sábado, 19 de janeiro de 2013

'Papelinhos' recontam com sabor vida pré-independência

folha de são paulo

Afixados à noite, não era raro encontrar aí epítetos injuriosos, gozações, desenhos obscenos
MARY DEL PRIOREESPECIAL PARA A FOLHADesde a invenção da imprensa por Gutemberg, a cultura do Ocidente transformou-se. Viu-se capaz de reproduzir o escrito mais rápido e barato.
Assistiu, também, a uma circulação maior de textos, tanto na vida privada quanto na praça pública. No novo mundo do impresso, panfletos tinham vários papéis -desculpem o jogo de palavras- e eram chamados de "papelinhos".
Manuseados por prazer, devoção, poder ou saber, divulgavam eventos, explicavam fatos, celebravam conquistas, convenciam a opinião pública.
Impressos ou manuscritos, eram colados em lugares onde pudessem ser lidos por passantes. Afixados clandestinamente, na maior parte das vezes à noite, não era raro encontrar aí epítetos injuriosos, gozações, desenhos obscenos e palavrões.
No Brasil, distribuídos de mão em mão ou lidos em voz alta para um público ansioso por notícias, tais papelinhos ganharam visibilidade entre 1820 e 1822.
Foram anos incendiários nos quais, em capitais como Salvador e Rio, a população se dividiu entre a fidelidade à coroa portuguesa ou o desejo de autonomia política.
E, longe de serem consumidos passivamente, tais panfletos faziam parte da ação política: "Às armas, cidadãos", concita um deles com sabor de Marselhesa.
E é ele que dá título ao precioso livro organizado por três especialistas: José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile.
Raríssimos, antes guardados nas Coleções Especiais do Arquivo do Itamaraty, os 32 panfletos aí reunidos revelam a combustão que marcou a época.
Neles, a febre política se expressa numa comovente caligrafia: letras tortas ou de fôrma, erros de português ou listas de nomes, frases diretas ou rimas poéticas nos contam como se sentiam os moradores da América portuguesa frente a questões como a futura Constituição portuguesa, o rei dom João 6º, "os aduladores e sanguessugas do Estado", "a anarquia na cidade", enfim, um retrato nítido dos debates políticos de então.
Mais. Retrato de diferentes vozes: a dos letrados eruditos e a das ruas. A reunião de documentos é tão mais importante quanto os estudos sobre os anos que antecederam a emancipação de Portugal vêm revelando os bastidores de um movimento que oscilava entre ser fiel às ideias liberais e ao constitucionalismo ou manter-se atrelado à dinastia de Bragança e a unidade do império português.
Se a revolução em curso hoje, graças aos meios eletrônicos, é considerada maior do que a de Gutemberg, restam lições do passado.
Um dos papelinhos previne: "Estais em tempo de pôr esta Corte em ordem, e se agora não o fazeis, vamos a consumar a vida a esta corja de ladrões!". Judicioso papelinho!
MARY DEL PRIORE é historiadora e autora de "Histórias Íntimas" (Planeta do Brasil).
ÀS ARMAS, CIDADÃOS!
ORGANIZAÇÃO José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 42 (240 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

    Painel das Letras - Raquel Cozer

    FOLHA DE SÃO PAULO

    O resgate de Maura
    Nascida rica no interior de Minas, em 1930, e anunciada como escritora relevação em edição de 1958 do "Jornal do Brasil", Maura Lopes Cançado morreu no esquecimento, em 1993. Estava cega e vivia sozinha, após inúmeras internações em instituições psiquiátricas, numa das quais matou outra paciente. Passados 20 anos, é tão deixada de lado que nem verbete na Wikipedia tem.
    A jornalista carioca Daniela Lima pretende trazê-la à tona. Passou dois anos investigando a vida da autora de "Hospício É Deus" (1965) e "O Sofredor do Ver" (1968) e agora termina uma biografia, ainda em busca de editora. Seu plano é que a obra saia simultaneamente a uma reedição de "Hospício É Deus", há anos fora de catálogo.
    HQ
    Em 'A Arte: Conversas Imaginárias com a Minha Mãe', híbrido de ensaio, autobiografia e ficção que sai neste ano pela WMF Martins Fontes, o espanhol Juanjo Sáez revê a história da arte e sua memória familiar
    Você decide 1 A Verus quer trazer a uma nova geração os livros no estilo "Enrola e Desenrola", lançados pela Ediouro nos anos 80 e considerados precursores do RPG, nos quais o leitor escolhe ao fim de cada página opções de continuidade da trama.
    Você decide 2 A editora comprou seis títulos da enorme série "Escolha sua Aventura". Os primeiros serão "O Abominável Homem da Neve" e "Jornada ao Fundo do Mar", ambos de R.A. Montgomery. Se forem bem aceitos, outros serão adquiridos.
    Infantojuvenil A Zahar prevê para abril o lançamento do selo Pequena Zahar, sob coordenação de Dolores Prades. Os títulos iniciais serão "Os Detetives do Prédio Azul", de Flávia Lins e Silva, e "Jemmy Button: O Menino que Darwin Levou de Volta para Casa", com texto de Alix Barzelay e ilustrações de Jennifer Uman e Valerio Vidali.
    Mais "Godô Dança", infantil de Carolina Vigna-Marú, foi tão bem avaliado pela Manole-em especial pela boa venda ao governo- que a editora lançará outros títulos sobre o cão fora do comum: "Godô Cozinha", "Godô Planta" e "Godô Joga Capoeira".
    Superação É da Rocco "Sauve-Toi, La Vie t'Appelle (salve-se, a vida o chama), do neuropsiquiatra Boris Cyrulnik. No livro, o francês, único sobrevivente de uma família de judeus morta no Holocausto, usa as próprias memórias para realizar um estudo de caso sobre superação.
    Surrealista 1 Vítima de uma tuberculose extrapulmonar que o manteve internado boa parte da vida e o matou aos 28 anos, o surrealista Max Blecher (1909-1938) produziu o bastante para virar um dos maiores nomes da literatura romena no século 20.
    Surrealista 2 Blecher ainda é inédito no Brasil, mas por pouco tempo. Em março, com subsídio da Romênia e tradução de Fernando Klabin, a Cosac Naify lança o romance "Acontecimentos na Irrealidade Imediata".
    Trintão O hit "Alongue-se", de Bob Anderson, precursor do alongamento no Brasil, terá em março edição comemorativa de 30 anos pela Summus. Após 28 reimpressões de três edições diferentes, vem recauchutado, com novas informações -inclusive sobre trabalho em frente ao computador, tema que não dava ibope quando o livro saiu aqui.
    LEIA MAIS EM http://www.folha.com/abibliotecaderaquel

