sábado, 10 de agosto de 2013

Painel das Letras - Raquel Cozer

folha de são paulo
Breve e longa história
É irônico que se chame "Minha Breve História" a autobiografia de um homem que chegou aos 71 anos após ouvir dos médicos que não passaria dos 25, mas foi assim que Stephen Hawking, uma das maiores lendas da física, batizou o livro que lança em setembro nos EUA. O título, previsto para 1º de outubro pela Intrínseca, é uma referência ao seu clássico "Uma Breve História do Tempo", que ganha reedição pela casa carioca em 2014. No novo livro, Hawking, tão conhecido pela doença degenerativa dos nervos que o prende à cadeira de rodas quanto pela descoberta de que buracos negros somem com o tempo, descreve sua evolução intelectual desde a mais tenra infância.
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/ FOGO EM QUADRINHOS
INFANTIL – ‘Charlie Malarkey e a Máquina de Umbigos’, de 1986, parceria de William Kennedy com o filho Brendan, ganha tradução de Cadão Volpato e ilustrações de Jaca em setembro, pela Cosac Naify
Estudar HQs na USP dos anos 1970 não era para os fracos. Seis professores que enfrentaram preconceito na própria academia lembram agruras daqueles tempos em "Os Pioneiros no Estudo de Quadrinhos no Brasil" (Criativo), a sair na segunda edição das Jornadas Internacionais das Histórias em Quadrinhos, que começa no dia 20.
José Marques de Melo, por exemplo, lembra que acervo de 20 mil títulos, considerado subversivo, quase foi parar na fogueira --na mesma USP que hoje sedia as jornadas. Álvaro de Moya, Antonio Cagnin, Moacy Cirne, Sonia Luyten e Waldomiro Vergueiro completam o time ouvido no livro, organizado por Vergueiro, Paulo Ramos e Nobu Chinen.
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INFANTIL Charlie Malarkey e a Máquina de Umbigos', de 1986, parceria de William Kennedy com o filho Brendan, ganha tradução de Cadão Volpato e ilustrações de Jaca em setembro, pela Cosac Naify
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Planos De janeiro até o final deste mês, o site da Livraria Martins Fontes Paulista terá vendido o equivalente a todo o ano de 2012. Foram mais de 30 mil livros só no primeiro semestre --com boa força da promoção de 50% em títulos da Companhia das Letras, que garantiu a saída de mil volumes em apenas três dias de abril.
Planos 2 A loja planeja começar a vender e-books no início de 2014. Negocia parceria com a Xeriph. Antes disso, deve se tornar uma das parceiras da Wal-Mart na venda de livros pelo site. Esta vinha sendo feita via Saraiva, mas atualmente está suspensa.
Quem é vivo... Miguel Roza, sobrinho de Fernando Pessoa (1888-1935), vem ao país para Flipoços 2014, em Poços de Caldas. Planeja falar sobre a vida familiar do tio escritor, com quem conviveu até os cinco anos, e sobre a relação de Pessoa com o ocultista Aleister Crowley (1875-1947), tema de seu livro "Encontro Magick" (2001).
...sempre aparece Roza, que além de escritor é cirurgião vascular, aceitou o convite após o meio de campo do best-seller português Luís Miguel Rocha, que veio neste ano e volta em 2014.
Cartazes "O poema quer ser útil", "Todos por um poema melhor do que este" e outros 24 poemas-protestos de Nicolas Behr, sucesso na Flip, compõem edição digital que a Ficções prepara para o poeta levar à Feira de Frankfurt, em outubro. Ele é um dos 70 autores que representarão o Brasil. E a editora lança em breve site para quem quiser imprimir, de graça, os cartazes.
Estávamos prontos A capa da antologia "Estamos Prontos", descrita na coluna passada, não agradou aos autores reunidos no volume, que sai em outubro. A editora Faces queria estampar a foto de um manifestante em Brasília, mas os antologiados reclamaram, já que os contos nada têm a ver com os protestos. Democrática, a casa voltou atrás. Quem também recuou foi Cecilia Giannetti, que pediu para sair da antologia.
Já era tempo Três eleições após aquela em que perdeu vaga na Academia Brasileira de Letras para Merval Pereira, em 2011, Antônio Torres é o favorito para a cadeira deixada, há uma semana, pelo crítico musical Luiz Paulo Horta. Depois de dois jornalistas (Merval e Rosiska Darcy de Oliveira) e um sociólogo (FHC), os imortais sentem falta de um nome literário.

