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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Plateia vira parlamento e vota em peça que critica democracia - Gustavo Fioratti

folha de são paulo
ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA"Este ano, o festival Cena Contemporânea [de Brasília] nos ofereceu quatro espetáculos, mas só tivemos interesse em um", diz Luciano Alabarse, coordenador do Porto Alegre em Cena, ao ser questionado se o trânsito de espetáculos por festivais poderia representar também uma crise de identidade curatorial.
"Trazemos apenas o espetáculo que nos interessa", completa, referindo-se ao francês "A Mulher que Matou os Peixes", a ser exibido pela mostra no dia 4.
Segundo Alabarse, as parcerias são consolidadas também para divisão de custos de cachês e viagens.
Outro exemplo de negociação entre curadorias é o curioso espetáculo catalão "Pendiente de Voto", que esteve na semana passada no Cena Contemporânea e tem sessão hoje no Festival Internacional de Londrina.
O espetáculo não põe atores em cena, é inteiramente protagonizado por sua plateia, que atua como uma espécie de parlamento.
Quando chegam ao teatro, os espectadores recebem controles-remotos com dois botões, marcando "sim" e "não". No palco, há um telão onde, iniciado o espetáculo, aparecem questões diversas: "Homens e mulheres deveriam compartilhar banheiros públicos?"; "Alguns espectadores chegaram atrasado. Devemos permitir que eles entrem?" e "Você prefere ouvir agora Chico Buarque ou Caetano Veloso?".
É um jogo que critica questões relativas ao exercício da democracia, sobretudo por meio de uma análise sobre limitações de sistemas binários. "Vota-se sim, e vota-se não", diz um dos criadores do espetáculo, Roger Bernat.
No meio da peça, a plateia é reorganizada. Um software aproxima espectadores com perfis semelhantes e organiza partidos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Mostra 'Fin La! La! La!' debate colapso social e sanidade

folha de são paulo
GUSTAVO FIORATTI
DE SÃO PAULO
Ouvir o texto
Cinco artistas que trabalharam na Finlândia exibem, a partir desta sexta-feira (9), em São Paulo, uma programação que se aproxima do gênero documental e que inclui mostras de vídeos, performances, workshops e debates.
Criados sob o título "Fin La! La! La!" esses trabalhos se desenvolvem em torno de questões como o pós-industrialismo, a pena de morte e insanidade e podem ser conferidos no Sesc Pinheiros e no Museu de Arte Moderna (a partir do dia 13).
Entre os integrantes do grupo estão os brasileiros Elisa Band e Cássio Santiago, que são artistas e pesquisadores de performance. À dupla juntam-se os finlandeses Tero Nauha e Juha Valkeapää e a polonesa residente na Finlândia Karolina Kucia.
Divulgação
"Parasitic", performance de Karolina Kucia, na programação do festival 'Fin La! La! La!'
"Parasitic", performance de Karolina Kucia, na programação do festival 'Fin La! La! La!'
PENA DE MORTE
O programa começa no Sesc Pinheiros, às 16h30, com a performance "Executed Stories", de Valkeapää, que se desdobra a partir de uma palestra sobre a pena de morte. A pesquisa resgata histórias de executores de várias nacionalidades, como o americano Robert G. Elliott.
Durante a performance, fala-se também de homens e mulheres executados, entre eles Anne Frank, judia alemã que morreu aos 15 anos em um campo de concentração. O trabalho será reexibido no sábado (10), às 19h30.
Às 19h também de hoje (com reapresentação no domingo, às 16h), Tero Nauha apresenta "Life in Bytom", a partir de entrevistas, registros de imagens e vivência em Bytom, cidade com vocação para a mineração na Polônia.
A programação no MAM inclui a mostra de videoarte, com exibições em horários determinados (veja no site finlalala.tumblr.com ).
FIN LA! LA! LA!
QUANDO Desta sexta (9) ao dia 18 (no Sesc Pinheiros) e de 13 a 15 (no MAM)
ONDE Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, tel. 0/xx/11/3095-9400); MAM (parque Ibirapuera, av. Pedro Alvares Cabral, s/nº, portão 3, tel. 0/xx/11/5085-1300
QUANTO grátis
CLASSIFICAÇÃO veja em finlalala.tumblr.com

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Peças "Berro" e "Trem-Bala" estreiam em SP - Gabriela Mellão e Gustavo Fioratti

folha de são paulo
Peça 'Berro' discute sentido da existência
GABRIELA MELLÃO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Tennessee Williams, ignorado pelo Grupo Tapa durante mais de três décadas, tem se tornado, nos últimos anos, uma das mais constantes companhias deste tradicional grupo de teatro, célebre sobretudo por montar textos clássicos.
"Berro", que estreia amanhã, é a terceira peça do escritor norte-americano (1911-1983) encenada pelo coletivo, depois de "Alguns Blues do Tennessee" (2011) e "Longo Adeus" (2013). A trupe também traduziu uma coleção de quatro volumes com sua obra teatral, publicada recentemente.
"Tennessee Williams passou a me perseguir", brinca Eduardo Tolentino, diretor do Tapa. Segundo ele, "Berro" revela uma faceta obscura de Williams. "Ele é muito conhecido no Brasil por suas grandes peças realistas, mas tem obras inexploradas, nas quais experimentou muito", afirma.
Divulgação
Rubens Caribé e Mariana Muniz em cena em "Berro", peça dirigida por Eduardo Tolentino, que traz influências de Pirandello e Beckett
Rubens Caribé e Mariana Muniz em cena em "Berro", peça dirigida por Eduardo Tolentino, que traz influências de Pirandello e Beckett
O texto apresenta Feliz e Clara, irmãos condenados a representarem uma única peça, cujos personagens são um espelhamento deles próprios.
Para Tolentino, o Williams que surge em "Berro" situa-se entre Luigi Pirandello (1867-1936) e Samuel Beckett (1906-1989). O metateatro presente na obra a aproxima do primeiro. O tom absurdo, que leva o espectador a duvidar da existência dos protagonistas, remete à obra do segundo. "A peça vai ganhando dimensões e, no meio delas, a sensação de que os personagens não são reais, mas uma metáfora da vida: representações de como cada um arranja histórias para que sua existência faça sentido", diz.
Interpretados por Rubens Caribé e Mariana Muniz, os personagens/atores interrompem as apresentações para discutir sobre temas teatrais. Aparentemente, trata-se de uma peça sobre a arte do palco. O teatro, no entanto, é usado como pista falsa.
"Como em Pirandello, a questão central é o papel que o homem desempenha na vida; o quanto ele é ator de sua própria existência, repete padrões que carrega desde a infância e adia a solução final que seria a morte", diz o diretor.
Williams sugere, nesta peça, que só através da imaginação é possível suportar a vida. "A imaginação é um hábito. (...) Mágico é esse hábito da nossa existência", concluem os protagonistas de "Berro".
BERRO
QUANDO sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h; de amanhã a 1º/9
ONDE Teatro de Arena Eugênio Kusnet (r. Dr. Teodoro Baima, 94; tel.: 3256-9463)
QUANTO R$ 20
CLASSIFICAÇÃO 14 anos
Montagem debate velhice em tom de comédia
Espetáculo de Naum Alves de Souza retrata senilidade numa São Paulo em demolição
DE SÃO PAULOHá alguns anos, o dramaturgo e diretor Naum Alves de Souza, 70, passou a pé por um ponto no centro de São Paulo onde estava habituado a cruzar uma praça.
Por conta de obras da prefeitura, o lugar havia desaparecido, atesta ele. "São Paulo está sempre em demolição", prossegue, referindo-se a uma sensação que percorre as páginas de nova peça, "Operação Trem-Bala", que entra em cartaz com sua direção amanhã no Instituto Cultural Capobianco.
O espetáculo é moldado a partir de um retrato da velhice, e a relação com São Paulo se estabelece principalmente na "sensação de delírio" de ver uma cidade sempre em transformação, prescindindo da preservação dos afetos moldados também na memória do espaço urbano.
O personagem central (Marco Antônio Pâmio) é um político já senil que, em sua loucura, quer inaugurar um projeto de trem-bala na cidade. Seus herdeiros aproveitam o pretexto para embarcá-lo em outra viagem, junto com sua mulher (Ana Andreatta), rumo a um asilo. "Embora triste", diz Naum, "a história é tratada em tom de comédia, com personagens grotescos".
FINITUDE
"Os 70 anos dão para a gente um peso diferente", diz Naum, referindo-se à idade que completou no ano passado, meses antes de ser internado em um hospital por complicações causadas por miastenia, uma doença neuromuscular que "tira suas forças, tira sua energia", como ele próprio descreve.
O período no hospital permitiu meditar sobre a condição "de finitude", diz, o que lhe deu elementos para escrever a peça. A opção por um protagonista poderoso (e rico) sustenta o atestado de que "velhice vem para todos."
Com "Operação Trem-Bala", Naum dá continuidade ainda a um tema comum em sua obra, o das relações familiares, já tratado, por exemplo, em "No Natal a Gente Vem te Buscar", de 1979, e "A Aurora da Minha Vida (1981).
Para plateia de 40 pessoas, com cadeiras de roda e andadores em cena, o espetáculo tem direção musical do compositor Lívio Tragtenberg.

