sábado, 27 de abril de 2013

Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário - Frans de Waal

folha de são paulo

ENTREVISTA - FRANS DE WAAL
PRIMATÓLOGO FRANS DE WAAL CRITICA MESSIANISMO ATEU EM LIVRO
REINALDO JOSÉ LOPESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAPara alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.
Autor de "The Bonobo and the Atheist" ("O Bonobo e o Ateu"), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.
Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem "guerras", e pelo uso do sexo para resolver conflitos.
Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.
Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.
Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.
"Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles", diz De Waal, ateu e ex-católico. "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo."
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Folha - Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal - Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.
Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance "O Senhor das Moscas", de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?
Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.
Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de fechar os olhos para a faceta violenta dela?
Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, "Chimpanzee Politics" ["Política Chimpanzé", sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.
O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?
Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.
E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?
Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.
Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?
É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.
Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?
Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.

    RAIO-X - FRANS DE WAAL
    NOME E IDADE
    Franciscus "Frans" Bernardus Maria de Waal, 64
    FORMAÇÃO
    Doutorado em biologia e zoologia na Universidade de Utrecht (Holanda) e pós-doutorado com enfoque no comportamento de chimpanzés
    PRINCIPAIS LIVROS
    "A Era da Empatia" (2010) e "Eu, Primata" (2007). Seu clássico é "Chimpanzee Politics" (1982), ainda inédito no Brasil

    Viúva de Glauco teme liberação de assassino

    folha de são paulo

    Cadu, que matou artista, pode sair de clínica
    REYNALDO TUROLLO JR.DE SÃO PAULOA viúva do cartunista Glauco Vilas Boas, Beatriz Galvão, afirma estar "revoltada e apavorada" com a possível liberação de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, 27, assassino confesso do artista e do filho dele, Raoni.
    Para a juíza Telma Aparecida Alves, que acompanha o processo em Goiás, a saída da clínica psiquiátrica em que Cadu está internado é "um fato", questão de tempo, como revelou ontem a Folha.
    Considerado inimputável em razão de doença mental, Cadu tem aval médico para continuar o tratamento na casa da família. Ainda não há data para a liberação ocorrer.
    "Acabou minha tranquilidade. Eu me sinto a condenada, porque agora ele vai ficar solto", diz Beatriz. "Se ele não responde por seus atos, como pode andar na rua? Minha família está apavorada, pois ele sabe onde a gente mora."
    Segundo o advogado de Cadu, Sérgio Divino Carvalho Filho, os médicos que cuidam dele afirmam que, com medicação em dia e acompanhamento médico e familiar, o jovem "não oferece risco".
    Cadu, ex-frequentador da igreja Céu de Maria, fundada por Glauco, está internado numa clínica na região metropolitana de Goiânia (GO). O crime ocorreu em Osasco, em março de 2010.

