domingo, 11 de agosto de 2013

Onde os astros do cinema investem seus milhões? - Rodrigo Salem

folha de são paulo
Atores como Mark Wahlberg apostam em negócios paralelos aos filmes
Ashton Kutcher tem ações em empresas bilionárias e Sandra Bullock toma conta de bistrô e doceria no Texas
RODRIGO SALEMDE SÃO PAULOEm uma carreira na qual a diferença entre o sucesso e o fracasso pode estar nos números de estreia de um filme, astros hollywoodianos estão investindo em negócios paralelos ao mundo do cinema.
Afinal, alguns atores e atrizes têm carreiras curtas. Outros cineastas dependem de resultados constantes.
Orson Welles (1915-1985), por exemplo, considerado um dos maiores cineastas da história, morreu cheio de dívidas. Não havia dinheiro nem para o funeral, realizado nos fundos de um prédio caindo aos pedaços em Los Angeles.
"Não tem um dia em que não penso no futuro e no da minha família. Eu preciso ter disciplina para ser bom nos negócios e, graças a Deus, estão todos indo bem", conta o ator Mark Wahlberg.
Ele ganhou US$ 30 milhões (R$ 68 milhões) para protagonizar "Transformers 4", previsto para 2014, mas já viu o irmão Donnie amargar o fracasso financeiro como membro da boyband New Kids on The Block.
Wahlberg possui vários "planos B". Além de produzir séries, é dono de uma marca de água energética chamada AQUAhydrate, possui a rede de fast-food Wahlburger, que começou em Boston, sua cidade natal, e está ganhando unidades até na Inglaterra, e mantém um restaurante para a mãe gerenciar.
"Sou um ator, mas sou um homem de negócios", diz o astro em Miami, ao promover o longa "Sem Dor, Sem Ganho", que estreia no Brasil em 23/8 e teve um resultado fraco nos EUA, com US$ 49 milhões (R$ 111 milhões), número abaixo do esperado para um longa com Wahlberg e The Rock.
Mas o ator não perdeu a oportunidade: aproveitou o tema do filme sobre personal trainers criminosos para distribuir vitaminas com sua marca (Marked) para a imprensa.
Difícil é estimar quanto cada ator lucra com seus negócios paralelos, já que são empresas privadas e sem obrigação de divulgar resultados. No entanto, há astros que ganham mais como empreendedores que no cinema.
Jessica Alba ("Sin City"), atriz que nunca passou para o primeiro time de Hollywood, tem uma empresa de vendas online de produtos não tóxicos para bebês que rende US$ 27 milhões ao ano.
Ashton Kutcher é o ator mais bem pago da TV, com US$ 700 mil (R$ 1,6 milhão) por episódio de "Two and a Half Men", mas ele pode lucrar muito mais com ações de empresas de tecnologia como Skype (vendida por US$ 8 bilhões para a Microsoft) e Airbnb, avaliada hoje em US$ 1 bilhão (R$ 2,3 bilhões).
Por outro lado, há celebridades que investem em suas paixões. Sandra Bullock, que fatura US$ 20 milhões (R$ 45 milhões) por filme, sempre é vista em seu bistrô e na sua doceira em Austin, Texas.
Hugh Jackman ("Wolverine") compra café de um fazendeiro etíope para a sua cafeteria The Laughing Man, em Nova York, e repassa os lucros para uma organização africana de combate à pobreza.

    MTV reúne velha guarda para dizer adeus - Silvana Arantes, Zeca Camargo e Keila Jimenez

    folha de são paulo
    Ex-VJs gravam retrospectiva de suas participações no canal, que encerra transmissão com sinal aberto em setembro
    Apresentadora do primeiro clipe, em 1990, Astrid pediu para apresentar o último: 'Eu acendi, eu apago'
    SILVANA ARANTESDE SÃO PAULO
    Não foi preciso perguntar quem iria apagar a luz. "Eu acendi, eu apago. Pode vir para mim essa responsa'."
    Assim Astrid Fontenelle, ex-VJ da MTV Brasil, se ofereceu parar apresentar o último clipe a ser exibido pela emissora em sinal aberto, no próximo dia 30 de setembro.
    Foi Astrid, hoje no GNT ("Saia Justa", "Chegadas e Partidas"), quem apresentou o clipe de estreia do canal, em 20 de outubro de 1990 --Marina Lima interpretando "Garota de Ipanema" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes).