      Álvaro Pereira Júnior

      FOLHA DE SÃO PAULO

      Luxo e pobreza no rock
      Dois músicos praticamente da mesma geração, mas com destinos cruelmente opostos
      Um trabalhava nas madrugadas como frentista, era anoréxico, tornou-se músico sem estudo formal, virou ídolo (pelo menos de outros músicos), tem horror ao mundo corporativo das gravadoras e, agora, afundado em dívidas, precisou pedir dinheiro aos fãs pela internet para pagar o aluguel atrasado.
      O outro tem origem de classe média, cresceu saudável, frequentou faculdade de música, criou um selo próprio para lançar o primeiro disco, sempre fez tudo sozinho, ganhou um Oscar e hoje mora em uma mansão envidraçada nas montanhas de Los Angeles.
      O primeiro é o inglês Vini Reilly, 59, líder e guitarrista da banda Durutti Column (não se sinta ignorante se não conhecer -99,9999% da humanidade estão no mesmo barco). Seus discos, sem exceção cultuados por especialistas de todo o mundo, sempre venderam muito pouco.
      O segundo, quem viu a entrega do Oscar 2012 talvez se lembre, é o americano Trent Reznor, 47, líder da banda Nine Inch Nails e autor da trilha sonora de "A Rede Social", pela qual foi premiado pela Academia. Sucesso de crítica e público (pelo menos no mundo do rock alternativo), já vendeu 16 milhões de CDs.
      São praticamente da mesma geração, mas tiveram destinos cruelmente opostos.
      Vini é filho do pós-Guerra. Como tantos de seus contemporâneos e conterrâneos do rock, não frequentou "art school", aprendeu nas ruas o muito que sabe.
      Trent, não se pode dizer que tenha sido criado a pera com leite, mas, em comparação à dureza da infância e adolescência de Reilly, é um perfeito filhinho de papai.
      O som de Vini Reilly, primordialmente um guitarrista, costuma ser chamado de pós-punk. Mas essa é só uma definição cronológica. Musicalmente, ele não tem nada a ver com as outras bandas desse período. Durutti Column incorpora os violões do flamenco, alguns climas de jazz e de música ambiente. É um esforço e tanto chamá-lo de rock.
      Sobre a música de Trent Reznor e seu Nine Inch Nails, não há dúvida. É rock, da vertente industrial. Violento, confessional e fortemente baseado em sintetizadores. Vi o grupo em início de carreira, nos EUA, em março de 1990. Os músicos trocavam socos entre si e tratavam a plateia a golpes de correntes e cusparadas de cerveja.
      Ambos, Vini Reilly e Trent Reznor, são absurdamente talentosos. Topei com os dois, metaforicamente, no começo do ano.
      Com Trent, em um perfil publicado na revista "New Yorker" de 17/12/2012. Com Vini, lendo, nos primeiros dias de 2013, o blog de música do diário inglês "Guardian".
      A reportagem da "New Yorker", assinada por Alec Wilkinson, faz uma radiografia detalhada de Reznor. Mostra que ele foi o primeiro a introduzir melodia na aspereza do rock industrial. E que também foi pioneiro nesse gênero ao atuar como "frontman", face pública de uma banda. Até então, o rock industrial, de origem europeia e com forte influência marxista, rejeitava o individualismo.
      O post do "Guardian" sobre Vini Reilly era tristeza pura. Relatava como um sobrinho do músico, para o tio não ser despejado, entrou no site oficial da banda pedindo doações. A mobilização foi imediata.
      Em poucas horas, o sobrinho voltou a fazer contato, dizendo que já tinham arrecadado R$ 9,5 mil e não era preciso mais mandar dinheiro.
      A história de Reznor é tumultuada, principalmente pelos problemas que teve com cocaína e heroína. Mas é uma história de showbizz, como tantas que se conhecem nesse meio.
      Já a de Reilly é absolutamente incomum. Para começar, ele não conseguia aceitar a ideia de ter seu trabalho em lançamento comercial.
      Quando um dia foi visitar a sede da gravadora Factory e viu seu primeiro álbum sendo embalado (por ninguém menos que o pessoal do Joy Division, que era do mesmo selo e dava uma força ao amigo), saiu correndo de pavor.
      Também era, e é, dono de uma autocrítica incapacitante. Considera todos os seus álbuns -com exceção de "Keep Breathing", de 2006- fracassos musicais.
      Reznor esbanja vigor físico. Reilly se recupera de três acidentes vasculares cerebrais nos últimos dois anos. O americano enxergou um caminho relativamente suave em meio a um gênero musical essencialmente abrasivo.
      Ironicamente, o inglês, de matriz musical mais plácida, mergulhou em abismos que ele próprio criou.
      Trent Reznor se vira sozinho. Torçamos por Vini Reilly.