      Walter Ceneviva

      folha de são paulo

      Poder ou não poder, eis a questão
      Se os Poderes da República são independentes e harmônicos, como resolver a discordância entre eles?
      O troféu do poder está em disputa pelo Legislativo (aparentemente vestindo a camiseta do Executivo) contra o Judiciário.
      Para avaliar essa questão, é preciso recordar dois pontos: as regras do jogo não foram escritas por nenhum dos poderes, mas por uma assembleia constituinte. Nem por estar mais próxima do Legislativo, quebrou o equilíbrio entre os poderes.
      Qual equilíbrio? O da própria Constituição, que a douta assembleia constituinte promulgou em 5 de outubro de 1988, presidida por Ulysses Guimarães, em texto assinado pela mesa e por todos os constituintes, de Abigail Feitosa a Ziza Valadares.
      O verbo promulgar foi utilizado pelos ilustres autores da Carta Magna. Significa dizer que foi autenticada por quem a podia validar --ao mesmo tempo, dando-lhe condições de impor seu exato cumprimento.
      O verbo promulgar, usado pelos constituintes, é daqueles que impedem o jogo de palavras. Promulgar corresponde, ao mesmo tempo, a ordenar a publicação do ato e impor o cumprimento a todos. É assim que há de ser respeitado e cumprido. Mais ainda: tem o caráter de verbo que não dá margem, ao intérprete, para grandes variações.
      Neste breve exercício de interpretação do que consta da Carta Magna, é admitida a discussão da eventual dissidência entre os Poderes. Antes, porém, de entrar no mérito, cabe lembrar que a Constituição é "carta" e é "magna" por ser o documento do qual resultam direitos essenciais e de valor superior a qualquer outro, nos quadros de todas as leis vigentes no país.
      Nesse quadro cabe a discussão agora desencadeada?
      Caber, cabe, no uso da liberdade das ideias, mas o resultado é muito óbvio. A resposta começa pelo art. 2º da Constituição, pelo qual os Poderes da União são independentes e harmônicos entre si. Vale para os três Poderes, cabendo destacar a harmonia em que devem desenvolver o cumprimento das suas funções.
      Mas o leitor proporá uma questão. Se há um parâmetro, indicativo firme do que pode e deve acontecer, o que ocorre se a harmonia for quebrada, por qualquer circunstância? Há, no Brasil, o Poder Executivo, exercido pelo presidente da República --no Brasil, a presidente Dilma Rousseff, auxiliada pelos ministros de Estado que nomeie e, em missões especiais, pelo vice-presidente Michel Temer.
      Como ficam? Se os Poderes são independentes e harmônicos, como resolver a discordância entre eles?
      Se o assunto discutido for a edição de uma nova lei, a primeira verificação leva à leitura do art. 60 da Constituição. Dele decorre que nenhuma deliberação propondo emenda constitucional pode ser discutida se dela resultar a abolição da forma federativa do Estado ou ofender a separação dos Poderes.
      E, por último, a pergunta óbvia: qual a solução, se houver discordância insanável entre os Poderes da República. A resposta está --sem menor dúvida de interpretação-- no art. 102 da Constituição.
      Afirma a competência precípua do STF (Supremo Tribunal Federal) como guarda da Constituição. Cabe-lhe, por isso, julgar as ações diretas de inconstitucionalidade. Em resumo, para terminar: não é possível discutir projeto de lei que altere a definição constitucional sobre a competência dos Poderes. Se houver questão a esse respeito, só o STF resolve. Ninguém mais.


      LIVROS JURÍDICOS
      O PROCESSO DO TRABALHO E O PARADIGMA CONSTITUCIONAL PROCESSUAL BRASILEIRO
      AUTOR Artur Torres
      EDITORA LTr (0/xx/11/2167-1100)
      QUANTO R$ 30 (96 págs.)
      O ensaio sobre o processo do trabalho é dividido em duas partes. Na primeira, há pressupostos do tema e modelo constitucional do processo brasileiro. Na segunda, ditames processuais infraconstitucionais.
      EMPRESAS FAMILIARES
      AUTORES Gladston Mamede e Eduarda Cotta Mamede
      EDITORA Atlas (0/xx/11/3357-9144)
      QUANTO R$ 49 (224 págs.)
      Publicado por típica empresa familiar, o livro tem prefácio que merece ser lido mesmo por quem não gosta do tema. Os autores discutem administração, antes de percorrerem os caminhos da sucessão e da prevenção de conflitos entre sócios ao longo de dez capítulos a serem apreciados.
      IMPOSTO SOBRE A RENDA
      AUTORES Paulo Adyr Dias do Amaral e Leonel Martins Bispo
      EDITORA Del Rey (0/xx/31/3284-5845)
      QUANTO R$ 55 (178 págs.)
      Fundamentos e contradições compõem este trabalho com crítica à vigente estrutura de impostos. Tributação da pessoa física e jurídica compõe o rol ilustrativo de questões polêmicas, coroadas pelas reflexões sobre "incentivos" estranhos. É excelente obra de introdução didática, diz Sacha Calmon, no prefácio.
      TUTELA DO DIREITO DE SIGILO DA FONTE JORNALÍSTICA
      AUTOR Pedro Luís Piedade Novaes
      EDITORA Juruá (0/xx/41/4009-3900)
      QUANTO R$ 42,50 (162 págs.)
      Josué Rios diz, no prefácio, que a obra é o "guia de como identificar deslizes". Novaes é juiz e mostra experiência ao decompor o tema do título em seus segredos e hipóteses. Fala sobre o limite da comunicação e sobre direitos da personalidade e liberdade.
      DIREITOS HUMANOS "" PROTEÇÃO E PROMOÇÃO
      AUTOR Obra coletiva
      EDITORA Saraiva (0/xx/11/3613-3344)
      QUANTO R$ 89 (402 págs.)
      Daniela Bucci, José B. Sala e José R. de Campos coordenaram a criação da obra. Maria Garcia, no prefácio, a considera relevante para a defesa dos direitos do homem.
      O PROCESSO ADMINISTRATIVO NA PREVIDÊNCIA SOCIAL
      AUTOR Clóvis Juarez Kemmerich
      EDITORA Atlas (0/xx/11/3357-9144)
      QUANTO R$ 30 (160 págs.)
      Curso e legislação compuseram a preocupação de Kemmerich com as bases e finalidades do processo administrativo em sua visão geral na Previdência.