    Casa do Povo, 60, volta à cena cultural - Iara Biderman

    folha de são paulo
    Casa do Povo, 60, volta à cena cultural
    Centro cultural no Bom Retiro, que abrigava escola de primeiro grau e teatro, teve seu auge nos anos 1960-1970
    Projeto para reforma do edifício modernista, na rua Três Rios, foi oferecido de graça pelo arquiteto Isay Weinfeld
    IARA BIDERMANDE SÃO PAULONo bairro povoado desde sempre por imigrantes, o prédio de fachada modernista pode passar batido pelos que frequentam o Bom Retiro em busca de roupas baratas vendidas no atacado.
    Dentro do edifício, que completa 60 anos neste mês, a história é outra. Gente que viveu a época de ouro do lugar --onde funcionava uma escola, um teatro e um centro de cultura-- e pessoas que não viveram nada daquilo batalham para ocupar o local.
    A Casa do Povo, nome de guerra do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, foi criada por imigrantes judeus progressistas e de várias correntes de esquerda que se estabeleceram no Bom Retiro a partir da Primeira Guerra.
    O auge do centro foram as décadas de 1960-1970 e a decadência, os anos 1980.
    Uma foto do prédio degradado postada no Facebook, há cerca de três anos, foi a deixa para que ex-alunos do Scholem Aleichem, a escola da Casa do Povo, voltassem ao local e iniciassem o projeto de revitalização.
    "Primeiro, tivemos que sanear financeiramente. Agora, a coisa ganhou vida, começou a pulsar de novo", diz o neurologista Jairo Degenszajn, presidente do conselho deliberativo da Casa do Povo.
    A ajuda surge de vários lados. O projeto de reforma do prédio está sendo feito gratuitamente pelo arquiteto Isay Weinfeld.
    O francês Benjamin Serousse, que foi curador do Centro de Cultura Judaica, soube do trabalho e juntou-se voluntariamente ao conselho. Serousse tem usado seus contatos na área cultural para atrair parceiros e atenção ao centro.
    Em 2012, o Teatro da Vertigem estreou "Bom Retiro 958", peça ensaiada no local e que acabava no cenário de um teatro em destroços: o Taib, da Casa do Povo.
    Grupos de dança começaram a usar o espaço para residência artística. Um deles, o Lote#2, que entrou para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, fez sua apresentação do projeto lá, em junho.
    O enorme salão onde o grupo se apresentou, antigamente dividido em salas de aula, ganhou pintura nova e extintores de incêndio patrocinados pelo banco.
    Em julho, a Feira de Arte Impressa Tijuana reuniu mais de 50 expositores no prédio.
    Novas parcerias também alimentam o projeto de revitalização, diz Mila Zacharias, da Anamauê, empresa de produção e consultoria em artes que também se uniu voluntariamente ao grupo.
    Uma dessas parcerias, com a Bienal de Arquitetura e o Instituto Goethe, vai levar os expositores alemães da bienal para as salas da Casa do Povo, em outubro.
    VANGUARDA
    As origens do instituto cultural são anteriores à construção do prédio, projeto de Mange, Martins e Engel.
    Pai da Casa do Povo, o Centro Cultura e Progresso realizou, por exemplo, a primeira exposição de HQ no Brasil, em 1951, que contou com originais de autores como Alex Raymond ("Flash Gordon") e Al Capp ("Ferdinando").
    A escola Scholem Aleichem, outra iniciativa do grupo, foi fundada em 1934, com uma proposta pedagógica vanguardista para a época.
    O teatro Taib veio depois. Projetado pelo arquiteto Jorge Wilheim, foi inaugurado em 1960. Naquela década e na seguinte, a atividade cultural e política era intensa.
    Nos anos 1980, por razões que vão do êxodo da comunidade judaica do bairro ao isolamento ideológico das esquerdas, a atividade minguou, a escola fechou e o centro se esvaziou.
    Na boa fase atual, os 60 anos da Casa do Povo serão comemorados nos dias 23 e 24 com seminários e debate com a urbanista Raquel Rolnik sobre as necessidades culturais da cidade.
    "A região voltou a entrar no circuito cultural de São Paulo, mas faltam espaços menos tradicionais. A Casa do Povo ressurge em boa hora", diz Degenszajn.
      DEPOIMENTO
      'Minha infância e adolescência foram balizadas pelo instituto'
      BOB WOLFENSONESPECIAL PARA A FOLHA"Nasci e me criei no Bom Retiro, bairro central da cidade de São Paulo, onde meus avós maternos chegaram, diretamente da Polônia, nos anos 1920, fugindo das perseguições aos judeus e da vida dura na Europa do período entreguerras.
      Meu mundo ia da rua Bandeirantes ao Jardim da Luz, onde brincava e pegava girinos nos laguinhos existentes na época; e da rua Afonso Pena até a esquina da rua Silva Pinto com a da Graça. Nesse quadrilátero de aproximadamente dez ruas vivíamos entre judeus e poucos brasileiros. Aos meus olhos de menino, o Bom Retiro era o mundo todo.
      Minha família era ligada a um setor progressista laico da comunidade, que aos poucos foi se estabelecendo no bairro, co-dirigindo o ICIB, Instituto Cultural Israelita Brasileiro, e sua filiada, a escola Scholem Aleichem.
      Ambos ocupavam um prédio na rua Três Rios e eram redutos importantes do pensamento de esquerda.
      Ao contrário dos mais sectários, nos sentíamos amalgamados à cultura brasileira e, seguindo uma vocação secular dos judeus progressistas, queríamos nos integrar ao lugar que havíamos escolhido. Ser brasileiro era um sentimento genuíno.
      O ICIB, também conhecido como Casa do Povo, em uma clara alusão ao jargão socialista de seus congêneres soviéticos, era muito atuante em São Paulo, extrapolava os limites do bairro e foi um foco importante de resistência à ditadura no final dos anos 1960 e princípio dos 1970.
      Minha infância e minha adolescência foram balizadas pelo instituto.
      Meus pais, meus tios e todos os agregados da família eram muito ativos na Casa do Povo. Foi na escola Scholem Aleichem que estudei até os dez anos. Adolescente, fiz minha primeira exposição de fotografia no prédio.
      Fiquei muito tempo sem ir ao bairro. Voltei para fazer as fotos mais recentes da exposição "Bom Retiro e Luz: Um Roteiro, 1976 "" 2011" e me deu uma tristeza danada.
      O prédio da rua Três Rios só não tinha virado escombro por esforço de alguns antigos fundadores voluntários que ainda vivem no bairro.
      Eu já vi algumas tentativas de reerguimento da Casa do Povo. A atual parece a mais consistente."

