consumo. É ruim para todos", diz o diretor-executivo da Abiec (Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina), Fernando Sampaio.
      Ontem, o Ministério da Agricultura francês noticiou queda de 5% na venda de alimentos congelados desde o início do escândalo, segundo agências internacionais.
      Nos últimos dois meses, a presença de carne de cavalo tem sido detectada em produtos prontos que deveriam conter só carne bovina, como hambúrgueres e lasanhas, em alguns países da Europa.
      No longo prazo, porém, superada a crise de confiança, os exportadores brasileiros esperam que as lições aprendidas com as fraudes na Europa resultem em flexibilização das regras impostas para as importações de carne.
      "O Brasil pode se consolidar como um provedor seguro", diz Antonio Camardelli, presidente da Abiec.
      EXIGÊNCIAS
      A União Europeia é um dos importadores de carne mais exigentes quanto à origem e à qualidade dos produtos que vêm de outros países.
      Para comprar carne bovina do Brasil, o segundo maior exportador mundial, o bloco determina que os animais sejam rastreados individualmente. A exigência pede um investimento adicional de quem pretende vender à Europa, já que as regras brasileiras exigem apenas a rastreabilidade por lotes.
      O bloco também proíbe suplementação animal e impõe cotas de importação, que em alguns casos, como os do Brasil e da Argentina, não têm sido preenchidas.
      Sem contar a tributação, que pode chegar a 150% do valor do corte, dependendo do sistema no qual é feita a venda, segundo Camardelli.
      Com o aumento da demanda por carne em países emergentes nos últimos anos, o investimento para vender à Europa deixou de compensar.
      O resultado é a menor oferta de carne bovina e preços altos na Europa. "Se alguns processadores usaram carne de cavalo em vez da bovina, é porque encontraram uma alternativa mais barata de produção", diz Camardelli.
      O custo da carne de cavalo é menor porque ela normalmente tem origem em animais de descarte; já os bovinos são criados para o corte.
      Até 2007, Romênia e Bulgária atuavam como fornecedoras de carne processada para a indústria europeia de embutidos. Compravam cortes menos nobres de grandes produtores, como o Brasil, processavam e vendiam.
      Ao integrar a UE, a tributação desses países mudou, tornando inviável essa prática. "Está tudo relacionado à falta de carne", diz Camardelli.