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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Pró-mercado - Delfim Netto

folha de são paulo
É preciso estar muito desatento à realidade brasileira para não perceber a profunda mudança de comportamento do governo na política econômica, na tentativa de melhorar as suas relações com o Congresso Nacional e na abertura de um melhor diálogo com os possíveis investidores nos projetos de infraestrutura.
Na política fiscal há explí-cito repúdio a novas alqui-mias e um esforço no sentido de manter o deficit nominal abaixo de 2,5% do PIB e a relação dívida bruta/PIB a- baixo de 60%. Ela ainda é desconfortavelmente "expansiva", contudo não sinaliza qualquer tragédia.
Na política monetária não há (e nunca houve) ameaça de perda de controle da taxa de inflação, que teima em permanecer em torno do limite superior da "meta". Recentemente, entretanto, o Banco Central vem tentando reduzi-la. Recusou a dominância fiscal que aceitou até há pouco e aumentou a taxa de juro real.
As contas externas que produziram um deficit em conta-corrente de quase US$ 250 bilhões entre 2009 e 2013 vão sendo corrigidas endogenamente e trabalham no sentido de aumentar ligeiramente a taxa de crescimento do PIB. Três movimentos na direção correta. Outra mudança tão importante quanto essas ocorreu também nas relações entre os negociadores do governo com o setor privado investidor na infraestrutura.
Na busca da necessária e desejada modicidade tarifária, o insistente "achismo axiomático ideológico" que produziu tanto atraso foi substituído pela flexibilização do diálogo e por um esforço de compreensão dos problemas espinhosos que envolvem todas as concessões de serviços públicos, cercadas no país por regulações irrealistas. Um exemplo paradigmático foi a aceitação de que as licenças ambientais dos projetos devem ser objeto da ação preliminar do governo.
Finalmente, mas não menos significativo, é o recente esforço do Executivo para melhorar suas relações com o Legislativo. Ele está reduzindo as tensões que haviam transformado num cabo de guerra a harmonia que deve prevalecer entre os dois Poderes para o exercício de uma eficiente administração pública. É evidente, por outro lado, um avanço na disposição do governo no sentido "pró-mercado", não "pró-negócio". Assume-se claramente a ênfase na prioridade da competição em lugar da escolha de "campeões".
Tudo isso deve tranquilizar as relações políticas e aumentar a probabilidade de sucesso da política econômica e das concessões de estradas de rodagem, portos e energia, que poderão ser um estímulo ao aumento dos investimentos do setor privado em geral. Será também um fator importante na superação do dramático desânimo que se apropriou da economia nacional.

    quarta-feira, 14 de agosto de 2013

    Delfim Netto

    folha de são paulo
    Mudanças
    Na última semana, alguma coisa se moveu. No campo político, assistimos à redução de dois estresses institucionais que devem trabalhar na direção de diminuir a angústia depressiva que se apropriou da sociedade.
    Primeiro, a presidente tomou a iniciativa do diálogo e diminuiu a tensão entre o Executivo e o Legislativo, que ameaçava tornar-se um cabo de guerra na apreciação de cada projeto e de seus vetos. Segundo, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que pode eventualmente condenar membros do Legislativo, mas que a cassação do mandato obtido na urna deve ser feita pelo Congresso.
    Dois movimentos no sentido do mútuo respeito à independência harmônica dos Poderes da República e, portanto, no sentido da consolidação institucional.
    No campo econômico externo algumas notícias como a aceleração das exportações chinesas e coreanas, e o aumento dos indicadores de compras industriais nos EUA e Europa, parecem dar alento a uma recuperação ainda que lenta da produção. No interno, tem havido uma mudança no comportamento do governo em relação à cooptação do setor privado para competir nas obras de infraestrutura cuja eficácia será testada nos próximos leilões de concessões de rodovias, ferrovias, portos e energia.
    Talvez nada indique melhor a confusão que está levando os agentes econômicos a cultivarem um desânimo devastador do que a sua reação à situação externa mencionada acima. Em resposta ao que pode ser um movimento pontual aleatório das exportações chinesas, a Bovespa subiu 3,12%. Até a ação da OGX-ON subiu 9,25% (infelizmente para R$ 0,50!).
    Isso revela que boa parte do pessimismo é, seguramente, exagerado. É claro que nossa situação não é confortável: crescimento medíocre por falta de investimento público e dificuldade de cooptar o do setor privado; taxa de inflação no teto superior da "meta" e um déficit em conta corrente de mais de 75 bilhões de dólares. Mas deve ser claro, também, que não há qualquer ameaça à estabilidade de nossa economia.
    Recentes mudanças na política econômica: 1º) a melhoria da interlocução do governo e o reconhecimento de que ele deve melhorar a qualidade dos leilões nas concessões; 2º) o reconhecimento de que não há mais espaço para a política fiscal e que empréstimo interno do Tesouro não é recurso, a não ser quando financiado com superavit fiscal; 3º) a nova disposição do Banco Central de buscar a "meta" da inflação num prazo adequado, mas não indefinidamente prorrogável e 4º) Tudo isso e mais a flutuação da taxa de câmbio, que deverá aliviar a indústria, sugerem que estamos nos preparando para melhorar.
    contatodelfimnetto@terra.com.br

