segunda-feira, 8 de abril de 2013
Diário da Dilma - Quem não tem colírio que use óculos escuros
Revista Piauí > Edição 79 > Abril de 2013
1º DE MARÇO_Não tinha reparado como o Mercadante é parecido com o Tom Selleck. Acho que fiquei muito focada no Lobão e a coisa me escapou. E não é que existe mais vida no Ministério do que supunha minha vã filosofia? Basta classificar o bigode na categoria vintage que tudo se esclarece.
2 DE MARÇO_Fui abrir o MAR, aquele museu em dois prédios lá no Rio. Me senti como Moisés. Foi uma pajelança com Paes, Cabral e aquela trupe toda. Ô, povo animado. Sentamos o Pezão ao lado de um dos Robertos da Globo para ir firmando a presença dele na grande imprensa burguesa.
3 DE MARÇO_Deus é pai, não é padrasto! Me livrei do Chalita sem precisar fazer nada! Quem manda não pagar as comissões direito? Tá o maior bafafá com a história do assessor não-sei-das-quantas que mandava na Secretaria. Diz que o Chalita chamava os pacotes de dinheiro de Vanderlei. Que coisa!
5 DE MARÇO_Perdemos Prestes, Lamarca e agora o Hugo Chávez. Fica o exemplo para o PMDB: não é possível permanecer eternamente no poder.
6 DE MARÇO_E não é que o Congresso ousou vetar meu veto à nova Lei dos Royalties? Como faço para vetar novos vetos aos meus vetos? Enquanto a Ideli não descobre, roguei uma praga que eles vão ver só!
7 DE MARÇO_Rá! Batatolina! Não sabia que praga de presidenta pegava tão rápido. Quero ver engolirem esse pastor que alisa o cabelo.
Uma grande maldade o Barbosa negar passaporte para que o Dirceu fosse ao enterro do Chávez. É bem verdade que corríamos algum risco. Se conheço bem a peça, devia passar pela cabeça dele assumir a vaga do Comandante, pegar em armas, invadir o Brasil e salgar as terras do stf.
8 DE MARÇO_Dia Internacional da Dilminha. Para comemorar, distribuí broncas no Moreira Franco, Padilha e Crivella.
Parece que o Serra tomou tenência. Enviou para cá um mimo que achei fofo: uma caixona com vários suquinhos da marca Ades. Nunca achei que o homem fosse capaz de um gesto simpático. Queimei a língua.
9 DE MARÇO_A briga na Cúria é pinto perto do pega pra capar na base aliada. Se eu pensasse em renunciar cada vez que o PMDB pede aquela penca de cargos... Tem que ser sertaneja para aguentar isso! O papa, muito sabido, muito lido, muito santo, não deu conta...
10 DE MARÇO_Mamãe arrumou o DVD Amor, do Michael Haneke. Chorei que nem manteiga derretida. Fico ocupada com essa reforma ministerial, em acabar com a pobreza, em manter a arquitetura do topete e me esqueço de procurar alguém para segurar minha mão quando estiver velhinha.
11 DE MARÇO_Achei que titia falava muita besteira. Até que apareceu esse Marco Feliciano e mudou os paradigmas.
12 DE MARÇO_Firmei um acordo para ampliar os voos entre o Brasil e a Nova Zelândia. Quero ver continuarem a falar em apagão logístico. Animada, pisei fundo nas negociações bilaterais e incluí um dispositivo pelo qual uma cidade de lá se compromete a treinar a nossa seleção de rúgbi. Terminada a cerimônia, disse na lata: “Para nós, é muito importante para as áreas dos esportes a área do rúgbi. A Olimpíada aqui no Brasil pela primeira vez vai incorporar isso, então essa é uma parceria muito importante.” Tudo bem, a sintaxe podia ser melhor, mas ninguém negará que são palavras históricas.
13 DE MARÇO_É argentino! Argentino! Senhor, por que nos abandonaste?
14 DE MARÇO_Liguei imediatamente para o Patriota: “Partiu Roma! Arruma um jeito de colocar o Mercadante na comitiva.”
Bem feito: aquele chato do dom Odilo caiu no conto do vigário. Literalmente: dom João Braz de Aviz o atiçou a defender o Banco do Vaticano, e pronto. Morreu pela boca, para alegria do cardinalato brasileiro. Se dom Odilo tivesse passado dois dias com Dirceu e Tarso, ou com Serra e Aécio, saberia como essas coisas funcionam. De nada adianta o vento estar a favor se não se sabe para onde virar o leme.
