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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Estudo mostra que maioria das pessoas escuta sempre as mesmas músicas

folha de são paulo
IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO
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A opção de ouvir toda e qualquer música nova está a um toque na tela. E você vai sempre escolher aquelas mesmas velhas canções.
Quem crava qual será a sua seleção são os autores de um estudo feito na Universidade de Washington sobre o poder da familiaridade na escolha musical.
A pesquisa foi feita com mais de 900 universitários, autodeclarados apreciadores de novos sons. Pelo menos foi isso o que disseram em questionários prévios. Curiosamente, o lado B dos participantes apareceu quando foram confrontados com escolhas reais entre pares de músicas. A maioria optou por aquelas que tinha ouvido mais vezes.
Ouvir sempre a mesma música não é falta de opção ou imaginação. Segundo o coordenador do laboratório de neuromarketing da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, Carlos Augustos Costa, é coisa da sua cabeça.
"O cérebro não gosta de nada complicado. Se você ouve um som novo, tem de parar para entender, mas se a música tem padrões familiares, é sopa no mel: você decide imediatamente ouvi-la."
Familiar é um padrão musical que a pessoa sabe reconhecer ou um estilo associado a memórias positivas.
"A música que você já conhece tem um valor emocional enorme. Cada vez que você a ouve, a associa a uma sensação de prazer e, quanto mais ouve, mais reforça essa associação", diz a neurocientista e colunista da Folha Suzana Herculano-Houzel.
Editoria de arte/Folhapress
As dez músicas mais lucrativas, nacionais e internacionais
As dez músicas mais lucrativas, nacionais e internacionais
O compositor Arrigo Barnabé, que desde a década de 1980 faz experimentações em música, diz ter a esperança que as novas plataformas ajudem a mudar o disco.
"Hoje, com a internet e o YouTube, vejo as pessoas mais interessados em ouvir novidades. Mas há a tendência de a pessoa buscar o conforto, o que já conhece bem."
A causa do fenômeno é mais material do que neuroemocional, na opinião do pesquisador e crítico musical José Ramos Tinhorão.
"A produção de música popular obedece as regras do capitalismo, com uma grande quantidade de produtos iguais sendo jogada no mercado. Isso começa a cansar e as pessoas sentem saudades das músicas antigas", afirma.
As músicas megarrepetidas nas rádios teriam então, segundo ele, efeito contrário. Mas não funciona assim.
"De tanto ouvirem, as pessoas acabam se familiarizando e não sabem mais se gostam ou não. Mas criam fidelidade", diz Rifka Smith, diretora da Radiodelicatassen, empresa de planejamento de produtos radiofônicos.
A repetição funciona até um limite. Grande parte do prazer da música é a oportunidade que ela dá ao cérebro de antecipar como será a próxima frase musical, segundo Herculano-Houzel.
Na música conhecida, a pessoa antecipa o prazer e é recompensada ouvindo o que já esperava. Vai querer repetir a experiência. "Mas, quando o cérebro já tem a certeza absoluta do que virá, perde a graça", diz a neurocientista.
É a brecha para seu cérebro ouvir algo de novo.
Mas o poder das velhas músicas continua, afirma o professor de marketing Morgan Ward, autor do estudo americano. "Quando as pessoas estão prontas para uma mudança, não querem uma revolução. A maioria dos novos estilos musicais é só uma atualização do que veio antes", disse Ward à Folha.
Colaborou LUCAS NOBILE, de São Paulo
*
COMO FOI FEITA A PESQUISA
Os pesquisadores da Washington University fizeram três rodadas de testes. A idade média dos participantes era de 23 anos
1) 386 pessoas classificaram o grau de familiaridade com 24 músicas; depois receberam uma lista com 12 pares das classificadas e tiveram 15 minutos para escolher a preferida em cada dupla
2) 244 pessoas escolheram para ouvir 16 músicas em uma lista de 32; depois, classificaram o grau de familiaridade com cada música
3) 276 pessoas receberam uma atividade cognitiva leve (memorizar quatro palavras) ou mais pesada (20 palavras) para realizar e tiveram que escolher qual estação de rádio queriam ouvir: se a de músicas novas ou a das 'dez mais'
+ CANAIS

sábado, 10 de agosto de 2013

Casa do Povo, 60, volta à cena cultural - Iara Biderman

folha de são paulo
Casa do Povo, 60, volta à cena cultural
Centro cultural no Bom Retiro, que abrigava escola de primeiro grau e teatro, teve seu auge nos anos 1960-1970
Projeto para reforma do edifício modernista, na rua Três Rios, foi oferecido de graça pelo arquiteto Isay Weinfeld
IARA BIDERMANDE SÃO PAULONo bairro povoado desde sempre por imigrantes, o prédio de fachada modernista pode passar batido pelos que frequentam o Bom Retiro em busca de roupas baratas vendidas no atacado.
Dentro do edifício, que completa 60 anos neste mês, a história é outra. Gente que viveu a época de ouro do lugar --onde funcionava uma escola, um teatro e um centro de cultura-- e pessoas que não viveram nada daquilo batalham para ocupar o local.
A Casa do Povo, nome de guerra do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, foi criada por imigrantes judeus progressistas e de várias correntes de esquerda que se estabeleceram no Bom Retiro a partir da Primeira Guerra.
O auge do centro foram as décadas de 1960-1970 e a decadência, os anos 1980.
Uma foto do prédio degradado postada no Facebook, há cerca de três anos, foi a deixa para que ex-alunos do Scholem Aleichem, a escola da Casa do Povo, voltassem ao local e iniciassem o projeto de revitalização.
"Primeiro, tivemos que sanear financeiramente. Agora, a coisa ganhou vida, começou a pulsar de novo", diz o neurologista Jairo Degenszajn, presidente do conselho deliberativo da Casa do Povo.
A ajuda surge de vários lados. O projeto de reforma do prédio está sendo feito gratuitamente pelo arquiteto Isay Weinfeld.
O francês Benjamin Serousse, que foi curador do Centro de Cultura Judaica, soube do trabalho e juntou-se voluntariamente ao conselho. Serousse tem usado seus contatos na área cultural para atrair parceiros e atenção ao centro.
Em 2012, o Teatro da Vertigem estreou "Bom Retiro 958", peça ensaiada no local e que acabava no cenário de um teatro em destroços: o Taib, da Casa do Povo.
Grupos de dança começaram a usar o espaço para residência artística. Um deles, o Lote#2, que entrou para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, fez sua apresentação do projeto lá, em junho.
O enorme salão onde o grupo se apresentou, antigamente dividido em salas de aula, ganhou pintura nova e extintores de incêndio patrocinados pelo banco.
Em julho, a Feira de Arte Impressa Tijuana reuniu mais de 50 expositores no prédio.
Novas parcerias também alimentam o projeto de revitalização, diz Mila Zacharias, da Anamauê, empresa de produção e consultoria em artes que também se uniu voluntariamente ao grupo.
Uma dessas parcerias, com a Bienal de Arquitetura e o Instituto Goethe, vai levar os expositores alemães da bienal para as salas da Casa do Povo, em outubro.
VANGUARDA
As origens do instituto cultural são anteriores à construção do prédio, projeto de Mange, Martins e Engel.
Pai da Casa do Povo, o Centro Cultura e Progresso realizou, por exemplo, a primeira exposição de HQ no Brasil, em 1951, que contou com originais de autores como Alex Raymond ("Flash Gordon") e Al Capp ("Ferdinando").
A escola Scholem Aleichem, outra iniciativa do grupo, foi fundada em 1934, com uma proposta pedagógica vanguardista para a época.
O teatro Taib veio depois. Projetado pelo arquiteto Jorge Wilheim, foi inaugurado em 1960. Naquela década e na seguinte, a atividade cultural e política era intensa.
Nos anos 1980, por razões que vão do êxodo da comunidade judaica do bairro ao isolamento ideológico das esquerdas, a atividade minguou, a escola fechou e o centro se esvaziou.
Na boa fase atual, os 60 anos da Casa do Povo serão comemorados nos dias 23 e 24 com seminários e debate com a urbanista Raquel Rolnik sobre as necessidades culturais da cidade.
"A região voltou a entrar no circuito cultural de São Paulo, mas faltam espaços menos tradicionais. A Casa do Povo ressurge em boa hora", diz Degenszajn.
    DEPOIMENTO
    'Minha infância e adolescência foram balizadas pelo instituto'
    BOB WOLFENSONESPECIAL PARA A FOLHA"Nasci e me criei no Bom Retiro, bairro central da cidade de São Paulo, onde meus avós maternos chegaram, diretamente da Polônia, nos anos 1920, fugindo das perseguições aos judeus e da vida dura na Europa do período entreguerras.
    Meu mundo ia da rua Bandeirantes ao Jardim da Luz, onde brincava e pegava girinos nos laguinhos existentes na época; e da rua Afonso Pena até a esquina da rua Silva Pinto com a da Graça. Nesse quadrilátero de aproximadamente dez ruas vivíamos entre judeus e poucos brasileiros. Aos meus olhos de menino, o Bom Retiro era o mundo todo.
    Minha família era ligada a um setor progressista laico da comunidade, que aos poucos foi se estabelecendo no bairro, co-dirigindo o ICIB, Instituto Cultural Israelita Brasileiro, e sua filiada, a escola Scholem Aleichem.
    Ambos ocupavam um prédio na rua Três Rios e eram redutos importantes do pensamento de esquerda.
    Ao contrário dos mais sectários, nos sentíamos amalgamados à cultura brasileira e, seguindo uma vocação secular dos judeus progressistas, queríamos nos integrar ao lugar que havíamos escolhido. Ser brasileiro era um sentimento genuíno.
    O ICIB, também conhecido como Casa do Povo, em uma clara alusão ao jargão socialista de seus congêneres soviéticos, era muito atuante em São Paulo, extrapolava os limites do bairro e foi um foco importante de resistência à ditadura no final dos anos 1960 e princípio dos 1970.
    Minha infância e minha adolescência foram balizadas pelo instituto.
    Meus pais, meus tios e todos os agregados da família eram muito ativos na Casa do Povo. Foi na escola Scholem Aleichem que estudei até os dez anos. Adolescente, fiz minha primeira exposição de fotografia no prédio.
    Fiquei muito tempo sem ir ao bairro. Voltei para fazer as fotos mais recentes da exposição "Bom Retiro e Luz: Um Roteiro, 1976 "" 2011" e me deu uma tristeza danada.
    O prédio da rua Três Rios só não tinha virado escombro por esforço de alguns antigos fundadores voluntários que ainda vivem no bairro.
    Eu já vi algumas tentativas de reerguimento da Casa do Povo. A atual parece a mais consistente."

