terça-feira, 9 de abril de 2013

Enjoo - Suzana Herculano-Houzel

folha de são paulo

Ele pode ser causado por remédios, bebida demais, comida estragada, carros em movimento, hormônios. Como se não bastasse todo o desconforto, a angústia e outras sensações negativas imediatas, o enjoo tem efeitos aversivos que podem ser duradouros.
Sei disso na pele: nunca mais quis vestir as roupas que eu usei na fase de enjoos da gravidez, terminar o livro que estava então na minha cabeceira ou mesmo voltar à Biblioteca Nacional, que eu visitava todos os dias naquela época. As roupas eu dei, mas até hoje tenho náuseas só de ver fotos da Biblioteca (e ela é linda!).
De onde vem o enjoo? Um estudo norte-americano recente responde --graças à boa vontade de 28 almas em se submeter a uma sessão de náusea crescente até a beira do vômito, induzida dentro de um aparelho de ressonância magnética.
Induzir náusea é fácil, como sabe quem enjoa fácil dentro do carro ou em frente a videogames na televisão: bastam imagens em movimento que não combinem com o estado do corpo. Foi a tática que a equipe usou no estudo, expondo as voluntárias a listras pretas e brancas deslizando continuamente para um lado. Já me dá desconforto só de imaginar.
Logo antes de qualquer náusea chegar, a equipe encontrou consistentemente nas voluntárias um aumento de atividade na amígdala e no locus coeruleus. Essas regiões não só são capazes de provocar alterações no corpo relacionadas ao enjoo (no estômago, por exemplo) como estão envolvidas com a aversão e a sensação de alerta "" sinais de que o cérebro já detecta que algo de muito errado está por vir.
Em seguida, a chegada do enjoo casa com o aumento da atividade de outras estruturas: a ínsula e o cingulado anterior, envolvidos nas sensações fisiológicas do corpo, e regiões do córtex pré-frontal, que participam da cognição. Ou seja: o enjoo é um estado aversivo de percepção de que algo vai mal no corpo e pode afetar até a cognição. A gente bem sabe que não pensa direito quando está enjoado.
Uma dica, portanto, já que o cérebro aprende a associar o mal-estar à situação do momento. Se você antecipa uma fase de enjoos, por gravidez ou tratamento médico, não compre roupas novas nem invista em qualquer outra novidade cara. Como seu cérebro pode associá-las ao enjoo, há boas chances de você nunca mais querer olhar para suas aquisições. Deixe as compras para quando o enjoo passar!
Suzana Herculano-Houzel
Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha, e professora da UFRJ. Escreve às terças, a cada duas semanas, na versão impressa de "Equilíbrio".

Rosely Sayão

folha de são paulo

Formaturas espetaculares


O consumo e, consequentemente, a publicidade, intensificaram-se muito nas últimas décadas. Anos atrás, a publicidade veiculada nas mídias era bem diferente.
O núcleo principal de quase todas elas eram as características dos produtos anunciados, que eram bem enaltecidas. As peças publicitárias tentavam convencer o consumidor de que o produto que vendiam era especial e, por isso, deveria ser o escolhido entre tantos produtos similares. Outro foco era a marca, que funcionava mais ou menos como um indicador de qualidade.
Além disso, o público-alvo dos anúncios eram os adultos. Eles eram considerados os consumidores por excelência porque detinham o poder de decisão de compra.
Hoje, muitas vezes assistimos a um comercial e ao final dele não lembramos bem qual foi o produto anunciado. É que o foco das peças atuais não é o produto, e sim o estilo de vida prometido a quem o comprar. Se você comprar o carro tal, terá êxito na vida etc. Essa foi uma mudança e tanto, porque hoje todos consomem determinados estilos de vida.
Outra mudança radical foi o público-alvo da publicidade: saiu o adulto e entrou o jovem. Ou o adulto travestido de jovens. É que, mesmo sem ter poder aquisitivo, são o jovem e a criança que quase sempre decidem o que os pais devem comprar.
Na era do consumo, os jovens têm consumido de tudo e em exagero. O alcance da publicidade é maior do que o dos objetos anunciados. E os pais têm aceitado tal situação, mesmo quando consideram exagerado.
E meu exemplo de hoje a esse respeito são festas de formatura do ensino médio.
Li uma reportagem informando que festas desse tipo chegam a custar o valor equivalente ao de um apartamento. Quando li a notícia, fui checar com conhecidos, com formandos e na internet.
Há festas para quase todos os bolsos e há, sim, festas que custam uma pequena fortuna, cujo valor relativo os jovens não têm condições de avaliar.
Eles não estão interessados em celebração, despedidas etc. Estão querendo mais é o tal estilo de vida que vem sendo anunciado por quase todas as peças publicitárias.
Nossa pergunta deve ser: "Por que bancamos essas atitudes deles?". Será por querermos a mesma coisa?
Rosely Sayão
Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Empregos nas micro e pequenas empresas cresceram 85% de janeiro para fevereiro

