sábado, 27 de julho de 2013

Xico Sá

folha de são paulo
Carta aberta ao Cuca
Sim, é possível ser mineiro e fundamentalista ao mesmo tempo, desde que seja, eu acredito, alvinegro
Amigo torcedor, amigo secador, peço a devida licença, como sempre acontece nos momentos especiais do esporte, para me dirigir a um só camarada, somente uma criatura nesta semana de Missa do Galo antecipada, um cristão simplesmente no meio da legião de mineiros fundamentalistas.
Sim, é possível, por mais incrível que pareça, ser mineiro e fundamentalista ao mesmo tempo, desde que seja, eu acredito, alvinegro, inconfidente, Libertas Quae Sera Tamen, Libertadores da América.
Peço a devida licença, repito, para me dirigir ao Cuca, o cidadão Alexi Stival, curitibano, tido e havido como um homem azarado, mesmo que, passando a régua nos números e nas sensações, tenha feito milagres com o Goiás, com o Fluminense e, por razões estéticas, com um Botafogo que jogou mais bonito do que as lutas ferrenhas nos romances de capa e espada.
Nesta fase, os idiotas da objetividade, como me lembra o tio Nelson, te pregaram na cruz com o martelo da ignorância. Os bons ladrões da arbitragem, nada bíblicos, ajudaram a te imobilizar, não como injustiçado, mas como um chorão nato. Injustiça prego a prego, bem sabes.
Como me dizia o doutor Sócrates, nos nossos diálogos platônicos na madruga paulistana: "Esse sabe o jogo". Era o maior elogio que saia da boca do doutor, meu guia, meu guru, o amigo que me ensinou que a vida não cabe na prancheta. A vida é sempre mais escorregadia e amante do acaso do que qualquer fiel marido cerebral imagina.
Caro Cuca, na semana do papa em terras brasileiras, na semana em que nevou nos trópicos, na semana em que todos duvidavam --menos os atleticanos--, na semana em que morreu Djalma Santos, conquistastes não um título, conquistastes a liberdade, mesmo que tardia, do maldito estigma, logo tu, crente até as últimas consequências, logo tu que conheces dos mistérios dos cruéis diagnósticos desde a morte do pai, amém.
Tudo é possível, no Galo, o homem pode tudo, porque o galo é a metáfora penada, penosa, penitente, do poder e também da humildade, o mundo coberto de penas como nas vidas secas do romance de Graciliano Ramos.
Daqui por diante, Cuca, diga como um gênio da poesia, diga como no poema de Walt Whitman, um americano gente simples, pés descalços, um torcedor do Galo mesmo antes de o Galo ter nascido. Ele dizia, depois de muita merda na sua vida: "Daqui por diante não digo mais boa sorte, boa sorte sou eu".

A importância da vacina contra a gripe - Julio Abramczyk

folha de são paulo

A importância da vacina contra a gripe

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Nestes dias frios do nosso rigoroso inverno, podemos verificar a importância da vacinação contra a gripe realizada anualmente em São Paulo.
Na campanha deste ano, iniciada em abril e encerrada em meados de junho, foram imunizados cerca de 7 milhões de pessoas, dos quais 4,1 milhões eram idosos.
A proteção da vacina antigripal em relação à mortalidade de idosos com doenças cardíacas crônicas ou afecções pulmonares, no inverno, foi o tema de tese de doutorado da médica Cinta de Diego Cabanes, na Espanha.
Segundo o autora, no inverno, a vacinação reduziu em 16% o índice de mortalidade por doença pulmonar crônica e em 37% por cardiopatia crônica, como a insuficiência cardíaca ou os distúrbios das coronárias.
No congresso anual de insuficiência cardíaca da Sociedade Europeia de Cardiologia, em maio, em Lisboa, o médico David P. Kao, de Denver, EUA, mostrou que pacientes portadores da afecção internados no inverno apresentaram maior índice de mortalidade. O estudo teve por base a análise de 949.907 admissões hospitalares em um período de 14 anos.
Segundo os especialistas, a exposição às temperaturas muito baixas, sem proteção, resulta em um estreitamento das artérias que causa aumento da pressão.
Em idosos, isso pode resultar em morte, não só pela fragilidade do seu sistema cardiocirculatório como por eventual concomitância de uma infecção respiratória.
Julio Abramczyk
Julio Abramczyk, médico formado pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp, faz parte do corpo clínico do Hospital Santa Catarina, onde foi diretor-clínico. Na Folha desde 1960, já publicou mais de 2.500 artigos. Escreve aos sábados na seção 'Saúde'.

