sábado, 16 de fevereiro de 2013

Mônica Bergamo

folha de são paulo

ELAS USAM BLACK TIE
A top curitibana Isabeli Fontana fez ensaio fotográfico para a campanha de inverno 2013 da grife Tufi Duek, desenhada pelo estilista Eduardo Pombal.
PELO AMOR DE DEUS
A demora no julgamento de Gil Rugai, marcado para segunda, 18, após dois adiamentos a pedido da defesa, irritou tanto o Ministério Público que o promotor Rogério Zagallo, em documento do processo, reivindicou empenho para o júri ocorrer "pelo amor de Deus!!!!!! [...] antes da Copa do Mundo de 2014... ou da Olimpíada de 2016". O crime ocorreu em março de 2004.
NA RUA
"Gil Grego Rugai matou seu pai e sua madrasta, e eu quero ter o direito de demonstrar -e o farei- em plenário", afirmou Zagallo. Rugai nega a autoria. Sua defesa diz ser favorável à realização imediata do júri para provar a inocência do réu. "É uma questão de leis da física: o Gil não estava na casa no horário das mortes", diz o advogado Thiago Anastácio.
É CARNAVAL
Renan Calheiros (PMDB-AL) encontrou vários amigos no spa Kurotel, em Gramado (RS), onde descansou na semana passada. Além do senador Gim Argello (PTB-DF), estava lá também o ministro Edison Lobão (PMDB-MA), das Minas e Energia.
PONTE AÉREA
José Dirceu (PT-SP) prepara agenda de viagens por várias capitais do país.
SERPENTE
Ex-coroinha, Dirceu criticou a Igreja Católica em seu blog depois da renúncia do papa Bento 16: "Não há democracia nem controle, fiscalização e transparência dos atos de seus chefes. Pelo contrário, ela já é vista como uma das maiores redes de intrigas do mundo".
TURMA DA MAFALDA
Mafalda Minnozzi convidou Isabella Taviani, Toninho Ferragutti, Alexandre Ribeiro e Simoninha para seu show no auditório Ibirapuera. Todos toparam, e a apresentação acontece no dia 1º de março.
GRÃO EM GRÃO
A socióloga Maria Alice Setubal, responsável pelas finanças da legenda que Marina Silva pretende criar, diz que "é um risco que se corre" apostar em doações de pessoas físicas. "Mas, se fosse para fazer tudo igual, não precisaríamos criar mais um partido." O nome provisório é Rede -que poderá ser complementado com "Brasil Sustentável", "Pela Sustentabilidade" ou "Verde".
MAIS TARDE
O aluguel do espaço Unique, em Brasília, que abrigará o lançamento do partido hoje, por exemplo, será pago depois, quando a Rede tiver caixa. A ideia era fazer o encontro na UnB, mas a universidade informou que veta eventos de terceiros no campus após a tragédia na boate de Santa Maria (RS).
BIBLIOTECA NACIONAL
A literatura do baiano Jorge Amado ganhará incentivo de até US$ 6.000 do governo federal para versões em búlgaro ("Gabriela, Cravo e Canela" e "Dona Flor e seus Dois Maridos") e romeno ("A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água", "Farda, Fardão, Camisola de Dormir", "Os Velhos Marinheiros" e "Tenda dos Milagres").
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Ela foi inserida em um programa para tradução de obras brasileiras no exterior.
FÍSICA DO ESPÍRITO
O bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra, negocia com editores nacionais e internacionais para lançar o livro "Física Quântica e Espiritualidade" no primeiro trimestre de 2013. Ele é formado em física.
TOCA AQUI
A ex-jogadora Milene Domingues levou Ronald, 12, seu filho com Ronaldo, ao Brooks Bar anteontem, na Chácara Santo Antônio, para ver o DJ britânico Fatboy Slim. O músico Latino também foi lá.
BAILE DE DEBUTANTE
Bacalhau, Flávia Couri e Gabriel Thomaz, do Autoramas, tocaram na casa noturna Beco, na rua Augusta, anteontem; o show dá o pontapé inicial às comemorações de 15 anos da banda
CURTO-CIRCUITO
A galeria Transversal abrirá novo endereço, com 400 m², na Vila Madalena, no dia 2 de março.
Luisa Maita, filha do músico Amado Maita, recebe Ed Motta, BNegão e outros em show às 20h, no Sesc Pinheiros. 10 anos.
Thais Maranho lança CD do projeto solo de rock Not a Lady, às 19h30, no Dynamite Pub. Livre.
A edição de estreia da Feirinha Gastronômica, com 19 chefs, será amanhã. Das 12h às 19h, na rua Girassol, 309, Vila Madalena.
com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, CHICO FELITTI, JOELMIR TAVARES e LÍGIA MESQUITA