      domingo, 16 de junho de 2013

      Se beber, (não) escreva - Iara Biderman e Raquel Cozer

      folha de são paulo

      Livro 'O Último Copo' levanta o debate sobre a relação entre embriaguez e atividade literária

      IARA BIDERMAN
      DE SÃO PAULO
      RAQUEL COZER
      COLUNISTA DA FOLHA

      Entre a época em que F. Scott Fitzgerald via graça em ser "um dos mais notórios bêbados" de sua geração e o pungente relato pessoal que publicou na "Esquire", em 1936, com o autoexplicativo título "The Crack-Up" (o colapso), não foram nem dez anos.
      No primeiro momento, o autor surfava na fama com obras como "O Grande Gatsby"(1925), cuja quinta adaptação para as telas estreou no Brasil neste mês. No segundo, já nem podia concluir um livro, vencido pelo alcoolismo.
      A fama de bêbado grudou nele como praga. Fitzgerald figura em qualquer lista de autores alcoólatras, de obras leves, como o "Guia de Drinques" (Zahar, 2009), que dá a receita do gim com limão de que era adepto, a estudos alentados, caso do recente "O Último Copo" (Civilização Brasileira), de Daniel Lins.
      Lins, brasileiro que passou boa parte da vida na França, conviveu por dez anos com o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), de quem foi aluno. Herdou do mestre, alcoólatra recuperado, o interesse por uma "teoria do álcool".
      "Queria saber o que o autor que bebe pensa sobre a constituição do pensamento." Bebedor moderado, segundo diz, dedicou cinco anos a obras etílicas, como a de Fitzgerald e a da francesa Marguerite Duras (1914-1996).
      Editoria de Arte/Editoria de Arte/Folhapress
      Sobre Fitzgerald, o livro cita Deleuze, em texto de 1969: "O efeito de fuga [causado pelo alcoolismo] é, talvez, o que faz a maior força da obra de Fitzgerald, o que ele exprimiu o mais profundamente".
      Duras, que bebia de seis a oito garrafas de vinho por dia, defendia que "a obra amadurece no álcool"."Quando um autor entra em pane de imaginação, há pouca chance de que se volte a Deus, que faça uma prece: ele abrirá uma garrafa", ela anotou, em 1993.
      A ideia de Lins de criar uma teoria brasileira do álcool esbarrou numa constatação que o frustrou. O interesse de autores nacionais, como Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira, sempre esteve mais restrito aos bares do que explicitado no papel.
      O único escritor local a ganhar voz no livro é Lima Barreto (1881-1922), com o relato de "Diário do Hospício" sobre como o álcool lhe rendeu "sinais de loucura".
      BRASILEIROS
      Fora do livro, Ruy Castro é dos brasileiros que mais tratam da relação entre bebida e literatura. Parou de beber há 25 anos, experiência descrita neste ano na Folha -o texto foi ampliado para o recente "Morrer de Prazer" (Foz).
      Castro discorre com gosto sobre a vida de bebuns literários, mas rejeita a ideia de que o álcool lhes tenha ajudado. "Se eram bons bebendo, seriam melhores sem beber."
      O autor lançou seu primeiro livro, "Chega de Saudade", em 1990, já abstêmio. Antes disso, chegou a ver uma reportagem sua para a "Playboy", em 1988, toda reescrita pelo editor. "Parei aos 44 e meio do segundo tempo. Era inevitável a dissolução mental."
      Para Reinaldo Moraes -cujo romance "Pornopopeia" foi eleito, no blog do colunista da Folha Xico Sá, um dos "dez livros mais bêbados do mundo"-, umas doses não caem mal como inspiração.
      "Para o início do trabalho criativo, é legal afrouxar as amarras, deixar o fluxo de consciência mais solto. Difícil é conciliar a habilidade psicomotora", pondera o autor, que considera saudável sua relação com a bebida.
      Xico Sá chegou a rascunhar, sob efeito de álcool, a novela "Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente" e o livro "Tripa de Cadela & Outras Fábulas Bêbadas", dois títulos que vê como "brincadeiras". Concluiu que o álcool rende belos rascunhos, não necessariamente grandes obras.
      "Na fase inicial, o álcool pode deixar a pessoa mais criativa", diz Arthur Guerra, presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, da USP. Mas o efeito, para ele, não justifica o uso. "Vou sempre dizer que beber demais não vale a pena."
      O prejuízo começa quando o escritor passa a usar a bebida como muleta. "Se bebe para fugir da angústia da criação, vira dependente. Daí cai o rendimento, ele se angustia mais, bebe mais ainda."
      No fim, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unifesp, o processo deteriora a produção criativa. "O álcool corrói funções cognitivas como memória e concentração."
      Bons escritores podem continuar afiados em estágios avançados de dependência do álcool, diz o psiquiatra -mas isso tem a ver com o talento, não com a bebida.
      Autor do recente "Ensaios sobre a Embriaguez" (Record), Vicente Brito Pereira enfrentou o alcoolismo por 30 anos. Sem beber há quase dez, escreveu para tentar entender a si e aos seus pares.
      Pereira não se detém na relação entre bebida e literatura nos ensaios. À Folha, arrisca uma teoria: "O escritor não busca no álcool a manifestação artística, e sim a onipotência da embriaguez."
      Visto assim, o escritor é como qualquer um que goste de tomar uns tragos. Com a diferença de que suas bebedeiras são mais propensas à fama.
      Inspiração etílica é mais antiga que a Bíblia
      DE SÃO PAULO DA COLUNISTA DA FOLHA
      O álcool é ligado à inspiração para escrever desde que o mundo é mundo.
      Ou, pelos menos, desde que a história cultural do Ocidente começou a ser escrita, segundo o historiador Henrique Soares Carneiro, da USP, autor de "Bebida, Abstinência e Temperança na História Antiga e Moderna" (Senac).
      "Essa relação está presente desde os antigos gregos. Você encontra isso em Platão, quando ele fala no [diálogo] Fedro' que há quatro formas de loucuras boas, inspiradas pelos deuses", diz Carneiro.
      As loucuras platônicas são a inspiração poética (dada pelas musas), a profética (por Apolo), a erótica (por Afrodite) e a dionísica --a inspiração da embriaguez.
      "O tema da inspiração dionísica será encontrado em toda a história do pensamento ocidental. É a ideia da criação como arrebatamento, de que é preciso sair do controle estrito da razão, perder o juízo, dar vazão a uma dimensão pouco acessível do ego", explica o historiador.
      Em suas pesquisas para "O Último Copo", Daniel Lins diz ter se surpreendido com o papel do rei Salomão, destacado personagem da Bíblia, como um verdadeiro sábio em assuntos etílicos.
      "Há nos textos dele indícios importantíssimos para compreender o que é um alcoólatra, alguém que entra em parafuso quando começa a não ter mais o álcool. Ele era adicto e já entendia tudo, inclusive usava o amanhã vou parar de beber'."

