Mostrando postagens com marcador ELIANE CANTANHÊDE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ELIANE CANTANHÊDE. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Aécio defende prévias para ampliar pressão sobre Serra - Eliane Cantanhêde.N.Nery, G.Guerreiro,D.Lima

Aécio defende prévias para ampliar pressão sobre Serra
Rivais dizem aceitar eleição interna para definir candidato do PSDB em 2014
Senador mineiro tem controle do partido, mas ex-governador quer concorrer mais uma vez à Presidência
DE BRASÍLIADE SÃO PAULOO senador mineiro Aécio Neves, presidente do PSDB, e o ex-governador paulista José Serra defenderam ontem a realização de prévias internas no partido para escolher o candidato dos tucanos na corrida presidencial de 2014.
Aécio, que em maio assumiu o controle da máquina partidária e começou a construir sua candidatura à Presidência da República, afirmou que apoiará a realização de prévias se elas forem solicitadas por algum concorrente.
Serra, que perdeu duas eleições presidenciais para o PT e vem indicando que gostaria de concorrer novamente no ano que vem, disse na semana passada que seria "extravagante" o partido não realizar prévias se houver mais de um candidato, e ontem voltou a defendê-las.
Em entrevista em Brasília, Aécio fez questão de alfinetar o rival, dizendo que "saúda" os tucanos que "evoluíram de posição", numa referência ao embate que teve com Serra pela mesma razão em 2009, quando se preparavam para a campanha eleitoral de 2010.
Na época, Serra tinha o apoio da cúpula partidária para se lançar pela segunda vez candidato a presidente e Aécio defendia publicamente a realização de prévias, que acabaram não ocorrendo. "Eu não mudei de opinião", afirmou o senador mineiro.
Serra não acusou o golpe. "Sempre defendi prévias", disse o ex-governador à Folha. "Fui a favor de prévias em 2009 e 2010, e disputei uma em 2012, para ser candidato a prefeito [de São Paulo]."
ASFIXIA
Isolado no PSDB, Serra tem considerado a possibilidade de mudar de partido para se candidatar novamente ao Palácio do Planalto e tem discutido o assunto com o PPS.
Além do desgaste que sua saída criaria para o partido que ajudou a fundar, as pesquisas eleitorais mostram que uma candidatura de Serra dividiria o eleitorado tucano, prejudicando Aécio.
O objetivo principal de Aécio, cuja decisão de apoiar prévias foi antecipada pelo jornal "O Globo", é evitar os danos que seu projeto poderia sofrer se Serra decidisse se candidatar por outra sigla.
Sem as prévias e asfixiado dentro do partido, Serra teria o discurso ideal para romper com os tucanos e mudar de legenda. Com as prévias, ele teria que buscar outra justificativa para deixar a sigla.
Além disso, ao se mostrar disposto a enfrentar prévias, Aécio procura dar uma demonstração de confiança na sua capacidade de vencer a disputa, apesar dos riscos que corre com a exposição das divisões entre os tucanos.
Há ainda um terceiro fator: ao defender as prévias, Aécio amplia a pressão para que Serra defina logo se ficará no PSDB ou sai do partido. Se quiser concorrer em 2014 pelo PPS, a legislação o obriga a deixar o PSDB até outubro.
Apesar de não assumir sua candidatura presidencial, Serra tem percorrido o país para conversar com aliados. Aécio, por sua vez, tem buscado se fortalecer especialmente em São Paulo, maior reduto dos aliados de Serra.
A pesquisa eleitoral mais recente do Datafolha mostra que Serra teria ligeira vantagem sobre Aécio se a eleição fosse hoje. Embora ele seja mais conhecido do eleitorado, sua rejeição é muito maior que a do senador mineiro.
Peça chave na disputa interna, o governador paulista, Geraldo Alckmin, defendeu a realização das prévias em conversas com Aécio e Serra. Os aliados de Serra contam com o apoio de Alckmin se o partido convocar prévias.
O governador, que será candidato à reeleição em 2014 e perdeu popularidade com os protestos de junho, tem interesse em manter Serra ao seu lado, porque precisa do capital eleitoral acumulado pelo antecessor em São Paulo.
Além do apoio do Alckmin, aliados de Serra afirmam que, se houver prévias, teriam que batalhar para ampliar ao máximo o colégio eleitoral. Mais do que só filiados, eles acreditam que Serra poderia ser beneficiado se fosse permitido que "simpatizantes" do partido pudessem votar.
Para se contrapor à pressão dos serristas, Aécio vem trabalhando para ampliar sua influência em São Paulo. Ele passará a visitar o Estado de dez em dez dias. Na próxima semana, terá encontro com deputados estaduais.
Mas a agenda interna não será descolada da agenda de candidato, embora Aécio também não tenha assumido ainda que é candidato ao Palácio do Planalto.