    Painel das Letras - Raquel Cozer

    folha de são paulo

    Inéditos de Bataille
    A filosofia de Georges Bataille (1897-1962) se funde com seu próprio "desejo de arder intensamente", segundo o tradutor Fernando Scheibe, nos texto inéditos em português que a Autêntica incluirá em sua edição de "O Erotismo", prevista para abril.
    Fora de catálogo há quase uma década, o volume sairá agora com um "Dossiê O Erotismo", do qual faz parte esse registro pessoal do autor sobre o tema do livro.
    Terá também a transcrição de um debate, de 1957, em que figuras como André Breton, André Masson, Hans Bellmer e Jean Wahl explicitam divergências em relação às ideias do autor, acusado de machista, entre outras coisas. Em março, a editora publica "A Parte Maldita", na tradução de Júlio Castañon Guimarães.

    OS ÚLTIMOS DIAS DE LUCIAN
    O pintor britânico Lucian Freud (1922-2011) proibiu, em seus últimos anos, a publicação de duas biografias que já havia autorizado. Simplesmente mudou de ideia.
    Mas o neto do criador da psicanálise não só manteve a autorização ao jornalista Geordie Greig como aceitou que o encontrasse por dez anos no Clark's, em Notting Hill, onde recebia amigos e fazia quase todas as refeições.
    Greig publicou várias reportagens sobre Lucian. Após a morte do pintor, começou a organizar o material, juntando com entrevistas com amigos, amantes e até alguns filhos (ele teve 13 -ou mais).
    A biografia resultante, prevista para outubro na Inglaterra, acaba de ter os direitos adquiridos pela Record. Deve ser lançada em 2014.

    SERROTE
    A 13ª edição da revista do IMS, nas livrarias em março, reproduzirá 12 capas de livros elaboradas pelo austríaco Eugênio Hirsch (1923-2001), que criou mais de 380 delas para a Civilização Brasileira
    Concurso E a 13ª "Serrote" também lançará a segunda edição do concurso de ensaísmo da publicação quadrimestral -o texto vencedor será publicado na revista. Em 2011, foram 187 inscritos.
    Essas mulheres Ivone Gebara, condenada pelo Vaticano por criticar a rigidez de sua doutrina, e Amelinha e Criméia, responsáveis pela condenação do torturador Coronel Brilhante Ustra, estão entre as sete militantes investigadas em "A Aventura de Contar-se", previsto para agosto. A historiadora Margareth Rago acaba de entregar os originais à Editora da Unicamp.
    Fantasia A Bertrand Brasil adquiriu os direitos da obra adulta e juvenil de
    Terry Pratchett, britânico de humor corrosivo, conhecido pela série "Discworld". Em junho, sai o adulto "Pequenos Deuses". No fim do ano, o primeiro infantil, "A Hat of Full of Sky". O autor sofre de Alzheimer, drama que conta no documentário "Choosing to Die" (2011), inédito no Brasil.
    Pra fora Duas HQs, "Bando de Dois", de Danilo Beyruth, e "Oeste Vermelho", de Marcelo Costa e Magno Costa, terão traduções bancadas pela Biblioteca Nacional. Sairão na Argentina pela Editora Municipal do Rosário. A única tradução de HQ aprovada antes no programa foi a de "Cachalote", de Daniel Galera e Rafael Coutinho, para a França.
    Top A Geração Editorial adquiriu por R$ 50 mil os direitos da trilogia "The Redemption of Callie & Kayden", de Jessica Sorensen, autopublicação que frequenta os mais vendidos nos EUA há dois meses, com mais de 200 mil e-books vendidos. O primeiro volume sai neste ano, junto com o primeiro de outra trilogia da autora, "The Forever of Ellen & Micha".
    Vitória Apparício Torelly, o Barão de Itararé, é até mais querido do que imaginou a Casa da Palavra. Lançada com 3.000 cópias em dezembro, a biografia "Entre sem Bater", de Cláudio Figueiredo, já está em reimpressão.
    LEIA MAIS EM http://www.folha.com/abibliotecaderaquel