    domingo, 28 de julho de 2013

    Prestes a completar 50 anos, Andrea Beltrão chega a São Paulo com a peça "Jacinta"- Gustavo Fioratti

    folha de são paulo - revista serafina
    Comédia da vida privada
    Prestes a completar 50 anos, Andrea Beltrão chega a São Paulo com a peça "Jacinta", em que vive talvez o papel mais improvável de sua carreira: o de uma atriz sem talento
    GUSTAVO FIORATTIDE SÃO PAULO"Isso não é uma porta", diz Andrea Beltrão no aeroporto de Congonhas, olhando para a rua lá fora. Definitivamente não. Aquela parede de vidro que ela esperava que se abrisse à nossa frente enquanto se mexia inutilmente na expectativa de acionar um sensor automático não era uma porta. "Vem, eu te mostro", ela me puxa. "Isso é uma porta."
    Problema e reação. Atores, sobretudo os cômicos, aprendem desde muito cedo, talvez por instinto de sobrevivência, a tirar proveito dos momentos fugazes, como esse, que abre um dia dedicado a aeroportos, táxis, entrevista, sessão de foto.
    Logo de cara, fica claro: Andrea rebate a bola com o mesmo reflexo dos palhaços, improvisadores por excelência que são. Já dentro do táxi, não oferece um dropes. "Desculpe, é o último", defende-se, sem constrangimento, atrás de um olhar terno.
    O jeito timidamente debochado, a falta de formalidade, a calça preta desgastada... Se há alguma preocupação, é a de não demonstrar preocupações. Bem à vontade, ela obedece com disciplina ao maquiador, à figurinista, ao fotógrafo. Posa em uma casa antiga, no bairro do Bexiga (centro de SP) hoje ocupada por uma galeria de arte. Veste uma peruca loira do tamanho de um bonde, trajes padrão rococó, colares de rock.
    A sessão de fotos dura cinco horas, e ela não esboça nenhum sinal de cansaço, nenhuma restrição. Há uma pausa para sushis com Coca-Cola. Não é light. O papo com o maquiador vai parar na Papagaio, extinta boate do Rio em cuja pista ouvia-se de Abba a Lulu Santos no fim dos anos 1970. Ela frequentou.
    Conversamos também sobre sua avó Cleonice, mulher "alinhada" que participou efetivamente de sua educação. "Minha mãe se separou do meu pai quando eu tinha dois anos e fomos morar com ela." Cleonice morreu em 1994, no mesmo ano em que também morreu o seu irmão. Ela foi filha única até os 11 anos, voltou a ser aos 30.
    Arthur, "alto e engraçado", teve um aneurisma aos 19. "Foi um ano devastador."
    A atriz carioca, que faz 50 anos em setembro, não cogita plástica. Mantém a forma nadando entre 1.500 e 2.000 metros no mar, todos os dias. Sem filtro solar. "Olha, minha pele é toda manchada", exibe, com orgulho. Segundo Fernanda Torres, colega no seriado "Tapas & Beijos", "o corpo dela deveria ser doado à ciência para estudos. É uma das pessoas mais resistentes que eu conheço".
    A namoradeira
    Desde o início de sua carreira, a ideia que lhe dá norte é a de "frescor". Zelda Scott, por exemplo, a jornalista descolada da série "Armação Ilimitada", ícone televisivo da geração anos 1980, namorava dois amigos, Juba (Kadu Moliterno) e Lula (André de Biase), ao mesmo tempo. "Ela fazia isso na maior categoria e sem constrangimentos", lembra a intérprete.
    Exibida de 1985 a 1988 pela Globo, "Armação" fez "um puta de um sucesso entre as crianças", conta Andrea. "Elas corriam atrás da gente na rua." Zelda foi a primeira de uma longa lista de papéis similares, de mulheres muito, digamos, independentes.
    A atriz se dá conta hoje de que "o papel da mulher galinha" a perseguiu. Mas talvez não seja exatamente esse o termo: "galinha" cai como um exagero. "Acho, na verdade, que as pessoas me associam à figura da mulher livre", ela se corrige, referindo-se a outras personagens de sua trajetória, como
    Ingrid, cujo amor foi compartilhado pelos três filhos da dona Armênia, na novela
    "Rainha da Sucata" (1990).
    Fã do diretor Federico Fellini (1920-1993) e dos atores Giulietta Masina (1921-1994) e Marcello Mastroianni (1924-1996), ela se espelhou no despudor dos italianos para pular de papel cômico em papel cômico.
    "Eu gostaria de ter sido a Giulietta Masina. Já vi 'Noites de Cabíria' (1957) 80 vezes. 'A Estrada da Vida' (1954), 70. Mas não rolou, não sou a Giulietta, e tudo bem, vou imitando ela ao longo da vida", diz, a respeito da atriz que foi mulher de Fellini e que a inspirou desde o início.
    Ela estreou profissionalmente ainda adolescente, aos 13 anos, em "O Auto da Compadecida" (1976), no tradicional teatro O Tablado, um dos maiores celeiros de jovens atores do Rio.
    Para Andrea, há traços de
    Giulietta também nas brechas dramáticas de sua carreira cômica. E há muitas delas, como Úrsula, maluquinha esotérica da novela "Pedra Sobre
    Pedra" (1992). No teatro, fez Catherine, filha de um matemático esquizofrênico em "A Prova" (2002), montado dois anos antes na Broadway com a atriz Mary-Louise Parker. Levou um Prêmio Shell por seu trabalho. Atuou ainda em "Sonata de Outono" (2005), baseado no filme de Ingmar Bergman, de 1978.
    Mas, por ora, deixou o drama de lado. Ganhou seu segundo Prêmio Shell pela atuação na peça "As Centenárias" (2007), uma das muitas parcerias com Marieta
    Severo. Interpretou a cabeleireira Marilda na série televisiva "A Grande Família", também com Marieta, além de Marco Nanini.
    E, desde 2011, é uma das protagonistas de "Tapas & Beijos", na Globo, empresa em que trabalha há 34 anos.
    "Prezo a proximidade com o mundo da TV. Sei o nome de todo mundo na Globo. O pessoal me sacaneia. Dizem que tenho um lado Maluf", diz, referindo-se ao político paulista, conhecido pela capacidade de decorar nomes, datas de aniversário e afins.