      terça-feira, 11 de junho de 2013

      Vontade de morrer - Iara Biderman

      folha de são paulo
      Vontade de morrer
      Taxa de suicídio entre jovens cresce 30% em 25 anos no país, mas falar sobre o tema continua a ser tabu até para profissionais de saúde
      IARA BIDERMANDE SÃO PAULOÉ uma das primeiras causas de morte em homens jovens nos países desenvolvidos e emergentes. Mata 26 brasileiros por dia. E ninguém quer falar no assunto.
      No Brasil, a taxa de suicídio entre adolescentes e jovens aumentou pelo menos 30% nos últimos 25 anos. O crescimento é maior do que o da média da população, segundo o psiquiatra José Manoel Bertolote, autor de "O Suicídio e sua Prevenção" (ed. Unesp, 142 págs., R$ 18).
      A curva ascendente vai contra a tendência observada em países da Europa ocidental, nos Estados Unidos, na China e na Austrália. Nesses lugares, o número de jovens suicidas vem caindo, ao contrário do que acontece no Brasil, aponta um estudo da University College London publicado no periódico "Lancet" no ano passado.
      "Na década de 1990, a taxa de suicídios aumentava em todos os países do mundo, e a OMS [Organização Mundial da Saúde] lançou um programa de prevenção. Os países que fizeram campanhas de esclarecimento conseguiram baixar os números. É importante falar do assunto", diz o psiquiatra Neury Botega, da Unicamp.
      TABU
      O tema é tabu até para profissionais de saúde. Nos registros do Datasus (banco de dados do Sistema Único de Saúde), aparece como "mortes por lesões autoprovocadas voluntariamente". Um longo eufemismo, segundo Botega. Evita-se a palavra, mas o problema se perpetua.
      Em cursos de prevenção, o psiquiatra registrou as crenças de profissionais de saúde. Muitos acham que perguntar à pessoa se ela pensa em se matar já pode induzi-la a consumar o ato.
      "Não temos esse poder de inocular a ideia na pessoa. E, se não tentarmos saber o que ela está pensando sobre o assunto, não conseguiremos ajudá-la", diz o psiquiatra.
      A taxa cresce por uma conjugação de fatores. "A sociedade está cada vez menos solidária, o jovem não tem mais uma rede de apoio. Além disso, é desiludido em relação aos ideais que outras gerações tiveram", diz Neury.
      Há ainda uma pressão social para ser feliz, principalmente nas redes sociais. "Todo mundo tem que se sentir ótimo. A obrigação de ser feliz gera tensão no jovem", diz Robert Gellert Paris, diretor da Associação pela Saúde Emocional de Crianças e conselheiro do CVV (Centro de Valorização da Vida).
      O aumento de casos de depressão em crianças e adolescentes é outro componente importante. "Mais de 95% das pessoas que se suicidam têm diagnóstico de doença psiquiátrica", diz Bertolote.
      Junte-se tudo isso ao maior consumo de álcool e drogas e a bomba está armada.
      "ELENA"
      A cineasta e atriz mineira Petra Costa tinha sete anos quando a irmã mais velha se suicidou. Mais de 20 anos depois, Petra dirigiu o documentário "Elena", atualmente em cartaz, em que tenta entender e comunicar o que a irmã pensava e sentia.
      "As pessoas têm dificuldade de falar e de ouvir sobre o assunto. A sociedade brasileira tem que aprender a conversar sobre suicídio, porque o número de casos só aumenta", disse Petra à Folha.
      Falar de suicídio nunca foi tabu para a diretora. "Desde que eu tinha sete anos, quando Elena se suicidou, minha mãe conversava comigo sobre isso, nunca me escondeu nada", conta.
      Mas ela logo percebeu que, fora de casa, o tema era proibido. "A primeira vez que falei do assunto com outras famílias que passaram por isso foi aos 27 anos, quando procurei grupos de parentes de suicidas. Então me senti compreendida em minha dor."
      Petra conta que, logo após a morte de Elena, sua mãe procurou pessoas que tinham sido próximas de alguém que se matou. Mas todos se recusaram a conversar com ela.
      Ela também lamenta que, à época do suicídio da irmã, as pessoas ao seu redor não tinham informações sobre o assunto, nem sabiam como falar sobre ele.
      "O mais lamentável em relação à Elena é que, nos anos 1990, no grupo de pessoas com quem ela convivia, sabia-se pouco sobre bipolaridade, depressão, suicídio. A desinformação levou à tragédia", afirma Petra.
      A cineasta tem interesse nessa causa. A produtora do filme, Busca Vida, está organizando debates sobre o tema. E Petra planeja criar o instituto Elena, para prevenção de suicídios.
      PREVENÇÃO
      A troca de informações sobre o suicídio pode evitar muitos casos: de acordo com a OMS, dá para prevenir 90% das mortes se houver condições para oferta da ajuda.
      Quem pensa em suicídio está passando por um sofrimento psicológico e não vê como sair disso. Mas não significa que queira morrer.
      "O sentimento é ambivalente: a pessoa quer se livrar da dor, mas quer viver. Por dentro, vira uma panela de pressão. Se ela puder falar e ser ouvida, além de diminuir a pressão interna, passa a se entender melhor", diz Paris.
      O CVV oferece apoio 24 horas pelo telefone 141 e pelo site www.cvv.org.br.
        COMO TOCAR NO ASSUNTO
        Ouça mais, fale menos
        Não interrompa a pessoa ou diga o que ela tem que fazer nem dê exemplos pessoais
        Demonstre interesse
        Deixe claro que você percebe que a pessoa não está bem, pergunte-lhe sobre o que ela está pensando e em que você pode ajudar
        Desenvolva empatia
        Coloque-se na situação do outro. Tente sentir o que a pessoa está sentindo
        Seja espontâneo
        Demonstrar sua preocupação com a pessoa não significa dar um tom grave e formal para a conversa
        Mantenha a calma
        Prepare-se antes para não transmitir insegurança ou desespero
        Não condene
        Julgar a pessoa em relação ao que ela diz ou fez pode fazer com que ela se sinta ainda pior
        Procure ajuda
        Informe-se sobre grupos de apoio e serviços de saúde mental que dão orientação e suporte a pessoas em risco de suicídio
          Folha vai debater a prevenção e as causas de suicídio
          DE SÃO PAULO
          Folha promoverá hoje (11), às 20h, um debate sobre o aumento do número de casos de suicídio, especialmente entre adolescentes, as possíveis causas e medidas de prevenção.
          José Manoel Bertolote, psiquiatra que acaba de lançar um livro a respeito do tema, Rosely Sayão, psicóloga e colunista da Folha, e Robert Gellert Paris Junior, membro do Conselho Curador do Centro de Valorização da Vida, farão parte da mesa. O debate será mediado pela jornalista Cláudia Collucci.
          Para se inscrever, ligue para (11) 3224-3473 (das 14h às 19h) ou mande um e-mail paraeventofolha@grupofolha.com.br, informando seu nome completo, RG e telefone. O debate será no Auditório Folha (al. Barão de Limeira, 425, 9º andar).