Fascismo em nome de Deus - Drauzio Varella

folha de são paulo
Há manhãs em que fico revoltado ao ler os jornais.
Aconteceu segunda-feira passada quando vi a manchete de "O Globo": "Pressão religiosa", com o subtítulo: "À espera do papa, Dilma enfrenta lobby para vetar o projeto para vítimas de estupro que Igreja associa a aborto".
Esse projeto de lei, que tramita desde 1999, acaba de ser aprovado em plenário pela Câmara e pelo Senado e encaminhado à Presidência da República, que tem até 1º de agosto para sancioná-lo.
Se não houver veto, todos os hospitais públicos serão obrigados a atender em caráter emergencial e multidisciplinar as vítimas de violência sexual.
Na verdade, o direito à assistência em casos de estupro está previsto na Constituição. O SUS dispõe de protocolos aprovados pelo Ministério da Saúde especificamente para esse tipo de crime, que recomendam antibióticos para evitar doenças sexualmente transmissíveis, antivirais contra o HIV, cuidados ginecológicos e assistência psicológica e social.
O problema é que os hospitais públicos e muitos de meus colegas, médicos, simplesmente se omitem nesses casos, de forma que o atendimento acaba restrito às unidades especializadas, quase nunca acessíveis às mulheres pobres.
O Hospital Pérola Byington é uma das poucas unidades da Secretaria da Saúde de São Paulo encarregadas dessa função. Lá, desde a fundação do Ambulatório de Violência Sexual, em 1994, foram admitidas 27 mil crianças, adolescentes e mulheres adultas.
Em média, procuram o hospital diariamente 15 vítimas de estupro, número que provavelmente representa 10% do total de ocorrências, porque antes há que enfrentar as humilhações das delegacias para lavrar o boletim de ocorrência.
As que não desistem ainda precisam passar pelo Instituto Médico Legal, para só então chegar ao ambulatório do SUS, calvário que em quase todas as cidades exige percorrer dezenas de quilômetros, porque faltam serviços especializados mesmo em municípios grandes. No Pérola Byington, no Estado mais rico da federação, mais da metade das pacientes vem da Grande São Paulo e de municípios do interior.
Em entrevista à jornalista Juliana Conte, o médico Jefferson Drezzet, coordenador desse ambulatório, afirmou: "Mesmo estando claro que o atendimento imediato é medida legítima, na prática ele não acontece. Criar uma lei que garanta às mulheres um direito já adquirido é apenas reconhecer que, embora as normas do SUS já existam, o acesso a elas só será assegurado por meio de uma força maior. Precisar de lei que obrigue os serviços de saúde a cumprir suas funções é uma tristeza".
Agora, vamos ao ponto crucial: um dos artigos do projeto determina que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico, também a "profilaxia da gravidez". Segundo a deputada Iara Bernardi, autora do projeto de lei, essa expressão significa assegurar acesso a medicamentos como a pílula do dia seguinte. A palavra aborto sequer é mencionada.
Na semana passada, o secretário-geral da Presidência recebeu em audiência um grupo de padres e leigos de um movimento intitulado Pró-Vida, que se opõe ao projeto por considerá-lo favorável ao aborto.
Pró-Vida é o movimento que teve mais de 19 milhões de panfletos apreendidos pela Polícia Federal, na eleição de 2010, por associar à aprovação do aborto a então candidata Dilma Rousseff.
Na audiência, o documento entregue pelo vice-presidente do movimento foi enfático: "As consequências chegarão à militância pró-vida causando grande atrito e desgaste para Vossa Excelência, senhora presidente, que prometeu em sua campanha eleitoral nada fazer para instaurar o aborto em nosso país".
Quem são, e quantos são, esses arautos da moral e dos bons costumes? De onde lhes vem a autoridade para ameaçar em público a presidente da República?
Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos decididos a impor suas idiossincrasias e intolerâncias em nome de Deus? Em que documento está registrada a palavra do Criador que os nomeia detentores exclusivos da verdade? Quanto sofrimento humano será necessário para aplacar-lhes a insensibilidade social e a sanha punitiva?
Drauzio Varella
Drauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Ilustrada".