      quarta-feira, 31 de julho de 2013

      Primeiro passo - Delfim Netto

      folha de são paulo
      Não são os números econômicos, são as incertezas sobre o futuro que são desconfortáveis. O bom funcionamento da economia depende das expectativas dos agentes e da confiança que eles depositam entre si e no poder incumbente.
      Se os empresários e trabalhadores tiverem muita dúvida sobre o futuro, sobre a natureza das políticas fiscal e monetária e sobre o ativismo regulatório que implicitamente desrespeita contratos, a tendência do crescimento é murchar.
      Os empresários adiarão os seus investimentos porque não creem no governo. Os trabalhadores cuidarão, sob o risco do desemprego, de reduzir seu consumo e saldar suas dívidas, tentando fazer um seguro para ajudá-los a enfrentá-lo. Nas últimas semanas, a incerteza cresceu ainda mais: a "voz das ruas" levou a reações esquizofrênicas do Executivo e do Legislativo, que não tranquilizaram ninguém.
      O fato mais enigmático a ser esclarecido no momento atual é: quais foram os sinais dados por uma administração pragmática e bem-intencionada que levaram o setor privado a tal perplexidade? E, a partir dela, a uma profunda desconfiança sobre quais seriam os reais objetivos do governo?
      A única explicação plausível é que isso tenha sido produzido pelo comportamento voluntarista dos burocratas portadores da "verdade" que fazem a interface das relações entre o governo e o setor privado, particularmente na infraestrutura.
      A preliminar para a volta à normalidade do crescimento é a superação desse mal-estar. O governo e o setor privado têm de reconhecer e corrigir seus erros. O primeiro, deixando claro que é falsa a sua aversão à economia de mercado e ao papel dos preços relativos (e não do voluntarismo) na alocação dos fatores de produção; o segundo, penitenciando-se da sua crença infundada de que o que o governo quer mesmo é o "capitalismo sem lucro" sob seu controle.
      A distância entre o governo e o setor privado cresceu a ponto de começar a comprometer as relações harmoniosas entre o Executivo e o Legislativo, o que aumenta ainda mais o grau de incerteza.
      Não foram até agora bem analisados os possíveis inconvenientes da nova disposição do Congresso de votar em 30 dias os vetos do Executivo. Trata-se de um prazo muito curto para dissolver os entusiasmos irracionais que, às vezes, se apropriam do Legislativo quando pressionado pela "voz dos interesses privados".
      Corremos o risco de ver o voto de cada veto transformar-se num cabo de guerra e, no limite, na judicialização de alguns deles, o que, além de impedir o desenvolvimento do país, o tornará inadministrável.
      Cabe ao Poder Executivo dar o primeiro passo.
      contatodelfimnetto@terra.com.br

        quarta-feira, 24 de julho de 2013

        Credibilidade - Delfim Netto

        folha de são paulo
        O BC tem sido portador de novidades acadêmicas e de sua exploração prática na condução da política econômica.
        Desacorçoado com a alquimia no registro das contas públicas --o que lhe destruiu a credibilidade, tornou irrelevante o conceito de dívida pública líquida/PIB e impede a avaliação até do sentido (positivo ou negativo) da demanda do setor público--, decidiu construir um indicador confiável do "impulso fiscal": o superavit fiscal estrutural (SPE), que leva em conta a flutuação da conjuntura e exige a absoluta moralidade nos registros.
        Não há consenso de como calculá-lo. Uma boa definição pragmática é a formulada pelo competente economista do banco Itaú, Mauricio Oreng: "O SPE é o resultado das contas públicas (antes do pagamento dos juros) ajustado para os ciclos da atividade econômica (medida pelo PIB ou por outras variáveis setoriais'), dos preços dos ativos (matérias-primas, no caso brasileiro) e para operações orçamentárias não recorrentes (i.e., receitas e despesas de caráter temporário)".
        Ela é próxima da definição do BC. Oreng construiu o SPE de 2001 a 2011 num trabalho imperdível --"Brazil's Structural Fiscal Balance" (abril de 2012)-- e o atualizou para 2012 ("Macrovisão", maio de 2013). Por definição, a diferença do SPE entre dois períodos é uma medida do impulso fiscal. Ele foi neutro em 2009, fortemente positivo em 2010 (1,5% do PIB), negativo em 2011 (0,9% do PIB) e positivo em 2012 (0,9% do PIB).
        O BC já utilizou o seu SPE para estabelecer o aumento da taxa Selic para 8,5%, com a informação de que a "pressão fiscal" em 2013 continua positiva. O gráfico abaixo dá uma ideia da resposta, nos modelos utilizados pelo BC, da redução da taxa acumulada de inflação em 12 meses gerada por um aumento de 1% no seu superavit primário estrutural:
        O efeito é retardado e atinge seu maior valor entre o 7º e o 8º trimestre (entre 20 e 24 meses): qualquer coisa parecida com 0,10% e 0,25%.
        Aparentemente, o sinal implícito na ação do BC para recuperar a credibilidade é que, se não houver uma redução da "pressão fiscal", ele continuará a aumentar a Selic até sentir que a "expectativa inflacionária" tenha se reduzido a 4,5%.
        contatodelfimnetto@terra.com.br

          quarta-feira, 17 de julho de 2013

          Milagre - Delfim Netto

          folha de são paulo
          Há muitos anos, quando o Brasil era capaz de humor pedagógico exercido por um inesquecível Chico Anísio, havia uma personagem na escolinha do professor Raimundo que afirmava: "quero um vestido Dior e uma viagem a Paris". O professor então lhe perguntava: "mas se quer por que não tem"? E ela respondia: "me falta só uma coisinha, o dinheiro".
          É essa questão que parece estar na cabeça da "manada irracional" que, segundo o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, levou alguns prefeitos a vaiarem a presidente Dilma Rousseff, depois de terem recebido 15,7 bilhões de reais de repasses para melhorar basicamente os serviços de saúde e 4,7 bilhões para a construção de 135 mil unidades do programa Minha Casa Minha Vida.
          Ela não se alterou, mas não deixou por menos. Disse à manada, "Vocês são prefeitos como eu sou presidenta. Vocês sabem que não tem milagre. Quem falar que tem milagre na gestão pública sabe que não é verdade".
          Foi confortador ouvi-la, porque às vezes o governo e o Congresso parecem transacionar com milagres. O pânico revelado na tumultuada resposta de ambos à "voz das ruas" mostrou que em situação de estresse eles também podem confundir "desejos" com "recursos", com sérias consequências sobre o equilíbrio econômico sem, ao fim, corrigir os desequilíbrios sociais.
          A enfática declaração de Dilma de que não há milagre na gestão resume-se no seguinte: só podem ser distribuídos e utilizados internamente os recursos que foram produzidos (PIB), somados aos eventuais ganhos na relação de troca e ao que tomamos emprestado no exterior, que dependem, respectivamente, da conjuntura e da paciência dos credores.
          Entre 2003 e 2010, a renda interna cresceu mais do que o PIB (4,1%) devido à melhoria da relação de troca. Entre 2011 e 2013, o PIB crescerá talvez, 2,0% (2,5% para 2013) e a renda ainda menos, pela sua inversão. É urgente, portanto, cooptar o Congresso para uma agenda positiva de reformas microeconômicas que aumentem a produtividade total da economia. Descoordenado como está, sua propensão à demagogia nas vésperas da eleição poderá levá-lo a continuar a namorar com "milagres"...
          A volta ao crescimento está ligada à expansão dos investimentos privados em infraestrutura e à maturação das reformas no campo da energia e nos portos. A primeira depende de leilões bem projetados, apoiados em minuciosos "planos de trabalho" que estimulem a competição e determinem a menor taxa de retorno. Isso exige a superação da pretensão de saber que alimenta o amadorismo que os tem dominado. A segunda vai ocorrer em dois ou três anos.
          contatodelfimnetto@terra.com.br