    A oferta de Astrid foi feita ao diretor de conteúdo e programação da MTV Brasil, Zico Goes, quando ele a convidou para gravar o "My MTV", série de retrospectivas com ex-VJs que dará "uma cara vintage'" à etapa final das transmissões da emissora, como diz Goes.
    A MTV sairá do ar em sinal aberto porque o grupo Abril, que licenciava a marca de sua proprietária, a americana Viacom, optou por não renovar o contrato, já que a operação era deficitária.
    A Viacom assumiu o controle da MTV Brasil e planeja relançá-la na TV por assinatura, no dia 1º de outubro.
    Para o "My MTV", que deve estrear no próximo dia 19, Goes diz que convidou "ex-VJs literalmente de A, de Astrid, a Z, de Zeca Camargo".
    Zeca deixou o posto de editor-assistente da Folha "Ilustrada" em 1990, para comandar o jornalismo da MTV Brasil. "Era uma oferta irrecusável --um canal que só ia falar de música, um assunto que eu adorava", diz ele.
    Atual apresentador do "Fantástico" (Globo), Zeca vê o início da MTV Brasil como "a época da inocência", em que "a possibilidade de arriscar era fascinante".
    A chance do risco era dada pela combinação "audiência pequena e muito barulho", que marcava a emissora. "O que dava certo a gente repetia. O que não dava, a gente deixava de lado", afirma.
    Um território "muito livre" em que "você tem um chefe mais ousado do que você e por isso pode pirar", diz Marina Person, que trabalhou na MTV de 1993 a 2011, definindo sua experiência no canal.
    Ao gravar o "My MTV", Marina afirma ter se emocionou em dois momentos, mas acha que conseguiu evitar a pieguice. "Deu aquele marejar nos olhos, mas não chorei. A gente tira sarro da própria emoção, da cafonice."
    Embora se emocione nos bastidores das gravações, Goes não quer que as lágrimas deem o tom da despedida da MTV Brasil.
    "Não pode ser triste, para baixo. É só um sinal dos tempos", diz ele. "Essa MTV não cabe mais. Os tempos mudaram. Vamos celebrar o fato de a gente ter estado num lugar como esse e produzido tantas coisas legais."
    Para Didi Wagner, que ficou de 2000 a 2005 no vídeo na MTV e hoje está no Multishow, evitar o "chororô" não foi difícil. "Não consigo olhar isso como a morte da MTV. Ela vai continuar, só não do jeito que eu conheci", afirma.
    Sarah Oliveira, que começou a trabalhar na MTV aos 20 anos, em 1999, e saiu de lá em 2005, diz que foi "muito emocionante" se ver "piveta" nas imagens de arquivo.
    "Fiquei feliz que a MTV esteja indo para canal fechado. Sou de canal fechado [GNT]. A gente tinha que fazer um apelo para a Sky e a Net serem mais baratas, para a molecada poder assinar", diz.
    A expansão da TV por assinatura no Brasil é um dos sinais do tempo a que Goes se refere. Assim como a crescente importância da internet e a concomitante irrelevância do clipe para a TV.
    Nesse cenário, os antigos VJs foram deixando a MTV, em busca de novos caminhos e mais remuneração.
    "A política da casa com os artistas não era viável. Eles tratavam a gente que nem lixo, para a gente não ficar metido. Eu fiquei oito anos com o mesmo salário", diz João Gordo, que trabalhou na MTV de 1996 a 2009.
    Em tempo: Goes ainda não definiu qual será o último clipe da MTV Brasil. mas Astrid tem uma certeza: "Tem que ser uma coisa festiva!"
    OPINIÃO
    Boa parte do que foi produzido merece preservação e aplauso
    ZECA CAMARGOESPECIAL PARA A FOLHA
    A MTV Brasil está morta! Viva a MTV Brasil! O clima não é especialmente de comemoração --especialmente para as pessoas que começaram a ser desligadas agora do canal.
    Descontando os poucos que estão lá desde o início (e lá se vão quase 23 anos!), esta já deve ser a quarta ou quinta geração de jovens que entraram lá acreditando no sonho de fazer uma televisão diferente, dedicada exclusivamente a um público: eles mesmos.
    Eu, que fiz parte da primeira dessas gerações, sei bem o que significa isso. E consigo talvez entender a decepção e a frustração de ver uma janela de oportunidades criativas como essa se fechar.
