sexta-feira, 5 de abril de 2013

Épico projeta futuro sombrio para o Brasil

folha de são paulo

CRÍTICA - ANIMAÇÃO
Longa de Luiz Bolognesi recria passagens históricas e traz abordagem pop e provocadora do passado do país
SÉRGIO RIZZOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAQuatro longas de animação entraram no ranking das dez maiores bilheterias de cinema no Brasil em 2012: "A Era do Gelo 4", "Madagascar 3: Os Procurados", "Alvin e os Esquilos 3" e "Valente".
Chegará o dia em que a produção nacional disputará espaço nesse suculento filão de mercado? Se chegar, é provável que "Uma História de Amor e Fúria" venha a ser lembrado como um precursor.
Realizado por uma jovem equipe de animadores, o filme nasceu, segundo o diretor e roteirista Luiz Bolognesi, da proposta de usar estética próxima à das "graphic novels".
Ainda que atinja também adolescentes (classificação 12 anos), o público-alvo são jovens e adultos interessados numa abordagem pop (e provocadora) da história do país.
Quatro episódios estruturam o longa: três deles recriam eventos que ajudam a entender o presente. "Viver sem conhecer o passado é como andar no escuro", alerta o protagonista (voz de Selton Mello).
Criado a partir de elementos da mitologia indígena, esse personagem fantástico participa de um combate entre índios das etnias tupinambá e tupiniquim, antes da chegada dos europeus.
Depois, saltos no tempo levam-no à Balaiada, em 1838, no Maranhão, e também ao final dos anos 1960, quando militantes de esquerda combatiam a ditadura militar.
Prevalece uma leitura alternativa à da historiografia oficial a serviço do poder. Nada de Duque de Caxias: os heróis são outros combatentes.
É no quarto episódio, ambientado no Rio de 2096, que o filme mais ousa e incomoda ao imaginar um futuro sombrio. Que tal uma cidade sob o controle de milícias, dividida entre os que têm acesso à água potável e os "sem-água", e um presidente evangélico? Irado, mano.

    Mônica Bergamo

    folha de são paulo

    Com projeto de Hans Donner, Globo ganhará nova identidade visual


    A TV Globo ganhará nova identidade visual a partir do dia 26, quando completa 48 anos. Hans Donner, que criou o logotipo da emissora há 39 anos e estava afastado da missão, retomou o projeto. E há um mês desenvolveu o novo símbolo, que, segundo ele, "será mais clean [limpo], ganhará vida e movimento".

    DE CARA NOVA
    O novo desenho deveria ter sido apresentado junto com o lançamento da programação da Globo, em 27 de março. "Mas não ficou pronto. Achei até melhor. Dará tempo de implantar. É uma mudança da marca que vai da canopla do microfone ao carro, passa pelos papéis, uniformes e todas as inserções no vídeo", diz Donner.
    DE CARA NOVA 2
    "Durante todos esses anos, o logo da Globo foi castigado porque os computadores interferiram muito na filosofia e na limpeza do símbolo. Cada novo designer queria colocar reflexo, metal etc. Os caras que trabalharam comigo destruíram a marca. Não propositalmente. Mas, de fato, ela piorou. Está na hora de limpar meu filhote e adicionar vida", completa o designer.
    LADY LAURA
    Karl Lagerfeld/Divulgação
    A atriz Laura Neiva foi a única brasileira a ser fotografada por Karl Lagerfeld, estilista da Chanel, para a nova edição do livro "The Little Black Jacket"
    SOB NOVA DIREÇÃO
    Após problemas de montagem que deixaram algumas galerias furiosas em 2012, a ArtRio renovou seu comitê de gestão, o grupo que decide quais casas participam ou não da feira. O novo time tem Alexandre Gabriel, da Fortes Vilaça, Cecília Tanure, da Gentil Carioca, Greg Lulay, da David Zwirner, Matthew Wood, da Mendes Wood, e Anita Schwartz, da galeria que leva seu nome.
    LINA CENTENÁRIA
    Uma exposição comemorando o centenário de Lina Bo Bardi, que acontece em 2014, está sendo organizada por Marcelo Ferraz e André Vainer, arquitetos que trabalharam com ela.
    *
    A mostra começa em São Paulo, no Sesc Pompeia, projetado por ela, segue para a Galleria Nazionale d'Arte Moderna, em Roma, e termina no Rio, onde deve ocupar o Palácio Gustavo Capanema.
    CAFÉ COM LEITE
    A atriz Taís Araújo, que está no elenco de "O Dentista Mascarado", série cômica da Globo que estreia hoje à noite, faz brincadeira sobre o fato de atuar ao lado dos humoristas Marcelo Adnet e Leandro Hassum. "Eu sou a base da cadeia alimentar, e eles estão no topo. Tô aprendendo", diz.
    CONTEMPORÂNEOS
    A abertura da SP-Arte, na quarta-feira (3), reuniu os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo (a dupla Os Gêmeos), os galeristas Adriana Mattoso e Chris Van de Weghe e as empresárias Cris Lotaif e Carola Diniz. Fernanda Feitosa, diretora da feira, recebeu os convidados no pavilhão da Bienal.