    Depois da sessão de fotos, voltamos ao aeroporto e, sob o olhar curioso de garçonetes, ocupamos a mesa de uma lanchonete. Pedimos café, depois cerveja, depois misoshiro, depois duplas de sushis.
    Quando fala de seu ofício, Andrea não menciona "intensidade da alma", "força interior" e outros clichês do gênero. Acha simplesmente que o bom ator é "aquele que faz com que o texto não pareça ser de outra pessoa". O pior ator, ela prossegue, em contraposição aos competentes, "é aquele que acha que é bom". O tipo convicto está retratado na peça que Andrea estreia no próximo dia 9, no Sesc Vila Mariana, com fortes cores caricaturais.
    A personagem-título, interpretada por ela em "Jacinta", é "a pior atriz do mundo, uma portuguesa ruim de doer". Há o escudo do sotaque, diz a atriz, mas interpretar alguém sem talento pode resultar em algo "facilmente idiota",
    analisa. A peça, um musical, tem direção de Aderbal Freire-Filho, texto de Newton Moreno e músicas com melodia do titã Branco Mello.
    Boa parte da inspiração para compor o papel veio de observar figurantes de TV. "Tenho uma tara por eles. Fico curiosa para saber por que a pessoa está ali, onde ela mora, a que horas acorda."
    Andrea gosta do momento "em que o figurante tem a chance de aparecer", ou de quando dizem para ele: "Vem cá, você: entrega para ela essas flores".
    "Às vezes, o cara congela num grau...", diz. "Fico olhando para ver como é que ele vai resolver o problema. Ele não é ator, sonha com aquilo, mas não sabe fazer. Isso me alimentou", explica a atriz. "Me inspirei mais no figurante do que em atores profissionais fazendo mal um papel. Isso a gente vê toda hora, né?"
    Segundo Fernanda Torres, Andrea é "a atriz mais preparada da minha geração, pode fazer de musical a tragédia grega. Estudou canto na surdina durante anos e canta belissimamente em 'Jacinta'".
    A parceria com o pernambucano Newton Moreno, 45, dramaturgo egresso de um cenário experimental em
    São Paulo, autor de peças regionalistas como "Agreste", foi uma das muitas indicações de Marieta.
    "Ela tem olhar clínico, tem uma antena sempre ligada, sempre encontragente talentosa", diz Andrea.
    Ação entre amigos
    A aproximação entre as duas atrizes aconteceu durante a temporada da peça "Estrela do Lar" (1989).
    "Estávamos em cartaz no Copacabana Palace, e Marieta tinha um camarim só para ela. Ela era a protagonista, a produtora e, enfim, a Ma-ri-e-ta-Se-ve-ro", zomba. "Um dia, perguntou se eu não queria dividir o camarim com ela. Disse que não gostava de ficar sozinha, queria alguém para conversar."
    Marieta, 66, trouxe o marido, o diretor Aderbal Freire-Filho, 71, para a amizade. Formou-se então o grupo que construiu, com recursos próprios, em 2005, o pequeno Teatro Poeira, hoje com duas salas dedicadas a peças experimentais, no bairro carioca de Botafogo.
    As tarefas lá dentro foram divididas assim: Marieta ajuda em algumas produções, Aderbal "é o curador, é Deus", brinca. "Ele fica lá pirando, pensando em projetos maravilhosos, e a gente fica capinando. E é assim mesmo que a gente gosta." Andrea é a contadora.
    Esse trabalho tem a ver com seu espírito metódico, ela diz. Em casa, procura "aceitar" desordens do marido, o cineasta Maurício Faria, e dos três filhos de nomes singelos (José, 12, Rosa, 16 e Francisco, 18), sem se estressar. "Sou organizada demais. De vez em quando, jogo um sapato no meio da sala para sentir que sou capaz de aceitar bagunça."
    Noves fora
    Se ela assim diz, melhor dar o benefício da dúvida. Mas como faz uma sujeita organizada como ela para lidar com seu próprio jeitão atabalhoado?
    Só durante o dia que passamos juntos, vários pequenos episódios contrastam com essa afirmação. Alguns exemplos:
    1- "Ei, onde coloquei minha bolsa? Onde coloquei minha bolsa?" (estava ao seu lado, onde ela tinha colocado)
    2 - "Não uso isso nem morta" (referia-se ao balcão de autoatendimento, no aeroporto, antes de voar para o Rio de Janeiro. Preferiu o balcão tradicional).
    3 - Dois cafés chegam à nossa mesa. Andrea faz um movimento brusco com o braço, e a bebida encharca um dos pires sobre a bandeja. Sem pestanejar, puxa o café derramado para si.
    Aderbal Freire-Filho acha que esse contraste, entre o metódico e o estabanado, costura um ponto comum entre Andrea e Marieta. "Os camarins delas são muito parecidos", ele avalia. "Elas gostam de enchê-los de coisas, fotos, por exemplo, mas deixam tudo sempre muito organizado."
    "A Andrea está sempre com um caderno, ela anota tudo o que eu falo em ensaios, é uma coisa maluca", diz o diretor. A disciplina, os estudos e a dedicação, mais tarde, se desfazem em cena numa fuga para uma espécie de enlouquecimento.
    "Acho que ela tem esse perfil de colocar as coisas em clarividência e, sobre o palco, abstrair em direção à loucura."
    Exemplo 4 (o melhor de todos) - No aeroporto, desencanada do relógio, quase perde o embarque. Alertada sobre a hora, engole cinco sushis às pressas, levanta-se, joga um tchauzinho para as garçonetes, vira-se para correr e dá de cara com um pilar.
    Sem perder a piada, disfarça o constrangimento com uma dança estranha e sensual, olha para trás para ver a reação do "público" e só então sai correndo. Dessa vez, pelo menos, acerta a porta de vidro que dá para o seu portão de embarque.

      quinta-feira, 25 de julho de 2013

      Grupo faz ensaios abertos em cidades que não têm teatro para desenvolver peça com público - GUSTAVO FIORATTI