            quarta-feira, 10 de julho de 2013

            Delfim Netto

            folha de são paulo
            Mercados
            O grande problema implícito na organização social em que vivemos está no seguinte:
            1) A história mostra que a utilização dos "mercados" para organizar a produção é resultado de um mecanismo evolutivo. Foi gerado por uma seleção quase natural dos muitos sistemas que os homens experimentaram desde que saíram da África, há 150 mil anos, para combinar uma relativa eficiência na produção de sua subsistência material com o aumento paulatino da liberdade para viver sua vida;
            2) Aprendemos o seguinte: a) que um Estado forte, constitucionalmente limitado e cujo poder incumbente é escolhido pelo sufrágio universal, é fundamental para regular e "civilizar" a organização dos mercados e mantê-los funcionando; b) que, deixados a si mesmos, eles têm uma tendência a impor flutuações cíclicas no nível de emprego; c) que a crença exagerada na eficiência dos mercados financeiros, que são essenciais ao desenvolvimento, leva o sistema produtivo à submissão àqueles e, com tempo suficiente, ao domínio do próprio Estado, como vimos em 1929 e em 2008, o que coloca em grave risco o seu funcionamento.
            O mecanismo de seleção a que nos referimos continua a trabalhar na direção de libertar o homem para viver a sua humanidade, com redução do trabalho necessário à sua subsistência material e dando-lhe a segurança por meio de uma organização social que vai ensaiando como combinar três objetivos não plenamente conciliáveis: maior liberdade individual, maior igualdade de oportunidade e maior eficiência produtiva.
            É importante lembrar que esses três valores estão implícitos na Constituição de 1988. Ela reforçou as instituições, para que realizassem a missão de construir uma organização social que produza maior igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.
            A história sugere também que o mecanismo do ingênuo "socialismo fabiano" de aproximação sucessiva é, talvez, o único capaz de produzi-la, uma vez que as alternativas propostas de substituição voluntarista e forçada da orga-nização social sugerida por cérebros peregrinos provou ser inviável.
            O mundo está no limiar de uma nova e profunda revolução industrial, apoiada em novas tecnologias e no aumento dramático da velocidade de transmissão e acumulação de informação, que vai produzir uma redução do trabalho material e um gigantesco aumento do trabalho intelectual.
            Para o Brasil, que está ficando mais velho sem ter ficado mais rico, as implicações de médio prazo desse processo civilizador precisam ser antecipadas mediante um dramático e apressado aumento da "qualidade" da nossa educação. Ela é essencial para salvar a economia e a democracia.

            quarta-feira, 3 de julho de 2013

            Delfim Netto

            folha de são paulo
            Aço chinês
            Acaba de ser publicado um livro extraordinário, que faz uma exploração cirúrgica no corpo da economia chinesa. Expõe os subsídios que ela tem inteligentemente manipulado sob a miopia da OMC (Organização Mundial do Comércio), para a presidência da qual foi eleito agora um bri- lhante e competente diplomata brasileiro, o embaixador Roberto Azevedo.
            Trata-se do "Subsidies to Chinese Industry", de U.C.V. Haley e G.T. Haley (Oxford University Press). Sua tradução mereceria um estímulo da Confederação Nacional da Indústria, para que todos os brasileiros pudessem conhecer como funcionam os "mercados" inseridos numa estrutura de capitalismo de Estado.
            O livro é o trabalho de uma dupla de detetives que vão juntando as peças de um quebra-cabeça e autopsiando um corpo vivo e vibrante como é a estrutura produtiva chinesa.
            Analisa quatro setores: a indústria do aço, do vidro, do papel e de autopeças. Traz à luz do dia os imensos subsídios escondidos (alguns de características insuspeitadas) que promoveram a expan- são industrial chinesa no comércio exterior.
            Neste "suelto", tentamos apenas abrir o apetite dos leitores interessados em saber por que a nossa indústria siderúrgica patina e sucumbe, amassada pela produção chinesa. E como ela foi amputada das condições isonômicas de competição pela lamentável política econômica executada depois do necessário e bem-sucedido processo de privatização do setor.
            O avanço da produção chinesa de aço foi avassalador: em 1999, antes de sua entrada na OMC, ela representava menos do que 16% da produção mundial; em 2006, menos de 35% e em 2012, quase 50%! Hoje, ela é superior a 700 milhões de toneladas, enquanto a nossa não passou de 35 milhões de toneladas em 2012. O volume dos subsídios (sem falar no câmbio) é gigantesco. Desde aumentos de capital para cobrir prejuízos; empréstimos a taxas de juros muito baixas e que não precisam ser "performados", feitos pelo Banco de Desenvolvimento da China; interferência do governo no custo do trabalho, até no custo da energia.
            Entre 2000 e 2008, eles foram da ordem de 3 bilhões de dólares por ano. É claro que, mesmo sem esses benefícios, a indústria de aço chinesa teria se desenvolvido, mas a uma taxa menor, principalmente se tivesse de submeter-se às condições da OMC.
            É ainda mais claro, entretanto, que ela foi produto de uma decisão política do governo. A China não se tornou o que é, o maior produtor e exportador de aço, por acidente ou porque usou o mercado para aproveitar suas "vantagens comparativas". Foi produto de subsídios, vontade férrea e ação inteligente do governo.