15 DE MARÇO_Por onde anda o Benito di Paula? Será que está vivo? A Ideli deve saber.
16 DE MARÇO_Amanhã, Roma. Ufa. Depois da Guiné, eu bem que merecia um IDH alto. Dei um jeito de adiantar a viagem para ter um tempinho livre. O Patriota já me arrumou um encontro com um cara da Eslovênia, só para me contrariar. Fui olhar na Wikipédia e a Eslovênia tem 2 milhões de habitantes. Me poupe, Patriota!
17 DE MARÇO_Roma, cidade dos grandes amores. Champagne per brindare aun incontro. Sonhei que estava na Fontana di Trevi com água pela cintura. Num relance, notei que um carro conversível acabava de parar. De dentro me saiu um homem misterioso, de chapéu panamá e terno risca de giz. Meus olhos embaçados pela emoção e pelo esguicho de Netuno me impediam de identificar quem era. Ao oferecer-me a mão, reconheci os fartos cabelos negros de um, e também os bastos bigodes do outro. Acordei cheia de tribulações. Ah, destino, não vês que sou frágil? Por que me desafias assim?
20 DE MARÇO_O tal Francisco veio me dizer que papa não tem nacionalidade. Num chiste delicioso, emendou que prova disso é que deixaria de ser argentino para se tornar humilde. De qualquer modo, pedi que benzesse o nosso Pibinho. O Santo Padre confirmou que vem para a Jornada Mundial da Juventude, para a Copa, Olimpíadas e Rock in Rio.
Pelas chagas do Divino Coração de Jesus! Como esse negócio de missa é chato. Não é à toa que está todo mundo virando evangélico. Ainda bem que o Gilbertinho sentou por perto e me explicou a liturgia. Achei bonito aquele momento em que todo mundo se dá a mão. Só não é muito higiênico.
21 DE MARÇO_Tentei falar com a Cris Kirchner. Ela fez uma cara de entojo e pediu para eu lhe reavivar a memória, pois não estava ligando meu nome à pessoa. Está se achando a própria Lucrécia Borgia quando o pai lhe entregou o papado.
22 DE MARÇO_Babadíssimo! A Cris K. está de namorico com o Baltasar Garzón, aquele juiz espanhol que vive prendendo o Pinochet e é um pão! ÓDIO! O que ele viu naquela Mortícia Addams, não sei...
23 DE MARÇO_O Lula me ligou outro dia para me azucrinar um pouco. Estava sem serviço e queria bater um papo sobre a reforma ministerial. Uma chatice. Parece que está sem ambiente em casa...
24 DE MARÇO_Desisto. Cansei de chamar o Guido na chincha! O que eu vou dizer do Pibinho? Minha inspiração acabou! Tá pequeno porque tá pequeno, ponto! Porque a economia não cresceu. E lambam os beiços. Quem não tem colírio que use óculos escuros.
25 DE MARÇO_Mandei incluir umas pimentas bem ardidas na comida aqui de casa. Li que pimenta acelera o metabolismo e queima umas 100 calorias por semana. No primeiro dia titia quase teve um troço. Ficou à base de canja por três dias e está sem falar comigo.
26 DE MARÇO_Dilminha pop star! Meus índices de aprovação são mais altos do que os de Chico Buarque, dom Paulo Evaristo Arns, Gaby Amarantos e aquela música do Byafra. Que, aliás, foi feita para mim: Voar, voar/ Subir, subir/ Ir por onde for... Talk to the hand, Luiz Inácio!
27 DE MARÇO_A Abin veio me dizer que o Suplicy vem lendo receitas de miojo na tribuna desde 2008. Ninguém notou.
Painel - Vera Magalhães
folha de são paulo
Sintonia fina
Com a proximidade da fase de recursos do mensalão, Joaquim Barbosa viajará no começo de maio para evento sobre liberdade de expressão na Costa Rica e se reunirá com Diego García-Sayá, presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O presidente do STF espera que Sayá reitere o entendimento de que não cabe revisão do julgamento -cujo acórdão sai nesta semana- em instâncias internacionais, uma das estratégias de defesa de réus como José Dirceu.