    Mas às vésperas de o canal se transformar em apenas um grande arquivo musical --na melhor das hipóteses-- é interessante notar que boa parte do que a MTV Brasil criou esses anos todos merece, sim, ser revista e preservada. Até mesmo aplaudida.
    Com a "distância histórica" de quem saiu de lá há 19 anos, posso reconhecer essa relevância sem nostalgia nem desdém. Porque mais de uma ideia plantada pela MTV Brasil germina até hoje num programa aqui ou noutro acolá.
    A tal ponto que esse encerramento das atividades me faz achar que o canal é, de certa forma, vítima do próprio sucesso: você não precisa hoje ligar na MTV hoje para ver MTV --ela está no meio de nós.
    Com a relevância do próprio videoclipe em xeque pela acessibilidade da música hoje em dia --que faz a própria ideia de um programa de estreia de vídeo (um dos carros-chefes da programação inaugural da MTV do meu tempo) parecer não só romântica, como obsoleta--, a saída, tanto aqui quanto em outras MTV pelo mundo, foi apostar em formatos alternativos.
    A própria MTV americana hoje é mais conhecida por seus reality shows do que por sua exuberância musical --onde sua premiação anual, o Video Music Awards, ainda é uma feliz exceção.
    Sempre inquieta, nossa versão do canal, desde um bom tempo, vinha apostando no humor e, curiosamente, na dramaturgia (o bom seriado "A Menina sem Qualidades" representando o último suspiro dessa vertente). Mas, aparentemente, até mesmo essa fonte se esgotou.
    O que fica então é o legado da diferença --este sim, imortal. Pois, por longos e longos anos, cada criador que ousar um pouco mais na concepção de um novo programa vai estar fazendo uma pequena homenagem à MTV Brasil. Mesmo sem se dar conta disso...
    Novo canal não terá transgressão, afirma ex-diretor
    KEILA JIMENEZCOLUNISTA DA FOLHA
    Transição, troca de bastão, novo capítulo de uma história? Para André Mantovani, diretor-geral da MTV Brasil por quase dez anos, o canal que migra em outubro para a TV paga pode vir a ser tudo, menos a continuidade da trajetória que começou em 1990.
    Hoje consultor de negócios, Mantovani diz estar de luto porque a MTV Brasil, do jeito que a gente conhece, morrerá de vez em setembro.
    "O canal da Viacom será uma MTV americana com uma hora de programação nacional por dia para cumprir as cotas da lei da TV paga", disse à Folha.
    "A MTV Brasil chegou a ter seis horas diárias de programação original, com identidade, que apostava em talentos", afirmou. "Vem aí algo só com o mesmo nome. A MTV Brasil acabou."
    Segundo ele, que acompanhou as polêmicas e os anos áureos do canal, o novo paciente terminal da TV recebeu o seu diagnóstico há três anos e desde então busca uma cura milagrosa, sem sucesso.
    "Em 2010, quando deixei o canal, já havia a sinalização que era necessário mudar, investir. Ali, a Abril [proprietária da concessão, que licenciava a marca da Viacom] deixou claro que não levaria a MTV adiante", conta.
    "Esse é um direito legítimo do Grupo Abril, o de não mais investir em TV. Entendo a decisão deles. Mas é triste ver uma história tão bacana acabar assim", diz Mantovani.
    Para o ex-diretor, todo esse confete em torno do retorno da marca para a Viacom esconde o fim de uma história de transgressão e inovação na televisão brasileira.
    "Fizemos o primeiro beijo gay de língua da TV brasileira, mandamos desligar a TV e ir ler um livro, revelamos muita gente bacana", conta o executivo, que também coleciona alguns atritos no meio televisivo, como a briga com a Globo pelos direitos do acústico de Roberto Carlos, em 2001.
    "Quando a Band levou o Marcos Mion, invadimos a emissora com um mandado de segurança para impedir a exibição do programa dele. Ele copiou quadros da MTV", afirma, rindo.
    Mas o "pode quase tudo" da MTV também teve o seu freio. Mantovani conta que pediu expressamente para a turma do humorístico "Hermes e Renato" não exibir nenhuma genitália no ar. "Nem as deles, nem de plástico."
    Com tantas memórias e lendas do canal musical, como a de que fazia macumba para todos os ex-VJs quebrarem a cara em suas novas empreitadas na TV --ele nega, mas se diverte com a história-- Mantovani quer se despedir da MTV Brasil com estilo.
    Ele planeja uma grande festa com ex-funcionários, indústria fonográfica e quem mais fez parte da história do canal.
