quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Portinari ganha portal reformulado na internet

folha de são paulo


Site aposta em apelo de obras para gerar acesso
TRAJANO PONTESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA"Os brasileiros somos assim." Este é, segundo João Candido Portinari, a mensagem da obra de seu pai, o pintor Candido Portinari, ao povo brasileiro. Segundo ele, o recado nunca chegou de fato ao destinatário planejado, já que 95% das obras do paulista estão em coleções privadas.
A partir de hoje, a internet ajuda a lançar luz sobre a vida, a obra e o tempo de um dos mais célebres artistas brasileiros. Todas as cerca de 5.100 obras catalogadas do paulista estão no portal reformulado do Projeto Portinari, que entrou no ar à meia-noite de hoje no endereço www.portinari.org.br.
Há 33 anos, João dirige a Associação Cultural Candido Portinari, de difusão do legado do pai. Ele diz que nutriu, no passado, a esperança de construir um museu dedicado ao pai, ideia abandonada pelo alto valor atual dos originais. A solução encontrada foi a digitalização.
MURAL VIVO
Além das obras, o portal conta com outros 25 mil itens, incluindo cartas, fotografias, periódicos e depoimentos sobre Portinari e contemporâneos seus -entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Luís Carlos Prestes.
Segundo Maria Duarte, coordenadora geral do projeto do site, a novidade está no mural de obras do pintor, exposto na página inicial, que guia e se molda às buscas realizadas pelos usuários.
"É possível filtrar por cor ou tema das obras, ou fazer uma busca pelas palavras 'pipa e menino', por exemplo. O mosaico ajusta-se para refletir a busca. Quanto mais intuitiva for a navegação, mais facilmente se chegará ao grande público."
Olhando para o passado, Maria diz que "o site tinha navegação pouco amigável, o que naturalmente restringia o acesso", sem informar, até o fechamento desta edição, o histórico de acessos.
Segundo ela, o redesenho do banco de dados e o desenvolvimento do portal consumiram cerca de R$ 400 mil. Entre R$ 500 mil e R$ 600 mil anuais com pesquisadores e gestores do projeto, patrocinado pelo Ministério da Cultura e pela Queiroz Galvão Exploração e Produção.
João defende a atualidade e a necessidade de difusão da mensagem de seu pai. "É uma mensagem humanística, de solidariedade e espírito comunitário. Divulgá-la é passar cidadania. Não há cidadania sem memória e não há memória sem arte."

    Designer desconstrói São Paulo com o celular

    folha de são paulo

    Henrique Stabile exibe em galeria imagens manipuladas pensadas para o Instagram
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
    Chovem vacas sobre a praça Roosevelt. A Catedral da Sé está envolta em nuvens vermelhas. O concreto do Sesc Pompeia arma-se em patas de aranha. Astronautas descem pelo exterior do Copan.
    Imagens pouco usuais da cidade, produzidas por Henrique Stabile com aplicativos de celular, estão expostas na galeria Poeira, em São Paulo.
    "Pretendia decompor cenários da cidade dos quais todos possuem uma imagem na memória e trazer à tona novos significados", explica.
    O arquiteto e designer diz que o projeto nasceu despretensioso -e assim se mantém- durante seus estudos de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP sobre interatividade, hipermídia, intermídia e arte sem autoria.
    Ele aponta como fundamental o pensamento da desconstrução do filósofo Jacques Derrida, que repercute na obra de arquitetos como Peter Eisenman ("uma grande inspiração para mim"), Zaha Hadid e Bernard Tschumi.
    As imagens, ora geométricas, ora jocosas, resultam da manipulação de marcos da cidade com aplicativos de celular e revelam visões que só existem no mundo virtual.
    Inicialmente pensadas para o perfil de Stabile no Instagram, elas foram depois reunidas em www.desconstruindosp.tumblr.com, para onde são direcionadas as fotos de qualquer usuário marcadas com a "hashtag" do projeto (#desconstruindoSP).
    "Desde que comecei, ganhei uns 2.000 seguidores. Percebi que alguns passaram a repensar suas rotinas. Deixaram de postar fotos apenas da comida ou do cachorro."
    Stabile tenta agora desconstruir o prédio do Masp e, paradoxalmente, busca ordem. "Desconstruindo-se a desordem da cidade, podemos encontrar ordem?", pergunta.

    Contardo Calligaris

    folha de são paulo

    Para que serve a tortura?