CEP errado Durante jantar em março, em Brasília, Sayá havia dito a Barbosa que, se recursos batessem na corte, seriam devolvidos. Ele justificou que o país é uma democracia e os réus tiveram amplo direito de defesa.
Gás A degravação do depoimento do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) no STF deve sair só no fim da semana. A ordem na taquigrafia é dar prioridade à montagem do acórdão do mensalão, que pode chegar a 10 mil páginas.
Reação O presidente do PT, Rui Falcão, critica decisão do Ministério Público Federal de investigar se Lula sabia do mensalão: "Trata-se de mais uma das muitas invencionices para tentar atingir o presidente Lula, cujo único crime foi ter melhorado a vida de milhões de brasileiros''.
Piloto Antes do programa nacional de rádio e TV, em maio, Aécio Neves vai aparecer na propaganda regional do PSDB. Todos os Estados vão ceder no mínimo 25% do tempo ao presidenciável.
Radar O antropólogo e publicitário Renato Pereira coordena pesquisa quali-quantitativa que já está em campo para definir a linha do programa de maio.
Desfile Fernando Haddad recebe hoje dirigentes das centrais sindicais para tratar da festa do Dia do Trabalho, que deve atrair a São Paulo Dilma Rousseff, Aécio e Eduardo Campos (PSB).
Plano B Avança no PSB o plano de construir o palanque de Eduardo Campos no Rio com a candidatura de Romário ao Senado apoiando Anthony Garotinho (PR) ao governo fluminense.
Plano A Socialistas, contudo, ainda sonham com o reforço de Lindbergh Farias caso o PT não dê legenda ao senador para disputar a sucessão de Sérgio Cabral.
Lados PT, PSB, PC do B e entidades como CUT e UNE assinam manifesto de solidariedade à Coreia do Norte em que chamam a Coreia do Sul de "fantoche'' e atribuem ao "imperialismo belicista" dos EUA o risco de conflito.
Toma lá... Senadores acusam Renan Calheiros (PMDB-AL), Eunício Oliveira (PMDB-CE) e Gim Argello (PTB-DF) de segurar uma indicação para diretoria de vigilância sanitária na Anvisa, vaga do atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, há 40 dias.
... dá cá A análise do nome de Ivo Bucaresky para o cargo está parada na Comissão de Assuntos Sociais desde o dia 27 de fevereiro, mas o trio, segundo parlamentares, congelou a nomeação para negociar uma outra diretoria na agência para o PMDB.
Tudo azul Diante das queixas de prefeitos à paralisia do Comitê de Articulação Federativa na era Dilma, a Secretaria de Relações Institucionais cita a ampla adesão a encontros promovidos com municípios para dizer que não há crise na relação.
X da questão O que os prefeitos esperam, no entanto, é que a presidente dê aval, durante evento em Brasília no dia 23, à medida que permite contratação de médicos formados em outros países para atuar na rede pública.
TIROTEIO
Dilma e Mantega pisam tanto no tomate no controle à inflação que, para o brasileiro, a salada de todo dia virou um luxo inacessível.
DO DEPUTADO FEDERAL DUARTE NOGUEIRA (PSDB-SP), sobre a alta de preços dos alimentos, que tem o tomate, que subiu 106% em 12 meses, como símbolo.
CONTRAPONTO
Alfinetadas acadêmicas
O brasilianista Timothy J. Power, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, conduz uma pesquisa sobre o presidencialismo de coalizão em nove países, entre eles o Brasil. Entrevistado por um estudante de doutorado para o estudo, o deputado Bonifácio de Andrada (MG) quis saber quem o coordenava. Ao ser informado, ironizou:
-Ah, o americano que só conhece o Brasil pelos livros.
Em palestra na USP, Power contou o caso e retrucou:
-Conheço o Andrada. Nove mandatos, é mineiro de Barbacena. Ele escreve alguns artigos sobre política e também se considera um intelectual...
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
Chalita pagou R$ 1 mi por biblioteca nunca entregue
folha de são paulo
DANIELA LIMAMARIO CESAR CARVALHOJOSÉ ERNESTO CREDENDIODE SÃO PAULONa época em que chefiava a Secretaria Estadual da Educação, o deputado federal Gabriel Chalita (PMDB-SP) pagou R$ 1,1 milhão por uma biblioteca digital que jamais foi entregue. Quase uma década mais tarde, as autoridades ainda procuram uma maneira de recuperar o dinheiro.