          terça-feira, 4 de junho de 2013

          Boa desculpa - Iara Biderman

          folha de são paulo
          Nada de enrolação: quando bem-feito, o pedido de retratação é uma forma honrosa de aproximar pessoas e refazer acordos
          IARA BIDERMANDE SÃO PAULOSe você está cansado de ouvir desculpas, prepare-se. Gente que estudou o problema diz que há um "boom" desses pedidos circulando no mundo --tanto no público quanto no privado.
          Sim, há especialistas em desculpas, e não são gurus de autoajuda oferecendo o manual definitivo do perdão.
          "Há toda uma linha de estudos na sociologia e na ciência política sobre o assunto, por causa dos pedidos formais dos governos e das instituições", diz o sociólogo carioca Alexandre Werneck, autor de "A Desculpa" (Record, 378 págs., R$ 39,90).
          Seja a Fifa se desculpando, na última quarta-feira (29/5), por problemas na retirada de ingressos da Copa das Confederações, seja o que você costuma dizer ao chegar atrasado a um compromisso, o fato é que a vida cotidiana se move numa rede de desculpas.
          E isso não precisa ser ruim, segundo Werneck. Ele diz ter escrito o livro para reabilitar a desculpa, que acabou virando sinônimo de mentira.
          "Um dos motivos pelos quais conseguimos viver socialmente é porque podemos pedir e aceitar desculpas. É um mecanismo para manter relações e permitir acordos."
          Em tempos de relações virtuais, o mecanismo se torna ainda mais importante, segundo a escritora americana Susan McCarthy, criadora do site SorryWatch (vigilante das desculpas).
          "Nas redes sociais, as pessoas dizem as coisas muito rapidamente e não há muito espaço para sutilezas. E todos querem se mostrar. Isso aumenta as chances de falarem coisas estúpidas ou malvadas. Então, têm que se desculpar mais e mais", disse McCarthy à Folha.
          O site (www.sorrywatch.com) analisa pedidos de desculpas na mídia, na história, na cultura e na vida privada. E aponta quais são os mais esfarrapados, destrinchando seus argumentos.
          O observatório virtual de desculpas está há quase um ano no ar. Embora a maioria dos posts sirva para criticar os piores pedidos, McCarthy defende a prática: "Pedir desculpas tem o poder de aproximar os seres humanos, resgatá-los de seu isolamento, de suas tristezas e de seus ódios", afirma.
          REVELAÇÃO
          Para pessoas que já estão próximas, falar de desculpas desperta uma ponta de suspeita. A associação com "mentira" pega. No melhor dos casos, seria uma forma de não ser indelicado; no pior, um jeito de esconder algo importante.
          A psicoterapeuta Lúcia Rosenberg pensa de outra forma: "Pedir desculpas é se revelar ao outro". A pessoa que pede mostra ao parceiro como ela funciona e propõe que ele encare o que ela fez (ou deixou de fazer) com um outro olhar.
          Mas nem sempre as pessoas querem se mostrar e fica difícil pedir desculpas.
          "Existe essa coisa egoica ocidental de achar que você precisa estar sempre por cima. As pessoas não percebem quanta honra e quanta coragem é preciso ter para pedir perdão. Não percebem quanta nobreza há nesse gesto que parece humilhante", afirma a psicoterapeuta.
          Retratar-se é um pedido e um sinal de respeito, que vem da palavra latina "re-espectrum', olhar novamente.
          "O novo paradigma amoroso não é dizer eu te amo, mas sim eu te enxergo", acredita Rosenberg.
          O pedido de desculpas é um jeito de dizer "não te vi na hora em que pisei na bola contigo, mas agora estou te vendo".
          Aceitar as desculpas é jogar essa bola para frente, segundo o publicitário carioca Daniel Bovolento, 22, que considera a traição um dos pedidos de reparação mais difíceis de se aceitar.
          Ele foi traído pela namorada quando estava em uma viagem de trabalho. Soube por telefone e rompeu.
          Voltou ao Rio no dia seguinte, quando se encontraram para uma conversa. "Ela disse que sabia que eu não iria desculpá-la, mas que não queria ser a grande decepção de minha vida. A promessa embutida era eu não vou mais fazer isso'. Eu repensei, engoli meu orgulho e resolvi reatar o namoro", conta.
          O caso ilustra o que o sociólogo Alexandre Werneck considera o ritual da desculpa. "Envolve demonstração de arrependimento, ato de contrição e aposta no futuro."
          Nesse ritual, quem pede reduz a importância do passado e aumenta a do futuro. Já a pessoa que aceita o pedido faz uma revisão do passado para seguir em frente.
          FORÇA TERAPÊUTICA
          Pedir desculpas também tem força terapêutica. Nos "12 passos", programa de tratamento de dependência química, faz parte do tratamento: é o nono passo.
          "O pedido é um exercício para treinar um novo jeito de viver. Quando peço desculpas, reforço meu propósito de mudança", diz Alexandre Araújo, presidente da ONG Intervir para dependentes químicos.
          O passo ajuda o dependente em recuperação a reconstruir suas relações sociais em outras bases.
          "Para chegar a pedir desculpas, a pessoa tem que ter elaborado muito a situação. A reparação é um aprofundamento e uma releitura de sua história", explica Araújo, que trabalha com membros de entidades como a AA (Alcoólicos Anônimos).
          O programa dos passos, seguido pelo AA, reforça que as desculpas devem ser dadas diretamente às pessoas afetadas, sempre que possível.
          É um ponto básico da boa desculpa, mas está cada vez mais difícil de se encontrar, segundo a "vigilante de desculpas" Susan McCarthy.
          Um bom pedido, para ela, é quando a pessoa entende o que deu errado, explicita o que aconteceu e assume a responsabilidade por isso. A regra é a mesma para desculpas íntimas e públicas.
          "Muitas pessoas não foram ensinadas a se retratar. Se não sabem fazer isso por falta de prática ou porque nunca pensaram no assunto, vão pedir desculpas como se fossem crianças autocentradas e orgulhosas, praticamente acusando a pessoa para a qual deveriam se desculpar", diz McCarthy.
            ARREPENDIMENTOS PÚBLICOS
            LANCE ARMSTRONG
            O ex-ciclista americano fez o circuito completo da busca do perdão: confissão, arrependimento e pedidos de desculpa. Tudo ao vivo, no programa de TV de Ophra Winfrey. O atleta admitiu ter usado doping e se explicou: "Eu não inventei a cultura, mas não tentei evitá-la"
            WOO-SUK HWANG
            O cientista coreano fraudou dados sobre a criação de células-tronco por clonagem e foi descoberto. Desculpou-se, dizendo: "Houve alguns enganos, erros humanos". Hwang foi condenado pela justiça coreana por desvio de recursos e compra de óvulos, mas não foi preso.
            MADONNA
            Ao receber um buquê de flores de um fã, durante entrevista coletiva em 2011, a cantora não se conteve: "Odeio hortênsias!". Depois, Madonna compartilhou um vídeo na internet em que lamenta ter magoado o admirador. Mas, no fim, reafirma detesta a espécie
            PRÍNCIPE CHARLES
            Em 1994, quando vieram a público as aventuras extraconjugais do herdeiro do trono britânico com Camila Parker Bowles, Sua Alteza disse: "Vocês realmente esperavam que eu fosse o primeiro príncipe de Gales a não ter amante?"
            NEYMAR
            Em uma partida em 2010, o jogador confrontou o então treinador do Santos, Dorival Jr., e o capitão da equipe, Edu Dracena. Gritos e palavrões fizeram parte do show. No dia seguinte, deu uma coletiva de duas horas, na qual repetiu a palavra 'desculpas' oito vezes
            LUANA PIOVANI
            A atriz quis fazer graça com os corintianos no Twitter após uma derrota do time. A torcida reagiu e ela voltou atrás. "Me arrependi da grosseria", tuitou. Em seguida, anunciou sua saída da rede social: "dou um passo a frente assumindo minha fraqueza"
            CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
            Em maio, boatos sobre o fim da bolsa-família causaram tumultos em 13 Estados. Um dia antes, a Caixa alterou, sem avisar, o calendário de pagamentos do programa. Uma semana depois, veio a desculpa: "Tivemos uma informação equivocada em relação a data", disse Jorge Hereda, presidente do banco
            BILL CLINTON
            Em 1998, surgem evidências do envolvimento sexual do presidente dos EUA Bill Clinton com a estagiária da Casa Branca Mônica Lewinsky. Clinton teve que enfrentar um processo de impeachment e pediu perdão em rede nacional à esposa e ao povo americano
            BEATLES
            Eles proclamaram que eram mais populares do que Jesus Cristo. Mas não foram tão onipotentes a ponto de ignorar as reações da população crente e organizaram uma entrevista coletiva na qual John Lennon pede desculpas pela frase de efeito
            ADÃO E EVA
            Ao ser acusado por Deus de desobediência por ter comido a maçã da árvore proibida, Adão jogou a batata quente para Eva: "Foi a mulher que pusestes ao meu lado que me deu de comer da árvore". Já Eva acusou a serpente, que a provocou com a maçã
              O BÁSICO É A MELHOR ESTRATÉGIA
              USE A PALAVRA
              Diga com todas as letras: desculpas. Se soar natural para você, pode usar o termo perdão. Mas "foi mal" não serve
              SEJA ESPECÍFICO
              Diga o que você fez concretamente. Não seja vago ("sinto muito pelo o que aconteceu") nem dê o truque do condicional (desculpe-me se o que fiz foi errado)
              FALE DE CONSEQUÊNCIAS
              Reconheça que a situação criada por você teve efeitos em outra(s) pessoa(s). É por isso que você está se desculpando com ela(s)
              EXPLIQUE-SE
              Conte as causas e as circunstâncias envolvidas na situação, sem se colocar na defensiva nem se desresponsabilizar ("foi fulano, é a sociedade, é genético")
              NÃO TERCEIRIZE
              O pedido tem que ser feito pessoalmente. Recursos como mandar recado ou comunicar por porta-voz podem até manter as aparências, mas não dãop certeza de que a desculpa foi efetivamente dada e aceita

