sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ruy Castro

folha de são paulo
Santa exclamação
RIO DE JANEIRO - Um seriado de TV, "Batman", de fins dos anos 60, marcou época. Era um glorioso deboche, meio "thriller", meio chanchada. Cesar Romero fazia o Coringa; Frank Gorshin, o Charada; Burgess Meredith, o Pinguim. Cada episódio era uma festa de astros convidados. E, quando Batman e Robin lutavam a socos com os bandidos, os ruídos, "Sock!! Pow!! Crash!!", piscavam na tela em letras psicodélicas e coloridas --cores de que não se sentia falta em nossos aparelhos em PB.
Mas o grande sucesso da série eram as exclamações de espanto de Robin (Burt Ward, dublado): "Santa barbaridade, Batman!", "Santo buraco na rosca!", "Santos ratos na ratoeira!" --sem nenhuma relação com a coisa mencionada. Em inglês, era o mesmo nonsense: "Holy flypaper!" (Santo papel pega-mosca!), "Holy here we go again!" (Santo, lá vamos nós de novo!), "Holy mashed potatoes!" (Santo purê de batata!) etc. Robin usou 347 exclamações diferentes nas três temporadas da série.
Todas elas, por mais absurdas, eram apenas variantes de "Holy Christ!" (Santo Deus!) e "Holy Mary!" (Santa Maria!) --que os jovens dos EUA eram ensinados a não dizer porque seria usar os santos nomes em vão. Daí, eles as substituíram por "Holy cats!" e "Holy mackerel!", que soavam parecido e não caracterizavam blasfêmia --e, aos poucos, foram enriquecendo o vernáculo com "Holy smoke!", "Holy cow!" e outras bem cabeludas.
No Brasil, onde até os ateus se valem do "Minha nossa [Senhora]!" ou do "Graças a Deus!" sem maldade ou segundas intenções --eu, por exemplo--, os verdadeiros equivalentes para as exclamações de Robin seriam "Caramba!", "Putzgrila!" ou, no caso de radicalizar, o velho e confiável "P.q.p.!".
Apenas para lembrar que, por esses dias, se você se vir diante do papa numa rua do Rio, refreie sua exclamação. Use o sistema do Robin.

    Eliane Cantanhêde

    folha de são paulo
    Vencemos para isso?
    BRASÍLIA - Na chegada, o carro do papa Francisco espremido entre táxis e ônibus, num baita engarrafamento na avenida Presidente Vargas, centro do Rio, enquanto na larga pista ao lado, interditada, não se via uma única bicicleta. Um vexame inexplicável.
    Logo mais, no Palácio Guanabara, a presidente Dilma, em vez de um singelo discurso de boas-vindas ao papa, puxou e leu um discurso maior do que o da grande estrela do evento. Faltou "semancol".
    Na mesma noite, enquanto o mundo queria saber a quantas andava o papa no Brasil, o que se via era uma guerra campal entre policiais, vândalos e infiltrados de toda ordem. Uma violência vergonhosa.
    No dia seguinte, milhares de repórteres do mundo inteiro se esfalfavam para registrar os preparativos do grande evento, enquanto cariocas e não cariocas amargavam horas de pane no metrô da cidade anfitriã. Competência zero.
    Ontem, com tudo vistoriado e checado, veio a grande conclusão: impossível fazer a missa de encerramento em Guaratiba, no Rio. O local virou um mar de lama às vésperas do "gran finale". A culpa é só da chuva?
    Em meio a tudo isso, as notícias domésticas nos governos e na mídia são desanimadoras: rombo histórico nas contas externas, emprego desacelerando, arrecadação devagar, quase parando. Os brasileiros gastaram mais de US$ 12 bilhões lá fora no primeiro semestre, e os estrangeiros gastaram aqui menos em junho de 2013 do que em junho de 2012 --apesar da Copa das Confederações. O paraíso evapora.
    Segundo o "New York Times", houve "tensão, erros e protestos (contra Sérgio Cabral)" durante a visita do papa. E o "Chicago Sun-Times", da cidade derrotada pelo Rio para a Olimpíada, indaga, provocativo: "Perdemos para isso?".
    Quando dão certo, papa, Copa e Olimpíada são alavancas eleitorais poderosas. Quando dão errado, o efeito é proporcionalmente inverso.

      Uma era secular - Helio Schwartsman

      folha de são paulo
      SÃO PAULO - A pesquisa Datafolha feita às vésperas da chegada do papa ao Brasil mostra que os católicos estão se tornando menos numerosos, menos fiéis (vão pouco a missas) e menos obedientes (são tolerantes para com temas que o Vaticano considera tabu). Este é, se quisermos, um retrato quase perfeito do secularismo, o processo de transformação religiosa que é a marca do Ocidente nos últimos 500 anos.
      Um dos bons livros que peguei nestas férias é "A Secular Age" (uma era secular), do filósofo Charles Taylor. Ainda não terminei as quase 900 páginas da obra, escrita num estilo acadêmico que não é exatamente cativante, mas já li o bastante para perceber que se trata de um texto capital. Um de seus principais méritos é mostrar que a narrativa-padrão, segundo a qual o avanço das ciências foi empurrando a religião para as margens da sociedade, tem mais buracos do que um queijo suíço.
      Em seu lugar, o autor apresenta uma história bem mais rica e complexa, na qual o Iluminismo teve um papel, mas menos determinante do que se apregoa. Tão ou mais importantes foram a Reforma, o desencantamento do mundo (a magia perdeu credibilidade) e o advento do deísmo, no qual a religião das Escrituras cedeu espaço para um Deus impessoal deduzido da natureza pela razão.
      Segundo Taylor, tudo isso somado e outras coisas mais acabaram resultando numa revolução cognitiva que permitiu que passássemos de um registro em que era virtualmente impossível não acreditar em Deus, por volta de 1500, para um em que fazê-lo não só é fácil como até inescapável. Hoje, no Ocidente, seguir ou não uma fé se tornou uma entre muitas possibilidades de escolha individual.
      Taylor é católico praticante, mas não sei se sua obra, em que pese a tentativa de preservar espaço e sentido para a religião, agrada muito ao Vaticano. Ela, afinal, consagra a ideia de supermercado da fé que a Igreja Católica tanto combate.