O negócio foi feito em 2004, quando Chalita era secretário de Geraldo Alckmin (PSDB), chegou a ser alvo de duas investigações paralelas dentro do governo. Uma delas foi enviada ao Ministério Público, que apura os prejuízos.
Chalita também é investigado em 11 inquéritos desde outubro do ano passado, quando um ex-colaborador foi ao Ministério Público para acusá-lo de cobrar propina de empresas que vendem para a Secretaria da Educação. Ele nega as acusações.
Em valores da época, a biblioteca digital custou R$ 690 mil e foi paga de uma vez só, apenas três dias depois da assinatura do contrato. O dinheiro foi repassado a uma empresa de Miami, a E-Libro, numa transação intermediada pela Unesco, o braço da Organização das Nações Unidas para educação e cultura.
A aquisição foi feita com base num acordo de cooperação que Chalita assinara com a Unesco para viabilizar investimentos de R$ 148 milhões no programa Escola da Família, que previa a abertura de algumas escolas estaduais nos fins de semana. A biblioteca, porém, não tem relação com esse programa.
Por ser um braço das Nações Unidas, a Unesco não pode ser processada no Brasil. A E-Libro também não, porque fica em Miami e não tem representação no Brasil.
Chalita diz que a biblioteca não foi para frente por culpa de sua sucessora, Maria Lucia Vasconcelos. A Unesco diz que houve problemas técnicos, solucionados em 2006, e também atribui o fracasso ao desinteresse da secretaria.
A biblioteca permitiria que os professores lessem no computador quase 40 mil obras de ficção e não-ficção em inglês, 4 mil em espanhol e só 400 livros em português.
Técnicos da secretaria que investigaram a compra concluíram que ela era desnecessária, porque o governo já tinha uma biblioteca digital.
A investigação aponta que a E-Libro não conseguiu entregar uma tradução para o português do programa que ensinava a usar o sistema. Técnicos perderam mais de um ano para refazer a tradução.
A compra da biblioteca foi autorizada por dois dos principais assessores de Chalita, segundo a investigação: Paulo Barbosa, seu secretário-adjunto e hoje é prefeito de Santos, e Cristina Cordeiro, chefe do Escola da Família.
A investigação mostrou que havia pressa. Em e-mail enviado no início do processo a um departamento encarregado de examinar a proposta, Barbosa escreveu: "Segue nesta mensagem o site da E-libro para sua análise. Precisamos de uma resposta imediata".
O departamento sugeriu que pedissem uma apresentação "mais detalhada" do produto, mas Barbosa contrapôs: "Já está autorizado, precisamos agilizar isso".
O então diretor da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, chegou a ser recebido na secretaria com um dos sócios da E-Libro. Um mês após o início do Escola da Família, Werthein levou Chalita para falar da experiência na sede da Unesco, em Paris. No ano seguinte a organização premiou-o pelo programa.
Segundo Chalita, o projeto não foi para frente por decisão da secretária que o sucedeu, Maria Lúcia Vasconcelos.
Chalita afirmou que o atraso inicial ocorreu por causa de incompatibilidade tecnológica e por dificuldades na tradução do programa que ensinava a usar o sistema.
O prefeito de Santos, Paulo Barbosa, então braço direito de Chalita, disse que "a contratação da E-Libro foi feita diretamente pela Unesco" e que "as ações de implementação, execução e acompanhamento do projeto nunca foram atribuições do ex-secretário-adjunto."
A Unesco afirmou que a biblioteca não foi implantada por decisão da secretaria. A organização reconheceu problemas técnicos no início, mas disse que eles foram solucionados em 2006, segundo carta que a própria secretaria teria enviado. A Folhapediu para ver o documento, mas a Unesco afirmou que não conseguiria encontrá-lo.
Victor Torrecilla, gerente da E-Libro em Miami, diz que a biblioteca foi entregue. "Entregamos um link, não um produto." Segundo ele, o sistema é usado em mil universidades nos EUA. "Se funciona em todas as universidades dos EUA, por que não em São Paulo?"
Jorge Werthein afirmou que não se recorda do caso. A Folha não conseguiu falar com Maria Lucia Vasconcelos e Cristina Cordeiro.