        Drauzio Varella

        folha de são paulo
        Maratona do Rio
        É preciso ser de ferro para não sentar num quiosque, pedir um chope e mandar a maratona para o inferno
        Pela primeira vez, corri a maratona do Rio de Janeiro. Na concentração que a antecede, um corredor me alertou com a isenção habitual dos cariocas quando se referem à cidade:
        -- Doutor, você vai correr a maratona mais bonita do mundo.
        Na noite anterior, Gabriel, meu enteado, decidira ir junto para correr os primeiros 21 quilômetros, mesmo estando destreinado.
        No meio dos corredores à espera da partida, todas as vezes sinto um misto de excitação e medo. Terei forças e sabedoria para completar os 42 quilômetros?
        Maratonas exigem planejamento racional: a cada instante é preciso auscultar o corpo, avaliar o cansaço e calcular a velocidade em função da distância que falta percorrer.
        Depois de uma volta rápida pelas ruas do Recreio, a massa de camisetas coloridas chegou à avenida que beira o mar. Ao longe, o morro Dois Irmãos e a pedra da Gávea, imponentes, indiferentes às limitações da condição humana. Já alto, o sol batia de frente.
        No começo da prova, é fácil identificar os principiantes: são animados, puxam conversa, dão pulos e gritos de alegria. Em contraste, os mais experientes vão calados, concentrados em cada passada.
        Nessas horas, os pensamentos são fragmentados, surgem do nada, para em segundos dar lugar a outros, tão irrelevantes quanto os que substituíram e quanto os que virão em seguida. Alguns não passam de palavras de ordem que reverberam na cabeça, repetitivas como mantras.
        Talvez seja esse o encantamento maior das corridas longas: uma espécie de meditação transcendental em que o cérebro passa a funcionar em modo letárgico, atento apenas aos reclamos do corpo, condição inatingível no estado sedentário.
        Os quilômetros se sucedem. Meus mamilos, que esqueci de proteger com esparadrapo, começam a arder. Os prédios à esquerda, os coqueiros, a praia da Barra e o azul que se perde no horizonte, com os Dois Irmãos e a pedra da Gávea sempre no mesmo lugar. Já havíamos corrido 15 quilômetros e eles lá, mastodônticos, só para dar a impressão de que estamos parados.
        Quando atingimos o quilômetro 18, Gabriel virou-se para mim: "Vai embora, estou muito cansado". Respondi que não tinha pressa, e reduzimos a velocidade. No quilômetro 20, ele lamentou: "Não chega nunca mais".
        O marco do quilômetro 21 foi um alívio para ele, que saiu da pista com um ar de felicidade dos tempos de criança. Para mim, nem tanto, estava apenas na metade do martírio.
        Ver a Pedra da Gávea desaparecer por trás dos Dois Irmãos foi um alento. Saber que a paisagem mudaria deu ânimo para enfrentar a subida do Joá, nem tão íngreme, mas longa.
        Na descida junto ao Morro do Vidigal, vem em sentido contrário um grupo de rapazes. Um deles, de bermuda, sem camisa, cordão de ouro no pescoço, latinha de cerveja na mão, reclama:
        -- Vocês aí na moleza da descida, enquanto eu, aqui, sofrendo nessa subida.
        Depois de percorrer 30 quilômetros, a maratona chega ao Leblon, com o calçadão lotado de gente em movimento. Na plateia, ouvi o chamado de minha mulher. Um beijo na boca mesmo de passagem, numa hora dessas, revitaliza mais do que glicose na veia.
        Aí começa a fase mais dura da corrida. Há que percorrer o Leblon e Ipanema, para depois correr Copacabana inteira. É preciso ser de ferro para não sentar num daqueles quiosques à beira-mar no meio de gente bonita, pedir um chope e mandar a maratona para o inferno ou para mais longe.
        Ao chegar à praia de Botafogo, com o Pão de Açúcar e os barcos na enseada, minhas pernas já não me pertencem, meus mamilos sangram, o corpo é um fardo torturante. A fisionomia de meus companheiros de infortúnio é lamentável.
        A praia faz uma curva sem fim, que eu nunca notara ao passar de carro. Fico com ódio dela, dos barquinhos, do Pão de Açúcar, do sol, da areia e do maldito bondinho.
        Quando entramos no Aterro do Flamengo, senti que a estratégia havia dado certo: apesar dos 33 graus, terminaria a prova num tempo razoável.
        Mal atravessei a linha de chegada, fui invadido por uma sensação de paz celestial, senti um tuim nos ouvidos igual a barato de droga, com vista para o Cristo Redentor.
        Caminhei de volta para pegar um táxi. O Pão de Açúcar continuava lá, com o bondinho e os barcos. O rapaz tinha toda razão, foi a maratona mais bonita que já corri.