    Vão beber o morto? "Não. Vamos celebrar a trajetória de sucesso, o orgulho que nos dava trabalhar lá."

    'Amanhã vamos pra rua fazer uma anarquia' Ronie bem louco - Rodrigo Levino

    folha de são paulo
    Ronnie bem louco
    Fracassos nos anos 1960, discos da fase psicodélica de Ronnie Von são relançados, agora como cult e experimentais
    (RODRIGO LEVINO)DE SÃO PAULOO disco fracassou? Viva o disco fracassado! Longe de ser uma regra, não é raro ver essa lógica aplicada na música pop: discos mal recebidos por crítica e público e que anos mais tarde são redescobertos têm sua importância reavaliada e se tornam "cult".
    De Lou Reed ("Metal Machine Music", 1975) a Nick Drake ("Pink Moon", 1972), passando por Tom Zé, os exemplos são muitos.
    Ronnie Von, 69, é um entendido desse riscado.
    "Foi um fiasco desses antológicos. Disseram que era o fim da minha carreira", contou ele à Folha, sobre os discos "Ronnie Von", de 1968, "A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais", de 1969, e "A Máquina Voadora", de 1970.
    Relançados em vinil, os títulos estavam fora de catálogo desde os anos 1970. Nesse meio tempo, se tornaram item de colecionador --edições originais podem custar US$ 300 (cerca R$ 690) em sites como o eBay.
    O motivo que explica o renascimento dos álbuns é o mesmo que serviu para decretar seu fracasso: ousadia.
    Musicalmente, a trilogia era alicerçada em psicodelia (um conceito distante para jurados de Flavio Cavalcanti, que apresentava o principal programa de calouros da época), muito colada em "Revolver" (1966), dos Beatles, e "If Only for a Moment", do grupo britânico Blossom Toes.
    Nas letras, havia anjos que andavam de bicicleta no céu e viagens em naves fenícias. Junto disso, arranjos que juntavam guitarras elétricas e orquestrações vertiginosas.
    "Acho que ele queria, sobretudo, romper de vez a rivalidade com Roberto Carlos", disse Alberto Sacomani, produtor dos três discos.
    À época, "rei" e "príncipe", como eram chamados, apresentavam cada um seus programas de TV. De um lado, os bambas do iê-iê-iê, do outro, Ronnie e os tropicalistas.
    O distanciamento se completou com esses discos. Enquanto Roberto Carlos cantava "é ciúme, ciúme de você", Ronnie Von ia de "pois amanhã vamos pra rua fazer/ fazer uma tremenda anarquia".
    "Público, gravadora, rádios: ninguém entendeu nada", disse ele, que até hoje jura ter gravado toda aquela loucura de cara limpa.
    "Ficávamos do meio-dia às cinco da manhã no estúdio. O esquema dos arranjos era criou-gravou, não tinha isso de pré-produção. A gente era meio inconsequente", contou rindo Sacomani.
    O primeiro disco da trilogia, aliás, foi gravado durante um mês em que a gravadora esteve sem diretor. Tremenda anarquia.
    André Midani, o novo chefe, bancou o arroubo a despeito das vendas pífias e dos custos de gravação.
    No detalhe, os discos representavam também a aproximação definitiva entre Ronnie Von e os tropicalistas, com quem ele já gravara dois discos --com os Mutantes e com Caetano Veloso.
    Damiano Cozzela, parceiro de Rogério Duprat (1932-2006) e Julio Medaglia, arquitetos de importantes arranjos da Tropicália, se encarregou de "transformar em música os quadros de Salvador Dalí" com suas orquestrações, segundo Ronnie.
    Antes de afundar a própria carreira, o cantor voltou às paradas com músicas mais palatáveis como "Banda da Ilusão" (1973).
    Ficou um arrependimento. "A verdade é que eu não deveria ter me afastado da Tropicália. Foi coisa de gravadora, gente dizendo ah, isso aí não dura muito'. Mas acho que foi uma ousadia que dá orgulho", diz.
      PROFECIA
      'Amanhã vamos pra rua fazer uma anarquia'
      Lançada em 1969, a música "Anarquia" poderia servir de trilha para as manifestações recentes, com versos como "quem manda hoje somos nós, mais ninguém" e "não ligamos pra quem vai/ nem quem vem atrapalhar". "A motivação da minha geração era outra, mas o paralelo faz muito sentido", diz Ronnie.