Inquérito reexamina negócio feito pela Secretaria da Educação em 2004
Ministério Público e governo buscam meio de reaver dinheiro repassado a empresa estabelecida em Miami
O negócio foi feito em 2004, quando Chalita era secretário de Geraldo Alckmin (PSDB), chegou a ser alvo de duas investigações paralelas dentro do governo. Uma delas foi enviada ao Ministério Público, que apura os prejuízos.
Chalita também é investigado em 11 inquéritos desde outubro do ano passado, quando um ex-colaborador foi ao Ministério Público para acusá-lo de cobrar propina de empresas que vendem para a Secretaria da Educação. Ele nega as acusações.
Em valores da época, a biblioteca digital custou R$ 690 mil e foi paga de uma vez só, apenas três dias depois da assinatura do contrato. O dinheiro foi repassado a uma empresa de Miami, a E-Libro, numa transação intermediada pela Unesco, o braço da Organização das Nações Unidas para educação e cultura.
A aquisição foi feita com base num acordo de cooperação que Chalita assinara com a Unesco para viabilizar investimentos de R$ 148 milhões no programa Escola da Família, que previa a abertura de algumas escolas estaduais nos fins de semana. A biblioteca, porém, não tem relação com esse programa.
Por ser um braço das Nações Unidas, a Unesco não pode ser processada no Brasil. A E-Libro também não, porque fica em Miami e não tem representação no Brasil.
Chalita diz que a biblioteca não foi para frente por culpa de sua sucessora, Maria Lucia Vasconcelos. A Unesco diz que houve problemas técnicos, solucionados em 2006, e também atribui o fracasso ao desinteresse da secretaria.
A biblioteca permitiria que os professores lessem no computador quase 40 mil obras de ficção e não-ficção em inglês, 4 mil em espanhol e só 400 livros em português.
Técnicos da secretaria que investigaram a compra concluíram que ela era desnecessária, porque o governo já tinha uma biblioteca digital.
A investigação aponta que a E-Libro não conseguiu entregar uma tradução para o português do programa que ensinava a usar o sistema. Técnicos perderam mais de um ano para refazer a tradução.
A compra da biblioteca foi autorizada por dois dos principais assessores de Chalita, segundo a investigação: Paulo Barbosa, seu secretário-adjunto e hoje é prefeito de Santos, e Cristina Cordeiro, chefe do Escola da Família.
A investigação mostrou que havia pressa. Em e-mail enviado no início do processo a um departamento encarregado de examinar a proposta, Barbosa escreveu: "Segue nesta mensagem o site da E-libro para sua análise. Precisamos de uma resposta imediata".
O departamento sugeriu que pedissem uma apresentação "mais detalhada" do produto, mas Barbosa contrapôs: "Já está autorizado, precisamos agilizar isso".
O então diretor da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, chegou a ser recebido na secretaria com um dos sócios da E-Libro. Um mês após o início do Escola da Família, Werthein levou Chalita para falar da experiência na sede da Unesco, em Paris. No ano seguinte a organização premiou-o pelo programa.
OUTRO LADO
Deputado diz que não há suspeita sobre sua atuação
DE SÃO PAULOApesar de ser um dos investigados no inquérito, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) disse em nota que "nenhuma conduta, ação ou omissão" sua é objeto de apuração no caso da compra da biblioteca digital.Segundo Chalita, o projeto não foi para frente por decisão da secretária que o sucedeu, Maria Lúcia Vasconcelos.
Chalita afirmou que o atraso inicial ocorreu por causa de incompatibilidade tecnológica e por dificuldades na tradução do programa que ensinava a usar o sistema.
O prefeito de Santos, Paulo Barbosa, então braço direito de Chalita, disse que "a contratação da E-Libro foi feita diretamente pela Unesco" e que "as ações de implementação, execução e acompanhamento do projeto nunca foram atribuições do ex-secretário-adjunto."
A Unesco afirmou que a biblioteca não foi implantada por decisão da secretaria. A organização reconheceu problemas técnicos no início, mas disse que eles foram solucionados em 2006, segundo carta que a própria secretaria teria enviado. A Folhapediu para ver o documento, mas a Unesco afirmou que não conseguiria encontrá-lo.
Victor Torrecilla, gerente da E-Libro em Miami, diz que a biblioteca foi entregue. "Entregamos um link, não um produto." Segundo ele, o sistema é usado em mil universidades nos EUA. "Se funciona em todas as universidades dos EUA, por que não em São Paulo?"