              quarta-feira, 19 de junho de 2013

              Antonio Delfim Netto

              folha de são paulo
              Indexação
              No dia 16/6, a excelente jornalista Raquel Landim, especializada em assuntos econômicos, escreveu nesta Folha um artigo importante, "Obsessão nacional".
              Nele, revela uma das jabuticabas da realidade brasileira: a existência de nada menos que 29 índices construídos por quatro instituições (IBGE, FGV, Fipe e Dieese) para medir no tempo, em setores e no espaço a nossa taxa de inflação. São divulgados nas mais diversas frequências. Até índices diários, exclusivos, pagos à FGV pelos interessados por necessidade de ofício.
              Por incrível que pareça, a lista já está desatualizada: a Ordem dos Economistas do Brasil relançou, no último dia 7, o seu Índice de Custo de Vida da Classe Média (ICVM), que inclui 468 bens e serviços.
              Se a confusão fizesse sentido, poderíamos dizer que o brasileiro é o cidadão mais bem informado e atualizado do mundo sobre a taxa de inflação. Há aqui, entretanto, um problema trágico. Como a taxa de inflação é uma espécie de radiador que dissipa o calor dos atritos produzidos pelo mau uso dos fatores de produção, o desperdício de tempo e recursos para construir essa multiplicidade de medidas é, ele mesmo, uma causa infinitesimal da inflação!
              O artigo chama a atenção para o fato de que, "na Austrália, a inflação é divulgada uma vez a cada três meses". Talvez esta seja uma pequena causa para ajudar a explicar por que lá a taxa de inflação anda às voltas de 2,4% e, no Brasil, ela teima em rodar no limite superior da meta, 6,5%.
              Uma das poucas afirmações seguras sobre a taxa de inflação é a de que a inflação de 2013 será igual à "expectativa" de inflação formada pela sociedade, corrigida, positiva ou negativamente, pela política econômica de 2013.
              No Brasil, há um fator que mexe com as "expectativas" e, fisicamente, liga a inflação de 2013 à de 2012 de forma inexorável: é o mecanismo de indexação informal e formal do qual não fomos capazes de nos livrar, mesmo com o bem-sucedido Plano Real.
              O ilustre e competente professor de econometria da FEA-USP, José Tiacci Kirsten, fez uma análise (ainda não publicada) do novo índice, onde mostra que os bens e serviços indexados representam 36,1% do peso no índice geral. No exercício feito com o mês de maio, 451 dos 468 preços apurados têm alguma forma de indexação (pelo salário mínimo, por sindicatos, pelas administrações públicas, por índices de preços anteriores e "tutti quanti"), o que mostra o pequeno papel do mercado.
              O prof. Kirsten conclui que, no "núcleo duro da inflação, cerca de 90% é representado pelos preços dos bens e serviços indexados, o que gera uma inflação inercial cuja barreira será difícil de transpor".

                quarta-feira, 5 de junho de 2013

                Delfim Netto

                folha de são paulo
                Imaginação
                Os economistas são animais imaginosos. Criam, sem nenhum constrangimento ou remorso, entidades nebulosas como o produto "potencial", a taxa de juro "neutra" ou a taxa de desemprego de "equilíbrio", cuja determinação concreta é mais elusiva do que foi o neutrino.
                Postulado pelo grande físico Wolfgang Pauli, acabou sendo depois detectado. Só que Pauli, mais modesto do que os economistas, mostrou grave arrependimento quando confessou: "Fiz uma coisa terrível. Postulei a existência de uma partícula que não pode ser detectada".
                Felizmente, ele estava ligeiramente errado como se mostrou. Terão os economistas, mais arrogantes do que Pauli, a mesma sorte? Meus botões têm sérias dúvidas.
                É preciso o máximo de cuidado com as consequências inevitáveis do uso de noções nebulosas na política econômica. Agora mesmo sugere-se, como aperfeiçoamento da política fiscal, a utilização de um Orçamento "ciclicamente ajustado", que permitiria avaliar melhor se os gastos do governo expandem ou contraem a demanda global.
                Como o exercício exige o conhecimento do produto "potencial", cuja determinação é altamente duvidosa e manipulável, em lugar de um avanço "científico" da política fiscal talvez estejamos criando espaço para uma política fiscal ainda mais discricionária do que a atual.
                Essa pequena consideração é reforçada pelo movimento crescente de alguns membros do Congresso Nacional que desejam instituir um Orçamento "impositivo", por meio do qual o Executivo não poderia deixar de liberar as suas emendas. É preciso reconhecer que as "vinculações", que são a forma mais ineficiente de administrar uma sociedade dinâmica e cujas necessidades mudam permanentemente, já são quase 90% das dotações orçamentárias. É inegável que isso contribuiria para a autonomia do Poder Legislativo.
                Quem sabe como se manipula a proposta orçamentária do Executivo na Comissão Mista do Orçamento do Congresso Nacional não pode deixar de preocupar-se, porque esse pode ser mais um passo importante na direção do desarranjo fiscal.
                No fundo, a receita estimada pelo Executivo vai sendo ajustada para incorporar as emendas. E a aprovação final do Orçamento depende das chantagens feitas na 25ª hora do último dia do expediente legislativo. O resultado é, em geral, uma peça inservível para a administração pública.
                As duas ideias não parecem, portanto, merecer o apoio da sociedade brasileira. Aliás, elas têm sinais contrários: a primeira pretende dar maior discricionariedade ao Poder Executivo; a segunda, retirar a que lhe resta...

                quarta-feira, 29 de maio de 2013

                Delfim Netto

                folha de são paulo
                Relação de troca
                Uma variável importante que não influi na produ- ção física do PIB, mas que afeta a renda e o nível de bem- estar da sociedade, é a cha-mada "relação de troca", ou seja, o quociente entre os preços médios das exportações e das importações.
                Para simplificar e entender o fato, suponhamos que num momento determinado (ontem) os preços das exportações e das importações fossem tais que uma tonelada de bens físicos exportados comprasse exatamente uma tonelada de bens físicos importados. A relação de troca seria um.
                Suponhamos que no momento seguinte (hoje), devido ao aumento da demanda externa global ou a respostas diferentes dos preços à inflação da unidade de medida de valor (dólar), os preços de nossas exportações cresçam 10% e o de nossas importações cresçam 5%. A nova relação de troca seria igual a 1,10 dividido por 1,05, ou seja, 1,05.
                Em termos físicos, uma tonelada de nossas exportações compraria agora 1.050 quilos de importações. O setor exportador foi "premiado" com um bônus de 50 quilos de bens importados e viu seu nível de renda aumentado. Não houve qualquer mudança no processo produtivo, mas tudo se passa como se o setor exportador tivesse aumentado a sua produtividade em 5%! É por isso que a relação de troca é um importante determinante da taxa de câmbio real, como comprovam muitos estudos empíricos bem-feitos.
                Não é difícil entender, portanto, por que, num "ciclo de aumento da relação de troca", aumenta o nível de bem-estar da sociedade: a renda cresce mais do que o PIB. Nos últimos 40 anos, o Brasil viveu três movimentos notáveis de aumento da sua relação de troca. Seus "picos" foram em 1977, 1997 e 2011. Os ciclos tendem a durar de quatro a cinco anos no desvio para cima da média secular e outros tantos no retorno. Não há, entretanto, qualquer regularidade discernível nesse processo.
                O último "ciclo" aparentemente terminou em 2011. Desde então, a relação de troca vem diminuindo, o que significa que o crescimento da renda real tem sido inferior ao crescimento do PIB real. Tudo indica que o fenômeno vai prosseguir pelos próximos três ou quatro anos.
                Sua profundidade vai depender do sucesso do governo chinês de reequilibrar a sua economia e manter um ritmo razoável e sustentável de seu crescimento. Isso significa uma mudança estrutural importante: deslocar parte do seu aparato exportador para a produção do consumo doméstico e aumentar as garantias sociais de uma população em crescente processo de urbanização. Não será nada fácil. A China vai ter que "trocar os pneumáticos do seu caminhão com ele andando".
                contatodelfimnetto@terra.com.br