      folha de são paulo
      DE SÃO PAULO

      A educadora social Mineia Costa, 36, debutou como espectadora de teatro no início de julho. Mas não foi na plateia de um espetáculo pronto, com projetos afinados de iluminação e figurino.
      Moradora de Iracema, cidade cearense com quase 14 mil habitantes, ela assistiu a um ensaio aberto de "O Duelo", criação resultante de uma parceria entre a Mundana Companhia de Teatro, de São Paulo, e a atriz Camila Pitanga. A montagem tem estreia marcada para o próximo dia 2, em Fortaleza, e deve cumprir temporada em São Paulo em outubro, no Centro Cultura São Paulo.
      As três sessões em Iracema não foram realizadas sobre palco italiano. Na verdade, não há teatros na cidade, e o ensaio ocupou um ginásio do Iracema Atlético Clube, um prédio hoje em desuso.
      Iracema esteve na rota de três municípios cearenses que a produção de "O Duelo", com direção de Georgette Fadel, percorreu durante seis semanas.
      Divulgação
      Camila Pitanga em ensaio aberto da peça 'O Duelo', em Iracema (CE), com o grupo Mundana
      Camila Pitanga em ensaio aberto da peça 'O Duelo', em Iracema (CE), com o grupo Mundana
      A intenção era desenvolver um espetáculo espelhando-se na reação e na convivência com o sertanejo. "Escolhemos cidades pequenas e que não tinham teatro", conta o produtor e ator da montagem, Aury Porto, um dos idealizadores do projeto.
      Arneiroz (com quase 8.000 habitantes) e Lavras da Mangabeira (31 mil) também serviram como paradas para a ação do grupo no Ceará.
      FIOS DE MACARRÃO
      O trabalho impregna-se com a cultura regional para adaptar a novela homônima de Tchékhov, sobre um homem que conquista uma mulher casada e a leva para viver em uma cidade de interior do Cáucaso. O enredo se passa em um verão, com temperaturas altas, e este é um dos pontos que fecham a opção de criar no sertão cearense.
      Mas o resultado da imersão, diz Porto, não é exatamente uma transposição do argumento original para a paisagem do Nordeste.
      A história se passa mesmo no Cáucaso. "Apenas trazemos para a cena elementos sonoros e plásticos como as cadeiras de fios de macarrão, comuns no Nordeste", diz.
      O modelo de itinerância também busca uma troca: o público é beneficiado por testemunhar as raízes de uma criação, também tem acesso a um tipo de produção inexistente na cidade; os artistas, em contrapartida, aquecem os tamborins, moldando-se pela reação da plateia.
      Há outros exemplos similares ao projeto da Mundana.No primeiro semestre deste ano, a peça "O Contrato", com Débora Falabella e Yara de Novaes no elenco, percorreu cidades do interior e do litoral de São Paulo com um espetáculo em construção.
      Há um porém. Espectadores das duas apresentações questionam se suas cidades também estarão na rota dos espetáculos quando eles estiverem prontos. "Gostaria de ver o resultado", diz Mineia Campos, que viu "O Duelo", em Iracema. "Prefiro ver o espetáculo acabado", disse a professora Evelize Farina, ao fim do ensaio de "O Contrato" em São Sebastião.
      Segundo a produção da peça "O Duelo", ainda não há previsão de retorno às cidades. "Precisamos de um estrutura para conseguir levar o espetáculo pronto para lá; a cidade não oferece essa estrutura", diz Aury. "Isso pode ser feito em um segundo momento, depois de cumprirmos a temporada", completa. O patrocínio da peça é do Governo do Estado do Ceará e também da Caixa, com captação via Lei Rouanet.
      As atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes, durante o ensaio aberto de "O Contrato", disseram que esperavam poder voltar para as cidades que visitaram. A Secretaria de Estadual da Cultura de São Paulo --que fomentou a circulação do ensaio aberto da peça-- afirmou que pretende retornar com a produção para as respectivas cidades.
      DIÁRIO DE BORDO
      Durante sua passagem pelo Sertão, a Mundana hospedou-se em casas comuns e não em hotéis, conta o ator e diretor. "Alugamos residências de moradores mesmo, pedimos para que deixassem suas coisas, mobiliário, para nos sentirmos dentro de um lar de verdade", descreve.
      Camila Pitanga descreve, por exemplo, uma inspiradora festa de São João em Missão Velha "em que os moradores faziam fogueiras na frente de todas as casas da cidade; era lindo".
      Ela conta também que, com a atriz Carol Badra, responsabilizou-se pelo cardápio da turnê. "A gente montava as refeições em cima de receitas locais", diz.
      Momentos de assédio em torno da atriz global também foram inevitáveis. Uma vez, um grupo em Lavras de Mangabeira invadiu a casa onde ela estava hospedada. Queria fazer fotos.
      Repetiu-se ainda uma mesma tentativa de aproximação: gente de plantão na porta das hospedagens.
      O processo de criação da peça retorna à metodologia que a Mundana desenvolveu há três anos com o espetáculo "O Idiota", adaptação de livro de Dostoiévski que teve direção de Cibele Forjaz.
      Hoje uma das mais atuantes no cenário experimental de São Paulo, a companhia juntou ex-integrantes de grupos como o Teatro Oficina (de Zé Celso), o Teatro da Vertigem (de Antonio Araújo) e a Companhia Livre (de Forjaz). Seus trabalhos são criados a partir de improvisos, trazendo atores e cenógrafos para um coautoria dramatúrgica.
      Recentemente, foi lançado o livro "Caderno de Atuação", espécie de diário de bordo em que os integrantes do grupo narram a experiência de criar a peça "Pais e Filhos" com o diretor Adolf Shapiro, um nome forte no cenário russo. A peça fez temporada no Sesc Pompeia no ano passado.

      sábado, 20 de julho de 2013

      Peça 'Azul Resplendor', com Eva Wilma, retrata o fracasso - Gustavo Fioratti

      folha de são paulo
      Aos 60 anos de carreira, dama do teatro interpreta atriz aposentada que volta à cena e cai em armadilha profissional
      Pedro Paulo Rangel também está em 'Azul Resplendor', com texto de autor peruano que escreve telenovelas
      GUSTAVO FIORATTIEntre 2008 e 2009, os atores e diretores Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas saíram América Latina afora em busca de bons textos desconhecidos. Visitaram México, Peru, Chile e outros países da região.
      O primeiro resultado da investida traz a público uma comédia sem pudores: "Azul Resplendor", texto do peruano Eduardo Adrianzén --autor famoso em sua terra por escrever telenovelas. A peça faz um belo retrato do fracasso no teatro. Eva Wilma, 79, que completa 60 anos de carreira, está no papel principal.
      Eva interpreta uma mulher que, como ela, é uma dama do teatro, só que com uma diferença básica: Blanca Estela, sua personagem, aposentou-se após uma perda. "Eu, ao contrário, jamais pensaria nisso", diz a atriz, referindo-se ao período após a morte de seu marido, o ator Carlos Zara (1930-2002). "Ele próprio voltaria para me dar um bronca", brinca a atriz.
      Lenise Pinheiro/Folhapress
      Eva Wilma durante ensaio da peça 'Azul Resplendor'
      Eva Wilma durante ensaio da peça 'Azul Resplendor'
      Na peça, anos após abrir mão de sua carreira, Blanca Estela recebe o convite de um fã (Pedro Paulo Rangel). Ator frustrado, ele escreve um texto em homenagem a ela e, com recursos próprios, levanta a produção. Blanca Estela então volta à cena -para uma armadilha profissional.
      A sequência de equívocos é provocada principalmente por um diretor megalomaníaco. Ególatra, ele propõe uma desconstrução do texto original. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
      Em entrevista, o autor comentou características que observou ao longo da carreira: "A personagem Blanca Estela é parecida com velhas amigas ainda em atividade. São bem-humoradas e um pouco cínicas. As ilusões de imortalidade ficaram longe, mas não sofrem com isso".
      Sobre o fracassado personagem interpretado por Rangel: "Conheço o tipo basicamente da TV; atores que nunca têm papéis grandes mas acham que são melhores que muitos. É triste, mas acontece".
      Sobre diretores ególatras: "No Peru, quem não tem um grupo pode parar nas mãos de um desses. Felizmente, nunca trabalhei com um".
      São caricaturas, é verdade. Mas estereótipos, coincidentemente, parecem rondar o teatro nacional.
      Francisco Cuoco faz hoje papel similar, um veterano diminuído por um ator da nova geração, em "Uma Vida no Teatro". Em agosto, ainda, Andrea Beltrão chega com "Jacinta", peça sobre "a pior atriz do mundo".
      AZUL RESPLENDOR
      QUANDO Sex., às 21h30; sáb., às 21h; e dom., às 18 h.
      ONDE Renaissance (al. Santos, 2.233, tel. 0/xx/11/3069-2286)
      QUANTO R$ 80
      CLASSIFICAÇÃO 12 anos


