terça-feira, 30 de abril de 2013

Megafones - Denise Fraga

folha de são paulo

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." Acho que muitas namoradas não conseguiram terminar seus falidos namoros adolescentes por culpa da famosa e melosa frase de Saint-Exupéry. Se o namorado fosse loiro como o Pequeno Príncipe, então, era quase impossível. Lá vinham os campos de trigo se misturando aos cabelos do rapaz e o rompimento ficava de novo para o sábado seguinte.
Fui uma delas. E, quando finalmente consegui dar adeus ao meu namoradinho cansado, ele deixou a frase grudada por fora no vidro da janela do meu quarto para que eu nunca mais pudesse olhar o horizonte sem a culpa necessária pelo que eu estaria deixando para trás.
Alguns anos de análise cuidaram disso. Esqueci a frase, perdoei Saint-Exupéry e devo ter acumulado, como qualquer um de nós, uma lista de pessoas cativadas abandonadas por minha responsabilidade.
Mas, dia desses, o Pequeno Príncipe apareceu em minha cabeça num curioso embate com Carlinhos Brown e Marisa Monte. "Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem..."
Assim, isolados, os versos da canção dos Tribalistas me pareceram a trilha perfeita para as redes sociais. Nós nos livramos do peso da frase do Pequeno Príncipe ao seu cativante aviador, mas, mesmo se assim desejássemos, não daríamos mais conta de nutrir tantos seres cativados por nossos posts, tuitadas e cliques. Nossa responsabilidade pelo que cativamos já pode até ser medida em número de "curtidas", mas o retorno personalizado ao curtidor fica cada vez mais raro.
Viramos todos oradores em praça pública. Outro dia, ouvi numa conversa: "Não dá mais pra falar para uma pessoa só. É perda de tempo". E foi aí que a frase adolescente ressurgiu para mim cheia de sentido e desprovida de todo o açúcar.
Nós nos tornamos responsáveis pelo que cativamos porque é no outro que nos reconhecemos. Como que refletidos em espelhos variados, garantimos a certeza da nossa existência a partir de onde reverberamos. É a partir do outro que tomamos posse de quem somos. Do outro. E não dos outros. Um de cada vez montando o rico mosaico que compõe nossa personalidade.
Porque não existe Fulano. Existe o Fulano que se lê nos olhos de quem o recebe. Dois olhos e não milhares. Porque senão não é pessoa, é persona. Uma imagem de si que se irradia sem se alterar pela convivência, pelo recebimento, pela relação com o alheio. Um Fulano a partir de si, que mal se reconhece, mesmo com um bilhão de curtidas.
Arquivo Pessoal
Denise Fraga é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo). Escreve a cada duas semanas na versão impressa do caderno "Equilíbrio".

Remédio reduz em 38% risco de câncer de mama

folha de são paulo

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO

Uma revisão de estudos com dados de mais de 83 mil mulheres apontou que moduladores hormonais reduzem em 38% o aparecimento do tumor em mulheres saudáveis com alto e médio risco de desenvolver a doença.
Trata-se da primeira análise de estudos clínicos envolvendo esses remédios, que evitam que o estrogênio faça as células da mama se multiplicarem no caso de tumores de mama hormonais. Cerca de 70% dos tumores têm esse perfil.
As drogas podem ser indicadas se a mulher, mesmo saudável, tiver histórico importante de doença na família, lesões precursoras do câncer e/ou mutações genéticas que aumentam a chance de desenvolvê-lo.
Em geral, o tratamento é oferecido a mulheres que estão na pós-menopausa.
Segundo os autores da pesquisa, publicada hoje na revista médica inglesa "Lancet", já se sabia que esses remédios reduziam o risco de câncer de mama em mulheres com risco elevado da doença, mas a duração do efeito protetor das drogas era desconhecida.
O novo trabalho agora confirma o benefício por pelo menos cinco anos depois do fim do tratamento.
Neste mês, o US Preventive Services Task Force, grupo de pesquisadores ligado ao governo americano, recomendou que os médicos ofereçam esses remédios a mulheres com alto probabilidade de ter câncer e baixo risco de desenvolver derrames e coágulos --possíveis efeitos colaterais dessa drogas.
No Brasil, segundo Max Mano, oncologista do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), esse tratamento é pouco usado, ainda que sua frequência seja maior do que na Europa.
No setor privado, porém, a profilaxia é discutida rotineiramente, segundo Artur Katz, coordenador de Oncologia Clínica do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês.
"Com mulheres que têm alto risco de ter a doença, temos a obrigação de discutir, caso a caso, os prós e contras do tratamento."
Ele afirma que há quem prefira usar a medicação, ser acompanhada de perto ou até fazer a retirada das mamas.
Editoria de Arte/Folhapress
EFEITOS TÓXICOS
Apesar da conhecida eficácia das drogas, há um receio em prescrever os moduladores hormonais por causa dos seus efeitos colaterais.
O novo estudo aponta que mulheres que usaram a mais conhecida dessas drogas, o tamoxifeno, tiveram uma incidência maior de câncer de endométrio do que as que receberam placebo.
Além disso, os quatro medicamentos analisados aumentaram a ocorrência de trombose.
"O risco do câncer de útero é estatisticamente real, mas é o fator que menos assusta porque a doença tende a ser pouco agressiva e é descoberta precocemente. Um derrame ou uma trombose preocupam mais porque não mandam aviso", diz Katz.
Mas, segundo Max Mano, a quimioprevenção ainda é controversa.
"O remédio não dá a garantia de prevenção, ele reduz a chance. E, para isso, você expõe uma mulher saudável ao risco de ter outras doenças como efeito colateral. Tem que colocar na balança pra ver se vale a pena."