    terça-feira, 20 de agosto de 2013

    Eliane Cantanhêde

    folha de são paulo
    Bode na sala
    BRASÍLIA - Se até o namorado brasileiro do jornalista Glenn Greenwald é detido no Reino Unido, imagine-se o que vai acontecer com o próprio Greenwald quando ele puser os pés nos EUA, depois de ter revelado ao mundo as estrepolias digitais das agências de espionagem, ops!, de segurança do país. Um simples passeio não vai ser.
    Um lance genial seria Greenwald desembarcar nos EUA na véspera da visita de Dilma Rousseff a Barack Obama em outubro. Sua prisão ofuscaria totalmente o encontro.
    Os dois governos, de lá e de cá, trabalham com afinco para detalhar uma agenda densa, à altura do ritmo de aproximação bilateral dos últimos anos, e houve três visitas relevantes ao Brasil: as do secretário de Estado, John Kerry, e dos secretários de Energia e de Agricultura.
    Os EUA e o Brasil estão entre os maiores produtores agrícolas do planeta e têm de tentar driblar os grandes fornecedores de petróleo e gás, que vivem às turras, num mundo quase à parte dos meros mortais.
    Nem a agenda nem essas viagens, porém, têm tido importância e debate na opinião pública, que só pensa, fala e reclama da espionagem das agências dos EUA em governos, indústrias e até cidadãos e cidadãs.
    Se Washington não consegue inverter a pauta da mídia agora, muito dificilmente conseguirá quando Dilma e Obama se encontrarem.
    Esse cenário já preocupa previamente, mas poderá ficar muito pior caso Greenwald pegue um avião, desembarque no seu próprio país e vá direto do aeroporto para uma cadeia qualquer por ordem do governo --o mesmo governo que criticou a Rússia por conceder asilo provisório a Edward Snowden, que passou as informações ao jornalista.
    As relações Brasil-EUA vão bem em diferentes áreas, sobretudo as estratégicas. Mas, queiram os dois lados ou não, a prioridade neste momento são as questões pontuais, essas que produzem manchetes.
    É preciso tirar o bode da sala.

      domingo, 18 de agosto de 2013

      Eliane Cantanhêde

      folha de são paulo
      Aos leões
      BRASÍLIA - Com o grave atrito entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, perde força a hipótese de o STF acatar os embargos infringentes, que significam recomeçar o julgamento praticamente do zero e a possibilidade de reduzir penas e de trocar o regime fechado por semiaberto em alguns casos, como o de José Dirceu, estrela do processo.
      Lewandowski errou no conteúdo e Barbosa errou na forma. Um por forçar a barra para reabrir uma questão já decidida e que, reaberta, poderia favorecer Dirceu. O outro por extrapolar na reação.
      Extrapolou tanto --falando até em "chicana", termo gravíssimo no mundo jurídico-- que deixou uma dúvida: seria estratégia premeditada para mostrar o que pode acontecer no Supremo caso o julgamento não acabe logo e com os culpados na prisão?
      Se, no segundo dia e analisando embargos declaratórios (que são quase burocráticos), o clima já foi de guerra e de imprudência, imagine-se se o julgamento durar meses e invadir o ano eleitoral analisando embargos infringentes (que podem mudar tudo). O grande derrotado poderia ser a instituição, exposta, dividida e sob a ameaça de os protestos se voltarem contra ela.
      Há, porém, um novo equilíbrio no plenário e tudo pode acontecer. Na primeira fase do julgamento, Barbosa puxava a maioria, e Lewandowski e Dias Toffoli pareciam isolados. Agora, eles têm reforço dos novatos Teori Zavascki e Luís Barroso.
      Num balanço informal, três ministros são decididamente contra acatar os infringentes, a começar de Barbosa; quatro são a favor, inclusive Zavascki e Barroso; e quatro não deram pistas sobre seu voto, apesar da sensação de que Cármen Lúcia não apoia começar tudo de novo.
      São 11 juízes numa arena, dian- te de decisões dificílimas e acos- sados por milhões de pessoas que veem o julgamento como um divisor de águas entre o Brasil de antes e de depois do mensalão.

        sexta-feira, 16 de agosto de 2013

        Eliane Cantanhêde - Chicana não

        folha de são paulo
        BRASÍLIA - Há uma grande dúvida se o julgamento do mensalão pelo Supremo vai ou não ser encerrado em poucas semanas.
        Depende de haver embargos dos embargos e da votação sobre acatar ou não os embargos infringentes, que são recursos de réus que tiveram pelos menos quatro votos a seu favor e tentam reformular suas penas.
        Há 12 réus nesse caso, inclusive a estrela José Dirceu. Ele foi condenado também por formação de quadrilha, questão que, de fato, dividiu o plenário na primeira fase.
        Dizem a história e o bom senso que não se adivinham de véspera os votos do Supremo, mas já há quem aposte que o tribunal vai recusar os embargos infringentes e encerrar logo os trabalhos, apesar de o ministro Dias Toffoli ter previsto até mais dois anos de julgamento.
        O presidente Joaquim Barbosa e ministros como Gilmar Mendes já se declaram publicamente contra acatar esses recursos e representariam a tendência do plenário.
        Se o tribunal resolver analisar os embargos infringentes, recomeça tudo de novo, quase do zero. E com dois ministros novos, Teori Za- vascki e Luís Roberto --que tende a ser mais liberal tanto na compreensão sobre quadrilha quanto na dosimetria (os anos de prisão). Na prática, um novo julgamento. E novas penas.
        O prazo para a conclusão depende, também, do comportamento dos próprios ministros. Eles foram rápidos e quase consensuais ao recusar a maioria dos embargos de declaração (grosso modo, de forma). Mas, já no segundo dia, desandou de novo.
        Barbosa voltou a se comportar como se fosse dono da casa e da causa, irritando-se e batendo boca com Ricardo Lewandowski como nos piores momentos da primeira fase. Se o ritmo for como no primeiro dia, vai acabar logo. Mas tudo indica que será como no segundo.
        O presidente da corte não pode, ao vivo e em cores, acusar um colega de fazer "chicana". É preciso respeito e compostura.