Jorge Werthein afirmou que não se recorda do caso. A Folha não conseguiu falar com Maria Lucia Vasconcelos e Cristina Cordeiro.
Jaques Wagner e a maior seca da Bahia nos últimos sessenta anos
REVISTA PIAUÍ > Edição 79 > Abril de 2013
Há uma calamidade em andamento e ninguém dá um pio. A desgraça é a seca no Nordeste. O governador Jaques Wagner, da Bahia, procura todas as manhãs na internet notícias sobre a chuva na região do semiárido. E há meses fecha o computador desolado: nem um pingo d’água.
Desde que a chuva começou a ser medida no Polígono das Secas, que vai do norte de Minas até o Piauí, jamais hou-ve uma estiagem como a de agora. Das 417 cidades baianas, metade está com o estado de emergência decretado. Mais de 4 milhões de nordestinos foram diretamente atingidos. Meio milhão de vacas e cabras morreu de inanição. Começa a faltar água para fazer comida e tomar banho em cidades de até 40 mil moradores. Rebanhos foram tangidos do sertão para o Recôncavo, onde ainda há pastos. A seca é a mais ruinosa dos últimos sessenta anos.
A mudez é das emissoras de televisão e rádio, dos grandes jornais e revistas do Sudeste. Não há manchetes nem documentários ou capas sobre o flagelo. Se muito, aparecem de quando em quando reportagens burocráticas, que indefectivelmente terminam com imagens de carcaças de bestas se decompondo no solo rachado da caatinga.
Jaques Wagner, que acabou de completar 62 anos, não atribui a míngua de reportagens sobre a seca a uma conspiração da grande imprensa para esconder um problema que diz respeito em primeiro lugar ao governo federal.
“Vivemos num mundo onde as imagens contam cada vez mais”, disse ele num jantar recente no Palácio de Ondina, em Salvador. “Já não há levas de famélicos vagando pelo sertão. É cruel, mas as imagens de desabamentos provocados pela chuva em Petrópolis ou em Angra são mais poderosas que as da seca.”
Ficaram para trás, no seu raciocínio, os versos de João Cabral de Melo Neto e a prosa de Graciliano Ramos, os retirantes de Vidas Secas ou os rebeldes de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Dizem pouco os livros e filmes que, no século passado, acordaram o Brasil do seu sono de morto e soaram como um despertador acre, como sol sobre o olho, que é quando o sol é estridente, a contrapelo, imperioso, e bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos.
“As imagens da literatura e do Cinema Novo já não servem para representar o que é a seca”, continuou Wagner. “Há toda uma rede de auxílio estatal que diminui o sofrimento e evita o aparecimento das multidões que atacavam armazéns de comida. O Bolsa Família, a construção de cisternas, o investimento em açudes, a eletrificação rural e o crédito mais barato cumpriram o seu papel.” Quase 2 milhões de baianos se beneficiam do Bolsa Família.
Mas as vítimas existem. Muitos casebres e sitiozinhos do sertão estão trancados e vazios. As famílias que neles viviam foram morar com parentes em cidades distantes do seco e de suas paisagens, à espera de dias molhados. Dias que parecem cada vez mais distantes: no final de abril começa no semiárido nordestino a estação do estio propriamente dita. Se não chover forte até lá, a faca da seca aprofundará o corte na carne dos sertanejos, tornando mais difícil, mais longa, a recuperação do ferimento.
“Pior do que perder a lavoura de subsistência, o que já aconteceu, será perder as plantas”, disse o governador. “Será preciso então providenciar novas mudas, irrigar a terra e alimentar as pessoas enquanto as plantações crescem. Tudo isso custa um mundo de dinheiro. E é dinheiro que só o Estado pode dar porque não há lucros à vista.” Tocou o seu celular. Era o governador Cid Gomes, do Ceará. Combinaram uma visita à presidente Dilma Rousseff para falar da falta de chuva.
Jaques Wagner é realista. Mesmo que houvesse comoção nacional com a seca, ele acha complicado fazer com que a ajuda chegue aos flagelados. No Rio e em São Paulo, é fácil doar roupas e alimentos a quem perdeu tudo nas enchentes. No interior do Nordeste, as pessoas precisam de água, e o aumento e a circulação de caminhões-pipa dependemda logística implantada por governos. “O Estado deve ter o tamanho necessário, não adianta ficar repetindo que a iniciativa privada é mais capacitada que o poder público”, disse o governador.