              terça-feira, 28 de maio de 2013

              Sonhos ajudam a resolver problemas e até a ver o futuro, diz neurobiólogo

              folha de são paulo
              IARA BIDERMAN
              DE SÃO PAULO
              A civilização atual não sabe mais sonhar, lamenta um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, o neurobiólogo Sidarta Ribeiro, 42.
              Segundo ele, os sonhos são ensaios que auxiliam a pessoa a enfrentar desafios, assim como eram uma garantia de sobrevivência para nossos ancestrais.
              No Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), dirigido por Ribeiro, essas hipóteses são testadas com equipamentos, à luz das novas descobertas da biologia, da física e da neurofisiologia.
              Toda essa ciência dura não o impede de usar áreas mais elásticas do conhecimento. Ele incorpora aos seus estudos conceitos vindos da psicanálise, de relatos de povos primitivos e de pesquisas sobre efeitos da ayahuasca (chá do Daime) e da maconha.
              No momento, o pesquisador experimenta uma nova tecnologia para modificar neurônios em cérebros de ratos com o objetivo de induzir ao sono e à concentração da memória. Ele acaba de finalizar um estudo comprovando a precisão de diagnósticos de esquizofrenia e bipolaridade feitos a partir de relatos de sonhos de pacientes.
              A reportagem da Folha conversou com Ribeiro no Rio, durante um seminário sobre sono. Leia trechos.
              *
              Folha - Qual é, no fim, a função do sonho?
              Sidarta Ribeiro - Hoje em dia, nenhuma, porque a gente não dá importância para o sonho. Em culturas tradicionais, era central. O público universitário não acredita em sonhos, mas, se a pessoa se dispuser a fazer um "sonhário" [diário de sonhos], vai perceber que eles têm função.
              O sonho joga estímulos elétricos em suas memórias e você fica explorando todas as possibilidades, o que pode ou não acontecer. É mesmo uma capacidade de ver o futuro.
              O que mais o sonho faz?
              O sonho é sobretudo a articulação de memórias regida pelo circuito de recompensa do cérebro. Não é reverberar qualquer memória, mas sim aquelas que têm a ver com procurar o que nos dá prazer e evitar o que é desagradável.
              Sonhar serve como um ensaio, uma simulação de expectativas de recompensas e punições que prepara a pessoa para enfrentar a vida.
              Um estudo sobre sonhos de mulheres que se separaram dos maridos mostrou um padrão entre eles. Primeiro, elas sonham que está tudo bem no casamento; depois, há uma fase em que sonham que o marido morreu e, por último, acontece a simulação: nos sonhos, elas ou os maridos estão se relacionando com outras pessoas.
              A psicanálise ajuda a recuperar essas funções dos sonhos?
              Acho a psicanálise muito útil, mas não dá para fazer análise com uma pessoa que não tem introspecção. Que "não sonha". A nossa civilização esqueceu como se sonha. As pessoas precisam reaprender a sonhar.
              Como é esse aprendizado?
              É dar ao sonho um lugar de importância. Se a pessoa vai para a cama e adormece vendo TV, não está se preparando para a experiência importante, transcendental mesmo, que é sonhar. E, se ela se levanta da cama pulando e vai fazer outra coisa, não tem como se lembrar do que sonhou. A pessoa tem que treinar essa lembrança.
              É preciso também perceber como o cinema e a TV tomaram o lugar de nossos sonhos. As pessoas sonham acordadas sonhos que são feitos por outras pessoas, com conteúdos prontos.
              Mas esses conteúdos também têm a sua função...
              Nada contra, adoro filmes, seriados... O problema é que a gente vive em um mundo de excesso. Os estímulos hoje são muito mais complexos. Aí seu sonho é cheio de filigranas, como uma cama com dossel: não tem utilidade tão real, não vai salvar a sua vida. Só em situações de estresse eles se tornam mais práticos.
              Editoria de Arte/Folhapress
              O que é um sonho prático?
              É quando ataca um problema concreto.
              Um estudo que fizemos no Instituto do Cérebro mostrou que candidatos que sonham com o vestibular têm notas 30% mais altas do que os outros. Mais interessante: os que simplesmente sonharam terem passado na prova não foram os melhores, e sim os que tinham sonhos com as matérias estudadas.
              Sonho tem que ter utilidade, como tinha para os homens das cavernas: se ele sonhava com um tigre no lugar onde costumava beber água, ficava ligado. Mesmo se só criasse temores subliminares, o sonho aumentava as chances de sobrevivência.
              Animais também sonham?
              Todos os mamíferos e alguns pássaros têm sono REM, que é a fase em que se sonha de forma vívida. Só que os pássaros têm centenas dessas fases. Devem ser sonhozinhos que duram segundos. Os nossos duram 40 minutos.
              E são só quatro por noite?
              Eu tenho uma teoria que, apesar de termos quatro episódios de sono REM, temos milhares de sonhos, mas testemunhamos só um por vez.
              Quando sonhamos, todas as criaturas da mente estão acordadas. É um zoológico: abre a porta e sai tudinho. O nosso "self" [consciência de si] é só um dos bichos, para onde ele for será o sonho que estaremos vendo. E são camadas e camadas interpenetráveis de coisas rolando. Por isso é tão comum você sonhar que entra em um lugar e, de repente, está em outro.
              Como o sr. define consciente e inconsciente?
              Inconsciente é a soma de todas as memórias que a gente tem e todas as combinações possíveis. Por isso é tão grande. Consciente é a mínima fração disso que está ativa no momento.
              E o que é a consciência?
              Ninguém sabe. Não há nem mesmo um acordo sobre o que a palavra quer dizer. A consciência tem a ver com informações que se espalham no cérebro todo.
              Então não dá para definir o lugar da consciência no cérebro?
              Eu odeio isso, dizer que cada área faz uma coisa: "Meu hipocampo navegou, meu hipotálamo sentiu". Não temos controle. Isso só serve para livro de autoajuda e para vender remédio. Mas as pessoas adoram, parece que você explicou tudo ao mostrar áreas cerebrais coloridas.