      LIVROS
      FICÇÃO
      HQ
      Dom Casmurro
      Machado de Assis
      ADAPTAÇÃO Felipe Greco e Mario Cau
      EDITORA Devir
      QUANTO R$ 65 (232 págs.)
      O clássico romance de Machado de Assis, publicado em 1899, é adaptado para quadrinhos pelo roteirista Felipe Greco e pelo desenhista Mario Cau. A história de Bentinho e Capitu é retrata com traços sutis, privilegiando os claros e escuros para enfatizar a ambiguidade dos personagens e a eterna dúvida sobre a fidelidade de Capitu.
      ROMANCE
      Corpo de Delito
      Patricia Cornwell
      EDITORA Paralela
      TRADIÇÃO Celso Nogueira
      QUANTO R$ 34,90 (296 págs.)
      O assassinato de um famoso escritor e de sua filha adotiva é o mote para mais uma aventura da médica-legista Kay Scarpetta. Ao lado de um chefe de polícia e de um agente do FBI, ela vai se ver envolvida em uma série de pistas falsas. As coisas se complicam quando a legista recebe a visita de um desequilibrado mental que diz ter pistas para esclarecer o mistério.
      NÃO FICÇÃO
      ANTOLOGIA
      Ficcionais
      Schneider Carpeggiani (org.)
      EDITORA Cepe
      QUANTO R$ 15 (112 págs.)
      O livro reúne textos de escritores brasileiros publicados no suplemento cultural "Pernambuco", editado pelo Diário Oficial do Estado. Neles, os autores esmiúçam seus processos de criação. Bernardo Carvalho, por exemplo, relembra a escrita de "O Filho da Mãe", fruto de uma estadia de um mês em São Petersburgo. Já o colunista da FolhaMichel Laub comenta as múltiplas vozes que compõem "O Gato Diz Adeus".
      CINEMA
      O que Sócrates Diria a Woody Allen
      Juan Antonio Rivera
      EDITORA Planeta
      TRADUÇÃO Magda Lopes
      QUANTO R$ 29,90 (272 págs.)
      O filósofo espanhol parte do cinema para abordar grandes pensadores, como Sócrates e Kant. Além de Woody Allen ("Hannah e Suas Irmãs"), também são comentados filmes de Stanley Kubrick ("Laranja Mecânica"), Frank Capra ("A Felicidade Não se Compra") e Steven Spielberg ("O Parque dos Dinossauros"), entre outros.