      terça-feira, 9 de julho de 2013

      Primeiro romance de Beckett vai a leilão

      folha de são paulo
      Manuscritos de 'Murphy', inacessíveis por mais de 40 anos, serão leiloados amanhã pela Sotheby's de Londres
      Cadernos escritos entre 1935 e 1936 pelo prêmio Nobel podem ser vendidos pelo equivalente a R$ 4 mi
      GUSTAVO FIORATTIDE SÃO PAULOOs manuscritos de "Murphy", primeiro romance do escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989) vão a leilão amanhã. A expectativa é de que a venda feche em 1,2 milhão de libras (cerca de R$ 4 milhões), segundo a casa Sotheby's de Londres, responsável pela venda.
      Os cadernos escritos entre 1935 e 1936 trazem não apenas o texto em si (que foi publicado em 1938) mas também anotações, sucessivas correções de frases até o resultado final e desenhos para vencer bloqueios criativos.
      Beckett influenciou dramaturgos e encenadores ao redor do mundo e recebeu, em 1969, um prêmio Nobel.
      Suas peças eram frequentemente associadas ao teatro do absurdo, classificação que tenta abarcar obras pós-guerra que, por exemplo, mesclam comicidade e a desolação e a incomunicabilidade do homem moderno.
      O manuscrito de "Murphy" traz pistas sobre o processo criativo do autor irlandês. Há nele, por exemplo, a representação de códigos astrológicos que balizaram a narrativa.
      Há também um autorretrato e um retrato de James Joyce (1882-1941), amigo, conterrâneo e uma de suas principais influências artísticas.
      Os manuscritos de "Murphy" são divididos em seis cadernos, explica à Folha Peter Selley, especialista em manuscritos da Sotheby's. A cada vez que sentava para trabalhar, o autor irlandês marcava a data de sua investida.
      "Beckett fazia desenhos em situações de bloqueio criativo como forma de dar vazão ao seu processo de criação", diz Selley.
      A primeira frase do romance foi reescrita ao menos oito vezes. Beckett tentou "The sun shone, as only the sun can, on nothing new" e, depois de algumas mudanças, chegou à frase final: "The sun shone, having no alternative, on nothing new" ("O sol brilhava, sem alternativa, sobre o nada de novo").
      Por um dos cadernos também é possível descobrir que o título "Sasha Murphy" também foi uma opção cogitada pelo autor. Para Selley, este é o mais importante manuscrito de um escritor irlandês que vem a leilão em décadas.
      A Sotheby's prefere não divulgar nomes, mas Selley conta que os manuscritos estavam nas mãos de um colecionador que morreu recentemente. Eles foram comprados de um livreiro nos anos 1960 --este, por sua vez, possivelmente conheceu Beckett pessoalmente, uma vez que o autor tinha por hábito dar ou vender seus manuscritos aos amigos, após a publicação de seus trabalhos.
      LEILÃO
      A venda de "Murphy" amanhã em Londres será acompanhada com bastante expectativa, principalmente por pesquisadores de literatura especializados na obra do autor de "Esperando Godot".
      "Tudo o que posso dizer é: espero, sinceramente, que [o trabalho] seja comprado por uma instituição pública que permita acesso a ele", diz Mark Nixon, considerado um dos principais pesquisadores da obra de Beckett.
      Nixon dirige instituições britânicas como a Beckett Internacional Foundation e a Beckett Fellow, da Universidade de Reading, na Inglaterra. Ele participa ainda de um projeto de digitalização dos manuscritos de Beckett.
      Segundo Nixon, a espera por "Murphy" foi longa. Isso porque os manuscritos pertenciam a uma coleção particular e ficaram inacessíveis ao público por mais de 40 anos, explica o pesquisador.
      "Será uma perda terrível para a cultura e para a academia se eles desaparecerem novamente", diz.
      Segundo Fabio Andrade, pesquisador que traduziu "Murphy" para o português (o livro será relançado neste mês pela Cosac Naify, leia mais abaixo), os manuscritos de Beckett são disputados no mercado como verdadeiras obras de arte, não só porque permitem saber particularidades sobre os processos de criação do autor mas também porque "são muito visuais".
      Para Andrade, "será uma tristeza se esses manuscritos não puderem ir para o acervo internacional de Beckett".
      Ele se refere aqui à rede formada por instituições públicas que hoje guardam outros manuscritos do irlandês.
      "Esperando Godot", por exemplo, está atualmente sob os cuidados da Biblioteca Nacional da França.
        ANÁLISE
        Aspectos do primeiro romance antecipam o teatro do absurdo
        MARCIO AQUILESDE SÃO PAULOSentado nu, amarrado a uma cadeira de balanço por vontade própria, esperando pelo nada. Assim Murphy inicia o romance intitulado com seu nome, o primeiro de Samuel Beckett.
        O idealismo do protagonista, que prefere "viver no espírito" e recusa-se a trabalhar, tem origem em sua atitude solipsista, que abdica da interação com o ambiente e volta-se primordialmente a sua existência.
        A negatividade de Murphy não vem de um pensamento pessimista; antes disso, ela é conceito, método pragmático que coordena todas as suas (não) ações.
        Ao redor dessa figura densa todos os personagens secundários gravitam, como planetas em torno de estrelas, fato metaforizado no romance por meio da obsessão de Murphy por astrologia.
        A complexidade de seus hábitos verticaliza o protagonista, perante o qual os outros personagens tornam-se horizontais, planos, mas não por isso rasos, uma vez que a excentricidade de cada tipo garante o interesse ficcional e o encanto do leitor.
        Neary tem a habilidade de fazer seu coração parar a seu bel-prazer. A prostituta Celia, que tem sua biometria descrita no segundo capítulo, mostra uma devoção quase religiosa ao seu amado Murphy.
        O faz-tudo Cooper é caolho, tem três testículos, nunca se senta e nem tira o chapéu. Wylie tem reflexos rápidos como os de uma zebra.
        Dotada de um vocabulário exuberante --que inclui termos da matemática, da medicina e da teologia-- e figuras de linguagem abundantes --hipérboles, trocadilhos--, a narrativa é recheada de procedimentos estéticos e temáticos que iriam constituir depois de alguns anos o seu teatro do absurdo.
        O comportamento repetitivo e a insatisfação permanente de Vladimir e Estragon em "Esperando Godot" já estão prefigurados ali, assim como o debate à exaustão a respeito da ausência de alguém.
        A inércia de uma Winnie enterrada até o pescoço em "Dias Felizes" ou a paralisia generalizada em "Fim de Partida" são análogas à imobilidade de Murphy preso ao seu assento solitário.
        As múltiplas referências cruzadas --tanto linguísticas quanto históricas-- e sofisticados jogos de palavras com nomes e sentenças somam-se à estranheza dos personagens na composição de "Murphy", representando o embrião do universo caótico que mais adiante seria designado como beckettiano.