              terça-feira, 7 de maio de 2013

              Cadastro Nacional de Adoção completa cinco anos sem atingir seus objetivos

              folha de são paulo

              IARA BIDERMAN
              JULIANA VINES
              DE SÃO PAULO

              O Cadastro Nacional de Adoção acaba de completar cinco anos, mas ainda está longe de atingir seus objetivos: agilizar processos na Justiça e reduzir o número de crianças em abrigos.
              Criado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), o cadastro tem 29.284 adultos em busca de um filho e 5.471 menores aptos a serem adotados. Pouco para um universo de mais de 45 mil crianças e jovens à espera de um lar.
              Até hoje, 1.899 adoções foram feitas pelo cadastro. Os números não atendem as expectativas do CNJ. "Ainda está muito aquém do desejado", diz Gabriel da Silveira Matos, juiz auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça.
              O juiz Matos, no entanto, afirma que a ferramenta agilizou a aproximação e que o número de adoções resolvidas não pode ser desprezado.

              Passo a passo da adoção

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              Editoria de Arte/Folhapress
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              Há quase 40 mil crianças em abrigos que não estão no cadastro nacional porque ainda têm algum vínculo com a família biológica.
              É uma segurança: a criança só é cadastrada quando há uma sentença de destituição do poder familiar e não há mais qualquer possibilidade de a família recorrer, explica o advogado Antonio Carlos Berlini, presidente da comissão de adoção da OAB-SP.
              "Tem muito processo parado, muita criança crescendo em abrigos. Os números oficiais dizem cerca de 40 mil, mas estima-se que mais de 60 mil estejam em instituições hoje", afirma Berlini.
              Esse problema é anterior ao CNA (sigla para cadastro nacional), diz a advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da comissão de adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família.
              "Falta equipe técnica nas Varas da Infância e da Juventude. Isso faz com que todos os processos demorem. A habilitação dos pretendentes, que depende de entrevistas e visitas domiciliares, atrasa."
              A gerente executiva do Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo, Mônica Natale, conhece pretendentes que esperam há dois anos para entrar na fila. "A situação é pior no interior", avalia.
              CAIXA -PRETA
              Uma das vantagens trazidas pelo cadastro nacional foi a "abertura da caixa-preta dos abrigos", segundo Maria Bárbara Toledo, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção.
              Mesmo sem incluir todos os processos, os números registrados pelo CNA nesses cinco anos formam um retrato mais preciso da situação da adoção no Brasil e permitem uma análise do que melhorou e de onde estão os principais gargalos.
              Preconceito de cor, por exemplo, ainda atrapalha, mas vem caindo: em 2010, apenas 31% dos pretendentes afirmavam não se importar com a cor da pele da criança; hoje, 40% atestam isso no formulário do cadastro.
              O perfil da criança buscada já mudou muito, segundo Moreira. A mudança começou a partir de 2009, quando passou a ser obrigatório para os candidatos a pais adotivos fazer um curso na Vara da Infância ou em grupos de apoio.
              "Nesses cursos são debatidos aspectos da adoção inter-racial, de crianças mais velhas e de grupos de irmãos."
              TEMPO E GENTE
              Idade é o gargalo. Nove em dez pessoas querem crianças de até cinco anos, faixa que corresponde a menos de 10% das cadastradas. Para 90% entre oito e 17 anos, o percentual de adultos dispostos a adotá-las é em torno de 2%.
              Bárbara Toledo afirma que os grupos de apoio fazem um trabalho de persuasão em favor das "adoções necessárias". Mas não dá para atribuir aos candidatos a pais adotivos toda a responsabilidade para resolver a questão.
              "Falar que os pretendentes são preconceituosos por não quererem crianças mais velhas é covardia", diz ela.
              A solução, para Silvana Moreira, passa pela contratação de profissionais para tornar os processos rápidos, sem arranhar os direitos das famílias. "Hoje muitas crianças ficam no limbo jurídico e acabam sendo filhas do abrigo."
              Editoria de Arte/Folhapress