        "Posso tudo", diz Martinho da Vila aos 75

        folha de são paulo

        Coautor do samba vencedor do Carnaval se esconde em sítio para festejar e diz que idade não lhe impõe restrições
        Principais músicas de seu repertório serão regravadas por 24 artistas em projeto de tributo ao sambista
        MARCO AURÉLIO CANÔNICOENVIADO ESPECIAL A DUAS BARRAS (RJ)Martinho da Vila tinha muito para festejar.
        Depois de desfilar em sua Vila Isabel na última terça, mesmo dia em que completou 75 anos, viu a escola vencer seu terceiro Carnaval, com um samba-enredo já considerado histórico, que compôs com seu filho Tunico e os parceiros Arlindo Cruz, André Diniz e Leonel.
        Mas, na hora da festa do título, preferiu sumir. "Eu pensei: a imprensa toda vai estar lá. Se eu for, vai ser todo mundo atrás de mim. Não dá."
        Fugiu para a roça, a mesma que cantou na Sapucaí, do fogão de lenha, da prosa com os "cumpadi", no sítio onde nasceu, em Duas Barras, região serrana do Rio.
        Lá, em paz e cercado de amigos, familiares e de seus bichos -cachorros, patos, galinhas, bois, cavalos-, fez um churrascão daqueles.
        Foi nesse ambiente que recebeu a Folha para falar sobre a vitória de sua Vila e sobre os inúmeros projetos que tem pela frente.
        Martinho, que faz quatro shows no Sesc Vila Mariana no final deste mês (com ingressos esgotados), será homenageado com um "sambabook", no qual seus sucessos são interpretados por artistas como Paulinho da Viola ("Quem É do Mar Não Enjoa") e Pitty ("Roda Ciranda").
        Folha - Como surgiu o tão elogiado samba-enredo?
        Martinho da Vila - Esse vai ficar entre os grandes sambas da Vila Isabel. Tínhamos certeza de que estávamos com uma grande criação nas mãos. Agora, a receptividade foi muito maior do que a gente esperava.
        Eu até achei que não ia ser tanto, porque ninguém se preocupou em popularizar demais o samba, refrão, nada disso. Só pensamos em contar a história da vida na roça. E deu certo.
        O sr. sabe quando uma criação vai dar certo?
        O criador não pode pensar em fazer sucesso. Você tem de fazer o que gosta. A maioria das coisas que eu fiz foi para mim mesmo, mas aquilo avança. Tem de pensar em fazer bem-feito, direito. O sucesso é consequência.
        Tem novos discos a caminho?
        Vai sair um "sambabook" em abril, com minhas músicas gravadas por 24 artistas. E pretendo também fazer um disco com todos os meus sambas-enredos, são 11 da Vila Isabel e uns que eu fiz na Aprendizes da Boca do Mato, minha primeira escola.
        Dá para juntar tudo num disco, vou ver se consigo gravar neste ano. Vai se chamar "Escola de Samba-Enredo", mostrando o lado cultural dos sambas-enredos, as informações que eles trazem.
        O primeiro disco que o sr. gravou ("Nem Todo Crioulo É Doido", 1968) também está sendo relançado agora.
        O Sérgio Porto, que era um grande humorista, fez o "Samba do Crioulo Doido", um samba que agredia todos os compositores de escola de samba. E também fez um Show do Crioulo Doido. Fui ver, era racista pra caramba.
        Eu resolvi fazer uma coisa contrária, "Nem Todo Crioulo É Doido". Juntei o pessoal de escola de samba, fiz um show e gravamos o disco.
        Em entrevista recente à Folha, Zeca Pagodinho disse que o Carnaval acabou. Como o sr. vê a festa hoje?
        É melhor. Antes, as escolas de samba só se apresentavam para quem era daquele meio, era quase uma apresentação familiar. Elas foram crescendo, hoje tornaram-se o maior espetáculo da Terra, uma coisa fantástica.
        E a questão do patrocínio?
        Quando tem patrocinador, facilita muito, porque dinheiro é fundamental para fazer um grande espetáculo. Não pode fazer um espetáculo bonito e pobre.
        Agora, se você se curvar aos desejos do patrocinador, faz uma porcaria, fica ruim. Vira um veículo de propaganda, e não é essa a proposta. Hoje, uma escola de peso, tipo a Vila, pode escolher patrocinador. A gente dá as normas.
        Como anda seu lado escritor?
        Uma editora me encomendou um livro sobre o Pixinguinha. Ainda não sei como vou fazer, a ideia é contar para crianças, mas botando um pouco de informação.
        Tem um outro que já está pronto, chama-se "O Nascimento do Samba", também para crianças. Estou procurando uma editora para distribuir, mas, se não achar, eu mesmo vou lançar.
        É mais difícil escrever livro ou música?
        O livro precisa mais de uma dedicação permanente, muita disciplina, senão você não escreve. Tenho colegas que têm seis livros que não estão concluídos, eu não tenho nenhum. Faz um de cada vez, é isso. Devagarinho a gente vai longe. É filosofia de vida, não fazer nada correndo.
        Com a música é assim?
        Um samba-enredo é quase como um livro. Mas é mais fácil, porque você tem um tema. O chato é quando me pedem para fazer música sem ter um tema. O difícil é ter uma motivação, um gancho.
        Pensa em se candidatar novamente à Academia Brasileira de Letras?
        Não, aquilo [a candidatura em 2006] foi só para causar burburinho. A academia é um lugar de gente vaidosa, para gente velha (risos).
        Como foi chegar aos 75 anos?
        Estou na boa. Não vejo muita diferença, tirando usar óculos para ler, o que é chato para caramba. Não tenho restrições, posso tudo. Acho que ainda tenho muita coisa a fazer. Não sei o quê, mas vou fazer bastante.