          quinta-feira, 15 de agosto de 2013

          Eliane Cantanhêde

          folha de são paulo
          Corrupção é corrupção
          BRASÍLIA - Começou bem a segunda fase do julgamento do mensalão, num momento em que o caso Siemens ainda está só esquentando.
          "Não existe corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB. Existe corrupção", declarou em sua estreia no julgamento o novo ministro Luís Roberto Barroso, infenso à polarização infernal entre petistas e tucanos.
          Opinou e ensinou mais: o mensalão não foi o maior escândalo da história, apenas o mais investigado, e será em vão punir os atuais réus sem fazer uma reforma política, porque tudo vai continuar na mesma.
          É impossível discordar do ministro, e o PT não tem o direito de comemorar nem o PSDB de lamentar.
          O fato de o mensalão não ser o maior escândalo da história, como opina Barroso, não significa que não tenha existido, que seja irrelevante e que não tenha sido lesivo para quem realmente interessa: a sociedade brasileira. Se os outros fazem, isso não dá direito ao PT de fazer também.
          O princípio vale para os tucanos no caso Siemens. De nada adianta Geraldo Alckmin dizer que o cartel atuou também em outros Estados nem a Folha mostrar que cinco empresas investigadas por cartel em SP e no DF receberam pelo menos R$ 401 milhões do governo federal desde 2003 --se elas eram impuras nos governos de oposição, certamente não eram puras nos governos petistas.
          Se os esquemas ocorrem em outros Estados e se o governo federal também tem contratos com empresas suspeitas, nada disso absolve o cartel paulista nem inibe as investigações (inclusive da imprensa) sobre as administrações tucanas em São Paulo. Ao contrário, só confirma que os cartéis existiam, ou existem.
          Jogar a batata quente de lá para cá não resolve a questão central de que há compra de votos, há cartéis e está na hora de acabar com essas práticas, custe o que custar --mesmo a punição dos dois melhores partidos e de alguns dos melhores quadros políticos do país. Até por isso, eles é que mais deveriam dar o exemplo.

          terça-feira, 13 de agosto de 2013

          Eliane Cantanhêde

          folha de são paulo
          Até agora, vazia
          BRASÍLIA - Dúvida de setores diplomáticos: houve mesmo uma ameaça de novo 11 de Setembro, ou Obama precisava de justificativas para a espionagem?
          O secretário de Estado, John Kerry, chega ao Brasil hoje com um discurso de autodefesa, mais ou menos assim: vão desculpando o mau jeito, mas, se a gente não espionar, não vai poder identificar ameaças e se prevenir, como agora.
          Isso confirma que Washington precisa dizer alguma coisa ao Brasil sobre a espionagem antes da viagem de Dilma em outubro, mas não tem o que dizer. Precisa de subterfúgios, pois não vai jurar que nunca mais vai fazer isso, porque vai, sim.
          Do lado de cá, o Brasil tem de manifestar indignação e cobrar explicações, mas também só por dever de ofício, sabendo que nada vai mudar. Reclamar na ONU? Mas quem é mesmo que manda na ONU?
          Apesar do teatro, continua o empenho bilateral para que a espionagem não contamine a ida de Dilma, mas não é fácil achar temas e discurso para ela na "única visita de Estado a Washington neste ano", como os dois lados comemoram.
          Com o baixo PIB brasileiro e a recuperação americana além das expectativas, não dá mais para Dilma querer ensinar aos países ricos como se faz. Com as manifestações por educação e saúde, também é improvável que ela anuncie a compra dos caças da FAB, que seguem como o trem-bala: de adiamento em adiamento.
          E, como os dois países discordam quanto ao Irã, por exemplo, a política externa é outro campo minado. Kerry e Patriota, Obama e Dilma vão acabar falando mesmo é de Copa, Olimpíada, segurança e da lenga-lenga da identidade de dois países amigos, democráticos, multirraciais.
          A não ser que o governo Obama avance no apoio a uma vaga permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, a viagem de Dilma aos EUA será tão irrelevante quanto à que Obama fez ao Brasil, cheio de gracinhas e vazio de conteúdo.

          domingo, 11 de agosto de 2013

          Segurando a onda - Eliane Cantanhêde

          folha de são paulo
          BRASÍLIA - O Datafolha reflete os ventos registrados neste espaço na sexta-feira, ou seja, o eleitorado está em sintonia com as mudanças no ambiente político. Ou vice-versa.
          O mundo partidário e o real tinham se afastado da presidente e da candidata pelos erros na economia, a falta de liderança e o estilo autoritário. Agora, começam lentamente a se reaproximar.
          A economia deu sucessivos sinais de alívio na semana em que os pesquisadores foram a campo. A inflação arrefeceu, a inadimplência no comércio caiu, a produção industrial aumentou e, na sexta, refletindo a China, a Bolsa subiu e o dólar baixou. Tal como a cereja no bolo, a Petrobras conseguiu lucro de R$ 6,2 bi.
          Se a redução da cesta básica e do IPCA foi sazonal e se houve manobra contábil no resultado da Petrobras, é outra história. O que interessa aqui é o efeito, o retoque na imagem política envelhecida de Dilma.
          Além da economia, ela também fez sua parte, seguindo à risca o roteiro do padrinho e do marqueteiro. Nunca apareceu tanto, nunca falou tanto. E quanto mais se reuniu com líderes partidários, mais se distanciou do Congresso, este, sim, o grande vilão nacional. Plebiscito, reforma política, médicos para todos, quem há de ser contra?
          Dilma fez sua parte, a oposição não. O momento de os adversários se mostrarem era agora, certo? Mas o PSDB entrou na linha de tiro e a oposição só patina. Aécio não convence, Serra teima à toa, Campos nem existe e Marina é a candidata dos sonhos de Dilma. É politicamente correto declarar voto em Marina, mas, no confronto entre uma e outra e o poderio de uma e o desarmamento de outra...
          Depois de Dilma se jogar num precipício de 35 pontos, a recuperação de 6 na popularidade e de 5 nas intenções de voto ainda é pouco e não induz a conclusões, mas confirma que a campanha dela tem instrumentos e estratégia. As dos adversários --à exceção de Marina, que cresce por inércia-- parecem não ter nada.