              CINCO ANOS DE ESPERA
              Meu encontro com Manuela
              RENATA RANGELCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAEra um dia modorrento de outubro de 2011. Eu, à toa por conta do calor senegalês de Ribeirão Preto. Toca o telefone. Simone, psicóloga da Vara da Infância e da Juventude. "Como vai?". Eu: "Esperando". Ela: "Sua espera acabou. Sua filha chegou".
              Eu me joguei no sofá, tremendo, suando, chorando. "Que idade ela tem?". Disse que tinha dois meses. Bebezinho! O que eu mais queria!
              Uma criança de dois anos é considerada recém-nascida pelo Juizado. Portanto, difícil de adotar. Uma de dois meses é quase impossível.
              Simone disse que eu deveria ir ao fórum no dia seguinte para saber a história da menina e então decidir. Fui.
              Ela tinha sido abandonada ao nascer. A psicóloga perguntou se "traços negroides" eram problema. Nenhum. Então me disse que a bebê estava lá mesmo, no fórum.
              Quando a vi, pensei que iria desmaiar. Tão pequenina, magra, com olheiras. Minha filha! Peguei-a no colo, fiz força para não chorar. Quando nos deixaram sozinhas, ela segurou meus dedos com força. Ficou me olhando, como se dissesse "me leve". Sussurrei: "Você é minha filhinha do coração, sou sua mãe". Então eu soube: estávamos predestinadas.
              No pedido de adoção, o postulante diz o que quer. Cor, idade, se aceita doenças, deficiência etc. Nossas ressalvas eram só para soropositivo ou vítima de violência.
              Nosso pedido foi feito no fórum central de São Paulo, onde eu vivia então. A fila era de 1.200 candidatos. Nas conversas com a assistente social e a psicóloga fomos avisados de que o processo demoraria.
              Não imaginei que demorasse tanto. Foram cinco anos até minha filha surgir.
              Nesse tempo, tudo mudou: me separei, voltei para Ribeirão, de onde saí aos 18. O médico me aconselhou a levar uma vida menos estressante.
              A decisão de adotar surgiu por causa da minha saúde. Fiquei internada 15 dias com uma doença grave. No dia da alta, meu ex, ao lado da cama, me disse: "Não acha que é hora de fazermos algo importante?" Respondi: "Sim, adotar nossa filha." E entramos com o processo.
              Mais tarde, já separada, fui a São Paulo saber do processo. Arquivado. Fiquei seis meses pensando se o desejo de um filho era projeto só do casal ou meu também.
              Pesei prós e contras de criar um filho sozinha e decidi: EU quero! Desarquivei o processo e o transferi para Ribeirão. Repetiram-se as entrevistas. Fui aprovada novamente. Recomeçou a espera.
              Tenho meus motivos para crer que meu encontro com Manuela estava decidido em algum lugar do Universo.
              Em agosto de 2011, fiz uma novena para Santa Rita de Cássia que incluía três pedidos: um impossível, um necessário e um de negócios. Mas só pedi pela minha filha. Pois foi em agosto, dia 4, que ela nasceu. Creio que Santa Rita a escolheu para mim.
              Manuela estava em um abrigo com outros recém-nascidos. Visitei-a todos os dias por uma semana. Já no primeiro dia levei minha mãe, Jacy, que se apaixonou por ela -paixão correspondida.
              Em três dias montei o quarto dela com a ajuda de minha cunhada. Berço com o anjo da guarda da família, banheira, roupinhas, tudo!
              Ela chegou na manhã de 12 de outubro. Minha irmã Patrícia e as filhas vieram recebê-la. E Lucia, minha empregada e amiga, com a filha. Ambas ajudaram muito.
              Recebi a guarda provisória por seis meses e depois de outros seis saiu a adoção definitiva. Está lá, na certidão de nascimento: Manuela Garcia Rangel. Minha filha!
              Manuela é linda, espertíssima e, melhor, alegre. Já tem 90 cm e 11 quilos. Dorme a noite toda, acorda cantando, fala numa língua que só ela domina, corre pela casa.
              Esperei cada dia desses meses todos que me chamasse de "mãe". Em 17 de janeiro, correu em minha direção de braços abertos e gritou: "Mamãe!". Fiquei eufórica.
              Manu corre pelo quintal, gosta de dançar. Às vezes, dança segurando as pontas do vestido. Já joga charme, a danadinha. É amada e acalentada por uma trupe: mãe, vovó, Lucia, babá e pai.
              Sim, surgiu um relacionamento. Vasco já vivia comigo quando Manu chegou. É louco por ela e ela, por ele. É pai de fato e será de direito. Vai entrar com pedido de adoção.
              Minha vida mudou. Estou bem de saúde, calma. Minha mãe, 82, renasceu. Manuela veio para renovar a família. Quando dizem que fiz algo maravilhoso ao adotá-la, digo: não, que maravilha ela fez por mim! Tenho um anjo em casa. O meu maior amor.

                TRÊS DE UMA VEZ
                'Nosso primeiro encontro não foi mágico'
                DE SÃO PAULOQuando o economista José Marcelo Monteiro, 44, casou com a administradora de empresas Luciana Marques, 42, há 13 anos, ele sonhava em ter três filhos. "Nem pensar", disse Luciana, e o marido se conformou em ter um só.
                Luciana não conseguiu engravidar. Depois de vários tratamentos de fertilização assistida fracassados, o casal resolveu adotar um filho, de até quatro anos, no máximo.
                Começaram a frequentar grupos de apoio à adoção, enquanto esperavam ser chamados pela Vara da Infância do Rio de Janeiro, onde moram. O filho idealizado foi sendo trocado pela expectativa de uma criança real.
                Primeiro, ampliaram a faixa etária até seis anos. Depois, em vez de um, pensaram em adotar dois. "Imaginava um casal", diz Luciana.
                Quatro anos atrás, o casal recebeu um aviso sobre três irmãos aptos à adoção.
                "Era muita criança para administrar", diz Luciana. Mas os dois foram ao abrigo para conhecer Alexandre, Thaiane e Kaio -na época com dez, oito e três anos.
                "As pessoas falam que é um momento mágico quando você encontra seus filhos, mas não foi nada disso. Não vimos estrelinhas brilhando, só a possibilidade de formar uma família", diz Marcelo.
                Tiveram medo também. "Se você adota criança mais velha, precisa enfrentar o medo da rejeição. E se ela não nos aceitar?", diz Luciana.
                Mas a afinidade foi forte. "Nos primeiros oito meses não fomos pais, fomos bombeiros", diz a mãe.
                O mais difícil foi colocar limites naqueles três irmãos que moraram na rua e sofreram violência doméstica. "Claro, não iam confiar de cara na gente", diz Luciana.
                Para ela, a adoção não é ato heroico ou caridade. "Já me perguntaram até se foi para pagar promessa. Não foi, não serei abençoada por isso. Foi o desejo de ser mãe, de constituir uma família. Formei a minha e sou superfeliz."

                  TIRA-DÚVIDAS
                  1 Quem pode adotar?
                  Maiores de 18 anos de qualquer estado civil e orientação sexual. Não há limite de idade nem renda mínima. Duas pessoas podem adotar a mesma criança se forem casadas ou viverem em união estável. O pretendente deve ser no mínimo 16 anos mais velho que o adotado.
                  2 Quem pode ser adotado?
                  Crianças e adolescentes de até 18 anos que tiveram o vínculo familiar rompido.
                  3 Posso escolher?
                  Em termos. Você descreve o perfil desejado no início do processo, mas só entra em contato com a criança quando é chamado pela Vara (daí pode visitá-la e aceitar ou não a adoção). Não é recomendável buscar ou visitar crianças em abrigos, porque a maioria delas não pode ser adotada.
                  4 A família biológica pode pedir a criança de volta?
                  Depois de o processo de adoção ser finalizado, não. Há o risco enquanto o poder familiar não tiver sido destituído.
                  5 Onde buscar ajuda?
                  Nas cerca de 120 entidades de apoio à adoção, onde é possível tirar dúvidas. Endereços no site da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção: www.angaad.org.br

                    'Só pensamos em cuidar dela', diz pai adotivo de garota com paralisia cerebral

                    IARA BIDERMAN
                    DE SÃO PAULO

                    A aposentada Maria Rosa, 59, e o representante jurídico Márcio Mesquita, 56, planejaram seguir à risca a recomendação da psicóloga: contar à Patrícia que ela era adotiva depois dos seus 12 anos.
                    O aniversário chegou, mas a psicóloga estava de férias. Os pais decidiram esperar. "Queria o acompanhamento de alguém preparado, temia a reação dela", diz a mãe.
                    Patrícia, então, chamou a mãe para uma conversa: "Mamãe, por favor, sente aqui e me diga a verdade". A menina já sabia havia dois anos, a empregada tinha lhe contado que ela fora adotada.
                    "Nós estávamos tão nervosos, a Pati nos acalmou, foi um alívio. A cabeça dela é muito boa", conta o pai.
                    Fabio Braga/Folhapress
                    Márcio e Maria Rosa Mesquita com a filha Patrícia, 15, em frente ao prédio onde moram, na zona oeste de São Paulo
                    Márcio e Maria Rosa Mesquita com a filha Patrícia, 15, em frente ao prédio onde moram, na zona oeste de São Paulo
                    O casal encarou naturalmente a adoção de uma criança com necessidades especiais. Patrícia, 15, tem paralisia cerebral, provavelmente por falta de oxigenação na hora do parto.
                    Como qualquer mãe, Maria Rosa temia ter um filho com deficiência. "Mas ela tem e eu aceitei numa boa e a amo do mesmo jeito."
                    Quando foram buscá-la numa maternidade no interior de Santa Catarina, os médicos não souberam explicar direito a gravidade da coisa.
                    O problema afeta o sistema neuromotor e obriga Pati a usar cadeira de rodas e muletas para se locomover.
                    "Meses depois, quando tivemos o diagnóstico de paralisia cerebral, só pensamos em cuidar dela", disse o pai.
                    Pati,15, tem sessões semanais com fisioterapeuta, fonoaudióloga e psicóloga. Frequenta escola regular, está na oitava série e é ótima aluna.
                    "Não sei se dá mais trabalho que outra criança, não tive outros filhos. Para mim, Pati é tudo", diz a mãe.