      Fotobiografia traz contradições e mal-entendidos da vida de Cartola

      FOLHA DE SÃO PAULO


      Livro de Denilson Monteiro reúne imagens do compositor e também manuscritos de seus sambas
      Autor diz que sua obra serve para acabar com "lendas" equivocadas sobre alguns casos do cantor mangueirense
      MARCO AURÉLIO CANÔNICODO RIO"Minha vida é como um filme de mocinho. Acabei vencendo quase no final."
      Assim Cartola (1908-1980) resumia sua atribulada trajetória, na qual o amplo reconhecimento artístico e o relativo sossego financeiro só viriam a partir dos 65 anos (sete antes de sua morte), quando conseguiu gravar o primeiro de seus quatro discos.
      O roteiro deste "filme de mocinho", incluindo imagens de alguns momentos simbólicos, está registrado em "Divino Cartola - Uma Vida em Verde e Rosa", fotobiografia escrita por Denilson Monteiro, que está sendo lançada pela Casa da Palavra.
      O livro, em edição bilíngue (português-francês) graças ao patrocínio de empresa francesa, traz um CD com o último show registrado do mangueirense, no penúltimo dia de 1978, em São Paulo.
      Mostra um personagem marcado por contradições e mal-entendidos, desde o nascimento: Agenor foi registrado erroneamente como Angenor -e só descobriria isso aos 56 anos, passando a adotar o registro oficial.
      Seu nome artístico também é fruto de um engano: o chapéu-coco que comprou para proteger o cabelo dos respingos de cimento, quando trabalhou como pedreiro, aos 15 anos, foi erroneamente chamado pelos colegas de obra de cartola, e o apelido pegou.
      Elegante no trato e no visual, dono de "delicadeza visceral", como escreveu Carlos Drummond de Andrade em texto reproduzido no livro, Cartola foi mulherengo, bom de copo e de confusões, principalmente na juventude.
      "Eu conhecia a figura daquele senhor elegante, de postura reta, que você ficava contemplando, e descobri esse jeito mais malandro dele no início da vida, o que me surpreendeu", diz o autor.
      Não por acaso, quando Angenor perdeu a mãe, aos 17 anos, e saiu de casa brigado com o pai, este deixou um recado para quando o filho voltasse à Mangueira: "Vou-me embora deste morro, mas deixo aqui um Oliveira para fazer a vergonha da família."
      O vaticínio não se confirmaria, mas Cartola penaria um bocado antes de se tornar o orgulho não apenas da família, mas da Mangueira, a escola de samba que ajudou a fundar (e que nomeou).
      MANUSCRITOS
      Além de fotos de diversos momentos da vida do artista e dos ambientes que ele frequentava -a Mangueira e seus sambistas do início do século passado, suas casas, seus amigos e amores-, o livro reproduz manuscritos.
      Neles, é possível notar não apenas a cuidadosa caligrafia, mas modificações feitas em clássicos como "Disfarça e Chora" -cujos últimos versos originalmente diziam "E seu pranto / Oh triste senhora / É molhar no deserto" em vez de "vai molhar o deserto", como acabou registrado.
      Monteiro diz ter aproveitado a pesquisa para "acabar com lendas", como a de que o clássico "O Mundo É um Moinho" teria sido feito para uma filha que saiu de casa -foi inspirada por um amigo abandonado por seu amor.
      CANÇÕES DE ERASMO
      Monteiro concentra suas atenções em um livro com as letras de Erasmo Carlos, feito em parceria com o próprio -uma espécie de biografia das canções do Tremendão.
      Também está envolvido em dois documentários sobre figuras cuja biografia escreveu: Carlos Imperial (1935-1992) e Ronaldo Bôscoli (1928-1994).
      DIVINO CARTOLA - UMA VIDA EM VERDE E ROSA
      AUTOR Denilson Monteiro
      EDITORA Casa da Palavra
      QUANTO R$ 80 (208 págs.)