As longínquas eleições presidenciais do final de 2014, admitiu, interessam mais aos políticos e à imprensa que a seca de hoje. Wagner se dá bem com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro, e considera legítimo que ele queira disputar o Planalto. Mas acha melhor ele esperar até 2018, quando, aí sim, o Partido dos Trabalhadores deveria cogitar que a aliança governamental apoie um candidato que não seja do pt. Quanto às suas próprias pretensões à Presidência, não as esconde: “Se o cavalo passar selado, monto.”
Jaques Wagner tem olhos azuis, a tez de uma alvura nórdica e não é baiano. Filho de uma família judia que teve que fugir do nazismo, ele nasceu no Rio. Para desgosto do pai, que militou no Partido Comunista da Polônia, ele começou a fazer política no movimento sionista carioca. “Tinha 15 anos, e era um nacionalista judeu que queria fazer a revolução em Israel quando li Marx”, contou.
Veio 1968 e a agitação política o levou à presidência do diretório estudantil da Faculdade de Engenharia da Pontifícia Universidade Católica. Entrou no Partido Comunista do Brasil e chegou a fazer treinamento para ser guerrilheiro no Araguaia. Não houve tempo para completar a formação: caçado pelos militares, escapou para Minas e depois para a Bahia.
Chegou a Salvador de ônibus. Estava com a primeira mulher, a filha recém-nascida, um saco de pano com mamadeiras e panelas e um pequeno maço de cédulas no bolso. Morava numa pensão e procurava emprego todas as manhãs. Descobriu uma fábrica onde havia vagas e disse que queria trabalhar como moleiro – que ninguém queria por ser a função mais penosa.
“Galego, você não tem jeito para moleiro”, disse-lhe o supervisor que o entrevistou. Wagner respondeu: “Amigo, é a necessidade que diz se tenho jeito ou não para o trabalho, e eu tenho um bebê de 3 meses para sustentar.”
Obteve a vaga. Trabalhava entre fornos de fundição cuja temperatura rondava os 900 graus centígrados. A fuligem o obrigava a trocar de roupa duas vezes em cada turno. Ao fim da jornada, estava preto da raiz dos cabelos às unhas dos pés. Aguentou 45 dias, e só saiu da fábrica depois de se empregar numa petroquímica em Camaçari, onde se tornou técnico em manutenção.
Sem contatos políticos, ajudou a criar o sindicato dos petroquímicos. Em 1979, conheceu Luiz Inácio Lula da Silva num congresso de trabalhadores em Salvador. Durante o encontro, Marisa, a mulher do metalúrgico, ligou para contar que o filho que esperavam nascera com uma semana de antecedência e passava bem.
Lula e Wagner comemoraram o nascimento tomando conhaque, de manhã, num boteco. O ex-presidente é produto da seca nordestina: aos 7 anos, saiu com a mãe do sertão pernambucano e foi de pau de arara para São Paulo. Morou nos fundos de um bar e usava o mesmo banheiro da freguesia.
Naquela reunião em Salvador, foi uma das primeiras vezes que Lula disse em público que só o sindicato não bastava, que seria preciso criar um partido e tomar o poder. Jaques Wagner foi o primeiro presidente do PT na Bahia. Elegeu-se deputado federal três vezes e foi ministro do Trabalho de Lula. Está no segundo mandato como governador. Não fez a revolução nos desertos de Israel: tenta atenuar os males do sol no semiárido e enxuga gelo em Salvador.
O Palácio de Ondina fica no alto de um outeiro, no meio de um jardim com pitangueiras. É uma casa ampla, parecida com uma sede de fazenda. Está cheia de arranjos com orquídeas. Fátima, casada com Jaques Wagner, cuida delas com desvelo parecido ao de uma moradora da casa nos anos 90, Arlete, a viúva de Antonio Carlos Magalhães.
Ao lado do palácio, na ladeira do Jardim Zoológico, há um botequim surrado e imundo. Os principais itens à venda são pinga e cerveja, que dezenas de pessoas bebem depois do trabalho e antes de se recolherem. Na parede exterior há uma bandeira do Brasil pintada à mão.
