sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Eliane Cantanhêde

folha de são paulo
Os ventos
BRASÍLIA - A onda está mudando? Dilma está saindo do sufoco?
É cedo para certezas, mas há forte empenho nessa direção e os ventos, que sempre interferem nas ondas, parecem mais favoráveis a ela.
Desde que sua popularidade começou a cair por causa da economia --e depois despencou, com os protestos--, a presidente não sai da TV, do rádio, dos jornais, da internet, ocupando todos os espaços que a oposição não tem como disputar.
As guerras da presidente parecem bem marqueteiras: são polêmicas e geram reações, mas têm ressonância na maioria da população --ou do eleitorado--, que aprova um plebiscito, a reforma política, os royalties para a educação e a queda de braço com os médicos para que mais municípios sejam atendidos. Boas causas.
Dilma também passou a conversar (dizem que está até aprendendo a ouvir) com o PMDB e os partidos aliados. Essa é sua prioridade, já que o PT vem por gravidade. Sua alternativa é apoiar Dilma ou apoiar Dilma.
Ela até liberou uma bolada para os parlamentares e, como é melhor ceder do que ser derrotada, negocia ajustes no projeto do Orçamento impositivo, pelo qual os deputados e senadores estabelecem suas emendas e o governo tem de cumprir.
Ao mesmo tempo, começa a ser interrompida a sequência, que parecia interminável, de notícias ruins na economia. Em vez de "o pior em duas décadas" e o "mais baixo em tantos anos", há índices mais tranquilizadores. O IPCA (um dos indicadores de inflação) ficou perto de zero em junho, o preço da cesta básica também caiu por todo lado e a produção industrial subiu em 10 das 14 capitais pesquisadas.
Para completar, os protestos das ruas refluíram de um lado e a rede da internet recrudesceu de outro, querendo arrancar o sangue dos tucanos no escândalo da Siemens.
Não se sabe o que acontecerá com os ventos e com Dilma nas próximas pesquisas, mas a mudança de clima na política já dá para sentir.

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    Adesão envergonhada
    SÃO PAULO - A USP decidiu participar do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), o teste do MEC usado para avaliar instituições de ensino superior. É uma boa notícia, já que a USP era a última universidade brasileira que se recusava a submeter-se à prova.
    A adesão é meio envergonhada. Os alunos da universidade paulista não serão obrigados a fazer o exame, ao contrário dos de outras instituições, e os resultados obtidos permanecerão secretos nos primeiros anos. Essa foi, imagino, a fórmula encontrada para vencer as resistências internas, que não eram poucas nem despropositadas.
    De um modo geral, o Inep, o órgão vinculado ao MEC responsável por avaliações e pesquisas educacionais, faz um trabalho de alto nível e conseguiu, desde que foi reformulado em meados dos anos 90, transformar o Brasil de um deserto de estatísticas pedagógicas num país que tem números para tudo. O fato de não sermos capazes de usar essas informações para fazer o sistema funcionar direito é um outro problema.
    Isso dito, é importante frisar as falhas do Enade. A mais grave é que o aluno tem pouco ou nenhum compromisso com a avaliação. Sua obrigação é comparecer ao local da prova, mas não fazê-la com seriedade. Não raro os formandos combinam entre si de boicotar o exame, por razões ideológicas ou para pressionar a direção de suas escolas. Essa dificuldade poderia ser minorada se o desempenho de cada aluno nesse teste fosse gravado em seu diploma.
    Outro problema grave é o caráter trienal da avaliação. Algumas faculdades manipulam o ritmo de aprovação de seus alunos de modo a assegurar que os piores nunca se formem nos anos em que a instituição é avaliada e, assim, não precisem fazer a prova. O remédio aqui seria tornar o exame anual, em que pese triplicar os custos e criar dificuldades logísticas. Como dizia o economista Milton Friedman, não há almoço grátis.