      Editoriais FolhaSP - Charge

      folha de são paulo
      Drogas, sem metafísica
      Afirmações de papa Francisco sobre entorpecentes, embora legítimas, pouco contribuem para um debate que deve se manter livre de preconceitos
      O papa Francisco tem razão ao afirmar que uma política de drogas mais flexível, como se discute em várias partes da América Latina, não vai resolver o problema da dependência química. O debate sobre o tema, contudo, está longe de se esgotar nessa afirmação um tanto evidente e simplista.
      A ideia por trás da legalização das drogas ou da despenalização de seu uso é a de não acrescentar à longa lista de provações que o dependente já enfrenta atribulações com a polícia, processos judiciais e a possibilidade de encarceramento. O usuário deve ser visto como matéria de saúde pública, e não de segurança.
      Se o sumo pontífice acerta parcialmente no diagnóstico, a terapêutica que propõe padece de ingenuidade. É pouco crível imaginar que as dificuldades impostas pelo vício em drogas sejam resolvidas "educando os jovens para os valores que constroem a vida comum", como afirmou Francisco.
      A verdade é um pouco mais trágica. Pelo menos no atual estado da arte, o problema não tem resposta no que diz respeito à dependência. Ela é uma decorrência da arquitetura neuroquímica humana, sujeita a experimentar prazer, aprender e lembrar. Campanhas de esclarecimento são desejáveis, mas elas não encerram a questão.
      A pior contribuição do papa a esse debate, contudo, não está nas soluções simplistas que propõe. O abuso de metáforas hiperbólicas, que contrapõem bem e mal absolutos, apenas turva uma discussão que deveria ser tão serena e livre de preconceitos quanto possível.
      Não faz sentido qualificar indistintamente todos os traficantes como "mercadores da morte", como fez Francisco. Boa parte da rede de distribuição de drogas é composta por dependentes que se apropriam de parcela do produto repassado a outros usuários para poder sustentar o próprio vício.
      Quanto a esse ponto, o combate às drogas ilegais deve ser centrado nas principais rotas e nas grandes estruturas do narcotráfico.
      Ninguém espera que o papa se torne um defensor de experimentações lisérgicas e de outras manifestações do hedonismo contemporâneo. Como líder de uma instituição milenar, ele tem um compromisso com a tradição e, por que não dizê-lo, com o conservadorismo. Suas opiniões são legítimas e merecem ser escutadas, embora pouco ajudem a esclarecer o tema de uma perspectiva técnica.
      Francisco acerta, por exemplo, ao captar a insatisfação brasileira exposta na recente onda de protestos e se manifestar sobre a corrupção. O tema, porém, é consensual e acomoda com facilidade argumentos metafísicos. Não é o caso da discussão sobre as drogas.
        Eleição no Mali
        Ocupado por forças de paz da ONU e por militares franceses, o Mali promove neste domingo eleições presidenciais, na expectativa de que o retorno à rotina democrática e à ordem constitucional ponha termo à escalada de conflitos verificada nos últimos dois anos.
        O sucesso da disputa eleitoral, porém, está sob risco. Na semana passada, grupos terroristas sequestraram pessoas que trabalhavam na organização do pleito, o que aumentou temores quanto à segurança do processo. Além disso, com 500 mil pessoas desabrigadas no país, não é pequeno o desafio logístico para computar esses votos.
        O país africano vive situação adversa desde 2011, quando se intensificaram rebeliões de tribos nômades. Em março de 2012, militares depuseram o regime democraticamente eleito e abriram espaço para um governo civil de transição.
        Grupos armados de orientação islâmica, filiados à rede terrorista Al Qaeda, se beneficiaram do clima de instabilidade e passaram a controlar regiões ao norte do Mali.
        Com um Exército nacional fragilizado, o país sofreu no início deste ano uma intervenção militar comandada pela França. A operação conteve os avanços rebeldes rumo à capital e retomou a ordem nas principais cidades, mas não impediu que os grupos continuassem a atuar no território malinês.
        A estabilidade no oeste da África é questão relevante para a Europa, que não deseja ver um país geograficamente próximo sofrer rotineiros ataques de radicais islâmicos. O Mali, em particular, é grande produtor de ouro e vizinho de países com importância estratégica. É o caso do Níger, com reservas de urânio, e da Argélia, que fornece um quarto do gás natural importado pelo mercado europeu.
        Será tarefa de um dos 28 candidatos à Presidência buscar a efetiva pacificação local e enfrentar os desafios mais permanentes do país. O Mali é o 175º colocado dentre as 187 nações avaliadas pelo Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU, e 69% de sua população vive abaixo da linha da pobreza.
        Diversos analistas sugeriram adiar a disputa, por temores de que o prazo exíguo comprometesse sua organização e lisura, mas as partes envolvidas tiveram boas razões para insistir na data original.
        Do ponto de vista da França, um governo eleito de forma legítima acelera o processo de retirada de suas tropas. Para a força de paz da ONU, haverá um interlocutor definitivo e interessado em trabalhar a seu lado. E, para o Mali, o retorno à ordem constitucional permite a volta do importante auxílio financeiro dos EUA.