            sexta-feira, 9 de agosto de 2013

            Eliane Cantanhêde

            folha de são paulo
            Os ventos
            BRASÍLIA - A onda está mudando? Dilma está saindo do sufoco?
            É cedo para certezas, mas há forte empenho nessa direção e os ventos, que sempre interferem nas ondas, parecem mais favoráveis a ela.
            Desde que sua popularidade começou a cair por causa da economia --e depois despencou, com os protestos--, a presidente não sai da TV, do rádio, dos jornais, da internet, ocupando todos os espaços que a oposição não tem como disputar.
            As guerras da presidente parecem bem marqueteiras: são polêmicas e geram reações, mas têm ressonância na maioria da população --ou do eleitorado--, que aprova um plebiscito, a reforma política, os royalties para a educação e a queda de braço com os médicos para que mais municípios sejam atendidos. Boas causas.
            Dilma também passou a conversar (dizem que está até aprendendo a ouvir) com o PMDB e os partidos aliados. Essa é sua prioridade, já que o PT vem por gravidade. Sua alternativa é apoiar Dilma ou apoiar Dilma.
            Ela até liberou uma bolada para os parlamentares e, como é melhor ceder do que ser derrotada, negocia ajustes no projeto do Orçamento impositivo, pelo qual os deputados e senadores estabelecem suas emendas e o governo tem de cumprir.
            Ao mesmo tempo, começa a ser interrompida a sequência, que parecia interminável, de notícias ruins na economia. Em vez de "o pior em duas décadas" e o "mais baixo em tantos anos", há índices mais tranquilizadores. O IPCA (um dos indicadores de inflação) ficou perto de zero em junho, o preço da cesta básica também caiu por todo lado e a produção industrial subiu em 10 das 14 capitais pesquisadas.
            Para completar, os protestos das ruas refluíram de um lado e a rede da internet recrudesceu de outro, querendo arrancar o sangue dos tucanos no escândalo da Siemens.
            Não se sabe o que acontecerá com os ventos e com Dilma nas próximas pesquisas, mas a mudança de clima na política já dá para sentir.

              quinta-feira, 8 de agosto de 2013

              Eliane Cantanhêde

              folha de são paulo
              Até o ET de Varginha
              BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff deve mesmo engolir a sua ojeriza a negociações políticas e a conversas com líderes partidários e assim evitar projetos que desagradem ao governo e garantir os que lhe sejam favoráveis. Mas ela não precisa exagerar.
              Dilma tem se reunido com deputados e senadores do PMDB, do PR, do PP e de toda a extensa base aliada. Se tiver um tempinho, vai até chamar os do PT ao Planalto (a reunião de ontem dos senadores petistas com a presidente foi cancelada).
              Ela está, portanto, seguindo os conselhos e o exemplo do padrinho, o "Lulinha paz e amor", e fazendo um esforço danado para amenizar a própria personalidade e se aproximar o máximo possível da "Dilminha paz e amor". Quem sabe, com um pouquinho mais de esforço, consiga até deixar de chamar as pessoas de "querida" e "querido" quando, por exemplo, não gosta de alguma pergunta de jornalista.
              Bem, mas depois de virar muito amiga do vice Michel Temer, dois anos e meio após a posse, e de encarar Renan Calheiros e Henrique Alves, Dilma agora elogia qualquer um (desde que não seja o líder do PMDB, Eduardo Cunha).
              Ontem, em entrevista a uma rádio no interior de Minas, ela tascou que tem "muito respeito pelo ET de Varginha". O que vem a ser isso? Um suposto extraterrestre que teria sido visto por três meninas da cidade uns 15 anos atrás, para alegria dos ufólogos e descrença das autoridades locais e nacionais.
              Se tem sido tão simpática com gregos, troianos, peemedebistas e marcianos, Dilma continua dura com os críticos, esses "pessimistas", e contra as cobranças, puro "estardalhaço". E, agora, ela ganha novo ânimo com duas boas notícias para ela e a reeleição. A onda está mudando?
              A inflação finalmente dá sossego e os tucanos entram no alvo --com o que já surgiu e, principalmente, com o que pode surgir das investigações do chamado escândalo Siemens.