      Delação mais premiada - Editoriais FolhaSP

      folha de são paulo
      Delação mais premiada
      Deputados distritais aprovaram uma lei que estabelece a oferta de prêmio em dinheiro a quem denunciar casos de corrupção no governo do Distrito Federal. Os delatores, que poderão levar 10% do valor que for recuperado, não podem ser autores nem coautores do crime.
      A polêmica medida está agora nas mãos do governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), que pode sancioná-la ou vetá-la.
      O diploma entra na categoria das chamadas leis de delação premiada, mas, diferentemente dos dispositivos federais, que beneficiam com diminuição de pena criminosos arrependidos, pretende estimular a denúncia por pessoas que não tiveram participação no delito. Difícil não lembrar do famoso "reward" (recompensa) que encimava os cartazes de "procurado" no velho oeste americano.
      Talvez por ser relativamente nova no Brasil, a filosofia da delação premiada ainda causa incômodo. No que diz respeito às normas que favorecem bandidos penitentes, a origem do desconforto é clara: elas incentivam a traição, conduta tão negativa que provoca repúdio mesmo quando ocorre entre criminosos e em benefício da sociedade.
      A lei brasiliense conta com mecanismo mais sutil. Como o delator não pertenceria à quadrilha, não se pode falar em traição. A ideia, ainda assim, é perturbadora.
      Em tese, qualquer pessoa que tome conhecimento de um crime tem o dever moral de denunciá-lo às autoridades competentes --se se tratar de servidor público, há ainda um dever legal. Ao colocar uma etiqueta de preço num ato que deveria ser automático, a regra de alguma forma rebaixa a cidadania.
      Exercícios teóricos sobre comportamentos éticos, porém, funcionam melhor nos manuais de filosofia do que na prática. No mundo real, delatar um crime envolve riscos. No mínimo, de ser tachado de alcaguete. Na pior das hipóteses, a própria vida é ameaçada.
      Sem estímulos palpáveis, como recompensas em dinheiro ou vantagens processuais, a maioria tende a optar pela mais confortável inércia --ou pela denúncia anônima, expediente com frequência contestado nos tribunais.
      Para combater com mais eficiência os múltiplos e variados esquemas de corrupção e o crime organizado, a sociedade precisa reconhecer que, dentro de certos limites, determinadas medidas pragmáticas constituem um avanço.
      Se bem regulamentada, a recompensa pode representar importante ferramenta --e impulsos morais automáticos não deveriam impedi-la.
        EDITORIAIS
        editoriais@uol.com.br
        Celebração inflacionada
        Alta de preços em julho é a menor em três anos e Dilma comemora resultado, mas governo está longe de fazer a economia deslanchar
        Compreende-se que a presidente Dilma Rousseff tenha comemorado o recuo da inflação em julho. Foi, afinal, o primeiro resultado expressivo desde março, quando a taxa acumulada em 12 meses superou o limite de tolerância definido pelo Conselho Monetário Nacional.
        Para Dilma, houve um "estardalhaço" com a alta dos preços nos meses anteriores, mas a inflação estaria "bastante sob controle", a julgar pelos dados mais recentes.
        Há certo otimismo nas declarações presidenciais. Sim, a alta do IPCA em julho, de 0,03%, foi a menor variação mensal em três anos. Além disso, é verdade que, considerados os últimos 12 meses, o índice caiu para 6,27% --abaixo, portanto, do teto da meta, de 6,5%.
        Não se pode ignorar, porém, que para a desaceleração contribuíram fatores episódicos. O congelamento das tarifas de ônibus e metrô teve grande impacto no mês e respondeu por ao menos 0,10% da redução. A queda do preço dos alimentos também ajudou.
        Permanece, no entanto, o principal fator estrutural de pressão inflacionária: os serviços continuam a subir no ritmo de 8,5% ao ano, em decorrência da indexação de contratos e do mercado de trabalho ainda aquecido.
        Outros aspectos também merecem consideração. Um deles é a desvalorização cambial. Com a queda do real diante do dólar, produtos importados --ou compostos de peças fabricadas no exterior-- ficarão mais caros. Se a expectativa de recuperação da economia americana ganhar corpo, esse quadro deve se agravar.
        Tudo somado, pouco mudou, a despeito de julho, no duplo descompasso observado na economia brasileira. Enquanto a alta dos preços convive com um crescimento pífio do PIB, a inflação não se coaduna com o padrão internacional.
        Por ironia, se há um fator a mitigar o risco inflacionário, é justamente a fraqueza da atividade econômica doméstica. A tênue expectativa de recuperação que vigorou no primeiro semestre foi desfeita pela alta de juros internos e externos, pelo câmbio desvalorizado, pela queda abrupta da confiança das famílias e das empresas e pela lenta elevação do desemprego.
        Dado o ambiente de incerteza, a estratégia mais prudente do Banco Central, no curto prazo, parece ser manter a alta dos juros, a fim de consolidar a trajetória de queda dos preços, que ora se iniciou. Mas isso pouco adiantará se o governo não der um basta na prática de manipular as contas públicas.
        Se conseguir recuperar a confiança do setor privado na economia brasileira, a presidente Dilma Rousseff --e todo o país-- terá, de fato, bons motivos para comemorar. Mas essa tarefa, infelizmente, é mais árdua, e a margem de manobra do governo é cada vez menor.