                  quarta-feira, 22 de maio de 2013

                  Os fatos - Delfim Netto

                  folha de são paulo

                  Os fatos
                  A presidente tem procurado enfrentar alguns dos nossos velhos problemas estruturais, como a previdência do funcionalismo público; as condições para a redução da taxa real de juros; a redução das tarifas de energia elétrica; as concessões de projetos de infraestrutura à iniciativa privada; a importante desoneração das folhas de pagamento, fundamental para o setor exportador; a redução do aparelhamento político das estatais e das agências reguladoras etc.
                  Tem sido uma batalha dura e o aprendizado lento, mas sempre na direção correta. Frequentemente, entretanto, a comunicação defeituosa gera um clima pouco amistoso que aumenta o ruído no curto prazo.
                  O importante é que as soluções vão maturar e, num prazo de dois ou três anos, seus efeitos sobre a produtivida- de da economia nacional serão sentidos.
                  Não há dúvida de que "sinais vitais" da conjuntura ainda são perturbadores. Há incertezas exageradas do setor privado sobre a política fiscal, sugestões extravagantes sobre a política monetária e preocupações justificadas sobre o futuro da indústria nacional dizimada por uma política cambial descuidada e pela falta de "aggiornamento" da política para o setor.
                  Tudo isso --afirma-se-- parece ter diminuído o apetite do capital estrangeiro de participar nos grandes projetos de desenvolvimento nacional e pode tornar desconfortável o financiamento do imenso deficit em transações correntes que vimos acumulando. Há aqui também, na nossa opinião, um evidente exagero por parte do setor financeiro.
                  Senão, como conciliar a dimensão dessas dúvidas com a recente ação concreta do capital estrangeiro? Primeiro, como explicar o tremendo sucesso do espetacular financiamento obtido justamente pela Petrobras que praticamente construiu uma "curva de juros"? É verdade que agora alguns analistas mudaram de posição: não é mais a falta de recursos da empresa, mas o nível de seu endividamento (que eles mesmos financiaram!) que é a nova preocupação... Segundo, como explicar a resposta do mercado ao lançamento do Banco do Brasil? E, finalmente, como negar o sucesso da 11ª licitação de blocos exploratórios de petróleo e gás, feito pela Agência Nacional do Petróleo, que arrecadou quase R$ 3 bilhões em bônus de assinatura de 142 blocos numa área equivalente a 100 mil quilômetros quadrados, depois de cinco anos de espera?
                  O último fato é mais do que relevante. Mostra como funcionou bem o regime de concessão construído no passado, o que sugere que talvez haja oportunidade para revermos algumas tarefas exageradas impostas à Petrobras no momento da euforia exagerada.

                    quarta-feira, 15 de maio de 2013

                    Delfim Netto

                    folha de são paulo

                    Indústria
                    Infelizmente foi preciso que o crescimento da produção industrial do Brasil em 2012 fosse talvez o menor do mundo, para que se transformasse num "problema" para boa parte da academia, dos analistas financeiros com pouca familiaridade com a economia real e, finalmente, para o próprio governo.
                    As razões são múltiplas. A principal é que há muito tempo bifurcamos os estímulos internos à nossa indústria, originalmente destinados a transformar o país numa base exportadora, em favor de uma enganosa e míope política de estabilização monetária transformada num fim em si mesmo e, por isso mesmo, nunca alcançado.
                    É claro que não se discute a extraordinária concepção e execução inicial do chamado Plano Real. Ele, aliás, até hoje não terminou, pela indisposição dos poderes incumbentes de realizarem o ajuste fiscal esperado desde 1995. Nem a imperiosa necessidade de ainda fazê-lo! Não esqueçamos que entre 1996-2002 a taxa média de inflação foi de 7,37% ao ano, a taxa de crescimento do PIB foi medíocre, 2,01%, e registramos uma queda de nossas exportações com relação às mundiais de 25% (de 1,2% para 0,9%).
                    Visto com a objetividade que só o tempo proporciona e medido com relação a programas similares adotados em outros países, o Plano Real, brilhante na sua concepção, talvez terá sido pela sua incompletude, o socialmente mais custoso.
                    Alguns poucos economistas teimosos têm discutido a taxa de câmbio desde 1995. Agora que todos parecem fazê-lo, é preciso dizer que ela é muito importante, mas não é tudo.
                    O Brasil precisa de mudança radical na sua política industrial que leve em conta a revolução tecnológica que o mundo está vivendo e seus efeitos sobre a natureza dos bens comercializáveis e da mudança de estrutura do comércio mundial. A boa notícia é que é isso que tem sido sugerido pelo o ilustre ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel.
                    A política industrial horizontal exige: 1º) uma revisão imediata, completa e inteligente do sistema de tarifas efetivas que hoje está de pernas para o ar e que permita uma competição livre e honesta com as importações; 2º) uma taxa de câmbio relativamente subvalorizada e 3º) um eficiente sistema de crédito apoiado no desenvolvimento do mercado de capitais e que dispense o apoio universal do BNDES. Como é óbvio, a taxa de câmbio relativamente desvalorizada exigirá, por sua vez, uma coordenação fina e clara entre as políticas fiscal, monetária e cambial.
                    Agora que se reconhece o problema, podemos, talvez, começar a dar-lhe solução, tarefa que exigirá coragem, paciência e competência.
                    ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.
                    contatodelfimnetto@terra.com.br