A coroação da primeira rainha europeia de origem argentina é motivo de festa, piadas e polêmica em Buenos Aires

folha de são paulo

Cerimônia gera piadas e polêmica em Buenos Aires
SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRESA coroação da primeira rainha europeia de origem argentina é motivo de festa, piadas e polêmica em Buenos Aires. A festa é por conta dos hotéis e lojas chiques, principalmente do bairro da Recoleta, que se preparam com eventos e lançamentos de produtos vinculados a Máxima.
No Buenos Aires Grand Hotel, haverá um café da manhã com doces holandeses, enquanto a marca Andrea Frigerio lançou um perfume em edição limitada chamado Tulip & Hyacinth (tulipas e jacintos).
Uma loja fez uma série de camisetas tendo Máxima como tema. Assinados por uma artista plástica, trazem as inscrições: "Viva o rei e a rainha".
Há anos, Máxima é assunto preferido das revistas de celebridades. Sua vida é acompanhada de perto pelas revistas "Hola" e "Caras". Ambas soltaram suplementos especiais.
A internet também está celebrando, com piadas e provocações a Cristina, como "Argentina, um país com um papa e duas rainhas" e referências ao ciúme que a presidente teria da "nova rainha".
O vice-presidente, Amado Boudou, será o representante do governo na coroação. Sua viagem está sendo criticada pelo fato de ele estar levando comitiva de 12 pessoas que ficará em hotéis de luxo.

Os juros, a dívida e os búzios - Clovis Rossi

folha de são paulo

Estudos de economistas com "lamentáveis deslizes" são, no entanto, tomados como a palavra de Deus
Em maio de 2003, resumi, na página A2 desta Folha, um alentado estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional em 1999, que desmontava a sabedoria convencional que diz que aumentar os juros derruba a inflação e vice-versa.
O leitor e pesquisador Jacques Dezelin mergulhou em 1.323 casos de 119 países e verificou que, na maioria absoluta dos casos, a inflação caiu, tenha o respectivo Banco Central aumentado, diminuído ou mantido a taxa de juros.
A maior porcentagem de êxito (ou seja, de casos em que a inflação caiu) se deu justamente quando o BC reduziu os juros. Nesse caso, a porcentagem de sucesso foi a 62,18% dos 476 casos examinados, contra 50,75% dos 398 casos em que a inflação caiu quando a taxa de juros aumentou.
Mais: a segunda maior porcentagem de sucesso se deu quando não se mexeu nos juros (53,45%).
Conclusão de Dezelin: "O que os dados estatísticos do FMI apontam é o caráter meramente aleatório da relação (ou melhor, a ausência de relação) entre a variação da taxa de juros do BC e a inflação".
É uma afirmação tão temerária quanto assumir, como fazem os economistas ortodoxos e, a bem da verdade, a grande maioria de todos os demais, que é sempre necessário e até inevitável aumentar os juros para combater a inflação.
Talvez o mais lógico, acrescentava eu e reafirmo agora, seja examinar caso a caso, país a país, circunstância a circunstância. Ou, posto de outra forma, aumentar os juros como reflexo condicionado pode ser tão científico quanto jogar os búzios.
Rememoro o episódio para deixar claro como é fácil aceitar como palavra de Deus estudos nada santos.
É o que está se vendo agora com o trabalho de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, dois renomados economistas da grife Harvard, que sustentaram a tese de que endividamento acima de 90% do PIB torna inviável o crescimento econômico.
Com isso, as políticas de austeridade para reduzir a dívida ganharam o seu Santo Graal. Afinal, quem vai duvidar de dois ex-FMI, ainda por cima com todo o lustro de Harvard?
Até que surgiu Thomas Herndon, estudante de 28 anos, doutorando em Economia (Universidade de Massachusetts), que "desmascarou a mentira macroeconômica mais significativa dos últimos anos e sobre a qual os EUA e a Europa se apoiaram em sua campanha pela austeridade fiscal e o corte drástico do gasto público", como escreveu domingo "El País".
Reinhart e Rogoff cometeram erros básicos. Omitiram que Canadá, Austrália e Nova Zelândia tiveram dívida superior a 90% e nem por isso deixaram de crescer.
Outro erro, aliás primário: uma trapalhada com planilhas Excel para fazer certos cálculos.
Os dois economistas admitiram que cometeram um "lamentável deslize" mas juram que os erros não "afetam a mensagem central".
Pode ser, pode não ser, mas vamos combinar que, também no jogo de búzios, de repente a mensagem central pode igualmente ser certa.
Ah, quantas análises de economistas brasileiros resistiriam a um estudante determinado como Herndon?
crossi@uol.com.br