          segunda-feira, 3 de junho de 2013

          "Woyzeck" e "A Morte de Danton" inspiram peças em São Paulo e grupo [pH2] estreará no Büchner Festival

          folha de são paulo
          Autor bicentenário gera três montagens
          "Woyzeck" e "A Morte de Danton" inspiram peças em São Paulo e grupo [pH2] estreará no Büchner Festival
          Especialista destaca contribuição de Georg Büchner à linguagem e à técnica dramatúrgica, reconhecida após morte
          GUSTAVO FIORATTIDE SÃO PAULOA vida curta do alemão Georg Büchner (1813-1837) não o impediu de realizar alguns feitos notáveis.
          Formado em medicina, estudou a fundo a Revolução Francesa, escreveu para teatro, conspirou contra o governo, foi condenado por traição ao Estado, fugiu para a França, morreu de tifo aos 23 anos.
          Desconhecido em seu tempo, firmou legado somente no século 20. "Woyzeck", sua obra inacabada, foi publicada mais de 40 anos após sua morte e estreou só em 1913, influenciando autores como Bertolt Brecht (1898-1956) e Heiner Müller (1929-1995).
          Hoje, 200 anos após seu nascimento, Büchner empresta seu nome a um importante prêmio da literatura alemã e a um festival em Giessen.
          Suas obras podem parecer essencialmente políticas --"A Morte de Danton" vê com ceticismo os governos republicanos que se sucederam na França no século 19-- mas é a poesia de Büchner que tem falado mais alto.
          "Vinte e cinco anos atrás, aspectos políticos eram dominantes. Hoje, esses limites parecem expandidos. Pessoalmente, estou mais interessado em Büchner como mestre da palavra", diz Burghard Dedner, uma das maiores autoridades do assunto na Alemanha.
          Dedner aponta um salto qualitativo entre as duas peças mais encenadas do autor. "Para mim, A Morte de Danton' [1835] parece uma versão moderna de Shakespeare. Já Woyzeck' é algo totalmente novo em termos de linguagem e em sua técnica dramatúrgica, de cenas sintéticas."
          Na esteira das comemorações dos 200 anos de nascimento do autor, essas suas duas peças são as mais revisitadas --ainda há uma terceira, "Leonce e Lena", entre os textos para teatro. Em São Paulo, "Woyzeck" e "A Morte de Danton" deram origem a três espetáculos este ano.
          DADOS JOGADOS
          A companhia Razões Inversas está em cartaz com "Anatomia Woyzeck" no Centro Cultural São Paulo.
          No Sesc Consolação, o jovem grupo Núcleo dos 5 mostra "Danton.5", com orientação de Cristiane Paoli-Quito e José Fernando de Azevedo.
          Já o grupo [pH2] investe em um processo que, com base em "Woyzeck", resultará em espetáculo convidado a estrear no dia 27 no Büchner Festival, em Giessen, Alemanha.
          A montagem da companhia Razões Inversas, com direção de Marcio Aurelio, busca algo essencial na compreensão e na representação da peça "Woyzeck". Em sua concepção, estabelece um jogo que procura preservar a desordem de uma obra com páginas não numeradas.
          Aurelio mantém o texto como estilhaço de um drama. Três atores --Washington Luiz, Clóvis Gonçalves e Paulo Marcello-- revezam-se entre os personagens e deixam ao público a tarefa de amarrar o coro. "São dados que vão sendo jogados", resume.
          Criado em torno de um episódio real, o texto tem como protagonista Woyzeck, proletário cujo conflito, em boa parte, reside em equilibrar a vida entre suas virtudes e sua natureza avessa à submissão.
          Woyzeck passa a trabalhar como soldado e, a convite de um cientista, submete-se a uma experiência em que só come ervilhas. Subnutrido, ciente da opressão representada pela figura de seus superiores e, por fim, traído pela mulher, embarca em um processo de loucura que o leva a cometer um homicídio.
          O fato de "Woyzeck" ser um texto inacabado, diz Dedner, "provavelmente" contribuiu para que ele se tornasse um ícone do teatro moderno. "Por outro lado, internacionalmente, a peça não tem sido recebida como uma série de fragmentos, mas sim como uma peça aparentemente acabada", critica.
          "Danton.5" parece prescindir dessa sobriedade. Insere depoimentos dos atores ao texto, sob risco de pieguismo.
          Na peça, Büchner representa seu ceticismo em relação à Revolução Francesa por meio da figura de Georges Danton, líder revolucionário que acaba guilhotinado.
            Grupo brasileiro moderniza obra na Alemanha
            DE SÃO PAULO
            Em comemoração aos 200 anos de Büchner, a cidade de Giessen (Alemanha), onde o autor passou parte de sua juventude, abrigará este ano um festival dedicado a seus textos.
            O evento receberá montagens de Büchner de cinco países europeus, dois da Ásia e um da África.
            A convite do Goethe-Institut, a companhia [pH2] representará o Brasil com uma livre adaptação de "Woyzeck". Sob o título "Stereo Franz", o espetáculo fará sua estreia na cidade alemã, com sessões nos dias 27 e 28. A temporada em São Paulo começa no segundo semestre.
            Na versão do grupo, a história original é totalmente reescrita e adaptada para os tempos modernos, tendo como ponto de partida uma concepção espacial da encenação.
            O [pH2] procurou um teatro onde, de dentro da sala, fosse possível ter vista para uma área externa. Uma porta próxima ao palco faz a ligação entre o interior do teatro e um descampado. A encenação transita pelas duas partes.
            "No espetáculo, a relação entre o espaço aberto e o fechado torna-se fundamental", diz a diretora Paola Lopes, referindo-se também às rubricas do texto original. "O autor dispõe suas personagens ora em um descampado com citações da cidade ao fundo, ora em uma taberna", diz.
            Os dois espaços, afere a diretora, "evidenciam a fricção" entre dois contextos: o público --sob o olhar de outros moradores da cidade-- e o privado, com espaço para devaneios.

            quinta-feira, 23 de maio de 2013

            Heterônimo de Nelson Rodrigues, Myrna vira personagem de peça

            folha de são paulo

            GUSTAVO FIORATTI
            DE SÃO PAULO

            Por ora, esqueça Elena, a protagonista ausente do filme homônimo, atualmente em cartaz nos cinemas. Há outra mulher misteriosa a ser investigada em seus contornos psicológicos, suscitando a questão: quem é Myrna? Ou melhor: quem foi?
            A pergunta será respondida pelo espetáculo "Myrna Sou Eu". Com direção de Elias Andreato e o ator Nilton Bicudo sobre o palco --travestindo-se de maneira elegante, casaquinho com ombreiras, peruca de cabelos grisalhos, maquiagem comedida--, a montagem estreou na quarta-feira (22) no Teatro Augusta.
            Myrna, em suma, foi uma conselheira sentimental criada em 1949 por Nelson Rodrigues para responder cartas enviadas, principalmente por mulheres, ao jornal "Diário da Noite", no qual o escritor (e também repórter) trabalhou.
            Lenise Pinheiro/Folhapress
            O ator Nilton Bicudo em cena da peça 'Myrna Sou Eu'
            O ator Nilton Bicudo em cena da peça 'Myrna Sou Eu'
            A apresentação da coluna Myrna Escreve pelo "Diário da Noite" mostra que o marketing calcado no mistério da protagonista usado em "Elena" tem antecedentes. Na propaganda dos anos 1940, são lançadas questões como: "[Ela] é loura? (...) Nasceu no Cairo? Em Alexandria? Adivinha o futuro? É velha ou moça?".
            Mais do que um pseudônimo, Myrna foi concebida como celebridade: era mulher solteirona, madura e milionária --ela mesma revela aspectos de sua fortuna em um texto publicado pelo jornal.
            "Ela dava entrevistas e tinha uma personalidade", diz Caco Coelho, que organizou "Não se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo", coletânea de textos assinados por Nelson como Myrna.
            O livro foi inicialmente publicado pela Companhia das Letras e está sendo relançado pela Nova Fronteira
            (R$ 35, 134 págs.).
            Coelho afirma que a criação do heterônimo Myrna e o conjunto de cartas recebidas por Nelson podem ter tido papel seminal na formatação dos textos do escritor dali em diante. Ele vê reverberações nas peças "Valsa nº 6" (1951) e "A Falecida" (1953).
            CÔMICA OU SÉRIA?
            Os casos e perguntas citados por Nelson em seus textos não são necessariamente fiéis aos relatos de seus leitores, havendo até mesmo a possibilidade de invenção completa. "Ele certamente recebia e lia as cartas", afirma Coelho. "Mas aquilo era usado como uma inspiração."
            Há, nos textos, aspectos cômicos que partem para posicionamentos morais. Há também questões levadas à profundidade do existencialismo, o que é delimitado pela seleção apresentada pelo espetáculo. "Trata-se de uma peça cômica, mas não estamos tratando como comédia", define Bicudo.
            A adaptação transforma Myrna em apresentadora de rádio e também inclui depoimentos de Nelson publicados em "Nelson Rodrigues por Ele Mesmo" (Nova Fronteira,
            R$ 40, 272 págs.).
            Alguns títulos da coluna Myrna Escreve são inseridos no texto do monólogo. Entre eles estão "A Mobília de Quarto Não Interessa", "A Mulher É uma Escrava Espontânea", "A Mulher Feia deve ser Quase Inconquistável", "Fuja do Homem Bonito" e "O Amor que Acaba Não Era Amor".
            MYRNA SOU EU
            QUANDO qua. e qui, às 21h
            ONDE Teatro Augusta (r. Augusta, 943; tel. 0/xx/11/3151-4141)
            QUANTO R$ 40
            CLASSIFICAÇÃO 12 anos
            *
            MYRNA ESCREVEU
            Conselho dado pelo heterônimo de Nelson Rodrigues no texto "Seja Bela para seu Marido":
            Na rua, a mulher pode descuidar de sua imagem, de seu vestido, de suas atitudes: pode facilitar, pode transigir. Se for a um baile, a uma recepção ou a um chá, também pode falhar em um detalhe de elegância, em um gesto menos belo. Dentro de casa, não. Dentro de casa, cumpre-lhe um autocontrole tremendo, um rigor inflexível na observação de uma série de coisas, sem as quais o encanto feminino perde oitenta, setenta, sessenta por cento.