                      quarta-feira, 8 de maio de 2013

                      Delfim Netto

                      folha de são paulo

                      Tragédia
                      A recente redução das perspectivas de crescimento do PIB de 2013 (que começou em torno de 4% e já anda em torno de 3%, com viés de baixa) deve-se, essencialmente, à pequena resposta da demanda da produção industrial nacional aos enormes estímulos fiscais, monetários, creditícios e subsídios que lhe têm sido concedidos.
                      Em outras palavras, o estímulo à demanda nacional "vaza" para a indústria estrangeira em lugar de ser suprida pela indústria nacional. Esse é um fenômeno geral, como prova o crescente saldo negativo do nosso balanço de transações correntes. E é fenômeno relativamente recente, como se vê no gráfico abaixo.
                      Nele se registram o crescimento das vendas do comércio varejista e o crescimento da indústria de transformação com relação ao triênio anterior no período 2004-2006 e 2010-2012.
                      A diferença dá uma ideia do aumento da penetração da oferta estrangeira. Vemos que em 2004-2006 (com referência a 2003-2005) as vendas do varejo cresceram praticamente à mesma taxa da produção industrial, 12,0% e 11,5%, respectivamente. No período 2010-2012 (com referência a 2007-2009), o varejo cresceu 27,2% e a indústria nacional 5,1%, revelando o "vazamento" da demanda interna para a oferta externa.
                      Notemos que a diferença entre os dois períodos é de apenas seis anos. Neles, de exportadores de produtos de linha branca, de vestuário, de bicicletas, de automóveis etc. transformamo-nos em importadores. Hoje nossas fábricas pedem recuperação industrial porque não têm como enfrentar a desleal concorrência externa (China, Índia, Taiwan, Coreia, México, Bangladesh e outros).
                      Há muitas explicações e múltiplas causas para isso. As mais importantes, entretanto, são duas: 1ª) destruímos o nosso sistema de tarifas efetivas protegendo os setores de insumos básicos e 2ª) produzimos uma violenta valorização do câmbio pelo aumento do salário nominal muito acima da taxa de câmbio nominal.

                        quarta-feira, 1 de maio de 2013

                        Delfim Netto

                        folha de são paulo

                        Selic
                        O Brasil, obviamente, não se encontra às vésperas de uma hiperinflação como às vezes parecem sugerir analistas mais afoitos. A taxa de inflação namora com o desconfortável nível de 5% a 6% ao ano, mas é evidente que ela não está "fora de controle".
                        O desconforto pode ser apreciado na tabela abaixo, que revela a taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses dos 41 países acompanhados pelo "Economic and Financial Indicators" da "The Economist":
                        A tabela exclui a Argentina, onde nem o governo sabe qual é a inflação, e a Venezuela, onde ela é maior do que 30%. De qualquer forma nossa companhia é pouco recomendável: Índia (9,4%); Paquistão (6,6%); Rússia (7%) e Turquia (7%).
                        À espera do suporte, prometido pelo governo, que não veio (redução da demanda pública e regulação do mercado de trabalho), e à vista das incertezas que habitam o mundo, o Banco Central tem tido "paciência" e "cautela" com o único instrumento horizontal de que dispõe: a manobra da taxa real de juros. E por boas razões, pois ele vem de um processo de redução dessa taxa para introduzir uma política monetária civilizada que realizará seu trabalho com custos sociais mais aceitáveis.
                        Paradoxalmente, diante da alta da Selic para 7,5%, da ata do Copom e dos "esclarecimentos" de dois competentes diretores do BC, aumentou o "ruído" sobre a política monetária. O BC --a despeito do que dizem seus críticos-- sempre afirmou que manobraria o juro real "se e quando julgasse necessário". Agora cumpriu a sua palavra e mostrou que pode fazê-lo.
                        Confirma-se, assim, que a crítica do sistema financeiro de que "o BC não teria autonomia" era descabida: produto não de fatos, mas de sua interpretação. Isso deveria levá-lo a reavaliar a "credibilidade" do BC e reconhecer que a diferença de perspectiva e de informação empírica entre ele e o "mercado" é plenamente justificada diante das incertezas da economia nacional e internacional.
                        O que parece seguro é que a manobra da Selic (e a ideia de que ela vai continuar) deverá ter algum papel para corrigir a deterioração mais recente das "expectativas" e consolidar a possibilidade de redução da taxa de inflação no segundo semestre. Mas, sem uma ajuda da política fiscal e sem uma moderação dos aumentos nominais de salário acima da produtividade do trabalho, é pouco provável que muito mais aconteça.

                        quarta-feira, 24 de abril de 2013

                        Delfim Netto

                        folha de são paulo

                        O câmbio
                        Quando em 2010 o ministro Mantega usou a expressão "guerra cambial", para caracterizar a consequência não intencional da política de afrouxamento monetário dos bancos centrais dos países desenvolvidos, foi submetido a um impiedoso ataque dos sacerdotes que se supõem os guardiões da "verdadeira" teoria econômica com relação à qual, aliás, diziam que ele teria pouca familiaridade...
                        Assistimos a um festival externo e interno de obviedades e cinismo. Ben Bernanke, do Fed, declarou que o valor do dólar americano flutuava "ao sabor do mercado" e que nunca fora objeto de preocupação explícita da política econômica dos EUA. Mario Draghi, do Banco Central Europeu, disse quase a mesma coisa. Revelou que o valor do euro era sim uma preocupação da política econômica da Comunidade Europeia, mas não era seu objeto.
                        As respostas ignoravam o problema levantado pelo ministro brasileiro. Ele nunca afirmou que havia uma política explícita de desvalorização das moedas. O que ele afirmou, e afinal verificou-se que é verdade, é que, mesmo não tendo essa intenção, a política monetária que expande a liquidez para combater a recessão produz aquele efeito colateral. E o que importa é o efeito da medida, não a sua intencionalidade.
                        Pois bem. Um recente e competente trabalho dos economistas Reuven Glick e Sylvain Leduc ("Unconventional Monetary Policy and the Dollar", abril, 2013), do Federal Reserve Bank de San Francisco, concluiu que, "mesmo quando o Fed não objetiva o dólar, o anúncio de mudanças na política monetária pode alterar o seu valor. Antes da crise financeira de 2007-2009, o valor do dólar costumava cair quando o Fed reduzia taxa básica ("federal funds"). Desde a crise, os anúncios da expansão monetária, através de mecanismos não convencionais (o "monetary easing"), têm tido efeito semelhante no valor do dólar".
                        O trabalho mostra que as "surpresas" produzidas pelo aumento da liquidez que resulta da política monetária laxista têm um efeito substancial sobre o valor do dólar. "De fato --conclui o artigo--, um afrouxamento monetário não esperado que reduz em 1% a taxa de juros dos bônus do Tesouro de longo prazo, produz, em 30 minutos, um declínio de 3% do valor efetivo do dólar".
                        Como todo trabalho econométrico, este também espera contestação. Enquanto ela não vier temos de nos render ao fato de que o ministro tinha alguma razão.
                        Isso mostra como é ilusória a ideia que, em algum lugar ou em algum tempo, tenha existido um sistema de câmbio livremente flutuante, independente das políticas fiscal e monetária.

