quarta-feira, 29 de maio de 2013

Delfim Netto

folha de são paulo
Relação de troca
Uma variável importante que não influi na produ- ção física do PIB, mas que afeta a renda e o nível de bem- estar da sociedade, é a cha-mada "relação de troca", ou seja, o quociente entre os preços médios das exportações e das importações.
Para simplificar e entender o fato, suponhamos que num momento determinado (ontem) os preços das exportações e das importações fossem tais que uma tonelada de bens físicos exportados comprasse exatamente uma tonelada de bens físicos importados. A relação de troca seria um.
Suponhamos que no momento seguinte (hoje), devido ao aumento da demanda externa global ou a respostas diferentes dos preços à inflação da unidade de medida de valor (dólar), os preços de nossas exportações cresçam 10% e o de nossas importações cresçam 5%. A nova relação de troca seria igual a 1,10 dividido por 1,05, ou seja, 1,05.
Em termos físicos, uma tonelada de nossas exportações compraria agora 1.050 quilos de importações. O setor exportador foi "premiado" com um bônus de 50 quilos de bens importados e viu seu nível de renda aumentado. Não houve qualquer mudança no processo produtivo, mas tudo se passa como se o setor exportador tivesse aumentado a sua produtividade em 5%! É por isso que a relação de troca é um importante determinante da taxa de câmbio real, como comprovam muitos estudos empíricos bem-feitos.
Não é difícil entender, portanto, por que, num "ciclo de aumento da relação de troca", aumenta o nível de bem-estar da sociedade: a renda cresce mais do que o PIB. Nos últimos 40 anos, o Brasil viveu três movimentos notáveis de aumento da sua relação de troca. Seus "picos" foram em 1977, 1997 e 2011. Os ciclos tendem a durar de quatro a cinco anos no desvio para cima da média secular e outros tantos no retorno. Não há, entretanto, qualquer regularidade discernível nesse processo.
O último "ciclo" aparentemente terminou em 2011. Desde então, a relação de troca vem diminuindo, o que significa que o crescimento da renda real tem sido inferior ao crescimento do PIB real. Tudo indica que o fenômeno vai prosseguir pelos próximos três ou quatro anos.
Sua profundidade vai depender do sucesso do governo chinês de reequilibrar a sua economia e manter um ritmo razoável e sustentável de seu crescimento. Isso significa uma mudança estrutural importante: deslocar parte do seu aparato exportador para a produção do consumo doméstico e aumentar as garantias sociais de uma população em crescente processo de urbanização. Não será nada fácil. A China vai ter que "trocar os pneumáticos do seu caminhão com ele andando".
contatodelfimnetto@terra.com.br

    Hambúrgueres de família - Ruy Castro

    folha de são paulo
    Hambúrgueres de família
    RIO DE JANEIRO - Alguém já disse: "Os americanos comem qualquer coisa, desde que venha entre dois pães e pingue". Boa frase, exceto que, hoje, até os povos que se davam ao respeito aderiram à prática de comer carne processada, espremida entre dois pães e asfixiada com ketchup --em pé, num balcão na rua, às pressas e lambuzando mãos, bochechas e gravata (às vezes, pinga também no sapato).
    Ontem foi o Dia do Hambúrguer. Milhões de jovens foram às lanchonetes comemorar, ao passo que, na solidão dos pastos, os rebanhos bovinos não viram motivo para alegria. Os médicos também não --estão apreensivos com o surto de obesidade até em países de gente magra, como a China, provocado pela "junk food", da qual o hambúrguer é símbolo.
    Em outras eras, eu próprio devorei mais hambúrgueres do que seria sensato para um bípede estressado, curvado de responsabilidades e acima do peso. Mas a leitura de um "paper" científico me revelou que um hambúrguer comercial pode conter carne de 200 bois diferentes, de rebanhos também distintos e talvez de vários países. A ideia de que os bois não fossem parentes e podiam nem se conhecer me fez olhar para aquele hambúrguer como a mixórdia mais promíscua que eu podia imaginar. Joguei-o na lixeira e nunca mais comi outro.
    Minto. Comi, sim, mas era o do fotógrafo americano David Zingg, radicado no Brasil. David ia ao açougue, escolhia uma linda peça de filé e mandava moer. Era a garantia de que seus hambúrgueres tinham uma genealogia vacum única. Não satisfeito, o pão era artesanal e o bife, grelhado na frigideira com uma manteiga vinda de Montana, terra do Gary Cooper.
    David queria abrir um restaurante em SP, o United Steaks of America. Mas não achou quem bancasse seus hambúrgueres de boa família, filhos de um pasto sólido e estruturado.