                terça-feira, 6 de agosto de 2013

                Bomba relógio - Eliane Cantanhêde

                folha de são paulo
                BRASÍLIA - Nesses tempos de instabilidade e de insubordinação, todo mundo tem algo a dizer, principalmente empresários, base aliada e manifestantes que estão na rua contra tudo e qualquer coisa. Mas há um segmento caladinho.
                Trata-se dos escritórios de advocacia especializados em causas contra a União. Eles acompanham sofregamente o desenrolar do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal para botar as manguinhas de fora e os bolsos à vista.
                A intenção é acompanhar cada passo do julgamento, que recomeça na semana que vem, para ver como ficam os embargos declaratórios, depois os infringentes e, por fim, as conclusões tramitadas em julgado, quando não houver mais nenhuma possibilidade de recurso e o resultado estará condensado numa única peça, inquestionável.
                O foco dos advogados é a emenda constitucional número 41, de dezembro de 2003, final do primeiro ano do governo Lula, que mudou o sistema de previdência dos servidores públicos, acabando a aposentadoria com salário integral e os reajustes paritários entre os aposentados e os da ativa. Milhares, talvez milhões, de aposentados adorariam dar o dito pelo não dito, o votado pelo não votado.
                Ao condenar políticos, publicitários e banqueiros por compra e venda de votos no Congresso, inclusive na mudança do sistema previdenciário dos servidores, o Supremo automaticamente admite que houve vício de origem na decisão.
                Isso pode suscitar uma ou várias ações de inconstitucionalidade formal contra a emenda 41, questionando judicialmente não o mérito, mas sim a forma como foi votada e promulgada. E aí é que a porca torce o rabo. Se o próprio Supremo admite que houve compra e venda de votos, como vai dizer que a votação da emenda foi dentro dos conformes?
                A emenda 41, porém, não pode cair pois seria o caos, com custo incomensurável. É melhor o governo prevenir do que remediar. Como? Sei lá!

                  domingo, 4 de agosto de 2013

                  Eliane Cantanhêde

                  folha de são paulo
                  Mensalão versus Siemens
                  BRASÍLIA - Reza a lenda política que agosto é o mês do azar, quando Getúlio Vargas se suicidou, Jânio Quadros renunciou e Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro até hoje ainda nebuloso.
                  Pois justamente em agosto recomeça o julgamento do mensalão no Supremo, que pega o PT de jeito, e emerge a denúncia da alemã Siemens de que houve um cartel para licitações das obras do metrô de São Paulo, o que desestabiliza o PSDB.
                  Como pano de fundo, a popularidade de Dilma em queda, protestos contra Alckmin e Cabral, o Congresso em pé de guerra e a recuperação da economia, só na promessa.
                  Tem-se que agosto encontrará o governo batendo cabeça, o Congresso testando forças, os tucanos esbaldando-se com o mensalão petista, e os petistas, com o caso Siemens dos tucanos. E a plateia botando fogo.
                  Isso tudo é álcool, gasolina e fósforo aceso para as manifestações populares. Elas começaram em junho, movidas em grande parte pela exaustão diante das práticas políticas e da falta de ética, e prometem voltar com tudo no Sete de Setembro, pelos mesmos motivos, mas com novidades, confrontos explosivos e a sensação de que não se salva um.
                  Se o mensalão do PT atinge José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha, a denúncia da Siemens, que entregou documentos para as autoridades brasileiras, aponta o governo Mário Covas, chega ao primeiro de Geraldo Alckmin e atinge um ano do de José Serra. É guerra de comandantes, não de soldados.
                  Como sempre, o caso Siemens começa assim: vem a manchete na imprensa, o atingido diz que há manipulação política e o investigador responde que o processo é legal, rigoroso e técnico. Depois, vira tudo um deus nos acuda, com verdades borbulhando, a mídia vasculhando cada vírgula, a opinião pública irada.
                  Mas agosto é só o começo, setembro está logo aí e 2014 é ano de eleição presidencial. O que está ruim sempre pode piorar.

                    sexta-feira, 2 de agosto de 2013

                    Eliane Cantanhêde

                    folha de são paulo
                    O recuo nosso de cada dia
                    BRASÍLIA - Foi um alívio Dilma sancionar sem vetos a lei que ampara a mulher estuprada e pode evitar que a vítima seja vítima para sempre, gerando um feto e criando um filho do estuprador.
                    Só nos faltava o governo desistir também disso, depois que a presidente voltou atrás da constituinte exclusiva para a reforma política e os recuos viraram rotina em Brasília.
                    O plebiscito é o "Fome Zero" da Dilma: natimorto, só continua existindo no blá-blá-blá oficial. O aumento de dois anos na formação de médicos foi enterrado por Mercadante e Padilha. A redução de um dia de trabalho por semana para enfrentar o corte no Orçamento foi desautorizada pela Defesa, e a Marinha fez meia-volta, volver.
                    Mais: a portaria baixando a idade mínima das cirurgias e do tratamento para mudança de sexo só resistiu algumas horas depois de publicada no "Diário Oficial". O Planalto mandou a Saúde passar a borracha. Por fim, o representante do Brasil no FMI votou contra a ajuda à Grécia sem consultar ninguém e Guido Mantega ligou para Christine Lagarde dando o dito pelo não dito.
                    Tem alguma coisa errada. Dilma anuncia uma constituinte sem negociar com o Congresso? E insiste num plebiscito que nem juristas aceitam? Como o governo impõe mudanças no curso de medicina e na profissão sem acertar antes com os "adversários"? A Marinha não conversa com a Defesa? A Saúde ignora o Planalto? Representantes decidem sozinhos?
                    Se ninguém negocia com ninguém, se subordinados não ouvem os chefes, se cada um faz o que quer, está faltando... comando. O que significa que há uma crise de gestão.
                    Somem-se a isso os desacertos na política (o Congresso vem quente, mas o governo não está fervendo) e as más notícias na economia (a última é que a balança comercial é a pior em 20 anos). Tem-se que a presidente da República precisa parar de achar e de dizer que está tudo uma maravilha. Se está, não parece.