Esperar do papa uma ruptura com o dogma católico é burrice - Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
OPINIÃO
MUITOS PAPAS SE TORNARAM NOTÁVEIS COMO POLÍTICOS E DIPLOMATAS, MAS ESSE PAPEL FOI ESVAZIANDO-SE MAIS E MAIS
CARLOS HEITOR CONYCOLUNISTA DA FOLHAThomas Mann, após receber o Prêmio Nobel pelo lançamento de "A Montanha Mágica" e ser considerado o maior escritor alemão depois de Goethe, visitou o papa Pio 12 e foi recebido como um chefe de Estado.
Estranhamente, ao se aproximar do ex-cardeal Pacelli, que fora núncio apostólico em Berlim durante a ascensão do nazismo, o escritor se ajoelhou diante da magra e hierática figura daquele que tem o seu pontificado discutido e até amaldiçoado por muitos.
Evidente que a mídia da época não o perdoou. A foto do escritor consagrado (e até amado), de joelhos diante do papa polêmico, escandalizou a inteligência da época e até hoje parece esquisita, ou pelo menos estranha. Criticado pela sua atitude dentro e fora da Alemanha, ele se explicou: "Ajoelhei-me diante do ícone branco do Ocidente".
Bem ou mal, a história da igreja é a própria história ocidental no que ela tem de bom ou reprovável. E foi diante desse símbolo que transcende a contingência de um indivíduo e da sua época que Thomas Mann adotou não a postura de um crente, mas a de um humanista que pressentia a barbaridade que o mundo em breve atravessaria.
Bem verdade que o mundo moderno desbastou em parte a figura de ícone, de rei dos reis e soberano em seus pronunciamentos e decisões.
Muitos papas se tornaram notáveis como políticos e diplomatas, dirimiram questões delicadas no cenário mundial, aliviaram tensões através de gestões muitas vezes sigilosas (basta lembrar a importância de João Paulo 2º e do presidente Ronald Reagan no esfacelamento da antiga União Soviética).
Mas esse papel político-diplomático foi perdendo importância, esvaziando-se mais e mais.
Afinal, como disse Stálin, o papa não tem divisões de infantaria e artilharia nem dispõe de um arsenal atômico. Mas, como acentuou Andrew M. Greeley, "paradoxalmente, foi o fato de perder o seu tradicional papel político e diplomático que acabou valorizando o papa perante os donos temporais da Terra: a liderança religiosa, pura e simples, acabou por ter enorme impacto político".
Pulando do plano da grande história para os dias recentes, temos agora um papa entre nós, recebendo homenagens e até veneração para desespero daqueles que, alegando o fato de ser o Brasil um estado laico, dizem que não se devia dar tanto espaço e dinheiro para receber o chefe supremo de uma religião que não representa a fé e o modo de outras religiões praticadas por grande parcela do povo brasileiro.
Curiosamente, quando Fidel Castro recebeu a visita de João Paulo 2º, fez tudo o que outros países costumam fazer: não só recebeu o visitante oficialmente, dentro e fora dos protocolos habituais, mas participou, de corpo presente, da missa rezada pelo papa ao lado de um amigo que não era cubano nem católico, o escritor Gabriel García Márquez. O mesmo aconteceu nas visitas de Bento 16 a países laicos e não laicos.
Questiúnculas à parte, o que sobra é o futuro que, de certa forma, pode ser melhorado ou piorado pela liderança espiritual de um homem que dá os primeiros passos no cenário mundial.
Esperar do papa Francisco uma ruptura com o dogma e a moral do cristianismo em sua versão católica é mais que um despropósito: é uma burrice. Ele está comprometido pela fé e pelo seu estado sacerdotal com um corpo de doutrinas que atravessou mais de 2.000 anos e pelo qual foi eleito não democraticamente, mas legitimamente pelos representantes da comunidade católica universal.
Em 1980, acompanhei a primeira visita de João Paulo 2º ao Brasil. Por interferência de dom Eugênio Sales, fiz parte da comitiva papal e guardei profissionalmente, como jornalista, as impressões de sua passagem por 13 cidades brasileiras.
O que me ficou não teve nada com a visita em si. Ao voltar para Roma, após um passeio pelo rio Amazonas que o deslumbrou, a um grupo pequeno de jornalistas que o rodeavam em sua cabine no avião da Alitalia o papa, em certo momento, desabafou: "Depois de tudo o que vi e ouvi, nem sei ao certo o que devo fazer em Roma".