        Moisés Naím desconstrói fim do poder no mundo em novo livro

        folha de são paulo

        Para colunista da Folha, é mais difícil exercer domínio atualmente
        NELSON DE SÁDE SÃO PAULOEm seu livro recém-lançado "The End of Power", o fim do poder, Moisés Naím não identifica o fim do Estado, o fim das grandes empresas ou igrejas, por exemplo. Cada uma à sua maneira, as elites continuam em pé, até com maior concentração de riqueza, como nos EUA. Mas a sua capacidade de exercer tal poder está em xeque.
        "É mais fácil obter e perder poder e é mais difícil usá-lo", diz Naím, em entrevista por telefone, de Washington. Ex-ministro da Venezuela, ex-diretor do Banco Mundial e ex-editor da revista "Foreign Policy", ele é membro associado do "think tank" Carnegie e colunista dos jornais Folha, "El País" e "La Reppublica", entre vários outros.
        "O escudo que protege os poderosos agora é menos eficiente", prossegue Naím. "Isso é verdadeiro nos negócios, nas questões militares, na política, na religião, no sindicalismo, na mídia. E isso é devido a muitos fatores, uma longa lista de fatores, que eu procuro agrupar em três categorias, três revoluções."
        REVOLUÇÕES
        São três emes, em português ou inglês: mais (more), mobilidade (mobility) e mentalidade (mentality). A primeira categoria "tenta condensar o fato de que vivemos em um mundo de abundância, em que há mais de tudo: há mais pessoas no mundo, as pessoas são mais ricas do que nunca, há mais cidades, mais produtos, mais remédios e mais armas".
        Para resumir como "o mais tem consequências para os poderosos", cita Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA: "Hoje é mais fácil matar centenas de milhões de pessoas do que governar centenas de milhões de pessoas".
        A revolução da mobilidade reflete o fato de que esse "mais" também se movimenta mais. "As pessoas, seus produtos e seu dinheiro, sua ideologia e suas pandemias, tudo se movimenta mais. E o poder requer um público cativo, requer fronteiras muito definidas, dentro das quais você o exerce. A mobilidade dificulta isso."
        A terceira categoria, mentalidade, se refere às "profundas mudanças em expectativas, aspirações, valores". Para Naím, hoje há menos tolerância para situações que antes eram aceitas sem questionamento. "Um dos exemplos mais ilustrativos disso é a explosão nas taxas de divórcio na Índia: as mulheres estão abandonando os seus casamentos arranjados."