                          quarta-feira, 17 de abril de 2013

                          Abstrações - Delfim Netto

                          folha de são paulo

                          Em cada mercado particular, no de tomate, por exemplo, os preços variam em função das características da demanda e da oferta.
                          Do lado da demanda, ela é condicionada por hábitos culturalmente determina- dos (as donas de casa têm dificuldade de substituí-los nas receitas que aprenderam com suas avós).
                          Dizemos, então, que ela é inelástica em relação aos preços. Em outras palavras: é preciso um exorbitante aumento dos preços para demovê-las de usar tomate.
                          Do lado da oferta, ela é fixa no curto prazo (depende da área plantada há 90 dias em resposta aos estímulos recebidos dos preços no momento do plantio).
                          Se há um problema climático ou uma doença na lavoura que reduzam dramaticamente a quantidade ofertada (que só pode ser aumentada em 90 dias), o equilíbrio entre a oferta e a procura no curto prazo exige um dramático aumento do preço. Isso não é inflação. É um ajuste de preço relativo, que cortará a demanda de tomate para ajustá-la ao nível da oferta.
                          Já o processo inflacioná- rio, por sua vez, revela um desequilíbrio simultâneo e persistente em todos os mercados, que é corrigido por um contínuo e generaliza- do aumento de todos os preços nominais.
                          Para medi-lo, constrói- se uma média de todos os preços ponderados de acor- do com a quantidade con- sumida de cada bem ou ser- viço num momento toma- do como base.
                          O resultado é um "preço" abstrato, o Índice Nacio- nal de Preços ao Consumi- dor Amplo, o IPCA. A taxa de inflação é medida pela magnitude da variação do Índice Nacional de Preços ao Con- sumidor Amplo entre dois momentos convenientemen- te escolhidos.
                          A existência de um preço "abstrato" --o IPCA-- sugere que ele próprio possa ser considerado como o de "equilíbrio" entre abstratas "oferta" e "demanda" globais, mas que não serão independentes entre si como no caso do mercado de tomates.
                          Já ensinava o grande eco-nomista inglês Alfred Marshall, no século 19, que é tão impossível separar os efeitos da oferta e da procu- ra na formação do preço quanto é saber "qual das duas lâminas da tesoura corta a folha de papel".
                          Talvez seja por isso que tanto podemos ter uma inflação de "demanda" quando o Produto Interno Bruto está acima do seu "potencial", quanto uma inflação de "custo" quando o Produto Inter- no Bruto está abaixo dele, devido a importantes choques de oferta ou de aumentos do salário nominal acima da produtividade do trabalho.

                            quarta-feira, 10 de abril de 2013

                            Inquietação - Antonio Delfim Netto

                            folha de são paulo

                            O aumento da inquietação em relação às perspectivas da taxa de inflação é percebido pela sociedade, segundo pesquisa do Datafolha. Menos da metade dos entrevistados esperava que a taxa permanecesse a mesma ou diminuísse.
                            Isso é preocupante, porque análises empíricas sugerem que a taxa de inflação do ano corrente é explicada pela taxa do ano passado e pela "expectativa" da própria inflação -que é muito influenciada pelo aumento dos salários reais acima da produtividade do trabalho, como temos tido há anos.
                            Quando não corrigida por algum fator, por exemplo, um aumento do juro real que
                            leva a uma alta do desemprego e a uma moderação salarial, ela tende a assumir sua própria dinâmica, e o custo social para controlá-la aumenta exponencialmente.
                            O Brasil concebeu um engenhoso programa de estabilização -o Plano Real- depois de quatro ou cinco tentativas frustradas. Mas, desde sua implementação, em 1994, nunca tivemos sucesso na conquista de uma taxa de inflação realmente civilizada (em torno de 2% ou 3%) e nunca reconquistamos o dinamismo de crescimento (em torno de 5%).
                            A tabela abaixo, na qual se mostra a inflação e o crescimento, revela isso:
                            A grande verdade é que, depois da esplêndida vitória inicial, evitamos atacar com a energia necessária os gargalos institucionais, que reduzem a eficácia alocativa dos mercados quando não são realmente competitivos, e os estruturais, pelo abandono dos investimentos em infraestrutura, o que gera atritos que são dissipados em maior taxa de inflação.
                            De 1995 a 2012, a nossa taxa média de inflação foi da ordem de 7,4%, e o crescimento do PIB per capita, da ordem de 1,8%, resultados que estão longe de ser satisfatórios. É preciso reconhecer que fomos, a pouco e pouco, melhorando a inserção social e aumentando a igualdade de oportunidades, que são fatores civilizatórios, mas isso poderia ter sido ainda melhor com um crescimento do PIB per capita mais robusto e com uma inflação menor. É preciso dar maior atenção a esse problema, porque a paciência dos agentes econômicos com uma inflação tão alta e tão persistente, num período tão longo, está se esgotando.
                            A dramática experiência escondida em nosso subconsciente acabará acordando o remédio fácil e enganador de aumentar a indexação das rendas dos agentes.