    Abertura da feira SP-Arte na Bienal do Ibirapuera

     Ver em tamanho maior »
    Zanone Fraissat/Folhapress
    AnteriorPróxima
    A dupla OsGêmeos, formada por Gustavo (à esq.) e Otávio Pandolfo na abertura da SP-Arte, na quarta (3), na Bienal do Ibirapuera
    BIG BANG DIVINO
    A obra sobre física quântica escrita pelo bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra, sairá pela editora LeYa, em maio. O título: "A Ciência e a Fé - O Reencontro através da Física Quântica".
    *
    Rodovalho já tem 71 livros. O mais recente, "Batalha Espiritual", vendeu dez mil exemplares.
    PIPOCA
    Os atores Betty Faria, João Milguel e Neco Vila Lobos e o diretor Cláudio Assis estiveram anteontem na abertura do 39º Festival Sesc Melhores Filmes, no CineSesc. O evento homenageou o diretor Carlos Reichenbach, morto em 2012.

    Betty Faria e João Miguel em festival de cinema

     Ver em tamanho maior »
    Zanone Fraissat/Folhapress
    AnteriorPróxima
    O ator João Miguel foi à abertura do Festival Sesc Melhores Filmes no CineSesc, na quarta (3)
    DETALHES DE NÓS DOIS
    O Exército de Salvação instituiu 18 de abril como "Dia dos Ex-Namorados" para incentivar as pessoas a doar roupas e objetos que lembrem os "ex".
    *
    Campanha publicitária da entidade beneficente que será lançada hoje pela agência WMcCann sugere: "Que pena que acabou. Mas, já que acabou, doe".
    O QUE A BAIANA TEM
    O baiano Wagner Moura confirmou presença no encerramento do Festival de Teatro de Curitiba, neste domingo. O ator é curador da Mostra Baiana, dentro do evento. Ele assistirá ao primeiro espetáculo infantojuvenil do Bando de Teatro Olodum, "Áfricas".
    CURTO-CIRCUITO
    A festa Tô Q Tô, com os DJs Zé Pedro, Marcus Preto e Ad Ferrera, acontece nesta sexta-feira (5), às 23h, na Nostromundo. Classificação: 18 anos.
    Marcos Caruso e Erom Cordeiro estreiam "Em Nome do Jogo", às 21h30, no teatro Jaraguá. 14 anos.
    A quarta edição da São Paulo Boteco Week começa nesta sexta e vai até o dia 14.
    O livro "Ai Weiwei Entrevistado por Hans Ulrich Obrist" será lançado nesta sexta-feira, às 20h, no MIS.
    Rapin' Hood faz o show "Sujeito Homem", sexta (5) e sábado (6), no auditório Ibirapuera, às 21h. Livre.
    Mônica Bergamo
    Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