DE SÃO PAULO

A geração de empregos nas micro e pequenas empresas cresceu 85% de janeiro para fevereiro, segundo estudo mensal que o Sebrae elabora com base nos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Foram 74 mil postos de trabalho criados no segundo mês do ano. Os pequenos empreendedores têm garantido o emprego no país --as vagas criadas representam 60% do total de 123 mil que foram abertas pelo setor produtivo.
SALTO
São Paulo foi o Estado com o maior número de vagas abertas em micro e pequenas empresas no período analisado (30 mil), seguido por Paraná (9.500) e Minas Gerais (6.000). Para o presidente do Sebrae, Luiz Barretto, os números confirmam tendência de crescimento da economia neste ano.
MICROFONE
José Dirceu está gravando longos depoimentos para o jornalista Breno Altman, que é seu amigo.
*
O material coletado pode virar um livro.
LÁ VÊM OS NOIVOS
Otavio Marques de Azevedo, presidente do grupo Andrade Gutierrez, e sua mulher, Adriana, casaram o filho Otavio Vasconcelos Azevedo com Samantha Kechichian, na igreja Nossa Senhora do Brasil, no sábado. A empresária Rachel Pena e Sandro Barros, que assinou o vestido da noiva, estiveram na cerimônia.

Presidente do grupo Andrade Gutierrez casa filho em SP

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Greg Salibian/Folhapress
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Otavio Vasconcelos Azevedo, filho de Otavio Marques de Azevedo, presidente do grupo Andrade Gutierrez, se casou com Samantha Kechichian no sábado (6), na igreja Nossa Senhora do Brasil
RÉDEA CURTA
A presidente Dilma Rousseff inovou ao entrevistar candidatos ao STF (Supremo Tribunal Federal). Lula delegava a tarefa a auxiliares como Márcio Thomaz Bastos, que comandava o Ministério da Justiça. Joaquim Barbosa, por exemplo, já contou que viu o então presidente pela primeira vez no dia de sua posse. Não falou com ele nem mesmo por telefone antes de ser anunciado. Já Dilma não confia --quer ela mesma sabatinar o futuro ministro.
FOI VOCÊ?
A presidente não apenas centraliza a escolha como fica furiosa quando as conversas são descobertas pela imprensa. Na semana passada, telefonou para ministros e auxiliares para tentar descobrir como sua conversa com o tributarista Heleno Torres, que disputava a vaga, foi parar nos jornais.
A VENEZUELA É AQUI
O maestro venezuelano Gustavo Dudamel regeu a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar no primeiro concerto do ano da Cultura Artística. O casal Pedro Jens e Malu Montoro e a atriz Beatriz Segall foram à Sala São Paulo.

Maestro venezuelano Gustavo Dudamel rege orquestra na Sala São Paulo

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Greg Salibian/Folhapress
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A atriz Beatriz Segall esteve no primeiro concerto do ano da Cultura Artística, no sábado (6)
NA FORMA DA LEI
O diretório estadual do PSDB de São Paulo foi condenado a indenizar em R$ 30 mil a jornalista Mara Conti. Ela entrou com ação trabalhista afirmando que prestou serviços à legenda, sem registro, entre 2009 e 2011.
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A Justiça reconheceu o vínculo empregatício e determinou o pagamento de rescisão e de horas extras, aviso prévio e férias vencidas. O partido diz que vai recorrer.
PARA A CRIANÇADA
A dupla Palavra Cantada, formada por Paulo Tatit e Sandra Peres, está gravando seu novo DVD. O trabalho contará com participações especiais. As cantoras Maria Rita, Zélia Duncan, Maria Gadú e Ana Cañas emprestarão suas vozes às personagens da canção infantil "Rato", dos anos 90.
DO BAÚ
Silvio Santos gosta de ver documentários do diretor americano Michael Moore e o define como "um louco engraçado". Lê livros como a biografia de Hitler, dorme cedo e pratica atividades físicas todos os dias da semana, por duas horas. As revelações sobre o apresentador de 82 anos estão na revista "Poder", nas bancas hoje.
ZÉ DO RISO
Os atores José de Abreu, Tadeu Mello e Iara Jamra estrearam a peça "Bonifácio Bilhões" na sexta. Camila Mosquella, mulher de Abreu, e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, com seus filhos, Frederico e Ana Carolina, e com sua mulher, Ana Estela, assistiram ao espetáculo no Teatro Gazeta.

