terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Anna Veronica Mautner

folha de são paulo

OUTRAS IDEIAS
ANNA VERONICA MAUTNER - amautner@uol.com.br
Telefone, um inimigo necessário
Estar disponível significa perder graus de liberdade, mas, ao mesmo tempo, ganhar em acessibilidade
Na vida nossa de cada dia, muitos tornam o número de telefone acessível, nem sempre com disposição para atender as exigências que disso decorrem. Existe aí uma responsabilidade em relação ao "outro". Se eu dou meu número para alguém, estou anunciando que sou acessível.
No tempo em que existia lista telefônica, isso poderia ser discutível, pois os números ficavam públicos de certa forma, por lei. Mas, hoje, meu número de celular não está em lista oficial nenhuma, só é acessível se eu der. A partir daí, torno-me responsável por atendê-lo. O processo funciona em mão dupla. Quando ligo para alguém, imagino que vá me atender -senão, por que teria me dado seu número?
A relação com a telefonia é uma escolha pessoal. Há quem ama falar, há quem é lacônico. Seja como for, tornar-se acessível significa perder graus de liberdade e, ao mesmo tempo, ganhar em acessibilidade.
O telefone me torna pública, mas também pode preservar minha privacidade. Para me garantir e me defender, posso usar a secretária eletrônica ou o bina, aliás, inventado e patenteado por um brasileiro.
Tudo isso é muito recente. Há cinquenta anos, o telefone era uma raridade reservada para pessoas da classe A. A linha era comprada a preço de ouro. Muitas lojas não tinham mais do que um aparelho -muitas vezes com cadeado; outras, com cadeado só das 13h às 15h, quando ilegalmente recebiam o resultado do jogo do bicho -não disponível para fregueses.
E, então, um dia, privatizaram a companhia telefônica, e a cidade foi inundada por telefones. Logo depois chegaram os celulares, que invadiram definitivamente nossa vida.
Tudo isso transformou as relações interpessoais de maneira avassaladora. Não atender o celular pode ser visto quase como um estelionato. Você está privando o outro do acesso a você -que você prometeu quando deu o número.
O celular foi uma revolução tão grande quanto a difusão do telefone fixo. Se ligo para o fixo de alguém que não me atende, só sei que a pessoa não está lá. Mas, com o celular, temos que aprender a mentir melhor. Vamos desenvolvendo jeitinhos. Se fulano não me atende, ligo de um número que ele não conhece e descubro se não está lá ou se não quer me atender. Inventamos o bina e depois inventamos jeitinhos para driblá-lo.
A barreira da invisibilidade ainda não foi vencida. Se é meu amigo ou meu inimigo, não sou capaz de distinguir antes de atender e ouvir a voz. Só depois de atender, o enigma se desfaz.
Uma educação para o uso do telefone se faz cada dia mais necessária.

Infiéis por natureza

folha de são paulo

Livros usam teoria evolucionista, genética e neurociência para explicar cientificamente a traição
IARA BIDERMANDE SÃO PAULO"Não é o que você está pensando. É só uma manifestação de minha herança genética". Se seu parceiro (ou sua parceira) vier com essa, desconfie: ele(a) já deve ter lido o lançamento "A Química do Amor" (ed. Best-Seller, 350 págs., R$ 39,90).
Novinho nas livrarias, o livro trata de antigas questões: por que amamos e queremos sexo. E do velho problema: por que amamos um e desejamos fazer sexo com outros.
Escrito pelo neurocientista norte-americano Larry Young e pelo jornalista Brian Alexander, faz parte da categoria de livros que traduzem os conceitos científicos para a linguagem "de gente" e para temas populares, como a infidelidade.
Young e Alexander afirmam que a monogamia sexual não é uma determinação biológica para homens e mulheres, mas não vão tão longe quanto os autores de outro livro, "Sex at Dawn" (leia ao lado), que pregam que a promiscuidade é a verdadeira natureza humana.
A obra não fica só nisso. "Explicamos a química cerebral que leva ao desejo sexual e os mecanismos biológicos que entram em ação quando formamos vínculos afetivos", diz Young.
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Folha - A monogamia é uma tendência dos humanos?
Larry Young - Infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de vista), a monogamia sexual não é uma tendência natural.
Estudamos em laboratório um tipo de rato que é socialmente monogâmico -machos e fêmeas formam casais que ficam juntos por anos e criam juntos os filhotes. Mas, se um macho está no campo longe de casa e aparece uma fêmea, ele pode trair a parceira e fazer sexo com a outra. Essa fêmea também pode estar traindo seu par. Mas ambos vão voltar para suas casas e seus parceiros à noite e cuidar de suas famílias.
Os humanos provavelmente têm a mesma tendência biológica: amar uma pessoa, mas, de vez em quando, ter um caso com outra. A maioria dos mamíferos não têm conexão emocional com o parceiro com que faz sexo. Homens e mulheres têm conexões que fazem com que queiram ficar mais tempo junto de seus parceiros, mas, como acontece com os ratos de laboratório, sua química cerebral também pode os levar a trair.
Por que as relações monogâmicas são as prevalentes?
A cultura, a sociedade e a religião incentivam a monogamia sexual e os relacionamentos que duram a vida toda, por isso a monogamia parece ser mais comum, mas isso não implica que seja natural. E mesmo nas muitas pessoas que conseguem ser fiéis por toda a vida, seus cérebros continuam mandando comandos eventuais para que traiam.
O sr. concorda com autores que afirmam que a promiscuidade é da natureza humana?
Não. Homens e mulheres são diferentes de outros mamíferos por buscarem parceiros sexuais para criar vínculos. Ficam juntos por outras razões que não apenas sexo, desejam ficar próximos de seus parceiros e sentem saudades deles quando estão separados. Nosso cérebro está programado para se apaixonar. No livro, descrevemos em detalhe como algumas substâncias químicas (oxitocina, dopamina, vasopressina) fazem as pessoas se ligarem a quem amam e como outras substâncias criam o desejo sexual.