        Popularidade de Dilma sobe de 30% para 36%,diz Datafolha

        folha de são paulo
        Dilma recupera 6 pontos de popularidade, diz Datafolha
        Após perda de 35 pontos com protestos, aprovação ao governo volta a crescer
        Prestígio é maior entre os mais pobres, mas foi entre os mais ricos que a avaliação positiva cresceu mais
        MARIO CESAR CARVALHODE SÃO PAULODepois de uma queda de 35 pontos percentuais na aprovação de seu governo, a presidente Dilma Rousseff teve uma ligeira recuperação, segundo pesquisa Datafolha concluída ontem.
        O índice dos que consideram o governo ótimo ou bom subiu de 30% no final de junho, no auge dos protestos, para 36% agora.
        A aprovação a Dilma é maior entre os mais pobres. Entre os que ganham até dois salários mínimos, 41% aprovam o governo.
        Entre os mais ricos, aqueles que ganham acima de dez salários mínimos, a aprovação tem o menor índice (29%), mas foi nessa faixa que Dilma teve o maior crescimento entre aqueles que consideram a sua gestão ótima/boa. O aumento foi de oito pontos percentuais.
        O ápice da aprovação de Dilma ocorreu em março, quando 65% consideravam a sua gestão ótima ou boa.
        Na pesquisa deste mês, o índice dos que julgam o seu governo ruim/péssimo variou de 25% para 22% e aqueles que o consideram regular oscilou de 43% para 42%.
        Há menos otimismo agora dos benefícios que os protestos podem trazer tanto para o entrevistado como para os brasileiros. No fim de junho, 65% diziam que a onda traria mais benefícios pessoais do que prejuízos; agora são 49%. Em relação aos brasileiros, o índice caiu de 67% para 52%.
        A avaliação do governo Dilma na área econômica também teve uma pequena recuperação. A aprovação subiu de 27% para 30%, um ponto acima da margem de erro do levantamento, de dois pontos percentuais.
        O Datafolha mostra que estancou o movimento dos que acreditam que a inflação vai aumentar. Entre o final de junho e agosto, esse índice oscilou de 54% para 53%. O pessimismo com a inflação estava em crescimento desde dezembro do ano passado.
        Há mais otimismo com o emprego, ainda de acordo com a pesquisa. Caiu cinco pontos percentuais o índice de brasileiros que dizem acreditar que o desemprego vai aumentar, de 44% para 39%.
        Também houve uma queda no contingente daqueles que acham que o poder de compra dos salários vai diminuir (de 38% para 32%).
        Os brasileiros são mais otimistas com a sua situação econômica do que com as expectativas para o país.
        Subiu de 44% para 48% os que acreditam que sua situação vai melhorar. Já a opinião sobre a situação do país segue igual a junho (oscilou de 31% para 30%).
        A pesquisa foi feita entre quarta-feira e ontem em 160 municípios do país, com 2.615 entrevistados.