José de Abreu estreia peça na capital paulista

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Zanone Fraissat/Folhapress
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Ao lado de sua mulher, Camila Paola Mosquella, o ator José de Abreu estreou a peça "Bonifácio Bilhões" no Teatro Gazeta na sexta (5)
CURTO-CIRCUITO
Walter Casagrande autografa nesta terça-feira (9) o livro "Casagrande e seus Demônios", às 19h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Carlos Jereissati Filho recebe convidados para degustação de vinhos da marca italiana d'Amico, às 19h, no JK Iguatemi.
Mônica Bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

João Pereira Coutinho

folha de são paulo

Os canalhas da Humanidade
Só canalhas amam a Humanidade. E só grandes homens são capazes de exercer a sua humanidade
QUE SORTE, Brasil: nas livrarias há uma nova edição das "Reflexões sobre a Revolução na França" (Top Books), o clássico de Edmund Burke que praticamente inaugurou o conservadorismo moderno. Digo "nova edição" porque existia uma antiga, da Universidade de Brasília, que li e não gostei.
Essa nova, pelo contrário, tem tradução competente de Eduardo Francisco Alves e permite revisitar os argumentos centrais de Burke, não apenas contra a Revolução Francesa mas contra o pensamento utópico e suas consequências potencialmente destrutivas.
Deixarei esses argumentos para um próximo artigo. Hoje, fico com Jean-Jacques Rousseau. Nas "Reflexões", Rousseau é tratado com uma dureza exemplar: o "filósofo da vaidade", dirá Burke. Alguém que era capaz de proclamar em público o seu amor pela humanidade -mas, em privado, não hesitara em abandonar os filhos na roda dos enjeitados.
Durante décadas, acadêmicos sofisticados nunca perdoaram essa crítica pouco sofisticada de Burke. Conheço alguns. A filosofia de Rousseau é uma coisa, dizem eles; sua relação com os filhos, outra. Nenhum intelectual deve ser julgado à luz da sua conduta privada.
Concordo. Até certo ponto. Anos atrás, ao ler a autobiografia que o grande cronista inglês Auberon Waugh escreveu ("Will This Do?", Carroll & Graf, 288 págs.), encontrei um retrato demolidor sobre o pai, o inultrapassável Evelyn Waugh.
Uma passagem do livro ficou célebre: acontece quando, depois da Segunda Guerra Mundial e com a Inglaterra a viver os horrores do racionamento de comida, o pai Evelyn come na frente dos filhos esfaimados todas as bananas disponíveis na mesa de jantar.
Era a primeira vez em anos que as crianças viam bananas. E foi a última vez que Auberon levou a sério o moralismo do pai.
Entendo a desilusão do filho. Mas eu não sou filho de Evelyn Waugh. Sou leitor. E, como leitor, não existe qualquer abismo entre a crueldade privada e a sua colérica persona pública.
Nos diários de Evelyn Waugh, os filhos só existem como objeto de desprezo ou coisa pior. E, sobre os romances, o óbvio: Evelyn Waugh nunca enganou. O seu desprezo sarcástico pela Humanidade (com maiúscula) é a medida de toda a obra.
Minha náusea é só com os que enganam: intelectuais que gostam de dar sermões humanistas ao público lacrimejante (como nas peças de Arthur Miller) e depois esquecem os seus filhos com síndrome de Down em instituições psiquiátricas, rasurando o fato das suas respectivas memórias (idem Arthur Miller).
Essa hipocrisia repugnava igualmente Burke. Não apenas por motivos éticos. Também por motivos políticos: o problema com os "filósofos da vaidade" não está simplesmente na dissonância entre o que dizem e o que fazem.
O problema está na forma como, recusando pensar politicamente a partir do seu "pequeno pelotão" (uma ideia que Burke recolheu em Adam Smith), eles fogem para grandes categorias abstratas (a humanidade, a igualdade, a raça, o proletariado etc.) e infligem transformações radicais e violentas sobre a exata realidade da qual fugiram.
Em rigor, Burke não estava preocupado com os pobres filhos de Rousseau. O que ele não podia tolerar era que a atividade política pudesse ser dirigida por alguém que, em nome da sua própria vaidade, trocara as circunstâncias reais por puras fantasias dogmáticas.
Só canalhas amam a Humanidade (com maiúscula). E só grandes homens são capazes de exercer a sua humanidade (com minúscula). Homens como o anônimo Manuel Condez, 60, um ex-bancário que ajudou o filho com paralisia cerebral a terminar o curso universitário.
Conta o jornalista Jairo Marques, em excelente matéria para esta Folha no último domingo: "O pai assistiu a todas as aulas, anotou as lições dadas pelos professores, auxiliou o filho na feitura das provas escrevendo no papel aquilo que ele lhe soprava".
E quando homenagearam o pai no dia em que o filho Marco, 26, recebeu o diploma, o pai respondeu: "Não fiz nada demais".
Não fez nada demais: entregava mais depressa os destinos de um governo a esse homem do que a grande parte dos meus colegas literatos.
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