                      quinta-feira, 1 de agosto de 2013

                      Eliane Cantanhêde

                      folha de são paulo
                      Quem não chora não mama
                      BRASÍLIA - Os deputados e senadores tiraram uns dias de recesso branco, foram às suas bases e captaram "in loco" o mau humor do cidadão, que acaba de abater mais da metade da popularidade de Dilma.
                      Na volta ao Congresso, estarão mais preocupados em falar a língua dos seus eleitores do que em ouvir os apelos do Planalto. Ou seja: mais empenhados em votar projetos que tenham ressonância popular, mesmo que agridam os ouvidos da presidente e as contas do governo.
                      Por isso, Dilma abriu as burras para as emendas parlamentares, que fazem a festa e mudam votos no Congresso como varinhas de condão. É dando que se recebe, apesar de o Gilberto Carvalho usar o seu tom franciscano para jurar que não.
                      Enquanto Dilma libera R$ 2 bilhões em emendas para Suas Excelências em agosto, corta R$ 919 milhões das Forças Armadas e ninguém mais fala na compra dos caças da FAB. As autoridades cruzam os céus em jatinhos de ponta, mas os velhos Mirage da defesa nacional viram ferro-velho em dezembro.
                      A diferença é clara: as Forças Armadas não têm poder de fogo, mas o Congresso tem um canhão. Se o governo não atende os pleitos militares, eles ameaçam cortar um dia útil de trabalho por semana, levam um chega pra lá, batem continência e recuam. Já se o governo não se sujeita à manha dos políticos, eles negam voto aos projetos governistas e despejam nos antigovernistas. A economia não está uma maravilha, mas o Planalto abre os cofres e paga o preço.
                      Para corroborar que quem não chora não mama, Dilma foi ontem a São Paulo com um mimo de R$ 8 bilhões para o estratégico petista Fernando Haddad, que andava muito chorão, pedindo colo para o tucano Geraldo Alckmin.
                      Com popularidade alta e governo forte, ninguém chora e a conta fecha. Com popularidade ladeira abaixo e governo fraco, vem o chororô e abre-se um buraco sem fundo.
                      Ah! E quem paga a conta é você.

                        terça-feira, 30 de julho de 2013

                        Bom, mas tem de melhorar [IDHM] - Eliane Cantanhêde

                        folha de são paulo
                        Bom, mas tem de melhorar
                        BRASÍLIA - O IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) confirma que o Brasil, mesmo que aos trancos e barrancos, vai no bom caminho. E que, apesar das críticas e da guerra cruenta entre PSDB e PT, foi sob o comando do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e do grande líder de massas Luiz Inácio Lula da Silva que o país efetivamente deu seu grande salto.
                        A pesquisa mostra que o IDH do Brasil melhorou 47,5% em duas décadas e saiu de "muito baixo" para "alto". Em 1991, 85,8% dos municípios brasileiros tinham um IDH "muito baixo". Em 2010, era apenas 0,6%.
                        O maior salto é no Norte/Nordeste, mas o Sul/Sudeste continua na dianteira. O DF fica em primeiro lugar, mas, como é "hors-concours" por ser muito peculiar, cede lugar a São Paulo, ou seja, à "locomotiva" do Brasil. De onde, aliás, o carioca Fernando Henrique e o pernambucano Lula saíram para o Planalto e para mudar a cara do país.
                        Um porque combateu a inflação, elevou o patamar internacional do país, botou a casa em ordem na economia e deu o "start" em programas sociais cruciais. O outro porque manteve uma política macroeconômica saudável e transformou o grande momento mundial em oportunidade para uma inclusão social histórica.
                        Caminhando ao lado dos dois regimes --um continuação do outro--, estávamos a população em geral, a academia, a indústria, o agronegócio e a imprensa independente cobrando, provocando, apontando erros e exigindo sempre mais. Assim se constrói um país melhor. Assim se consolida a cidadania. E daí 1 milhão de pessoas vão às ruas botando o dedo nas feridas e na cara dos governantes de todos os níveis.
                        Há muito ainda a fazer, principalmente na educação. O último lugar em desenvolvimento humano foi Melgaço (PA), onde metade da população não sabe ler nem escrever. Enquanto houver "Melgaços" no Brasil, gritemos. Oba-oba os governantes já fazem à exaustão.

                          domingo, 28 de julho de 2013

                          Afiando as unhas - Eliane Cantanhêde

                          folha de são paulo
                          BRASÍLIA - Contra fatos, não há argumentos. Só esperneio, ameaças e a criação de inimigos fictícios.
                          Na economia: a arrecadação federal parou no tempo, praticamente igual à do ano passado; o corte de R$ 10 bilhões no Orçamento não convenceu; o rombo nas contas externas cresceu 73% no primeiro semestre, em relação a 2012; os brasileiros gastaram o recorde de US$ 12,3 bilhões (?!) no exterior em apenas seis meses.
                          Mas o pior é que a geração de empregos, centro do discurso otimista da presidente Dilma em pronunciamentos internos e mundo afora, começa a sentir o peso de PIB baixo e inflação no teto da meta. O índice ainda é bom, mas a queda de 20% em relação ao primeiro semestre do ano passado fez o governo revisar para baixo a previsão de vagas para 2013.
                          Na política: Dilma expôs publicamente sua birra com o PT ao se recusar a ir à reunião do Diretório Nacional petista, apesar de estar a poucos quilômetros do local do evento.
                          Se a relação com o próprio partido está nesse pé de guerra, imagine-se com os demais partidos da base aliada. Assim como o PSD, que tinha uma pesquisa pró-Dilma antes das manifestações, mas subiu em cima do muro depois, também PTB, PDT, PP estão olhando de longe, de binóculo. E o que eles veem é que, pela primeira vez, o número dos que aprovam o governo é menor do que os que desaprovam.
                          Mas o pior é o PMDB, que, mesmo tendo a Vice-Presidência da República, faz uma enquete interna perguntando, um a um, se é o caso ou não de manter a aliança com o PT em 2014. Isso serve para mexer com os nervos de Dilma e com o instinto de sobrevivência dos governistas em geral.
                          Tudo, porém, vai mudar daqui para a frente, pois Lula ressurgiu de Lilongwe e está "afiando as unhas" para enfrentar os verdadeiros culpados pelo caos na economia e na política: "as forças conservadoras".
                          Não concorda com ele? Então vá se queixar ao bispo, porque o formidável papa Francisco já vai embora.