        Ferreira Gullar

        folha de são paulo
        A magia da figura
        A figura quase desapareceu da arte, porque virou mancha ou foi substituída pela própria coisa
        Já no começo do começo, a arte tinha duas faces: uma figurativa e outra não figurativa ou decorativa, sendo que a primeira expressava nosso fascínio pela imagem da coisa real que, para o homem do paleolítico, não era simples imagem e, sim, um outro modo de ela existir.
        Tanto pensava assim que, ao desenhar um bisão na parede da caverna, crava-o de setas, certo de que, com isso, magicamente, atingiria o bisão real e facilitaria caçá-lo.
        Naturalmente, com a evolução do conhecimento objetivo da realidade, essa identificação da imagem com o ser real se desfez; não obstante, até hoje aquele fascínio se mantém, tendo atravessado as mais diversas civilizações e conceitos de realidade e cultura.
        É isso que explica a presença da expressão figurativa nas pinturas murais, nos relevos e nas esculturas, representando o mundo imaginário dos mitos e dos deuses.
        Já bem mais perto de nós, no renascimento, a representação da figura humana tenta ultrapassar a fantasia para captar a realidade mesma em sua materialidade. Disso resultou, na verdade, outro tipo de fantasia, pelo simples fato de que a representação da coisa não é a coisa.
        Data daí o que se entende por arte da pintura no mundo ocidental e que ampliou a representação das formas e coisas para criar cenas, paisagens e representação de fatos mitológicos, históricos e cotidianos.
        Nesse processo, elaborou-se uma linguagem que, além de representar seres e cenas, criou uma espécie de espaço fictício, que emprestou tridimensionalidade à superfície bidimensional da tela.
        Esse universo pictórico é implodido no começo do século 20, quando, ao desintegrar-se a linguagem figurativa, ocorreu uma descoberta revolucionária: a de que todas as formas têm expressão, mesmo que nada representem; por exemplo, um pedaço de papel amassado é uma expressão e, conforme a cor que tenha, será uma expressão diferente.
        Essa descoberta teve consequências importantes no campo das artes plásticas. Dela advieram as tendências expressionistas, cubistas e, como consequência extrema, a pintura tachista que, como diz o nome, é feita de manchas.
        De todo esse processo --que descrevo de maneira simplificada-- surgiria o que se conhece como arte conceitual ou arte contemporânea, cuja característica principal é usar as próprias coisas, não a imagem delas, como expressão.
        Claro que as coisas --seja uma pessoa, um animal, um objeto-- são em si mesmos expressões. Isso vale tanto para um objeto natural --um animal, uma pedra-- como para um produto industrial. Tal é o caso do famoso urinol que Marcel Duchamp enviou para a exposição de Nova York, em 1917, tendo-lhe posto um nome ("Fontaine") e uma assinatura fictícia (R. Mutt).
        Sucede que, por isso mesmo, essa "obra" não tem a magia do objeto de arte ou, se a tem, está oculta por sua condição natural ou por sua finalidade utilitária que, no exemplo citado, nada tem de mágico ou poético, muito pelo contrário. Para lhe devolver o significado mágico, há que deslocá-lo da situação habitual, da sua funcionalidade. Quem descobriu isso foi Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont, ao escrever em "Les Chants de Maldoror", o seguinte: "belo como o encontro fortuito de uma máquina de costura ou um guarda-chuva sobre uma mesa de necrotério".
        Claro, se ponho um objeto qualquer numa situação inusitada, torno-o "desconhecido" e, por isso, mostro-lhe a forma que se apresenta estranha. Sucede que esse é um efeito circunstancial e fugaz, já que, em seguida, a surpresa se desfaz e o guarda-chuva volta a ser mero guarda-chuva, como o urinol de Duchamp de há muito voltou a ser mero urinol, enquanto que a magia da imagem pictórica é permanente, porque inata, essencial.
        Uma natureza morta de Morandi, por exemplo, mantém essa magia, esteja o quadro onde estiver. Transformadas em pintura, suas garrafas jamais voltarão a ser meras garrafas.
        Enfim, só nos resta constatar que a figura quase que desapareceu da linguagem da arte, ou porque virou mancha ou porque foi substituída pela própria coisa. Não obstante, a imagem figurativa, que nasceu com o ser humano nas cavernas, não morreu: renasceu, faz pouco, nos muros das cidades, à revelia do mercado de arte e graça ao talento dos jovens grafiteiros.