                    terça-feira, 9 de abril de 2013

                    Em todos os sentidos

                    folha de são paulo

                    Em Campinas, jardim sensorial aberto ao público a partir de hoje usa sons, cheiros, texturas e cores para criar experiências que vão do desconforto ao prazer
                    IARA BIDERMANDE SÃO PAULOUm jardim feito para provocar não só os sentidos, mas também as emoções -das quase desagradáveis às mais prazerosas- foi aberto hoje no interior de São Paulo.
                    O projeto, que faz parte das celebrações dos 38 anos da Ceasa Campinas, é do paisagista Raul Cânovas. Seu criador pretende ir mais fundo na ideia de jardim sensorial.
                    "Normalmente o que você encontra é aquela história dos cheiros: colocam manjericão, tomilho e orégano. Mas isso é pouco, é quase uma horta. Eu quis colocar, além dos aromas, texturas, sons, sensações espaciais. E significado. Um jardim para quê?", pergunta Cânovas.
                    A resposta, segundo o paisagista, é criar um espaço para o visitante descobrir como encontrar alívio físico e espiritual na natureza. E abrir o leque de opções para as pessoas apreciarem um jardim: quem não vê toca, cheira, escuta; quem não ouve olha, mexe, experimenta.
                    Mas quem está esperando um jardim "bonitinho e arrumadinho" vai se decepcionar. Um ambiente com todos os componentes relaxantes de praxe (luz, música e aromas sempre suaves, objetos macios e confortáveis) também não está no programa.
                    PRETO, PEDRA E LIXA
                    A entrada do jardim dos sentidos é provocativa: a cor predominante é o preto, o piso é de pedra britada e carvão e há biombos revestidos com papel de lixa.
                    Ali foram colocadas plantas com folhagem escura, puxando para o tom de vinho, e berinjelas (pretas, um pouco amargas). O aroma é algo parecido com arruda, "um cheiro que não é dos mais simpáticos", segundo o paisagista.
                    A escolha de estímulos desagradáveis é proposital. "O começo é quase lúgubre, é para a pessoa passar e não se sentir bem, para depois ir entrando em espaços gradativamente mais agradáveis", diz Cânovas.
                    Esse trecho do jardim, com cerca de três metros de comprimento, tem caminhos amplos (para facilitar a passagem de cadeirantes), mas todos são retos e com ângulos acentuados. "A linha reta fere como uma faca", na opinião do paisagista.
                    O passeio então começa a se tornar mais suave. Surgem algumas curvas e um pouco mais de luz. É o espaço de transição.
                    Os pilares e os vasos, que na entrada eram pretos, ganham um tom amarelo-esverdeado. O ambiente é composto por uvas e hera. O aroma faz a pessoa se sentir melhor, sem ser doce. É um cheiro como o do limão, que dá a sensação de limpeza e frescor.
                    CURVAS E LUZ
                    A sequência serve para aumentar o impacto sensorial do terceiro e último trecho do jardim. Nessa parte, o deslocamento dos visitantes é feito por caminhos curvos, fluidos como água e vento. A luminosidade é total: as colunas são brancas, e os biombos, revestidos com cascas claras e macias de árvore, agradáveis ao toque.
                    Em meio à folhagem de um verde bem claro estão alguns nabos brancos e muitas margaridas. O aroma é doce, floral, e a trilha sonora é de música barroca.
                    Fecha-se o ciclo do jardim sensorial. "O espaço desperta emoções, no início contraditórias, e então as equilibra. Isso tem um efeito terapêutico: acalma a pessoa muito agitada, anima aquela mais deprimida", afirma Cânovas.
                    SERVIÇO
                    ONDE: Ceasa Campinas rodovia D. Pedro I, km 140,5, Campinas, SP
                    QUANDO: 9/4 a 13/4
                    HORÁRIOS: 13h às 16h (terça e quinta); 8h às 16h (quarta e sábado); 8h às 12h30 (domingo)
                    VISITAS MONITORADAS: agendamento pelo telefone 0/xx/19/3746-1047

                      terça-feira, 2 de abril de 2013

                      Alongamento só machuca quem exagera, diz autor de livro

                      folha de são paulo

                      IARA BIDERMAN
                      DE SÃO PAULO

                      Quando o educador físico californiano Bob Anderson lançou a primeira edição de seu livro sobre alongamento, a febre das academias e do culto ao corpo estava só começando. O ano era 1975.
                      A obra virou best-seller, com mais de 3 milhões de cópias vendidas no mundo. No Brasil, a bíblia do estica-e-puxa teve 24 reimpressões. A edição lançada agora --"Alongue-se"(Summus, 240 págs., R$ 90)-- celebra 30 anos da primeira publicação no país.
                      Nos últimos anos, pesquisas e especialistas têm questionado alguns dos benefícios creditados ao alongamento.
                      É claro que na avaliação de Anderson, 68, a prática sempre faz bem. Problemas como lesões, diz ele, não são causados pela técnica em si, mas pela forma com que as pessoas passaram a fazer esses exercícios: como uma competição, esticando músculos além do limite da dor e criando tensões.
                      O professor também explica que muitas pessoas têm o hábito de sustentar o alongamento de cada músculo por tempo demais. Ele recomenda ficar em cada posição por 15 segundos, no máximo.
                      Nesse ponto, ele está afinado com as novas pesquisas, embora diga não se importar muito com elas. Um dos maiores estudos sobre o tema, publicado no ano passado na revista "Medicine & Science in Sports & Exercise", chegou à conclusão de que manter o alongamento por menos de 30 segundos evita os efeitos negativos que podem ser associados à prática.
                      *
                      Folha - Por que o alongamento se tornou tão popular?
                      Bob Anderson - Porque qualquer pessoa pode fazer, é fácil de aprender e ajuda a a pessoa a viver melhor.
                      Essa popularização tem deixado as pessoas mais flexíveis?
                      Nem todo mundo conhece os fundamentos do alongamento ou mesmo a importância de fazê-lo. Se as pessoas não estão mais flexíveis é porque elas não fazem exercícios suficientes para contrabalançar um dos efeitos do envelhecimento, que é a perda gradual da flexibilidade.
                      Se a pessoa passa muito tempo sentada, ela não perde apenas a força, mas também a amplitude dos movimentos. Há outro lado, também: alguns fazem muitos alongamentos e, mesmo assim, ficam menos flexíveis, porque estão indo além de seus limites. Encaram os exercícios como uma competição. Isso tem efeito contrário: faz os músculos se encurtarem.
                      Alongar-se antes de uma atividade intensa, como a corrida, aumenta o risco de lesões?
                      Não. Se a pessoa está se alongando da forma certa, antes ou depois da atividade física, não vai se machucar.
                      Qual é, então, a forma correta de se alongar?
                      Prestando atenção à sensação do músculo começando a se esticar, indo adiante apenas enquanto for fáci e, com o tempo, colocando uma suave tensão muscular na ação. A pessoa também precisa, enquanto se alonga, manter o relaxamento das mãos, dos pés, dos ombros e da mandíbula. E ficar na posição por 15 segundos, não mais.
                      O que mudou na técnica desde os anos 1970, época da sua primeira edição?
                      O método não mudou, mas na última edição acrescentamos um capítulo para atender questões ligadas ao estresse no trabalho.
                      Lydia Megumi/Editoria de Arte/Folhapress