                            sexta-feira, 26 de julho de 2013

                            Eliane Cantanhêde

                            folha de são paulo
                            Vencemos para isso?
                            BRASÍLIA - Na chegada, o carro do papa Francisco espremido entre táxis e ônibus, num baita engarrafamento na avenida Presidente Vargas, centro do Rio, enquanto na larga pista ao lado, interditada, não se via uma única bicicleta. Um vexame inexplicável.
                            Logo mais, no Palácio Guanabara, a presidente Dilma, em vez de um singelo discurso de boas-vindas ao papa, puxou e leu um discurso maior do que o da grande estrela do evento. Faltou "semancol".
                            Na mesma noite, enquanto o mundo queria saber a quantas andava o papa no Brasil, o que se via era uma guerra campal entre policiais, vândalos e infiltrados de toda ordem. Uma violência vergonhosa.
                            No dia seguinte, milhares de repórteres do mundo inteiro se esfalfavam para registrar os preparativos do grande evento, enquanto cariocas e não cariocas amargavam horas de pane no metrô da cidade anfitriã. Competência zero.
                            Ontem, com tudo vistoriado e checado, veio a grande conclusão: impossível fazer a missa de encerramento em Guaratiba, no Rio. O local virou um mar de lama às vésperas do "gran finale". A culpa é só da chuva?
                            Em meio a tudo isso, as notícias domésticas nos governos e na mídia são desanimadoras: rombo histórico nas contas externas, emprego desacelerando, arrecadação devagar, quase parando. Os brasileiros gastaram mais de US$ 12 bilhões lá fora no primeiro semestre, e os estrangeiros gastaram aqui menos em junho de 2013 do que em junho de 2012 --apesar da Copa das Confederações. O paraíso evapora.
                            Segundo o "New York Times", houve "tensão, erros e protestos (contra Sérgio Cabral)" durante a visita do papa. E o "Chicago Sun-Times", da cidade derrotada pelo Rio para a Olimpíada, indaga, provocativo: "Perdemos para isso?".
                            Quando dão certo, papa, Copa e Olimpíada são alavancas eleitorais poderosas. Quando dão errado, o efeito é proporcionalmente inverso.

                              quinta-feira, 25 de julho de 2013

                              Estancando a sangria - Eliane Cantanhêde

                              folha de são paulo
                              BRASÍLIA - O papa Francisco traz não apenas um exemplo de humildade, fraternidade e igualdade, mas também de senso estratégico.
                              Ele se dispensou de dar recados políticos na curta homilia na basílica de Aparecida e dispensou as autoridades brasileiras de lições morais em seu igualmente rápido discurso aos poderosos no Palácio da Guanabara. Limitou-se à pregação religiosa em ambas, leve, sorridente, defendendo a alegria e a esperança.
                              O teor político foi reservado ao ambiente laico do hospital São Francisco de Assis, no Rio, em que ratificou sua conhecida posição contrária à descriminalização das drogas e condenou os "mercadores da morte". Mas ele vinha relevando, pelo menos até ontem, eventuais pressões da ala conservadora da própria igreja e adiando outras questões espinhosas e desagregadoras.
                              Sua prioridade não é aprofundar divisões, é evitar evasão. Segundo o Datafolha, os brasileiros que se declaravam católicos eram 75% da população em 1994, caíram para 64% em 2007 e são 57% hoje, prenunciando que, muito em breve, serão menos da metade das pessoas no "maior país católico do mundo".
                              Nesse contexto, destaca-se um fato político. Quem mais se beneficiou das manifestações de junho e da implosão da popularidade de Dilma foi uma candidata evangélica: Marina Silva, um exemplo concreto a confirmar as estatísticas.
                              Criada no catolicismo, sua porta de entrada na militância social e na política, ela se converteu às igrejas evangélicas, das quais incorporou a linguagem, a imagem, até o gestual.
                              Não se sabe até que ponto a religião conta a favor ou contra a eleição de Marina, mas não deixa de ser um curioso dado de análise que, justo no tal maior país católico, a candidata que está em segundo lugar seja uma ex-católica, atual evangélica.
                              A grande missão do papa Francisco no Brasil é estancar a sangria. Ou seja: somar, não ajudar a subtrair.