            quinta-feira, 16 de maio de 2013

            Paulo de Tharso (1960-2013)

            folha de são paulo

            Poeta, oferecia drinque à morte
            GUSTAVO FIORATTIDE SÃO PAULOOs homens que passaram pela companhia de teatro Cemitério de Automóveis, sediada em São Paulo desde os anos 1990, têm um tipo meio parecido: prezam pela vida boêmia, usam roupas fora de moda, amolecem-se com a poesia da geração beatnik.
            O ator paulista Paulo de Tharso pertencia a essa turma. Dava aulas de francês para ganhar a vida e completava a renda como ator, escritor e músico. Casou-se 13 vezes, mas não teve filhos.
            Como cantor, violonista e guitarrista, participou de bandas com nomes bem humorados, como A Casa Caiu e Big Balls ("bolas grandes", em tradução literal).
            Em seu extenso repertório de espírito punk, compôs músicas em parcerias com Jorge Mautner, Fernando Carvalho, Alexandre Bessa e outros músicos e poetas.
            Entre os trabalhos com o Cemitério de Automóveis, atuou nas peças "Música para Ninar Dinossauros" e "Medusa de Ray Ban".
            Atualmente, estava no elenco da peça "Borrasca", que entrou em cartaz na semana passada no pequeno teatro do grupo, com direção e texto de Mário Bortolotto.
            O diretor da companhia conta que musicou uma letra de Tharso. Em uma estrofe, a canção diz o seguinte: "Há muito tempo que eu brinco com a morte/ pra ver quem é mais forte, eu e ela jogamos assim/ todo santo dia eu abro uma garrafa de gin/ uma dose pra ela e outra pra mim".
            O artista, que tinha 52 anos, foi encontrado morto anteontem por seu pai no apartamento em que morava, na avenida São Luís, centro de São Paulo. A causa da morte ainda está sendo investigada.

              quarta-feira, 8 de maio de 2013

              Projetos resgatam TBC, Taib e Cultura Artística, teatros paulistanos históricos

              folha de são paulo

              GUSTAVO FIORATTI
              DE SÃO PAULO

              A importância histórica de três teatros paulistanos --o Taib, o Teatro Brasileiro de Comédia e o Teatro Cultura Artística-- não impediu um desfecho dramático.
              O TBC e o Taib (Teatro de Arte Israelita Brasileiro) terminaram abandonados, com goteiras, pisos apodrecidos e poltronas deterioradas. O Cultura Artística foi consumido por um incêndio em 2008; sobrou apenas o painel de Di Cavalcanti em sua fachada.
              Para serem resgatados dos destroços ou das más condições em que se encontram, esses três palcos passam agora pelo olhar cirúrgico de arquitetos familiarizados com o circuito cultural da cidade.

              Projetos resgatam três teatros da cidade

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              Fachada do novo TBC, segundo projeto do escritório Urdi
              Isay Weinfeld foi convidado a assumir o projeto de reforma do Taib. O escritório Urdi Arquitetura já tem em mãos plantas e perspectivas de um novo TBC. E Paulo Bruna prevê a entrega do Cultura Artística para o próximo ano.
              Em comum, os projetos de reforma procuram equilibrar novas linguagens e a preservação da história. Mas há perdas em todos os casos.
              Do projeto original do Cultura Artística, por exemplo, apenas o painel de Di Cavalcanti permanecerá como antes. Das quatro salas que havia no TBC, somente uma será mantida (e, ainda assim, com reconfigurações). O projeto de reforma do Taib é embrionário, diz Weinfeld, mas o arquiteto vê mais valor histórico em sua fachada.
              TBC e Cultura Artística são tombados, o que, para Nádia Somekh, presidente do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), representa uma contradição: deveriam estimular a conservação dos edifícios, mas podem ter resultado contrário.
              "Alguns imóveis tombados tornam-se desatualizados aos olhos da indústria do entretenimento, que passou a exigir outros tipos de estrutura", diz.
              Nádia é crítica em relação às atuais políticas de tombamento de bens privados. Para ela, não adianta tombar sem uma cartilha de manutenção. "A sociedade deve comprar a ideia de preservação daquele bem. Estamos estudando formas de desenvolver isso em São Paulo."
              O caso do TBC é emblemático. Construído na década de 1940 no Bixiga, foi palco para uma geração empenhada em modernizar as artes cênicas no país. Por lá, passaram Cacilda Becker, Paulo Autran, Tônia Carrero, Walmor Chagas, Sérgio Britto e tantos outros atores célebres.
              O teatro, que pertencia a Magnólia Mendes Ferreira, foi adquirido em 2009 pela Funarte. Quando os arquitetos Alexandre Liba e Alberto Barbour entraram no TBC pela primeira vez, além de pisos e cadeiras podres, encontraram morcegos lá dentro.
              TBC TRANSLÚCIDO
              O novo projeto preserva a fachada. Paredes internas foram derrubadas para ampliar as antessalas, e a lateral do edifício ganhou estrutura translúcida para que a relação entre o interior e a rua fosse valorizada.
              Além do palco italiano mantido no primeiro andar, no piso superior está sendo criada uma sala ampla e aberta. É um modelo em consonância com novas linguagens das artes cênicas. Uma estrutura em grelha onde ficam holofotes ocupa o teto de ponta a ponta, permitindo modulação entre palco e plateia.
              RAIO-X
              TBC
              INAUGURAÇÃO
              1948
              HISTÓRIA
              Criado por Franco Zampari, o Teatro Brasileiro de Comédia é um marco da modernização do teatro brasileiro; por ele passaram nomes como Paulo Autran e Cacilda Becker. Teve períodos de inatividade a partir dos anos 1960. Passou por reforma e reabriu em 1999; em 2002, sua diretora artística Fezu Duarte não renovou contrato de locação, e o TBC voltou a fechar. Em 2009, foi adquirido pela Fundação Nacional de Artes
              NOVO PROJETO
              Assinado pelo escritório de arquitetura Urdi, terá duas salas principais
              + CANAIS

              segunda-feira, 22 de abril de 2013

              Impedido de deixar Irã, autor só viu sua peça após ela ser montada em mais de dez países

              folha de são paulo

              GUSTAVO FIORATTI
              DE SÃO PAULO

              Escrita em 2010 e apresentada pela primeira vez em 2011, em Toronto, no Canadá, a peça "White Rabbit, Red Rabbit" se tornou um fenômeno internacional.
              Foi montada, entre outros países, na Inglaterra, na Escócia, no Egito e no Brasil. Enquanto isso, no entanto, seu autor, o iraniano Nassim Soleimanpour, 32, não pôde ver o resultado dos trabalhos.
              Até fevereiro deste ano, ele estava impedido de deixar Teerã, onde vive, porque não havia se apresentado para o alistamento militar.
              Em retaliação, o governo iraniano lhe negava o passaporte. A situação mudou no ano passado, quando recebeu o diagnóstico de um problema em seu olho esquerdo.