    A Pré-História era uma festa, dizem pesquisadores
    RICARDO BONALUME NETODE SÃO PAULOO homem das cavernas Fred Flintstone era monogâmico e fiel à sua mulher, Wilma. Mas os personagens de desenho animado não correspondem à realidade, segundo a tese de dois especialistas em psicologia evolutiva. Para eles, a promiscuidade era generalizada na Pré-História. E isso afetaria o comportamento sexual humano até hoje, algo mostrado pelo alto índice de adultério.
    A tese está no livro "Sex at Dawn" (sexo na alvorada), do americano Christopher Ryan e da moçambicana Cacilda Jethá, lançado em 2011. Escrito em linguagem popular, o livro virou best-seller.
    A dupla investiu contra uma ideia supostamente "sagrada": a de que os seres humanos são naturalmente propensos à monogamia, o que eles chamaram de "flintstonização" do passado.
    Sobrou, claro, para o naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809-1882). Segundo o principal autor da teoria da evolução não dá para falar em promiscuidade generalizada. Para ele, apesar de os machos estarem sempre prontos para o próximo caso -justificado pela ideia de deixar o maior número de descendentes-, as fêmeas querem ter um parceiro fixo que lhes dê segurança para cuidar dos filhotes.
    Já a dupla de pesquisadores sugere que na maior parte da Pré-História as pessoas dividiam tudo: comida e parceiros sexuais. Não haveria a noção de paternidade, pois não haveria como comprová-la, já que o sexo seria "livre".
    O ser humano só teria deixado de ser promíscuo graças à agricultura e ao sedentarismo. A propriedade privada se estenderia à mulher, que teria de ser vigiada para o homem ter certeza de que o filho era de fato seu herdeiro.
    Não é uma tese propriamente nova, mas Ryan e Jethá a embelezaram com dados da psicologia, da antropologia, da história e da biologia. Porém, os dados seriam seletivos, segundo críticas de seus pares acadêmicos. Aquilo que não apoiaria a tese tenderia a ser deixado de lado.
    Por exemplo, o fato de o bebê humano depender dos pais por muito tempo. Isso explicaria a formação de pares monogâmicos. Wilma precisa de Fred para cuidar de Pedrita.

      Denise Fraga

      folha de são paulo

      VIDA REAL
      Mergulhar é preciso
      O que diria um pescador de Dorival Caymmi se soubesse que navegamos no mundo virtual?
      Uma coisa pra se fazer na vida antes de morrer: conhecer o fundo do mar. Estive uma vez em Fernando de Noronha e foi uma experiência transformadora. Entendi completamente o sentido da palavra mergulhar.
      Não sei se pelo estado de alerta que você fica à espera das surpresas submarinas, pela incrível sensação de flutuar no abismo ou simplesmente pelo único som que lhe resta ser o esquecido compasso da sua respiração, você acaba entrando num estado de concentração único e inesquecível. Um verdadeiro mergulho.
      Pouco tempo depois dessa experiência, li no jornal sobre o casal que sobreviveu ao tsunami por estar justamente mergulhando. Pensar que tudo aquilo lhes passou por cima e eles continuaram a ouvir o som de suas respirações. Se estivessem navegando, teriam sido trucidados. Estar mergulhando, o que parecia mais perigoso, os salvou.
      Gosto desta história. Acho bonita e irônica. Salvar-se no profundo. Salvar-se por mergulhar. Além de inacreditáveis tartarugas gigantes, o mar também nos oferece muitas metáforas. Fernando Pessoa e Dorival Caymmi se fartaram nelas. Navegar é preciso, viver não é preciso.
      Passando de novo os olhos pelos versos do poeta, não consigo deixar de pensar em outro mar. Quantos de nós têm deixado de viver pra navegar? Nosso mundo virtual também vive se utilizando de imagens marinhas, mas o que diria um pescador de Caymmi se soubesse que navegamos na rede?
      Já acho curioso falarmos navegar. A janela azul aberta ao mundo virtual parecia coisa de ficção científica, uma tela que nos tragaria da cadeira para um mergulho em outros mundos. Mergulhar pareceria ser o verbo perfeito e até justificaria o efeito de ausência surda e muda que baixa sobre nós, seres de faces azuis, capturados.
      Mas o verbo virtual é navegar. Pensando bem, é justo. É algo que anda na superfície. Você quer um site e lhe são oferecidos outros tantos. Janelas que abrem para janelas. A cada clique, outra centena de possibilidades.
      Tudo se espalha numa ramificação eterna e quando você resolve mergulhar é inevitável a sensação de perda do que poderia estar escondido no imenso mar oferecido à sua navegação. Sinto que a rede nos força naturalmente à superfície em suas imensas possibilidades.
      Volto ao casal mergulhador e penso nos meus mergulhos literários de três horas sem sentir o tempo, na sala escura do cinema, nas peças de teatro e em quantas coisas que nos salvam por serem estados de mergulho pleno. Mergulhar é preciso.