                                terça-feira, 23 de julho de 2013

                                Eliane Cantanhêde

                                folha de são paulo
                                Discurso errado na hora errada
                                BRASÍLIA - O encontro com o papa Francisco no Rio foi a grande chance de Dilma Rousseff aparecer bem desde que a economia derrubou 8 pontos de sua popularidade e as manifestações lhe roubaram outros 27. No mínimo, ela ganhou uma excelente foto, num dia em que as pessoas foram às ruas felizes por receber o papa --e não só para reclamar.
                                Nesse momento de profunda descrença nos partidos e muita crença na chegada de um papa que simboliza ruptura e humildade, o contraste só pode ter sido proposital: com o mesmo voluntarismo de sempre, Dilma não foi à reunião do diretório do PT por um motivo pueril, numa clara provocação, e foi ao papa com um discurso político e fora de lugar.
                                Digamos que Francisco foi Francisco, Dilma foi Dilma. Um foi o papa despretensioso, que dispensa ouro, capas de veludo e pompas para se colocar cada vez mais próximo do povo. A outra foi a presidente de expressão arrogante, num momento em que está acuada, precisa se justificar e luta bravamente para recuperar a popularidade perdida.
                                Enquanto a fala do papa foi essencialmente religiosa e despojada, num português agradável e cheia de adjetivos gentis para o Brasil e para os jovens, Dilma recorreu a todos os chavões lulistas, enalteceu as mudanças "que inauguramos dez anos atrás" e amplificou a versão de Lula no "New York Times", definindo as manifestações que atingiram em cheio seus índices nas pesquisas não como a derrota que foi, mas como uma vitória sua e de Lula.
                                No discurso da presidente, pulularam autoelogios ao Brasil e à era petista, além de chavões de palanque: direitos, justiça social, solidariedade, fome, desigualdade, ética, transparência. Eis a dúvida: para quem Dilma estava falando? Para o papa ou para o eleitor? Para o milhão e meio da Jornada Mundial da Juventude ou para o milhão e meio de pessoas nas ruas exigindo dignidade, fim da corrupção, serviços decentes?
                                Valeu pela foto, não pela fala.

                                domingo, 21 de julho de 2013

                                Vírus, tiros, tortura - Eliane Cantanhêde

                                folha de são paulo
                                BRASÍLIA - Um milhão e meio de pessoas foram às ruas pedindo saúde, educação e dignidade. Associações médicas rompem com o governo por causa das novas regras para a profissão. Dilma rumina a queda nas pesquisas, o crescimento pífio do país, a birra do PT e as ameaças do PMDB. Enquanto isso...
                                Perto de 75 mil (75 mil!) pessoas contraíram um vírus e tiveram diarreia em Alagoas, com quase 50 (50!) mortos. O principal suspeito é a água usada para cozinhar, tomar banho, escovar os dentes. Atenção: Alagoas é Brasil, e o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo.
                                Um tiroteio entre policiais e traficantes matou dez pessoas, inclusive um sargento do Bope e dois cidadãos que não tinham antecedentes criminais: um garçom de 35 anos e um engraxate de 16. Atenção: quem mora no Complexo da Maré também é brasileiro, e o brasileiro é um forte, tem direito à vida.
                                Quatro funcionários de um parque de diversões, entre 22 e 25 anos, foram presos e confessaram o assassinato de uma moça no Paraná, até que um mero exame de DNA mostrou que nenhum deles fizera sexo com a vítima. Soltos, eles disseram que foram espancados, empalados, eletrocutados e asfixiados com sacos plásticos, mesmo após a "confissão". Exames comprovam os maus-tratos. Atenção: bate, depois investiga? Tortura nunca mais!
                                Vândalos infiltrados entre manifestantes que fazem vigília diante do apartamento do governador do Rio quebram e arrebentam lojas, bancos, prédios, bancas de jornais e tudo o que veem à volta, enquanto a polícia, aturdida, balança entre fazer o que tem de ser feito e simplesmente cruzar os braços para não ser acusada de violência. Atenção: isso é "democratice", não democracia.
                                No Brasil das eleições, discutem-se constituinte exclusiva, plebiscito, recesso, corte de ministérios e se o melhor aliado é o PMDB ou o PSB. No Brasil real, o pau está quebrando.
                                Ah! E o papa vem aí.

                                sexta-feira, 19 de julho de 2013

                                Eliane Cantanhêde

                                folha de são paulo
                                Não descobriu o Brasil
                                BRASÍLIA - Sérgio Cabral era uma estrela. Jovem, bonachão, do PMDB, governador de um dos três principais Estados, irmão camarada de Serra, amigo de Lula, aliado de Dilma. Benquisto no Congresso, bem relacionado no mundo empresarial.
                                Saudado como possível candidato a vice-presidente de petistas, tucanos, gregos e troianos, sonhava com o dia em que o PMDB cansasse de ficar a reboque e decidisse ter candidato próprio à Presidência.
                                A implosão começou em junho de 2011, quando um helicóptero caiu a caminho de Trancoso, na Bahia, matando a namorada do filho de Cabral e a mulher do badalado Fernando Cavendish, da Delta. Da tragédia pessoal, emergiu a tragédia política.
                                A prisão de Carlinhos Cachoeira expôs ligações perigosas dele com a Delta e as relações de Cabral-Cavendish coincidiam com as relações Delta-governo do Rio. Tudo ficou embolado, ou mal explicado.
                                Com a crueldade dos adversários políticos, Anthony Garotinho lançou a logomarca das agruras do governador: a foto de Cabral, Cavendish e secretários do Rio com guardanapos brancos na cabeça, na maior farra em Paris. Pegou Cabral de jeito, já bambo no meio do escândalo Delta.
                                Vieram os protestos e o Datafolha captou o estrago: a popularidade do governador despencou 30 pontos. Pior: os manifestantes voltaram para casa no resto do país, mas acamparam no prédio de Cabral no Leblon.
                                Jogado na vala comum dos políticos e alvo direto das manifestações, Cabral já não consegue entrar e sair da própria casa, está à beira de ser enxotado pelos vizinhos e se debate para sobreviver na política e fazer do vice Pezão seu sucessor.
                                Por paradoxal que seja, a violência dos vândalos contra o governador, contra lojas e contra tudo pode servir como tábua de salvação de Sérgio Cabral. Nada melhor para políticos em apuros do que sair da condição de "réu" e passar à de vítima.
                                Quem quis aniquilar Cabral de vez pode estar conseguindo o contrário.