    A tortura tem, no mínimo, três fins não excludentes: 1) tortura-se pelo prazer enjoativo de quem tortura ou de quem assiste à tortura; 2) tortura-se para que um acusado confesse seu crime; 3) tortura-se para que um acusado revele a existência de um complô, os nomes de seus cúmplices etc. Será que a tortura consegue tudo isso?
    1) Para satisfazer o desejo doentio do torturador, a tortura funciona, sempre.
    2) A Igreja Católica, por séculos, torturou pecadores para que admitissem seus pecados e, sobretudo, torturou heréticos para que confessassem suas teologias desviantes.
    Essa tortura era tão violenta quanto a que fora praticada contra cristãos na época das perseguições, mas o desfecho era diferente. Os mártires cristãos eram torturados para eles renunciarem à religião, e, às vezes, se abjurassem, o suplício era suspenso. Os heréticos eram torturados pela Inquisição para confessarem sua heresia, mas, em geral, a "confissão" não evitava uma morte excruciante.
    Será, então, que a tortura funciona para arrancar confissões?
    Se você for pai, faça a experiência. Seu filho (ou filha) fez uma besteira comprovada, sem sombra de dúvida, mas você não se contenta em aplicar uma punição e quer que a criança confesse. Se ela reconhecer sua culpa, aliás, a confissão valerá como uma atenuante, enquanto que, se ela insistir em negar o que fez, a mentira será infinitamente mais repreensível do que a besteira inicial.
    Sugestão diferente: se você soube que seu filho ou sua filha fez algo que não devia, diga no que foi que errou, deixe pouco espaço de discussão e dê a punição adequada. Depois disso, amigos como antes.
    Quase sempre, quando uma confissão é exigida, as crianças mentem com obstinação diretamente proporcional à de seu acusador. Elas fogem assim de uma humilhação radical, em que renunciariam à sua própria subjetividade: desistiriam de ter segredos e aceitariam que a versão do acusador substituísse a versão que elas gostariam de contar como sendo a história delas.
    Claro, se você insistir, ameaçando a criança com punições cada vez mais requintadas, a criança talvez "confesse", mas a confissão será apenas um ato de desistência, em que mesmo o inocente se dirá culpado do jeito que o acusador pede. Em suma, a tortura para obter confissões é um desastre.
    Há uma certa beleza moral nesse fracasso: a tortura seria inútil, não ajudaria a chegar à verdade. Ou seja, existe um justificativa prática, "racional", para aboli-la, além do horror que ela inspira em qualquer um (salvo, obviamente, em torturadores, inquisidores ou deuses vingativos).
    3) Infelizmente, esse argumento "racional" só se aplica à tortura que tenta extirpar a confissão do acusado. Quanto ao uso da tortura para obter informações sobre cúmplices, paradeiros escondidos, complôs etc., vamos ter que encontrar razões puramente morais para bani-la, pois, constatação desagradável, ela funciona.
    O saco plástico do capitão Nascimento funciona. Os "interrogatórios" brutais do agente Jack Bauer, na série "24 Horas", funcionam. E, de fato, como lembra "A Hora Mais Escura", de Kathryn Bigelow, que acaba de estrear, o afogamento forçado e repetido de suspeitos detidos em Guantánamo forneceu as informações que permitiram localizar e executar Osama bin Laden.
    Nos EUA, na estreia do filme, alguns se indignaram, acusando-o de fazer apologia da tortura. Na verdade, o filme interroga e incomoda porque nos obriga a uma reflexão moral difícil e incerta: a tortura, nos interrogatórios, não é infrutuosa --se quisermos condená-la, teremos que produzir razões diferentes de sua inutilidade.
    Para se declarar contra o uso da tortura no caso deste filme, alguém talvez invoque a moral kantiana e o dever de tratar os homens como fins e não como meios. A esse alguém, proponho um exemplo politicamente mais neutro, parecido com aqueles dilemas morais cuja prática (como descobriu um grande psicólogo, Lawrence Kohlberg) talvez seja a melhor forma de educação moral.
    Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o que?
    Contardo Calligaris
    Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de "Ilustrada".