      Fernando Rodrigues

      folha de são paulo
      Bolsa incompetência
      BRASÍLIA - Já foram debelados os boatos sobre o fim do Bolsa Família. Só que o episódio continua obscuro. Serve apenas como um striptease do governo federal.
      A versão oficial do caso flerta com o surrealismo. Alguém do terceiro escalão da Caixa Econômica Federal teria decidido antecipar de uma vez, dia 17 último, todos os pagamentos de maio do Bolsa Família. Coisa na casa de R$ 2 bilhões. É muito dinheiro em qualquer lugar do mundo.
      A decisão não teria sido informada ao presidente da Caixa, o petista Jorge Hereda. Nota-se aí um problema sério de governança. O banco estatal resolve antecipar a liberação de R$ 2 bilhões e o chefe da instituição não sabe de nada. Há três hipóteses a serem investigadas, todas demolidoras para o mito do bom gerenciamento da presidente Dilma Rousseff: 1) Hereda é um incompetente, 2) Hereda mente ao dizer estar por fora do ocorrido e 3) Hereda é incompetente e mente.
      O fato é que, no dia seguinte à liberação antecipada do Bolsa Família, houve um corre-corre de milhares de pessoas tentando sacar os seus benefícios. Quem receberia só no final do mês percebeu que poderia ter acesso mais cedo ao dinheiro.
      Ontem, a Caixa exerceu seu poder de adivinhação. Em carta a congressistas decretou não haver "qualquer relação" entre a antecipação dos pagamentos do Bolsa Família e o subsequente corre-corre. O banco estatal não tem base científica para fazer tal afirmação com 100% de segurança.
      No ano passado, a Caixa torrou R$ 676,5 milhões em propaganda. É a terceira empresa do Brasil que mais gasta em anúncios (sem contar o que despeja em times de futebol). Só perde para Casas Bahia e Unilever.
      Não ocorreu a ninguém na CEF gastar alguns reais para avisar so-bre as mudanças no pagamento do Bolsa Família? Parece que não. Afinal, quando algo dá errado é mais fácil negar o equívoco. Se não funcionar, culpa-se a oposição.
      fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

        Helio Schwartsman

        folha de são paulo
        Brinquedos de meninos
        SÃO PAULO - Hoje eu peço licença para discordar da geralmente ótima Rosely Sayão. Há fortes evidências a sugerir que as preferências de meninos e meninas por brinquedos específicos para cada gênero envolvem mais do que preconceitos, estereótipos e a irresponsabilidade social de fabricantes. Ao que tudo indica, existe uma base biológica para as distintas predileções.
        Para começar, brincadeiras típicas de machos e fêmeas não são uma exclusividade humana. Em 2010, o primatologista Richard Wrangham, de Harvard, ganhou manchetes ao publicar um estudo descrevendo como fêmeas jovens de chimpanzés brincavam com pedaços de pau como se fossem bonecas. Elas chegavam a construir ninhos na floresta para acomodar os gravetos à noite. Machos da mesma idade por vezes topavam brincar de casinha com elas, mas o uso preferencial que davam aos galhos era o de armas simuladas.
        Aparentemente, os níveis de exposição do feto a hormônios respondem ao menos em parte pela predisposição. Em 2009, Bonnie Auyeung e colaboradores mostraram que meninas que estiveram expostas a mais testosterona durante a gravidez tendiam na infância a engajar-se mais em brincadeiras típicas de garotos. No caso de animais não humanos, cientistas foram capazes de mudar o comportamento de jovens manipulando os hormônios fetais.
        E quanto às cores? O rosa para meninas e o azul para meninos. Isso pelo menos é um capricho, uma arbitrariedade cultural que impomos a nossos filhos, certo? Talvez não.
        Estudos com mamíferos revelam que fêmeas preferem cores mais quentes como vermelho e rosa. Em machos não há uma predileção clara. No caso de humanos, esse padrão aparece mesmo quando lidamos com culturas bem distintas, como norte-americanos e chineses.
        A biologia talvez não explique todas as diferenças, mas revela que não somos uma tábula rasa de gênero.
        helio@uol.com.br