        Rosely Sayão

        folha de são paulo

        Lições de alimentação
        O comportamento dos pais determina o estilo alimentar das crianças; comer bem é uma questão de educação
        A Nina Horta que me perdoe, mas vou recomeçar o trabalho com o assunto dela: comida. Alguém já me disse que férias boas são aquelas em que a gente volta fisicamente um pouco mais cansada e gorda. Concordo porque foi assim que retornei.
        Nada como relaxar, comer coisa boa, diferente e nos horários em que o organismo determina, não é verdade? Foi o que fiz, caro leitor. Cozinhei -meu lazer predileto-, li sobre comida, visitei restaurantes desconhecidos e preferidos e comi com gosto. Com muito gosto, aliás.
        E, nesse período, também observei muitas famílias, com filhos pequenos e maiores, ao redor da mesa ou na cozinha de casa. E mais: assisti a um documentário que tomo como ponto de partida para nossa conversa de hoje. O filme chama-se "Muito Além do Peso" e está disponível no site www.muitoalemdopeso.com.br. Eu recomendo.
        Devo confessar que, entre os diversos motivos que me fazem muitas vezes sentir pena dos mais jovens, um deles é a comida. E não me refiro às questões nutricionais, de saúde ou coisa semelhante, que são pertinentes e importantes.
        No meu ponto de vista, comer é principalmente uma questão social e afetiva que leva ao prazer, e uma grande parcela dos mais novos não tem a chance de desfrutar desses aspectos da alimentação porque simplesmente não aprende como fazê-lo.
        Eles gostam de muitas porcarias e o documentário comprova isso. Mas nem precisava, não é? Quem convive com crianças sabe que elas adoram doces industrializados, salgadinhos e refrigerantes. Não conhecem legumes, verduras e frutas e, por isso, recusam tais alimentos.
        Muitos, inclusive o documentário citado, creditam a preferência deles à ação danosa da propaganda dirigida ao público infantil. Claro que a publicidade tem grande influência e não apenas junto às crianças, mas sobre todos nós. Mas eu considero o comportamento dos pais o principal motivo para determinar o estilo alimentar das crianças e adolescentes.
        Afinal, quem é que apresenta essas porcarias gostosas para as crianças? Quem é que abastece a casa regularmente com alimentos industrializados? Quem é que cede aos caprichos das crianças que querem substituir uma refeição por salgadinhos? Quem é que não aguenta negar um pedido do filho?
        Por outro lado, com o estilo de vida corrido de nossa época, quem é que se dedica a cozinhar para os filhos, mesmo que seja uma refeição rápida e simples? Devo dizer, caro leitor, que o cheiro da comida sendo preparada na cozinha é muito estimulante para as crianças.
        Além disso, perceber que os pais (ou um deles) dedicam parte de seu tempo para fazer uma comida gostosa para o filho é, para a criança, um sinal de acolhimento e amor. E o sentido desse ato significa mais para ela do que ganhar uma porcaria gostosa quando os pais chegam do trabalho.
        Ajudar a criança a refinar seus sentidos gustativo e olfativo e a desenvolver o prazer de comer com outras pessoas, inserindo-a nas tradições culinárias da família, é um modo de fazer com que ela sinta que pertence àquele grupo familiar.
        E esse sentimento de pertencimento, que nos acompanha até o final da vida, é um alento perante as adversidades que enfrentamos.
        Comer bem, com prazer e em boa companhia é uma questão de educação. Cozinhar para outra pessoa é uma demonstração de amor.