          A casa do respeitável ET - Paulo Peixoto

          folha de são paulo

          Governo investe mais de R$ 1 mi em museu de ET e obra é abandonada


           
          PAULO PEIXOTO
          ENVIADO ESPECIAL A VARGINHA (MG)
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          A presidente Dilma disse nesta semana ter "respeito pelo ET de Varginha", mas o extraterrestre que teria aparecido na cidade mineira em 1996 anda sem prestígio por lá, a julgar pelo estado de uma obra em homenagem ao ilustre "visitante".
          O "Museu do ET" teve investimento de mais de R$ 1 milhão em recursos federais e é hoje apenas o esqueleto de uma nave espacial enferrujada, cercada por mato e que serve de abrigo para nove cachorros.
          No local, em meio ao entulho da obra, uma placa avisa: "Aqui tem investimento do governo federal".
          Localizado no alto de um morro com vista para a cidade, o memorial deveria contar toda a saga do suposto ET.
          Em 2007, o Ministério do Turismo repassou ao município R$ 828,7 mil (R$ 1,1 milhão, em valores atualizados) para a obra, tocada até 2010.

          Museu do ET de Varginha fica abandonado

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          Paulo Peixoto/Folhapress
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          além do museu, políticos da cidade já avaliam a construção de um teleférico ligando o memorial à parte baixa de Varginha
          A gestão anterior, do PT, afirmou não ter a contrapartida de R$ 165,7 mil e paralisou a construção do museu.
          O governo atual, do PTB, afirmou ter enviado projeto à Caixa Econômica Federal para saber quanto mais será preciso para concluir a nave.
          Pelo convênio original, tudo deveria estar pronto até dezembro deste ano, mas apenas 40% está concluído.
          Moradores de Varginha ouvidos pela Folha defenderam o culto à lenda do ET, mas condenaram o desperdício de dinheiro público. Muitos gostariam que o local fosse transformado em outro atrativo.
          "Isso não tem lógica, já tem coisa demais do ET na cidade", disse a cozinheira Adriana Barone, 36, em referência à caixa d'água em forma de disco voador, estátuas, pinturas e quinquilharias do ET espalhadas por Varginha.
          "Tudo bem manter a lenda e a expectativa de vida além da nossa. Mas jogaram dinheiro fora, e, se começaram, têm que acabar", disse o vigilante Eduardo Alves, 37.
          Mudar o objeto do convênio com o ministério não é possível nem é do interesse da cidade, disse o vice-prefeito, Vérdi Melo (PSDB), que se animou após a presidente Dilma ir à cidade anteontem e pregar "respeito" ao ET.
          "Tenho muito respeito pelo ET de Varginha. E sei que aqui quem não viu conhece alguém que viu ou tem alguém na família que viu, mas de qualquer jeito esse respeito pelo ET de Varginha está garantido", disse a presidente a rádios locais.
          Agora, além do museu, políticos da cidade já avaliam a construção de um teleférico ligando o memorial à parte baixa de Varginha. A reportagem não localizou o prefeito anterior, nem representantes do PT local, para informações sobre a interrupção da obra.
          NOVO CRONOGRAMA
          O Ministério do Turismo disse que a obra consumiu até agora R$ 304 mil, e que a liberação do restante do dinheiro depende da apresentação de um novo cronograma pela prefeitura.
          O suposto ET teria sido visto na cidade por três garotas em janeiro de 1996. À época, elas disseram ter avistado a criatura num terreno, em episódio nunca esclarecido.