    Obra de Edgar Allan Poe inspira série com Kevin Bacon

    folha de são paulo

    ALBERTO PEREIRA JR.
    DE SÃO PAULO

    Morto há 163 anos, Edgar Allan Poe é responsável por um dos principais sucessos da temporada da TV americana em 2013.
    É bebendo dos escritos do autor americano, bisavô dos gêneros suspense e mistério, que a série "The Following" vem sacudindo a audiência da televisão aberta dos EUA. No primeiro capítulo, foi vista por 10 milhões de pessoas.
    A série, que estreia nesta quinta-feira (21) no Brasil na Warner, mostra a caçada de um ex-detetive do FBI Ryan Hardy (Kevin Bacon) contra os seguidores de um serial killer (James Purefoy).
    Michael Lavine/Efe
    Kevin Bacon (à frente) protagoniza "The Following"
    Kevin Bacon (à frente) protagoniza "The Following"
    O seriado não é caso isolado de inspiração na obra de Poe. De "Os Simpsons" a atrações como "Os Sopranos", "Gilmore Girls" e "CSI", a filmes como "O Corvo" (1994), suas histórias seguem na mira de adaptações e recriações.
    Em abril, a Fox estreará no Brasil "Contos do Edgar", seriado em cinco capítulos trazendo à realidade paulistana histórias do escritor, sob a produção da O2 Filmes.
    "Embora seja um autor clássico e canonizado, Edgar Allan Poe encontrou um espaço na cultura pop atual, alimentando nossos medos e criando nossos terrores", diz Leo Braudy, professor de literatura americana da University of Southern California.
    "Poe deixou uma vasta descendência artística, como Hitchcock, Debussy e Stephen King. Até na capa de um disco dos Beatles lá está ele", completa Jeanette Rozsas, autora do livro "Edgar Allan Poe, o Mago do Terror".
    "The Following" marca a estreia de Kevin Bacon como protagonista na TV.
    "Tínhamos uma lista dos atores que gostaríamos de trabalhar e, antes de começar os contatos, recebemos uma ligação do agente do Kevin, dizendo que ele havia lido o roteiro e queria fazer", conta o diretor e produtor-executivo Marcos Siega.
    No enredo, o assassino Joe Carroll era um professor universitário especializado na poesia de Edgar Allan Poe que usou referências dessas obras ao matar 14 de suas alunas. O então detetive Hardy consegue prendê-lo.
    Anos depois, uma rede de dezenas de discípulos do assassino retoma a matança.
    NA TV
    The Following
    Estreia da série da Warner
    QUANDO quinta-feira (21), às 22h45
    CLASSIFICAÇÃO 14 anos

    'Todos os atores querem impressionar Kevin Bacon no set', diz diretor de 'The Following'

    ALBERTO PEREIRA JR.
    DE SÃO PAULO

    Marco Siega, 43, diretor de "The Following", série que estreia nesta quinta-feira (21), na Warner, afirma estar impressionado com o trabalho de Kevin Bacon à frente do programa.
    "Ele é demais. Filmar uma série de TV é muito difícil e bem diferente de fazer cinema, são muito mais horas de trabalho diariamente", diz, em entrevista à Folha.
    "E ter alguém como Kevin, que aparece preparado, nunca é um problema e dá o tom para os outros atores é um privilégio. Todos querem impressioná-lo no set. Porque ele é tão bom, preparado e nunca reclama, todos fazem o mesmo."
    Sucesso nos EUA, "The Following" mostra a caçada de um ex-detetive do FBI, Ryan Hardy (Bacon), aos discípulos de um "serial killer", Joe Carroll (James Purefoy).
    Divulgação
    O diretor Marcos Siega e o ator James Purefoy, em "The Following"
    O diretor Marcos Siega e o ator James Purefoy, em "The Following"
    Carregado de cenas de violência, o programa --criado por Kevin Williamson ("Vampire Diaries" e "Dawson's Creek")-- teve na estreia americana cerca de 10 milhões de espectadores e marca o primeiro papel de protagonista na televisão do astro de "Footloose" (1984).
    Também coloca Bacon na pele de um mocinho, depois de sucessivos papéis de vilão no cinema.
    "'The Following' não é uma série tradicional. Quando você assiste, cairá de amores por personagens que nem sempre são os bonzinhos. Isso porque nós estamos sempre preenchendo as lacunas, contando histórias das pessoas nesse culto, ao mesmo tempo que o FBI tenta capturá-los. E, como audiência, você vai responder ao lado humano da história. Não buscamos só assustar as pessoas. É um drama verdadeiro", defende o Siega.
    A primeira temporada terá 15 episódios. Uma segunda já está nos planos da Fox, que exibe a atração nos Estados Unidos.
    GAÚCHO
    Filho do jogador de futebol Jorge Siega, que jogou com Pelé no time New York Cosmos, nos anos 1970, com uma francesa, Marcos Siega nasceu em Nova York.
    "Meu pai é gaúcho. Na infância, passei muitas férias e fim de ano no Brasil. Sempre fui ligado ao futebol", afirma ele, que não conhece muito a produção audiovisual brasileira.
    A carreira na TV começou com a música. Antes de dirigir ficções como "Fastlane" (2002-03), "Veronica Mars" (2004-05), "Dexter" (2007-09) e "Vampire Diaries" (2009-11), comandou videoclipes de bandas como Weezer, Blink 182 e System of a Down.
    "Parte foi sorte e parte foi porque fazia um bom trabalho. Mas foi 'Dexter que me levou para outro patamar", observa.