    Carlos Heitor Cony

    folha de são paulo


    Seja cretino com a internet

    DE SÃO PAULO
    Um cidadão rico e mal informado a meu respeito pediu-me um conselho: o que deveria fazer para perder dinheiro rapidamente. Motivo: ele se apavorou com alguns comentários apocalípticos que leu por aí e passou a temer que uma reviravolta político-social o surpreenda com os talões de cheques dos bancos suíços, além de outros investimentos nada patrióticos.
    Minha primeira sugestão foi no sentido de que me desse o dinheiro à vista, compactamente. Correria eu, de bom grado, os riscos provenientes, embora não mais entrasse no reino dos céus nem passasse pelo buraco de uma agulha --conforme rezam as Santas Escrituras.
    A sugestão foi recusada. O homem não dá esmolas. Não tem nenhum interesse em que eu passe ou não passe pelo buraco das agulhas. Ele deseja perder dinheiro fazendo jus ao trabalho, suando o rosto. Exige ideias.
    Ficou de pensar na segunda sugestão que lhe dei: a de criar, em nível nacional ou continental um curso gratuito de cretinice por correspondência. Numa época em que os cretinos já nascem feitos e embalados, um curso desses seria o caminho mais prático para a falência.
    Evidente que não dei a sugestão de graça. Impus a natural condição de eu próprio orientar o curso, mediante uma remuneração à altura do empreendimento.
    Preferi não entrar em detalhes. Limitei-me a esboçar o plano e sua pouca rentabilidade. Ele me implorou que lhe mandasse um e-mail apontando meios e modos de se localizar o cretino em potência ou em ato.
    Redigido o e-mail, verifiquei que o esboço tem uma vantagem suplementar, a de servir igualmente para ambos os sexos e até para o terceiro. Resultou num texto transcendental. E comecemos justamente pelo transcendental:
    - O cretino, sempre que puder, e mesmo quando não puder, dirá que a coisa --qualquer coisa-- é transcendental.
    - Quando interrogado sobre seu compositor predileto, o cretino dirá com modéstia: Cartola. Apesar de apreciar Cartola, é importante que o cretino dê provas de amplidão espiritual e moral, citando também Bach e Frescobaldi.
    - O cretino será adepto dos blogs, sites, das pesquisas de mercado, do amor gratificante, da formação de uma boa imagem, do diálogo nada ideológico e da globalização dos resultados.
    - O cretino será otimista, acreditará no século 21 e denegrirá a obra musical do Tiririca. Preferirá o cinema de Spielberg e os curtas do cinema baiano, aceitando a experiência do "besteirol", desde que em cores. Mas assistirá às escondidas as comédias do canal Sony e os desenhos animados japoneses.
    - O cretino repudiará o fumo, as carnes vermelhas, os refrigerantes que não sejam diet, as mulheres que pintam os olhos e usam saias justas.
    - Raspará e deixará crescer a barba de tempos em tempos, considerará o rock mais científico do que a teoria do quantum e dirá duas vezes por dia: "Depois de Duchamp, só Hélio Oiticica!". A frase é tida como profunda, moderna e, até certo ponto, patriótica.
    - O cretino estará preocupado com o retorno de Hong Kong ao domínio da China, proclamará a iminente decadência da civilização judaico-cristã e, nas horas vagas, prometerá que um dia emigrará para Papua-Nova Guiné.
    - Duas vezes por dia, às vezes três, o cretino pensará que quem estava certo era o Hare Krishna.
    - Nos momentos de sufoco, recorrerá aos florais de Bach (não confundir com o Johann Sebastian) e às ervas do Santo Daime.
    - O cretino desprezará a família e os hábitos de higiene domésticos. Dirá que só os banqueiros tomam banho para melhor tomarem o dinheiro alheio, e que só as prostitutas, por motivos operacionais, escovam os dentes. Até o dia em que se transformar em bancário necessitado de comer todos os dias à própria custa.
    - Quando indagado sobre o seu poeta preferido, o cretino responderá com desdém: "Drummond, logicamente". A cretinice não está em gostar de Drummond, mas no "logicamente" --o que é lógico.
    - E, com tanta lógica, sejamos lógicos: o cretino é um santo às avessas, que precisa apenas de sabão e cartilha para se transformar num sujeito aproveitável, digno de ser animador cultural, embaixador em organismos internacionais, diretor de carteira exterior de um banco em vias de falência, assessor de organismos não-governamentais e cronista.
    Carlos Heitor Cony
    Carlos Heitor Cony é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.