                              quarta-feira, 3 de abril de 2013

                              Antonio Delfim Netto

                              folha de são paulo

                              Decimais
                              Terminamos o primeiro trimestre de 2013 sem que nada tenha acontecido, a não ser um aumento do ruído que atrapalha o avanço das importantes medidas institucionais e estruturais que o governo tenta implementar.
                              Não se trata de problema de comunicação, mas de execução. Graças a isso, as significativas propostas, que, no prazo médio, acelerarão o desenvolvimento pelo aumento da produtividade, são vistas apenas como "ativismo" tresloucado. Trata-se, obviamente, de um equívoco.
                              É inútil, porém, tentar corrigi-lo com palavrório ou exortação moral, pois há alguns sinais objetivos de que é daquela forma que nos veem, interna e externamente, os agentes econômicos, revelados no recente comportamento dos "credit default swaps" (CDS), da Bolsa e das perspectivas dos investimentos privados.
                              Como afirma o famoso teorema de Thomas, "se os agentes definem suas circunstâncias como reais, então elas serão reais nas suas consequências". O governo precisa, portanto, demonstrar, por atos e fatos, que não aceita o capitalismo de "compadres" e sua política "pró-negócios". Que sua política é "pró-mercados" fortemente competitivos e regulados constitucionalmente.
                              A primeira medida para mudar o quadro e salvar os três quartos de 2013 que ainda nos restam é destravar o "investimento" público por meio de leilões projetados por profissionais competentes, nos quais o poder incumbente fixa cuidadosa e transparentemente o que exigirá dos concessionários, estimula a competição e aceita a taxa de retorno oferecida pelo vencedor. É pouco provável que competidores sérios e capazes acreditem ou sejam seduzidos por subsídios creditícios e garantias financeiras que engordarão o deficit público dos futuros governos...
                              Nas condições atuais, a medida sugerida parece, infelizmente, de difícil realização, por dois motivos.
                              Primeiro, porque é impossível produzir um leilão realmente eficiente sem que os pretendentes à concessão sejam obrigados a apresentar minucioso "plano de negócio" que especifique as etapas, os procedimentos e as prováveis emergências da obra. Sem isso, não há o que cobrar do vencedor. Chega a ser ridículo sugerir que tais planos sejam analisados e assegurados por uma instituição financeira.
                              Segundo, porque cinco iluminados brasilienses criaram a seguinte dificuldade: a nota nº 663/2012/STN/SEAE/MF (17/8/12), que pretere o bom-senso. Ela fixa a divina taxa de retorno das rodovias em 5,50%. Trata-se de um "afugentador" de investidores, com a "precisão" de duas casas decimais...

                                quarta-feira, 27 de março de 2013

                                Antonio Delfim Netto

                                folha de são paulo

                                Empregabilidade
                                Nos dias 20 e 21 de março deste ano, o Datafolha ouviu 2.653 pessoas escolhidas dentro do seu conjunto amostral. A margem de erro é de mais ou menos 2%. Os resultados sugerem uma profunda divergência cognitiva entre os beneficiados pela inclusão social no governo Dilma e os agentes do investimento, que devem produzir o aumento da oferta para atender àquela inclusão.
                                Sem a redução dessa divergência, o atual estado de graça da sociedade caminhará para dificuldades crescentes devido à impossibilidade de violar uma lei física: só se pode distribuir o que já foi produzido! No fundo, é o atendimento da demanda de bens e serviços sociais, gerada pelo aumento da renda do trabalho e pelas transferências de renda, que garante a aprovação de 65% ao governo Dilma. Mas ele só pode ser feito permanentemente pela resposta positiva dos 7% que o condenam como ruim ou péssimo. Em outros termos, pelos investidores privados que aumentam a oferta.
                                A boa notícia é que a compreensão dessas limitações parece orientar o governo. Suas intervenções (que, no curto prazo, parecem hiperativismo tumultuado) vão maturar no médio prazo. Vão destravar os investimentos e produzir um aumento da produtividade total dos fatores.
                                O Datafolha revela outros aspectos da dissonância nas interpretações da situação econômica nos boletins das instituições financeiras. Estes sugerem que o país está à beira da estagflação, enquanto 76% dos entrevistados achavam, na terceira semana de março, que ele é ótimo ou bom para se viver; 85% acreditavam que a situação econômica do Brasil vai ficar como está ou melhorar; 77% que o poder de compra dos salários vai permanecer ou melhorar; e 64% responderam que o nível de desemprego ficará o mesmo ou diminuirá.
                                Onde a dissonância parece diminuir é no resultado do Datafolha sobre o que esperam da taxa de inflação: apenas 49% creem que ela vai ficar onde está ou vai diminuir.
                                Aqui, seguramente, o governo tem um problema complexo que muitos economistas creem ter solução simples: "aumentar a taxa de juros real e gerar desemprego!". Mas, como afirmaram Mauro Paulino e Alessandro Janoni, do Datafolha ("Poder", 24/3), "a base da sensação de bem-estar não se resume à perspectiva de mobilidade social, inclusão no mercado consumidor ou acesso a políticas sociais", mas à mudança contundente do "sentimento de empregabilidade do brasileiro".
                                A pesquisa mostrou que 75% dos entrevistados não sentem que correm risco de demissão e 59% não creem que tenham a possibilidade de ficar sem emprego. A solução do problema inflacionário é mais trabalhosa: exige mais inteligência, mais paciência e o ataque com vigor das ineficiências do mercado de trabalho.

                                  quarta-feira, 20 de março de 2013

                                  Antonio Delfim Netto

                                  folha de são paulo

                                  IDH
                                  O famoso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), publicado anualmente pela ONU, tenta medir um fenômeno metafísico: a "qualidade de vida" de cada país em relação a todos os outros. E o faz por meio de um indicador imaginoso que varia de 0 a 1, mas manipula apenas três indicadores: nível de renda, educação e saúde.
                                  O problema é que o IDH incorpora indicadores defasados para poder comparar a situação dos países (hoje, 187) com a plena disponibilidade dos elementos estatísticos necessários. Isso prejudicaria o Brasil, porque a qualidade e a disponibilidade de nossos dados são melhores. É o caso, por exemplo, dos números da educação: para "uniformizar" os dados dos 187 países, o IDH foi construído com os números de 2005, o que deixa de medir os substanciais progressos que vimos obtendo desde então.
                                  No relatório, ocupamos o 85º lugar, o mesmo do ano anterior, com IDH de 0,730. A Noruega ocupa o 1º, com o índice de 0,955. A crítica é obviamente pertinente. É reconhecida, aliás, no próprio relatório "Ascensão do Sul - Progresso Humano em um Mundo Diverso", produzido pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), que se desdobra em cuidados e elogios à política social do governo do Brasil (citado mais de uma centena de vezes).
                                  Antecipando-a, o relatório faz uma simulação irrelevante: qual seria nossa posição se tivesse utilizado os números mais recentes da educação? O IDH seria de 0,754 e o país passaria ao 69º posto no indicador. Mas essa é uma hipótese absurda: supõe que os outros 186 países não tivessem feito progressos desde 2005.
                                  A realidade é que o Índice de Bem-Estar Social, imaginado pelo economista e filósofo Amartya Sen, visto abaixo, mostra que melhoramos. O IDH apenas sugere que os outros também melhoram...