              "White Rabbit, Red Rabbit"

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              Cena da peça "White Rabbit, Red Rabbit" em Toronto, em 2012, comandada pela atriz Natasha Greenblatt (à dir.)
              Incapacitado de exercer atividades militares, ele então se apresentou ao Exército --e foi liberado.
              Tão logo pegou o passaporte, o autor marcou a primeira viagem. Foi assistir à montagem de seu texto em Brisbane, na Austrália.
              Sua próxima parada pode ser São Paulo. Uma produtora paulista comprou os direitos de adaptação, e a nova montagem tem estreia programada para 23 de maio, no Sesc Vila Mariana. O convite para que ele venha será feito nos próximos dias.
              Esta será a segunda encenação da peça no país. A primeira foi em julho do ano passado, no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP).
              SOBRE COELHOS
              Em "White Rabbit, Red Rabbit", Soleimanpour não propõe uma representação narrativa exatamente, ou ao menos não nos modelos que o teatro, o cinema ou a literatura a conhecem.
              A peça costura uma série de experiências a serem compartilhadas entre palco e plateia, a partir de um texto que ordena tarefas, a serem (ou não) executadas por todos que estão presentes.
              A sensação de estranhamento se instala logo no início. Já no palco, um ator recebe um envelope lacrado. Ele deve abrir o envelope e fazer a leitura. É uma condição que o ator nunca tenha tido contato com o texto da peça e não saiba do que ela trata --por isso, cada apresentação tem um novo intérprete.
              Essa estrutura faz com que a peça prescinda de diretor.
              "Foi a coisa mais doida que eu já fiz na minha vida", diz o ator paraibano Thadelly Lima, que passou pela experiência em Rio Preto.
              "Quando eu vi o teatro lotado, e eu ali na frente de todo mundo com o texto na mão, sem saber do que se tratava, pensei: 'Meu Deus, eu podia estar roubando, eu podia estar matando'", brinca. Por ora, sem mais "spoilers".
              Desde a primeira apresentação de "White Rabbit, Red Rabbit", Soleimanpour pede para que uma poltrona na primeira fila do teatro fique vazia. Trata-se de um lugar reservado para ele próprio, simbolicamente ao menos, pois o lugar, até bem pouco tempo atrás, permaneceria vazio.
              Em fevereiro, Nassim Soleimanpour ocupou de fato a cadeira, em Brisbane, pela primeira vez.
              "Eu vi quatro apresentações e, na primeira noite, tive um surto", contou em entrevista àFolha.
              Na segunda noite, interrompeu a apresentação e subiu ao palco. "Achei que era hora de o autor do passado encontrar o do presente e fiz um discurso sobre isso. "A explicação se refere a um dos fundamentos de seu texto.
              No teatro, salvo improvisos, há sempre o encontro entre o que foi escrito tempos atrás e o que está sendo apresentado naquele exato momento. "Comecei a tremer em cima do palco e então disse à plateia: 'Olhem, isso é como o passado faz o futuro'."
              Esse é um dos aspectos da peça. O outro recai sobre obediência, subserviência e ventriloquia. Até que ponto plateia e ator podem obedecer ao que o texto pede? Há riscos.
              TEATRO NO IRÃ
              Juntos, ambos os pontos remetem, obviamente, à condição de um autor que até hoje vive sob um governo autoritário.
              Muita gente falou sobre esse suposto aspecto da obra em jornais e em debates. Mas Soleimanpour rejeita uma associação direta: "Odeio quando acham que escrevi sobre o Irã contemporâneo", diz. Para ele, subserviência não é um problema restrito ao país (muito embora a peça ainda não tenha sido encenada lá).
              Ao ser questionado sobre o caso de Jafar Panahi, cineasta condenado a seis anos de prisão domiciliar por ter feito propaganda contra o governo de seu país, o autor se esquiva. "Melhor não falar."
              No Irã, peças de teatro precisam ser submetidas a um órgão censor do governo.
              Quem falou à Folha sobre o assunto foi outro autor de teatro iraniano, Amir Reza Koohestani, que também já teve uma peça sua encenada no festival de Rio Preto.
              "Em primeiro lugar, eles leem o texto", diz, sobre os censores. "Então, eles dão uma permissão para que sejam feitos os ensaios da peça", continua. "Depois dos ensaios, eles assistem à montagem e dão a permissão para que ela entre em cartaz".
              Em Teerã, os ingressos custam entre US$ 2 e US$ 10 (de R$ 4 a R$ 20, aproximadamente). Há cerca de 20 teatros na cidade, conta Koohestani, e eles vivem lotados.
              "Na verdade", atesta, "a única coisa que nunca me preocupa é chamar público para os meus espetáculos."
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              VOLTA AO MUNDO
              Cartas e e-mails de espectadores que assistiram a "White Rabbit, Red Rabbit", enviados ao dramaturgo
              "Eu bebi o copo com o veneno e ninguém tentou me impedir (...) Foi muito estranha a experiência de ser um observador e um intérprete ao mesmo tempo, mas sua voz é tão forte na peça que foi muito fácil deixar você abrir o caminho"
              Tom Frankland, ator que leu a peça em Toronto em 2012
              "Enquanto eu assistia [à peça], eu estava com tanto medo da possibilidade de ir para o palco e ter de participar, porque eu sou tão tímida... ahaha. E eu pensei que talvez seja essa a sensação (o medo) que as pessoas que são observadas experimentam"
              Sabrina Alves, que viu a peça em S. José do Rio Preto em 2012
              "Sua presença na sala era tão clara o tempo inteiro e sua voz permeava cada camada que separava nós de você. Eu gostaria de agradecê-lo por me oferecer uma experiência de vida"
              Bobbin Ramsey, que viu a peça em Edimburgo em 2011
              "Eu tinha reservas sobre ver a peça quando eu li seu anúncio publicitário. Eu pensei: 'Ah, não, mais uma narrativa de autocomiseração de um iraniano de 29 anos que não pode deixar seu país, proibido de viajar, isolado'. Mas, quando a peça começou (...), você provou que eu estava errada!"
              Lida Nosrati, que viu a peça em Toronto em 2012
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              RAIO-X
              NASSIM SOLEIMANPOUR
              VIDA
              Nasceu em 1981 em Teerã (Irã), onde ainda vive; até o ano passado, não podia deixar o país porque não havia se apresentado para o alistamento militar
              OBRA
              Formado em Cenografia e Artes Performáticas na Universidade de Teerã, escreveu em 2010, aos 29 anos, a peça "White Rabbit, Red Rabbit", que já foi traduzida para 15 línguas