    Mostra paralela ganha impulso em Curitiba

    folha de são paulo

    Formação de curadorias independentes no Fringe reforça a programação do festival de teatro da capital paranaense
    Espetáculos baianos, selecionados por Wagner Moura, levam visceralidade e atores talentosos ao evento
    GUSTAVO FIORATTIENVIADO ESPECIAL A CURITIBAFenômeno facilmente identificável nesta edição do Festival de Curitiba, o Fringe está amadurecendo.
    A formação de curadorias independentes dentro da mostra paralela, algo que vem crescendo nas últimas edições do evento, impulsionou o circuito. Mesmo com pouco incentivo financeiro, núcleos artísticos são capazes de elaborar programações com mais qualidade.
    Nesta edição do festival, uma mostra em especial chamou a atenção do público e conseguiu formar grandes filas na porta do teatro HSBC, no centro da capital paranaense. Trata-se da Novos Repertórios, que chegou a sua sexta edição com uma seleção de trabalhos frescos, em geral concebidos há menos de um ano.
    A mostra nasceu com a intenção de colocar na vitrine trabalho de jovens companhias de Curitiba. Mas hoje essas companhias "já não estão mais tão jovens assim", diz Pablito Kucarz, um dos curadores da mostra.
    Segundo o ator, esse formato possibilita ainda garantir mais recursos técnicos junto aos teatros e à organização do festival. "Trabalhamos com mais ou menos 80% dos recursos que precisamos", diz Kucarz.
    O amadurecimento determinou também delimitações curatoriais interessantes.
    O ator prefere deixar a palavra "curadoria" de lado, mas em texto de apresentação da mostra o diretor Márcio Mattana fala em "um corte que se preocupa pouco com as semelhanças superficiais e aposta antes numa seleção de divergências significativas".
    As mostras organizadas dentro do Fringe já começam a ser vistas também como ponto estratégico por quem vem de fora da cidade.
    A possibilidade de se apresentar na mostra paralela foi percebida pela Funceb (Fundação Cultural do Estado da Bahia). Neste ano, a instituição resolveu reservar um dos melhores teatros da capital paranaense, o José Maria dos Santos, para mostrar trabalhos de Salvador especialmente, em seleção assinada pelo ator Wagner Moura, que confirmou sua presença no festival neste domingo.
    Para o público, criou-se, assim, a chance de conhecer ao menos uma parte da cena soteropolitana, representada aqui principalmente por um teatro que se beneficia de atores talentosos.
    Visceralidade parecia uma qualidade em desuso nas mãos de artistas do Sul e do Sudeste. Mas espetáculos como "Pólvora e Poesia", do diretor Fernando Guerreiro, e "Seu Bomfim", com o ator Fábio Vidal, reafirmam que o sangue ainda ferve pelos lados do Nordeste. E com bons resultados.

      Roberto Alvim inspira nova geração do teatro
      Peças com iluminação baixa e minimalismo de gestos guiam-se por ideias do diretor
      DO ENVIADO A CURITIBAO impacto do trabalho do diretor e dramaturgo Roberto Alvim, tanto no campo da produção quanto em sua proposição de repensar as delimitações linguísticas e filosóficas do teatro, começa a aparecer numa geração de artistas posterior à sua.
      Especialmente em Curitiba, onde o artista deu cursos de dramaturgia e direção desde 2009, traços da identidade criada por ele reverberam em jovens criadores.
      Peças com iluminação bem baixas, muitas vezes elaboradas para revelar silhuetas (caso de "Melhor Ir Mais Cedo Pular da Janela", de Léo Moita), e também o minimalismo radical no gesto, como em "Espasmo" (espetáculo de Marcos Damasceno, com texto de Gabriela Mellão, colaboradora da Folha), guiam-se em parte pelo pensamento artístico batizado pelo diretor como Transumano.
      "Transumano", diz Alvim, "é um conceito ligado a problematizações radicais do sujeito, é dramaturgia de invenção de outros mundos linguísticos, habitados por outras formas de vida".
      Para o ator Pablito Kucarz, um dos curadores da mostra Novos Repertórios, que reúne trabalho de companhias curitibanas, a influência de Alvim "fomenta a produção dramatúrgica da cidade".
      "Essa influência se desdobra de forma interessante e traz atenção especial à palavra", diz. "Eu não entendo o porquê de muitos trabalhos terem de ser escuros; apenas em alguns isso se justifica."
      Para a crítica Luciana Romagnolli, "em Curitiba, a presença de Alvim significou um impulso renovador, colocando uma jovem geração em contato com questionamentos sobre o texto e a cena".
      Paradoxalmente, diz Romagnolli, "isso levou à formação de replicadores" que repetem procedimentos de luz, atuação e dramaturgia. "Se o Transumano amplia o pensamento sobre teatro num elogio à singularidade, ele também desencadeia um fechamento em práticas teatrais com poucas variações entre si."