As casas da vizinhança, pequenas e mal-ajambradas, são de alvenaria. Não há maiores problemas de segurança ali, segundo moradores. Só houve recentemente uma tentativa de assalto ao bar, na hora em que um caminhão de cerveja fazia a cobrança, mas o bandido, armado, se conformou em levar uma nota de 10 reais. O que há, segundo dizem lá, é “descuidismo”: se alguém descuida e deixa o celular sem vigilância, ele é afanado em questão de minutos. No ano passado, surrupiaram assim cinco aparelhos do dono do boteco.
O problema maior no bairro é o crack. Traficado e consumido livremente, ele afasta adolescentes do estudo ou do trabalho. E gera desavenças sangrentas entre bandos de criminosos. A droga vem de Lauro de Freitas, uma cidade ao lado onde ficam os traficantes relativamente mais ricos: têm carros, ainda que velhos, e tênis da moda. Os bandidos de Lauro de Freitas se subordinam ao Primeiro Comando da Capital, PCC, a rede bandida criada em São Paulo que se espalhou pelo Brasil.
Às nove da manhã seguinte ao jantar em Ondina, Jaques Wagner participou de uma reunião do Pacto Pela Vida, um programa de governo que visa melhorar o combate à criminalidade. O assunto central do encontro também foi o crack. O Pacto ajunta representantes dos três poderes institucionais, dos diversos ramos da polícia, secretários de Segurança municipais e entidades privadas diversas.
As estatísticas da segurança na Bahia são péssimas. Na década passada, o número de homicídios com arma de fogo no estado cresceu mais de 200%. Hoje são quase 5 mil assassinatos por ano, e mais de 3 mil deles motivados pela droga: gangues que acertam contas à bala, viciados fuzilados por não pagarem dívidas, cizânias provocadas por craqueiros na fissura. São mais baianos mortos ao ano que em períodos semelhantes na guerrade independência de Angola, na civil na Somália e na Intifada palestina.
Com dezenas de participantes, todos com computador à frente, a reunião foi longa. O governador queria saber por que se matou tanto no mês passado em determinadas cidades ou distritos. Cobrou maior integração entre as polícias civil e militar. Jaques Wagner pediu licença uma hora para falar no celular com o ministro da Agricultura, Antônio Andrade, sobre a seca.
A reunião foi presidida pelo secretário Robinson Almeida, da Comunicação. Ele disse que os encontros do Pacto pela Vida são essenciais para a troca de informações, descobrir como age o banditismo e acompanhar a criminalidade no cotidiano, alocando recursos e forças policiais para lhe fazer frente.
Almeida, no entanto, não tem ilusões quanto às artes do leão de sete cabeças do crime: corta-se uma e logo cresce outra. “Acho o Pacto imprescindível para salvar vidas, mas às vezes me sinto enxugando gelo”, disse. Não só porque faltam verbas, policiais e equipamento. Ele explicou: “Vivemos uma crise de crescimento no Brasil e na Bahia. A renda das famílias aumentou e o PCC descobriu um mercado para a droga, principalmente o do crack. Seria preciso policiar os 17 mil quilômetros da fronteira brasileira para evitar o tráfico. Nem os Estados Unidos, que têm 3 mil quilômetros de fronteira com o México, conseguem fazer isso.”
O secretário usou uma analogia com jegues e motocicletas. “Antes, o sertanejo tinha um jegue, e no final do dia saía por aí montado no bicho, tivesse bebido ou não”, disse. “Agora é mais barato trocar o jegue por uma moto, comprada em sessenta prestações. Só que cair da moto é muito pior. As seções de traumatologia dos hospitais baianos estão cheias de acidentados com moto.” De cada dez acidentes de trânsito na Bahia, sete envolvem motociclistas.
Uma semana depois, Jaques Wagner esteve em São Paulo para um almoço da Câmara de Comércio e Indústria Brasil–Alemanha. Tinha um porte mais germânico que todos os executivos alemães presentes. Ele discorreu meia hora sobre a situação da Bahia. Usou os termos “parceria público-privada”, “modelagem”, “sinergia”, “incremento tecnológico” e falou do porto e da ferrovia que estão sendo tocados no estado. Mas disse da gravidade da seca.
Terminou o discurso e pediu que os convivas lhe fizessem perguntas. Todas elas foram sobre infraestrutura. Ninguém quis saber da seca, de quem existe nesses climas condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas.
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