          Álvaro Pereira Júnior

          folha de são paulo

          O papa, a freira, os sotaques
          Se Bento 16 falasse latim como brasileiros falam inglês, o mundo ainda não saberia da renúncia
          A freirinha repete: "Tenkió"! Depois começa a rir, mas logo para, quando leva um cutucão da colega ao lado, também freira. A cena aconteceu de verdade, na minha frente, faz alguns meses, no aeroporto de Congonhas.
          Segundos antes, pelo sistema de som, uma funcionária de companhia aérea fazia um daqueles anúncios impossíveis de decifrar, supostamente em inglês: "De néxtchi fláitchi uíu dipartchi fron guêitchi êitchi. Tenkió."
          As freiras eram estrangeiras e, claro, só conseguiram decifrar o "tenkió", provavelmente uma tentativa de dizer "thank you". Uma delas não se aguentou e, santa criatura, acabou zombando sem querer do sotaque dos nativos.
          Lembrei desse caso prosaico por causa da renúncia do papa. Como sabemos, Bento 16 avisou que estava de saída em latim. Na sala de imprensa do Vaticano, acompanhando por um circuito interno, a repórter Giovanna Chirri, da agência Ansa, sentiu as pernas tremer. Ela entende latim. Captou antes de todo mundo a gravidade do que acontecia. Deu a notícia em primeira mão.
          No Twitter, modesta, Giovanna explicou assim seu grande feito: "O latim do papa é muito fácil de entender".
          De volta às freiras de Congonhas: se o papa falasse latim como a grande maioria dos brasileiros fala inglês, o mundo teria demorado muito mais para saber da renúncia. Talvez ainda não soubesse.
          Sei que o tema é delicado, mexe com os brios nacionais. Até provocou uma confusão recente, quando o produtor musical americano Jack Endino, que trabalha com artistas do Brasil, reclamou de bandas brasileiras que insistem em cantar em inglês. "Não dá para entender nada."
          No caso do rock, há um agravante. Além do sotaque incompreensível, as letras normalmente não fazem sentido. São escritas por brasileiros sem nenhuma familiaridade com o inglês que se fala no dia a dia. Na estrutura e na gramática, acabam sendo traduções literais, para o inglês, de frases em português.
          Imagine, então, o pobre Jack Endino recebendo fitas demo de grupos brasileiros que cantam, com sotaque indecifrável, letras compostas em "portinglês"...
          O produtor foi bastante atacado por seu suposto esnobismo. Mas tem razão. E não se trata de exigir sotaque perfeito, daqueles de locutor da BBC. Isso, quase nenhum não nativo de língua inglesa tem. A não ser que tenha recebido educação bilíngue, desde criança, o que só acontece com uma ínfima elite.
          Para citar um exemplo extremo: Paulo Francis, correspondente em Nova York por tantos anos, falava um inglês erudito, sofisticado, de altíssimo registro intelectual. Tudo isso com um leve sotaque carioca. O que, ante seu domínio total da língua de William Faulkner e T.S. Eliot, não tinha a menor importância.
          De novo: ninguém está pedindo que brasileiros falem inglês com sotaque nota dez. Até porque não precisa -americanos e ingleses estão acostumados a ouvir sua língua com entonação estrangeira. De Björk a Antonio Banderas, de Greta Garbo a Arnold Schwarzenegger, de Henry Kissinger a Albert Einstein, não são poucos os exemplos de não nativos de sucesso no mundo anglófono das palavras e das ideais.
          Já por aqui, é bom lembrar, isso quase não acontece. Ao menor tropeço de um gringo no português, chiamos e fazemos piada. Ainda um país isolado do restante do mundo, o Brasil não está acostumado a escutar sua língua salpicada por um tempero de fora.
          Vi uma vez um jornalista americano, residente no Brasil, sendo entrevistado na TV. O rapaz tropeçava um pouco nos gêneros, errava uma ou outra concordância nominal, mas se virava bastante bem.
          Até que ele tocou onde não podia: disse que, como regra, brasileiros falam muito mal inglês. O apresentador sapecou: "Já o seu português está ótimo, né, meu filho?" A plateia veio abaixo, vingando-se da insolência do gringo.
          De pouco valeu ele ter respondido a todas as questões e entendido tudo o que foi perguntado, mesmo sob a pressão de estar na TV. Tinha sotaque, cometia um errinho ou outro. Os brazucas não perdoaram.
          Resumindo. Se um estrangeiro aparecer por aqui derrapando no português, mesmo que consiga se comunicar e entenda tudo, vai ser espinafrado sem perdão. Mas se um gringo se atrever a reclamar do inglês dos brasileiros, ele que se prepare para nosso contra-ataque chauvinista.
          Que as freirinhas de Congonhas nos perdoem.